18ª Carta Circular de Santo Afonso: Êxito das Missões (Outubro, 1776)

Aos Padres e Irmãos da Congregação do Santíssimo Redentor

Nota: O argumento da presente Circular é semelhante ao da precedente: fervor na observância e proveito das missões. Cada ano, o Santo torna a fazer recomendações especiais aos confrades.

Nocera, (outubro) de 1776.

Vivam Jesus, Maria e José!

Padres e Irmãos meus em Jesus Cristo. Estais vendo em que grandes aflições nos encontramos. Somos perseguidos de inimigos tão poderosos que, se Deus não nos protegesse, a Congregação estaria já destruída. Tudo se deve ao esforço do inferno, que quer ver destruída esta grande obra das missões por causa da guerra que lhe move; mas todo o inferno nenhum mal poderá fazer, se formos fiéis a Jesus Cristo. O que vos peço, portanto, é que lhe sejais fiéis.

Estando próxima a partida para as missões, quero dar-vos algumas recomendações, tanto para vosso bem como para proveito das almas. Se guardarmos a obra, a obra nos guardará.

O Superior das missões será designado pelo Reitor da casa, quando ele mesmo não for; e pode designar a quem quiser, sem consideração de ancianidade.

Quem for Superior, seja o primeiro na observância da Regra; não escolha para si funções de maior destaque, mas os exercícios que mais lhe convém. De manhã, seja o primeiro a levantar-se e, depois da meditação, cuide que os Padres se dirijam incorporados à igreja. Com os súditos use de caridade e cordialidade.

Faça-se em toda a missão o Capítulo das culpas. O Superior deve punir as faltas notáveis, até mandando para casa o súdito faltoso, se necessário for; devem-se punir especialmente as faltas de obediência, e relate-se o caso a mim ou ao meu Vigário. Tais indivíduos não auxiliam, antes estragam as missões. Durante as missões, novenas e outros exercícios não se façam visitas a senhoras, fosse embora por algum pretexto da glória de Deus; isso só se permite quando se tratar da pessoa principal do lugar (padrona), que poderá ser visitada pelo Superior acompanhado de outro Padre.

Nossos confessores não falem com mulheres fora do confessionário, a não ser o caso de responder brevemente a alguma pergunta; e muito menos falem com elas a sós em casa. Havendo necessidade urgente de tratar com alguma, isso se faça somente na igreja e com toda a decência e decoro para o congregado.

Tratando-se de acomodar algum litígio, não tomem a defesa de uma das partes, mas comportem-se como simples mediadores. Havendo razão evidente a favor de uma das partes, cuidem de a expor claramente e fazer conhecer a verdade.

Tanto em missão como em casa abstenham-se de tomar parte em testamentos e contratos de casamentos, a não ser para afastar algum escândalo ou outra ocasião de pecado.

Quando na igreja houver muita gente, ouçam-se primeiro as confissões dos homens e depois as das senhoras; o mesmo se deve observar especialmente nos domingos e festas de preceito.

Quero que, nas missões, não se aceitem sob nenhum pretexto, presentes de roupas brancas ou de doces, ainda que não se faça uso deles no tempo da missão.

Observem-se os antigos costumes a respeito da qualidade dos alimentos. Proíbo aceitar presentes de pássaros, frangos, peixes caros e semelhantes, bem como todo preparado de massa, ainda que fossem instados a aceitá-los. O exemplo e a exata observância de tais coisas produz mais efeito do que a própria pregação. De modo semelhante, para as despesas, não se receba nada do município; nem jantares de párocos, nem de qualquer outra personagem eclesiástica ou secular. Somente ao Bispo, se por uma vez convidasse a um jantar, devem obedecer-lhe.

À mesa não se façam servir por pessoas do lugar, e muito menos tomem elas parte na refeição, a não ser que se trate de um especial benfeitor ou de pessoa de alta consideração; e faça-se a leitura à mesa, mesmo que fosse dia de comunhão geral.

À mesa, cada um abstenha-se de pedir qualquer coisa especial. Isso seria um grande escândalo, porquanto ao Superior compete providenciar o que cada um precisar.

Nas pregações e instruções fale-se com respeito, mormente diante de eclesiásticos e pessoas distintas. Sempre que um sacerdote desejar confessar-se, deixe-se tudo mais para atendê-lo.

Os Superiores devem vigiar que se pregue de modo simples, sem tom patético e sem flores de retórica. Corrijam e castiguem os que faltarem neste ponto; e se os culpados não se emendarem, sejam afastados da pregação, ainda que seja no meio da missão. À simplicidade é que nossas missões devem o seu grande êxito. Se alguém pretendesse ou quisesse ser preferido para qualquer exercício, seja-lhe negado, e considere-se isso um escândalo. Quem tal pretendesse, nunca faria bem algum, porque Deus não abençoa os orgulhosos. Não se deve ir às missões para pregar e aparecer, mas somente para obedecer aos Superiores e ganhar almas para Jesus Cristo.

Na missão, cada mês se faça um ou dois dias de retiro, como até agora se praticou. E não convém que todos os Padres das casas saiam a pregar missões; faça-se a seleção. Leia-se o regulamento que dei a respeito.

Finalmente, recomendo, quanto posso, esta obra das missões a todo aquele que as tiver de presidir. Atenda-se a tudo que tenho dito, e observem-se todos os antigos costumes. E melhor omitir as missões do que fazê-las com detrimento do próprio espírito e pouca edificação do próximo.

Lembro a todos, máxime aos Reitores, que se observe pontualmente tudo quanto por S. Majestade, o Rei Católico, foi prescrito em seu real despacho de 1752. Cada um se persuada que, resistir às ordens do Príncipe, é opor-se à vontade do próprio Deus.

Onero a consciência dos Reitores no que diz respeito à exata observância dos dez dias de retiro, que todo o congregado deve fazer cada ano à norma da Regra; e que se façam antes de saírem para as missões. Não se permita fazê-los em dois turnos a não ser por uma causa evidentemente necessária, porque a Regra quer que sejam dez dias ininterruptos. Se não se adquire espírito para si próprio, como se poderá comunicá-lo a outros? E, por isso, cada um, estando em casa, faça também o retiro mensal. Alguns dizem que sofrem de hipocondria. Entretanto, quando se trata com Deus, passam as fantasias (i filati). Recomendo, o retiro também aos irmãos, que dele têm mais necessidade por andarem mais distraídos com as ocupações domesticas.

Nas casas não falte o zelador, segundo o antigo costume, e seja um congregado avançado em idade e prudente; e toda a segunda-feira haja capítulo de culpas. Se se faltar neste ponto, o Admonitor deve avisar-me.

Proíbo aos congregados conservar consigo, como propriedade, roupas, tabaco, doces e semelhantes, sob pretexto. Fiz juramento de não permiti-lo, como sabeis: de sorte que tudo que vier de presente para os congregados seja entregue ao Reitor ou aos Superiores das missões; e todo Reitor guarde conscienciosamente o juramento que fez ao tomar posse do cargo. Esse juramento mantém a pobreza, e conserva a vida comum.

Os Reitores cuidem de não sobrecarregar os súditos com muitas novenas, tríduos e semelhantes. Estar muito tempo fora de casa traz dissipação de espírito e prejuízo à saúde.

Quando os súditos tiverem de sair a trabalhos ou a negócios, os Reitores devem provê-los de tudo que for necessário; mas inculquem-lhes que, estando fora de casa, não devem procurar-se coisas novas, e muito menos se forem de valor. Quero, além disso, que se lhes marquem os lugares onde deverão ficar de manhã e principalmente à noite, a fim de não andarem vagando e pernoitando a seu talante.

Exija-se cada mês a conta-de-consciência, e nisto estejam atentos os Reitores porque esta regra pouco se observa. Quero que os Admonitores prestem atenção a este ponto, e, vendo que não é observado, escrevam-me.

Os Superiores das casas, onde houver clérigos, não os distraiam do estudo, incumbindo-os de qualquer exercício de pregação fora de casa.

Devendo-se incumbir um padre novo de ouvir confissões, não seja aprovado nem apresentado ao Bispo, sem que antes eu seja informado. Quero examiná-lo primeiro ou mandá-lo examinar por outros; se for julgado hábil, permitirei que o apresentem ao Bispo diocesano.

Antes dos trinta anos não se dê licença de confessar mulheres, a não ser que algum já tenha esta licença. Isto vale também para ás missões. Proíbo, igualmente, mandar os súditos confessar religiosas sem minha expressa licença. Nisto sejam os Reitores muito parcos; e mesmo aqueles que são aprovados por mim, não os mandem, senão raramente.

Faça-se a Consulta cada mês conforme a Regra, e preste-se conta da receita e despesa da casa. Não se falte neste ponto, nem se dê motivo de queixa a algum congregado em particular.

Exorto a não fazerem despesas caprichosas, nem permitam que congregados as façam. Ainda as despesas necessárias, se excederem de dez ducados ou for preciso repeti-las, sejam propostas à Consulta; e se esta não assentir, devem os Reitores abster-se de toda a despesa. Se for preciso consultem-se também outros Padres antigos e, conforme a opinião deles, faça-se ou omita-se a despesa. — Não se dê licença a algum em particular para ir a Nápoles ou a outros lugares, e muito menos à casa paterna. Surgindo algum negócio urgente, que se possa adiar por mais de oito dias, avisem-me por carta e, na medida da urgência, determinarei o tempo que poderão demorar-se lá. Mostra a experiência que a dissipação de espírito nasce ordinariamente do pouco recolhimento e do imiscuir-se em negócios temporais. Negócios temporais são próprios de seculares, não de eclesiásticos.

Os Superiores lembrem a todos que, demorando-se em Nápoles, não devem pernoitar fora do Hospício. Sem o conhecimento do Padre mais velho não se deve tomar refeição em casa estranha. À noite, cada um esteja em casa antes das vinte e quatro horas; e não se deixe o Hospício antes de se ter feito meia hora de meditação em comum.

Para o exame dos jovens a serem recebidos foram estabelecidas duas épocas do ano, isto é, junho e setembro; mas os Reitores não mos enviem, se não tiverem habilidade suficiente e todos os requisitos necessários.

Quero, finalmente, que Reitores das casas e das missões vigiem a conduta dos súditos, a fim de que vivam com toda a exemplaridade e observem exatamente não só as Regras, mas ainda todos os nossos antigos costumes. Em caso de inobservância (entendo em coisa notável) , corrija-se congregado e se não se emendar, avisem-me, para que eu possa remediar.

Os defeitos causam-me mais que todas as perseguições. Por isso rogo-lhes que vivam em grande temor, pois, assim como Nosso Senhor, em pouco tempo, expulsou a mais de um, assim poderia expulsá-los também. Eu amo a todos, mas não posso tolerar os imperfeitos que não querem emendar- se. A responsabilidade é minha, e eu não posso condenar-me por causa de ninguém.

Esta carta seja lida em Capitulo, em presença de todos os confrades da casa, para que cada um cumpra o seu dever. Além disso seja conservada e lida, todos os anos no mês de outubro, antes de saírem para as missões.

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(LIGÓRIO. Santo Afonso de. Cartas Circulares. Oficinas Gráficas Santuário de Aparecida, 1964, p. 110-121)