Meditação para 08 de Outubro: O Rosário e o catecismo

A Suma Teológica do Povo

Se o Rosário é uma síntese do Evangelho, o é também do catecismo. Contém toda a doutrina cristã. Já não o denominaram a suma teológica do povo? As verdades principais da nossa fé, ele as enuncia claramente. Recorda-nos todo o dogma católico no credo e na contemplação dos mistérios. A Trindade, a Encarnação e a Redenção, os Sacramentos, os Mandamentos, os Novíssimos, tudo encontramos na meditação do nosso Rosário.

Basta um pouco de reflexão. Não há ponto de nossa doutrina cristã que o pregador ou o catequista não encontre pelo menos quanto ao essencial no Rosário de Maria. Dizia com razão Leão XIII:

“O Rosário se recomenda pela sua forma, e ele oferece um meio prático de fazer penetrar nos espíritos os dogmas principais da fé cristã”

É um verdadeiro catecismo porque, diz ainda o Papa na Encíclica Magnae Dei Matris de 7 de Setembro de 1892, para preservar os seus filhos do grande perigo da ignorância religiosa, a Igreja não se descuida de meio algum dos que lhe sugere a solicitude vigilante. Entre os alimentos da fé em bom lugar figura o Rosário de Maria. Efetivamente o Rosário pela repetição regular das mais belas e eficazes orações e a contemplação sucessiva dos principais mistérios de nossa religião, torna-se um preservativo da ignorância religiosa. É um catecismo vivo, pratico e interessante.

“Aprender, pois o catecismo pelo Rosário, diz ainda Leão XIII noutra Encíclica Adjutricem populi — Setembro 1895 — é um processo cômodo e fácil, posto à disposição do cristão que quer alimentar a sua fé e ser contra a ignorância religiosa e o perigo do erro.”

Diversas vezes o grande Pontífice insiste sobre o valor doutrinário e o auxílio poderoso que é na instrução dos fiéis, a recitação e meditação dos mistérios do Rosário!

Pois se o Rosário, na expressão de Lacordaire, é uma síntese, uma suma do Evangelho, é claro que o é também do catecismo.

Os analfabetos por esta prece singela aprendem toda a vida de Jesus, da Encarnação à Ascensão e chegam a compreender o que é Maria na obra da nossa Salvação. Enfim, o essencial dos nossos dogmas, dos sacramentos e das verdades eternas, tudo se encontra no Rosário de Maria. É verdadeiramente a Suma do Evangelho e a Suma teológica do povo…

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Método de Catequese

Viveu em Lion, na França, um homem de extraordinária virtude e que morrera com fama de santidade. O processo de sua beatificação já começou. Era o Padre Chevrier. Fundara ele uma obra destinada a preparar as crianças para a Primeira Comunhão e quantos não puderam se preparar na paróquia para este grande ato da vida. Entre os seus alunos havia meninos pobres e abandonados e alguns adultos, moços rudes e que nunca se haviam aproximado da mesa Eucarística. Na maioria eram analfabetos. Como instruí-los? O santo sacerdote lembrou-se do Rosário. E inventou um método para ensinar no catecismo, o essencial da doutrina nas contas do seu Terço.

Durante seis meses atraia a si os pobrezinhos e os ensinava a doutrina recitando com eles cada dia os mistérios do Rosário. Explicava bem os mistérios, contemplava-os e rezava os Pai-Nossos e as Ave-Marias. Assim em pouco tempo os meninos aprendiam a conhecer as verdades da Encarnação, Redenção, o céu, a vida eterna, decoravam e sabiam explicados o Credo, o Pai-Nosso e Ave-Maria. E assim era que o santo padre Chevrier instruía duas vezes por ano, grandes turmas de neo-comungantes.

Ele viu por longa experiência as vantagens deste método e o recomendava sempre.

Soube de piedosa mãe que à noite reunia os filhinhos e lhes explicava em forma de história edificante os mistérios do Terço. Falava-lhes, por exemplo:

— Meus filhos, Jesus é Deus, veio do céu e desceu ao mundo por meio de Nossa Senhora.

E narrava em cores vivas e com singeleza a aparição do Anjo à Maria. E depois:

— Agora, vamos rezar dez Ave-Marias em honra de Nossa Senhora, e dizer as mesmas palavras do Anjo na Anunciação.

E recitava a primeira dezena dos mistérios gozosos. E assim fazia com todos os mistérios do Rosário, fazendo os pequeninos se assentarem à hora da explicação. Cada dia a explicação de alguns mistérios e a recitação de um Terço. Ora, não é isto um verdadeiro e autentico catecismo?… Um catecismo vivo, acompanhado da oração?

Porque as catequistas não experimentam explicar os mistérios da Encarnação, Paixão e Morte de Jesus Cristo, explicando e recitando os mistérios do Rosário com as crianças? Os pregadores colhem desta prática os mais belos frutos espirituais.

O Rosário é um catecismo do povo. Porque não aproveitar este meio eficaz tão fácil de ensinar a doutrina cristã?

“Podemos afirmar sem exagero, disse Leão XIII, que as pessoas, as famílias e as nações que praticarem habitualmente a devoção do Rosário e guardarem com toda honra como outrora, não deverão recear que a ignorância religiosa e as falsas doutrinas lhes matem a fé”. (Magnae Dei Matris).

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EXEMPLO

A fé conservada pelo Rosário

A Igreja Católica no Japão sofreu terríveis perseguições. No século XVII todos os missionários e grande número de fiéis foram barbaramente trucidados pela fé naquele pais. Entre estes missionários havia onze Padres Dominicanos que durante longos anos ensinaram o povo a recitar o Rosário, ensinando-lhes as verdades da nossa fé na contemplação dos mistérios.

Introduziram o costume piedoso do Terço nas famílias cristãs. Quando estes heroicos e denodados apóstolos marcharam para o horroroso martírio, a multidão dos cristãos japoneses chorava inconsolável:

— Que será de nós sem nossos sacerdotes? Que faremos sem os ministros de Jesus Cristo? Quem nos há de pregar e ensinar o catecismo aos nossos filhos?

— Ficai tranquilos e confiai na Virgem do Rosário, responderam os missionários Dominicanos, nós vos deixamos o Rosário. O Rosário será vosso missionário, vosso catecismo e vossa salvação.

E após haverem deixado esta herança espiritual à Igreja católica no Japão, sofreram o martírio.
Duzentos anos mais tarde, em meados do século XIX, puderam os missionários penetrar de novo nas terras do Japão fechadas ao Evangelho de Cristo há dois séculos. Qual não foi a admiração dos novos apóstolos ao encontrarem ainda milhares de cristãos na região evangelizada pelos Padres Dominicanos.

Haviam conservado o Batismo, sabiam diversas orações da Igreja, e conheciam o Evangelho.

Como explicar este prodígio?

A devoção do Rosário.

Os milhares de cristãos japoneses fiéis à recomendação dos Missionários Dominicanos recitavam sempre o Rosário e meditavam seus mistérios.

Batizavam os filhos e lhes ensinavam toda a fé católica pelos mistérios do Rosário. Rezavam o Terço em família. Guardavam carinhosamente em casas particulares, velhos quadros representando os mistérios do Rosário e faziam peregrinações em visita a estes quadros.

E foi assim que durante dois séculos o Rosário guardou a fé católica na Igreja do Japão.

Foi o seu pregador e o seu único catecismo.

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(BRANDÃO, Monsenhor Ascânio. O Mês do Rosário, Edições do “Mensageiro do Santíssimo Rosário”, 1943, p. 65-71)