Material para Instruções sobre a Heresia Espírita

Frei Boaventura, O. F. M

IMPRIMATUR
POR COMISSÃO ESPECIAL DO EXMO. E REVMO. SR. DOM MANUEL PEDRO DA CUNHA CINTRA,
BISPO DE PETRÓPOLIS. FREI LAURO OSTERMANN, O. F. M. PETRÓPOLIS, 13-IX-1954.

Neste segundo ciclo de instruções estudaremos a doutrina do Espiritismo, cotejando-a com a tradicional Doutrina Cristã tal como foi conservada pela Igreja e por ela a nós transmitida através dos séculos. Este confronto tem duas vantagens: Dá-nos o ensejo de repetir as principais verdades de nossa santa fé e ao mesmo tempo mostra aos ouvintes a evidentíssima e radical oposição entre a doutrina espírita e a Doutrina Cristã e, por conseguinte, permite-nos tirar sempre de novo a conclusão — em que importa insistir muito — de que é de todo em todo impossível ser ao mesmo tempo católico e espírita.

Na determinação da doutrina espírita inspiramo-nos diretamente nas obras dos maiores mestres do Espiritismo. E o principal deles, reconhecido e muito propagado pelos nossos espíritas, é Leão Hipólito Denizart Rivail (1804-1869), mais conhecido sob o pseudônimo de Allan Kardec. Foi ele, na verdade, quem compilou ou, como dizem, “codificou” a Doutrina Espírita. E para mostrar que as lucubrações de Allan Kardec continuam a ter plena atualidade nos meios espíritas nacionais, será suficiente transcrever algumas declarações do órgão oficial da Federação Espírita Brasileira (FEB), o Reformador de Setembro do corrente ano de 1953, em que, à p. 199, se diz com ufania:

“Graças à FEB, ao seu trabalho de propaganda, 99, 99% dos espíritas brasileiros aceitam a Doutrina de Kardec, incluída a realidade dos ensinamentos reencarnacionistas”; e mais: “Graças à FEB, aos trabalhos dos febianos, entre todos os países do mundo é o Brasil aquele que se acha mais kardequizado”; e ainda: “Graças à FEB, à propaganda que ela sempre desenvolveu em torno das obras de Kardec, o Brasil delas editou muitas e muitas vezes mais que a soma das edições lançadas por todos os países do mundo, e por preço sempre inferior, às vezes com 60% de diferença”; e afinal: “Graças à FEB, Allan Kardec e Chico Xavier estão penetrando em 80 países, através das suas edições em Esperanto”.

Basta isso para provar que, se quisermos conhecer a verdadeira doutrina espírita — esta que os nossos milhares de Centros espalhados pelo Brasil inteiro querem propagar “por todas as formas e meios possíveis” — é preciso recorrer sobretudo às obras de Allan Kardec. E porque com muita frequência devemos citar este nome, usaremos apenas as iniciais AK (Allan Kardec). Para facilitar as numerosas e inevitáveis citações dos livros de AK, em vez de repetirmos sempre de novo o título e a edição brasileira dos mesmos, indicaremos apenas um número romano (que corresponde às obras segundo a ordem cronológica em que foram publicadas pelo autor) com a respectiva página. Eis a lista dos livros e a ordem em que serão citados:

I. O Livro dos Espíritos (1857), 22ª edição brasileira;
II. O que é o Espiritismo (1859), 10ª edição brasileira;
III. O Livro dos Médiuns (1861), 20ª edição brasileira;
IV. O Evangelho segundo o Espiritismo (1864), 39ª edição brasileira;
V. O Céu e o inferno (1865), 16ª edição brasileira;
VI. A Gênese (1868), edição de 1949.
VII. Obras Póstumas, 10ª edição brasileira.

Assim, por exemplo, a citação VII, 240 quer dizer: Obras Póstumas, 10ª edição da Federação Espírita Brasileira, p. 240.

Além de AK citaremos ainda outros autores espíritas de competência reconhecida nos arraiais do espiritismo nacional, como Leão Denis, “o filósofo inconfundível do Espiritismo”, e Carlos Imbassahy, “o nosso maior polemista”, etc. Não nos serviremos, porém, de autores espíritas estrangeiros ainda não importados.

O método que adotamos é muito fácil: No primeiro ponto resumimos alguma doutrina fundamental da fé cristã e que pode ser desenvolvida à vontade; no segundo ponto mostramos como a doutrina espírita se opõe direta e frontalmente à exposta doutrina cristã, e para isso oferecemos citações textuais dos mestres reconhecidos do Espiritismo Brasileiro; estes textos podem muito bem ser lidos, para que os ouvintes não tenham a impressão de que o orador está a inventar histórias. Impõe-se em seguida a conclusão: é impossível ser católico e espírita ao mesmo tempo.

1) O Mistério

A fonte principal dos erros doutrinários do Espiritismo está na orgulhosa pretensão racionalista de querer compreender tudo a ponto de considerar errado e falso o que supera ou transcende ao entendimento da inteligência humana. É por isso que iniciamos este segundo ciclo de instruções com considerações sobre o mistério.

1) a) A palavra mistério tem sua origem do verbo grego mýein: fechar, tapar, escurecer. Etimologicamente, portanto, mistério significa uma coisa velada, arcana, desconhecida. Comumente empregamos a palavra para designar o que nos é inteiramente desconhecido ou cujo conhecimento só pode ser adquirido com grande esforço. Ninguém nega que existem verdades e leis naturais ainda não conhecidas e outras conhecidas só por alguns especialistas após longos estudos e complicadas investigações e que os leigos no assunto admitem sem compreender e só por causa da reconhecida competência do respectivo cientista (leis da matemática superior, da física ou química, etc.). — Em sentido estrito e propriamente teológico (como o entendemos aqui), a palavra mistério compreende as verdades divinas que superam, transcendem e ultrapassam as capacidades naturais da razão humana. São-nos conhecidas apenas pela autoridade divina que não se engana (porque Deus é infinitamente sábio) nem nos pode iludir (porque é infinitamente santo).

b) A possibilidade de tais mistérios é evidente, tanto da parte de Deus como da parte dos homens. Pois não custa compreender que Deus, infinitamente inteligente, ao qual nada escapa, possa revelar aos homens, de inteligência limitada, verdades que, em si, ultrapassem as forças naturais da inteligência criada e principalmente verdades que nos falem da própria natureza divina e da nossa vida futura e outras cujo conhecimento Deus julgue necessário ou útil para a eterna salvação dos homens. Também da parte dos homens não
repugna a humilde aceitação de tais verdades garantidas pela autoridade divina, visto que inúmeras vezes já somos obrigados a crer em autoridades meramente humanas.

c) E, de fato, o Magistério Eclesiástico nos garante a existência de mistérios propriamente ditos. O Concilio do Vaticano condenou expressamente o extremo racionalismo do século passado:

“Se alguém disser que na revelação divina não há nenhum mistério verdadeira e propriamente dito, mas que todos os dogmas da fé podem ser compreendidos e demonstrados pela razão, devidamente cultivada, por meio dos princípios naturais — seja anátema” (DB 1816).

E explica:

“O consenso constante da Igreja Católica tem crido e crê que há duas ordens de conhecimento, distintas não só por seu princípio, mas também por seu objeto; por seu princípio, visto que numa conhecemos pela razão natural e na outra pela fé divina; e por seu objeto, porque, além daquilo que a razão natural pode atingir, propõem-se-nos a crer mistérios escondidos em Deus, que não podemos conhecer sem a revelação divina. E eis porque o Apóstolo, que assegura que os gentios conheceram a Deus por meio das suas obras (Rom 1, 20), discorrendo, todavia, sobre a graça e verdade que foram anunciados por Jesus Cristo (cfr. Jo 1, 17), diz: Falamos da sabedoria de Deus em mistério, que fora descoberta e que Deus predestinou antes dos séculos, para a nossa glória. A qual nenhum dos poderosos deste inundo conheceu.. a nós, porém, o revelou Deus pelo seu Espírito; porque o Espírito tudo penetra, também as coisas profundas de Deus (1 Cor 7, 8. 10). E o próprio Unigênito glorifica ao Pai, porque escondeu essas coisas aos sábios e entendidos e as revelou aos pequenos (Mt 11, 25). E o mesmo Concilio Vaticano continua, descrevendo o modo como podemos e devemos estudar os mistérios da fé:

d) “Em verdade, a razão, iluminada pela fé, quando investiga diligente, pia e sobriamente, consegue, com a ajuda de Deus, alguma compreensão dos mistérios, e esta frutuosíssima, quer pela analogia das coisas conhecidas naturalmente, quer pela conexão dos próprios mistérios entre si e com o fim último do homem; nunca, porém, se torna capaz de compreendê-los como compreende as verdades que constituem o seu objeto próprio, pois os mistérios divinos, por sua própria natureza, excedem de tal modo a inteligência criada, que, mesmo depois de revelados e aceitos pela fé, permanecem ainda envoltos em um nevoeiro, enquanto durante esta vida vivermos ausentes do Senhor; pois andamos guiados pela fé, e não guiados pela contemplação (2 Cor 5, 6 s)”.

e) “Porém, ainda que a fé esteja acima da razão, jamais pode haver verdadeira desarmonia entre uma e outra, porquanto o mesmo Deus que revela os mistérios e infunde a fé, dotou o espírito humano da luz da razão; e Deus não pode negar-se a si mesmo, nem a verdade jamais contradizer à verdade. A vã aparência de tal contradição nasce principalmente ou de os dogmas da fé não terem sido entendidos e expostos segundo a mente da Igreja, ou de se terem as simples opiniões em conta de axiomas certos da razão… E não só não pode jamais haver desarmonia entre a fé e a razão, à outra, visto que a reta razão da fé, e cultiva, iluminada com coisas divinas” (DB 1795-1799).

2) A doutrina espírita é inteiramente racionalista e nega o mistério. O Espiritismo, declara AK:

“prescrevendo a fé cega, quer ser compreendido. Para ele, absolutamente não há mistérios, mas uma fé racional, que se baseia em fatos e que deseja a luz” e por isso “proclama o direito absoluto à liberdade de consciência e do livre exame em matéria de fé” (VII, 201). “Não podem existir mistérios absolutos e Jesus está com razão quando diz que nada há secreto que não venha a ser conhecido” (IV, 295).

Por isso AK reclama que “a ciência com seu escapelo, possa sondar todos os dogmas, todas as máximas, todas as manifestações; é preciso que a razão possa tudo analisar, tudo elucidar, antes de nada aceitar“. Donde o grito racionalista por ele repetido: “Queremos livres pensadores!” Daí também esta recomendação:

“Não admitais senão o que seja, aos vossos olhos, de manifesta evidência. Desde que uma opinião nova venha a ser expendida, por pouco que vos pareça duvidosa, fazei-a passar pelo crisol da razão e da lógica e rejeitai desassombradamente o que a razão e o bom senso reprovarem” (III, 242 s).

E insiste:

“Precisamos submeter tudo ao cadinho da razão” (VI, 37). “Os Espíritos verdadeiramente superiores nós recomendam de continuo que submetamos as comunicações ao crisol da razão e da mais rigorosa lógica” (III, 149), etc.

Com semelhantes princípios os espíritas abrem também os sagrados livros do Evangelho:

“Se os Evangelhos são aceitáveis em muitos pontos, é, todavia, necessário submeter o seu conjunto à inspeção do raciocínio” (Denis, Cristianismo e Espiritismo 5* ed. p. 33)

E só porque a razão deles não compreende a Santíssima Trindade, a Divindade de Jesus, o pecado original, a redenção, a graça, o inferno, etc., só por isso eles negam e rejeitam como falsas todas essas doutrinas. Para mostrar até que ponto pode chegar o orgulho racionalista dos espíritas, tomemos este exemplo: Para quem leu os Evangelhos é manifesto que Jesus falou claríssimamente do inferno; considerando, porém, a eternidade do inferno, a mente humana encontra não poucas dificuldades e não chega a compreender bem este ensino de Jesus; conclusão: a alma verdadeiramente cristã, que reconhece os limites de sua inteligência, embora não compreenda bem um estado de condenação sem fim, mas verificando que a revelação divina é clara a este respeito, aceita sem sombras de dúvida o que Deus lhe ensinou; pode ter dificuldades, mas não tem dúvidas. Ora, a posição racionalista dos espíritas é bem diferente: Num livro de Carlos Imbassahy (À margem do Espiritismo, 2ª ed. p. 162), responde o nosso espírita do seguinte modo:

“se for mesmo provado que a Bíblia ensina a existência do inferno, então rejeitamos a Bíblia; e se nos demonstrarem, não obstante, que a Bíblia vem de Deus, então renegaremos o próprio Deus, então esse Deus está muito abaixo das solas dos nossos sapatos e nós nos julgaremos, por isso, muito superior a um tal Deus!”

E isso é para eles “racional” e “cristão”…

Conclusão: A oposição entre a atitude católica e a espírita é evidente. A mentalidade racionalista dos espíritas que de antemão rejeita a possibilidade do mistério, já não pode ser considerada cristã. O verdadeiro cristão é mais humilde perante Deus e aceita os mistérios divinos porque sabe que não são contra mas acima das luzes de sua razão. Renovemos, pois, a nossa fé inabalável nos mistérios de Deus.

2) A Sagrada Escritura

1) É doutrina da Igreja que os livros da Sagrada Escritura, tanto do Antigo como do Novo Testamento, foram escritos sob a inspiração do Espírito Santo e, portanto, têm a Deus por autor. É uma das verdades fundamentais do Cristianismo. Em todos os séculos, apesar de outras muitas divergências entre os cristãos, todos sempre concordaram neste ponto básico. Negar a Bíblia seria meter o machado à raiz da fé cristã. É fácil desenvolver este ponto. Aliás, a própria Sagrada Escritura nos oferece os necessários elementos para afirmarmos a inspiração divina da Bíblia. Eis aí algumas indicações coligidas por Mons. Salim em sua Apologia do Cristianismo:

a) Nos livros do Antigo Testamento várias passagens indicam que determinados homens foram movidos por Deus para escreverem certas coisas. “Disse o Senhor a Moisés: Escreve isto num livro, para monumento” (Ex 17, 14). Em Isaías: “E o Senhor me disse: Toma um livro grande e escreve nele em estilo de homem…” (8, 1).

b) Nos livros do Novo Testamento atribui-se às palavras da Escritura uma autoridade absoluta, só igual à que se costuma considerar em Deus. Por isso as fórmulas “a Escritura diz”, “está escrito”, etc., que ali ocorrem 150 vezes, valiam por um argumento de eficácia indubitável. E o próprio Cristo argumentava assim. E por essas mesmas referências consta que a Escritura de que se trata são ou alguns textos (como em Jo 19, 36, 37), ou toda a coleção dos livros sagrados (Lc 24, 44; Mt 5, 17), e tanto esses textos como toda a coleção são encarados sob a mesma natureza e autoridade: “É preciso que se cumpram as Escrituras” (At 1, 16); “não é assim que está escrito em vossa lei” (Jo 10, 34).

c) A razão disso é óbvia; a Escritura é a palavra de Deus: “Não tendes lido o que Deus disse, falando conosco: Eu sou o Deus de Abraão…” (Mt 22, 31). Porque foi Deus quem falou pelos escritores sagrados, Cristo pôde sentenciar: “É mais fácil passar o céu e a terra, do que perder-se um til da lei” (Lc 16, 17).

d) Mais claramente ainda São Paulo, escrevendo a Timóteo, afirma que “toda a Escritura, divinamente inspirada (em grego: theopneustos: assoprada por Deus), é útil para ensinar… a fim de que o homem de Deus seja perfeito” (2 Tim 3, 15ss). E São Pedro confirma dizendo que “em nenhum tempo foi dada a profecia pela vontade dos homens, mas os homens santos de Deus é que falaram inspirados pelo Espírito Santo’’ (2 Pd 1, 20ss).

e) A persuasão de que toda a Escritura era inspirada passou dos Apóstolos para os escritores eclesiásticos e os santos Padres. Seria um não mais acabar se tivéssemos que , aduzir as exaustivas e convincentes declarações dos SS. Padres em torno desse nunca contestado dogma, reafirmado solenemente nos concílios de Florença, de Trento e do Vaticano.

2) Verdade é que os espíritas citam também alguns textos da Sagrada Escritura. Mas é apenas como tática de propaganda entre os cristãos. Querem com isso produzir a impressão de que também eles respeitam a Bíblia e a têm em igual conta. Mas o fato é que todos os grandes mestres da doutrina espírita contestam a inspiração divina da Bíblia.

a) Negam o valor do Antigo Testamento: Embora o próprio AK não fale em parte nenhuma diretamente deste problema, ele mostra contudo pelo modo como trata ou melhor maltrata constantemente a Bíblia que ele a tem como obra puramente humana. Ele se compraz em mostrar os “absurdos”, as “contradições” e as “monstruosidades” do Antigo Testamento. Falando dos erros da Bíblia, pondera:

“Incontestavelmente, não é possível que Deus, sendo todo verdade, induza os homens em erro, nem ciente, nem inscientemente, pois, do contrário, não seria Deus. Logo, se os fatos (da Bíblia) contradizem às palavras que lhe são atribuídas, o que se deve logicamente concluir é que ele (Deus) não as pronunciou, ou que tais palavras foram entendidas em sentido oposto ao que lhes é próprio” (VI, 84).

Declara ainda expressamente que de todas as leis do Antigo Testamento, só o decálogo veio de Deus, porque “é de todos os tempos e de todos os países”; mas “todas as outras são leis que Moisés decretou, obrigado, que se via, a conter, pelo temor, um povo de seu natural turbulento e indisciplinado… Para imprimir autoridade às suas leis, houve de lhes atribuir origem divina, conforme o fizeram todos os legisladores dos povos primitivos” (IV, 42).

— Outro chefe espírita, Leão Denis, já é mais explícito. Em Cristianismo e Espiritismo (5ª ed., p. 130), declara simplesmente que a Bíblia “não pode ser considerada produto da inspiração divina”, mas que é “de origem puramente humana, semeada de ficções e alegorias, sob as quais o pensamento filosófico se dissimula e desaparece o mais das vezes”. É esta tese que ele depois tenta provar em longas páginas para concluir que a Bíblia “não pode ser considerada a palavra de Deus nem uma revelação sobrenatural” (p. 282), mas “é bem a obra dos homens, o testemunho da sua fé, das suas aspirações, do seu saber, e também dos seus erros e superstições… Foi com o intuito de dar a esses ensinos e autoridade que foram eles apresentados como emanados da soberana potência que rege os mundos” (p. 283).

b) Todos eles negam também a autoridade do Novo Testamento: AK põe em dúvida os próprios Evangelhos, porque, diz ele, os Apóstolos interpretaram o pensamento de Jesus conforme suas idéias pessoais muitas vezes erradas, primitivas e supersticiosas (VI, 368). Falando do célebre Prólogo do Evangelho de São João, em que o Apóstolo afirma a Divindade do Verbo — doutrina que AK não quer admitir — observa o mestre espírita:

‘‘É de notar-se, antes de tudo, que as palavras acima citadas são de João e não de Jesus e que, ainda quando se admita que não tenham sido alteradas, elas não exprimem, na realidade, mais que uma opinião pessoal, uma indução, em que se depara com o misticismo habitual de sua linguagem” (VII, 135).

Qualquer texto do Evangelho que apresentarmos a AK e que não concorda com sua doutrina espírita, será descartado com uma destas quatro respostas: ou se tratará dum acréscimo posterior (IV, 283), ou será um desentendido dos Apóstolos (VI, 368), ou será opinião pessoal do Evangelista (Vil, 135), ou era pura alegoria de Cristo (passim). O mesmo ele aplica a todos os escritos apostólicos (Atos, Epístolas, etc.), dos quais escreve explicitamente:

“Todos os escritos posteriores (ao Evangelho), sem exclusão dos de São Paulo, são apenas, e não podem deixar de ser, simples comentários ou apreciações, reflexos de opiniões pessoais, muitas vezes contraditórias que, em caso algum, poderiam ter a autoridade da narrativa dos que receberam diretamente do Mestre as instruções” (VII, 110 s).

c) Em resumo, o órgão oficial da Federação Espírita Brasileira, Reformador (Janeiro de 1953, p. 23) define bem a verdadeira posição dos espíritas perante a Bíblia com estas palavras:

“Do Velho Testamento já nos é recomendado somente o Decálogo e do Novo Testamento apenas a moral de Jesus: já consideramos de valor secundário, ou revogado e sem valor algum, mais de 90% do texto da Bíblia. Só vemos na Bíblia toda um livro respeitável pelo seu valor cultural, pela força que teve na formação cultural dos povos do Ocidente”.

E o atuai líder intelectual dos nossos espíritas, Carlos Imbassahy, tira daí a conclusão lógica:

“Nem a Bíblia prova coisa nenhuma, nem temos a Bíblia como probante. O espiritismo não é um ramo do Cristianismo como as demais seitas cristãs. Não assenta seus princípios nas Escrituras. Não rodopia junto à Bíblia… A nossa base é o ensino dos Espíritos, daí o nome: Espiritismo” (À Margem do Espiritismo, 2ª ed. p. 219)

E aí está, confessado pelos próprios espíritas: O Espiritismo não é Cristianismo!

Conclusão: Mais uma vez verificamos a radical e absoluta oposição entre a doutrina cristã e a doutrina espírita e, por conseguinte, a total e absoluta impossibilidade de ser ao mesmo tempo cristão e espírita. Ou cristão ou espírita! Renovemos a nossa fé na inspiração divina da Sagrada Escritura e o nosso propósito de lermos com mais frequência, piedade e amor o livro que Deus escreveu para nós.

3) A Igreja

1) a) A Igreja era necessária para conservar, propagar e explicar a mensagem evangélica de Cristo. Isso se infere do próprio fracasso do “livre exame” dos racionalistas e das contradições da “inspiração individual” da dolorosa experiência protestante. Segue também da natureza do homem inclinado a viver em sociedade que, por sua vez, é incapaz de manter-se sem uma autoridade competente. Foi a conclusão a que chegou, no fim de sua vida; o incrédulo Agostinho Thierry quando confessou:

“Vejo, pela história, a necessidade manifesta de uma autoridade divina e visível, para o desenvolvimento da vida do gênero humano. Ora, tudo quanto existe fora do cristianismo, nada vale. Ademais, tudo quanto existe fora da Igreja Católica, é sem autoridade… Portanto, a Igreja Católica é a autoridade que procuro, e a ela me submeto”.

b) Cristo, de fato, fundou uma Igreja. Não é possível desenvolver aqui todo o tratado teológico sobre a Igreja. Algumas indicações, ao menos:

— Cristo anunciou a vinda do Reino de Deus como obra sua: “É necessário que eu anuncie o reino de Deus, pois para isso é que fui enviado” (Lc 4, 43). Em igual missão envia também os discípulos;

— é claro que o elemento principal deste Reino de Deus é o interno e invisível; mas é também externo e visível: Cristo exige de seus seguidores fé pública, prediz-lhes uma perseguição sem trégua, impõe mandamentos, prescreve sacramentos; falando de sua obra, compara-a com um reino, uma cidade, uma casa, uma família, uma rede lançada no mar, um rebanho com um só pastor, etc.;

— reúne seus discípulos, dos quais seleciona doze Apóstolos que recebem instruções especiais, aos quais promete e depois concede poderes bem concretos e uma particular assistência do Espírito Santo;

— dá a esta sua sociedade explicitamente o nome de Igreja (Mt 16, 18; 18, 17);

— e esta sua Igreja não deve ser uma sociedade anárquica em que cada um acredita o que quer e faz o que entende; sua ordem é expressa: Todo poder foi-me dado no céu e na terra. Ide, portanto, ensinar todas as nações. E eis que estou convosco até a consumação dos séculos (Mt 28, 18-20); quem vos ouve, a mim é que ouve, e quem vos rejeita, a mim é que rejeita (Lc 10, 16); se algum irmão não ouvir a Igreja, seja tido como pagão, seja excomungado; tudo quanto ligardes na terra, será ligado no céu e tudo quanto desligardes na terra, será desligado no céu (Mt 18, 17-18);

— portanto, se Jesus, ao dar semelhantes ordens e fazer tão solenes promessas, falou mesmo a verdade, é evidente que Ele quer que sua doutrina se conserve integralmente até o fim do mundo e, portanto, com os ensinamentos por Ele dados, com os ritos por Ele instituídos (batizar, perdoar pecados, dar a Eucaristia, etc.); segue-se mais que, morrendo os Apóstolos, eles teriam quem lhes sucedesse no ofício de ensinar aquelas verdades e administrar estes sacramentos, pois Jesus asseverou que estaria sempre com eles até o fim do mundo; e como os Apóstolos haveriam de morrer, segue-se ainda que estaria com seus sucessores, pois de outra forma não ficaria até “o fim do mundo”.

Tudo isso é para nós, católicos, claro como o sol ao meio dia. Pois assim os próprios Apóstolos entenderam e praticaram as palavras e ordens de Cristo e assim a Igreja, durante vinte séculos, o entendeu e praticou, convicta de estar com ela Cristo.

2) Mas para os espíritas tudo isso é mais negro que as mais densas trevas da Idade Média (que eles tão bem conhecem!).

“É chegada a hora — assim proclama o enérgico profeta da Terceira Revelação, AK — em que a Igreja tem de prestar contas do depósito que lhe foi confiado, da maneira por que pratica os ensinos do Cristo, do uso que fez da sua autoridade, enfim, do estado de incredulidade a que levou os espíritos. A hora é vinda em que ela tem de dar a César o que é de César e de assumir a responsabilidade de to¬dos os seus atos. Deus a julgou e reconheceu inapta, daqui por diante, para a missão de progresso que incumbe a toda autoridade espiritual” (VII, 279).

Por isso — dizem eles — chegou agora a época do Espiritismo e o magistério que oficialmente deve guardar e interpretar o Evangelho passou
para ele:

“O Espiritismo é a chave com que podemos penetrar no espírito, isto é, no pensamento da letra evangélica. .. O Evangelho deve ser interpretado à luz do Espiritismo, porque sem o auxilio do Espiritismo jamais poderíamos aceitar conscientemente certas passagens evangélicas… Temos observado que atualmente se procura inverter a posição dos assuntos: O Espiritismo é que está sendo interpretado pelo Evangelho, quando na realidade é o Evangelho que deve ser interpretado pelo Espiritismo… Não é o Evangelho que explica o Espiritismo, mas o Espiritismo é que explica o Evangelho”! (Deolindo Amorim, em Almenara, Abril de 1953, p. 2).

É impossível citar aqui as mil calúnias que os espíritas constantemente escrevem contra a Igreja, que teria falhado em sua missão desde os tempos apostólicos. Lendo os livros e jornais espíritas, a gente tem a impressão de que na Igreja de todos os tempos só tem havido má vontade, ganância, sede de prazeres e de domínio. A obra de Cristo teria fiascado completamente. E sua promessa de estar com a Igreja até a consumação dos tempos, não se teria cumprido. Para os espíritas a Igreja Católica é, entre todas as religiões, “a mais tirana”, “a mais negocista, a mais materialona, a mais imoral”, “religião de mentiras e comédias bufas”, “seita negocista, ultra-perversa, baseada num Deus material, à sua imagem diabólica”, “uma associação, quando muito, de idolatria, imitadores do paganismo grego, nada mais”, “o maior foco de todas as mentiras, de todas as vergonhas, de todas as misérias morais que se conhecem”, “a mais pulha, a mais lavradez, a mais assassina de quantas seitas se conhecem”, etc. (são textos colhidos em obras espíritas!)…

Conclusão: É evidente também aqui a oposição entre as doutrinas católica e espírita. Como pode alguém ser católico, professar-se discípulo de Jesus e ao mesmo tempo injuriar assim a obra de Cristo? “Tu és Pedro — disse Jesus a Simão, filho de Jonas — e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja e as portas do inferno não prevalecerão contra ela” (Mt 16, 18). Com estas palavras profetizou Nosso Senhor a vitoriosa marcha da Igreja através dos séculos e predisse também que as “portas do inferno” tudo fariam para prevalecer, Esta profecia de Jesus se tem realizado ao pé da letra. Visivelmente assistida por Cristo, a igreja atravessou os séculos. Nasceram, floresceram e desabaram reinos e dinastias, mas a Igreja e a dinastia de Pedro ficou sempre a mesma, a continuar tranquila e segura a sua marcha. Enquanto mil heresias e as mais discrepantes filosofias se levantavam e se sucediam, a Igreja continuava imperturbável e indefectível sua vitoriosa caminhada. Sempre a mesma em sua doutrina, inflexível em seus princípios recebidos de Deus, intolerante diante do mal e intransigente frente ao erro, a Igreja sempre prosseguiu a sua peregrinação de santificação e regeneração, levando consigo os homens mais santos e mais sábios. Tudo fizeram e ainda fazem as portas do inferno para derrubá-la, mil emboscadas lhe armaram, toda sorte de dificuldades lhe opuseram, as mais negras calúnias contra ela levantaram; debalde, porém: a Igreja prosseguiu e continuará a sua missão divina até à consumação final. As portas do inferno não prevaleceram, nem jamais prevalecerão. É a grande promessa. Com essa garantia divina a Igreja continuará a marcha indefectível, vencedora também das atuais e futuras insídias que o inferno poderá urdir.

4) O Papa

Na instrução precedente consideramos a Igreja e vimos os ataques espíritas contra ela. É preciso que falemos também do Papa em particular, muito impugnado também ele pelos grandes mestres da doutrina espírita. E focalizemos sua infalibilidade, que é o aspecto mais importante e o ponto mais atacado.

1) a) O texto dogmático da infalibilidade do Papa, dado pelo Concilio do Vaticano:

“Por isso Nós, apegando-nos à Tradição recebida desde o início da fé cristã, para a glória de Deus, nosso Salvador, para a exaltação da religião católica, e para a salvação dos povos cristãos, com aprovação do Sagrado Concilio, ensinamos e definimos como dogma divinamente revelado que o Romano Pontífice quando fala ex cathedra, isto é, quando, no desempenho do ministério de pastor e doutor de todos os cristãos, define com sua suprema autoridade apostólica alguma doutrina referente à fé e à moral para toda a Igreja, em virtude da assistência divina prometida a ela na pessoa de São Pedro, goza daquela infalibilidade com a qual Cristo quis munir a sua Igreja quando define alguma doutrina sobre a fé e a moral; e que, portanto, tais declarações do Romano Pontífice são por si mesmas, e não apenas em virtude do consenso da Igreja, irreformáveis. — ‘ Se, porém, alguém ousar contrariar esta nossa definição, o que Deus não permita, — seja excomungado” (DB 1839 s).

b) O que não é a infalibilidade papal:

1) não é impecabilidade: o Papa pode pecar e até gravemente (por isso todas as histórias, verdadeiras umas poucas e caluniosas ou ao menos muito exageradas outras, que os espíritas contam sobre os maus Papas, não são contra a sua infalibilidade);

2) não é inspiração positiva de Deus (diz o citado Concilio Vaticano que o Espírito Santo “não foi prometido aos sucessores de São Pedro para que estes, sob a revelação do mesmo, pregassem uma nova doutrina, mas para que, com a sua assistência, conservassem santamente e expusessem fielmente o depósito da fé, ou seja, a revelação herdada dos Apóstolos” (DB 1836); 3) nem quer dizer que sempre que o Papa fala, é infalível.

c) As quatro condições para a infalibilidade: O Papa só é infalível quando se realizam conjuntamente as seguintes quatro condições:

1) é necessário que ele fale não como pessoa particular, mas oficialmente, como Pastor e Mestre supremo de todos os fiéis de Cristo;

2) é necessário que ele fale sobre questões relativas à fé e à moral e não sobre coisas puramente científicas ou disciplinares que nada têm a ver com os princípios da fé e da moral;

3) é necessário que ele fale à Igreja toda inteira e não a uma diocese ou nação;

4) é necessário que ele tenha a intenção de decidir definitivamente uma certa questão de fé ou moral, querendo obrigar a Igreja universal a aceitar a sua decisão. — Só assim, realizadas to¬das as quatro condições, dizemos que o sucessor de São Pedro deve ser infalível. Faltando qualquer uma dessas quatro condições, já não há garantia de infalibilidade.

2) Contra o Papa, e particularmente contra sua infalibilidade, investem todos os espíritas, a começar por AK, que escreveu:

“O Papa, príncipe temporal, espalha o erro pelo mundo, em vez do Espírito de Verdade, de que ele se constituiu o emblema artificial” (VII, 282).

E talando do Papa e do Sacro Colégio:

“Todos esses homens são obstinados, ignorantes, habituados a todos os gozos profanos; necessitam do dinheiro para satisfazê-lo” (VII, 267).

E eis o que o nosso espírita kardecista, Dr. Yvon Costa nos conta em O Novo Clero:

“Entregues ao desbaratamento das coisas santas, os papas de ontem, de todos os tempos, de hoje também, são rivais no luxo, na libertinagem e miopia da doutrina crista, da qual se arrogaram e arrogam chefe infalível” (p. 143); “se no catálogo dos Papas criados desde a fundação da Igreja até ao nosso tempo, quiséssemos fazer duas seções, acharíamos na primeira mendigos e desocupados que só trilharam a estrada do vicio para desfrutarem os deleites do mundo; e veríamos na segunda subir a cadeira pontifícia um bando de intrigantes, que, vivendo carregados de crimes, todos desceram ao sepulcro cobertos da execração pública” (p. 146).

Bastam esses textos que já são claros demais, Quando falam do Papa, os espíritas, todos eles e sempre, só conhecem semelhantes expressões.

Conclusão: Reafirmemos a nossa fé na doutrina de Cristo e o nosso propósito de sermos verdadeiros cristãos. Não demos ouvido às calúnias, às mentiras, aos evidentes exageros e à má vontade dos espíritas. Reavivemos também a nossa fé na Igreja de Cristo e no vigário de Cristo. Num tempo como hoje, em que há tantas ideologias contrárias e contraditórias, em que surgem sempre novas filosofias e correntes religiosas, em que aumenta fantasticamente a confusão de idéias e de religiões, em que somos constantemente assediados pela técnica da moderna propaganda pelos livros, pelas revistas e pelos folhetos, pelos jornais e pelo cinema, pelo rádio e pela televisão, é necessário e urgente que nos orientemos segundo as diretrizes do Papa. Firmes na mesma fé de nossos antepassados e na Igreja dos Santos, poderemos também santificar-nos hoje com os mesmos meios e a mesma doutrina secular. Mais agitado e revolto do que nos séculos passados, o mar em que vivemos transformou-se em verdadeiro sorvedouro e é por isso que, com mais firmeza ainda, devemos agarrar-nos à barca de Pedro e dirigir-nos pelo farol da doutrina de Cristo que a Igreja nos conservou e transmitiu e que o Papa não se cansa de nos anunciar.

5) Deus

1) “A Santa Igreja Católica Apostólica Romana crê e confessa que há um só Deus verdadeiro e vivo, Criador e Senhor do céu e da terra, onipotente, eterno, imenso, incompreensível, infinito em intelecto, vontade e toda a perfeição; o qual, sendo uma substância espiritual e singular, inteiramente simples e incomunicável, é real e essencialmente distinto do mundo, sumamente feliz em si e por si mesmo, e está indelevelmente acima de tudo o que existe ou fora dele se possa conceber”.

Temos nesta formulação do Concilio Vaticano (DB 1782) um clássico resumo dos dados de nossa santa fé sobre Deus. Insistamos em alguns pontos:

a) Existe um só Deus verdadeiro e vivo, que é onipotente: “Há, porventura, alguma coisa que seja difícil a Deus?” (Gên 18, 14), “a Deus nada é impossível” (Lc 1, 37); é eterno: sem início, sem fim, sem sucessão de tempos, Deus é: “Antes que os montes fossem formados e nascesse a terra e o mundo e desde a eternidade e para sempre, tu existes ó Deus” (SI 89, 2); é imenso: sem limites, sem medidas, sem circunscrição, Deus está em toda parte: “Para onde irei, a fim de ficar longe de teu espírito? e para onde fugirei da tua presença? Se subo ao céu, tu lá estás; se me prostrar nos infernos, neles te encontras presente; se eu tornar as asas da aurora e habitar nas extremidades do mar: ainda lá me guiará a tua mão” (SI 183, 7 s); é incompreensível: nunca a limitada mente humana poderá conhecer perfeitamente a Deus, sua essência será para nós sempre e necessariamente um mistério: “Grande é o Senhor, e muito digno de louvor, e a sua grandeza é insondável” (Sl 144, 3).

b) “Substância espiritual una e singular”, Deus é “real e essencialmente distinto do mundo“: Anterior a toda criatura, independente do mundo, infinitamente superior ao universo limitado e mutável, Senhor absoluto e Criador de todas as coisas existentes foda d’Ele, Deus é um ser pessoal, individual e singular e de modo nenhum pode ser identificado com o mundo, nem podemos cogitá-Lo de tal maneira dependente do universo como a alma depende do corpo:

“Se mesma que a substância ou essência de todas as coisas, seja anátema” (DB 1803).

c) Deus é também “sumamente feliz em si e por si mesmo”. Não necessita das criaturas para sua felicidade. Deus criou o universo “não para adquirir nova felicidade ou para aumentá-la” (DB 1783) e por isso dizemos que criou com vontade plenamente livre, sem necessidade nenhuma, mas apenas “para manifestar a sua perfeição pelos bens que prodigaliza às criaturas”.

2) A grande maioria dos nossos espíritas brasileiros — todos os umbandistas, teosofistas (que entre nós são praticamente espíritas), ecléticos, esotéricos e quase todos os kardecistas — defendem o monismo ou o panteísmo, isto é: identificam Deus com o mundo:

“Deus é como uma folha de papel, rasgadinha em milhões e não sei quantas mais divisões. Lançados esses pedacinhos de papel no Universo, cada pedacinho de papel representa um homem e um ser existente, e todos reunidos, formando o todo, é Deus” (modo popular como os espíritas explicam Deus; cf. K. Rangel Veloso, Pseudo-Sábios ou Falsos Profetas, 1947, p. 34).

a) AK pessoalmente não quer ser panteísta e várias vezes fala contra semelhante teoria (I, 53 s; VII, 179); mas também ele tem expressões que levam ao monismo, assim, por exemplo, quando julga possível que a nossa inteligência seja uma “emanação da Divindade” (I, 58), ou quando imagina Deus como um “centro de ação, um foco principal a irradiar incessantemente, inundando o Universo com seus eflúvios” (VI, 61), vivendo os espíritos “mergulhados no fluido divino” (VI, 63). O Deus de AK, desde toda a eternidade criou necessariamente e continua “irradiando” incessantemente, porque, se não o fizesse, seria “um Deus ocioso” (cf. I, 56, 78; VI 107).

b) Leão Denis, o “filósofo inconfundível do Espiritismo” e uma espécie de sucessor de AK, é abertamente panteísta. Para ele Deus é um ser, “de que tudo emana, para o qual tu¬do volta, eternamente. Deus é a grande alma universal, de que toda alma humana é uma centelha, uma irradiação. Cada um de nós possui, em estado latente, forças emanadas do Foco” (Cristianismo e Espiritismo, 5ª ed. p. 246); “Deus é infinito e não pode ser individualizado, isto é, sendo mundo, nem subsistir à parte” (Depois da Morte, 6ª ed. p. 114); “o Ser supremo não existe fora do mundo, porque este é a sua parte integrante e essencial” (p. 124); “o Eu do Universo é Deus” (p. 349). Em vez do “Deus imanente, sempre presente no seio das coisas” (p. 123): Deus está no mundo, como a alma no corpo (pp. 123ss).

c) Também o Deus do “Espiritismo Racional e Científico” se identifica com o mundo: eles desprezam mesmo a palavra “Deus” e preferem falar do “Grande Foco”, da “Inteligência Universal”, do “Grande Todo”, da “Luz Astral”. Esse Grande Foco é “o primeiro componente do universo”, é “parcelado por todo o Universo” e a nossa alma é uma “partícula da Inteligência Universal”, etc.

d) Panteísta é ainda o Espiritismo de Umbanda. A quinta conclusão unanimemente aceita pelo primeiro Congresso do Espiritismo de Umbanda (Rio, 1941) diz assim:

“Sua filosofia (de Umbanda) consiste no reconhecimento do ser humano como partícula da Divindade, dela emanada, límpida e pura, e nela finalmente reintegrada ao fim do necessário ciclo evolutivo, no mesmo estado de limpidez e pureza, conquistado pelo seu próprio esforço e vontade”.

E nos livros umbandistas damos com frases assim: “Deus é o Todo e eu Sua parte”; “Deus dorme no mineral, sonha no vegetal, desperta no animal, é consciente no homem” (cf. Doutrina e Ritual de Umbanda, Rio 1951).

Conclusão: É evidente que a “teologia” espírita não é cristã e que os espíritas são atingidos diretamente por essa solene declaração do Concilio Vaticano:

“Se alguém disser que as coisas finitas, tanto as corpóreas como as espirituais, ou ao menos as espirituais, emanaram da substância divina; ou que pela manifestação ou evolução da essência divina se originaram todas as coisas; ou, finalmente, que Deus é um ser universal ou indefinido, que, ao ir-se determinando, daria origem à universalidade das coisas, distinta em gênero, espécie e nos indivíduos — seja excomungado” (DB 1804).

6) A Santíssima Trindade

Cremos em um só Deus verdadeiro e distinto do mundo. Mas cremos também que este único Deus subsiste em Três Pessoas: Pai, Filho e Espírito Santo. Quem não crê em Deus, não pode ser cristão; mas quem não crê na Santíssima Trindade, também não o pode ser.

“A fé católica — diz o antiquíssimo símbolo atanasiano — consiste em venerar um só Deus na Trindade, e a Trindade na Unidade”.

Nesta fé nos tornamos cristãos e fomos batizados, de acordo com a ordem de Cristo: “Ide, pois, e ensinai a todas as gentes, batizando-as em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo” (Mt 28, 19); nesta fé inicia o cristão suas orações e seus trabalhos; e nesta fé queremos todos morrer.

1) E por que cremos na Santíssima Trindade? Somente porque assim o pregou Nosso Senhor Jesus Cristo, assim o creram os Apóstolos e assim a Santa Igreja sempre o ensinou.

a) Já no início da vida pública de Jesus, por ocasião do batismo no Jordão, encontramos uma manifestação magnífica desta verdade fundamental da nossa fé cristã:

“E, depois que Jesus foi batizado, saiu logo da água; e eis que se lhe abriram os céus, e viu o Espírito de Deus descer como pomba, e vir sobre ele. E eis que se ouviu uma voz do céu, que dizia: Este é meu Filho, o amado, no qual pus as minhas complacências” (Mt 3, 16 s)

Aí temos Jesus, que em outras muitas ocasiões se proclamou verdadeiro Deus (como ainda veremos em instruções especiais); aí temos o Pai, na voz do céu; aí temos o Espírito Santo, na forma visível de pomba.

b) Muitíssimas vezes Jesus declarou claramente que ele é o “Filho de Deus” e isso — vê-lo-emos ainda melhor — em sentido próprio e natural, igualando-se inteiramente a Deus, de tal modo que os judeus queriam matá-lo, “porque se fazia igual a Deus” (cf. Jo 5, 18; 10, 30-33). Portanto, Deus tem um Filho. De outro lado, é manifesto que o “Pai”, de quem Jesus não se cansa de falar, é verdadeiramente Deus. Mas Jesus também disse: “Meu Pai e eu somos uma mesma coisa” (Jo 10, 30). Não são, pois, dois deuses, mas um só Deus e duas Pessoas distintas. Cristo, todavia, fala também do Espírito Santo, como Terceira Pessoa, distinta do Pai e do Filho e verdadeiramente Deus (Jo 14, 16 s; 14, 26; 15, 26). Por conseguinte três Pessoas distintas. Entretanto, de toda a Sagrada Escritura consta que existe um só Deus: “Vede que sou eu só e que não há outro Deus fora de mim” (Dt 32, 39, etc.). Conclusão: Deus que se revela na Sagrada Escritura diz-se um só em três pessoas: Pai, Filho e Espírito Santo. Eis o dogma cristão da Santíssima Trindade.

c) Daí a ordem expressa e clara de Jesus, que já ouvimos, mandando batizar a todas as gentes “em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo” (Mt 28, 19).

d) E assim os Apóstolos o entenderam, praticaram e pregaram. E assim também a Igreja primitiva, como consta por exemplo da Didaqué (do fim do primeiro século), do símbolo apostólico e dos Santos Padres. E por isso a Igreja não se cansa de repetir, desde o segundo século: “Glória ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo!”

2) O Espiritismo, porém, nega o augusto mistério da Santíssima Trindade.

a) AK prefere ignorar inteiramente este mistério básico da doutrina e da vida cristã. Porém, tratando-se sem dúvida de um verdadeiro mistério, e não admitindo ele nenhum mistério (VII, 201), não concordará também com o mistério de um só Deus em três Pessoas.

b) Leão Denis, outro chefe da doutrina espírita, insurge-se abertamente contra esta verdade, dela falando como de uma “estranha concepção do Ser divino, que se resolve no mistério da Trindade” (Cristianismo e Espiritismo, ed. p. 74) e explica sua origem do seguinte modo:

“É o resultado das paixões e dos interesses materiais que entraram em jogo no mundo cristão, depois da morte de Jesus. A noção da Trindade, colhida numa lenda hindu, que era a expressão de um símbolo, veio obscurecer essa alta idéia de Deus (trazida por Cristo)… Essa concepção trinitária, tão incompreensível, oferecia, entretanto, grande vantagem às pretensões da Igreja. Permitia-lhe fazer de Jesus Cristo um Deus. Conferia ao poderoso Espírito, a que chama seu fundador, um prestígio, uma autoridade, cujo esplendor sobre ela recaía e assegurava o seu poder. Nisso está o segredo da sua adoção pelo concilio de Nicéia” (p. 75).

Segundo L. Denis, pois, foi a Igreja que inventou a Santíssima Trindade (e na p. 287 diz que foi no século VIII) por interesses materiais: para poder dizer que Jesus e o Espírito Santo são Deus, ela precisava de três pessoas divinas e por isso inventou esse dogma… Porque, explica um outro espírita, “no primitivo cristianismo nem Jesus, nem Pedro, nem João, nem Tiago e nem Paulo jamais cogitaram desta trilogia…”

c) “Nunca se jogou um desafio mais audacioso ao princípio de contradição”, escreve o espírita João Gomes num jornal de Petrópolis, referindo-se à Ssma. Trindade, e continua:

“Este dogma monstruoso, negação da razão humana, não passa de uma construção almejada, de um andaime arbitrário e fictício de deduções fantásticas… Este tema foi arranjado pelo catolicismo, de acordo com as crenças pagãs”.

E outro espírita, de Belo Horizonte, escreveu num jornal daquela cidade:

“O mistério da Santíssima Trindade é outro golpe desfechado em nossa razão. Certo pensador, em momento de extraordinária presença de espírito, escreveu que se houvesse a Santíssima Trindade, com o drama do Calvário, Deus teria matado a Deus para agradar o próprio Deus” (O Poder, 8-3-1953).

d) “Há mais de uma pessoa em Deus?” pergunta-se numa seção infantil do Jornal Espírita (Rio, Março de 1953); resposta:

“Não, a razão nos diz que Deus é um ser único, indivisível; que o Pai Celeste é um só para todos os filhos do Universo”.

e) E para os espíritas do Centro Redentor, nosso Deus seria “um boneco manipançudo, paganizado”, um Deus “animalizado, escravocrata e vingativo”, um “Deus manipançudo que tem Mãe a quem denomiam Maria, um Deus portanto, católico apostólico romano, feroz, vingativo, estúpido, que atira os seus filhos para as caldeiras do inferno”, um “Deus-Bezerro, Deus-Chacal, Deus Vingativo, Deus que manda as suas partículas para as profundezas do inferno” etc…

Conclusão: Só podemos ter sentimentos de compaxião para com o cego ódio dos espíritas contra a doutrina cristã. Eles também são nossos irmãos, embora transviados, vitimas muitas vezes da ignorância ou da falsa propaganda espírita; mas eles têm também uma alma que foi criada para o céu, para ser feliz com a “beatíssima Trindade”, e enquanto ainda peregrinarem conosco nesta terra, podem voltar a Deus. Rezemos por eles, para que se convertam, afastando-se do orgulhoso racionalismo de que são vítimas. Unamo-nos com Cristo nesta oração que ele pronunciou na noite antes de morrer:

“Pai Santo, guarda em teu nome os que me deste, para que sejam um, assim como o somos nós. Mas não rogo somente por eles, senão também pelos que por sua palavra chegarem por eles, senão também pelos que por sua palavra chegarem a crer em mim, para que sejam um, assim como tu, Pai, estás em mim e eu em ti – que assim também eles sejam um em nós” (Jo 17, 11. 20-21)

7) A Criação

1) A doutrina cristã sobre a criação se resume nos seguintes pontos:

a) O universo não é uma emanação de Deus (seria o panteísmo), nem coexiste com Deus desde toda eternidade, mas foi criado por Deus no tempo, consoante as primeiras palavras da Sagrada Escritura: “No princípio criou Deus o céu e a terra” (Gên 1, 1); e mais: “porque Ele disse e tudo foi feito; Ele mandou, e tudo existiu” (S1 32, 9; 148, 5); “tudo o que quer o faz o Senhor, no céu, na terra, no mar e em todos os abismos das águas” (SI 134, 6; 113, 11; Ap 4, 11); “suplico-te, meu filho, que olhes para o céu e para a terra, e para todas as coisas que há neles; e que te capacites bem de que Deus as criou do nada (eks ouk óntoon) a eles, e a todos os homens” (2 Macab 7, 28).

b) Além deste mundo material e visível, Deus criou também seres puramente espirituais; os anjos, de cuja existência nos falam quase todos livros da Bíblia. Alguns deles rebelaram-se contra Deus, e são os demônios, também frequentemente mencionados pela Sagrada Escritura e para os quais – diz Nosso Senhor – “foi preparado o fogo eterno” (Mt 25, 41).

c) A força criadora de Deus interveio direta e imediatamente na formação do primeiro homem (Adão) e da primeira mulher (Eva). Não é mais cristão quem teima em ver no homem apenas o resultado de uma longa e paulatina evolução, passando pelos vários reinos, o mineral, o vegetal, o animal, e querendo encontrar no macaco o tipo de transição imediata para o homem. Pois a alma humana, que é o elemento principal do composto humano, é um ser simples e espiritual e não pode ser concebido como termo final de um longo trabalho de evolução.

d) Todos os homens atualmente existentes são filhos de Adão e Eva, que eram pessoas reais e históricas e não mitos ou símbolos. É o que nos relata singelamente a Sagrada Escritura e São Paulo resume-o nestas palavras: “De um só homem, (Deus) fez sair todo o gênero humano, para que habitasse toda a face da terra” (At 17, 26).

2) Tudo isso, ponto por ponto, é negado pelos espíritas:

a) Já vimos o crasso panteísmo da absoluta maioria espírita. Para eles, os seres de universo são “irradiações do Foco Divino”. Eles rejeitam a nossa doutrina da criação, o que AK chama de “criação miraculosa” (VI, 82) e Leão Denis explica assim:

“Não há, portanto, criação espontânea, miraculosa; a criação é contínua, sem começo nem fim. O Universo sempre existiu; possui em si o seu principio de força, de movimento. Traz consigo seu fito. O Universo renova-se incessantemente em suas partes; no conjunto é eterno” (Depois da Morte, 6ª ed. p. 124).

Segundo AK, tudo veio da “matéria cósmica primitiva” que é a “geradora do mundo e dos seres’’ (VI, 104), a “mãe fecunda de todas as coisas, a primeira avó e, sobretudo, a eterna geratriz” (VI, 109).

b) Anjos, no sentido católico da palavra, não existem para os espíritas:

“Os anjos — explica AK — são as almas dos homens chegados ao grau de perfeição que a criatura comporta” (V, 101; 111, 15; VI, 28; VII, 85)

Do mesmo modo não existem demônios, pois aquilo que nós assim denominamos, são as almas que ainda não estão evoluídas, mas que, pelo sistema das reencarnações, chegarão à perfeição final de todos os seres:

“O Espiritismo — diz AK — não admite os demônios… no sentido vulgar da palavra, porém, sim, os maus espíritos… que são seres atrasados, ainda imperfeitos, mas aos quais Deus reservará o futuro” (II, 92); “os que se designam pelo nome de demônios, são Espíritos ainda atrasados e imperfeitos; que praticam o mal no espaço, corno o praticavam na terra, mas que se adiantarão e aperfeiçoarão” (VI, 28; 1, 98; III, 15; V, 114).

c) O homem é — segundo a doutrina espírita — resultado da evolução.

“A vida orgânica e anímica vem, não tenhamos dúvida (garante-nos Leopoldo Machado), de muito baixo e de muito longe, dos seres inorgânicos, até chegar ao homem, ao espírito, ao anjo… A espécie humana provém material e espiritualmente da pedra bruta, das plantas, quadrúpedes, do mono. E, de homem ascenderá a espírito, anjo…” (Revista Internacional do Espiritas – 1941 p. 193).

“Da transformação constante da matéria, essa alma surge, como se fosse ainda uma centelha, da passagem do mineral ao vegetal, deste transmigra para o animal na forma mais rudimentar e, até atingir a espécie humana, terá atravessado todas as escalas dos três reinos da Natureza, formando um reservatório de conhecimentos que irão do chamado instinto à mais lúcida inteligência. .. Nascer, morrer e renascer é o trabalho contínuo a que está sujeito o espírito, passando por todas essas transições, desde o minério até o homem e, daí por diante, desde o tipo boçal ao gênio. Não importa saber quantos milhares de anos foram precisos para tomar as feições humanas, o tempo que demorou na raça indígena e na preta, até chegar à branca, e nem as várias nacionalidades que adotou na sua trajetória… E o espírito passará a outro planeta mais adiantado. Daí, em escala sempre ascensional, de planeta em planeta…” (A. Dias, Contribuições para o Espiritismo, 2ª ed. Rio 1950, p. 18 ss).

Também AK julga muito provável que o homem descende diretamente do macaco, ao menos quanto ao corpo (VI, 200 s) e quanto à parte espiritual, ele declara que deve ter passado “pela série divinamente fatal dos seres inferiores, entre os quais se elabora lentamente a obra da sua individualização” (VI, 111, cf. ib. p. 204 e I, 290).

d) Os espíritas negam também a unidade do gênero humano: Não somos filhos de Adão e Eva. Segundo AK, Adão foi “um mito ou uma alegoria que personifica as primeiras idades do mundo” (I, 65) e declara abertamente que “Adão não foi o primeiro, nem o único a povoar a terra”.

8) A Divindade de Cristo

Cristo é verdadeiramente Deus, a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade. Eis uma verdade de nossa santa fé que é fundamental e negada a qual desaparece o Cristianismo. É por isso necessário insistir muito no dogma da divindade de Cristo, que é também negado pela heresia espírita. Faremos diversas instruções sobre tão importante e vital assunto. Consideraremos agora rapidamente alguns elementos do Evangelho em que Cristo mesmo, pelo seu modo de falar e agir, testemunha a sua divindade (primeiro ponto), para apresentar em seguida a doutrina espírita oposta a estas declarações de Jesus (segundo ponto).

1) Jesus testemunha abertamente a sua divindade

a) Apesar de muito humilde e modesto, Jesus sabe e declara que está acima de todo o criado, acima dos homens e dos anjos: afirma-se maior do que Jonas e Salomão (Mt 12, 41; Lc 11, 30); maior do que Moisés e Elias, testemunhas da transfiguração (Mt 17, 3); maior que David que o chama de Senhor (Mc 12, 35-37); maior que João Batista, por sua vez o maior dentre os filhos de mulher (Mt 11, 1-11). Nele os discípulos vêem aquilo que os profetas e reis em vão ansiaram ver (Lc 10, 24). É maior também que os anjos: faz-se servir por eles (Mt 4, 11), basta uma palavra sua para que o Pai lhe envie doze legiões de anjos (Mt 26, 53) e a um sinal seu os anjos reunirão o mundo todo ante o seu conspecto (Mt 13, 31; 24, 31). Mais do que os homens e os anjos, acima de uns e de outros, ele toma assento imediatamente junto a seu Pai celeste (Mc 13, 32).

b) Jesus exige de seus seguidores sentimentos que se devem somente a Deus: Exige fé absoluta em suas palavras e nas suas obras; não crer nele, é o pecado do mundo (Jo 16, 9); assim como se crê em Deus, assim devem crer nele (Jo 14, 1) e quem não crê nele, também não crê em Deus (Jo 5, 37 ss; 12, 44); exige um amor sem limites: seus discípulos devem distinguir-se por seu amor a ele (Jo 8, 42; 14, 15; 21, 23); “quem ama seu pai ou sua mãe mais do que a mim, não é digno de mim” (Alt 10, 37); “se alguém vem a mim e não odeia seu pai e sua mãe, sua mulher e filhos e irmãos e até a sua própria vida, não pode ser meu discípulo” (Lc 14, 25 s; Mt 10, 35 s); “bem-aventurados os que padecem perseguição por amor da justiça, por causa de mim…” (Mt 12, 39).

c) Faz milagres por força e em virtude própria: este poder sai dele como força e propriedade pessoal, quem quer que se acerque dele tem esta sensação (ainda falaremos sobre isso) e Cristo concede também aos discípulos o poder de fazer milagres em nome dele (Mc 5, 9; Lc 8, 39; Jo 5, 19; 11, 41; 14, 10).

d) Perdoa pecados, o que nenhum profeta jamais fizera e o que os seus contemporâneos qualificavam de blasfêmia, opinião que ele aprovou tacitamente. Disse ao paralítico: “Tem fé, filho, perdoados te são os teus pecados”. E eis que alguns escribas diziam entre si: “Ele blasfema!” Mas Jesus, conhecendo os seus pensamentos, disse: “Por que ajuizais mal em vossos corações? Pois o que é mais fácil dizer: perdoados te são os teus pecados; ou: Levanta-te e anda? Ora, vereis que o Filho do Homem tem na terra autoridade para perdoar pecados”; disse então ao paralítico: “Levanta-te, toma a tua cama e vai para tua casa” (Mt 9, 2 ss). Jesus chegou mesmo a transmitir aos seus discípulos a faculdade de perdoar pecados em seu nome (Jo 20, 23; Mt 18, 18).

e) Cristo atribui-se o poder de julgar os vivos e os mortos: o juízo e a sentença final são tão exclusivamente coisa sua, que nem sequer o Pai celeste tomará parte nela (Jo 5, 22; Mc 14, 62).

f) Jesus fala como supremo Legislador, igual em tudo ao Pai da Lei antiga: “Foi dito aos antigos…; eu porém vos digo…” (Mt 5, 21 ss); é senhor do Sábado (Mc 2, 27) e proíbe o divórcio, tolerado por Moisés (Mt 5, 32).

g) Aceita a adoração do cego de nascença (Jo 9, 18), dos discípulos depois de um milagre (Mt 14, 33), das santas mulheres depois de sua ressurreição (Alt 28, 9-17; Lc 24, 52) e particularmente de Tomé que exclama: “Senhor meu e Deus meu!” (Jo 20, 24-29).

Bastam por ora estas considerações para tirarmos a evidente conclusão de que Jesus não era apenas homem, não era pura criatura, mas que ele mesmo, falando de si e exigindo para si direitos exclusivamente divinos, se apresentou como verdadeiro Deus. Foi esta também a convicção do mais sincero Cristianismo de vinte séculos.

2) Mas os espíritas negam a divindade de Cristo:

a) AK, o codificador da Doutrina Espírita, deixou entre suas Obras Póstumas um “Estudo sobre a natureza de Cristo” (pp. 110-141), feito exclusivamente para “provar” que Cristo não é Deus. As dificuldades que ele e os mais espíritas levantam contra a Divindade de Cristo, serão examinadas em instrução especial. Para AK Cristo era um grande médium, nada mais, era o maior dos médiuns, o “médium de Deus” (VI, 294), mas não era Deus.

b) Também Leão Denis, Flammarion, Roustaing e os mais doutrinadores espíritas negam unanimemente a divindade de Jesus. Por exemplo, para L. Denis, Cristo “não é mais que o profeta de Deus, isto é, um intérprete, um porta-voz de Deus, um Espírito dotado de faculdades especiais, de poderes excepcionais, mas não superiores à natureza humana” (Cristianismo e Espiritismo, 5ª ed. p. 79). Para ele Jesus “era um divino missionário, dotado de poderosas faculdades, um médium incomparável” (p. 81), etc.

c) Do mesmo modo os outros espíritas, também os não-kardecistas, contestam a divindade de Cristo. Para todos eles Jesus não passa de “um grande médium”, de um espírito “evoluído bastante pelas inúmeras encarnações por que passou” (L. Braga, Umbanda e Quimbanda, 2ª ed. p. 45), ou, como dizem os espíritas do Redentor, “o maior e, portanto, o mais esclarecido e liberal espírito que tem vindo à terra”.

d) Tão comum e propaganda já é a negação da divindade de Cristo entre os nossos espíritas populares, que um deles nos escreveu numa carta o seguinte:

“Agora vamos esclarecer vossa opinião sobre Cristo: Dizeis que Ele é Deus; eu digo e todos os espíritas o dizem: Cristo não é Deus, e sim, um filho de Deus como todos nós o somos”.

Conclusão: Atenção! Os espíritas, embora neguem todos eles e renitentemente a divindade de Cristo, todavia, quando falam ou escrevem de Cristo, têm sempre muito cuidado e costumam usar de palavras elogiosas que enaltecem a personalidade e a doutrina moral de Jesus, e com isso eles pretendem cobrir a negação da divindade de Cristo. Muitos se deixam iludir com semelhante modo de falar. Atenção, portanto! Não se deixem os católicos ilaquear por tão falsa propaganda. A santa fé nos diz que Cristo não era apenas um grande homem, um profundo filósofo, etc., mas que ele é também verdadeiramente Deus. E este é o aspecto principal de Cristo. E este ponto, básico e fundamental para nossa fé, é unânimaente contestado pela Doutrina Espírita!

9) Jesus, o Filho de Deus

Insistamos ainda no dogma da Divindade de Cristo. Já vimos que os espíritas contestam unânimamente uma doutrina tão importante e decisiva para a nossa vida religiosa. Em vista da intensa propaganda espírita entre o nosso povo, é necessário repetir a verdadeira doutrina sobre a natureza de Cristo, doutrina que não apenas foi crida e pregada durante vinte séculos de Cristianismo, mas que foi ensinada pelo próprio Cristo, como verificamos na instrução anterior e como veremos ainda na presente:

1) Cristo mesmo ensinou sua Filiação Divina. Verdade é que na Sagrada Escritura a expressão “filho de Deus” não deve ser tornada sempre em sentido estrito e próprio, mas ocorre também para exprimir uma relação moral ou religiosa para com Deus. Assim são chamados “filhos de Deus” os anjos (Jó 1, 6; 38, 7; SI 88, 7), os homens justos (Sb 2, 13; Ecl 4, 11), os israelitas em geral (Ex 4, 22; Dt 14, 1) e no Novo Testamento os discípulos e fiéis (Mt 5, 9. 45; Lc 6, 35; 11, 52; 1 Jo 3, 1; 5, 2). Mas quando Jesus afirma de si que é Filho de Deus, entende esta expressão num sentido próprio, natural e essencial. Eis algumas considerações para comprovar o asserto:

a) Sempre que fala das suas relações com o Pai, serve-se invariavelmente da expressão: “Meu Pai, Pai meu” e quando fala das nossas relações com Deus usa com a mesma insistência o termo “Vosso Pai”. Já com isso ele distingue nitidamente sua filiação da nossa filiação divina.

b) Na conversação com Nicodemos Cristo fala de si em expressões que seriam blasfêmias se fossem proferidas por uma pura criatura:

“Assim como Moisés levantou a serpente no deserto, assim também deve ser levantado o Filho do homem, para que todo aquele que crer nele tenha a vida eterna. Pois de tal modo Deus amou o mundo, que deu seu Filho Unigênito para que todo aquele que crê nele não pereça, mas tenha a vida eterna. Porque Deus não enviou seu Filho ao mundo para julgar o mundo, mas para que o mundo se salve por ele. Quem crê nele não é julgado; mas quem não crê já está julgado, porque não creu no nome do Filho Unigênito de Deus” (Jo 3, 14-18).

c) Aos setenta e dois discípulos que voltam alegres do primeiro ensaio missionário, declara:

“Todas as coisas me foram dadas por meu Pai; ninguém conhece o Filho senão o Pai; e ninguém conhece o Pai senão o Filho e aquele a quem o Filho o quiser revelar” (Mt 11, 27; Lc 10, 22).

d) Na Judéia declara depois ao povo em geral:

“Em verdade, em verdade vos digo… tudo o que o Pai faz, o Filho o faz igualmente… Pois assim como o Pai ressuscita os mortos e lhes dá vida, assim também o Filho dá vida àqueles a quem o quer. Porque o Pai não julga ninguém, mas deu todo o juízo ao Filho, para que todos honrem o Filho como honram o Pai… Assim como o Pai tem a vida em si mesmo, assim também deu ao Filho que tivesse vida em si mesmo” (Jo 5, 19-22. 26).

Os judeus entendiam bem a palavra de Jesus, pois esclarece o Evangelista:

“Os judeus procuravam com maior ardor matá-lo, porque não somente violava o sábado, mas também dizia que Deus era seu Pai, fazendo-se igual a Deus” (Jo 5, 18; 10, 30-33).

e) Em Jerusalém dirigem a Jesus esta pergunta categórica: “Quem és tu?” Ao que Cristo respondeu outra vez com tanta clareza que era Deus (leia-se todo o capitulo 81) que os judeus tornaram a pegar em pedras para apedrejá-lo, pena que era imposta aos blasfemadores (Jo 8, 59).

f) É impossível resumir ou ao menos destacar todas as mais nítidas declarações de Jesus sobre sua Divindade, tão abundantes são elas no Evangelho de São João: Ele é “a luz do mundo” (Jo 8, 12); “eu sou o caminho, a verdade e a vida” (Jo 14, 6); “eu sou a ressurreição e a vida” (Jo 11, 25); “eu e o Pai somos um” (Jo 10, 30); “o Pai está em mim e eu no Pai” (Jo 10, 39); “quem me vê, vê também meu Pai” (Jo 14, 0); “eu estou no Pai e o Pai em mim” (Jo 14, 11); “tudo o que o Pai tem é meu … Pai, tudo o que é meu é teu, e tudo o que é teu é meu” (Jo 16, 15; 17, 10); “quem odeia o Filho também odeia o Pai” (Jo 15, 23), ”quem ama o Filho também é amado pelo Pai” (Jo 16, 27); “Pai, glorifica-me junto a ti mesmo com aquela glória que eu tinha junto de ti antes que o mundo existisse” (Jo 17, 5), etc.

g) Arrastado às barras do Sinédrio, supremo tribunal de Israel, foi solene e oficialmente intimado por Caifás:

“Conjuro-te pelo Deus vivo, que nos digas se tu és o Cristo, o Filho de Deus!”

Clara, categórica, solene e oficial foi também a resposta — e porque Cristo se confessou Deus, por isso foi condenado à morte (Mt 26, 59-67). Afinal, foi essa também a verdadeira razão que seus inimigos deram a Pilatos:

“Nós temos uma lei, e segundo essa lei ele deve morrer, porque se fez Filho de Deus” (Jo 19, 7).

2) Tão claras, repetidas e solenes declarações de Jesus são negadas e contraditadas também pelos espíritas de todos os matizes, como antigamente pelos judeus, que o crucificaram. Jesus jura ser o Filho de Deus em sentido próprio e natural e morre crucificado em testemunho de sua Divindade. E vejam como AK explica tudo isso:

“Digamos que Jesus é Filho de Deus, como todas as criaturas, que ele chama a Deus Pai, como nós aprendemos a tratá-lo de nosso Pai. É o Filho bem-amado de Deus, porque, tendo alcançado a perfeição, que aproxima a Deus a criatura, possui toda a confiança e afeição de Deus. Ele se diz Filho único, não porque seja o único ser que haja chegado à perfeição, mas porque era o único predestinado a desempenhar aquela missão na Terra” (VII, 137).

Eis como se sofismam as mais solenes afirmações de Cristo! Em vez de acreditar no que nos referem os Evangelhos, os espíritas inventam histórias e contam fábulas sem fundamento. Dizem que dos 12 aos 30 anos Jesus foi estudar na escola de José de Arimatéia, que, como eles dizem, era chefe de uma seita de Cabala e ensinava “ciências, maçonaria, esoterismo e magia”.

“Seita esta que possuía muitos discípulos com vários graus de adiantamento moral, espiritual e intelectual, destacando-se entre eles João Batista, o mais evoluído”.

“José de Arimatéia, vendo em Jesus, aos 12 anos, um espírito adiantado, quero dizer, espiritualmente evoluído e reconhecendo ser ele um predestinado, tratou de educá-lo carinhosamente, desenvolvendo nele os dons mediúnicos que ele possuía em estado latente e ensinando-lhe os mistérios de Cabala e toda a filosofia da seita, da qual era o supremo chefe” (L. Braga, Umbanda e Quimbanda, 8ª ed. pp. 45-47; cf. Leão Denis, Depois da Morte, 6ª ed. p. 65).

Para os espíritas, portanto, Jesus não passa de um jovem inteligente que foi estudar ciências ocultas, cabalismo, maçonaria, esoterismo e magia na escola de Arimatéia…

Conclusão: Rejeitemos com energia as fantasias espíritas! Renovemos a nossa fé na Divindade de Jesus Cristo! Digamos e repitamos com São Paulo:

“A Ele, o Rei dos séculos, imortal, invisível, único Deus, honra seja e glória pelos séculos dos séculos” (1 Tim 1, 17).

10) Os Milagres de Jesus

1) a) A fim de provar sua Divindade, Nosso Senhor apontou frequentemente para seus milagres:

“Se não quiserdes crer em mim (nas minhas palavras), crede nas minhas obras (milagres), porque essas dão testemunho de mim” (Jo 10, 18).

Ressuscitando a Lázaro, Cristo declara expressa¬mente que o faz “para que creiam que tu (Deus) me enviaste” (Jo 11, 41). E assim outras muitíssimas vezes Jesus aponta para seus milagres como prova da veracidade de suas palavras e doutrinas: cf. Mt 11, 2-6; Lc 5, 24; 7, 19- 23; Jo 5, 36; 10, 37-38; 15, 22, etc. E em vista desses milagres todos, o povo ia acreditando em Jesus, os Apóstolos se lhe lançavam aos pés e o adoravam como Deus, sem que Jesus corrigisse tais interpretações, que, aliás, eram por ele intencionadas. Podemos, pois, dizer com segurança que Cristo fez os milagres para provar sua Divindade e que, portanto, os milagres de Jesus são um verdadeiro argumento para corroborar a nossa fé em Cristo, o Filho de Deus.

b) São João fecha o seu Evangelho com estas palavras:

“Muitas outras coisas há que fez Jesus, as quais, se se escrevessem uma por uma, creio que nem no mundo todo poderíam caber os livros que seria preciso escrever” (Jo 21, 25).

Não temos, portanto, uma relação completa dos milagres de
Jesus. Alas os Evangelistas enumeram mais de quarenta e de todas as espécies, tanto sobre a natureza animada como inanimada. Cristo aí aparece como o senhor absoluto sobre a vida e a morte, sobre os elementos e as enfermidades, sobre os demônios e os pensamentos mais secretos de seus adversários. Ele ressuscita mortos; com uma palavra sua cura doentes, mesmo a grandes distâncias; amaina tempestades; transforma água em vinho; multiplica pães; expulsa demônios e confunde os inimigos com a revelação de seus segredos e pensamentos e, depois de impiedosamente morto, ressuscita por própria força e virtude.

c) E observe-se que Cristo realizou estes milagres inopinadamente, sem preparação, num instante, à simples manifestação de sua vontade, sem auxilio de medicina ou ingredientes. Fê-los nas praças públicas e cidades, aos olhos do povo e em pleno dia, enfrentando não raro os escribas e fariseus empenhados em descobrir alguma fraude. Algumas vezes, como no caso do cego de nascença, seguia-se a mais rigorosa inquirição jurídica, promovida por seus inimigos.

d) Muitíssimos destes milagres são de tal ordem que escapam inteiramente ao influxo de uma possível sugestão ou hipnotismo. Não haverá sugestão, nem hipnotismo nem força natural capaz de ressuscitar com uma simples ordem um morto, ou de multiplicar pães, ou transformar água em vinho, ou amainar tempestades, ou mesmo curar, doentes distantes.

2) E o que nos dizem os espíritas de tudo isso? Para não precisarem admitir a Divindade de Cristo e, consequentemente, suas doutrinas, todos eles negam inteiramente os milagres de Jesus! Chegam mesmo a negar a possibilidade do milagre como tal. Segundo AK Jesus não passava de um poderoso médium que possuía “faculdades idênticas às dos nossos magnetizadores, curadores, sonâmbulos, videntes, médiuns, etc.” (VII, 114). E os chamados “milagres” eram simples efeitos do magnetismo, do sonambulismo, da anestesia, da transmissão do pensamento, da dupla vista, do hipnotismo, da catalepsia, etc. (VII, 114). Donde conclui:

“Importa, pois, se risquem os milagres do rol das provas sobre que se pretende fundar a divindade da pessoa de Cristo” (VII, 115).

E num tratado especial AK se põe a explicar assim todos os milagres (VI, 292-336): Segundo ele tudo aquilo era simples efeito do poder de vista dupla (297, 319), da irradiação fluídica (298, 318), da corrente fluídica (299), do efeito magnético (299), do fluido curativo (308), da ação do fluido espiritual ou magnético (308), do poder fluídico (315), do fluido vivificante (315), da força fluídica (317), do fluido perispirítico (318), etc. — E os homens a pensarem que tudo era milagre! E Jesus a sustentar que fazia tudo isso para provar sua missão e a veracidade de seus ensinamentos! E os Apóstolos a prostrarem-se-lhe aos pés para o adorar como Deus! E Jesus — nada explica, nada esclarece, deixa que acreditem, permite que o adorem, consente que o tratem de Deus… E assim a Cristandade toda, até a vinda de Kardec… Positivamente: ou Cristo era mesmo Deus, ou era um pobre iludido, ou então — um verdadeiro patife!

O interessante, porém, é que os espíritas não conseguem explicar todos os milagres de Cristo: é que os Evangelhos narram casos miraculosos ante os quais permanece impotente a ação fluídica ou perispirital, como já mostramos no primeiro ponto. Por exemplo, as narrativas sobre a ressurreição dos mortos. O próprio AK concede como verdadeiro milagre “o fato de voltar à vida corpórea um indivíduo que se achasse realmente morto” (VI, 315). E como explica ele então estas ressurreições sem apelar ao milagre? Declara simplesmente que os tais não estavam mortos!

“É de todo ponto provável — diz ele — que apenas síncope ou letargia houvesse” (VI, 315).

Pronto! Eis aí a exegese espírita. Pouco importa que Jesus mesmo declarasse abertamente, falando de Lázaro: “Lázaro morreu” (Jo 11, 14). Os espíritas não querem milagres, Jesus não pode ter feito milagres e portanto Lázaro não estava morto! Do mesmo modo irreverente são tratados outros milagres: a mudança da água em vinho nas bodas de Caná (VI, 320); a multiplicação dos pães (VI, 321), etc., tudo isso não passa — segundo AK — de invenção dos Evangelistas, ou de acréscimo posterior, ou de simples alegoria de Cristo — mas milagres não eram…

A absoluta falta de seriedade dos espíritas na explicação do Evangelho, o modo arbitrário como eles procedem, a cega obstinação com que negam a Divindade de Cristo, o ridículo a que com isso mesmo se expõem, pode ser exemplificado com um texto que tiramos dum livro espírita escrito aqui no Brasil, em que seu autor concede o fato da ressurreição de Lázaro, explicando-o, porém, da seguinte maneira:

“Jesus orou e pediu ao Pai a assistência dos Espíritos de alta hierarquia científica celeste, e, com o auxílio dos altos Cientistas invisíveis, por meio da química astral, existente no Laboratório da natureza, empregando processos químico- físicos do astral natural, pôs em movimento os glóbulos sanguíneos sob a ação de fluidos benéficos da natureza, transformou cientificamente os átomos deteriorados do cadáver de Lázaro, fazendo circular o sangue novo em suas veias e ordenando a volta do Espírito ao corpo: ‘Lázaro, a ti te digo: Surge e caminha’.  E o corpo morto pôde receber seiva da vida, para continuar no convívio de sua família” (Kardec Rangel Veloso, Pseudo-Sábios ou Falsos Profetas, 1947, p. 80)…

Conclusão: Diz o Evangelho que “muitos creram no seu nome (de Cristo), vendo os prodígios que fazia” (Jo 2, 23; 11, 45); tendo presenciado o milagre de Caná, “creram nele os seus discípulos” (Jo 2, 11), e amainada a tempestade, “os que estavam na barca, aproximaram-se dele e o adoraram dizendo; Verdadeiramente tu és o Filho de Deus” (Mt 14, 33). Esta deve ser também a nossa atitude perante os milagres de Cristo, nosso Senhor: dobremos também nós os joelhos, inclinemos nossa fronte e adoremos o “Verbo que se fez carne e habitou entre nós” (Jo 1, 14).

11) Objeções contra a Divindade de Cristo

A decisiva importância que a fé na Divindade de Jesus tem para a nossa vida terrestre como também para a eterna felicidade que nos espera, exige que continuemos ainda no assunto. Consideraremos agora as principais dificuldades que os espíritas, obstinados adversários deste ponto central de nossa fé cristã, fazem e propagam contra a Divindade de Cristo nosso Senhor:

1) Em nenhuma parte do Novo Testamento encontramos uma só vez Cristo afirmando formalmente que era Deus.

— Resposta: O que Jesus nunca disse foi: “Eu sou Deus Pai”. Os espíritas negam ou ignoram o mistério trinitário e por isso não são capazes de entender as palavras de Cristo, quando diz, repete e jura ser o “Filho de Deus”. Mas na boca de Cristo significava que era Deus, tão verdadeiramente que os inimigos de Jesus muito bem o entenderam, a ponto de o terem condenado precisamente por isso. Jesus chegou mesmo a aplicar a si a definição de Deus: “Eu sou” (Jo 8, 58), o que os judeus bem entenderam, pois “pegaram em pedras para o apedrejarem” (Jo 8, 59). Aliás, por que querem os espíritas fazer de Jesus um médium, se ele formal¬mente nunca disse que era médium?…

2) Jesus mesmo declarou que é inferior ao Pai: “O Pai é maior do que eu” (Jo 14, 28); logo não é igual ao Pai, nem é Deus.

— Resposta: Nossa fé nos ensina que em Cristo há duas naturezas perfeitas e inconfusas: Jesus é verdadeira¬mente Deus (e como tal pôde dizer: “Eu e o Pai somos um”, (Jo 10, 30) e verdadeiramente homem (e como tal disse bem que “o Pai é maior”) e ora falava como Deus, ora como homem; ora agia como Deus, ora como homem. ‘

3) Mas muitas vezes Jesus se diz “enviado do Pai”; ora, quem envia é superior ao que é enviado logo Cristo não é Deus.

— Resposta: Esta, como outras dificuldades semelhantes, feitas contra a doutrina católica, teimam em ignorar que Jesus tinha também uma natureza humana verdadeira e completa, na qual era evidentemente inferior à natureza divina.

4) Se Jesus, ao morrer, entrega sua alma às mãos de Deus, é que ele tinha uma alma distinta de Deus, submissa a Deus. Logo ele não era Deus.

— Resposta: Estas palavras textuais de AK (VII, 122) incidem no mesmo erro das dificuldades anteriores: Não negamos absolutamente que Cristo tinha uma verdadeira alma humana, como nós, distinta de Deus e submissa a Deus. Mas dai não segue que não era Deus; segue apenas que era verdadeiramente homem; é o que a fé nos ensina.

5) É verdade que uma vez Jesus parece ter falado de tal modo que os ouvintes podiam entender ser ele verdadeiramente Deus, de forma que os judeus queriam até apedrejá-lo. Mas Jesus desfez imediatamente o equívoco, esclarecendo o sentido de suas palavras:

“Não está escrito na vossa lei: Disse eu: Vós sois deuses? Ora, se a Escritura chamou deuses àqueles a quem a palavra de Deus foi dirigida — e a Escrituras não pode falhar — a mim, a quem o Pai santificou e enviou ao mundo, vós dizeis: Blasfemas! porque eu disse que sou filho de Deus?” (Jo 10, 34-36).

E Jesus deixou de ser apedrejado.

— Resposta: Há nesta afirmação de L. Denis vários pontos que devem ser retificados: não foi só “uma vez” que Jesus deu aos ouvintes a impressão de igualar-se a Deus! Nem é verdade que Jesus deixou de ser apedrejado por causa deste esclarecimento, mas porque “escapou-se de suas mãos” (Jo 10, 39). Depois, o que o herege não viu nesse texto, mas que deveria ter visto e é essencial, é a nítida distinção que Jesus faz entre o caso dos “deuses” e seu caso. Jesus diz:

“Se não vos escandalizais que a Escritura chame de deuses aqueles a quem veio a palavra de Deus, como vos quereis escandalizar se Eu, que fui santificado e enviado ao mundo pelo Pai Celeste, me declaro Filho de Deus?”

Não há nisto nenhum recuo de Jesus, é antes uma reafirmação, por meio dum argumento ad hominem, cujo fundo é este:

“Eu sou muito mais do que aqueles que pela própria Escritura foram chamados deuses!”

Portanto Jesus não atenua sua afirmação anterior (em Jo 10, 30) e prova disto é que os judeus, mal acabara Jesus de falar, “procuraram prendê-lo” (Jo 10, 39).

6) A ciência moderna provou que muitas coisas que os antigos tinham como milagres, hoje são perfeitamente explicáveis.

— Resposta: Os antigos eram, com efeito, menos versados nas coisas da natureza. Mas também não devemos exagerar a credulidade dos conteporâneos de Jesus. Em Jo 9, 1-34 temos um belo exemplo de uma rigorosa inquisição e análise de um fato milagroso e os adversários de Jesus levantaram já então toda sorte de dificuldades para contestar o caráter divino dos prodígios de Cristo. Nem os Após¬tolos eram uns basbaques ou irrefletidos, destituídos de senso crítico. A teimosia de um São Tomé, ostensiva e empoada, bem o prova. E todos os dados da ciência moderna jamais poderão o chamar à vida um morto de quatro dias que “já cheira mal” (Jo 11, 39) no momento exato a que a isso o conjura.

7) Nada há de anormal em que Jesus possuísse faculdades idênticas às dos nossos magnetizadores, curadores, sonâmbulos, videntes, médiuns, etc.

— Resposta: Há muitíssimo de anormal, sim, em que Jesus com tais meios naturais produzisse dezenas de milagres atribuídos por ele ao “poder de Deus”, à “glória de Deus”, etc. Seria uma infâmia e um embuste crasso. Seria uma anormalidade moral inigualavelmente maliciosa. De resto, há uma diferença imensa entre o modo de proceder de Jesus e o dos tais médiuns e magnetizadores. E, notamos mais uma vez: muitos dos milagres de Jesus escapam de todo às forças magnéticas ou fluidicas, de modo que os próprios espíritas se vêem obrigados a negá-los.

8) Particularmente as ressurreições nada provam, vis¬to que não consta com certeza que estavam de fato mortos, pois hoje sabemos que há síncopes e letargias que apresentam todos os sintomas de morte. Quanto à filha de Jairo, Jesus diz expressamente que ela “apenas dorme”.

— Resposta: Quando Jesus diz que a filha de Jairo “apenas dorme” Kardec é todo ouvidos e se apressa em acentuar este fato; mas quando Jesus, no caso de Lázaro, depois de dizer que “dorme” explica e diz peremptoriamente: “Lázaro morreu’’ (Jo 11, 15), aí o despreocupado mestre espírita não entende mais a palavra do Evangelho e nem a menciona… Mas mesmo no caso da filha de Jairo, há no relato de São Lucas uma prova evidente de que se tratava de uma morte real. Pois o Evangelista, depois da ressurreição operada por Jesus, acrescenta:

“E voltou o seu espírito e ela (a menina) levantou-se imediatamente” (Lc 8, 55).

9) A divindade de Jesus, rejeitada por três sínodos, o mais importante dos quais foi o de Antioquia em 269, foi, em 325, proclamada pelo concilio de Nicéia. Logo o Cristianismo primitivo não conhecia a divindade de Cristo.

— Resposta: Eis aí como se falsifica a história! Leão Denis (pois veio dele esta sabedoria) fala em três sínodos, mas menciona um só: o de Antioquia em 268 (e não 269!) em que foi condenado precisamente Paulo de Samósata por negar a divindade de Cristo! Mas já muito antes disso, na própria Igreja apostólica, a Divindade de Cristo era uma verdade indubitável. Apenas um texto de São Paulo:

“É ele (Cristo) o Primogênito, anterior a toda a criatura; porque nele foram criadas todas as coisas, no céu e na terra, visíveis e invisíveis, quer sejam tronos ou dominações ou potestades, tudo foi criado por ele para ele. Ele está acima de todos e nele tudo subsiste” (Col 1, 15-17)

E em vez de citar como testemunhas da fé na Divindade de Cristo os Santos Padres do primeiro século, preferimos terminar com a citação de um pagão, Plínio (Ep. X, 97), que fala dos cristãos que costumavam em dia designado “reunir-se de madrugada e rezar alternadamente um verso a Cristo como se fora Deus” (ante lucem convenire carmenque Christo quasi Deo dicere secum invicem).

12) A Humanidade de Jesus

A fé nos ensina que Cristo era verdadeiramente Deus e verdadeiramente homem. É necessário insistir contra a propaganda espírita também na humanidade de Cristo, não só porque os espíritas querem fazer crer que, segundo os católicos, Cristo seria apenas Deus e não também homem perfeito (cf. AK VII, 127), mas principalmente porque a Federação Espírita Brasileira defende e propaga oficialmente a tese de que Cristo não era nem Deus nem homem.

1) Dizer que Jesus é verdadeiramente homem é o mesmo que afirmar que ele tinha um verdadeiro e real corpo humano e uma verdadeira alma humana, como todos nós.

a) Cristo tinha um corpo real. É concebido como homem, pois o anjo diz a Maria:

“Eis que conceberás no teu ventre, e dará à luz um filho…” (Lc 1, 31).

Nasce como homem:

“E deu à luz o seu filho primogênito, e o enfaixou, e o reclinou numa manjedoura” (Lc 2, 7).

Está sujeito ao crescimento como todos os homens:

“E Jesus crescia em sabedoria, em idade e em graça diante de Deus e diante dos homens” (Lc 2, 52).

Em toda a parte se comporta como homem entre os homens; fala com eles, sente fome (Mt 4, 2; Lc 4, 2), sede (Jo 19, 28), come e bebe (Mt 11, 19; Lc 7, 34), dorme (Mt 8, 25), caminha e se cansa no andar (Jo 4, 6), sua sangue (Lc 22, 44), é flagelado, crucificado, morre na cruz e é sepultado — portanto se apresenta com um real e verdadeiro corpo humano, de modo que ainda depois de sua ressurreição podia declarar:

“Olhai para as minhas mãos e pés, porque sou o mesmo; palpai e vede, porque um espírito não tem carne, nem osso, como vós vedes que eu tenho” (Lc 24, 39).

E São João inicia sua primeira epístola:

“O que foi desde o princípio, o que ouvimos, o que vimos com os nossos olhos, e contemplamos, e apalparam as nossas mãos relativo ao Verbo da Vida… o que vimos e ouvimos, vo-lo anunciamos”.

b) Cristo tinha também uma verdadeira alma humana. Não devemos imaginar que Cristo só tinha corpo e em lugar da alma estaria a divindade, o Verbo. Ele mesmo falou diversas vezes de sua alma: “A minha alma está triste até a morte” (Mt 26, 38); “agora a minha alma está turbada” (Jo 12, 27); e moribundo, exclama:

“Pai, em tuas mãos entrego o meu espírito” (Lc 23, 46)

Cristo fala também de sua vontade humana:

“Pai, não se faça a minha vontade (humana), mas a tua” (Lc 22, 52).

Encontramos ainda frequentemente nos Evangelhos os afetos da alma humana de Cristo: afetos de amizade (Mc 10, 21; Jo 11, 36), de desejo (Lc 22, 15), de ódio contra o mal e a hipocrisia (Mt 23, 1 ss), de tristeza (Lc 19, 41; Jo 11, 35 s), de compaixão (Lc 7, 15), de temor (Mc 14, 33), de ira (Jo 2, 13 s; Mc 3, 5), etc., tudo isso supõe uma verdadeira alma humana.

É portanto certo que Cristo era homem perfeito: consta dos Evangelhos e é ensinado pela Igreja como verdade de fé.

2) Mas como os espíritas assumiram o compromisso de negar todas as verdades de nossa santa fé (é esta ao menos a impressão que eles dão), resolveram contestar também o dogma da humanidade de Cristo, para defender que Jesus tinha apenas um corpo aparente ou, como eles dizem, fluídico. AK pessoalmente é contra a tese do corpo fluídico de Cristo (cf. VI 333-335). O autor desta singular teoria (aliás uma repetição do docetismo dos primeiros tempos cristãos) é João Batista Roustaing e por isso seus adeptos são chamados também “rustenistas”. Aqui no Brasil, todavia, a tese rustenista é oficialmente amparada e patrocinada pela Federação Espírita Brasileira, que sobre o assunto publicou diversos livros e inúmeros artigos. Entre os livros se destacam particularmente os do próprio Roustaing, agora inteiramente refundidos pela Federação. O então presidente da Federação Espírita, Guillon Ribeiro, compendiou toda a negativa doutrina espírita sobre Cristo no herético título que j deu ao livro: Jesus nem Deus nem Homem — titulo que sintetiza com exatidão todas as heresias e negações espíritas diante de Cristo. Também Antônio Lima, em sua Vida de Jesus, editada pela mesma Federação, se mostra rustenista convicto. Queremos citar ao menos uma frase: Depois de expor que Jesus não podia ficar sujeito a uma prova nem muito menos a uma expiação, sob pena de periclitar a justiça de Deus, conclui:

“Do que resulta que o Divino Mestre, para descer a esta abafeira, fê-lo sem necessidade de se revestir de um envoltório carnal, no sentido em que conhecemos esta mortalha, mas simplesmente atraindo, com os seus poderes magnéticos, condensando-os, os fluidos dispersos no éter, os íons, conforme a Ciência os classifica atualmente, de maneira a se tornar visível e palpável, como após a sua Ressurreição o fez perante seus discípulos e a Tomé, testemunhando a possibilidade de viver materialmente independente do invólucro de carne e osso” (p. 187).

Conclusão: O primeiro a combater esta heresia, foi o próprio São João Evangelista, que já no seu tempo se enfrentou com os docetistas. A mesma admoestação que este grande Apóstolo fez em sua primeira epístola contra o docetísmo, pode servir também hoje contra o espiritismo rustenistas:

“Caríssimos, não queirais crer em todo o espírito, mas examinai os espíritos se são de Deus; porque muitos falsos profetas vieram para o mundo. Nisto se conhece o espírito de Deus: Todo o espírito que confessa que Jesus Cristo veio em carne, é de Deus; e todo o espírito que divide Jesus, não é de Deus; mas este é um Anticristo, do qual ouvistes que vem, e agora já está no mundo” (1 Jo 4, 11-3).

E na segunda epístola:

“Muitos sedutores se têm levantado no mundo, que não confessam que Jesus Cristo tenha vindo em carne; este tal sedutor é Anticristo. Estai alerta sobre vós, para que não percais o fruto do vosso trabalho, mas recebais uma plena recompensa. Todo o que se aparta e não permanece na doutrina de Cristo, não tem união com Deus; o que permanece na doutrina, este’ tem união com o Pai e Filho. Se alguém vem a vós, e não traz esta doutrina, não o recebais em casa, nem o saudeis. Porque quem o saúda, participa das suas obras más” (2 Jo 7-10).

13) Nossa Redenção por Cristo

A fé não nos fala somente da natureza de Cristo, não nos apresenta apenas o “Verbo que se fez carne”, mas ensina-nos também que Cristo é nosso Mediador e Redentor. E os espíritas, por seu turno, esses profissionais negadores dos dogmas cristãos, não se riem apenas das verdades relativas à natureza de Cristo, eles zombam também da principal obra de Jesus: a nossa redenção por Seu precioso sangue. Veremos por isso: 1) o que nos diz a Revelação divina sobre a nossa Redenção por Cristo e 2) a insolente atitude dos espíritas perante essa maior manifestação da bondade e misericórdia de Deus.

1) Ensina a Igreja que Nosso Senhor Jesus Cristo “pela excessiva caridade com que nos amou” (Ef 2, 4), “satisfez por nós ao Eterno Pai com sua santíssima Paixão no lenho da cruz” (DB 799). Cabeça moral de todo o gênero humano, Cristo tomou livremente sobre si a obrigação de satisfazer pelos pecados dos homens que, por si sós, eram incapazes de reconciliar-se com Deus. É o que transparece de quase todas as páginas do Novo Testamento. Pode-se dizer que precisamente nisto consiste a Boa Nova do “Evangelho”. Vejamos ao menos algumas passagens mais expressivas:

a) Já o profeta Isaías predisse, falando do Messias (e Jesus expressamente aplicou a si esta passagem, cf. Lc 22, 37):

“Verdadeiramente ele foi o que tomou sobre si as nossas fraquezas, e ele mesmo carregou com as nossas dores… foi ferido por causa dos nossos crimes; foi atribulado por causa das nossas maldades… Deus pôs nele as iniquidades de todos nós” (Is 53, 4-6).

b) Quando nasceu Jesus, os anjos o anunciaram aos pastores:

“Eis que venho comunicar-vos uma grande alegria: Nasceu o Salvador!” (Lc 2, 10).

E João Batista o apresentou:

“Eis o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo” (Jo 1, 29).

c) Também o próprio Jesus declarou diversas vezes ter vindo para “dar a sua vida como preço de resgate por tos” (Mc 10, 45; Mt 26, 28; Lc 19, 10; 22, 20; Jo 10, 15)

d) E São Pedro admoesta: “Fostes remidos não ouro e prata corruptíveis, mas pelo sangue de Cristo culado”; “o qual lavou no seu corpo os nossos pecados sobre o lenho, a fim de que, mortos para o pecado, vivamos para a justiça” (1 Pd 1, 18; 2, 24).

e) As epístolas de São Paulo, então, só se entendem à luz desta idéia, animada, ademais, pelo conceito do Corpo Místico de Cristo pelo qual a paixão, a morte e a ressurreição de Cristo se tornam nossos, como é nosso o pecado de Adão. A epístola aos hebreus é toda uma teologia da redenção. Aos efésios escreve:

“É nele que temos a redenção, devido à riqueza da sua graça, que em torrentes derramou sobre nós” (1, 7). “Foi do agrado do Pai que residisse nele toda a plenitude, e que por ele fossem reconciliadas consigo todas as coisas, pacificando, pelo sangue da sua cruz, tanto as coisas da terra, como as coisas do céu” (Col 1, 20).

E a Timóteo, depois de lembrar que Jesus “se entregou como resgate por todos”, escreve o grande das gentes:

“Tal é a mensagem da salvação que em se anunciou e da qual fui eu constituído arauto e — digo a verdade e não minto — para ser doutor dos gentios, fiel e verídico” (1 Tim 2, 5-7).

Aos gálatas ensina que “Cristo livrou-nos da maldição da lei, tornando-se ele mesmo a maldição por nós” (3, 13). E aos romanos declara que “fomos reconciliados com Deus pela morte de seu Filho” (5, 10).

f) Também São João é claro e explícito:

“Ele mesmo é a propiciação pelos nossos pecados, não pelos nossos somente, mas também pelos de todo o mundo” (1 Jo 2, 2).

g) Foi assim também que a Igreja o entendeu sem interrupção. Já o discípulo de João, São Policarpo, escreve aos filipenses:

“Cristo Jesus que tomou os nossos pecados sobre o seu corpo no lenho da cruz, ele que não fez pecados, tudo sofreu por nossa causa, para que nele vivamos” (cap. 8). Etc. etc.

2) Hereges profissionais, os espíritas têm a ousadia de negar também este maior benefício que Deus fez à humanidade. Para defender as fantasias da reencarnação, sistema pelo qual cada um deve remir-se a si mesmo por uma interminável sucessão de vidas terrestres, os pertinazes adeptos de Allan Kardec e da Linha de Umbanda se levantam contra Deus e contra a obra de Cristo. Ainda recentemente Ío órgão oficial da Federação Espírita Brasileira declarava:

“A salvação não se obtem por graça nem pelo sangue derramado por Jesus no madeiro”, mas “a salvação é ponto de esforço individual que cada um emprega, na medida de suas forças” (Reformador, Out. 1951, p. 236).

E AK insiste muitas vezes neste ponto: “As almas não atingem o grau supremo senão pelos esforços que façam por se melhorarem e depois de uma série de provas adequadas à sua pu-rificação” (III, 15); “todos são filhos de suas próprias obras” (VI, 28); o Criador “quis que a perfeição resulte da depuração gradual do Espirito e seja obra sua” (VI, 70); a criatura “atinge a felicidade pelo próprio mérito” (V, 75), etc. etc. E Leão Denis:

“Não, a missão de Cristo não era resgatar com o seu sangue os crimes da Humanidade: O sangue, mesmo de um Deus, não seria capaz de resgatar ninguém. Cada qual deve resgatar-se a si mesmo; resgatar- se da ignorância e do mal. Nada de exterior a nós podería fazê-lo. É o que os Espíritos (das sessões espíritas), aos milhares, afirmam, em todos os pontos do mundo” (Cristianismo e Espiritismo, 5ª ed. p. 88).

A tal cinismo chegam os espíritas, que eles fazem aparecer Nossa Senhora em suas sessões (é o que eles dizem!) para trazer mensagens como essas:

“Jesus não podia nem quis assumir todas as responsabilidades individuais, contraídas ou por contrair, emanadas dos pecados dos homens e muito menos podia, pelo sacrifício da sua vida, remir a Humanidade da pena do desterro a que fora condenada… A redenção da Humanidade não se firma, pois, nos méritos e sacrifícios de Jesus, e, sim, nas boas obras dos homens… Que cegueira! Quanta aberração! Supor e afirmar que os sofrimentos e a morte do Justo foram ordenados do Alto, em expiação dos pecados de todos, é a mais orgulhosa das blasfêmias contra a justiça do Eterno” (Roma e o Evangelho, 5ª ed. p. 129-131).

Se é incrível a ousadia dos espíritas em publicar tais mensagens com a assinatura de “Maria”, é mais pasmosa ainda a cínica afirmação à p. 63 deste mesmo livro:

“Registando as prédicas de Jesus e dos Apóstolos, capitulo por capítulo, versículo por versículo, vimos nelas claramente sua perfeita concordância com todos os fundamentos do Espiritismo — e não menos clara discordância com grande número de . dogmas do papado”.

Um dos nossos mais intelectuais espíritas, Carlos Imbassahy, declara que “nunca poderá crer no sacrifício vicario”, pois que sua razão “repelirá sempre, com uma força de esguicho, a iniquidade daquele processo, todo mecânico. Lá porque um outro pecou, ficamos mecanicamente responsáveis. E vai daí é preciso que corra o sangue do Cristo, que não tinha nada com isso, para, por esse mecanismo, ficarmos todos puros de um crime que não cometemos”; declara mais, que essa doutrina, “além de absurda, não passa de uma reminiscencia dos antigos sacrifícios, de velhas e estúpidas hecatombes, em que animais, crianças e homens eram imolados para aplacar a ira não menos estúpida dos deuses”; pensa que tudo seria apenas “para satisfazer a vaidade divina” (À margem do Espiritismo, 2ª ed. p. 222).

Conclusão: Espiritismo já não é Cristianismo: é puríssimo paganismo, é a negação radical do Cristianismo! Eis a conclusão que se impõe a esta altura. Pelo que já vimos, das verdades fundamentais da Doutrina Cristã não ficou de pé uma só: Revelação Divina, Santíssima Trindade, Divindade de Cristo, Redenção, Igreja — tudo negado e ridicularizado! Isso já não é Cristianismo. Para ser cristão não basta falar (mesmo piedosamente) de Cristo: é preciso aceitar e viver a doutrina de Jesus. Mas os espíritas negam tudo. Eles não são cristãos: são manifestamente anticristãos, pagãos. De Cristianismo ficou só a fachada, a capa, a pele. Cristo tinha muita razão em nos advertir contra os lobos que se apresentam “vestidos em pele de ovelha”. Atenção, portanto, católicos! Atenção, pois que é impossível permanecer Católico e ser espírita! Atenção, o voraz lobo espírita aí está, em vosso meio, “procurando a quem devorar”!

14) Maria Santíssima

A contemplação do Filho nos leva à meditação sobre sua beatíssima Mãe, Maria Santíssima. Saudada pelo anjo como “cheia de graça” (Lc 1, 28), ela disse de si mesma: “Fez em mim grandes coisas aquele que é poderoso” (Lc 1, 49) e de si profetizou: “Eis que, de hoje em diante, todas as gerações me chamarão bem-aventurada” (Lc 1, 48). Acompanhemos também nós este júbilo de “todas as gerações” e proclamemos bem-aventurada aquela que deu à luz o Cristo, o Filho de Deus. Veremos no primeiro ponto re¬sumidamente as principais glórias de Aíaria e mostraremos no segundo que a doutrina espírita nega um por um todos os dogmas mariológicos.

1) a) Maria Santíssima é verdadeiramente Mãe de Deus. Pois ela é em sentido próprio mãe de Jesus Cristo, que é verdadeiramente Deus:

“Eis que conceberás no teu ventre, e darás à luz um filho, a quem porás o nome de Jesus. . . O Espírito Santo descerá sobre ti, e a virtude do Altíssimo te cobrirá com sua sombra. E por isso o Santo, que há de nascer de ti, será chamado Filho de Deus” (Lc 1, 31. 35).

Ora, já vimos que Jesus Cristo é verdadeiramente Deus e isso desde o primeiro instante de sua conceição. Logo, a Virgem é realmente Mãe de Deus, ou, como a chamava Santa Isabel, Mater Domini, “Mãe do Senhor” (Lc 1, 43).

b) Foi por causa desta sua sublime dignidade que lhe fez “grandes coisas” Aquele que é poderoso (Lc 1, 49): “Cheia de graça”, foi, desde o primeiro instante de sua existência conservada isenta do pecado original. Não podia, com efeito, nem por um só momento, estar sob o poder do demônio aquela que seria a “Mãe do Senhor” e da qual já no Protoevangelho se afirmara que seria inimiga da Serpente (Gn 3, 15).

c) Proclama Pio IX, na Ineffabilis Deus que “Deus dispensou a Maria mais amor que a todas as outras criaturas” e por isso “a cumulou, de maneira tão admirável, da abun¬dância dos bens celestes do tesouro de Sua divindade, mais que a todos os espíritos angélicos e todos os santos de tal forma que … podia ostentar uma inocência e santidade tão abundantes, quais outras não se conhecem abaixo de Deus, e que pessoa alguma, além de Deus, jamais alcançaria, nem em espírito”. É ainda Pio IX que resume os louvores dos Santos Padres nestas palavras:

“Muitas vezes se dirigiram, à Mãe de Deus como a toda santa, a inocentíssima, a mais pura, santa e alheia a toda mancha de pecado, toda pura, toda perfeita, verdadeiro modelo de inocência e pureza, mais formosa que a beleza, mais amável que o encanto, mais santa que a santidade, a mais santa e pura de alma e corpo, a que superou a toda pureza e virgindade, tornando-se, realmente, a sede única das graças do Santíssimo Espírito, sendo, à exceção de Deus, mais excelente que todos os homens, por natureza, e até mais que os próprios Querubins e Serafins”.

d) Isenta de todo e qualquer pecado, ela foi livre também dos castigos do pecado: sem concupiscencia, sempre virgem, e sem necessidade de morrer e, portanto, em corpo e alma assumida ao céu.

“A augustíssima Mãe de Deus — proclama Pio XII, na Munificentissimus Deus — associada a Jesus de modo insondável desde toda a eternidade com um único decreto de predestinação … alcançou que fosse elevada em corpo e alma ao céu, onde refulge como Rainha à direita do seu Filho, Rei imortal dos séculos”.

2) a) Mas os espíritas estão longe de pensar assim. Não encontram jeito de participar nesse universal júbilo de “todas as gerações”. Diante da Virgem, não se sentem bem; não se sentem em casa. Por isso geralmente falam ou ao menos escrevem pouco de Maria Santíssima. Mas quando escrevem, é para proferir alguma irreverência. Em AK encontramos apenas uma única alusão, em que, porém, diz que “ela não fazia idéia muito exata da missão do filho, pois não se vê que lhe tenha nunca seguido os seus ensinos, nem dado testemunho dele, como fez João Batista” (IV, 199). Também Leão Denis fala de Maria; mas para dizer que “nem mesmo sua mãe (de Cristo) acreditava na sua divindade” (Cristianismo e Espiritismo, 5ª ed. p. 77).

b) Aliás, compreende-se perfeitamente esta falta de entusiasmo dos espíritas perante a Mãe de Jesus, pois, contestando eles obstinadamente a divindade de Cristo, devem consequentemente negar também a Maternidade Divina de Maria Santíssima. E com isso perderam o ponto central de toda a nossa Mariologia. É lógico, se Cristo não é Deus, Maria, sua mãe, perde o seu encanto e sua dignidade. Porque toda a grandeza de Maria, e toda a sua dignidade, está precisamente em sua divina maternidade. A posição espirita piora ainda para os que, com a Federação Espírita Brasileira, ne¬gam a real humanidade de Cristo, dizendo que Cristo tinha apenas um corpo aparente ou fluídico. Para todos eles Maria não passa de mãe “aparente” de Cristo, e não real, como expressamente diz Guillon Ribeiro (presidente da Federação Espírita) no livro Jesus nem Deus nem Homem (ed. de 1941, p. 29 s).

c) Não sendo “Mãe de Deus”, já não se encontrará nenhuma razão suficiente para afirmar os demais privilégios, pérolas com que a piedosa e reverente penetração dos teólogos ornou a esplêndida coroa da Mãe do Redentor. É por isso que os espíritas negam toda a Mariologia Católica. Deus, aliás, segundo os espíritas, nem poderia conceder favores ou privilégios: “Qualquer justiça” (IV, 76).

d) Por isso Maria Santíssima não teve o privilégio da “imaculada conceição”, mesmo porque, para os espíritas, nem há pecado original (V, 81). Negando em tese o dogma da ressurreição final de todos os homens (I, 458), os espíritas se riem também do novo dogma da Assunção corporal de Maria ao céu. Escrevendo sobre esse dogma, um jornal espírita de Belo Horizonte (O Poder, 8-3-1953) declarou recentemente:

“Não concordamos que um corpo, verminado e apodrecido no seio da terra (como o de Maria), possa, em ordem inversa, se recompor”.

Falando do dogma da Virgindade de Maria, escrevem os espiritas do Centro Redentor:

“O vosso materialão dogma da Virgindade de María, que se tornou a vergonha das vergonhas, a irrisáo das irrisóes, o ridículo dos ridículos, por ser a mentira das mentiras, a mais baixa, a mais reles de todas as conhecidas e inventadas por vós, cairá por terra”.

Conclusão: O amor e o respeito que temos para com a Mãe de Jesus, a filial confiança que nela depositamos, a inabalável esperança com que a ela recorremos, nos devem fazer repudiar as doutrinas espíritas. Nós eremos na divindade de Cristo, e por isso eremos na excelsa dignidade de sua Santíssima Mãe! E persuadidos desta grandeza de Maria, rejeitamos todos aqueles que, com suas doutrinas, querem amesquinhar as glorias de nossa Mãe do Céu. Quem ama Maria, não pode ser espírita! E quem é espirita, não pode amar a Maria!

15) Pecado Original e Graça Divina

1) a) É outra verdade fundamental da Doutrina Crista que todos os homens nascem com o pecado original. É doutrina clara e constante da Sagrada Escritura e da Tradição Cristã. Filhos de Adão, o prevaricador, a humanidade foi com ele expulsa do paraíso e tornou-se, na dura expressão de Santo Agostinho, uma “massa condenada” aos olhos de Deus, impotente de, por si mesma, regenerar-se e elevar-se novamente à ordem da vida sobrnatural da graça e da amizade com Deus. Entende a maioria dos teólgoos que foi precisamente por isso e só por isso que o “Verbo se fez Carne”. A triste historia da humanidade e as inditosas condições de sofrimento e de toda a sorte de miserias dos individuos humanos desde o nascimento, são como que provas sensíveis de que sobre nós pesa uma maldição. Com Adão todos perderam a graça santificante e, consequentemente, a amizade de Deus; e aí está o pecado original. “Éramos por natureza filhos da ira, como todos os outros”, recorda São Paulo aos efésios (2, 3). E aos romanos declara: “Todos pecaram e estão privados da glória de Deus” (3, 23); e depois: “Por um só homem entrou o pecado no mundo e pelo pecado a morte. E assim a morte passou para todos os homens porque todos pecaram” (5, 12).

b) Existe, com efeito, dentro de nós mesmos uma estranha desarmonia e luta e que os antigos chamavam de concupiscência ou estopim do pecado (fomes peccati), em virtude do qual nos sentimos muito mais inclinados ao mal ou ao vício de que ao bem ou à virtude. “Ninguém vem a este mundo inocente”, lamentava-se Ovidio; “inclinamo-nos sempre para o proibido”, constatava Cícero. E São Paulo é ainda mais sincero:

“Não sei o que faço; não faço o que quero e faço o que aborreço… Há em mim vontade de fazer o bem, mas não tenho o poder de fazer o bem… Mas faço o que não quero, não sou eu que faço, é o pecado que habita em mim… Comprazo-me na lei de Deus segundo o homem interior; mas vejo nos meus membros outra lei que luta contra a lei da minha razão e que me cativa à lei do pecado que está em meus membros” (Rm 7, 15- 23).

Se formos sinceros, todos podemos dizer coisas semelhantes de nós mesmos. É a grande confissão da humanidade em peso. Todos podemos repetir com o mesmo Apóstolo:

“Que desgraçado que sou! Quem me livrará deste corpo de morte?”

E com o mesmo Apóstolo devemos responder:

“A graça de Deus por Jesus Cristo, Nosso Senhor” (Rm 7, 24-25).

c) Sim, a graça de Deus, por Cristo Jesus!

“Eis o Cordeiro, que tira o pecado do mundo!” (Jo 1, 20)

“Fomos reconciliados com Deus pela morte de seu Filho!” (Rom 5, 10).

Regenerados pelo Batismo (Jo 3, 3), recebemos a graça santificante (Rm 8, 1), fomos por Deus adotados como verdadeiros filhos (Rm 8, 15 s; 1 Jo 3, 1), somos irmãos de Jesus (Rm 8, 17), participamos da própria natureza divina (2Pd 1, 4) e em nós flui esta mesma vida divina (1 Jo 3, 9), transformados em templos vivos da própria Santíssima Trindade (Jo 14, 23; 1 Cor 3, 16-17) e nos tornamos membros vivos de um só grande corpo, o Corpo Místico de Cristo (1 Cor 12, 12-30).

2) Como tantas vezes já, devemos, infelizmente — dizemo-lo com dor na alma — constatar que os espíritas negam também tudo isso: Negam o pecado de Adão (que para eles não passa de um mito pagão), negam a nossa solidariedade com Adão, negam o pecado original, negam a nossa redenção por Cristo, negam todos os ricos tesouros da graça divina e das nossas possíveis relações de filiação adotiva e de amizade com a Santíssima Trindade…

a) Do pecado original diz Leão Denis:

“Apresentado em seu aspecto dogmático, o pecado original, que pune toda a posteridade de Adão, isto é, a Humanidade inteira, pela desobediência do primeiro par, para depois salvá-la por meio de uma iniquidade ainda maior — a imolação de um justo — é um ultraje à razão e à moral… Do seu passado criminoso (nas encarnações anteriores) perdeu o homem a recordação pessoal, mas conservou um vago sentimento: Daí proveio essa concepção do pecado original, que se encontra em muitas religiões, e da expiação que ele requer. Dessa concepção errônea derivam as da queda, do resgate e da redenção pelo sangue de Cristo, os mistérios da encarnação, da virgem-mãe, da imaculada conceição, numa palavra, todo o amontoado do Catolicismo. Todos esses dogmas constituem verdadeira negação da razão e da justiça divina… Se considerarmos o dogma do pecado original e da queda qual o é, realmente (segundo ele), isto é, como um mito, uma lenda oriental, exatamente como se depara em todas as cosmogonías antigas; se destruirmos com um sopro tais quimeras, todo o edifício dos dogmas e mistérios imediatamente se desmorona” (Cristianismo e Espiritismo, 5ª ed. p. 82-84).

Portanto, segundo Leão Denis, que é uma autoridade reconhecida em Espiritismo, o pecado original, a redenção, etc., é “um mito”, “uma lenda oriental”, “são quimeras”. É esta também a posição de AK (V, 81) e dos demais espíritas.

b) Também negam a graça divina. Para o Espiritismo não há, diz AK, “nem favores, nem privilégios que não sejam o prêmio ao mérito; tudo é medido na balança da estrita justiça” (V, 32); Deus não pode conceder favores ou privilégios imerecidos:

“Qualquer privilégio seria uma preferência, uma injustiça” (IV, 76).

Dai a declaração solene:

“Para nós (espíritas) não há coisa alguma sobrenatural’’ (III, 21).

Conclusão: A mesma de sempre: é impossível conservar-se católico e ser espírita; o Espiritismo é a apostasia total e radical do Cristianismo; é puríssimo paganismo.

16) Sacramentos e Ritos

1) a) Cristo não morreu apenas para os homens de seu tempo. As ordens que deixou aos Apóstolos, e que eles fielmente cumpriram, não valiam somente para os dias em que vivessem os Apóstolos. Não. Cristo morreu para todos os homens de todos os séculos, até o fim do mundo. E as ordens dadas, são determinações que hoje continuam em pleno vigor. E precisamente para atingir diretamente a cada indivíduo humano de todos os séculos, Cristo instituiu, como já vimos, a Igreja visível e lhe deu sete Sacramentos, que significassem e conferissem os benditos frutos de sua sagrada Paixão e Morte.

b) Estes sete Sacramentos são como que os canais, pelos quais Deus quis infundir, incrementar e conservar em nós a vida sobrenatural da graça santificante. O Batismo, com efeito, é o sacramento pelo qual somos regenerados, pelo qual nasce a nossa vida sobrenatural, a graça santificante. A Confirmação é o sacramento do crescimento espiritual, por ela recebemos a força e o vigor do Espírito Santo. A Eucaristia é o sacramento da nutrição, que continuamente alimenta esta nossa vida sobrenatural. A Penitência é o
sacramento que nos restabelece ou até mesmo ressuscita a nossa vida da graça, quando a sufocamos pelo pecado. A Extrema-Unção é o sacramento que nos fortifica para fazermos com coragem e segurança os derradeiros passos em direção a Deus. A Ordem e o Matrimônio são os dois sacramentos que santificam a nossa vida social.

c) Era sumamente conveniente que Cristo ligasse a concessão de suas graças a certos sinais sensíveis ou ritos externos: pois o homem não é espírito puro, mas um composto de alma e corpo e é por isso necessário que ele todo, de alma e corpo, cultue a Deus; e a nossa alma está de tal modo unida ao corpo que ela só é capaz de conhecer mediante as impressões que lhe vêm através dos sentidos e só pode externar-se por meio de sinais sensíveis e externos; além disso, muitas vezes os atos externos tornam mais intensos os próprios atos internos da alma.

d) É certo e consta da Sagrada Escritura que o próprio Cristo usou de ritos externos e ordenou aos Apóstolos semelhantes cerimônias: o batismo, a eucaristia, a imposição das mãos, a unção com óleo, etc., são frequentes na vida de Cristo e na atividade dos Apóstolos e são aí ritos externos para conferir a graça interna. O batismo (imersão ou infusão da água) é necessário, diz Cristo, para entrar no reino de Deus (Jo 3, 5), e é conferido, explica São Pedro, instruído por Cristo, “para a remissão dos pecados” (At 2, 38); a imposição das mãos concedia os dons do Espírito Santo (At 8, 17-18); pela imposição das mãos recebera Timóteo a graça de Deus (2 Tim 1, 6); pela Eucaristia promete Cristo guardar em nós a vida divina (Jo 6, 52-59), etc.

2) Ainda aqui devemos constatar, mais uma vez, que os espíritas apostataram de Cristo e do Cristianismo. A este respeito, todavia, devemos notar uma diferença fundamental entre as várias correntes que, entre nós, se dizem “espíritas”: uns, os kardecistas, pecam por defeito e negam todo e qualquer rito ou sacramento; outros, os umbandistas, pecam por excesso, caindo num complicadíssimo ritualismo supersticioso e mágico. Vejamos resumidamente as duas posições extremas.

a) AK declarou que o Espiritismo “não tem culto, nem rito, nem templos e, entre seus adeptos, nenhum tomou, nem recebeu o titulo de sacerdote ou de sumo sacerdote” (VlI, 235). E o Conselho Federativo da Federação Espirita Brasileira, em sua reunião de 5 de Julho de 1952, “houve por bem declarar, por unanimidade, que o Espiritismo é Religião sem ritos, sem liturgia e sem sacerdote” (cf. Reformador. Agosto de 1952, p. 183). Em Junho de 1953 o mesmo Conselho, em solene e oficial declaração, tornou a insistir que o Espiritismo é uma “Doutrina religiosa, sem dogmas propriamente
ditos, sem liturgia, sem símbolos, sem sacerdócio organizado” e que não adota, em suas reuniões e em suas práticas, paramentos, altares, imagens, hinos ou cantos em línguas mortas ou exóticas, administração de sacramentos, etc. (Reformador, Junho de 1953, p. 123). E é por isso também que eles zombam de todos os nossos sacramentos.

b) O Espiritismo de Umbanda, ao contrário, que aliás é oficialmente reconhecido pela Federação Espirita Brasileira (que é kardecista) como verdadeiro Espiritismo, declarando que “todo umbandista é espirita” (Reformador, Julho de 1953, p. 140), dá capital importância aos ritos mais extravagantes — mas não aos ritos instituídos por Cristo (e só Deus, não a Igreja, pode ligar a concessão de suas graças a um determinado sinal sensível). É precisamente este o grande pomo de discórdia que separa as duas correntes espíritas (porque em suas doutrinas — reencarnação, evocação dos espíritos e negação total dos dogmas cristãos — ambas as correntes concordam em quase todos os pontos). Mas alguns fazem questão de aparecer católicos. Assim por exemplo os espíritas “ecléticos” (de Yokaanam), e que querem ser umbandistas, em solene edital, “faz saber a todos os Irmãos fiéis católicos espiritualistas — ou ecléticos — que a nossa Igreja, restaurada segundo os preceitos apostólicos dos santos cristãos dos primeiros dias, fundada pelo Santo Apóstolo Tiago Menor em Alexandria e logo depois desaparecida no ano 44 D. C. (depois de Cristo) por martírio e morte do mesmo, está celebrando gratuitamente todos os Santos Ofícios da Igreja Apostólica de Cristo aos Domingos (provisoriamente), das 10 horas às 12 horas, junto às demais religiões unificadas no Templo Universal da Fraternidade Eclética Espiritualista Universal, realizando, inclusive, Batismos, Casamentos, Ofícios fúnebres e de Ação de Graças, Comunhão Simbólica Espiritual, etc., conforme os verdadeiros preceitos morais e espirituais do Cristianismo e de acordo com as leis do país em vigor, e por Sacerdotes Presbíteros regularmente sagrados por autoridades apostólicas superiores (!) e confirmados seus graus depois de prestados todos os compromissos ocultos e divinos do preceituário apostólico do sacerdócio universal (!), de que fazem parte Sacerdotes oriundos de todas as religiões, inclusive da Igreja Romana” (O Nosso, Agosto de 1953, p. 5)…

Conclusão: Haverá seriedade em tudo isso? Ou serão apenas brincadeiras de mau gosto? Ou será vil exploração da credulidade do povo ignorante? Não queremos julgar. Mas o que é evidente e manifesto é que tudo isso, em seus dois extremos, é apostasia de Cristo e de sua Igreja. Fiéis a Cristo, conservemos o justo meio, nem negando os sacramentos instituídos por Cristo, como fazem os kardecistas, nem inventando novos e esdrúxulos ritualismos, como querem os umbandistas.

17) A Heresia do Coração

Entramos agora numa série de instruções sobre o Inferno, o dogma mais aceradamente negado pelos espíritas — e por muitos “fiéis”. Julgamos psicologicamente oportuna uma instrução preparatória e propomos as seguintes considerações:

1) É enorme a diversidade dos homens. Intelectuais uns, volitivos outros, caprichosos muitos e sentimentais a grande maioria. Alguns dirigem a sua vida conforme as exigências do intelecto, da razão, da lógica; outros governam-na de acordo com o que quer a vontade; a maioria se deixa jogar pelos caprichos da hora e se orienta pelo gosto dos sentimentos do coração e do afeto. De acordo com estas diversidades, encontramos também os erros do intelecto, os desvios da vontade, os deslizes do capricho e os extravíos do coração. Não se pode dizer que o povo brasileiro seja eminentemente intelectualista, nem impetuosamente voluntarista: é antes um povo que se guia preferencialmente pelos sentimentos do coração. O brasileiro não se distingue pelo brilho da inteligência, nem pelo império da vontade forte: ele se caracteriza pela grandeza do coração! É uma boa qualidade, a nossa. Não é apelando à luz da razão, mas ao calor do coração que o nosso povo se movimenta.

2) Em vista dessa nossa característica, os erros mais perigosos não são aqueles que aparentam apelar ao rigor da lógica, mas aqueles que embalam os sentimentos do coração bondoso. Como o tipo intelectualista pode chegar a rejeitar tudo o que não se conformar com os limites da sua razão pessoal; como o tipo inflexível e rigoroso pode chegar a desprezar tudo o que for puramente sentimental; como o utilitarista rejeita o que lhe parece inútil — assim pode o coração bondoso chegar a ter como critério único da verdade só o que for bondoso e amável, rejeitando tudo o que não se conformar com a idéia que ele mesmo faz da infinita bondade de Deus. Abrem-se assim as portas para o que gostaria de chamar de heresias do coração. O homem bondoso, sem su-ficiente instrução, não é capaz de considerar também a inexorável justiça do Juiz Divino. O coração bondoso corre o perigo de querer ouvir apenas e exclusivamente palavras de amor, de bondade, de magnanimidade, saídas da boca de Jesus, que ele considera exclusivamente “meigo, doce e sereno” — e não tem ouvidos para aperceber o lado rigoroso, severo, austero e até inexorável da mensagem cristã.

3) Não há dúvida, Cristo era “manso e humilde de coração”, como Ele mesmo dizia de si; não há dúvida, Cristo era inefavelmente meigo, mesmo para os maiores pecadores, que se lhe apresentavam com o coração arrependido e a vontade disposta ao melhoramento: é emocionante a cena com a pecadora de Mágdala, com a adúltera, mesmo com Judas, o traidor…; não há dúvida, Cristo veio para salvar o que estava perdido; Cristo é a expressão máxima da bondade e do amor; Cristo é o refúgio de todos os miseráveis e aflitos: “Vinde a mim — exclamava ele — todos vós que viveis atribulados e eu vos aliviarei”; Cristo é o grande mensageiro da paz e do bem, da caridade e do amor, da bene¬volência e do perdão; nâo há dúvida, o Coração de Jesus é imenso e nele cabem todas as misérias do mundo; o Coração de Jesus — é a Igreja quem reza assim — é a fornalha ardente de caridade, é o santuário de justiça e de amor, é cheio de bondade e de amor, é o abismo de todas as virtudes, é o rei e o centro de todos os corações; o Coração de Jesus é paciente e misericordioso, é rico para todos os que o invocam, é a fonte de vida e santidade, é a pro- piciação pelos nossos pecados; o Coração de Jesus é a salvação dos que nele esperam, é a esperança dos que neíe expiram, é a delícia de todos os Santos…; não há dúvida, Jesus é tudo isso e muito mais que a nossa pobre língua pode cantar…

4) Mas esse mesmo Jesus, tão atraente por sua bondade e amor, sabe ser também severo, terrivelmente severo: esse mesmo Jesus que aceita e abraça com amor imenso os pecadores contritos, sabe lançar anátemas terríveis contra aqueles que não querem reconbecer-se pecadores; esse mesmo Jesus que veio para salvai, cujo desejo mais ardente é levar todos consigo para o céu, sabe também ameaçar com os terríveis castigos do inferno; esse mesmo Jesus que no juízo final dirá aos bons da sua direita: “Vinde, benditos de meu Pai, tomai posse do reino…”, dirá também aos endurecidos da sua esquerda: “Apartai-vos de mim, malditos, para o fogo eterno!”; esse mesmo Jesus tão meigo e doce, sabe também dizer: “Se não vos converterdes, perecereis todos!” (Lc 13, 3); esse mesmo Jesus que remunera tão generosamente o servo bom e fiei, lança o servo preguiçoso para fora, “onde haverá choro e ranger de dentes”; esse mesmo Jesus que acolhe com alegria as cinco virgens prudentes e vigilantes, cerra as portas para as tolas e indolentes; esse mesmo Jesus que proclamou as oito bem-aventuranças, proferiu outras tantas maldições; esse mesmo Jesus, manso e humilde, pronuncia um tremendo sermão contra a hipocrisia dos fariseus; esse mesmo Jesus que narrou as comoventes parábolas do filho pródigo, da ovelha desgarrada, disse também: “Quem quiser ser meu discípulo, renuncie a si mesmo, carregue a sua cruz, dia por dia, e siga-me” (Lc 9, 23); “quem não carregar a sua cruz e me seguir, não pode ser meu discípulo” (Lc 14, 27); “não pode nenhum de vós ser meu discípulo, se não renunciar a tudo quanto possui” (Lc 14, 33).

Não nos iludamos: O Cristianismo não é a religião da comodidade e do puro sentimento; o Cristianismo não é a religião da fácil acomodação, da contemporização com o mal e da condescendência com o erro: “Não penseis que vim trazer a paz à terra; não vim trazer a paz, senão a espada. Vim para fazer separação entre filho e pai, entre filha e mãe, entre nora e sogra… Quem ama o pai ou a mãe mais do que a mim, não é digno de mim. Quem não tomar a sua cruz e me seguir, não é digno de mim. Quem procurar possuir a sua vida, perdê-la-á; mas quem perder a sua vida por minha causa, possuí-la-á” (Mt 10, 34-39). Não nos iludamos: o Cristianismo é a religião do desapego, a religião da mortificação, a religião da penitência, a religião da Cruz e só depois disso será a religião do amor desinteressado. Não nos iludamos com a propaganda daqueles que só pregam e conhecem o ‘‘meigo e doce Nazareno”. Não nos iludamos com aqueles que dizem anunciar a religião de Cristo, mas riscam do Evangelho toda a alusão à seriedade, apagam de suas páginas todas as admoestações severas, banem do Livro Sagrado a ameaça do inferno… Não nos iludamos — porque os iludidos seríamos nós mesmos. Amemos a Jesus — mas amemos a Jesus Crucificado!

18) O Inferno

A existência de um estado e lugar de condenação perpétua, chamado inferno, é o dogma que mais indispõe e intriga os espíritas. Em face da doutrina sobre o inferno, os espíritas perdem toda a serenidade e irrompem em verdadeiras blasfêmias. E revoltam-se contra a Igreja em termos os mais injuriosos.

1) É verdade que a Igreja sempre ensinou e continua a pregar e sempre há de anunciar aos homens os futuros castigos do inferno. Trata-se indubitavelmente de uma verdade de fé, de um verdadeiro dogma. Mas não foi a Igreja quem inventou o inferno “para — como propalam os espíritas — dominar sobre as consciências”. A existência do inferno consta da própria Sagrada Escritura e foi, portanto, revelada por Deus:

a) Já o Antigo Testamento nos fala do inferno em termos claríssimos. Será sempre impressionante ler esta passagem: “Então (no juízo final) os justos se levantarão com grande afoiteza contra aqueles que os atribularam e que lhes roubaram o fruto de seu trabalho. Vendo-os assim, os maus perturbar-se-ão com temor horrível e ficarão assombrados, ao ver a repentina salvação dos justos, a qual eles não esperavam; e dirão dentro de si, tocados de (inútil) arrependimento, e gemendo com angústia do espirito: Estes são aqueles de quem nós noutro tempo fazíamos zombaria, e a quem tínhamos por objeto de opróbrio! Nós, insensatos, consideravamos a sua vida uma loucura e a sua morte uma ignomínia. E ei-los, contados entre os filhos de Deus, e en¬tre os santos está a sua sorte. Logo, nós nos extraviámos do caminho da verdade e a luz da justiça não raiou para nós e o sol da inteligência não nasceu para nós. Cansámo-nos no caminho da iniquidade e da perdição e andamos por caminhos ásperos, e ignorámos o caminho do Senhor. De que nos aproveitou a soberba? De que nos serviu a vã ostentação das riquezas? Todas aquelas coisas passaram como sombra… Eis o que os pecadores dirão no inferno” (Sab 5, 1 ss). Assim diz o sagrado livro da Sabedoria. Também o profeta Daniel fala do fim do mundo e diz: “E a multidão dos que dormem no pó da terra acordarão uns para a vida eterna e outros para o opróbrio que terão sempre diante dos olhos” (12, 2).

b) Cristo, Nosso Senhor, não podia usar de palavras mais claras para nos ensinar a existência do inferno. Quase em cada sermão que fazia, Jesus apontava para os tremendos castigos depois da morte. Eis aí apenas indicações de textos, que deveríam ser lidos e meditados um por um no próprio contexto:

quem blasfemar contra o Espírito Santo, “não será perdoado eternamente, mas será réu de pecado eterno” (Mc 3, 29);

quem se irar contra seu irmão, “será réu do fogo do inferno” (Alt 5, 22);

quem pecar contra a castidade, “será lançado no inferno” (Mt 5, 29);

quem der escândalo, “irá para o inferno, para o fogo inextinguível, onde o verme não morre, nem o fogo se apaga” (Mc 9, 43-48);

os maus “serão lançados na fornalha do fogo; aí haverá choro e ranger de dentes” (Mt 13, 50);

o servo inútil “será lançado às trevas de fora; aí haverá choro e ranger de dentes” (Mt 25, 30);

os que rejeitam a fé “serão lançados nas trevas de fora; aí haverá choro e ranger de dentes” (Mt 8, 12);

os convidados ao banquete, que vierem sem veste nupcial, serão “atados de mãos e pés e lançados nas trevas de fora” (Mt 22, 13);

o rico gozador que não quis ajudar ao pobre Lázaro, foi sepultado no inferno, “no meio dos tormentos”, donde pediu ao menos uma gotinha de água, porque, dizia, “sofro grandes tormentos nestas chamas” (cf. Lc 16, 19-31);

os que no juízo final estiverem à esquerda do juiz, ou¬virão a tremenda sentença: “Apartai-vos de mim, malditos, para o fogo eterno, preparado’ ao demônio e seus companheiros” (Mt 25, 41). “E — acrescenta Jesus — irão estes para o suplício eterno; os justos porém, para a vida eterna” (Mt 25, 45).

A Igreja, portanto, pregando a existência do inferno, apenas repete a doutrina de Jesus Cristo, Mestre da Verdade.

2) Apesar de todos estes textos claríssimos, Allan Kardec, supremo doutor dos nossos espíritas brasileiros, em sua obra Céu e Inferno, tem a desvergonha de escrever que Cristo “limitou-se a falar vagamente da vida bem-aventurada, dos castigos reservados aos culpados, sem referir-se jamais nos seus ensinos a castigos e suplícios corporais que constituíram para os cristãos um artigo de fé” (p. 41). Oh! Cínica afirmação! Oh! Impudente interpretação! Cristo fala claramente do inferno, revelando que aí haverá “fogo inextinguível, onde o verme não morre, nem o fogo se apaga”, onde haverá “choro e ranger de dentes”, que é como que uma “fornalha ardente”, com “fogo eterno”, “suplício eterno”, “trevas”, “gehena”, etc. — e o grão-mestre dos espíritas dogmatiza que Cristo “jamais se referiu a castigos e suplícios corporais”!

Todavia, mais adiante, no mesmo livro, na p. 79, a suprema autoridade espírita concede que Jesus falou de casti¬gos no inferno, e eis como então explica tudo: “A crença na eternidade das penas prevaleceu salutarmente enquanto os homens não tiveram ao seu alcance a compreensão do poder moral. É o que sucede com as crianças durante certo tempo contidas pela ameaça de seres quiméricos com os quais são intimadas: — chegadas ao período do raciocínio, repe-lem por si mesmas essas quimeras da infância, tornando-se absurdo o querer governá-las por tais meios. Se os que as dirigem pretendessem incutir-lhes a veracidade de tais fábulas, certo decairíam da sua confiança. É isso que se dá hoje com a Humanidade, saindo da infância e abandonando, por assim dizer, os cueiros. O homem não é mais passivo instrumento vergado à força material, nem o ente crédulo de outrora que tudo aceitava de olhos fechados”. — Maravilhosa teologia! A humanidade, afinal, abandonou os cueiros!… Já somos gente grande, já não aceitamos de olhos fechados as fábulas que Cristo contava à criançada de seu tempo, ameaçando com lobisomem e saci-pererê… Pois a figura Jesus, diz ainda Kardec, “pouco lhe importava fosse essa figura interpretada à letra, desde que ela servisse de freio às paixões humanas” (p. 70). Mas agora não! Já não somos crianças! Somos espíritos evoluídos, emancipados, abandonamos os cueiros…

Conclusão: É assim, deste jeito, com tal exegese, que os espíritas andam persuadidos de não se “apartarem nem por uma vírgula sequer dos ensinamentos de Cristo”. Não brinquemos assim com a mensagem de Jesus! O Evangelho é bem mais sério e não é nenhuma mensagem para crianças. Os homens do tempo de Jesus, os judeus que com ele disputavam, os gregos e romanos daqueles tempos eram homens ao menos tão sizudos como nós e entendiam muito bem o que Jesus e os Apóstolos lhes anunciavam. Não nos ilu¬damos com brincadeiras semelhantes — porque os iludidos seremos nós. Pessoas há que julgam que, no dia das contas, bastará dizer a Deus, choramingando: — Ah! não sabia! para Deus lhes dar um tapinha na face e os mandar dormir…

19) A Eternidade do Inferno

O inferno existe. Para quem crê nos ensinamentos de Cristo, não pode haver dúvidas. As palavras que vimos não podem ser soíismadas. A existência do inferno foi revelada por Deus e não inventada pela Igreja. Muitos negadores do inferno, inclusive os espíritas, admitem um castigo depois da morte. Mas o que eles de modo nenhum querem conceder, é que este castigo seja perpétuo, sem fim, sem esperança de salvação, eterno. Aí então começa a revolta contra Deus e a apostasia de Cristo. “Dura é esta linguagem, e quem a pode ouvir?” (Jo 6, 61). E “desde então muitos de seus discípulos tornaram atrás, e já não andavam com ele” (Jo 6, 67).

1) Mas Jesus não só revelou a existência do inferno, ele ensinou também que este castigo é eterno, sem fim. Com efeito:

a) Cristo mesmo declarou diversas vezes que o inferno é “eterno”. Eis alguns exemplos:

Mt 18, 8: “Melhor te é entrar na vida com um pé ou mão a menos, do que, tendo duas mãos e dois pés, ser lançado no fogo eterno”;

Mc 3, 29: “o que blasfemar contra o Espirito Santo, não será perdoado eternamente, mas será réu de pecado eterno”;

Mt 25, 41 (a solene sentença no juízo final):

“Então dirá também aos que estiverem à esquerda: Apartai-vos de mim, malditos, para o fogo eterno, que foi preparado para o demônio e para os seus anjos”.

E depois acrescenta: ”

E estes irão para o suplício eterno; e os justos para a vida eterna”.

— Objetam os espíritas que a palavra “eterno” significa “duração prolongada” e não “duração sem fim”. Uma ou outra vez, de fato, a palavra “eterno” ocorre neste sentido de “duração prolongada”. Mas o sentido óbvio e primário da palavra é de duração sem fim e é neste sentido que a ela deve ser entendida sempre que no texto ou contexto não houver motivo de limitação. Ora, no Novo Testamento esta palavra ocorre 71 vezes e apenas em dois casos tem significação duvidosa. Examinando este mesmo texto que nos dá a sentença final para os condenados, veremos que seu significado só pode ser de duração sem fim. Pois Cristo estabelece uni perfeito paralelo entre a sorte dos justos e a dos maus: “Irão estes para o suplício eterno e os justos para a vida eterna”, uma e outra, portanto, é “eterna”. Ora, ninguém ainda inventou dizer que a vida eterna dos justos não seria de duração sem fim; logo também o suplício eterno dos maus é também sem fim: pois a mesma palavra, na mesma proposição e em idêntico contexto deve ser tomada também no mesmo sentido. Daí a judiciosa advertência, já feita por Santo Agostinho:

“Cristo diz num e mesmo lugar, numa e mesma sentença: estes irão para o suplício eterno e os justos para a vida eterna; se uma e outra é eterna, deve na verdade entender-se ou uma e outra diuturna com fim, ou uma e outra perpétua sem fim; pois que estão referidas par a par: dum lado o suplício eterno, doutro a vida eterna; porém dizer neste um e mesmo contexto que a vida eterna será sem fim, o suplício eterno terá fim, é coisa muito absurda. Portanto, porque a vida eterna dos Santos será sem fim, também o suplício eterno certamente não terá fim” (De Civ. Dei 21, 23).

b) Outras vezes nosso Senhor fala do inferno usando expressões que explicam com exatidão o sentido do “eterno”:

“Se a tua mão te escandalizar, corta-a; melhor te é entrar na vida eterna manco, do que, fendo duas mãos, ir para o inferno, para o fogo inextinguível, onde o seu verme não morre e o fogo não se apaga. E se teu pé te escandaliza, corta-o; melhor te é entrar na vida eterna coxo, do que, tendo dois pés, ser lançado no inferno, num fogo inextingui- vel, onde o seu verme não morre e o fogo não se apaga. E, se o teu olho te escandaliza, lança-o fora; melhor te é entrar no reino de Deus de um olho, do que, tendo dois, ser lançado no fogo do inferno, onde o seu verme não morre, e o fogo não se apaga” (Mc 9, 42-47).

c) Também os Apóstolos entenderam assim a doutrina de Jesus e assim a pregaram. Exemplos: 2 Tes 1, 9: Os que não obedecem ao Evangelho “serão punidos com a perdição eterna, longe da face do Senhor e da glória do seu poder”; Hbr 10, 26-31: “Se nós pecamos voluntàriamente depois de termos recebido o conhecimento da verdade, não resta mais vítima pelos pecados, mas uma esperança terrível do juízo e o ardor do fogo que há de devorar os adversários… É coisa horrenda cair nas mãos de Deus vivo!”; e para o Apocalipse o inferno é simplesmente a “segunda morte” (10, 20; 20, 10-14; 21, 8): “Mas pelo que toca aos incrédulos, e aos execráveis, e aos homicidas, e aos fornicadores, e aos feiticeiros, e aos idólatras, e a todos os mentirosos, a sua parte está no tanque ardente de fogo e de enxofre: o que é a segunda morte” (21, 8), “e o fumo de seus tormentos se levantará pelos séculos dos séculos, sem que tenham descanso algum, nem de dia nem de noite” (14, 11), “serão atormentados de dia e de noite pelos séculos dos séculos” (20, 10).

2) Diante de palavras tão claras, que nos dizem os espíritas? Eis o que lemos num livro do espírita Carlos Imbassahy (À Margem do Espiritismo, 2ª ed. p. 162):

“Se conseguissem convencer-nos de que é isso (a saber: que o inferno é sem fim) o que a Bíblia afirma, nós a renegaríamos como falsa; e se nos provassem que ela é autêntica (isto é: que ela vem mesmo de Deus), nós renegaríamos o próprio Deus!

— Aí, na verdade, já não há remédio; mas aí acabou também o cristão; ai acabou mesmo qualquer religião que ainda mereça semelhante nome. Isso significa revoltar-se aberta-mente contra Deus. Mas é bem esta a atitude dos espíritas: citam a Bíblia quando lhes agrada um certo trecho e quando se lhes prova o contrário, com uma evidência que salta aos olhos, eles mui simplesmente renegam a Bíblia, mesmo que se prove sua origem divina. E o autor continua em sua rebelião e blasfêmia:

“E se há um Deus capaz de condenar uma de suas criaturas a sofrer eternos horrores por uma falta momentânea (mas entenda-se: falta grave, advertida e deliberadamente praticada!), cometida seja contra quem for, então esse Deus está muito abaixo das solas dos nossos sapatos. Nós nos julgaremos, por isso, muito superior a um tal Deus!…”

Imaginemos Cristo anunciar que os que pecam contra a castidade serão “lançados no inferno” (Mt 5, 29), quem der escândalo, “irá para o inferno, para o fogo inextinguível, onde o verme não lhe morre nem o fogo se apaga” (Me 9, 43-48), etc. — e o nosso espírita a berrar: Isso não! Esse seu Deus está muito abaixo das solas dos nossos sapatos; nós nos julgamos muito superior ao seu Deus!… E o mesmo espirita remata suas invectivas contra Deus lançando-Lhe em rosto o seguinte desafio:

“Nós escrevemos assim, sem o menor receio de ser fulminado, e com menos receio ainda de ir para o tal inferno com penas eternas!…”

Conclusão: Apenas isso: o Espiritismo não é Cristianismo; o espirita não é cristão: é um orgulhoso revoltado…

20) O pobre Lázaro e o rico Epulão

Ler Lc 16, 19-31! Refletindo atentamente sobre estas palavras do Divino Mestre, teremos o seguinte:

1) Ambos, tanto Lázaro como o rico gozador, morrem e passam logo depois da morte por um julgamento, com sentença definitiva: Lázaro vai para o céu e o rico epulão para o inferno, cada um segundo a vida que cá na terra levou. A diferença entre os dois depois da morte é grande:

“Medeia entre nós e vós um grande abismo, de sorte que ninguém pode passar daqui para vós, nem daí para cá, ainda qué quisesse”.

Há, pois, uma separação definitiva entre os dois, entre os habitantes do céu e os do inferno, entre os espíritos bons e os maus. Não podem comunicar-se, “ainda que quisessem”. Nem vemos que é dado lugar ou tempo a nenhum dos dois para “renascer ainda e progredir continuamente”, como querem os espíritas. Os dois morrem, e assim como estavam, ficam. Morrem, são julgados e pronto. “A cada um, no dia de sua morte, o Senhor retribuirá conforme as suas obras” (Ecl 11, 28); “está decretado que o homem morra uma só vez, e depois disto é o julgamento” (Hbr 9, 27).

2) Lázaro “foi levado pelos anjos ao seio de Abraão”. A expressão “seio de Abraão” é uma figura usada pelos judeus para designar o céu. Portanto existe o céu! E diz Jesus que Lázaro é levado “pelos anjos!” Temos, pois, ai duas coisas — céu e anjos — contestadas pelos espiritas.

3) O rico gozador foi parar no inferno. O texto de Jesus está claro. E é bem triste a situação neste lugar: “Sofro grandes tormentos nestas chamas”, chora o desalmado e pede apenas uma gotinha de água — que lite é negada. “Lembra-te que recebeste bens em tua vida, enquanto Lázaro sofria males!” é a grave admoestação e que deveria fazer tremer a todos os ricos gozadores: “Ai de vós que sois ricos, porque já tendes a vossa consolação!” (Lc 6, 24)! Nada de reencarnação e de progresso contínuo para i o rico epulão! Nada de vagabundeios pelos espaços… Jesus ao menos ensina assim…

4) Vemos ainda que os mortos não podem comunicar- se com os vivos desta terra, como querem os espíritas. O antigo epulão pede, roga, insiste:

“Rogo-te, pai, que o mandes à minha casa paterna; tenho cinco irmãos; que os previna para que não venham também eles parar neste lugar de tormentos”.

Mas não é atendido: Nem Lázaro, nem ele mesmo, o falecido gozador, podem ir levar mensagens aos cinco irmãos nesta terra. A doutrina não é minha; é de Jesus… E, segundo os espíritas, o ex-gozador comunicar-se com seus irmãos, feria sido a coisa mais fácil e ordinária deste mundo: era só fazer dançar uma mesinha, dar umas pancadas secas e pronto: a utilíssima mensagem aí estaria a salvar e confortar os irmãos. Alas a doutrina de Jesus não conhece nada disso… É que Jesus nada tinha de espírita!

5) Vemos até que nem mesmo para trazer mensagens úteis podem as almas dos falecidos comunicar-se com os vivos, ao menos não sem licença especial e extraordinária de Deus. Pois o falecido epulão pediu apenas que Lázaro fosse prevenir os cinco irmãos do iminente perigo que os ameaçava, fosse dizer-lhes que não vivessem iludidos, que existe mesmo inferno:

“Rogo-te, pois, que o mandes à minha casa paterna; tenho cinco irmãos; que os previna para que não venham também eles parar neste lugar de tormentos”.

Nada disso:

“Eles têm Moisés e os profetas; que os ouçam”.

Pronto! Nada de evocar mortos. Nada de trazer mensagens úteis. Já lhes foi revelado tudo que precisam saber. Se não quiserem escutar a “Moisés e os profetas”, a culpa será deles; não têm desculpas!

Eis o que podemos aprender desta bela e terrível parábola de Jesus. Vemos que Cristo — ao menos espírita ele não é! E, invertendo, podemos dizer que os espiritas e todos aqueles que seguem a doutrina espírita e vão ao Espiritismo — ao menos cristãos eles não são… Para Jesus há julgamento definitivo depois da morte; há separação absoluta entre os justos e os maus; existe céu, onde há anjos; existe inferno, onde há tormentos; não há reencarnação; não há progresso contínuo depois da morte; não há evocação dos mortos; nem mensagens dos falecidos, que são supérfluas, pois que já temos a “Moisés e os profetas”. E tudo só nessa única parábola. E para os espíritas não há nada disso; não há julgamento definitivo depois da morte; não há separação absoluta entre os bons e os maus; não existe céu, nem anjos; não existe inferno nem tormentos; mas há reencarnação; há progresso contínuo depois da mor-te; há evocação dos mortos e mensagens dos falecidos, que são necessárias, pois que não temos “Moisés e os profetas”. — Quereis conhecer exatamente a doutrina espírita? Então invertei os ensinamentos de Cristo! Quereis conhecer exatamente a doutrina de Cristo? Então invertei os ensinamentos dos espíritas!…

21) O Céu

1) Nós, cristãos, temos uma esperança: a nossa esperança é o céu. Sofremos, somos contrariados, tudo parece ir contra a nossa vontade e contra o nosso bem estar — e nos lembramos do dito do Apóstolo das gentes:

“Pois tenho para mim que os padecimentos do tempo presente não se comparam com a glória futura, que se há de revelar em nós” (Rm 8, 18).

E outra vez:

“A ligeira tributação que de presente sofremos, nos merece um tesouro eterno de glória incomparável” (2 Cor 4, 17).

Essa é a nossa esperança cristã: a promessa do céu! É por isso que nos consideramos peregrinos nesta terra: porque sabemos que a nossa verdadeira pátria está no além. “Quando aparecer o Pastor supremo – escreve São Pedro – recebereis a imarcessível coroa da glória” (1 Pd 5,4). E São Paulo aos colossenses: “Quando aparecer Cristo, nossa vida, aparecereis também vós com Ele na glória” (Col 3,4). “Então – diz Nosso Senhor – os justos resplandecerão como  o sol, no reino de seu Pai” (Mt 13, 43). E “reinarão pelos séculos dos séculos” (Ap 22, 5). – “Muito bem servo bom e fiel – dirá o Juiz Divino – já que foste fiel no pouco, constituir-te-ei sobre muito: entra no gozo de teu Senhor” (Mt 25,21). E aos Apóstolos promete Cristo, na hora da despedida: “Andais aflitos agora, mas tornarei a ver-vos e alegrar-se-vos-á o vosso coração, e já ninguém vos tirará a vossa alegria” (Jo 16, 22), “pelo que vos disponho o reino, assim como meu Pai mo dispôs a mim, para comerdes e beberdes à minha mesa, no meu reino, e vos sentardes em tronos e julgardes as doze tribos de Israel” (Lc 22, 20).

E São João, o vidente de Patmos, teve a ventura de ver a felicidade do céu: ele esclarece que os celícolas “já não terão fome, nem sede, já não cairá sobre eles o sol, nem ardor algum” (Ap 7, 16); e Deus “enxugará dos seus olhos toda a lágrima; já não haverá morte, nem luto, nem lamento, nem dor” (21, 4); todavia, o mesmo Apóstolo se apressa em acrescentar; “Mas não entrará coisa alguma impura, nem idólatra, nem herege” (21, 27) e depois volta a descrever o que viu: “Já não haverá ali coisa maldita… já não há noite, não precisam de luz de lâmpada nem da luz do sol; porque a sua luz é o Senhor” (23, 3-5).

Eis a esperança dos cristãos! Nós cremos na Sagrada Escritura e por isso cremos firmemente e esperamos cristãmente no céu.

Todas essas descrições, entretanto, são quase sempre negativas. Pois o que, positivamente, será o céu, repete São Paulo com o profeta Isaías, “nem olhos viram, nem ouvidos ouviram, nem jamais penetrou em coração humano o que Deus preparou àqueles que o amam” (1 Cor 2, 9; cf. Is 64, 4). E São João: “Ainda não se manifestou o que seremos. Entretanto, sabemos que, quando Ele se tornar manifesto, seremos semelhantes a Ele; porque o veremos assim como Ele é” (Jo 3, 3). Desta visão facial de Deus, “assim como Ele é”, a Sagrada Escritura fala diversas vezes. E Jesus, como que definindo o céu, afirma: “A vida eterna, porém, é esta: Conhecerem a ti, o único Deus, e a Jesus Cristo que enviaste” (Jo 17, 5).

2) Eis a nossa esperança, que nos é dada com o Evangelho em mão. Se agora folhearmos nas obras do Espiritismo, desse câncer que vem corroendo a nossa sociedade brasileira, veremos que, do mesmo modo como eles ridicularizam as outras verdades da Escritura, assim zombam tam¬bém da idéia cristã do céu. Parece que os espíritas só falam desse nosso céu entre risadinhas piedosas e gargalhadas zombeteiras. AK vê no nosso céu apenas uma “bem- aventurança estúpida e monótona” (1, 437), uma “inútil contemplação perpétua” (VI, 34); “uma ociosidade contemplativa, que seria, como temos dito muitas vezes, uma eterna e fastidiosa inutilidade” (V, 32); “o estado de contemplação perpétua seria uma felicidade estúpida e monótona; seria a ventura do egoísta, uma existência interminàvelmente inútil” (III, 167), etc.

Um dos nossos espiritas (Alexandre Dias, Contribuições para o Espiritismo, Rio 1950, p. 16) apresenta aos seus leitores o nosso céu como “um lugar onde não se trabalha, não se sofre, onde tudo são delícias e só se ouvem músicas sacras e se respira o aroma do incenso por todos os lados… Deus ali está sentado num trono de ouro e pedrarias, em meio de uma corte de anjos e serafins, que o embalam com os cânticos de louvor, enquanto os multimilhões de espíritos lá existentes se conservam de joelhos numa adoração perpétua a esse rei, que vem descansando desde o sétimo dia de criação do mundo…” Não custa imaginar as piedosas risadinhas dos fervorosos espíritas ao lerem tão irreverentes palavras…

Conclusão: Firmemos mais uma vez a nossa esperança no céu. Excitemos em nosso coração o verdadeiro e santo afeto da alegria pela glória que nos espera. E renovemos também a nossa fé nas palavras e promessas de Cristo. Acendamos em nosso coração o facho da fé no céu. Renovando assim interiormente as nossas disposições, queremos desagravar a Deus Nosso Senhor dos injuriosos insultos com que outros ridicularizam sua Sagrada Revelação.

22) A Reencarnação – I

Não podemos deixar de focalizar também a teoria espírita da reencarnação. É o cerne de toda a doutrina do Espiritismo Brasileiro. Foi por causa desta teoria que os nossos mestres espíritas negaram a maioria dos dogmas de nossa santa fé: é a fonte principal de todas as múltiplas heresias espiritas. É em torno deste ponto central que gira todo o sistema doutrinário do nosso Espiritismo. Refutada a idéia da reencarnação, “desmorona todo o edifício espirita”. É o que eles mesmos afirmam.

“Sem esta doutrina — escreve C. Imbassahy — o Espiritismo perderia toda a sua base filosófica”.

E o codificador do Espiritismo, AK, apesar de detestar a palavra “dogma”, não titubeia em falar do “dogma da reencarnação” (1, 117; 138; IV, 264, etc.) e declara que “é uma das mais importantes leis reveladas pelo Espiritismo” (VI, 29). Também Leão Denis considera-a “o ponto essencial do moderno espiritualismo” (Cristianismo e Espiritismo, 5ª ed. p. 235). Por tudo isso, e também porque esta teoria já está muito propagada entre nós, devemos ocupar-nos com ela mais detidamente. Vejamos nesta instrução as principais afirmações dos espíritas a este respeito:

1) Toda essa teoria é sintetizada na frase que os espíritas gravaram no monumento por eles erguido à memória de AK no cemitério de Père-Lachaise, em Paris:

Naître, mourir, renaître encore et progresser toujours: telle est la loi: “nascer, morrer, renascer ainda e progredir sempre; tal é a lei”.

A doutrina espírita da reencarnação consiste, pois, essencialmente em afirmar que não nascemos e vivemos uma só vez sobre a terra, mas que já vivemos muitas vezes no passado — viemos de muito longe: passamos pelos minerais, vegetais e animais — e outras inúmeras vezes ainda teremos que passar por semelhantes vidas, em sempre novos corpos que “nada têm de comum com o antigo” (IV, 67), progredindo sempre, aperfeiçoando-nos sem cessar, até chegarmos todos, sem exceção, ao supremo grau de perfeição. Perguntando aos “espíritos superiores” se as nossas diversas existências corporais se verificam todas na terra, AK diz que recebeu esta resposta:

“Não; vivemo-las em diferentes mundos. As que aqui passamos não são as primeiras, nem as últimas; são, porem, das mais materiais e das mais distantes da perfeição” (I, 118).

Portanto, já andamos por outros mundos e teremos que percorrer mais outros e estamos apenas no início de nossa evolução! Havendo “centenas de milhões de mundos habitados” (VI, 215); sendo mui diversos os mundos em perfeição (VI, 206); sendo o planeta Terra “dos de habitantes menos adiantados, física e moralmente” (I, 123; II, 153; VI, 206); devendo nós ainda progredir sempre, “porquanto o progresso é quase infinito” (I, 117); olhando para os milhões de mundos mais perfeitos do que este, pelos quais teremos forçcsamente que passar (I, 118), sempre progredindo e ininterruptamente nos aperfeiçoando, sem haver possibilidade de estacionar definitivamente (I, 119), podemos imaginar o longo caminho que ainda nos resta a percorrer…

“Nascer, morrer, renascer é o trabalho contínuo a que está sujeito o espírito, passando por todas essas transições, desde o minério até o homem e, daí por diante, desde o tipo boçal ao gênio. Não importa saber quantos milhares de anos foram precisos para tomar as feições humanas, o tempo que demorou na raça indígena e na preta, até chegar à branca, e nem as várias nacionalidades que adotou na sua trajetória… E o Espírito passará a outro planeta mais adiantado. Daí, em escala sempre ascensional, de planeta em planeta…” (A. Dias, Contribuições pura o Espiritismo, 2ª ed. p. 19 ss).

Eis a perspectiva do nosso futuro próximo, remoto e longínquo que a “consoladora doutrina espírita” oferece à angustiada humanidade, já farta com essa única vida corpórea de que temos memória…

2) É, porém, de notar que, a respeito da reencarnação, não há opinião uniforme entre os espíritas.

a) Existe fundamental diferença entre os espíritas anglo-saxões e os latinos: Os primeiros não admitem de modo nenhum a teoria reencarnacionista, enquanto para os latinos ela é tão básica e central que, como vimos, sem a reencarnação, ruiria todo o seu sistema doutrinário. E o mais interessante em tudo isso é que essa diferença de sim e não veio dos próprios “espritos”! AK, Leão Denis e os nossos espíritas brasileiros admitem a reencarnação porque acreditam-na revelada pelos “espíritos superiores”; Staiton Moses (que é para os espíritas anglo-saxões o que é AK para os latinos), D. Home e seus adeptos repelem vivamente a reencarnação, porque acreditam-na rejeitada pelos “espíritos superiores”… Mas aqui no Brasil, conforme declara a Federação Espirita Brasileira (cf. Reformador, Set. de 1953), “99,99% dos espiritas aceitam a doutrina de Kardec, incluída a realidade dos ensinamentos reencarnacionistas”. Não só os kardecistas, também os umbandistas, ecléticos, esotéricos e teosofistas, todos eles são reencarnacionistas.

b) Todavia, entre os mesmos reencarnacionistas são numerosos os pontos em que discordam: uns dizem que a reencarnação é lei geral para todos os espíritos — outros querem-na apenas para os espíritos mais atrasados ou para os perfeitos que devem cumprir alguma missão especial na terra; uns ensinam que a reencarnação tem lugar apenas na terra — outros admitem que se verifica também nos outros planetas e estrelas; uns sustentam que o ser humano se reencarna constantemente no mesmo sexo — outros reclamam uma variação alternativa; uns pensam que a gente reencarna mediatamente depois da morte — outros chegam a exigir um intervalo de exatamente mil e quinhentos anos; para uns a reencarnação seria um castigo em expiação de pecados cometidos em existência anterior — para outros não seria castigo nem expiação, mas um fenômeno de natureza puramente física sem relação necessária com a ordem moral; uns sustentam que a reencarnação é absolutamente livre para os espíritos, de sorte que só reencarna quem e quando quiser — outros pretendem que ela é de todo necessária, como são inevitáveis as leis da natureza; uns ensinam que a série de reencarnações é ilimitada — outros pensam que se pode chegar a um estado definitivo com um número de vidas relativamente pequeno; uns querem que a reencarnação seja não só progressiva, mas também regressiva, de modo que se podería dar o caso que um espírito que teve um corpo humano passe a tomar um corpo ani¬mal ou vegetal — outros negam em absoluto que possa ser regressiva, mas apenas estacionária por algum tempo; etc.

Para os kardecistas — que mais nos interessam aqui no Brasil — a reencarnação é uma lei geral de natureza física, válida para todos os espíritos, e progressiva, jamais regressiva (não admitem a possibilidade de reencarnação em corpo animal), com variação de sexo e através de numerosos outros mundos. Segundo os umbandistas, pode ser também regressiva.

3) São esses os elementos essenciais para uma exata noção da teoria espírita da reencarnação. É desde logo evidente que semelhante doutrina nos atinge a cada um de nós pessoalmente e bem de perto. Temos por isso o direito a que se nos diga quais as razões em que se apóia tão estupenda e exorbitante doutrina que nos joga impiedosamente através de um número ilimitado de sempre novas provações e vidas difíceis. Esses argumentos, ademais, não devem ser apenas meras ou vagas conjecturas, mas provas apodíticas, às quais ninguém pode racionalmente resistir. Só assim poderiamos reconhecer uma doutrina com tão graves consequências pessoais. Havemos, portanto, de analisar nas próximas instruções os argumentos apresentados pelos defensores da reencarnação.

23) A Reencarnação — II

Estudemos as principais razões que os espíritas alegam em favor da teoria reencarnacionista:

1) A primeira razão que os espíritas alardeiam em seu favor e em que muito insistem, é que os Espíritos assim ensinam (1, 112 s), pois trata-se de “uma das mais importantes leis reveladas pelo Espiritismo” (VI, 29). — Para podermos argumentar com os espíritas, suponhamos por um momento que eles de fato receberam “revelações” dos espíritos e que estes ensinaram formalmente a reencarnação. Surgiría então a questão de saber quanto valem tais revelações. O tempo não nos permite entrar agora em minucioso estudo sobre o valor das mensagens espiritas, nem no exame dos critérios adotados por AK para selecionar e codificar a “doutrina espirita“. (Escrevemos sobre isso um longo ensaio na Revista Eclesiástica Brasileira de 1952, pp. 273-303). Mas podemos adiantar que AK condenou a doutrina reencarnacionista por ele codificada, quando exigiu que uma doutrina, para ser verdadeiramente “espírita”, devia ser o resultado do ensino unânime e geral dos espíritos:

“Generalidade e concordância no ensino, esse o caráter essencial da doutrina (espírita), a condição mesma de sua existência, donde resulta que todo o princípio que ainda não haja recebido a consagração do controle da generalidade não pode ser considerado parte integrante dessa mesma doutrina. Será uma simples opinião isolada da qual não pode o Espiritismo as¬sumir a responsabilidade” (VI, 11; cf. IV, 21).

— Ora, é certo que a teoria da reencarnação não foi unánimemente ensinada pelos “espíritos”; logo, não se trata de uma ver-dadeira doutrina “espírita” e a reencarnação “não pode ser considerada parte integrante da doutrina espirita” e, conseguintemente, nada vale este primeiro argumento. E que não há de fato unanimidade, nem generalidade e concordância entre os mesmos espíritos, não nos consta apenas do inegável fato de que o Espiritismo anglo-saxão, que também pretende ter recebido o seu material doutrinário dos espíritos (e, naturalmente, dos espíritos “superiores”), nega até fanáticamente a reencarnação, mas consta — e isso é importante — do próprio grande e ilustre senhor AK (cf. III, 338 e I, 139)! Temos além disso o seguinte: em O Livro dos Espíritos escreve AK um capítulo próprio, dele mesmo, não recebido dos espíritos, em que faz “considerações sobre a pluralidade das existências” (I, 138-148), abstraindo de qualquer comunicação espírita, para examinar apenas os motivos da razão. Aí ele conclui suas considerações com estas significativas palavras:

“Temos raciocinado, abstraindo, como dissemos, de qualquer ensinamento espírita que, para certas pessoas, carece de autoridade. Não é somente porque veio dos espíritos que nós e tantos outros nos fizemos adeptos da pluralidade das existências. É porque esta doutrina nos pareceu a mais lógica e porque só ela resolve questões até então insolúveis” (I, 147).

Aqui, portanto, AK nos declara que ele é reen- carnacionista não porque os espíritos revelaram, mas por motivos de ordem puramente filosófica. Estes e não o valor dos espíritos é que decidiram o codificador a aceitar a reencarnação! E ele continua suas confissões, para não deixar dúvidas a respeito:

“Ainda quando (a idéia da reencarnação) fosse da autoria de um simples mortal, tê-la-íamos, igualmente, adotado e não houvêramos hesitado um segundo mais em renunciar às idéias que esposavamos. Em sendo demonstrado o erro, muito mais que perder do que ganhar tem o amor próprio, com o se obstinar na sustentação de uma idéia falsa. Assim também tê-la-íamos repelido, mesmo que provindo dos Espíritos, se nos parecera contrária à razão, como repelimos muitas outras…”

Estas palavras mostram quanto valem para Kardec as comunicações dos “espíritos”: exatamente nada. Revelassem eles a reencarnação ou afirmassem eles o contrário, o codificador, de qualquer jeito, seria reencarnacionista. Ele próprio o diz. Isso equivale a declarar a absoluta bancarrota do Espiritismo. Para que ainda comunicações dos espíritos? O melhor que eles poderão fazer é confirmar a nossa opinião pessoal; se não concordarem conosco, repelimo-los… Por isso também repeliu AK a Ssma. Trindade, por isso contestou a Divindade de Cristo, por isso rejeitou o pecado original, por isso negou o inferno, etc. etc.

2) A ancianidade da doutrina reencarnacionista é outro argumento repisado pelos espíritas. No livro A Reencarnação e suas Provas, que acaba de aparecer em Curitiba (1953), escreve C. Imbassahy que esta doutrina “existiu de todos os tempos, em todas regiões e em todas as seitas” (p. 56). E na p. 202 declara um outro espirita: “Por mais longe que possamos sondar o passado, aí encontraremos o princípio das reencarnações como base de fé”; e depois: “os Caldeus, os Hebreus, Jesus Cristo, e os primeiros cristãos, os Evangelhos, os filósofos gregos, Pitágoras, Esopo, Platão, Aristóteles, os Pais da Igreja, Orígenes, Clemente de Alexandria a tinham escrito como postulado fundamental da religião do universo”. Muita afirmação (sem nenhuma comprovação!) e muita mistura que merecería detido exame, principalmente no que se refere a Jesus, aos primeiros cristãos e aos Pais da Igreja Deixando o exame destes últimos para a próxima instrução, vejamos agora se em “todos os tempos, em todas regiões e em todas ãs seitas” e “por mais longe que possamos sondar o passado” a reencaniaçâo era de fato um postulado tão geral e antigo como os espíritas querem fazer crer. Precisamente sobre este assunto fez o Pe. Paulo Siwek, S. J., interessante investigação no livro A Reencarnação dos Espíritos (São Paulo, 1946), em que prova que “nunca a doutrina da reencarnação granjeou universalidade comparável à que caracteriza a doutrina da imortalidade da alma”; mostra que “são muitos os povos que sempre se conservaram refratãrios às concepções reencarnacio- nistas”; e que “outros muitos só bem tarde admitiram esta doutrina” (p. 12). Lembra que, p. ex. entre os Persas não encontramos vestígio nenhum da reencarnação. Também a religião primitiva da China, anterior ao Budismo, desconhece inteiramente a reencarnação. O mesmo vale do antigo Egito, que só posteriormente aceitou idéias reencarnacionistas. A literatura religiosa da Índia, no período mais antigo, ignora igualmente a reencarnação, aparecendo pela primeira vez no livro “Satapa Brâmana” ou “O Brâmane de cem caminhos”, portanto apenas no segundo período da literatura hindu. Acentua ainda o mesmo autor que a Grécia, na aurora de sua existência, nada sabe da reencarnação:

“Só pelo ano 543 A. C. é que nela a introduz um certo Ferécides, segundo consta, mestre de Pitágoras. É porém o próprio Pitágoras que geralmente passa por ser o verdadeiro introdutor da teoria da reencarnação na Grécia”.

Os antigos romanos, diz Siwek, nunca aceitaram com simpatia a teoria da reencarnação.

Temos, portanto, que AK proferiu duas colossais mentiras quando escreveu:

“Ensinando o dogma (sic!) da pluralidade das existências corporais, os Espíritos renovam uma doutrina que teve origem nas primeiras idades do mundo” (í, 138).

Pois vimos que nem “os Espíritos” ensinaram semelhantes fantasias, nem elas tiveram origem “nas primeiras idades do mundo”. Veremos na seguinte instrução se Cristo e os primeiros cristãos eram de fato reencarnacionistas.

24) A Reencarnação — III

Como os espíritas querem, por viva força, ter aparências cristãs, era necessário dizer que também Cristo e os primeiros cristãos pregaram a reencarnação. E é o que escrevem por aí, em todos os jornais e colunas espíritas. Também AK insiste diversas vezes neste ponto:

“O princípio da reencarnação, diz ele, ressalta de muitas passagens das Escrituras, achando-se especialmente formulado, de modo explícito no Evangelho” (I, 146).

E em outro livro chega a dizer que “Jesus e os profetas confirmaram formalmente” a lei da reencarnação (“sob o nome de ressurreição”!), concluindo que “negar a reencarnação é negar as palavras de Cristo” (IV, 71). Provas? As principais são estas duas: é que João Batista seria a reencarnação do profeta Elias; e em Jo 3, 3 disse Jesus a Nicodemos:

“Em verdade, em verdade te digo: se alguém não nascer de novo não pode entrar no reino de Deus”.

Mas antes de examinarmos estes dois argumentos, devemos refletir sobre esta outra afirmativa de AK:

“Sem o princípio da preexistência da alma e da pluralidade das existências, são ininteligíveis, em sua maioria, as máximas do Evangelho” (IV, 72).

As considerações que faremos nos pontos seguintes nos levarão a inverter precisamente esta ousada tese de Kardec. Não conhecemos, com efeito, outra teoria que mais fundamental e diretamente se oponha às máximas evangélicas do que justamente a reencarnação. Já dissemos e sustentamos que a teoria reencarnacionista, com todo o cortejo de suas consequências, é simplesmente a contestação do Evangelho de Cristo e que foi esta idéia que levou AK e seus fanáticos sequazes a renegar todo o sagrado depósito da fé cristã. Vejamos resumidamente a absoluta e total incompatibilidade entre o Evafigelho e a teoria reencarnacionista.

1) Cristo, repisando no valor decisivo desta vida presente, insistindo na importância culminante da hora da morte, advertindo-nos frequentemente em estarmos sempre prontos e preparados a prestarmos conta da nossa vida ao Juiz Divino, prometendo aos justos recompensa imediata depois da morte, contestando abertamente a possibilidade de arrependimento e perdão depois da morte, desconhecendo inteiramente quaisquer vagabundeios pelos espaços para “progredir continuamente”, exclui com isso mesmo a doutrina da reencarnação, da pluralidade das existências e do progresso contínuo depois da morte.

“Está decretado que o homem morra uma só vez, e depois disto é o julgamento” (Heb 9, 27).

E outra vez diz a Sagrada Escritura:

“A cada um, no dia de sua morte o Senhor retribuirá, conforme as suas obras” (Ecle 11, 28).

É o que se vê muito bem no caso do pobre Lázaro e do rico gozador (Lc 16, 19-31), que já consideramos: eles não vagabundeiam pelos espaços à espera de nova encarnação. Também ao ladrão arrependido prometeu Cristo moribundo: “Hoje mesmo estarás comigo no paraíso” (Lc 33, 43): Nada de purificar-se em sucessivas existências e de andar pela “erraticidade”, como devia ser se Cristo fosse espírita. Desde que o homem se arrependa sinceramente dos pecados cometidos, por maiores que tenham sido, e receba o perdão divino, “entra no gozo do Senhor”. Esta é a doutrina de Jesus que perpassa todas as páginas do Evangelho. E aí não cabe, de modo nenhum, a doutrina da reencarnação obrigatória e do progresso contínuo.

2) Outra doutrina fundamental do Cristianismo, que foi também uma das verdades mais vivamente defendidas pelos primeiros cristãos e sobretudo pelos Apóstolos e que foi ensinada com inegável clareza por Cristo, é a ressurreição final de todos os homens. Ora, coerentes com seus princípios, os defensores da reencarnação negam e devem negar a ressurreição final (cf. AK, I, 458). Pois afirmar a ressurreição no sentido em que Cristo a ensinou (cf., por exemplo, Jo 5, 28-29) é negar pela base a teoria da reencarnação e do progresso contínuo em iteradas vidas corpóreas, para afinal viver uma vida inteiramente independente do corpo, como querem os kardecistas (V, 108).

3) Mas de todas as verdades pregadas por Cristo, a que mais direta e formalmente se opõe à idéia reencarnacionista, é a verdade da existência e da eternidade de um lugar e estado de condenação por Ele mesmo denominado “inferno”. É esse o motivo porque todos os partidários da reencarnação negam impertinentemente a existência do inferno. Já vimos isso em várias instruções.

4) Coerentes com seus princípios de evolução e progresso contínuo, os reencarnacionistas propugnara a mais rigorosa auto-redenção:

“Toda falta cometida, todo mal realizado, é uma dívida contraída que deverá ser paga; se não for em uma existência, sê-lo-á na seguinte ou seguintes” (V, 88).

Cada qual deverá expiar suas próprias culpas: não há satisfação vicaria ou redenção feita por outrem. É por isso que todos eles negam a nossa redenção por Cristo, como já vimos também… Deus não dá graças, nem distribui favores, nem perdoa pecados sem que preceda expiação e reparação própria. Ora, todos esses postulados reencarnacionistas — e sem os quais esta teoria seria um absurdo! — são outra vez incompatíveis com a grande novidade do Evangelho, a “boa nova” da mensagem cristã: a nossa redenção por Cristo, já atentamente considerada em outra ocasião.

Bastam essas sumárias indicações e que resumem um número enorme de ensinos e palavras de Cristo, para mostrar que a teoria reencarnacionista dos espíritas torna diretamente “ininteligíveis, em sua maioria, as máximas do Evangelho”. É que Cristo não era espírita, nem reencarnacionista.

O mesmo vale dos Santos Padres. Porque também todos eles professam unanimemente sua fé na nossa redenção, na unicidade da vida terrestre, etc., verdades que de nenhum modo se conciliam com as fantasias reencarnacionistas. Os espíritas, como por exemplo o Sr. Campos Vergal, atualmente deputado federal por São Paulo, demonstram uma supina ignorância quando escrevem coisas assim:

“A Igreja primitiva não repele absolutamente o ensino reencarnacionista. Os primeiros padres e, entre eles, São Jerônimo e Rufino, afirmam que ele era ensinado como verdade tradicional a um certo número de iniciados” (Campos Vergal, Reencarnação ou Pluralidade das Existências, S. Paulo 1936, p. 41).

Infelizmente ele não cita nem os textos nem as obras destes autores, que ele, como os demais espíritas, seguramente não leu. Verdade é que Clemente de Alexandria fala da reencarnação; mas diz que é uma doutrina “arbitrária”, porque não se baseia nem nas sugestões de nossa consciência (PG 9, 706), nem na fé católica (PG 9, 674; PG 8, 1114-1115; ib 1290 s). Também para São Jerônimo a teoria da reencarnação é uma invenção “dos filósofos estúpidos e de certos hereges”, como ele se exprime (PL 26, 74). Poderiamos alegar assim uma longa série de Santos Padres. Mas parece-nos inteiramente inútil, porque pensamos ser ridículo querer provar que por exemplo um Santo Agostinho não era espírita…

25) A Reencarnação — IV

Já vimos que nem as comunicações dos “espíritos”, nem os testemunhos unânimes dos povos, nem a convicção da antiguidade, nem o ensino de Cristo, nem a fé dos primeiros cristãos, nem os escritos dos Santos Padres nos forçam a aceitar a teoria das sucessivas vidas corpóreas. Quanto à doutrina de Cristo, temos com evidência o contrário. Duas das mais comuns objeções, todavia, que os reencarnacionistas colhem Evanvelho, ainda merecem a nossa consideração.

1) A primeira é que João Batista seria o profeta Elias reencarnado. Verdade é que existe alguma relação entre o intrépido Batista, percursor da primeira vinda de Cristo e o corajoso Elias, o anunciado precursor da segunda vinda de Jesus. Já o anjo que veio anunciar a Zacarias o nascimento de João explicou:

“Seguirá diante dele no espirito e na virtude de Elias” (Lc 1, 17).

Referindo-se a este textoj escreveu Santo Agostinho (que, segundo AK, seria “um dos maiores vulgarizadores do Espiritismo”: V, 48) que só a “perversidade herética” pode ver aí uma afirmação da reencarnação (PL 34, 725). Sabiam os fariseus e escribas que, segundo a profecia de Malaquias 4, 5, a aparição de Cristo seria preparada por Elias. Ora, Jesus de Nazaré declarava ser o Messias: como era isso possível se Elias ainda não aparecera? Eis a formidável objeção que os fariseus alegavam contra a autenticidade da missão messiânica de Jesus (cf. Mt. 17, 10). Eles confundiam as duas aparições efetivas de Cristo: a primeira como Redentor e a segunda como Juiz. Malaquias profetizara a vinda de Elias “antes que venha o dia grande e terrível” (Mal 4, 5) do Juízo Final, por tanto da segunda vinda de Cristo. O precursor da primeira aparição seria João Batista que, conforme as citadas palavras do anjo, aparecería “no espírito e na virtude de Elias”. Daí dizer Jesus, para refutar a objeção dos fariseus e tranquilizar os discípulos:

Se quiserdes compreender, ele mesmo (João Batista) é Elias que deve vir. Quem tiver ouvidos ouça” (Mt 11, 14-15).

E Santo Agostinho explica:

“O que Elias será para o segundo, isso foi João para o primeiro advento” (PL 34, 1408).

As palavras de Jesus: “Elias já veio” (Mt 17, 12), têm realmente no contexto o sentido que o enviado de Deus, que devia preceder a primeira vinda do Messias (e que os judeus, confundindo as duas aparições de Cristo, chamavam de Elias), já apareceu. E o Evangelista acrescenta:

“Então compreenderam os Apóstolos que Jesus se referia a João Batista” (Mt 17, 13).

De resto, não se esqueça também que Elias, conforme a convicção dos judeus, ainda não morreu ou “desencarnou” e por isso mesmo nem podia “reencarnar”. Note-se também que no monte Tabor, depois da execução de João Batista, não apareceu este, como deveria, segundo as regras reencarnacionistas, mas o profeta Elias. Aliás, o próprio Batista, diretamente interrogado por uma comissão de judeus se era Elias, respondeu categoricamente: “Não o sou” (Jo 1, 21), com o que ele mesmo, João Batista, dirimiu a questão.

2) Nem o recurso ao admirável colóquio entre Jesus e Nicodemos pode melhorar a posição reencarnacionista frente ao Evangelho. É incontestável que Jesus declarou formalmente a Nicodemos:

“Se alguém não nascer de novo (no grego está anothen: nascer do alto!), não pode entrar no reino de Deus” (Jo 3, 3).

Podemos encontrar estas palavras nos cabeçalhos de revistas e jornais espíritas, como se fossem a mais insofismável afirmação da reencarnação. Mas geralmente citam só estas palavras e não o que segue. Entretanto precisamos ler o texto todo, porque para o próprio Nicodemos a coisa não estava clara e ele pediu maior explicação:

“Tornou-lhe Nicodemos: Como pode um homem nascer, sendo velho? Poderá porventura voltar ao seio de sua mãe e tornar a nascer?”

Note-se logo aqui até que ponto a idéia da reencarnação era alheia ao espírito de Nicodemos. Se ele fosse reencarnacionista e se esta teoria fosse de fato um dos “pontos fundamentais entre os judeus”, como afirma AK (IV, 71), este “mestre em Israel” não feria pedido explicação…

“Replicou-lhe Jesus: Em verdade, em verdade te digo: quem não nascer por meio da água e do Espírito não pode entrar no reino de Deus. O que nasce da carne é carne, mas o que nasce do espírito é espírito”.

Aí está o texto todo. E aí está também sua explicação, dada pelo próprio Cristo: é preciso “nascer de novo” (melhor anothen: nascer do alto), sim, Jesus insiste, mas logo esclarece: “por meio da água e do Espírito”. E isso seria reencarnação?… Também em outros lugares a Sagrada Escritura fala desta necessidade de “nova vida”: “Renovai-vos pois no espírito do vosso entendimento, e vesti-vos do homem novo, criado segundo Deus na justiça e na santidade verdadeira” (Ef 4, 23 s); “despojando-vos do homem velho com todas as suas obras e revestindo-vos do novo, daquele que se renova para o conhecimento, segundo a imagem daquele que o criou” (Col 3, 9 s); “se não vos converterdes e vos não fizerdes como meninos, não haveis de entrar no reino dos céus” (Mt 18, 3); “como meninos recém-nascidos desejai o leite racional, sem dolo, para com ele crescerdes para a salvação” (1 Pd 2, 2). Por isso o sacramento do Batismo, que é dado “por meio da água e de Espírito”, foi sempre chamado de sacramento da “regeneração”.

3) Assim está claro que estas duas passagens escritu- rísticas, consideradas pelos reencarnacionistas as mais decisivas, não nos obrigam necessariamente a admitir a estranha teoria espírita, mas podem ser entendidas perfeitamente e sem violencia de textos ou contextos. Os outros muitos textos, porém, — e não são dois apenas, mas centenas — que nos falam clarissimamente da nossa redenção por Cristo, da nossa ressurreição final, da unicidade da vida terrestre, do julgamento definitivo logo depois da morte, do inferno sem fim, etc. etc., todas essas numerosas e insofismáveis passagens que perfazem o conjunto da mensagem cristã, de nenhum modo podem ser conciliadas com a teoria da reencarnação (pois são sempre doutrinas opostas, contraditórias; reencarnação = pluralidade das existências contra a doutrina da unicidade da vida terrestre; reencarnação — progresso contínuo depois da morte contra a doutrina do inferno sem fim; reencarnação = expiação própria e evolução por méritos rigorosamente pessoais contra a doutrina da redenção dos homens por Cristo; reencarnação = sempre novos corpos e finalmente vida sem corpo contra a doutrina da ressurreição final de todos, etc.) e são, por isso, negadas unânimemente pelos reencarnacionistas. O simples fato de que os espíritas, para poderem continuar com suas teorias, devem riscar grande parte do Evangelho, chegando por isso a negar a própria Bíblia, como vimos, é um argumento eloquentíssimo para provar que as doutrinas do Evangelho e da Bíblia toda não são espíritas e que, portanto, os espíritas não são cristãos, nem podem honestamente apresentar-se como tais.

4) Não só os Evangelhos são evidentemente contra a reencarnação: também o testemunho da universal experiência humana atesta que não reencarnamos. Pois, se fosse verdadeira essa doutrina, teriamos que todos os homens atualmente existentes são espíritos reencarnados, que já passaram por incontáveis vidas passadas. E o que nos contam eles destas suas vidas? Entre tantos seres reencarnados, não descobrimos um só que, se for sincero, se não estiver louco, mesmo que seja espírita, mas que seja normal e são, nos possa revelar algo de suas vidas passadas. A consciência universal da humanidade ignora de todo em todo suas existências anteriores! Verdade é que não falta quem, ou mentindo descaradamente, ou alucinado por sua imaginação tomada pelas preconcebidas fantasias da doutrina espírita, ou desvairado e desequilibrado em sua mente, ou colocado num incontrolável sono hipnótico em que a fantasia revive as mais ridícuias e impossíveis sugestões, ou posto num estado anormal de transe em que nos escapa a possibilidade de controlar a ação do subconsciente, pretende recordar-se de suas vidas anteriores. Quem poderá jamais controlar a veracidade dum “mestre Yokaanam”, quando alega ser a reencarnação de João Batista, ou dum Pietro Ubaldi quando diz ser o Apóstolo São Pedro, ou dum senhor Leão Hípólito Denizart Rivail dizendo ser a reencarnação do poeta celta AUan Kardec? Ninguém poderá jamais provar que eu não sou a reencarnação do próprio Adão — a não ser que prove a impossibilidade de reencarnação como tal! Aliás, verificamos aqui uma nova e mui curiosa forma de megalomania: todos aqueles que declaram lembrar-se de vidas passadas, foram sempre personagens importantes. Home garante que já teve a honra de encontrar ao menos doze Maria-Antonieta, seis ou sete Maria Stuart, uma multidão de São Luís e outros reis, uns vinte Alexandres e Césares, — mas nunca um simples João Ninguém!

5) Sustentam os espíritas que os sofrimentos e males que nos molestam seriam castigos de pecados ou crimes cometidos em vidas anteriores. Mas castigos de que crime? Por que motivos sou assim duramente punido? Qual é o pecado que devo expiar? E ficamos a sofrer castigos, sem ao menos saber por quê! Tirania sem nome… A elementar justiça humana exige que o réu castigado saiba por que é punido. O bom-senso se revolta contra uma punição que nos é infligida sem termos a menor idéia de alguma culpa cometida. O método reencarnacionista de castigar, por mais que eles apelem precisamente à razão e à justiça divina, é irracional, indigno do homem, cruel e clamorosamente injusto. Nem mesmo os seres irracionais são punidos assim, porque também neles procura-se associar quanto possível o castigo ao erro cometido. — Dizem ainda que a finalidade das reiteradas vidas terrestres é o lento mas continuo pro¬gresso dos espíritos. Mas justamente este progresso seria enormemente facilitado não pelo esquecimento total e absoluto, mas pela clara lembrança das vidas passadas. A realidade, porém, é bem outra e muito mais cruel: todos vol-tam a aprender de novo o alfabeto, com o trabalho fatigante de costume…

É que não há reencarnação nenhuma.

APÊNDICE

Entre as numerosas medidas a serem adotadas pela “Campanha Nacional contra a Heresia Espírita”, promulgada na primeira reunião ordinária da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (12 a 19 de Agosto de 1953), está previsto “exigir de todos os membros de Associações Religiosas um juramento antiespirita”. A razão de tão severa medida reside no incontestável fato de que o Espiritismo se tem utilizado de todos os meios para penetrar nos ambientes católicos e que muitos, iludidos por falsa e traiçoeira propaganda, aderiram ao Espiritismo ou ao menos frequentam suas sessões, pensando que podem ao mesmo tempo continuar católicos e até ingressar em Associações Religiosas. A fim de cortar a ilusão de um possível conúbio católico-espirita, resolveu-se uma intensa propaganda de esclarecimento e exigir de todos os membros das Associações um juramento antiespírita. O Pároco ou seu delegado em hora préviamente marcada, reunirá na Igreja paroquial todos os membros de uma Associação, explicando-lhes o sentido e os graves motivos de tão solene compromisso. Em seguida recitarão todos juntos a Profissão de Fé contra o Espiritismo, finda o qual o Padre, revestido de sobrepeliz e estola roxa, sentado e com o Evangelho diante de si, receberá o juramento individual de cada associado, compromisso que deverá ser futuramente assumido por todo novo membro de qualquer Associação Religiosa.

Profissão de Fé contra o Espiritismo

(recitada em comum)

Creio em um só Deus verdadeiro, / distinto do mundo / e subsistente em Três Pessoas: / Pai, Filho e Espírito Santo, / Criador do universo e de quanto nele existe; / e que com sua paternal Providência / conserva e governa / todos os seres materiais e espirituais. / Creio que Deus se manifestou aos homens / no Antigo e Novo Testamento / e reafirmo publicamente a minha fé / em tudo que Deus nos revelou. / Creio que Jesus Cristo, / Segunda Pessoa da Santíssima Trindade, / Deus igual ao Pai e ao Espírito Santo, / se fez verdadeiro Homem, / com corpo e alma, / no seio puríssimo da Virgem Maria; / e que padeceu e morreu para nos salvar. / Creio que Jesus Cristo fundou a Igreja Católica / e instituiu os sete Sacramentos, / sinais eficazes da graça divina, / que nos conferem os frutos da Redenção. / Creio que vivemos uma só vez sobre a terra / e que mediatamente depois da morte / a alma será julgada por Deus, / recebendo os bons, / logo ou depois do Purgatório, / o prêmio no Céu / e os maus o castigo sem fim no Inferno; / e que no juízo final / todos hão de ressuscitar / com seus próprios corpos. / Condeno, por isso, / e rejeito o Espiritismo, / suas doutrinas heréticas / e suas práticas supersticiosas, / particularmente a reencarnação / e a evocação dos mortos, / muitas vezes condenada por Deus e pela Igreja.

Juramento Antiespírita

(individual)

Eu, N. N., em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo, com a mão sobre o sagrado Evangelho, juro que não sou espírita e prometo que jamais hei de assistir a uma sessão, nem farei uso de receitas espiritas. Juro também que não lerei nem guardarei comigo ou com outrem livros, revistas, folhetos e jornais que defendam ou propaguem as heresias ou as superstições do Espiritismo, em qualquer de suas formas. Comprometo-me fazer valer a minha autoridade para conservar afastados do Espiritismo os que de mim dependem. Assim prometo, assim me ajudem Deus e estes santos Evangelhos.

Comentário

Creio: Entendo esta palavra como um ato da virtude teologal da Fé, que é, segundo a definição do Concilio Vaticano, “uma virtude sobrenatural pela qual, inspirados e ajudados pela graça, cremos ser verdade o que Deus revelou, não devido à verdade intrínseca das coisas, conhecidas pela luz natural da razão, mas em virtude da autoridade do próprio Deus, autor da Revelação, que não pode enganar- se nem enganar”.

em um só Deus verdadeiro, distinto do mundo: visa ao panteísmo da absoluta maioria dos nossos espíritas, para os quais Deus se identifica com o mundo.

e subsistente em Três Pessoas: Pai, Filho e Espirito Santo: é a profissão de fé no augusto mistério da Santíssima Trindade, o conceito específicamente cristão de Deus e uma, das verdades fundamentais do Cristianismo, negada e ridicularizada pelos espíritas.

Criador do universo e de quanto nele existe: contra o extremo evolucionismo panteista da doutrina espírita, segunda a qual o universo seria uma “irradiação do Foco Divino”.

e que com sua paternal Providência conserva e governa todos os seres: contra o pretenso governo do mundo pelos espíritos, para isso incumbidos por Deus.

…materiais e espirituais: nítida distinção entre os dois reinos: o material e o espiritual, contra a doutrina espírita de que, no fundo, tudo é “matéria quintessenciada”, ou que tudo provém da “matéria cósmica primitiva”; afirmação também de que creio em seres puramente espirituais, anjos e demônios, também negados pela doutrina espírita.

Creio que Deus se manifestou aos homens no Antigo e Novo Testamento: profissão de fé na inspiração divina dos livros sagrados da Bíblia, que para os espíritas não passam de livros puramente humanos, repletos de mitos, fábulas e contradições.

e reafirmo publicamente a minha fé: deve ser pública esta minha profissão de fé, porque pública está sendo também entre nós a negação da palavra de Deus.

…em tudo que Deus nos revelou: seja na Sagrada Escritura, seja na Tradição Apostólica que a Igreja conservou, transmitiu e sempre defendeu.

Creio que Jesus Cristo, Segunda Pessoa da Santíssima Trindade, Deus igual ao Pai e ao Espirito Santo…: afirmo e proclamo a Divindade de Nosso Senhor Jesus Crsifo, outra verdade básica da fé cristã, contestada peia heresia espírita, segundo a qual Jesus seria apenas um poderoso “médium”, espírito enviado por Deus para ser 0 “governador do planeta Terra”.

…se fez verdadeiro Homem, com corpo e alma: grande parte dos nossos espiritas sustentam que Cristo tinha apenas um corpo aparente ou fluídico e não real: afirmo e renovo minha fé na verdadeira e real humanidade de Cristo.

no seio puríssimo da Virgem Maria: Ela é por isso verdadeira Mãe de Deus, imaculada e isenta de qualquer mancha de pecado, sempre virgem e em corpo e alma assunta ao céu: verdades todas, que os espiritas negam e ridicularizam.

e que padeceu e morreu para nos salvar: com isso proclamo a minha fé na nossa redenção por Cristo, que “é a propiciação pelos nossos pecados, não pelos nossos somente, mas também pelos de todo o mundo” (1 Jo 2, 2), contra  o que os espíritas levantam as mais irreverentes acusações: “Não — clama Leão Denis — a missão de Cristo não era resgatar com o seu sangue os crimes da Humanidade: o sangue, mesmo de um Deus, não seria capaz de resgatar ninguém”!

Creio que Jesus fundou a Igreja Católica: para continuar a sua missão até o fim do mundo; e que para os espíritas é “o maior foco de todas as mentiras, de todas as vergonhas, de todas as misérias que se conhecem”.

e instituiu os sete Sacramentos: negados .também, todos eles, pelo Espiritismo.

sinais eficazes da graça divina: creio na vida sobrenatural, que os espíritas negam, como não aceitam “nem favores, nem privilégios de Deus”, nem mesmo o perdão dos pecados.

Creio que vivemos uma só vez sobre a terra: e não tornamos a reencarnar em sempre novas vidas corpóreas, como doutrina o reencarnacionismo espírita.
e que mediatamente depois da morte a alma será julgada por Deus: a doutrina espirita sobre o “progresso continuo depois da morte” é uma perigosa ilusão, criada para facilitar a vida pecaminosa: “Está decretado que o homem morra uma só vez, e depois disto virá o julgamento” (Hb 9, 27).

recebendo os bons, os que souberam aproveitar esta única vida terrestre, os que obedeceram aos mandamentos de Deus e de Cristo ou os que ao menos sinceramente se arrependeram.

logo ou depois do Purgatório: também o dogma do Purgatório é negado pelos espiritas,

o prêmio no Céu: neste lugar de plena e perfeita felicidade, do qual diz o Espirito Santo que nele não entrará “coisa alguma impura, nem idólatra, nem herege” (Apoc 21, 27), e que os espíritas desprezam como urna “eterna e fastidiosa inutilidade”.

e os maus, os pecadores impenitentes, os negadores con¬tumazes e obstinados da Doutrina Cristã.

o castigo sem fim: não apenas castigo muito prolongado, não . apenas uma longa série de reencarnações,

… do Inferno: do qual Cristo, Mestre da Verdade, falou inúmeras vezes, dizendo expressamente que é “eterno”, como é “eterna” a felicidade dos bons: “E irão estes (os maus) para o suplício eterno e os justos para a vida eterna” (Mt 25, 46) e que os obstinados espíritas persistem em negar.

e que no juízo final, também negado pela doutrina espirita, mas muito minuciosamente descrito por Cristo,

… todos hão de ressuscitar com seus próprios corpos: é o consolador dogma da ressurreição final de todos os homens, bons e maus, também contestado pelos profissionais negadores da Doutrina Cristã, os espiritas;

Condeno por isso, e rejeito o Espiritismo: tanta negação, tão irreverentes modos de tratar os mais claros en¬sinamentos de Cristo, tanta má fé e tão aberta revolta contra Deus e a Igreja merecem o meu repúdio e a minha condenação.

suas doutrinas heréticas: pois, como declararam os Bispos do Brasil, “o Espiritismo não nega apenas uma ou outra verdade de nossa Santa Religião, mas todas elas, destruindo o Cristianismo pela base’’.

e suas práticas supersticiosas: “O Espiritismo é o conjunto de todas as superstições da incredulidade moderna” (Episcopado Brasileiro).
particularmente a reencarnação: porqúe a teoria espírita da reencarnação é a fonte principal de todas as negações da doutrina codificada por Allan Kardec.

e a evocação dos mortos, agora generalizada pelo Espiritismo e que é a magia e necromancia da antiguidade,

… muitas vezes condenada por Deus: Cf. ÊX 22, 18; Lev 20, 6. 27; 19, 31; Deut 18, 10-14; Is 8, 19-20. Eis por exemplo o que está em Deut 18, 10-14: “Não se ache entre vós quem consulte adivinhos ou pitões, ou indague dos mor-tos a verdade. Porque o Senhor abomina estas coisas”.

… e pela Igreja: diversas vezes a Santa Sé e os Bispos do Brasil proibiram a supersticiosa prática da evocação dos mortos, como “ilícita, herética, escandalosa e contrária à honestidade dos costumes”.

O solene compromisso antiespírita, a ser prestado individualmente, compreende cinco pontos, e que devem ser bem ponderados:

1) Declaração formal, invocando o nome da Santíssima Trindade como testemunha, de que atualmente (não há referências ao passado) não sou espírita, isto é, não dei o meu nome a nenhuma entidade espírita, nem costumo frequentar habitualmente nenhum centro de Espiritismo, qualquer que seja a sua modalidade.

2) Promessa solene de que jamais hei de assistir a uma sessão espirita, qualquer que seja o pretexto, nem por mera curiosidade.

3) Obrigação assumida de que nunca farei uso de receitas dadas nas sessões ou nos centros espiritas.

4) Juramento promissório de que jamais hei de ler nem guardar comigo ou com outrem livros, revistas, folhetos ou jornais que defendam ou propaguem as heresias ou as superstições do Espiritismo em qualquer de suas formas, inclusive todos os perniciosos livros da Editora “O PEnsamento” ou do “Círculo Esotérico da Comunhão do Pensamento”.

5) Compromisso perante Deus de fazer o possível para consevar afastados do Espiritismo os que de mim dependem.