Meditação para o 11º Domingo depois do Pentecostes. Cura Milagrosa

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Marcos 7, 31-37

Naquele tempo, 31tornando a sair da região de Tiro, veio por Sídon para o mar da Galileia, atravessando o território da Decápole. 32Trouxeram-lhe um surdo tartamudo e rogaram-lhe que impusesse as mãos sobre ele.

33Afastando-se com ele da multidão, Jesus meteu-lhe os dedos nos ouvidos e fez saliva com que lhe tocou a língua. 34Erguendo depois os olhos ao céu, suspirou dizendo: «Effathá», que quer dizer «abre-te.» 35Logo os ouvidos se lhe abriram, soltou-se a prisão da língua e falava correctamente.

36Jesus mandou-lhes que a ninguém revelassem o sucedido; mas quanto mais lho recomendava, mais eles o apregoavam. 37No auge do assombro, diziam: «Faz tudo bem feito: faz ouvir os surdos e falar os mudos.»

Meditação para o 11º Domingo depois do Pentecostes

SUMARIO

Interromperemos as nossas meditações sobre a humildade para meditar sobre o Evangelho do dia. Este Evangelho apresenta-nos duas coisas notáveis:

1.° Uma cura milagrosa obrada por Jesus Cristo;

2.° Um belo elogio, que fazem do Salvador as testemunhas deste milagre.

— Da meditação destes dois pontos, deduziremos a resolução:

1.° De abrirmos os nossos ouvidos à graça e de vigiarmos sobre a nossa língua para não pecar por palavras;

2.º De procurarmos aperfeiçoar as nossas ações ordinárias.

O nosso ramalhete espiritual será a palavra que os povos, segundo refere o nosso Evangelho, diziam de Jesus Cristo:

“Ele tudo tem feito bem” – Bene omnia fecit (Mc 12, 37)

Meditação para o Dia

Adoremos Jesus Cristo saindo dos confins de Tiro, passando por Sidônia, e indo ao mar da Galileia. Ó! Quão santa foi esta viagem! Fazia-o por beneplácito de Deus (1), para praticar a caridade; ia curar um surdo e mudo, e serviu-lhe de norma uma divina modéstia. Ó meu Deus, concedei-me a graça de fazer assim todas as minhas viagens, e de me edificar com tudo o que se passa na Vossa.

PRIMEIRO PONTO

Milagrosa cura obrada por Jesus Cristo

Assim que Jesus Cristo chegou ao termo da sua viagem, trouxeram-Lhe um surdo e mudo para que o curasse. Ó caridade do Salvador! Cura-o imediatamente, metendo-lhe os dedos nos ouvidos, e pondo-lhe da Sua saliva sobre a língua, mas dando ao mesmo tempo um suspiro, e levantando os olhos ao céu (2). Quanto mais dignos são dos nossos gemidos e lágrimas, esses surdos e mudos espirituais, que cobrem a terra, surdos que têm os ouvidos do coração fechados às inspirações da graça, aos remorsos da consciência, à palavra de Deus, às santas leituras, aos bons exemplos; mudos que não oram, ou oram mal, que se calam nas sociedades, quando a glória de Deus exigiria que falassem, já para impor silêncio à língua que blasfema, que ataca a religião, ofende a caridade e o pudor, já para intrometer algumas palavras edificantes em uma conversação toda mundana. Ai de mim! Não sou eu do número desses surdos e mudos? Ó Jesus, dizei aos meus ouvidos nas minhas meditações, nas minhas leituras, ou quando eu assistir à vossa santa palavra: Ephpheta, isto é: Abri-vos; e falai depois, Senhor; o vosso servo vos ouvirá (3). Abri o meu coração, como abristes o dessa mulher de Filipes, que São Paulo evangelizava (4). Soltai a prisão da minha língua, como soltastes a do mudo do nosso Evangelho, para que vos fale de Vossa glória, Vos exalce e louve; para que Vos exponha as minhas misérias e chame sobre elas a Vossa misericórdia; para que fale ao próximo de tudo o que pode edificá-lo e trazê-lo para Vós. Mas principalmente, Senhor, governai a minha língua, origem da maior parte das minhas culpas, para que se abstenha de toda a maledicência ou vaidade, de tudo o que pode vexar os outros, ofender o pudor ou a religião, escandalizar ou induzir ao mal, e que, ao contrário, sirva para edificar, exortar a tudo o que é bem, e para consolar os aflitos (5).

SEGUNDO PONTO

Belo elogio que fazem de Jesus as testemunhas deste milagre

Ele tudo tem feito bem (6), exclamaram as testemunhas da cura que acabamos de meditar. Admirável palavra, elogio o mais belo que se possa fazer de Jesus Cristo; é o elogio de Deus e da sua adorável Providência. Cumpre-nos repeti-lo no meio das revoluções e acontecimentos do mundo, que não podemos compreender. Vendo desabar os impérios, perecer as famílias, prevalecer o crime e a impiedade, espezinhar a religião e o bom direito, devemos dizer: A Providencia preside a tudo; não compreendemos os seus secretos desígnios; mas sem os compreender, devemos respeitá-los, amá-los, louvá-los, e reconhecer que Deus tudo tem feito bem. Devemos aplicar a nós mesmos esta palavra, não no sentido de que tudo façamos bem como Deus, mas para nos lembrarmos, nas nossas obras, que toda a nossa santidade consiste em fazê-las bem; que a perfeição das nossas ações ordinárias é o que Deus exige de nós, e que buscar em outra parte a virtude seria uma deplorável ilusão.

Resoluções e ramalhete espiritual como acima

Referências:

(1) Quae placita sunt ei facio semper (Jo 8, 29)

(2) Suscipiens in caelum ingemuit (Mc 7, 34)

(3) Loquere, Domine, quia audit servus tuus (1Rs 3, 9)

(4) Cujus Dominus aperuit cor intender his quae dicebantur a Paulo (At 16, 14)

(5) Ad aedificationem et exhortationem (1Cor 14, 3)

(6) Bene omnia fecit

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(HAMON, Monsenhor André Jean Marie. Meditações para todos os dias do ano: Para uso dos Sacerdotes, Religiosos e dos Fiéis. Livraria Chardron, de Lélo & Irmão – Porto, 1904, Tomo VI, p. 84-87)