Oração na Igreja

O grande meio para alcançarmos de Deus a salvação e todas as graças que desejamos

Santo Afonso Maria de Ligório (1696-1787), Bispo e Doutor da Igreja

Sumário

Apresentação
A Jesus e a Maria
Ao Verbo Encarnado
Introdução
Capítulo I. Necessidade da oração
Capítulo II. O valor da oração
Capítulo III. As condições da oração
Conclusão
Regras da vida cristã

APRESENTAÇÃO

Santo Afonso (1696-1787) é conhecido como o “Doutor da Oração”. Talvez por isso mesmo diga, na introdução a esta sua obra, que nunca tinha escrito nada mais útil. O que é dizer muito, uma vez que chegou a publicar mais de cem obras durante sua longa vida.

Sobre a oração Santo Afonso falou e escreveu muito. Mas, principalmente foi um homem que muito orou: em média dedicava oito horas diárias à oração. Podia, pois, recomendar a todos que fizessem pelo menos uma hora de oração diária, além de frequentes e rápidas preces nas diversas oportunidades do dia.

Nesta sua obra, o santo doutor trata da oração enquanto pedido, prece, súplica e também agradecimento. Não trata dos outros aspectos da oração, como também não se prende apenas à oração vocal. Fala da absoluta necessidade que temos de pedir a Deus a salvação e de como o devemos fazer.

Foi em 1757 que pela primeira vez Santo Afonso publicou um “Breve tratado sobre a necessidade da oração, sua eficácia e as condições com que deve ser feita”. O texto foi publicado como apêndice da obra “O cristão santificado”, do seu confrade o Pe. Januário Sarnelli, um livro que, por sinal, tinha como finalidade levar todos os cristãos a fazerem diariamente a oração mental.

No inicio do ano seguinte, o santo reviu o texto e o acrescentou à nova edição dos seus “Opúsculos Espirituais”. Na ocasião prometeu que em breve publicaria uma obra especial e mais trabalhada, em que desenvolveria também uma tese teológica: a graça de orar é dada normalmente a todos e, mediante a oração, todos podem obter de Deus os outros auxílios necessários para a salvação. No mesmo ano de 1758 ele escreveu para Remondini, seu editor em Veneza:

“Esse livro sobre a oração é obra única e muito útil para todos. E não é apenas uma obra ascética ou espiritual: é também teológica e me está dando muito trabalho…”

Em novembro de 1758 o texto foi entregue a um editor de Nápoles e já estava impresso em março do ano seguinte. O titulo seguia o estilo da época:

Do grande meio
da Oração
Para conseguir a salvação eterna e todas
as Graças que queremos de Deus
Obra
Teológico-ascética
do Revmo. Padre
Dom Afonso de Ligório
Reitor-Mor da Congregação
do SS. Redentor
Utilíssima para todo o tipo de pessoa.

Como era seu costume, já no dia 5 de abril Santo Afonso enviou um exemplar revisado dessa edição napolitana para ser reimpresso em Veneza, o que iria garantir maior divulgação para a obra. Essa nova edição foi publicada entre junho e agosto do mesmo ano de 1759. Até a morte do autor, em 1787, foram publicadas 10 edições. Note se que, já em 1761, foi publicada em Nápoles uma edição contendo apenas a primeira parte, omitida a dissertação teológica.

Como já o dissemos, mais vezes Santo Afonso escreveu sobre a oração, dando um destaque especial à oração mental e à meditação. Ainda em 1742 compôs um texto breve, de mais ou menos quarenta linhas: “Resumo do modo de fazer a oração mental”. Texto que nos foi conservado em uma de suas cartas mas que, ao que tudo indica, era um dos muitos folhetos que o santo costumava distribuir ao povo durante as Missões. De 1745 a 1750 temos um esquema de palestra sobre a necessidade da oração mental, possivelmente para clérigos que se preparavam para a ordenação sacerdotal.

Finalmente, na obra “Vitórias dos Mártires”, há, como apêndice, um texto de mais ou menos setenta linhas: “Avisos necessários para a salvação de pessoas de qualquer estado de vida”. É como que um apanhado geral da doutrina sobre a oração. Composto provavelmente antes de 1775, o texto foi também distribuído como volante durante as Missões. Aí é que se encontra em sua forma literal a frase, talvez a mais conhecida, do grande missionário: “’É CERTO QUE QUEM REZA SE SALVA, QUEM NÃO REZA SE CONDENA”.

O santo, que tanto insistia na obrigação de os pregadores falarem frequentemente sobre a necessidade da oração, não podia deixar de dar o exemplo. De todos os modos insistia com seus missionários redentoristas para que fossem homens de oração e pregadores da oração. Julgava que os frutos das Missões estavam garantidos onde ficava implantado o hábito da oração mental. Quando em 1771 publicou os “Sermões Breves para todos os domingos do ano” resumiu em três pregações toda a sua doutrina sobre a oração. Aliás, um resumo adaptado desses textos já foi publicado pela Editora Santuário no livreto “Conversando sobre a Oração”. Não poderia deixar de lembrar ainda outro livreto seu: “Maneira de conversar continuamente e familiarmente com Deus” também publicado por nós numa adaptação (Conversando sobre como conversar com Deus). Nessa pequena obra está todo o esforço do Santo Doutor da Oração para nos ajudar a fazer da oração uma realidade sempre presente a todos os instantes da vida.

Fl. Castro, C.SS.R.

A JESUS E A MARIA

Vós, Verbo encarnado, destes o sangue e a vida a fim de obter para as nossas orações, como prometestes, um valor tão grande que elas nos alcançam tudo que pedimos. E nós, ó Deus, somos tão descuidados da nossa salvação, que nem pedir queremos as graças necessárias para nos salvar! Por este meio, pela oração, nos destes a chave de todos os vossos divinos tesouros. E nós, porque não pedimos, queremos permanecer em nossas misérias. Ah, Senhor! Iluminai-nos e fazei-nos conhecer quanto valem, perante o Pai eterno, as orações feitas em vosso nome e por vossos merecimentos.

Consagro-Vos este meu livrinho. Abençoai-o e fazei com que todos quantos o tiverem em suas mãos, resolvam a orar sempre e se esforcem por despertar também o fervor nos outros, a fim de que empreguem este grande meio de salvação.

Também a Vós, Maria, grande Mãe de Deus, consagro esta obra. Protegei-a e abençoai a todos que a lerem com espírito de oração, para recorrerem em todas as necessidades ao vosso Filho e a Vós, Despenseira das graças e Mãe de misericórdia, Vós que não sabeis deixar partir desalentados os que se encomendam a Vós. Sois a Virgem poderosa, alcançais de Deus para os vossos servos tudo o que pedis para eles.

Ao Verbo Encarnado
Jesus Cristo
DILETO DO ETERNO PAI,
BENDITO DO SENHOR, AUTOR DA VIDA, REI DA GLÓRIA, SALVADOR DO MUNDO,
DESEJADO DAS NAÇÕES,
DESEJO DAS COLINAS ETERNAS, PÃO CELESTE, JUIZ UNIVERSAL, MEDIANEIRO ENTRE DEUS E OS HOMENS,
MESTRE DA VIRTUDE, CORDEIRO SEM MANCHA,
HOMEM DAS DORES, SACERDOTE ETERNO, VÍTIMA DE AMOR, FONTE DE GRAÇA, BOM PASTOR, AMANTE DAS ALMAS,
dedica esta obra Afonso, pecador.

INTRODUÇÃO

1. Publiquei várias obras espirituais. Penso, entretanto, não ter escrito obra mais útil do que esta, na qual trato da oração, porque a oração é o meio necessário e certo de alcançarmos todas as graças necessárias para a salvação. Se me fosse possível, faria imprimir tantos exemplares deste livro quantos são os fiéis de todo o mundo. Daria um exemplar a cada um, afim de que todos pudessem compreender a necessidade que temos de orar para nos salvar.

2. Falo assim porque vejo, de um lado, a absoluta necessidade da oração, tão altamente recomendada pelas Santas Escrituras e por todos os santos Padres. E, de outro lado, vejo que poucos cuidam de empregar este grande meio de salvação. E, o que mais me causa dor é ver que os pregadores e confessores tão pouco se lembram de recomendar a oração aos seus ouvintes e penitentes! Mesmo os livros espirituais, que hoje em dia andam nas mãos dos fiéis, não tratam suficientemente deste assunto, quando é certo que todos os pregadores e confessores e todos os livros não deveriam incutir nada com mais empenho e afinco do que a necessidade de rezar.

Ensinam às almas tantos meios de se conservarem na graça de Deus, como fugir das ocasiões, frequentar os sacramentos, resistir às tentações, ouvir a Palavra de Deus, meditar nas verdades eternas e outros tantos meios, todos eles certamente de muita utilidade. Digo, porém: de que servem as pregações, as meditações e todos os outros meios aconselhados pelos mestres da vida espiritual, se faltar oração, quando é certo que o Senhor diz não “conceder suas graças, senão a quem pedir?” “Pedi e recebereis” (Mt 7, 7).

Sem a oração, segundo a providência ordinária de Deus, serão inúteis todas as meditações, todos os propósitos e todas as promessas. Se não rezarmos, seremos infiéis a todas as luzes recebidas e a todas as nossas promessas. A razão é a seguinte: para fazer atualmente o bem, para vencer as tentações e para praticar a virtude, numa palavra, para observar inteiramente todos os preceitos divinos, não bastam as luzes recebidas anteriormente, nem as meditações e os propósitos que fizemos. É necessário ainda o auxílio de Deus. E este auxílio atual, como logo veremos, Deus não o concede senão a quem reza e reza com perseverança. As luzes recebidas, as considerações e os bons propósitos que fazemos, servem para que rezemos nas ocasiões iminentes de desobedecer à lei divina e, assim, possamos obter o socorro divino, que nos conservará incólumes do pecado. Sem isto, sucumbiremos.

3. Eu queria, amigo leitor, antes de tudo o que vou dizer aqui, explicar esta minha sentença, para agradecerdes a Deus que, por meio deste meu livrinho, vos dá a graça de refletir mais profundamente sobre a importância deste grande meio da oração, pois todos os que se salvam, falando dos adultos, ordinariamente só por meio da oração é que conseguem salvar-se. Por isso, repito, agradecei a Deus, pois muito grande é a sua misericórdia concedendo-nos a luz e a graça de rezar.

Espero, irmão caríssimo, que depois de terdes lido esta obra, não vos esquecereis de recorrer sempre a Deus pela oração, quando fordes tentado a ofendê-lo. E, se alguma vez sentirdes a consciência gravada com muitos pecados, sabei que a causa disto é a falta de oração e de pedir a Deus os auxílios necessários para resistir às tentações que vos assaltam. Peço-vos, portanto, que leiais este livrinho e o torneis a ler, com toda atenção, não por ser trabalho meu, mas sim, porque é um meio que Deus vos concede para conseguirdes a vossa salvação eterna, dando-vos assim a entender, de modo particular, que vos quer salvar. E, depois de o terdes lido, peço-vos que, sendo possível, o façais ler a vossos conhecidos e amigos.

Comecemos, pois, em nome do Senhor!

4. Escrevendo a Timóteo, o Apóstolo diz:

“Rogo-te, antes de tudo, que se façam pedidos, orações, suplicas e ações de graças” (1Tm 2, 1)

Santo Tomás, o Doutor Angélico, explica essas palavras dizendo que a oração consiste propriamente na elevação da alma a Deus. A prece consiste em pedir a Deus coisas, quer particulares e determinadas, quer indeterminadas, por exemplo quando dizemos: Senhor, vinde em meu socorro! O pedido consiste em impetrar a graça. Assim como quando dizemos: Por vossa paixão e cruz, livrai-nos, Senhor!

A ação de graças, enfim, consiste em agradecer os benefícios recebidos, pelo que, como diz Santo Tomás, merecemos receber benefícios ainda maiores. A oração no sentido estrito, diz o Santo Doutor, significa recorrer simplesmente a Deus. Mas, em sua acepção geral, compreende todas as outras espécies acima mencionadas. Deste modo nós a entendemos e neste sentido é que, daqui por diante, empregaremos a palavra “oração”.

Para concebermos um grande amor à oração e para usarmos com fervor deste grande meio da salvação, consideremos, antes de tudo, quanto ela nos é necessária e quão poderosa é para nos obter todas as graças, que desejamos de Deus, se pedirmos como devemos.

Por isso, na primeira parte, trataremos da necessidade e do valor da oração e, depois, das qualidades que a oração deve ter, para ser eficaz diante de Deus.

REGRAS DE VIDA CRISTÃ

I. De manhã, ao se levantar, fazer os atos indicados abaixo. Todos os dias fazer meia hora de oração mental e pelo menos um quarto de hora de leitura de algum livro espiritual. Participar da Missa. Fazer a visita ao Santíssimo Sacramento e à Mãe de Deus. Rezar o Rosário. À noite, fazer o exame de consciência, ato de arrependimento. Os atos cristãos e rezar a Ladainha de Nossa Senhora.

II. Confessar-se e comungar pelo menos semanalmente e até mais vezes, se o Diretor espiritual o permitir.

III. Escolher um bom confessor, instruído e piedoso; seguir suas orientações tanto no tocante aos atos de devoção, como nas questões importantes; não abandoná-lo sem motivo grave.

IV. Evitar a ociosidade, as más companhias, as conversas inconvenientes e, principalmente, as ocasiões de pecado, especialmente quando há perigo para a castidade.

V. Nas tentações, principalmente nas impuras, fazer logo o Sinal da Cruz e invocar os nomes de Jesus e Maria, enquanto durar a tentação.

VI. Se cometer algum pecado, arrepender-se logo e resolver emendar-se. Se o pecado for grave, confessar-se o quanto antes.

VII. Sempre que possível ouvir as pregações; pertencer a alguma irmandade ou grupo, ali procurando apenas a salvação eterna.

VIII. Para honrar a Maria Santíssima, jejuar nos sábados e na vigília de suas festas, fazendo ao mesmo tempo alguma outra mortificação corporal conforme o conselho do Diretor espiritual. Fazer a novena para as festas de Maria, do Natal, de Pentecostes e do próprio padroeiro.

Nas situações desagradáveis, doenças, perdas, perseguições, conformar-se com a vontade de Deus e ficar em paz dizendo.

“Assim Deus quer, assim seja!”

Todos os anos fazer os Exercícios Espirituais em alguma casa religiosa ou algum lugar retirado. Ou, pelo menos, fazê-lo em casa mesmo, dedicando-se o mais possível à oração, às leituras espirituais e ao silêncio. Do mesmo modo fazer um dia de Retiro cada mês, evitando as conversas e recebendo a Eucaristia.

Atos cristãos para cada dia

De manhã, ao levantar-se, tendo feito o Sinal da Cruz, faça os seguintes atos de adoração, de amor, de agradecimento, de propósito e de súplica:

I. Meu Deus, eu vos adoro e vos amo com todo o meu ser.

II. Agradeço todos os vossos benefícios, especialmente o de terdes me conservado nesta noite.

III. Eu vos ofereço as minhas ações, os meus sofrimentos deste dia, em união com as ações e os sofrimentos de Jesus e de Maria, com a intenção de ganhar todas as indulgências que puder.

IV. Proponho-me fugir de todos os pecados, especialmente…(é bom fazer um propósito particular quanto ao defeito em que mais se cai). Nos contratempos quero conformar-me sempre à Vossa vontade. Meu Jesus, guardai-me; Maria, protegei-me sob o vosso manto. Pai Eterno, ajudai-me por amor de Jesus e de Maria. Meu Anjo da Guarda, meus Santos Padroeiros, acompanhai-me. Reze depois o Pai-Nosso, a Ave-Maria, o Credo, e três Ave-Marias em honra da pureza de Nossa Senhora.

Ao começar um trabalho, estudo, ou qualquer outra ocupação, diga:

“Senhor, eu vos ofereço este meu esforço”.

Às refeições:

“Meu Deus, seja tudo para a vossa glória. Abençoai-me para que não caia em nenhuma falta”.

Depois das refeições:

“Agradeço, Senhor, para que não caia em nenhuma falta”.

Ao soar das horas:

“Jesus, eu vos amo. Não permitais que me separe de vós”.

Nos contratempos:

“Senhor, assim quisestes, assim também eu quero”.

Nas tentações repita frequentemente os nomes de Jesus e de Maria. Tendo cometido alguma falta:

“Senhor, eu me arrependo porque ofendi a vós, bondade infinita. Não quero fazê-lo novamente”.

Se houve pecado grave, confessar-se logo.

À noite, antes de se deitar, agradeça a Deus as graças recebidas: faça o exame de consciência, o ato de arrependimento e os atos do cristão.

Modo prático de fazer oração mental

Como preparação, diga:

I. Meu Deus, creio que estais aqui presente. Eu vos adoro com todo o meu ser.

II. Senhor, mereceria estar agora no inferno; arrependo-me de vos haver ofendido; perdoai-me.

III. Pai Eterno, por amor de Jesus e de Maria, iluminai-me. Depois, recomende-se a Maria Santíssima com uma Ave-Maria, recomende-se a São José, ao Anjo da Guarda, ao Santo Padroeiro.

Agora leia a Meditação: vá interrompendo a leitura sempre que encontrar uma passagem que tenha um significado maior para você. Faça atos de humildade, de agradecimento e, principalmente, de arrependimento e de amor. Diga:

“Senhor, fazei de mim o que quiserdes, ajudai-me a conhecer o que quereis de mim; quero fazer o que vos agrada”

Ore muito, pedindo a Deus a perseverança, o amor, a luz, a força para fazer sempre a vontade divina, a graça de orar sempre.

Antes de terminar a oração, faça um propósito particular, de evitar alguma falha mais frequente. Termine com um Pai-Nosso e uma Ave-Maria. Nunca deixe de recomendar a Deus as almas do Purgatório e os pecadores.