Capítulo 46. Como se há de Dar - Livro Rumo à Felicidade, de Fulton Sheen
«GRANJEAI amigos com a Mammona da iniquidade», é uma das misteriosas palavras de Nosso Senhor para aqueles que não compreendem o seu significado. «Mammona» é uma palavra síria que significa dinheiro, e chama-se «Mammona da iniquidade», porque aqueles a quem Nosso Senhor falou, muitas vezes o usaram para fins de injustiça e de iniquidade. Uma nota de dólar que se traz na carteira, se pudesse falar, poderia escandalizar-nos dizendo-nos as coisas em que foi gasta, as transações que ajudou, e os prazeres pecaminosos que comprou. Nosso Senhor diz-nos que há uma ocasião em que o dinheiro deixa de nos servir, pois o homem que o tem, é apenas um mordomo. A morte diz a todos os homens:

«Presta contas da tua administração, pois não podes ser mordomo por mais tempo»

O dinheiro é que não pode ser transferido para o mundo do além.

Vem agora a propósito ver-se qual a finalidade do dinheiro, segundo o pensamento do Salvador. Gastai o vosso dinheiro nos diz Ele — com os que estão na indigência, pois, mitigando as suas necessidades, fá-los-eis bons amigos, e eles intercederão pela salvação da vossa alma. O dinheiro não comprará o Céu, mas dar-nos-á amigos que nos auxiliem, quando falecermos.

«Todas as vezes que o fizestes a um destes meus irmãos mais pequeninos, foi a mim que o fizestes»

Aqueles que foram auxiliados pela nossa caridade, levar-nos-ão diante do trono, dizendo:

«Este é aquele de quem falámos e que tanto fez por nós na vida terrena»

O viajante, num país estrangeiro, cambia o seu dinheiro pelo da outra terra. De igual modo os bens que possuímos aqui, podem ser trocados pelos bens espirituais do outro mundo, onde «nem a ferrugem nem a traça os consomem, nem os ladrões o desenterram ou roubam».

Qual será a psicologia daqueles que nunca tocam no seu capital para fazer caridade? Não cessam de acumular cada vez maiores reservas, tornando-se cada novo aumento tão sagrado como o anterior. A resposta é que todo o homem foi feito para o Infinito, que é Deus. Mas a sua razão torna-se tão cega pelo preconceito ou pecado que o substitui por outro infinito, que é o dinheiro. Deseja, então, cada vez mais ter em lugar de cada vez mais ser, o que é vida em Deus. Por mais cabelos que se tenha, dói se se arranca um só que seja. Por mais capital que se tenha, custa tocar num só cêntimo que seja. Sabe que «não pode levá-lo consigo» e por isso nega que haja um lugar para onde se vá.

É proceder cristãmente empregar o dinheiro de maneira que aqueles que auxiliamos possam ser nossos intercessores no Céu. Um homem rico disse uma vez à criada para distribuir os frutos do seu jardim pelos vizinhos, para lhes conquistar a simpatia. A riqueza (wealth) torna-se, assim, digna do seu nome, que significa bem-estar (weal).

Entrou, uma vez, uma mulher rica no Céu, onde São Pedro lhe chamou a atenção para a mansão do seu motorista. Então ela observou:

«Se essa é a morada do meu motorista, o que não será a minha?»

São Pedro apontou-lhe um dos mais humildes aposentos do Céu, dizendo:

«Eis aí a sua casa»

«Oh», respondeu ela, «mas eu não posso viver ali», São Pedro respondeu:

«Tenho muita pena, senhora, mas não pude fazer melhor com os materiais que me mandou»

Muito dinheiro se dá em beneficência, mas pouco é empregado em proveito da alma. Alguns distribuem-no para terem o seu nome glorificado no dístico da porta de um hospital ou universidade. Homens de muito pouca instrução, tornaram-se notáveis por dotarem bibliotecas, querendo deixar a impressão de serem cultos, sem o serem. Nosso Senhor disse:

«Não saiba a tua mão esquerda o que faz a direita»

Isto constitui o segundo princípio de dar: — a dádiva deve ser oferecida por uma razão divina. Por um copo de água fria receber-se-á uma recompensa cem vezes maior, se for dado em nome de Cristo.

Há anos, foi aberto ao público um convento de religiosas carmelitas na festa de Santa Teresa. Muitos curiosos acorreram aí, para verem aquelas mulheres que levavam uma vida de silêncio, oração e penitência. Um homem que não podia compreender essa vida, chamou a atenção de uma jovem e bela freira para a mais linda residência da cidade que se erguia na encosta fronteira. E disse-lhe:

«Irmã, se pudesse possuir aquela casa, com todas as suas riquezas, luxo e prazer que existem lá dentro, teria entrado nas carmelitas?»

Ela respondeu:

«Aquela, senhor, era a minha casa»

Há tanta dádiva que é desperdiçada, porque não é feita em proveito da alma! O mundo pensa que as coisas mais elevadas hão de ser usadas em favor das mais baixas, por exemplo, a inteligência para criar riquezas supérfluas. O homem de Deus, porém, está persuadido de que o ínfimo há de servir ao supremo, isto é, o dinheiro deve ser empregado para auxiliar a espalhar a Verdade Divina, para consolar os aflitos e curar os enfermos, a fim de que as almas estejam livres para assegurarem a sua salvação. A resposta mais verdadeira à afirmação: «Não podes levá-lo contigo», é esta: «Podes, desde que o repartas». É entesourado, então, como mérito na vida que a esta se segue.

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(SHEEN, Dom Fulton. Rumo à Felicidade – WAY TO HAPPINESS. Tradução de Dr. A. J. Alves das Neves, pároco de São Pedro da Cova. Livraria Figueirinhas, Porto, 1956, p. 183-186)