Meditação para 07 de Outubro: A Festa do Rosário
A Ameaça

Era o ano de 1571. Ocupava a cadeira pontifícia Pio V.

A Cristandade atravessa um dos mais dificultosos momentos de sua vida. Constantinopla quer a todo transe impor no Mediterrâneo sua Meia Lua, e ela faz com que a República de Veneza, a Santa Sé e a Grande Espanha formem uma Confederação ou Liga Santa.

Reúnem-se em Roma.

Pio V reuniu em seu palácio os Cardeais Granvela e Pacheco e Dom João Zueñiga, embaixador do Rei Católico na Corte Romana e Miguel Soriano, por parte da Republica de Veneza e daquela reunião; daquela Confederação ou Liga Santa, surgiu a semente para a epopeia de Lepanto. Ultimado o acordo de guerra ao muçulmano, o Papa nomeou Marco Antônio Colonna, seu general; Felipe II, a Dom João de Áustria, que ficou como Generalíssimo de Mar e Terra.

O tempo urgia, pois, o comércio espanhol, pujante no século XVI, sofria arremetidas e assaltos dos corsários turcos e barbarescos. Malta e Sicília perigam. O nome da Espanha, que domina terras e mares, ameaça eclipsar-se. A pujança otomana do Oriente cresce e desafia o Ocidente, e a salvação está nas mãos da Espanha. Alí Pachá e Solim têm naquela hora um poderio que é necessário exterminar a todo custo. O cenário da conflagração há de ser Lepanto, a cidade marítima da Grécia, na província da Arcania e Etolia, na costa setentrional do Golfo de Lepanto, cuja antiga denominação era Golfo de Corinto.

Dias mais tarde, o Papa benzeu o estandarte e o bastão do generalato que Dom João levaria nesta guerra, em Nápoles, no Convento de São Francisco, os recebe Dom João das mãos do Cardeal Granvela, em solene cerimônia.

O Cardeal Granvela disse no ato da entrega:

“Tomai, ditoso Príncipe, as insígnias do verdadeiro Verbo humano. Tomai o vivo sinal da Santa Fé de que nesta empresa sois defensor. Ele vos dê vitória gloriosa sobre o inimigo ímpio e que por vossa mão seja abatida sua soberbia”

E o povo respondeu, em coro: AMEN.

Já estão organizadas as naves e as frotas poderosas que se enfrentam resolutas e valentes. A formação de combate era a de meia lua, figurando na ala esquerda que se havia estendido ao largo da Etolia, as naves do veneziano Barbarigo, que, para não ser cercado, se aproximara da costa quanto possível. O centro se compunha de 63 galeras, às ordens do Generalíssimo Dom João de Áustria, secundado por Colona e Viniero, levando à de Castela, Resens, e a ala direita estava composta de umas 63 galeras, às ordens de a quem tanto temiam os muçulmanos.

A reserva forte de 35 barcos ia sob o comando de Dom Álvaro de Bazan, Marquês de Santa Cruz. As naves haviam saído de Messina, e estando nas Ilhas Curzolari, tiveram noticia de que a frota turca saía do porto de Lepanto, composta de 224 velas, ao mando de Alí Pachá.

Dom João de Áustria ordenou à sua frota que se colocasse no lugar mais alto as imagens de Cristo Crucificado, e estando todos ajoelhados diante delas, aumentou de tal modo o ânimo de lutar e o valor nos soldados cristãos, que, em um momento e quase que por um milagre, foi erguido em toda a armada um grito geral de alegria, que, repetindo em voz mais alta — “Vitória !… Vitória !…”— podia ser ouvido até pelos próprios inimigos.

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A Batalha de Lepanto

Momentos depois, juntavam-se as duas esquadras e com estrondo pavoroso as duas galeras capitanias, tendo antes a artilharia e os arcabuzes feito sua matança entre as fileiras do General Alí. Generalizou-se o combate, envolvendo-se entre si as galeras inimigas com um ardor sem igual. Depois do fogo de arcabuz e canhão, chegava à abordagem e se brigava com machadinhas e espadas, e danificadas estas, prosseguiam a luta corpo a corpo. O aspecto era terrível: feridos, gritos, vozes, queixas lamuriosas, e espanto.

Era um estrépito infernal aquele do choque de lâminas de cristão com a maça do tártaro, ou quando a cimitarra do infiel ziguezagueava no ar, cortando cabeças com velocidade de furacão; lanças e flechas ocupavam o espaço; as balas eram mais abundantes que o granizo, e o fumo da pólvora escurecia o céu, que, ao dissipar-se, era só para ver por uns momentos voar no espaço pernas, braços, cabeças e corpos estraçalhados.

E naquela atmosfera de glória e de morte transcorreram várias horas, até que um alarido de vitória cruzou o cenário trágico com a rapidez de um relâmpago. As forças cristãs que haviam abordado a nave capitânia do muçulmano Alí, lograram matá-lo, e como troféu de sua vitória exibiram a cabeça cravada num espeto, ao mesmo tempo que arriavam daquela e outras naus o estandarte turco, chamado o Sanjac, substituindo-o pelo de Cristo Crucificado. Sem embargo, a batalha prolongou-se até que a noite viesse cobrir a enseada de Lepanto, à cuja hora a derrota muçulmana havia sido completa e categórica. Morreram das forças cristãs 7.500 homens. Os turcos perderam nessa batalha, 221 embarcações, das quais 130 caíram em poder dos cristãos, mais 90 foram postas à pique ou queimadas Morreram mais de 25.000 turcos e 5.000 ficaram prisioneiros.

Após a batalha e antes de ter em Roma notícias do sucesso, passeava o Santo Padre Pio V com o tesoureiro nato Cosio, que, mais tarde, foi Cardial, e subitamente, deixando-o só, abriu a janela e esteve olhando o céu um tanto atônito. Fechou-a daí a pouco e disse ao Cardial:

“Andai com DEUS, que não é tempo de negócios, senão de dar graças a Ele, porque nossa esquadra acaba de vencer em Lepanto”

Realmente, àquela hora exata, Dom João de Áustria vencia os muçulmanos em águas do Mar Jônico.

Daí veio a Festa do Rosário celebrada em honra de Maria Auxílio dos cristãos pela devoção do Santo Rosário.

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EXEMPLO

O poder do Santo Rosário

(Tradição histórica)

Refere-se ao religioso dominicano Padre Santa Maria de Ulloa, que viajando ele em 1669 em um galeão espanhol do Peru a Guatemala, encontraram-se, o que aliás era frequente naqueles tempos, com um navio corsário que atacava e saqueava os navios mercantes.

O capitão do navio em que viajava padre Ulloa, perlustrava o horizonte quando lhe chamou a atenção um navio de aspecto imponente, de amuradas muito altas e velas até os topos dos três mastros. Desde logo viu que era um navio pirata, e disse ao padre Ulloa:

— Padre, se estalasse aqui uma tormenta a quem nos encomendaríamos?

— Pois, como fez sempre na sua vida no mar, é a Nossa Senhora.

— Mas na tormenta que se aproxima, não tenho muita fé.

— Que tormenta é esta que o faz duvidar do poder da Mãe de Deus?

— Veja aquele navio, é um corsário muito bem armado e vem a toda velocidade.

— Contudo não será mais invencível que a esquadra turca, vencida em 1571 por uma frota muito inferior, mas fortalecida pela recitação do Rosário.

— Sei disto, mas nós temos apenas 20 homens e um canhãozinho que alcança apenas 600 passos.

— E estes canhões? disse o religioso, tirando do bolso um punhado de Rosários, dos quais em suas viagens sempre levava boa provisão.

— São bons, mas eu queria ter canhões de verdade, como têm os piratas.

— Homem de pouca fé, logo mudará de opinião. Tenha fé no Rosário cujas Ave-Marias chamarão do céu legiões de combatentes.

— Mas para mim é só ver para crer.

Entretanto, o banco pirata vinha à toda velocidade abordar o navio mercante. De dentro do barco uma voz estentórea gritou:

— Homens do navio, entregai-vos e vos garantimos a vida.

Conta em seus escritos o zeloso missionário da América e das Antilhas que o capitão ficou tão desorientado que corria para cá e para lá sem nada determinar. Então o padre, vendo que era hora de agir, deu a cada marinheiro um Rosário e recomendou que gritassem Ave-Maria a cada disparo do navio corsário e a cada tiro que eles dessem com o canhãozinho. Vendo os piratas que os do navio não respondiam, prepararam o ataque. Numerosos, e acostumados a travar combates, acercaram-se dos canhões e a mesma voz, que intimará a rendição, comandou: fogo!

No meio de um estrondo horrível os canhões inimigos lançaram uma tempestade de projéteis. Mas um só acertou e feriu o capitão descrente que caiu e teve de ser retirado. Padre Ulloa assumiu o comando para continuar o combate aos gritos da Ave-Maria a cada disparo dos inimigos.

O canhãozinho funcionava sem parar e a cada disparo acompanhavam as Ave-Marias da tripulação. Ouviam-se os estragos que fazia, misturados com as imprecações dos atacantes que caiam feridos e não podiam compreender como é que as balas desfechadas por seus guerreiros adestrados se perdiam ao longe, ao passo que o canhãozinho estava arrasando a ele, os piratas e seu navio “Águia Negra”, conhecido em todos os mares.

O capitão dos piratas, arrancando a barba de furor, mandou virar o navio e içar as velas e fugiu a toda pressa, derrotado pelo santo Rosário, mas atribuindo a culpa aos seus artilheiros que ele ameaçou de enforcar.

Os tripulantes do navio mercante, à vista de sua esplendida vitória, puseram-se todos de joelhos e rezaram o Terço para agradecer à Mãe de Deus o milagroso triunfo que por sua proteção alcançaram.

E chegando ao primeiro porto, foram em procissão à Igreja para render solenes graças à Virgem Rainha do Rosário.

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(BRANDÃO, Monsenhor Ascânio. O Mês do Rosário, Edições do “Mensageiro do Santíssimo Rosário”, 1943, p. 55-63)