Meditação para o 6º Domingo depois da Epifania. A Misericórdia de Deus

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus 13, 31-

Naquele tempo, Jesus propôs-lhes outra parábola: «O Reino do Céu é semelhante a um grão de mostarda que um homem tomou e semeou no seu campo. É a mais pequena de todas as sementes; mas, depois de crescer, torna-se a maior planta do horto e transforma-se numa árvore, a ponto de virem as aves do céu abrigar-se nos seus ramos.»

Jesus disse-lhes outra parábola: «O Reino do Céu é semelhante ao fermento que uma mulher toma e mistura em três medidas de farinha, até que tudo fique fermentado.»

Tudo isto disse Jesus, em parábolas, à multidão, e nada lhes dizia sem ser em parábolas.

Deste modo cumpria-se o que fora anunciado pelo profeta:

Abrirei a minha boca em parábolas e proclamarei coisas ocultas desde a criação do mundo.

Meditação para o 6º Domingo depois da Epifania

SUMARIO

Meditaremos sobre o Evangelho do dia, que nos mostra um grão de mostarda transformado em uma grande árvore, e um pouco de fermento, que leveda toda a massa.

1.º Admiraremos, nesta parábola, a misericórdia de Deus que, abaixando-Se até à nossa fraqueza, faz por ela, quando Lhe apraz, as maiores coisas;

2.° Aprenderemos do exemplo de Deus a ser homens de misericórdia, que não menosprezam nenhuma miséria nem fraqueza.

— Tomaremos depois a resolução:

1.° De expulsarmos de nosso coração todos os pensamentos de desanimação e de tristeza, como uma ofensa das divinas misericórdias;

2.° De suportarmos os defeitos de próximo por espírito de paciência e de caridade.

O nosso ramalhete espiritual será a palavra de Nosso Senhor:

“Sede misericordiosos como também vosso Pai é misericordioso” – Estote misericordes, sicut et Pater vester misericor est (Lc 6, 36)

Meditação para o Dia

Adoremos o coração tão terno e compassivo, tão misericordioso e tão bom de Nosso Senhor. Nós somos nada diante de Sua infinita majestade, menos do que um grão de mostarda, que não é senão um grão de pó, menos do que um pouco de fermento misturado na massa; porém, por mais pequenos que sejamos, as Suas misericórdias descem até à nossa baixeza, para nos elevar até aos céus, onde nos preparou um trono no meio dos Seus anjos e santos.

Poderemos nós jamais admirar, louvar e amar bastantemente tanta misericórdia?

PRIMEIRO PONTO

Entre todas as perfeições de Deus devemos honrar
especialmente a Sua misericórdia

Certamente todas as perfeições de Deus são excelentes, pois que são infinitas; mas a misericórdia tem isto de particular:

1.° Que nos é mais conhecida: resplandece em todas as Suas obras, é ela que tem feito tudo (1);

2.° Que tem um especial encanto para o coração: adoramos a majestade, tememos a justiça; mas não podemos senão amar a misericórdia, e comprazermos-nos nela: quadra tão perfeitamente à nossa miséria!

3.° Que aproxima Deus de nós e nos une a Ele. As outras perfeições de Deus parecem afastar-se de nós infinitamente; mas a Sua misericórdia, precisamente porque é infinita, desce até nós e conserva o seu trono sobre o abismo das nossas misérias. É ali que o Espírito Santo nos ensina a honrá-lO (2). Louvai ao Senhor, nos diz Ele, porque Ele é bom; porque a Sua misericórdia se estende a todos os séculos (3).

Por isso Jesus Cristo nos apresenta Deus na figura de um Pai cheio de ternura, até para com o Seu filho pródigo, ou de um pastor que corre atrás da ovelha desgarrada; e os Apóstolos no-lo mostram principalmente como o Pai de misericórdia e o Deus de toda a consolação (4). É porque efetivamente nós devemos tudo à misericórdia de Deus, quer na ordem da natureza, quer na ordem da graça: o ser de que gozamos, o ar que nos faz viver, o sol que nos alumia, a comida que nos sustenta, a nossa redenção, a Igreja, os Sacramentos, e o beneficio de uma educação cristã. A misericórdia previne-nos e ama-nos ainda quando a não amamos; busca-nos ainda quando a evitamos (5); acompanha-nos, quando queremos fazer bem com ela (6), e nos coroa depois de o termos feito (7). É uma mãe que nos acompanha por toda a parte, nos sustem ou nos levanta quando caímos, nos nutre ora com o leite da consolação, ora com o sólido pão da tribulação.

Oh! Quanta razão tem o profeta-rei para cantar continuamente nos seus salmos as misericórdias divinas; e achando o tempo de sua vida muito curto para satisfazer o seu coração a respeito de um assunto tão belo, espera cantá-las por toda a eternidade! (8). Imitemo-lo e tenhamos como ele uma especial devoção às misericórdias de Deus. Lancemo-nos impavidamente e às cegas neste abismo de bondade, com uma confiança sem limites. É lá que o coração se dilata, que o ânimo renasce, que a esperança com a sua paz e a sua suave alegria nos enche de felicidade (9).

SEGUNDO PONTO

Devemos ser homens de misericórdia

O primeiro objeto da nossa misericórdia deve ser a nossa própria alma. Compadeçamo-nos dela, e não a percamos descuidando-nos de trabalhar na nossa salvação. Condoamo-nos das suas misérias, e não as agravemos tornando-as incuráveis por um amor-próprio que se aflige de se ver miserável. Não nos admiremos de ter errado, sendo tão miseráveis como somos; admiremo-nos antes de não ter errado mais; agradeçamo-lo a Deus, cuja graça nos reteve e continuemos a fazer bem com plena confiança e grande desejo de reparar o passado com o presente. — Devemos:

1.° Ser homens de misericórdia para com o próximo: o pobre, o enfermo, o aflito, a viúva e o órfão devem sempre achar em nós entranhas de misericórdia, uma voz que os console, uma mão que os alivie (10).

2.º As injustiças e os defeitos dos outros devem ainda mais achar em nós uma misericórdia que não somente os suporte com mansidão, bondade, paciência e compaixão para com a fraqueza humana (11), mas também que trabalhe em os fazer voltar para o bem com toda a brandura e prudência. Oh! Quão dignos de lastima são os pobres pecadores! Quanto nos devemos compadecer da sua cegueira, da sua má índole, dos seus preconceitos e das suas paixões! Os homens de misericórdia serão abençoados por Deus e pelos homens (12).

Examinemos aqui a nossa consciência: somos verdadeiramente homens misericordiosos?

Resoluções e ramalhete espiritual como acima

Referências:

(1) Misericordia Domini plena est terra (Sl 32, 5)

(2) Misereatur et misericors Dominus; longanimis et multum misericors (Sl 102, 8)

(3) Confitemini Domino, quoniam bonus, quoniam in saeculum misericordia ejus (Sl 105, 1)

(4) Pater misericordiarum et Deus totius consolationis (2Cor 1, 3)

(5) Misericordia ejus praeveniet me (Sl 63, 11)

(6) Misericordia tua subsequetur me (Sl 22, 6)

(7) Coronat te in misericordia et miserationibus (Sl 102, 4)

(8) Misericordias Domini in aeternum cantabo (Sl 88, 2)

(9) Sperantem in Domino misericordia circumdabit (Sl 31, 10). Ego autem in multitudine misericordiae tuae introibo in domum tuam (Sl 5, 8)

(10) Induite vos, sicut electi Dei, sancti et dilecti, viscera misericordiae (Cl 3, 12)

(11) Alter alterius onera portate, et sic adimplebitis legem Christi (Gl 6, 2)

(12) Qui pronus est ad misericordiam, benedicetur (Pr 22, 9)

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(HAMON, Monsenhor André Jean Marie. Meditações para todos os dias do ano: Para uso dos Sacerdotes, Religiosos e dos Fiéis. Livraria Chardron, de Lélo & Irmão – Porto, 1904, Tomo I, p. 293-296)