Meditação sobre a Fidelidade dos Magos é Graça

SUMARIO

Meditaremos na fidelidade dos magos à graça que os chama; e veremos que a sua fidelidade é:

1.° Pronta;

2.° Generosa;

3.° Fervorosa.

— Tomaremos depois a resolução:

1.° De obedecer com prontidão, generosidade e fervor a todas as inspirações da graça;

2.° De nos conservarmos muitas vezes mentalmente com os magos diante do presépio, unindo a nossa adoração e o nosso amor à sua adoração e ao seu amor.

O nosso ramalhete espiritual será a mesma palavra desses piedosos reis:

“Nós vimos, e viemos” – Vidimus… et venimus (Mt 2, 2)

Meditação para o Dia

Adoremos Jesus Cristo enviando do fundo do Seu presépio a Sua estrela e a Sua graça aos magos, uma para lhes falar aos olhos, outra para lhes falar ao coração, dar-lhes o conhecimento do fenômeno e atrair-lhes a vontade em Seu seguimento. Admiremos a sua fidelidade em responder ao chamamento da graça, e proponhamo-nos imitá-los.

PRIMEIRO PONTO

A Fidelidade dos Magos foi Pronta

Logo que viram a estrela milagrosa, partem sem hesitar, sem diferir para o dia seguinte, sem dizer: Iremos.

“Nós vimos, e viemos” – Vidimus… et venimus (Mt 2, 2)

Postos a caminho, não se afastam nem para a direita nem para a esquerda, não se detêm em nenhuma parte, vão diretamente aonde a graça os chama. Empregamos nós esta prontidão em obedecer às inspirações da graça, aos bons conselhos ou aos bons exemplos que nos são dados? Não diferimos para outro tempo a emenda dos nossos defeitos, formando projetos para o futuro e não executando nenhum? Não nos detemos no caminho com uma alternativa contínua de bem e de mal, de conversões e de recaídas?

SEGUNDO PONTO

A Fidelidade dos Magos foi Generosa

Opõem-se à sua partida os maiores obstáculos. Eram reis, se dermos credito à tradição: como deixam eles o seu reino? Eram sábios do Oriente, dizem alguns: como arriscar a sua reputação com um procedimento que o público taxará de loucura? Depois a estrela vai conduzi-los a um país remoto e desconhecido. Quantas fadigas a superar! Quantos perigos a correr! Nada detém estes generosos viajantes. Quando se ama e se pertence inteiramente a Deus, anda-se pare diante sem tanto discorrer. Põem-se, pois, a caminho, e depois de uma longa viagem, chegam a Jerusalém. Ali, novo obstáculo; a estrela desaparece. Não é no meio do mundo que se acha a graça que nos guia. Já não sabem, pois, onde achar o Messias que eles buscam! Todavia, não desanimam. Quando não se sabe, consulta-se, Perguntam publicamente, e até na côrte de Herodes, onde está o Messias, Rei dos judeus, que é nascido? (1). Que coragem superior a todo o respeito humano, ao temor até do monarca desconfiado e cruel, que reina em Jerusalém! A esta pergunta, a sinagoga, interrogada por Herodes, responde que Belém é o lugar do seu nascimento. Imediatamente os magos se dirigem ao lugar que lhes foi indicado, e continuam a sua jornada até que hajam encontrado Jesus. Assim obra a alma generosa: vai para Deus, apesar dos obstáculos; sabe sofrer privações e incômodos, fazer o seu dever e deixar falar; quer Deus só e a Sua perfeição, e tem em conta de nada tudo o mais.

TERCEIRO PONTO

A Fidelidade dos Magos foi Fervorosa

Quem poderia dizer com que ânimo fizeram esta santa viagem, como conversavam a respeito da felicidade que os esperava no termo da sua jornada, como se animavam uns aos outros, como antecipavam com santos desejos o momento de se prostrarem diante do Deus recém-nascido, como, durante o desaparecimento da estrela, conservaram a sua coragem, bela imagem das almas fervorosas que não se deixam abater pelas provações, que ficam firmes nas trevas e na privação dos gozos sensuais? Quem poderia dizer quanto, tomando a ver a estrela, o seu coração se reanimou e abrasou? (2). É assim que recebemos a graça, quando a sua luz se nos apresenta? Oh! Se soubéssemos apreciá-la! (3). Finalmente os nossos bem-aventurados viajantes chegaram ao presépio, onde, longe de sentirem resfriar o seu fervor à vista de um lugar tão pobre, de uma tão pobre mulher, de tão pobres faixas, se sentem penetrados de admiração diante de tanta grandeza humilhada, de tantos esplendores encobertos, de tanta majestade restringida; e se prostram e adoram (4). Quantas piedosas reverências encerradas nesta adoração! Quantos respeitos, quanto amor, quanta alegria! Quanta admiração, quantos louvores e quantas ofertas! Oh! Que belos modelos para nós nas nossas orações ou diante do Santíssimo Sacramento!

Resoluções e ramalhete espiritual como acima

Referências:

(1) Ubi est qui natus est Rex judaeorum? (Mt 2, 2)

(2) Videntes stellam, gavisi sunt gaudio magno valde (Mt 2, 10)

(3) Si scires donum Dei! (Jo 4, 10)

(4) Et procidentes adoraverunt (Mt 2, 11)

Voltar para o Índice do Tomo I das Meditações Diárias de Mons. Hamon

(HAMON, Monsenhor André Jean Marie. Meditações para todos os dias do ano: Para uso dos Sacerdotes, Religiosos e dos Fiéis. Livraria Chardron, de Lélo & Irmão – Porto, 1904, Tomo I, p. 165-168)