"Meu Deus, meu tudo" - São Francisco de Assis

“Meu Deus, meu tudo” – São Francisco de Assis

Delectare in Domino, et dabit tibi petitiones cordis tui – “Deleita-te no Senhor, e Ele te outorgará as petições de teu coração” (Sl 36, 4)

Sumário. A experiência demonstra que todos os bens do mundo não podem contentar o coração do homem, criado para um bem infinito. Encontre-se com Deus, una-se a Deus, e ei-lo contente, nada mais desejando, até no meio das cruzes e tribulações, porque o amor divino é como o mel, que torna doces e amáveis as coisas mais amargosas. Se, pois, quisermos ser felizes, amemos sinceramente Jesus Cristo, entretenhamo-nos com Ele na oração e visitemo-Lo muitas vezes no Santíssimo Sacramento. Tenhamos também uma devoção terna para com a grande Mãe de Deus.

I. Todos os bens e prazeres do mundo não podem contentar o coração do homem. Quem o pode, pois, contentar? Só Deus. Deleita-te no Senhor, e Ele te outorgará as petições de teu coração. O coração do homem anda sempre à procura de um bem que o possa saciar. Desfrute riquezas, prazeres, honras; não estará contente, porque estes bens são finitos e ele foi criado para um bem infinito. Encontre-se com Deus, una-se a Deus, e ei-lo contente sem mais outro desejo.

Santo Agostinho nunca achou a paz enquanto passou a vida nos prazeres dos sentidos. Mas, quando se deu a Deus, então confessou e disse ao Senhor: Inquietum est cor nostrum, donec requiescat in te — “Nosso coração está inquieto, enquanto não descansa em Vós”. Meu Deus, dizia, agora vejo que todas as criaturas são vaidade e aflição, e só Vós sois a verdadeira paz da alma. Instruído assim à sua custa, escreveu:

“Ó homem, criatura mesquinha, porque andas à procura dos bens deste mundo? Procura o único bem que encerra todos os outros.”

Como Deus sabe tornar felizes as almas fiéis que o amam! Quando São Francisco de Assis deixou tudo por amor de Deus, posto que andasse descalço, coberto apenas com uns farrapos, morto de frio e fome, experimentava um gozo celestial ao pronunciar estas palavras:

Deus meus et omnia — “Meu Deus e meu tudo”

Quando São Francisco de Borja, depois de religioso, devia em viagem dormir sobre a palha, sentia tamanha consolação que nem conseguia conciliar o sono. Da mesma forma São Filipe Neri, tendo deixado tudo, recebia de Deus consolação tão viva, que, ao deitar-se, exclamava:

“Meu Jesus, deixai-me dormir”

No meio de seus árduos trabalhos nas Índias, São Francisco Xavier descobria o peito, exclamando:

“Basta, Senhor, de consolações; já não me cabem no peito”

Santa Teresa costumava dizer que uma só gota de consolação celeste dá mais contentamento que todas as doçuras e divertimentos do mundo. — Além disso, não podem falhar as promessas que Deus fez de recompensar o que por seu amor renuncia aos bens do mundo, dando-lhe ainda nesta vida o cêntuplo de paz e de felicidade. Centuplum accipiet et vitam aeternam possidebit (1) — “Receberá o cêntuplo e possuirá a vida eterna”.

II. Que é que estamos procurando? Vamos a Jesus Cristo, que nos convida, dizendo:

“Vinde a mim, todos os que estais carregados e fatigados e eu vos aliviarei” (2)

— É verdade que nesta vida os próprios santos têm que sofrer, porque a terra é um lugar de merecimentos e não se pode merecer sem sofrer. Diz contudo São Boaventura que o amor divino é semelhante ao mel que adoça e torna agradáveis as coisas mais amargas. O que ama a Deus, ama a vontade divina e isto lhe faz gozar uma alegria espiritual nas próprias aflições, porque sabe que, abraçando-a, agrada e contenta a seu Deus.

Grande Deus, os pecadores querem desprezar a vida espiritual, mas sem a terem saboreado! Vident crucem, sed non vidente unctionem. Eles veem, diz São Bernardo, somente as mortificações que sofrem os amigos de Deus, e os prazeres de que se privam, mas não veem as delícias espirituais que o Senhor lhes prodigaliza. Oh! Se os pecadores provassem a paz que goza uma alma que não quer senão Deus: Gustate et videte, quoniam suavis est Dominus (3) — “Gostai e vede, quão suave é o Senhor”.

Meu irmão, começa a fazer meditação todos os dias, a comungar frequentes vezes, a entreter-te com Jesus no Santíssimo Sacramento; aplica-te a uma devoção filial para com Maria Santíssima e recorre a esta boa Mãe em todas as tuas necessidades. Em suma, começa a desligar-te do mundo e unir-te a Deus e verás que o Senhor, no pouco tempo que passares com Ele, te há de dar mais consolações do que o mundo te deu com todos os seus divertimentos: “Gosta e vê, quão suave é o Senhor”.

Meu amado Redentor, como pude ser, no passado, tão cego até Vos abandonar, ó Bem infinito, a fonte de todas as consolações, em troca das miseráveis satisfações dos sentidos? Graças vos dou pelo tempo que me concedeis para reparar o mal que fiz. Meu Jesus, amo-Vos de todo o coração, e, porque Vos amo, pesa-me sobre todas as coisas de Vos ter ofendido. Não permitais que ainda me separe de Vós; fazei que sempre Vos ame e depois fazei de mim segundo a vossa vontade.

Doce Coração de Maria, sede minha salvação.

Referências:

(1) Mt 19, 29
(2) Mt 11, 29
(3) Sl 33, 9

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(LIGÓRIO, Afonso Maria de. Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo III: Desde a Décima Segunda Semana depois de Pentecostes até o fim do ano eclesiástico. Friburgo: Herder & Cia, 1922, p. 251-253)