Capítulo 48. Homens Atômicos - Livro Rumo à Felicidade, de Fulton Sheen
ENQUANTO o medo trouxer o mundo transido, importa, absolutamente, que esta verdade não cesse de se dizer: não são as bombas atômicas que nos hão de meter medo, mas os homens atômicos os homens que formaram uma civilização, em que se usem essas bombas. É sempre o agente humano que é responsável pelos atos de guerra, e não uma arma inânime; um arco e uma seta nas mãos de um arqueiro de profissão não constituem uma ameaça, como no caso de se encontrarem nas mãos de um índio selvagem.As forças da natureza desconhecem a moralidade; são os homens quem usa ou abusa dessas forças. É útil a eletricidade; não assim, porém, se todo o lugar em que nos sentamos, estiver transformado numa cadeira elétrica. O fogo é uma bênção, quando o usamos para cozinhar uma maldição, quando o incendiário o usa para queimar uma casa. Os remédios da farmácia mitigam-nos as dores, quando o farmacêutico é um homem de bem; mas nas mãos de um criminoso seriam terrivelmente perigosos. Assim também a bomba atômica não constitui ameaça para ninguém. São os homens que ameaçam o nosso bem-estar.

Mas por que consomem os homens as suas energias no torpe empenho de destruir a humanidade? Pode encontrar-se a resposta na palavra que se aplica ao nosso tempo: devolução (1). O mundo moderno não se deixa, hoje, fascinar muito pela evolução, que suscitou, outrora, tanto entusiasmo que se acreditou ser o progresso humano automático e infalível. Não estão os homens tão satisfeitos com o seu teor de vida que se orgulhem desmedidamente da sua imaginária origem simiesca. Mas se a evolução perdeu o seu prestígio no espírito do povo, a devolução tem encontrado tristíssimas confirmações. E isto é indicado pelo fato de que, tendo o homem conseguido dominar a natureza. E o homem moderno é vítima das suas próprias invenções.

A devoção do homem passou por três fases, semelhantes àquelas que vemos no caso de um filho que se afasta do pai amado, o qual, por bondade, amor e compaixão, procura fazê-lo obedecer à lei moral.

A primeira fase é de indiferença: o filho afasta-se de seu pai e despreza os seus ensinamentos, que considera como excessivas restrições à sua liberdade de fazer tudo o que lhe apraz. «O velhote é bota-de-elástico», é o estribilho deste período.

Na segunda fase, como o filho aumenta a imoralidade do seu viver, a indiferença converte-se em ódio. Já não considera pai o seu pai, mas recusa mesmo considerá-lo homem, dizendo:

«O velhote está mentecapto»

Na terceira fase, o seu ódio ao pai amplia-se mais e mais, até se tornar em ódio de toda a gente; e o jovem rebelde lamenta-se:

«Ninguém me compreende»

A sua consciência faz com que lhe seja impossível viver em paz consigo mesmo, e, como consequência, não pode em viver em paz com mais ninguém.

Correspondentes a estas três fases, há outras tantas de devolução, pelo qual o homem renegou o amor do seu Pai Celeste. Na primeira fase, o homem nega a existência de Deus. Verificando que os Mandamentos divinos são um freio incômodo para a sua maneira de viver, justifica as suas irregularidades, dizendo:

«Deus é apenas um mito»

Na segunda fase, o homem nega a essência de Deus: considera a Deus como inimigo. Os fariseus disseram que Nosso Senhor era um demônio; interpretaram a essência de Deus como Maldade, e não como Bondade. Do mesmo modo, os comunistas, hoje, não negam a Deus (como pode ser o caso com os burgueses ateus), mas lutam contra Deus com um ateísmo ativo, que, não negando a Sua existência, luta por O destruir.

Na terceira fase, o ódio de Deus toma maior amplitude, e abrange, também, os nossos irmãos. O homem, que tentou matar a Deus vai sempre mais além, e tenta matar o próximo, pois aqueles que romperam o primeiro laço do amor não poderão descansar, enquanto não tiverem quebrado todos os outros. Há entre os espanhóis este provérbio:

«Aquele que cospe para o céu, cospe na própria cara»

Uma civilização que expulsa Deus de si, leva necessariamente às relações cruéis e tirânicas entre os seus membros. E o ódio dos nossos irmãos que resulta da negação do amor de Deus, encontra a sua última expressão física na bomba atômica: o homem que não pôde viver com Deus, descobre, agora, que não pode partilhar da terra com os outros homens.

A solução não está na «fiscalização» atômica. Há que ir procurá-la na fiscalização da humanidade.

Quando os rapazes atiram pedras às janelas, não procuramos disciplinar as pedras; é a vigilância dos rapazes que consideramos o nosso problema. As organizações internacionais não podem impedir que uma fúria infernal de extermínio se desencadeie, sem que o homem se converta e comece de novo a amar e a servir a Deus, e isto é um trabalho que cada homem tem de fazer sozinho, um trabalho que as «conferências» não podem realizar.

Há somente um meio de banir o ódio do mundo: não podem os homens aprender a amar o próximo, e muito menos os inimigos, se primeiro não voltam a amar a Deus. Reconhecendo, então, que Ele faz a cada um, e sabendo que todos os seres humanos são amados por Ele, seremos também capazes de amar a todos os homens.

Os homens «práticos» podem objetar que não é assisado procedimento voltar-se meio mundo para Deus, enquanto o outro meio continua a odiá-Lo. Isto é como ter medo do projeto claríssimo de uma criancita para me fazer cair nas escadas, quando o seu pai, que tudo vê, e nunca a perde de vista, está aí para soltar a corda. Nada há que temer da malícia dos corações abertos aos olhos de Deus, como o são todos os corações humanos. Se temos a Deus por nós, que importa quem conspire contra nós?

Referências:

(1) Esta palavra tem aqui o sentido de regresso a um estado de desespero e de males sem remédio humano, cuja gravidade se acentua cada vez mais à medida que o homem se afasta de Deus. – Nota do Tradutor.

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(SHEEN, Dom Fulton. Rumo à Felicidade – WAY TO HAPPINESS. Tradução de Dr. A. J. Alves das Neves, pároco de São Pedro da Cova. Livraria Figueirinhas, Porto, 1956, p. 192-195)