Panegírico de São Tomás de Cantuária

Tomás Becket nasceu em Londres a 21 de dezembro de 1117 duma família anglo-saxônia. Estudou sucessivamente em Oxford, em Paris e em Bolonha. Tendo-se dedicado à carreira eclesiástica, em breve adquiriu grande influência, pelo que Henrique II o elevou à dignidade de chanceler do reino, de preceptor de seu filho, e mais tarde de arcebispo de Cantuária, em 1162. Como quer que o rei pretendesse restringir a jurisdição do clero, pelos seus estatutos de Clarendon, elaborados em 1154, tratou logo o arcebispo de defender animosamente os interesses da Igreja; mas sendo condenado, em 1165, pelo sínodo de Northampton, refugiou-se para junto do Luiz VIII, rei de Franca, que chegou a reconciliá-lo com Henrique II. Ao tempo surgem umas tumultuosas agitações políticas que assinalaram o regresso do arcebispo ao reino; mas o rei da Inglaterra exprimiu imprudentemente o desejo de ser livre do primaz do Cantuária. Imediatamente partiram quatro cavaleiros para a sede do bispado, e ali mataram o infeliz arcebispo mesmo aos pês do altar onde ele ia celebrar o oficio divino. Henrique II teve o desplante de negar este crime, mas no túmulo da vítima confessou-o publicamente e pedia, perdão. A Igreja Católica venera este santo no dia 29 de dezembro.

(V. S. Tomás Becket, sua vida e suas Cartas, obra de M. Darboy, organizada segundo o trabalho de R. Giles. Paris, 1858, 2 vol, em 8º)

Pregado em Paris, na colegiada de Saint Thomas du Louvre, no dia 29 de dezembro de 1668.

SUMÁRIO

Exordio. — Jesus Cristo praticou sempre atos e humilhação, primeiramente na santidade da Sua pessoa e depois em todos os dias da Sua vida. A Igreja não pode gozar de vantagem alguma que lho não custe a morte de seus filhos. Foi por este motivo que São Tomás deu a vida.

Proposição e divisão. — Os mártires que combateram pela fé consolidaram-na pelo testemunho do seu sangue, açaimaram pela sua paciência o ódio público, e pela sua constância invencível confirmaram os fiéis. O santo arcebispo de Cantuária consolidou primeiro a autoridade eclesiástica violentamente oprimida; converteu depois os corações indóceis; e animou em seguida o zelo dos que foram propostos para seus defensores.

1.º Ponto. — Igreja é como que uma desconhecida na terra onde se acha revestida dum caráter real, pela soberania inteiramente espiritual que nela exerce. Os príncipes concederam a Igreja grandes privilégios e a Igreja erigiu aos príncipes um trono nas consciências. Henrique II, rei da Inglaterra, declara-se inimigo da Igreja; mas São Tomás representa com brandura e firmeza que as duas potências devem auxiliar-se mutuamente, e morre pelos direitos da Igreja.

2.º Ponto. — Nos primeiros séculos cristãos eram os príncipes inimigos da Igreja, mas, depois de assinada a paz, operou-se a união. São Tomás resiste até à morte do príncipe que quer usurpar os direitos da Igreja, e o seu sacrifício converteu Henrique II.

3.º Ponto. — O sangue de São Tomás reanimou a coragem do clero, que tem privilégios para que a religião seja respeitada, possui bens para o exercício dos santos ministérios e parada subsistência dos pobres; e tem autoridade para que ela sirva de freio a licença, de barreira a iniquidade e de apoio a disciplina.

Peroração. — Praza ao divino Salvador que todos os que Ele chamou a vida eclesiástica imitem as virtudes, de São Tomás de Cantuária.

In morte mirabilia operatus est
Na morte operou coisas maravilhosas.
(Eclo 48, 15)

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