Meditação para o Domingo da Santíssima Trindade. Mistério da Trindade, encanto da Fé

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São João 28, 18-20:

Aproximando-se deles, Jesus disse-lhes: «Foi-me dado todo o poder no Céu e na Terra. Ide, pois, fazei discípulos de todos os povos, baptizando-os em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, ensinando-os a cumprir tudo quanto vos tenho mandado. E sabei que Eu estarei sempre convosco até ao fim dos tempos.»

Meditação para o Domingo da Santíssima Trindade

SUMARIO

Meditaremos sobre o mistério da Santíssima Trindade, e o consideraremos como o encanto da fé, porque, crendo-o, se presta a mais sublime reverência:

1.° À veracidade de Deus;

2.° Às Suas grandezas.

— Tomaremos depois a resolução:

1.° De reanimarmos a nossa fé e o nosso respeito para com a Santíssima Trindade, e de a honrarmos com frequentes aspirações;

2.° De fazermos todas as nossas orações com profunda devoção, à imitação dos anjos, em adoração diante da Santíssima Trindade.

O nosso ramalhete espiritual será:

“Glória ao Pai e ao Filho e ao Espírito Santo” – Gloria Patri, et Filio, et Spiritui Sancto

Meditação para o Dia

Prostremo-nos pelo pensamento diante do trono da Santíssima Trindade. Adoremos está suprema majestade na unidade de Sua natureza e trindade de suas Pessoas; adoremo-la, com todos os espíritos bem-aventurados abismados no mais profundo respeito diante das Suas grandezas; e supliquemos-Lhe que nos permitia juntar a nossa adoração à dEles (1).

PRIMEIRO PONTO

Crendo o Mistério da Santíssima Trindade prestamos a mais sublime reverência à veracidade de Deus

Quando creio pelo seu dito um viajante, que me refere de um país distante fatos inteiramente naturais, honro mediocremente a sua veracidade; mas se, fundado na autoridade da sua palavra, aceito como indubitáveis fatos tão extraordinários como pouco criveis à primeira vista, então honro efetivamente a sua veracidade, e mostro que o creio incapaz, seja de me enganar, seja de se enganar. Da mesma maneira, quando Deus, nas Sagradas Escrituras, se me revela no mais alto dos céus, governando de lá, como que divertindo-Se, estes mundos inumeráveis no meio dos quais toda a terra é menos que uma gota de água no meio dos mares, fundando ou derribando a Seu grado os impérios, dirigindo o sol e os astros no seu curso, só O honro medianamente crendo nestas belas verdades, porque nisto, unindo-Se a minha razão e a Sua palavra como os raios de um mesmo sol, nenhum sacrifício me custa. Mas quando Ele me ensina o mistério da Trindade, em uma só natureza três pessoas distintas, cada uma das quais é eterna, onipotente, imensa, infinita, e todavia um só eterno, um só onipotente, um só imenso, um só infinito, três Pessoas finalmente que não são senão uma pessoa, mas um só Deus (2), então presto à palavra divina, aceitando o que ela me diz, a mais alta reverência que possa prestar-se-Lhe. Porque, aqui, a minha razão, esgotadas as suas luzes, não podendo já apoiar-se nas suas próprias concepções, admite sem compreender o que lhe é revelado; e prostra-se diante da veracidade divina, para Lhe dizer em um santo transporte:

«Vós o dissestes, meu Deus, isso me basta, assim é, creio-o pelo que me dizeis. A minha fraca vista, não pode penetrar até a luz inacessível em que habitais; mas que precisão tenho eu de ver depois de Vós? Muito feliz, por ser esclarecido por Vós sobre o que Sois, creio a Vossa palavra sem a discutir. Se Vos compreendesse, a minha fé seria menos honrosa para Vós, menos meritória para mim, e então me agradaria menos. Portanto, precisamente porque Vos não compreendo, gozo-me de confessar a Trindade, um Pai eternamente fecundo, Pai desde que ele foi, um Filho gerado pelo conhecimento que Deus tem de Si mesmo, um Espírito produzido pelo amor substancial que une o Pai e o Filho, um Pai que não é mais que o seu Filho, um Filho da mesma idade que seu Pai, que recebe tudo dEle e não depende dEle, um Espírito Santo tão antigo como um e outro, ainda que procedendo de ambos, tão rico como um e outro, ainda que recebendo tudo de um e outro, produzido como o Filho, mas não nascendo como Ele, semelhante em tudo ao Pai, mas não a Sua imagem. Ó profundidade, ó abismo de luz!» (3)

SEGUNDO PONTO

Crendo o Mistério da Santíssima Trindade prestamos a mais sublime reverência às grandezas de Deus

Com efeito, quanto mais a revelação me ensina a respeito de Deus, coisas que não posso compreender, tanto mais ela O engrandece na minha mente. Se ela me dissesse dEle coisas perfeitamente compreensíveis, eu exclamaria: Engana-me, torna-me Deus mais pequeno: porque o Ente infinito não pode estar ao alcance de uma inteligência criada, por conseguinte essencialmente curta. Mas quando me mostra o mistério da Santíssima Trindade, então não posso deixar de exclamar: Ó Deus! Eis o que é digno de Vós, precisamente porque a minha inteligência não pode atingir tanta elevação. Sim, Ser dos seres, Deus incompreensível, quanto menos Vos percebo, tanto mais Vos adoro. Não procurarei compreender-Vos, Vós cuja natureza é tão rica em prodígios! Seria um intento de criança, que quisesse encerrar todo o mar na palma da Sua mão. Ao contrário, a minha razão exulta por não entender a Vossa sublime natureza, e se apraz em aniquilar-se, diante de Vós: é a prova da Vossa grandeza. Se Vos compreendesse, não seríeis o infinito, não seríeis Deus. Ó supremo Senhor! Gozo-me de Vos ver tão grande, que excedeis todo o meu entendimento (4); tão grande, que toda a eternidade não bastará para Vos compreender. Todos os outros mistérios desaparecerão à entrada do céu como as sombras à luz do sol; mas o mistério da Vossa Trindade há de subsistir, ó meu Deus! É o mistério eterno; vê-lO-emos claramente, mas não o compreenderemos; subsistirá para encantar a eterna admiração dos bem-aventurados, e lhes lembrar incessantemente, que as Vossas grandezas são incompreensíveis a qualquer outro que não sejais Vós (Jr 32, 19).

Admiramos com viva fé ao augusto mistério da Santíssima Trindade; gostemos de o professar com frequentes atos de fé, e de repetir muitas vezes: Creio em um só Deus em três Pessoas e em três Pessoas em um só Deus.

Resoluções e ramalhete espiritual como acima

Referências:

(1) Cum quibus et nostras voces ut admitti jubeas deprecamur

(2) Unum, non una; tres, sed non tria

(3) O altitudo

(4) Magnus consilio et incomprehension illis cogitatum (Jr 32, 19)

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(HAMON, Monsenhor André Jean Marie. Meditações para todos os dias do ano: Para uso dos Sacerdotes, Religiosos e dos Fiéis. Livraria Chardron, de Lélo & Irmão – Porto, 1904, Tomo III, p. 138-142)