Meditação para 17 de Outubro: Segundo Mistério Gozoso: Visitação
Evangelho de São Lucas 1, 39-56:

Nesse tempo, Maria levantando-se, pôs-se a caminho e foi a toda pressa, a uma cidade de Judá que ficava nas tantas e, entrando na casa de Zacarias, saudou a Izabel. Aconteceu que, ouvindo Izabel a saudação de Maria, logo estremeceu de alegria a criança que tinha em seu seio.

Izabel ficou cheia do Espírito Santo e exclamou em altas vozes:

“Bendita és Tu entre as mulheres e bendito é o fruto do teu ventre. Mas, donde me vem esta honra de ser visitada pela mãe do meu Senhor? Porque assim que a voz da tua saudação chegou aos meus ouvidos logo exultou de alegria o filho que trago em minhas entranhas. Bem-aventurada és Tu, porque acreditaste; pois tudo aquilo que te foi dito da parte do Senhor, se há de realizar”.

Então disse Maria:

“A minha alma engrandece ao Senhor, e o meu espírito exultou em Deus, meu Salvador, porque atendeu à humildade da sua serva. Eis que daqui por diante todas as gerações me chamarão bem-aventurada, pois Aquele que é poderoso fez em mim grandes coisas. O seu nome santo se entende de geração em geração, sobre todos aqueles que o temem. Manifestou o poder do seu braço e dispersou os que se orgulhavam nos pensamentos do seu coração. Depôs do Trono os poderosos e exaltou os humildes. Encheu de bens os que tinham fome, e despediu os ricos com as mãos vazias. Lembrado da sua misericórdia, tomou debaixo da sua proteção a Israel seu servo como tinha prometido a nossos pais, e a posteridade para sempre”.

Ficou Maria com Izabel cerca de três meses e depois voltou para sua casa.

Quantas maravilhas nos conta, e quantas lições nos dá o Evangelho na Visitação de Maria! A Mãe de Deus vai em visita de caridade à casa de sua prima Izabel e à sua voz, João se santifica no seio materno. A primeira graça de Jesus veio por Maria. O Batista é purificado da mancha original e recebe a graça santificante pela visita de Jesus no seio de Maria e pela saudação e a voz de Maria. A primeira graça da Medianeira universal de todas as graças.

Observa o Padre Monsabré, a propósito da visita de Maria:

“O servo é que há de ir ao Senhor, o doente ao médico, o pobre ao rico de quem espera a esmola. O amor, porém trocou os papéis. O Rei dos reis, o médico celeste, o Autor da graça, prevê tudo, e não podendo andar se faz levar”

Vede, diz Santo Ambrósio, o inferior tem necessidade de socorro, e o superior o vem ajudar. Maria para Izabel, Cristo para João.

Intenção: — Este segundo mistério é oferecido numa intenção: — pelas mães. Duas mães admiráveis nele se vêm, Maria e Isabel. Dois modelos a imitar. Roguemos à Virgem Santíssima ampare, proteja sob o seu manto aquelas sobre cujos ombros pesa a responsabilidade tremenda do futuro dos filhos e a salvação da sociedade. O mundo tem necessidade de Mães santas e anjos do lar. Mães como Santa Mônica, da qual pôde exclamar seu filho:

“Meu Deus, se sou vosso filho é porque me deste por mãe uma de vossas servas”

Feliz o filho que teve uma santa Mãe! E mais feliz a sociedade onde mães virtuosas e dignas deste nome cumprem o seu ofício sagrado! Ó peçamos neste segundo mistério a Nossa Senhora, mães santas, muitas mães santas para o Brasil!

***

Fruto: A Caridade

O que move Nossa Senhora a visitar Isabel? A caridade, a amabilidade, a doçura da caridade fraterna. O Evangelista observa que foi logo e com pressa: cum festinatione. Era uma visita de caridade e Maria vai sem demora. As visitas, diz o padre Monsabré, podem ser visitas de interesse, visitas de vaidade, visitas de curiosidade, visitas de ociosidade, visitas de maledicência, visitas de sensualidade, conforme a intenção com que procuramos o nosso próximo. A de Maria é só de caridade. Visitam-se os homens por interesse de negócios de lucro; visitam-se por vaidade e mundanismo para ostentação de vestidos, de talentos e chamarem a atenção sobre si. Visitam-se por curiosidade. Querem saber as novas do dia e da hora, e de mil coisas fúteis e inúteis.

Visitam-se para matar o tempo na ociosidade de certas palestras.

Visitam-se para a murmuração, para a crítica mordaz e a especulação e difamação da vida alheia. Visitam-se por um amor louco, pecaminoso, ou, pelo menos, às vezes, de moralidade problemática.

Quanta visita inútil e pecaminosa! De todas só se aproveita a da caridade.

O segundo mistério nos leva a imitar a Mãe de Deus e a meditar nas vantagens, no tesouro imenso da caridade fraterna. E esta é um sinal de amor de Deus na alma, é o sinal distintivo do verdadeiro cristão. Nisto é que sereis reconhecidos como meus discípulos, disse Jesus:

“Se vos amardes uns aos outros”

Vejamos o nosso próximo, disse Francisco de Sales, no peito sagrado de Jesus, e amemos este caro próximo!

Era o lema de São Pedro Fourrier: Nemini obesse, omnibus prodesse, não fazer mal a ninguém, ser útil a todos. Seja também o nosso. Entreguemo-nos generosamente à caridade. Há quem diga que não pode jejuar, não pode dar esmolas, não pode fazer penitências. Ninguém pode dizer:

— Não posso amar meus irmãos, comenta Santo Agostinho.

A caridade torna-nos amáveis e ajuda-nos a viver em paz e a exercer o apostolado no mundo. Não tenhamos uma piedade amarga e sempre disposta a criticar os outros em espírito muito farisaico. Vigiemos nossos pensamentos, nossas palavras, nossos atos para que nunca ofendam o próximo. Nosso Senhor reserva muitas consolações às almas caridosas. Aproveitemos todas as ocasiões de exercer a caridade, já pelas obras de misericórdia espirituais e corporais, já por uma disposição de alma que nos leve a olhar, sempre em cada criatura humana uma imagem de Deus.

Oremos até pelos nossos inimigos. Perdoemos por amor de Nossa Senhora cujo Rosário estamos recitando, perdoemos aos que nos ofenderam, caluniaram ou nos maltrataram. Seja tudo por vosso amor, ó Jesus e para glória de Maria Santíssima!

Não rezamos no Pai-Nosso: Perdoai-nos assim como perdoamos? Ó meu Jesus, por Maria, dai-nos força para vos imitar na prática da caridade para com nosso próximo.

***

EXEMPLO

O condenado e o Rosário

Tornou-se conhecido em todo mundo o celebre caudilho Rafael del Riego, autor da revolta militar espanhola de Cabejas de San Juan no ano de 1820. Preso e condenado, este homem ao ver desvanecidas suas ilusões, sentiu o arrependimento de seus pecados, tocado pela graça Divina.

Quis se reconciliar com Deus e mostrou desejo de se confessar a um padre Dominicano do Colégio de Santo Tomás de Madri. Fora chamado o sacerdote sem demora. Riego, prostrado em terra e entre lágrimas, fez a sua confissão com tal dor de haver ofendido a Deus, e tais sinais de um arrependimento sincero, que o Sacerdote não pôde também conter as lágrimas.

O homem terrível, o caudilho perigoso e temido, aí estava manso e humilde aos pés do ministro de Deus. Não temia a morte a que fora condenado e a esperava sem susto. Doía-lhe a alma o haver ofendido tanto a Deus em sua vida que fora um tecido de crimes hediondos.

Perguntou-lhe o Padre:

— Diga-me, meu filho, que fez para merecer esta graça tão extraordinária do céu, esta contrição perfeita?

— Meu Padre, responde Riego ainda a soluçar, toda a minha vida é um tecido de iniquidades, não me recordo de coisa alguma que me possa ter merecido esta graça da misericórdia Divina.

— Todavia, se à alguma coisa posso atribuir a minha conversão, é ao Rosário de Nossa Senhora!

— Como assim?!

— Sim, padre, quando menino, minha santa mãe levava-me à Igreja de São Domingos em Oviedo e ali, de joelhos, rezávamos o Rosário de Nossa Senhora. Morreu minha Mãe e, antes da agonia, ela me recomendou que não deixasse o Rosário.

— E apesar de minha vida de pecados nunca deixei de rezar o meu Terço cada dia.

— Basta, meu filho, basta, exclama o padre e abre os braços e aperta a Riego contra o peito, comovido. Basta, meu filho, compreendo tudo. Maria Santíssima te salvou pelo Rosário. Dá graças a Deus por Ela e não tenhas mais tristeza por deixar este mundo enganador. Vamos! Um momento de dor e irás ter com tua mãe da terra e tua Mãe do Céu, no Paraíso! Duas Mães te esperam no Céu! Parte para o Céu, meu filho!

No dia seguinte Riego subiu ao patíbulo, sereno, resignado, e depois de haver beijado o crucifixo, fora executado.

Nossa Senhora, Refúgio dos pecadores, salvara aquela pobre alma pelo seu Rosário bendito.

Voltar para o Índice do livro Mês do Rosário, de Mons. Ascânio Brandão

(BRANDÃO, Monsenhor Ascânio. O Mês do Rosário, Edições do “Mensageiro do Santíssimo Rosário”, 1943, p. 135-142)