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Ambição

Ambição, Tesouros de Cornélio à Lápide

A ambição é um veneno. Desgraças que a causam

A ambição, diz São Bernardo, é um mal sutil, um veneno secreto, uma enfermidade oculta; é um artefato fraudulento, a mãe da hipocrisia, o princípio das chagas profundas, a origem de todos os vícios, a traça da santidade, a cegueira dos corações; converte os remédios em veneno capaz de produzir enfermidades e sustentar seu incremento[1].

A ambição cega o homem e rouba-lhe a razão. A ambição é manancial das disputas, de todos os ódios, das guerras e das injustiças. É a mãe da pobreza e da indigência.

A ambição jamais se vê saciada

A ambição é a chaga de todos os séculos; é um câncer que tudo devora. Jamais tem o bastante; quanto mais tem, mais quer ter. Buscando dilatar-se, cobiça o que não lhe pertence. O que não basta jamais, constitui uma fortuna, diz Sêneca, mas nada basta à ambição: Nunquam multum est quod non est (In Prov.).

Alexandre, chamado o Grande, era pobre; buscava constantemente, percorria terras e mares desconhecidos: chegou a encontrar-se sufocado no universo, e depois de o ter conquistado, chorou. Porque chorava Alexandre? Ah, porque não lhe faltava nenhum reino para conquistar! Ó loucura! E foram-lhe suficientes seis palmos de terra…

O que basta à natureza, não basta à ambição! Ó cegueira!

A ambição é desgraçada

A ambição, diz São Bernardo, é a cruz dos que lhe dão albergue. Como sucede, pois, que, sendo um suplício, gostem? Não há cansaço maior, nem suplício mais cruel e, sem embargo, não é mais célebre que seus ensinamentos aos olhos dos desgraçados mortais: ambitio ambientium crux; quomodo, omnes torquens, ominibus places? Nihil acerbius cruciat, nihil molestius inquietat, nihil tamen apud míseros mortales celebrius megotiis ejus (Lib. III de Considerat.).

A ambição, prossegue São Bernardo, é a montanha sobre a qual se fixou um anjo, o anjo convertido em demônio: Iste est mons in quem ascendit ângelus, est diabolos factus (Lib. III de Considerat.).

Os ambiciosos alimentam-se de ar. De fato, o que são as honras senão um sopro popular, uma tempestade de pouca duração que tudo destrói? A ambição é capaz de pretender encerrar o cento em uma rede, tirar água em uma peneira, edificar sobre a areia, semear nas rochas, cortar as chamas com um machado, arar as ondas, fazer branco ao etíope, fabricar teias de aranha, cantar diante de um surdo, contar as ondas do oceano, e ensinar natação ao ferro.

Devemos fugir da ambição

São Próspero diz, de um modo admirável:

“Aquele que quer possuir a Deus deve renunciar ao mundo, a fim de que Deus seja seu único tesouro; aquele que se percebe seduzido pela ambição de possuir os bens da terra, não renunciou ainda às coisas mundanas; enquanto não se desprender daquilo que lhe pertence, é escravo do mundo, cujos bens conserva. Não pode servir a Deus e à ambição ao mesmo tempo” (In Sentent.).


Referências:

[1]  Ambitio subtie malum, secretum vírus, pestis oculta, mater hypocrisis, livoris perene, vitiorum origo, criminum fomes, virtutum aerugo, tinea sanctitatis, excecatrix cordium, ex remediis morbus creans, generans et medicina languorem (Serm. VI).

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