1ª Carta Circular de Santo Afonso: Vocação... Missões (Novembro, 1751)

Aos Padres e Irmãos da Congregação do Santíssimo Redentor

Nota: Tendo passado por muitos dissabores, Santo Afonso declara, nesta Circular, que não são as perseguições, mas as faltas contra a Regra que o afligem e que é suma a desgraça de quem perde a vocação. Acena, enfim, à maneira de pregar as atrair as bênçãos divinas.

Vivam Jesus, Maria e José!

Nocera, novembro de 1751

Irmãos meus caríssimos. Sabei que sinto pesar quando ouço que algum de meus Irmãos foi chamado por Deus à outra vida. Sinto, sim, porque sou de carne; mas, de resto, consolo-me porque, ouvindo que morreu na Congregação, tenho por certo que se salvou. Tampouco me aflijo, quando alguém, por causa de seus defeitos abandona a Congregação; pelo contrário, alegro-me ao ver que ela se livrou de uma ovelha empestada, que poderia contaminar as outras. Também não me afligem, antes me animam, as perseguições; porque, se nos comportamos bem, estou certo que Deus não nos abandona. O que me causa temor é ouvir dizer que se cometem faltas, não se obedece nem se faz caso das Regras.

Irmãos meus, já sabeis que muitos, que eram dos nossos, agora estão fora da Congregação. Qual será o fim deles? Não sei; mas estou certo que sempre levarão vida infeliz, viverão em desassossego e morrerão aflitos por terem abandonado a vocação. Saíram na esperança de viverem mais felizes; entretanto, jamais terão um dia de sossego, pois não podem esquecer-se que abandonaram a Deus para viverem segundo seus caprichos. Dificilmente farão meditação, porque, nesse exercício, sempre se lhes apresentará o remorso de haverem abandonado a Deus: e, por isso, deixarão de rezar e, deixando a oração, só Deus sabe aonde irão parar.

Rogo-vos que fujais das faltas cometidas a olhos abertos, mormente daquelas de que já fostes corrigidos. Quando alguém, depois de corrigido, se emenda, está bem; mas, quando não se emenda, o demônio empregará maiores esforços e o fará perder a vocação. Foi assim que muitos a perderam.

Com a graça de Deus, onde os nossos pregam missões, operam prodígios, e o povo chega a dizer que nunca vira semelhantes missões. E por quê? Porque se vai por obediência, com parcimônia, e prega-se Jesus crucificado, desempenhando cada um o ofício que lhe foi indicado. Senti, porém, o coração ferido, quando ouvi que, nas missões, alguém procurou cargo mais honroso, como pregar o sermão ou fazer a instrução. Mas, que bem poderá fazer quem prega por soberba? Isto, sim, me causa horror. Se na Congregação entrar semelhante espírito de ambição, de pouco ou nada servirão as missões.

Ouvi, também, que alguns começaram a pregar em estilo floreado. Repito e torno a repetir que é ao estilo familiar que se deve o feliz êxito de nossas missões, novenas e retiros. Em todas as pregações, inclusive dos Santos, quero que se fale de maneira familiar, sem ênfase e sem palavras seletas. Ao pregar a sacerdotes ou senhores distintos, não se empregará linguagem tão popular como quando se prega ao povo, que é composto de letrados e de ignorantes; mesmo naquele caso se deve falar familiarmente. Peço, por isso, a Jesus Cristo que castigue de maneira exemplar todo aquele que tentar introduzir o estilo floreado. Acautelemo-nos, pois é certo que o orgulho a muitos tem posto fora da Congregação.

A respeito das missões, cuidado especial quanto à alimentação: contentar-se com o pouco que a Regra permite, porque aí está a razão por que as nossas missões causam mais edificação; ao menos até agora tem sido assim. No tempo da missão fica, pois, proibido alimentar-se de carne de galinha, como de outras coisas vedadas pela Regra. A algum somente, e por motivo de saúde, permito comer carne de galinha, se for expressamente ordenado pelo médico; porém, melhor seria se se pudesse remediar doutra maneira. Proíbo, igualmente, comer coisas vedadas pela Regra, quando, indo de uma missão a outra, se para em alguma casa, porque também esse é tempo de missão.

Proíbo, outrossim, a todos os Superiores ou Ministros a introdução de mulheres, de qualquer condição que sejam, em nossas casas, até mesmo no refeitório ou na cozinha, sem minha licença expressa (1). Proíbo, além disso, aos Superiores conceder licença aos súditos de se arranjarem coisas particulares para uso próprio; pois, se precisarem de alguma coisa, seja-lhes fornecida pela comunidade. Da mesma forma proíbo a todos conservar dinheiro em seu poder. Irmãos meus, conduzamo-nos bem com Deus e Ele nos ajudará em todas as perseguições que nos moverem tanto os homens como os demônios.

Rezo todos os dias, e mais vezes ao dia, por todos vós, e quero que cada um me recomende de modo especial a Jesus Cristo. Abençoo a todos e a cada um em particular.

Irmão Afonso Maria Reitor-mor

Referências:

(1) Naquele tempo não vigorava ainda a lei da clausura.

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(LIGÓRIO. Santo Afonso de. Cartas Circulares. Oficinas Gráficas Santuário de Aparecida, 1964, p. 9-13)