Capítulo 32. Riqueza e Poder - Livro Rumo à Felicidade, de Fulton Sheen
EM tempos passados, os homens falavam menos em «viver a sua vida» e mais em salvar a sua alma. Não ligavam tanta importância como nós a assuntos políticos e econômicos, mas tinham muito maior interesse pelas coisas morais e religiosas. Agora, já que a atração do Céu se relaxou para muitos homens, o seu apego à terra tornou-se mais intenso. À procura de Deus sucedeu a procura da riqueza e do poder. Não é o santo o ídolo do nosso século, mas o homem que atingiu o vértice da escala social.

Duas atitudes extremas tem de enfrentar o espírito moderno, quando se propõe a questão da importância que deve ligar ao êxito mundano. Deve ser adorado, procurado como o maior bem da vida? Ou, pelo contrário, deve ser condenado como imoral em si mesmo? Os homens ambiciosos do nosso tempo perfilam a primeira atitude extrema. A segunda é perfilada por duas espécies de revolucionários: os anarquistas, que condenam todo o poder, e os comunistas, que reprovam toda a riqueza.

No entretanto, há só um padrão genuíno pelo qual podemos aferir estes pontos de vista, que é a vida de Nosso Senhor. Os fatos narrados nos Evangelhos demonstram que o poder e a riqueza são ambições e ideais legítimos, embora com certas reservas, que o mundo moderno, habitualmente, ignora. A vida oculta de Nosso Senhor em Nazaré, revela-nos estas reservas, que são duas: ninguém tem o direito ao poder, enquanto não aprender a obedecer, como Cristo obedeceu a Seus Pais. E ninguém pode possuir, sem perigo, a riqueza, enquanto não aprender a defender-se dela, como Nosso Senhor, que escolheu como Seu primeiro mestre o de pobre carpinteiro de aldeia.

Eis, pois, um Poder que se tornou fraqueza, um Patrão que se tornou criado, um Senhor que se fez servo dos outros. A submissão a seu Pai foi o prelúdio de toda a manifestação posterior de milagre ou de autoridade; e assim deve ser conosco. Todos os poderes… políticos, industriais, sociais e econômicos… devem sujeitar-se ao Poder que está acima deles e ajustar-se aos desígnios de Deus, antes de poderem, com razão, exigir dos outros a sujeição. Não é de baixo que o poder há de ser refreado, isto é, pela insubordinação do anarquista, ou pelo recurso à força armada do revolucionário, mas é de cima que lhe hão de vir os limites. O poder terreno só tem direito de exigir obediência, quando obedecer ao Poder que está acima dele; só pode exigir respeito pela autoridade, quando satisfez aos desejos do seu Autor; só pode exigir reverência, quando ele mesmo se curvou para reverenciar a Deus.

Coisa parecida acontece com a riqueza. Ensina-nos Nosso Senhor que ninguém tem direito à riqueza, se não tiver aprendido a defender-se dela. A vida de Nazaré não intentou glorificar a pobreza aos nossos olhos, nem ensinar-nos a resignação fatalista perante condições de vida abjetas, nem pregar o sofrimento estoico da fadiga e da fome por si mesmas. Nosso Senhor foi pobre. Trabalhava duramente para satisfazer as necessidades elementares da vida. Era um carpinteiro indigente. Apesar disto, era um Deus Rico, que possuía o Universo, um Deus Poderoso que se fizera impotente. Riqueza e poder não são, em si, um mal, porque ambos pertencem a Deus.

Assim os comunistas, que clamam raivosamente contra os ricos por serem ricos, não encontram apoio no Cristianismo. Ninguém tem o direito de desprezar os ricos, enquanto não tiver demonstrado, com Nosso Senhor, que está isento da paixão de possuir… e, então, não terá vontade de desprezar ninguém. A pobreza de Nazaré não era a condenação da riqueza, nem a glorificação da pobreza. Foi a ilustração da bela doutrina do desprendimento. Os discípulos de Cristo também foram capazes de se desprenderem dos seus bens para maior glória de Deus, embora eles se limitassem a alguns barcos de pesca, a redes emaranhadas e ao dom maior da sua vontade livre.

Nosso Senhor nunca procurou induzir o pobre a aceitar a pobreza como um bem, nem a miséria como uma coisa que deve ser ambicionada por si mesma. Não glorificou o pobre, nem o rico. Mas a quem, na verdade, exaltou, foi ao pobre, que, tendo sido rico, se fez voluntariamente pobre, ao pobre que, desprendendo-se de tudo, se tornou senhor de tudo, que não querendo nada, obteve tudo. Nosso Senhor não canoniza a renúncia à riqueza em favor do vácuo; o que Ele quer é que se deixe a opulência em troca das riquezas muito superiores do Céu. Não disse «Bem-aventurados os pobres» ou «Bem-aventurados os ricos», mas disse «Bem-aventurados os pobres em espírito».

A Vida oculta de Nazaré não prega um mero «truísmo» sobre a «beleza da pobreza» ou sobre a «santidade da fraqueza»: estas coisas não são, em si, virtudes cristãs. A lição de Nazaré é um paradoxo muito mais fecundo, mostrando-nos a riqueza do que, pelo desprendimento, se tornam pobres em espírito, e o poder daqueles que se fazem fracos para servir. O Nosso Sacratíssimo Senhor é, portanto, o único que jamais passou sobre a terra a quem ricos e pobres, patrões e servos, poderosos e fracos podem reivindicar por seu, e d’Ele dizer com toda a verdade:

«Ele veio da nossa classe, é um dos nossos»

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(SHEEN, Dom Fulton. Rumo à Felicidade – WAY TO HAPPINESS. Tradução de Dr. A. J. Alves das Neves, pároco de São Pedro da Cova. Livraria Figueirinhas, Porto, 1956, p. 127-130)