Capítulo 56. Poderá a Compaixão subsistir por si só? - Livro Rumo à Felicidade, de Fulton Sheen
À MEDIDA que o mundo se amolece, usa cada vez mais a palavra compaixão. Isto seria uma característica digna de apreço, se a compaixão fosse bem entendida. Mas, muitas vezes, por compaixão significasse não incomodar aquele que transgride a lei natural ou divina, ou que atraiçoa a sua pátria. Esta compaixão é sentimentalismo, não é virtude, visto que justifica que o filho mate o pai, porque este é «demasiado velho». Para se furtar à imputabilidade da culpa, chamam eutanásia àquilo que é realmente um assassinato.

Em todas essas argumentações em defesa da compaixão, se esquece o princípio de que a compaixão é a perfeição da justiça. Não vem primeiro a compaixão e depois a justiça; mas sim primeiro a justiça e depois a compaixão. Divorciar a compaixão da justiça é sentimentalismo, assim como tirar da justiça a compaixão é severidade. A compaixão não é amor verdadeiro, uma vez que esteja divorciada da justiça. O que ama alguma coisa, há de resistir a tudo aquilo que destruiria o objeto do seu amor. A faculdade de se indignar retamente não indica falta de compaixão e amor; é, pelo contrário, prova de que os tem. Há crimes; cuja tolerância equivale a concordar com a sua malícia. Os que pedem a libertação dos assassinos, dos traidores e quejandos, com o argumento de que devemos «ser misericordiosos como Jesus foi misericordioso», esquecem-se de que o mesmo Salvador misericordioso também disse que não veio trazer a paz mas a espada. Assim como a mãe prova que ama o seu filho, odiando a doença física que arruinaria o corpo do filho, assim também Nosso Senhor prova que ama a Bondade, odiando o mal, que arruinaria as almas das suas criaturas. Como seria de categoria inferior o médico que fosse compassivo para com os germes da febre tifoide ou da poliomielite num doente, ou o juiz que tolerasse violações, do mesmo modo Nosso Senhor, se fosse indiferente para com o pecado. Um espírito que nunca é intransigente, nem se indigna com o mal, ou não ama, ou, então, é incapaz de distinguir o bem do mal.

O amor pode ter de ser severo, imperioso, e até violento, como era o amor do Salvador. Faz de cordas um azorrague e expulsa do tempo os compradores e os vendilhões; recusa-se a fazer a cortesia de falar a pervertidos como Herodes, porque isso aumentar-lhes-ia a perversidade. Encara severamente o Procurador romano, que exaltava a lei totalitária, e lembra-lhe que nenhum poder teria, se não lhe fosse dado por Deus. Quando uma insinuação delicada feita a uma mulher junto de um poço, não deu resultado algum, Ele foi direito à questão sem contemporizações, e lembrou-lhe que já se tinha divorciado cinco vezes. Quando os que se diziam justos queriam hostilizá-Lo, Ele desafivelou-lhes a máscara da hipocrisia e chamou-lhes «raça de víboras». Quando ouviu falar que tinha corrido sangue dos Galileus, foi com formidável austeridade que disse:

«Todos vós perecereis como eles, se não vos arrependerdes»

De igual severidade usou para com aqueles que escandalizassem as crianças com uma educação que fosse progressiva no mal:

«Se alguém escandalizar a consciência de um destes pequeninos que acreditem em mim, seria melhor para ele ser lançado ao mar, com uma mó de moinho atada ao pescoço»

Disse aos homens que arrancassem os olhos e decepassem as mãos e os pés, de preferência a permitirem que estes membros se tornassem ocasião de pecado e de perda das suas almas imortais. Quando um dos seus discípulos pediu dispensa do labor apostólico para enterrar o seu pai, Nosso Senhor disse:

«Segue-Me, e deixa os mortos enterrar os mortos»

Enquanto Marta O servia à mesa, mostrou que uma outra coisa era mais necessária do que esse serviço. Quando os seus discípulos adormeceram, acordou-os sem delongas e censurou-os por não rezarem: e, apesar da confissão plena de São Tomé, repreendeu-o pela sua falta de fé. O seu olhar penetrava tão profundamente  às almas, revelando a fraqueza e miséria que nelas se escondiam, que um discípulo se comoveu até às lágrimas.

Se compaixão significasse o esquecimento de todas as faltas sem quaisquer sanções e sem justiça, acabaria por ser a causa da multiplicação dos pecados. A compaixão deve-se àqueles que não abusarão dela, e dela não abusará homem algum que já começou a expiar o mal, fazendo o bem, como a justiça exige. O que alguns atualmente chamam compaixão, de maneira alguma é compaixão, mas uma espécie de colchão de penas para os que caem das alturas celestes da retidão; e assim multiplicam a culpa e o mal, fornecendo tais colchões. Tornar-se objeto de compaixão não é o mesmo que ficar impune, porque, como diz a palavra divina, «Deus castiga aqueles a quem ama». Homem reto não é o sentimental edulcorado, ou o que reduziu ao silêncio as emoções fortes nascidas de um sentimento apurado de justiça; mas antes aqueles, cuja gentileza e compaixão fazem parte de um mais amplo organismo, cujos olhos são capazes de faiscar com justa indignação, e cujos músculos podem tornar-se como aço, à semelhança de São Miguel, na defesa da Justiça e dos direitos de Deus.

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(SHEEN, Dom Fulton. Rumo à Felicidade – WAY TO HAPPINESS. Tradução de Dr. A. J. Alves das Neves, pároco de São Pedro da Cova. Livraria Figueirinhas, Porto, 1956, p. 225-229)