Capítulo 28. Os Adolescentes - Livro Rumo à Felicidade, de Fulton Sheen
A ADOLESCÊNCIA, ou idade dos treze aos vinte anos, é o breve lapso de tempo entre a primavera e o verão da vida. Antes de chegar à adolescência, há muito pouca individualidade ou personalidade, mas, desde que chega a adolescência, a vida emocional toma o caráter do ambiente, como a água toma a forma do vaso, em que for lançada. O adolescente torna-se consciente de si mesmo e dos outros, e, por esse motivo, começa a viver na solidão. A juventude é mais solitária do que muitos pais e professores julgam; talvez o adolescente seja torturado por uma solidão de espírito maior que em qualquer outra época da vida até à maturidade, em que o sentido da culpa não expiada começa a pesar na alma humana.
Quando o adolescente projeta a sua personalidade no mundo que o circunda, julga afastar-se mais dele. Entre a sua alma e o mundo parece haver uma parede. Mas ele não tentará nunca refletir profundamente sobre estas ilusões. Assim como leva muito tempo a uma criança coordenar os olhos e as mãos, também a um adolescente demora o adaptar-se completamente a este grande mundo, ao qual parece tão estranhamente ligado. E então não o pode fazer sem especial esforço. A vida com surpresas ainda não sentidas, estranhas experiências emocionais, grandes sonhos e esperanças inundam a sua alma, pedindo cada qual atenção e satisfação. Os seus estados emocionais não os confia a ninguém; limita-se a viver. É difícil ao adulto penetrar na concha, em que o adolescente se meteu. Como Adão depois da queda, também ele se esconde para não ser descoberto.

Com esta solidão mistura-se um grande desejo de ser notado, porque o egoísmo é um vício que, cedo, tem de ser dominado na juventude. Esta avidez de ser conhecido explica as maneiras aparatosas de alguns adolescentes. Não só atrai o olhar estupefacto dos outros, como também experimenta uma sensação latente de rebeldia contra eles e afirma que vive para si, à sua maneira e como lhe apraz.

Simultaneamente com esta qualidade de impenetrabilidade, o adolescente torna-se imitador, quase como os japoneses. Se, por um lado, está em rebelião contra normas fixas e se deixa dirigir, em grande parte, por impressões fugidias, por outro, assemelha-se ao camaleão, que se reveste das cores dos objetos que o rodeiam. Será herói ou bandido, um santo ou ladrão, conforme o ambiente, as leituras ou os companheiros. Este espírito de imitação manifesta-se no vestir. Batas, camisas caindo por fora das calças e flutuando como bandeira de um exército derrotado, cabelo cortado à moda dos selvagens da Oceania – todas estas coisas se universalizam entre os jovens que temem «remar contra a maré».

Há poucos chefes entre os adolescentes, contentando-se a maior parte em seguir os outros. Há nesta inconsciente mímica um perigo moral, porque o caráter está dependente da capacidade de dizer «não». Se a educação não puder exercitar a vontade dos jovens, muitos deles passarão para a idade adulta como escravos da propaganda e opinião pública e assim ficarão todo o resto da vida. Em vez de criar, imitam. Criar é reconhecer o espírito das coisas; imitar é afundar a personalidade até ao mais baixo nível das massas.

As pessoas idosas não devem ser censores acerbos dos adolescentes, particularmente quando estes se rebelam contra elas. Por um aspecto, eles não estão em rebeldia contra a coerção, mas contra os mais velhos, por não lhes darem um objetivo ou uma finalidade na vida. O protesto do adolescente não é consciente. Não sabe porque odeia os pais, porque se revolta contra a autoridade, porque é que os seus companheiros adolescentes se tornam cada vez mais delinquentes. A verdadeira razão, porém, não se mostra à superfície; é um protesto inconsciente contra a sociedade que não lhe deu um teor de vida digna. As escolas, que frequenta, nunca deram importância à moderação, disciplina ou autodomínio. Muitos professores definiram liberdade e até democracia como o direito de fazer o que nos apraz. Quando passar esta fase temporária de rebelião, os adolescentes procurarão uma grande causa, a que possam totalmente dedicar-se. Há que ter um ideal. Hoje, em muitos casos, eles não têm maior ideal do que fazer girar a sua vida emocional à volta de um herói ou de uma estrela de cinema, de um chefe de qualquer bando ou de um cançonetista. Este sinal de civilizações decadentes só passará quando vier a catástrofe. Procurará, então, a juventude, um tipo diferente para imitar, e serão os heróis ou os santos. Um sintoma triste da nossa civilização é que os adolescentes nunca sentiram entusiasmo pelos nossos heróis de guerra. Isto é devido a que eles não estão ainda preparados para ideal mais sólido. Mas a hora chegará. E, quando chegar, terá de se pôr de sobreaviso, para que, ao reagir contra a educação «progressiva», falha de disciplina, não venha a seguir falsos deuses sacrificais, como aconteceu com os jovens da Europa, que se prostraram diante do nazismo, do fascismo e do comunismo.

A capacidade latente para ser magnânimo e herói que há em todos os jovens, breve virá à superfície, e, quando isso acontecer, será, se a Deus aprouver, nos heróis e santos que concentrarão os seus anelos. O ideal ascético extinguiu-se de entre os mais idosos, mas Deus envia novas gerações ao mundo, para lhes renovar as energias. Os nossos adolescentes encontrarão, um dia, os seus verdadeiros ideais no amor da pátria e no amor de Deus, particularmente, neste último, porque a função da religião é possibilitar aos homens sacrifícios que, à face da razão ou do egoísmo, nunca poderiam ter condições de existência.

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(SHEEN, Dom Fulton. Rumo à Felicidade – WAY TO HAPPINESS. Tradução de Dr. A. J. Alves das Neves, pároco de São Pedro da Cova. Livraria Figueirinhas, Porto, 1956, p. 109-112)