Meditação para o 6º Domingo depois do Pentecostes. Confiança na Providência

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Marcos 8, 1-10

1Naqueles dias, havia outra vez uma grande multidão e não tinham que comer. Jesus chamou os discípulos e disse: 2«Tenho compaixão desta multidão. Há já três dias que permanecem junto de mim e não têm que comer. 3Se os mandar embora em jejum para suas casas, desfalecerão no caminho, e alguns vieram de longe.» 4Os discípulos responderam-lhe: «Como poderá alguém saciá-los de pão, aqui no deserto?» 5Mas Ele perguntou: «Quantos pães tendes?» Disseram: «Sete.»

6Ordenou que a multidão se sentasse no chão e, tomando os sete pães, deu graças, partiu-os e dava-os aos seus discípulos para eles os distribuírem à multidão. 7Havia também alguns peixinhos. Jesus abençoou-os e mandou que os distribuíssem igualmente. 8Comeram até ficarem satisfeitos, e houve sete cestos de sobras. 9Ora, eram cerca de quatro mil. Despediu-os 10e, subindo logo para o barco com os discípulos, foi para os lados de Dalmanuta.

Meditação para o 6º Domingo depois de Pentecostes

SUMARIO

Meditaremos sobre o Evangelho do dia, e ali aprenderemos:

1.° A confiar na Providência;

2.° A cooperar com ela.

— Tomaremos a resolução:

1.° De ver, adorar, e honrar a Providência em todos os acontecimentos da vida;

2.° De nunca sucumbir à angustia e inquietação, ainda menos ao murmúrio, aos revezes ou contratempos.

Conservaremos como ramalhete espiritual a palavra de Nosso Senhor no Evangelho  deste dia, que nos recorda a ternura da Providência para conosco:

“Tenho compaixão deste povo” – Misereor super turbam (Mc 8, 2)

Meditação para o Dia

Adoremos Nosso Senhor seguido no deserto pelo povo que, confiado na onipotente providência do seu divino Salvador, nenhum cuidado tem no seu alimento. Admiremos como Ele justifica a confiança deste bom povo, Se compadece das suas necessidades, e o socorre com o milagre da multiplicação dos pães. Tributemos-Lhe todos os nossos respeitos neste intuito.

PRIMEIRO PONTO

Da Confiança na Providência

Consideremos, que nada se faz no mundo sem que Deus o queira ou permita. Só Ele dirige tudo com infinita sabedoria, com uma força irresistível e uma bondade mais que paternal; a ponto que nem um só cabelo cai da nossa cabeça sem a Sua permissão (1). A vossa providência, Pai celestial, governa tudo (2), diz o livro da sabedoria; e avaliar fora desta providência os acontecimentos do mundo, as revoluções que se efetuam nas famílias, nas cidades e nos estados, na Igreja e em todo o universo, seria avaliar as coisas como pagão. Além desta providência geral, Deus tem uma providência especial para os que O amam. Vigia sobre eles com particular atenção e ternura, como sobre Seus amigos prediletos, Seus filhos arriados, e mostra-Se para com eles cheio de amor e de bondade (3). De onde se segue, que não confiar plenamente na Sua providência, é desconhecer o Seu poder, que pode tudo; a Sua bondade, que nos deseja toda a sorte de bens; a Sua sabedoria, cujas luzes são sempre admiráveis. Muitas vezes as Suas razões são-nos desconhecidas, os Seus desígnios escapam à nossa curta vista; mas o que não sabemos agora na terra, o saberemos depois no céu (4), onde cantaremos, que Deus tudo tem feito bem (5). Entretanto, vivamos com resignação e confiança. Esta resignação será para nós uma fonte de paz e de consolação. Persuadidos de que Deus cuida de nós, viveremos descansados; e considerando-nos como filhos amados nos braços do melhor dos Pais, diremos conosco:

Para que ei de inquietar-me? Para que ei de afligir-me? Ainda quando os meios humanos me faltem ou os homens me sejam adversos, alegrar-me-ei por ter ocasião de me entregar nas mãos da Providência e de confiar nos seus benefícios. Ainda quando eu tenha pecado, terei confiança em Deus, porque é o Pai do pródigo arrependido, e prometeu perdoar ao publicano, que se humilha. Por conseguinte devo sempre confiar em Deus, sem me inquietar nem esmorecer.

SEGUNDO PONTO

Da Cooperação com a Providência

Deus não quer que a nossa confiança na Sua providência seja ociosa. Quer que lhe prestemos a nossa concorrência, e que sejamos os Seus cooperadores, os Seus ajudantes, os Seus braços (5). Quanto ao que nos respeita pessoalmente, quer que façamos tudo o que depender de nós, esperando o bom resultado, não dos nossos esforços, mas da Sua bondade; e quanto ao que respeita ao próximo, quer que sejamos afáveis, compassivos, caridosos, dignos instrumentos do Seu desejo de fazer bem aos homens. Ditosos os que, entrando neste desígnio de Deus, diligenciam fazer ao próximo todo o bem que podem, e mostrar-se em tudo como Jesus Cristo, cheios de compaixão para com todos aqueles a quem podem prestar serviços! Terão a felicidade, no último dia, de ouvir da boca do supremo Juiz estas doces palavras:

“Vinde, benditos de meu Pai, possuir o reino que vos está preparado desde o princípio do mundo: porque tive fome, e destes-me de comer; tive sede, e destes-me de beber” (Mt 25, 34-36)

Cooperamos nós assim com a Providência, seja com relação a nós, seja com relação ao próximo? Que exprobrações não temos a fazer a nós mesmos a este respeito?

Resoluções e ramalhete espiritual como acima

Referências:

(1) Et capillus capitis vestri non peribit (Lc 21, 18)

(2) Tua, Pater, providentia gubernat (Sb 14, 3)

(3) Dives in omnes qui invocant illum (Rm 10, 12)

(4) Nesci modo, scies autem postea (Jo 13, 7)

(5) Bene omnia fecit (Mc 7, 37)

(6) Dei enim sumus adjutores (1Cor 3, 9)

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(HAMON, Monsenhor André Jean Marie. Meditações para todos os dias do ano: Para uso dos Sacerdotes, Religiosos e dos Fiéis. Livraria Chardron, de Lélo & Irmão – Porto, 1904, Tomo III, p. 255-258)