A Eucaristia, por Jacques Bénigne Bossuet

Por Jacques-Bénigne Bossuet

ÍNDICE

Prefácio
Capítulo I. No Cenáculo; os preparativos da Páscoa
Capítulo II. Jesus é nossa Páscoa
Capítulo III. Revestir-se de Nosso Senhor e viver no céu
Capítulo IV. A Eucaristia, memorial da morte do Salvador
Capítulo V. A necessidade de sermos felizes
Capítulo VI. Instituição da Eucaristia
Capítulo VII. Promessas da Eucaristia
Capítulo VIII. A Fé dá a Inteligência desse mistério
Capítulo IX. Fruto espiritual da Eucaristia
Capítulo X. Ainda a Fé
Capítulo XI. O grande benefício de Deus
Capítulo XII. Deus amou tanto o mundo!
Capítulo XIII. Jesus, nossa vítima, dado à cruz, dado na Eucaristia
Capítulo XIV. A Eucaristia é o sangue do Novo Testamento
Capítulo XV. Ainda o Novo Testamento
Capítulo XVI. A Missa continua e renova a Ceia
Capítulo XVII. A Comunhão
Capítulo XVIII. Comunhão Indigna
Capítulo XIX. Quem são os que Comungam Indignamente?
Capítulo XX. A Comunhão é a preparação para a morte de Jesus Cristo
Capítulo XXI. A Perseverança, efeito da comunhão frequente
Capítulo XXII. A Comunhão consuma a união do fiel com Jesus Cristo
Capítulo XXIII. A Eucaristia, penhor da remissão dos pecados
Capítulo XXIV. A Eucaristia, força da alma e do corpo
Capítulo XXV. A Eucaristia, viatico dos moribundo
Capítulo XXVI. A Eucaristia, junta por Jesus Cristo ao banquete ordinário, figura a alegria do banquete eterno
Capítulo XXVII. A Eucaristia junta ao repasto comum, ensina a santificar tudo o que serve para alimentar o corpo
Capítulo XXVIII. A Ação de Graças
Capítulo XIX. Oração a Nosso Senhor e Ato de Fé na sua Santa presença na Eucaristia

 


PREFÁCIO

Depois de Santo Tomás de Aquino, o teólogo e o poeta da Eucaristia, ninguém, talvez, melhor que Bossuet falou do adorável sacramento dos nossos altares.

Proclamando-o mais eloquente e o mais sublime dos oradores, Voltaire pensava, sobretudo, nas orações fúnebres, onde jamais, diz um crítico, a palavra humana foi tão grande. As “Elevações sobre os mistérios” e as “Meditações sobre o Evangelho” escapam-lhe à competência.

Aliás, no tempo dele, cumpre reconhecê-lo essas obras místicas em que o gênio de Bossuet, chegado à plenitude e à inteira posse do seu poder, evoluirá de alguma sorte à vontade em meio aos mais sublimes mistérios, não eram nem conhecidas nem apreciadas como nos nossos dias.

É preciso ler nas “Meditações sobre o Evangelho” a primeira parte da ceia, ou “o que se passou no cenáculo e antes de Jesus Cristo sair”. É a instituição da Eucaristia, contada, explicada, comentada conforme a doutrina da Igreja mais inconteste, de acordo com a Escritura Sagrada e com toda a tradição católica; as considerações mais elevadas e mais sublimes misturam-se ali aos sentimentos e às efusões duma terna piedade; mesmo quando expõe o dogma ou refuta com lógica impiedosa os erros protestantes, Bossuet acha meios de interessar o coração fiel e de fornecer à fé um suave alimento. E o faz constantemente com aquela simplicidade, com aquela clareza de tom e de linguagem, privilegio exclusivo do gênio, que o torna acessível aos espíritos mais humildes e menos versados na contemplação.

Extraímos das “Meditações sobre o Evangelho” este opúsculo sobre a Eucaristia. A matéria dele foi-nos integralmente fornecida pelas primeiras sessenta e cinco meditações, ou dia da Ceia, que, nas pequenas edições portáteis, abre o segundo volume. Acrescentamos sumários aos capítulos. A isto se cinge a nossa obra.

Possa Deus servir-se deste modesto trabalho para fazer conhecer cada vez mais, aos que ignoram o sacramento adorável em que Nosso Senhor encerrou, com a Sua divindade e humanidade, o tesouro inesgotável das Suas graças. Temos fome, temos sede.  Ora, como o diz Bos­suet, “quereis nunca ter fome, nunca ter sede? Vinde ao pão que não perece, e ao Filho do ho­mem que vo-lo administra; à Sua carne, ao Seu sangue, onde estão conjuntamente a verdade e a vida, porque é a carne e o sangue do Filho de Deus”.

Fr. M. A. LIBERCIER,
dos Dominicanos Docentes.


I

No cenáculo, os preparativos da Páscoa, verdadeira figura da Eucaristia, o que ela significa. Deixemos o exílio, e voltemos à casa paterna

No primeiro dia dos ázimos, no fim do qual havia que imolar o cordeiro pascoal, os discípulos vieram a Jesus; e como sabiam o quanto Ele era exato em todas as observâncias da lei, perguntaram-Lhe onde queria que Lhe preparassem a Páscoa.

E Jesus lhes disse:

“Ide à cidade, a certo homem”

Os evangelistas não o nomeiam; e o próprio Jesus, sem nomeá-lo aos discípulos, deu-lhes apenas sinais certos para o acharem.

“Ide, diz ele, à cidade. Entrando nela, encontrareis um homem carregando um cântaro d’água: segui-lo-eis e, entrando na casa aonde ele vai, direis ao dono: Onde é o lugar onde devo comer com meus discípulos? E ele vos mostrará uma grande sala atapetada; preparai-me aí tudo o que for preciso” (Evangelho, passim.)

São Marcos diz-nos que Ele deu essa ordem a dois dos discípulos; e São Lucas nomeia São Pedro e São João.

Eis aqui alguma coisa de grande que se prepara, e alguma coisa de maior do que a Páscoa comum, já que Ele envia os dois mais consideráveis dos Seus apóstolos, São Pedro, que Ele pusera à testa deles, e São João, a quem honrava com sua amizade particular. Os Evangelistas não assinalam que fosse costume dele assim fazer nas outras Páscoas, nem tão pouco que costumasse escolher um lugar onde houvesse uma grande sala atapetada. Por isto os santos Padres notaram que esse aparato se relacionava à instituição da Eucaristia. Jesus Cristo queria mostrar-nos com que cuidado deviam ser decorados os lugares consagrados à celebração desse mistério. Só nessa circunstancia se afigura que Ele não quis parecer pobre.

Os cristãos aprenderam, por esse exemplo, todo o aparato que se vê aparecer, desde os primeiros tempos, para celebrar com honra a Eucaristia, segundo as faculdades das igrejas. Mas o que eles devem aprender principalmente é a se prepararem eles próprios para bem recebê-lO, isto é, a preparar-Lhe, como uma grande sala, um coração dilatado pelo amor de Deus, e capaz das maiores coisas, com todos os ornatos da graça e das virtudes, que são representados por aquela tapeçaria de que a sala estava ornada. Preparemos tudo a Jesus que vem a nós; seja tudo digno de recebê-lO.

Eis, portanto, tudo disposto. O grande cenáculo tapizado está pronto: esperam ali o Salvador. Vejamos agora os grandes espetáculos que Ele vai dar aos seus fiéis. Contemplemos, creiamos, aproveitemos; abramos o coração antes que os olhos.

“Antes do dia de Páscoa, Jesus, sabendo que era chegada a sua hora de passar deste mundo a seu Pai, como tinha amado os seus que estavam no mundo, amou-os até o fim” (Jo 13, 1)

Sabe-se que a palavra Páscoa significa passagem. Uma das razões desse nome, que é também a que São João considera nesse lugar, é que a festa de Páscoa foi instituída quando o antigo povo devia sair do Egito, para passar à terra prometida a seus pais; o que era a figura da passagem que devia fazer o povo novo, da terra à celeste pátria. Toda a vida cristã consiste em fazer bem essa passagem; e é a isso que Nosso Senhor vai dirigir mais do que nunca a sua conduta, tal como São João parece aqui advertir-nos.

A primeira coisa que devemos notar é que devemos fazer essa Páscoa, ou essa passagem, com Jesus Cristo. E é por isto que esse evangelista começa o relato dessa Páscoa de Nosso Senhor por estas palavras: Antes do dia de Páscoa, Jesus, sabendo que devia passar deste mundo a seu Pai…

Ó Jesus! Apresento-me a Vós, para fazer minha Páscoa na Vossa companhia; quero passar conVosco do mundo a Vosso Pai, que quisestes fosse o meu. O mundo passa, diz o Vosso apóstolo; a figura desse mundo passa; mas eu não quero passar com o mundo, quero passar a Vosso Pai. E a viagem que tenho de fazer, quero fazê-la conVosco. Na antiga Páscoa, os Judeus que deviam sair do Egito para passar à terra prometida, deviam aparecer em traje de viajores, de bordão na mão, de cinturão nos rins para arregaçar-lhes as vestes, de sapatos nos pés, sempre prontos a ir e a partir; e deviam aviar-se em comer a Páscoa, a fim de que nada os retivesse, e eles se mantivessem prontos para marchar a cada momento. É a figura do estado em que se deve pôr o cristão para fazer sua Páscoa com Jesus Cristo, para passar ao Pai com Ele. Ó meu Salvador; recebei o Vosso viajor, eis me pronto, não estou preso a nada; quero passar conVosco deste mundo a Vosso Pai.

Donde me vem este pesar de passar? Como! Ainda estou apegado a esta vida? Que erro me retém neste lugar de exílio? Ides passar meu Salvador! E, resolvido que eu estava a passar conVosco, quando me dizem que é deveras que cumpre passar, perturbo-me, não posso suportar nem ouvir essa palavra. Covarde viajor! Que temes? A passagem que vais fazer é a que o Salvador também vai fazer no nosso evangelho: recearás porventura passar com Ele? Mas escuta: Jesus, sabendo que Sua hora era chegada de passar deste mundo. Que haverá de tão amável neste mundo, que não queiras deixá-lo com o Salvador Jesus? Deixá-lo-ia Ele se fosse bom ficar nele? Mas escuta, ainda uma vez, cristão: Jesus passa deste mundo para ir ao Pai. Se houvesse somente que sair do mundo, sem ir para alguma coisa de melhor, posto que este mundo seja pouca coisa e não se perdesse muito perdendo-o, poder-se-ia ter pesar disso, porque afinal não se teria nada de melhor. Porém, cristão, não é assim que deves pensar. Jesus passa deste mundo, mas para ir a Seu Pai. Cristão, que deves ir com Ele, tu passas a um pai; o lugar donde saís é um desterro; voltarás à casa paterna.

Passemos, pois, deste mundo com alegria, mas não esperemos pelo último momento para começarmos a nossa passagem. Quando os Israelitas saíram do Egito, não deviam chegar logo à terra prometida; tinham quarenta anos a viajar no deserto; celebraram, não obstante, a sua páscoa, porque saiam do Egito e iam começar a viagem. Aprendamos a celebrar a nossa páscoa desde o primeiro passo; seja perpétua a nossa passagem; nunca paremos; não demoremos, mas acampemos em toda parte, a exemplo dos Israelitas; que tudo nos seja um deserto, assim como para eles; estejamos, pois, como eles, sempre debaixo das tendas; a nossa casa é alhures; andemos, andemos; passemos com Jesus Cristo; morramos para o mundo, morramos-lhe todos os dias; digamos com o apóstolo: Morro todos os dias; não sou do mundo; passo não me apega a nada.

 


II
Jesus é a nossa Páscoa, isto é, a vítima imolada e comida na santa mesa.
Tenhamos fome dessa celestial comida

O Filho de Deus, querendo estabelecer a nova páscoa pela instituição da Eucaristia, começou-a por estas palavras: “Desejei com grande desejo comer esta Páscoa convosco, antes de sofrer”; o que foi seguido da instituição da Eucaristia; e esta instituição, e esse grande desejo que ele nos testemunha nesse lugar, de fazer conosco essa páscoa antes de sofrer, faz parte do amor imenso com que Jesus, “que sempre amara os seus, os amou, como diz São João, até o fim”.

Portanto, para lhe entrar nos desígnios e em disposições convenientes às suas, lembremo-nos de que a Páscoa, a santa vítima donde devia sair o sangue do livramento, devia, com muitas outras vítimas da antiga aliança, não só ser imolada, mas ainda comida, e de que Jesus Cristo quis dar a Si esse caráter de vítima dando-nos a comer, a perpetuidade, aquele mesmo corpo que devia ser uma só vez oferecido por nós na morte; é por isto que Ele dizia:

“Desejei com ardor comer convosco esta Páscoa antes de morrer”

Não era a Páscoa legal, que ia findar que Jesus Cristo desejava com tanto ardor comer com seus discípulos: celebrara-a Ele muitas vezes e a comera com eles; a outra Páscoa era aqui objeto do Seu desejo. E é por isto que, quando Ele diz: Desejei com ardor comer convosco esta páscoa, páscoa da nova aliança, é a mesma coisa que se ele dissesse: Desejei ser eu mesmo a vossa Páscoa, ser o cordeiro imolado por vós, a vítima do vosso livramento; e, pela mesma razão por que desejei ser uma vítima verdadeiramente imolada, desejei também ser uma vítima verdadeiramente comida, o que Ele cumpriu por estas palavras: “Tomai, comei: isto é meu corpo dado por vós”; é a Páscoa donde deve sair o sangue do vosso livramento. Saireis do Egito, e serei livre, logo depois que este sangue tiver sido derramado por vós; não mais vos restará senão comerdes, a exemplo do antigo povo, a vítima donde ele saiu. É o que efetuareis na Eucaristia que eu vos deixo ao morrer, para ser eternamente celebrada depois da minha morte.

Comer as carnes do cordeiro pascoal era para os Israelitas um penhor sagrado de haver Ele sido imolado por eles. A manducação da vítima era uma maneira de participar desta; e era desse modo que se participava dos sacrifícios pacíficos, ou de ação de graças, como é assinalado na lei. São Paulo diz também que “os Israelitas que comiam a vítima, por essa forma eram tornados participantes do altar e do sacrifício, e se uniam mesmo a Deus, a quem ele era oferecido; do mesmo modo os que comiam as vítimas oferecidas aos demônios; entravam em sociedade com este”. Portanto, se Jesus é a nossa vítima se é a nossa Páscoa, deve ter estes dois caracteres: um de ser imolado por nós na cruz, outro de ser comido na santa mesa como a vítima da nossa salvação. E, era o que Ele desejava, com tanto ardor, cumprir com Seus discípulos. Ambos esses caracteres deviam ser igualmente realizados na Sua pessoa. Como Ele devia, ser imolado no próprio corpo e na própria substância, cumpria que fosse comido assim também: Tomai, comei; isto é meu corpo entregue por vós; tão verdadeiramente comido quão verdadeiramente é entregue; tão presente na mesa onde o comem como na cruz onde o entregam à morte, onde Ele se oferece esgotado de sangue por amor de vós.

Entremos, pois, como diz São Paulo, nas mesmas disposições em que esteve o Senhor Jesus. Se Ele desejou com tanto ardor celebrar essa páscoa conosco, tenhamos o mesmo desejo de fazer a Páscoa com Ele. Essa Páscoa é a comunhão; Jesus tem fome por nós dessa carne celeste; deseja ser comido, e, por este meio, ser em todo ponto a nossa vítima. Tenhamos o mesmo ardor de participar do Seu sacrifício, comendo esse divino corpo imolado por nós. Se Ele é a nossa vítima, sejamos a dEle. “Ofereçamos os nossos corpos, como diz São Paulo, assim como uma hóstia viva, santa e agradável. Mortifiquemos os nossos maus desejos: estingamos em nós toda impureza, toda avareza, todo orgulho”; humilhemo-nos com aquele que, “sentindo-se igual a Deus, não deixou de aniquilar-se a si próprio, fazendo-se obediente até à morte, e morte de cruz”. Tomemos sentimentos de morte:

“Se, somos de Jesus Cristo, se o comemos, crucifiquemos a nossa carne com seus vícios e cobiças”

É esta a nossa Páscoa; a nossa Páscoa é estarmos unidos com Ele para passarmos desta vida a outra melhor, dos sentidos ao espírito, do mundo a Deus. É à custa disto que poderemos tornar-nos dignos de comer com Jesus Cristo a Páscoa que Ele tanto desejou, e de nos alimentarmos da carne do Seu sacrifício.


III
Tendo Jesus Cristo comida a Páscoa conosco, devemos comê-la com Ele: é o único meio de pensarmos em Deus, de nos revestirmos de Nosso Senhor e de vivermos no céu

Jesus, que nos instituiu um Batismo, quis antes de tudo recebê-lO conosco. Ele é nosso chefe, compreendamo-lO bem; pois é este o grande mistério da nossa salvação. Ele é nosso chefe, e o que é feito para nós Ele próprio o toma. Inicia em Sua pessoa o uso da Eucaristia. Quando é batizado, somos batizados nEle; recebemos também nEle a Eucaristia que Ele recebe. Não devemos, pois duvidar de que, instituindo-a, Ele a receba; não devemos, digo, duvidar de que Ele tenha comido o que apresentou aos seus discípulos.

Como então, teria Ele comido a própria carne? Isto faz horror. Homem carnal! Que receais? E nunca cessareis de escutar os vossos sentidos? Ignorais o poder dAquele que vos fala? Se Ele próprio se dá a comer aos Seus, de um modo que, longe de lhes fazer horror, lhes inspira confiança, respeito e amor, quem duvidará de que Ele possa ter-Se comido desse modo? Sem o que, não teria dito:

“Desejei com ardor comer convosco esta Páscoa”

Ora, essa Páscoa, esse cordeiro pascoal, vimos que era o Seu próprio corpo. Come-o Ele, pois, de maneira tão real, e conjuntamente tão elevada acima dos sentidos, quanto no-lo dá, e é essa a Sua Páscoa e a nossa, é a Sua passagem e a nossa. Vou-me, diz Ele, subo para meu Pai e para o vosso, para meu Deus e para o vosso. Subo para Ele porque Ele é meu Pai e meu Deus; a Ele subireis também comigo, porque Ele é, posto que doutro modo, vosso Pai e vosso Deus. Temos, pois, vós e eu, que efetuar essa passagem, em que passamos do mundo a Deus.

Mas quando Jesus volta a Deus, volta ao seio de seu Pai, ao lugar da Sua origem, ao Seu lugar natal, por assim dizer, onde está sempre, e que nunca pode deixar; torna ao Seu próprio bem, à própria gloria; torna de alguma sorte a Si própria; vive de Si próprio. A vida estava nEle, como estava no Pai; Ele próprio é a vida; é a nossa; é a sua; é a nossa, e nós precisamos comê-lO; é a sua, e Ele só precisa, por assim falar, de se comer a Si próprio. É o mistério que Ele cumpre por essa Páscoa que Ele tanto desejava comer com Seus discípulos. Comemo-lO, vivemos dEle; Ele se come, vive de Si próprio, e volta a seu Pai, para gozar em Seu seio dessa vida; e é por isto que Ele acrescenta:

“Digo-vos em verdade que não comerei desta Páscoa tão desejada até que o mistério dela se cumpra no reino de Deus”

Nesse bem-aventurado reino, minha Páscoa será cumprida, porque terei passado do mundo a meu Pai. Porém, minha Páscoa é também a vossa; e porque Sou vosso chefe, e vós sois meus membros, cumpre que façais a mesma passagem. Comei, pois, a vitima da passagem, comei o meu corpo, e passai a Deus comigo; começai a passar-lhe em espírito; passareis a ele um dia em pessoa e segundo o corpo, quando ressuscitardes pela virtude do meu corpo, que terá santificado o vosso. Então a Páscoa será cumprida em vós somo o vai ser em mim; passareis à minha gloria; vosso corpo a ela passará como vossa alma, e será revestido de imortalidade; e todos juntos, chefe e membros, gozaremos da glória e da felicidade da nossa passagem, e nada mais haverá a desejar para o perfeito cumprimento, da nossa Páscoa. Celebremos lhe, pois, nesse ínterim, o sagrado símbolo na Eucaristia, e comamos com Jesus Cristo a Páscoa tão desejada.

Meu Salvador por quantos prodígios assinala aí o Vosso amor para conosco! Sois Vós que nos dais esse sagrado banquete. Sois a vianda que nele se come: Sois aquele que a come, visto como são Vossos membros os que a comem, quer dizer, são outros Vós mesmo.

Enchamo-nos, pois, de Jesus Cristo: somos-lhe unidos nesse banquete corpo a corpo, alma a alma, espírito a espírito. Quem é digno dessa união senão aquele que pode dizer com o apóstolo:

“Vivo, já não eu; mas Jesus Cristo vive em mim”?

Aquele que já é de alguma forma um Jesus Cristo, para vir a sê-lo ainda mais se unindo a Ele? Nada mais de humano haja, pois, em nós. Revistamo-nos, como diz São Paulo, de Nosso Senhor Jesus Cristo, da Sua bondade, da Sua doçura, da Sua humildade, da Sua paciência, do Seu zelo, da Sua imensa caridade; só respiremos o céu, onde Jesus Cristo está sentado à direita de seu Pai. Só o nosso corpo esteja na terra, porém nós, vivamos no céu, como sendo cidadãos dEle.

Sejamos famintos de Jesus Cristo, do Seu reino, da Sua justiça, pois Ele também é faminto de nós; deseja com grande desejo comer conosco essa Páscoa, unir-nos a si, e agir incessantemente sobre nós e em nós pelo Seu espírito, para tornar-nos cada vez mais conformes a si, até que, pondo-nos inteiramente consigo, Lhe sejamos totalmente semelhantes, vendo-O face a face, e tal qual Ele é. E é esta a Páscoa que Ele realizará no reino de Deus, no texto que meditamos. Amém! Amém!


IV
A Eucaristia, memorial da morte do Salvador.
Razões que tinha Nosso Senhor para institui-la e comê-la antes de padecer.
Duas noites memoráveis

Antes de padecer. Indaguemos com humildade porque se fazia mister que Jesus Cristo instituísse e comesse essa Páscoa com Seus discípulos antes de padecer, de preferência a comê-la depois e quando ressuscitou.

Tinha Ele nesse mistério o desígnio de tornar presente a Sua morte, transportar-nos em espirito ao Calvário, onde Seu sangue foi derramado e correu em largas golfadas de todas as Suas veias. “Isto, diz Ele, é meu corpo, dado por vós, partido por vós”, e aberto de tantas chagas: “Isto é meu sangue derramado por vós”. Eis esse corpo, eis esse sangue, que são postos diante dos olhos, como separados um do outro. A fim de que tudo quadrasse ao Seu desígnio, cumpria que esse mistério fosse instituído na véspera daquela morte cruenta, na própria noite em que Ele devia ser entregue, como nota São Paulo, quando Judas maquinava o seu negro intento, e estava prestes a partir para executá-lo. Que digo? Prestes a partir? Ele parte da mesa onde Ele e os demais discípulos comiam pela última vez com seu mestre, onde este acabava de lhes dar Seu corpo e Seu sangue, e a Judas como aos demais; parte nesse momento para ir entregá-lO; dentro de duas horas pô-lo-á nas mãos dos seus inimigos! O próprio Jesus já está todo perturbado com Sua morte próxima, da perturbação misteriosa que havemos visto; é nesse estado, é entre essa perturbação e a morte, por assim dizer já presente, que Ele institui a nova Páscoa.

Todas as vezes, pois, que assistimos ao Seu mistério, que nEle comungamos, todas as vezes que ouvimos estas palavras: “Isto é meu corpo, isto é meu sangue”, devemo-nos recordar em que conjunturas, em que noite, no meio de que discursos, elas foram proferidas. Foi dizendo antes, foi repetindo depois:

“Um de vós me trairá: a mão daquele que me trairá está comigo à mesa

A instituição da ceia é feita nessa conjuntura: enquanto os apóstolos, avisados da perfídia de um dos companheiros, olhavam-se uns os outros, e perguntavam com admiração e com susto: Serei eu? Enquanto o próprio Judas o perguntava, e o Salvador lhe disse: “Sim, sois vós, vós o dissestes”, acrescentando ainda, para lhe fazer sentir que lhe lia no fundo do coração as negras maquinações: “Vai, acaba infeliz. Faze prontamente o que vais fazer”, é em meio a essas ações e a essas palavras, enquanto designava com os olhos e com a mão aquele que ia dar o golpe, foi, digo, no meio de todas essas coisas que Ele instituiu a Eucaristia.

Nunca a comamos, pois, nunca assistamos à celebração desse mistério, sem nos transportarmos em espirito à triste noite em que Ele foi estabelecido, e sem nos deixarmos penetrar dos preparativos tremendos do sacrifício cruento de nosso Salvador; porque é por esta razão que São Paulo, narrando essa instituição, nos repõe diante dos olhos aquela noite horrorosa: “Soube, diz ele, do Senhor o que vos ensinei, que o Senhor Jesus, na noite em que devia ser entregue, tomou pão”, e o resto (1Cor 9, 23). Foi nessa noite; pensai bem nisto, e notai esta circunstância.

Poderia parecer que a Eucaristia, sendo como é um memorial dessa morte, devia ser precedida por esta. Mas não: é dos homens, cujos conhecimentos são incertos e cuja previdência é tremula o deixar suceder as coisas antes de ordenar que nos lembremos dela. Porém, Jesus bem seguro do que ia acontecer e do gênero de morte que devia padecer, separa antecipadamente Seu corpo do Seu sangue: “Isto é meu corpo, isto é meu sangue”, diz ele; “meu corpo entregue, meu sangue der-ramado”: lembrai-vos disto; lembrai-vos do meu amor, da minha morte, do meu sacrifício, e do modo admirável por que se cumprirá o vosso livramento.

Assim, quando Deus instituiu a Páscoa, na véspera do livramento do povo de Deus; quando toda gente estava na expectativa do que Ele faria na noite seguinte, para efetuar essa obra, Ele lhes diz:

“Imolai um cordeiro, tomai-lhe do sangue, lavai com ele vossas portas: eu virei, verei esse sangue, e passar ei; o anjo exterminador não vos ferirá; e pouparei por esse sinal as casas dos Israelitas, ao passo que encherei as dos Egípcios de morticínio e de luto, fazendo-lhe morrer todos os primogênitos: será esse o plano do vosso livramento”

É o que Deus diz no Êxodo. Que diz Ele, porém no mesmo lugar?

“Renovareis todos os anos a mesma cerimonia; imolareis um cordeiro, comê-lo-eis com as mesmas observâncias; e quando vossos filhos vos perguntarem: que cerimonia religiosa é esta? Responder-lhes-eis: É a vitima que celebramos em memória da passagem do Senhor, quando, ferindo todo o Egito, poupou, as casas dos Israelitas, e nos livrou por esse meio da escravidão em que estávamos’’ (Ex 12)

Deus, portanto, que sabia o que queria fazer, institui-lhe também o memorial antes que a coisa tivesse acontecido; a fim de que, fazendo a Páscoa, eles não só se lembrassem do próprio livramento, mas se lembrassem de ainda de que esse sagrado memorial fora estabelecido na véspera de tamanha obra, e enquanto todo o povo estava na expectativa de tão grande acontecimento.

A nova Páscoa é instituída no mesmo espírito, e todas as vezes que a celebramos entre nós, e celebramo-la não todos os anos, como a Páscoa antiga, porém todos os dias; todas às vezes, digo que a celebramos e que nossos filhos, que no-la virem celebrar com tanta religião e respeito, nos perguntarem: Que cerimônia é essa? Dir-lhes-emos: É o mistério que Jesus Cristo instituiu antes da Sua morte, mas essa morte já estava presente enquanto tramavam o negro conluio que O devia pôr na cruz no dia seguinte, para deixar-nos um memorial dessa morte, e perpetuá-la de alguma sorte entre nós. Vinde, vinde, meus filhos; preparai-vos para comungar conosco, e lembrai-vos do vosso Salvador imolado por amor de vós.

Era preciso, pois, cumprir a antiga figura da Páscoa, era mister que a nova Páscoa, que devia ser o memorial eterno da morte de Jesus Cristo, fosse instituída antes de Sua morte.

“Desejei, diz Jesus, comê-la convosco antes de sofrer”

E que era, com efeito, a Páscoa antiga, senão a figura da verdadeira libertação do povo de Deus?

“Imolai um cordeiro, tomai-lhe do sangue, lavai com ele vossas portas, e eu vos libertarei por esse sinal”

Deus precisava porventura do sacrifício de um cordeiro para executar essas obras? Precisava de um sinal, e dessa marca de sangue, para conhecer as casas que queria poupar? Tudo isso manifestamente se fazia em nossa figura, para ensinar-nos que só seriamos libertos pelo sacrifício de Jesus Cristo, o cordeiro sem mácula imolado pela salvação do mundo, e em vista do sangue do Seu sacrifício. E Jesus Cristo estabelece o memorial de tamanho benefício como Deus estabelecera o da libertação do povo antigo, antes que a coisa tivesse acontecido a fim de que conhecêssemos que o nosso Deus não é como os homens, que Ele sabe prever todas as coisas e fazê-las como convém a um Deus.

Acostumemo-nos, pois, assistindo ao santo sacrifício, e ainda mais comungando, a encher a memória, da morte do nosso Salvador e da noite em que Ele foi entregue. Encaremos a instituição da Eucaristia como um novo compromisso que Ele tomava ainda conosco e com seu Pai, para se votar à morte. E que maravilha o havê-la Ele previsto na véspera de ela acontecer, já que não só a previra muito tempo antes, como o vemos em tantos lugares do Seu Evangelho, mas ainda, como o vemos na lei e nos profetas, desde a origem do mundo, por tantas predições, por tantas figuras admiráveis!


V
A necessidade de sermos felizes;
somos infelizes porque procuramos a felicidade onde ela não está.
Vamos buscá-la à sua verdadeira fonte, a Eucaristia

“Senhor, dai-nos sempre esse pão”, esse pão do qual haveis dito que dá a vida eterna. É o que dizem os Judeus; e exprimem dessa arte o desejo de toda a natureza humana, ou, antes, de toda a natureza inteligente. Ela quer viver eternamente; quer não sentir falta de nada; numa palavra, quer ser feliz.

É ainda o que exprimia a Samaritana, quando, havendo-lhe Jesus dito: “Ó mulher! Aquele que bebe da água que eu dou nunca tem sede”, reponde ela logo: Senhor, dai-me essa água, para que eu nunca tenha sede e não seja obrigada a vir aqui tirar água, num poço tão profundo, com tanto custo. Repito, a natureza humana quer ser feliz; não quer ter nem fome nem sede; não quer ter necessidade alguma, desejo algum a satisfazer, trabalho algum, fadiga alguma; e isto, que outra coisa é senão ser feliz?

Eis o que quer a natureza humana, eis o seu fundo. Ela se engana nos meios; tem sede dos prazeres dos sentidos; quer excelir; tem sede das honras do mundo. Para conseguir uns e outros, tem sede das riquezas; a sua sede é insaciável; ela pede sempre, e nunca diz basta; sempre mais e sempre mais. É curiosa; tem sede da verdade, mas não sabe onde achá-la, nem qual verdade pode satisfazê-la; apanha dela o que pode por aqui, por acolá, por bons, por maus meios; e, como toda alma curiosa é leviana, deixa-se enganar por todos aqueles que lhe prometem essa verdade que ela busca.

Quereis nunca ter fome, nunca ter sede? Vinde ao pão que não perece, e ao Filho do homem que vo-lo administra; à Sua carne, ao Seu sangue, onde está conjuntamente a Verdade e a vida, porque é a carne e o sangue, não do filho de José, como diziam os Judeus, mas do Filho de Deus.

“Ó Senhor, dai-me sempre esse pão”!

Quem é que não tem fome dEle? Quem é que não se quer assentar à Vossa mesa? Quem poderia jamais deixá-la?

Mas, para nos aguilhoar mais do desejo de nos aproximarmos dela, Jesus Cristo diz-nos que não é coisa fácil ou comum. Há que ser amado por Deus, tocado, puxado, prevenido, escolhido. Vede quantos dos Seus ouvintes se afastam dEle, quantos murmuram quantos se escandalizam! Os Seus próprios discípulos retiram-se-Lhe da companhia; há mesmo entre Seus apóstolos uns que não creem. Quanto mais esses infiéis se desviam, tanto mais os verdadeiros discípulos devem aproximar-se.

Vinde, escutai, segui o Pai que vos puxa, que vos ensina interiormente, que vos faz sentir vossas necessidades, e em Jesus Cristo o verdadeiro meio de saciá-las. Comei, bebei, vivei, alimentai-vos, contentai-vos, saciai-vos. Se fordes insaciáveis, seja dEle, da Sua verdade ao Seu amor; porquanto a Sabedoria eterna diz, falando de si própria:

“Os que me comem ainda terão fome, e os que me bebem ainda terão sede”

Oh! Acabamos de ouvir da boca dEle: Aquele que bebe da água que eu der, nunca terá sede; e ainda: Aquele que vem a mim, nunca terá fome, e aquele que crê em mim nunca terá sede. Jamais terá fome nem sede de outra coisa senão de mim; mas terá uma fome e uma sede insaciável de mim, e nunca cessará de desejar-me. Ao mesmo tempo em que será insaciável, será, todavia saciado, porque terá a boca na fonte:

“Os rios de água viva sair-lhe-ão das entranhas. A água que eu lhe der tornar-se-á nele uma fonte d’água borbotam-te para a vida eterna”

Ele terá, pois, sempre sede da minha verdade; mas também poderá sempre beber, e eu o conduzirei à vida em que ele nem sequer terá mais que desejar, porque eu o rejubilarei pela beleza da minha face, e lhe satisfarei todos os desejos.

Vinde, pois, Senhor Jesus, vinde, o Espírito diz sempre: Vinde: a Esposa diz sempre: Vinde. Vós todos que escutais, dizei: Vinde, e aquele que tem sede venha; venha quem quiser receber gratuitamente a água viva. Vinde não se exclui ninguém. Vinde, não custa nada, só custa querer. Tempo virá em que já se não dirá: Vinde. Quando esse esposo tão desejado vier, então não precisaremos mais dizer: Vinde. Diremos eternamente: Amém, assim é, está tudo cumprido, aleluia, louvemos a Deus; Ele fez bem todas as coisas, fez tudo o que prometera não há mais senão que louvá-lo.


VI
Instituição da Eucaristia.
Explicação dos textos Evangélicos.
Crer com simplicidade. Amém.

Enquanto eles ceiavam, como comessem ainda (segundo o grego), Jesus tomou pão, benzeu-o e, depois de dar graças, partiu-o, e deu-o aos discípulos, dizendo-lhes:

“Tomai e comei; isto é meu corpo, dado por vós: fazei isto em memória de mim. E, tomando o cálice, depois da ceia, deu graças, e deu-o aos discípulos, dizendo-lhes: Bebei dele todos; é meu sangue, o sangue da nova aliança, que é derramado por muitos em remissão dos seus pecados: todas as vezes que o beberdes, fazei-o em memória de mim” (Evangelho, passim; São Paulo)

Eis tudo o que diz respeito à instituição. Apenas, em vez de São Lucas fazer o Salvador dizer: Isto é meu corpo dado por vós, São Paulo fá-lo dizer: Isto é meu corpo rompido por vós, sempre no mesmo sentido; Ele é entregue à morte, é machucado de golpes, furado de chagas, violentamente suspenso a uma cruz, neste sentido partido e dilacerado. Eis aí o corpo que Judas nos dá, o mesmo corpo que ia em breve sofrer essas coisas, que agora as sofreu. Uma palavra mais sobre o texto. Ao passo que a Vulgata traduz: o sangue que será derramado por vós, o original traz: que é derramado, que se derrama; em tempo presente, em São Mateus e em São Marcos; e sobre o corpo, o mesmo original traz em São Paulo: o corpo que é partido, que se parte, igualmente em tempo presente. E, efetivamente, em São Lucas, a versão traz, tal como o original: que é dado, que se dá: quod datur, e não um futuro será dado; no mesmo sentido que Jesus dizia: A Páscoa será dentro de dois dias, e o Filho do homem será entregue, é entregue segundo o grego: vai sê-lo; a obra está iniciada, já está reunido o conselho para achar o meio de prendê-lo e de fazê-lo morrer. “E o Filho do homem se vai, como foi escrito dele, mas ai daquele por quem o Filho do homem for entregue, é entregue”, segundo o grego. Ele fala sempre em tempo presente, porque a sua perda estava resolvida, tramada para o dia seguinte, e porque iam, dentro de duas horas, começar a proceder à execução; e a fim também de que em qualquer tempo que recebêssemos Seu corpo e Seu sangue, considerássemos a Sua morte como presente.

Cristão, eis-te instruído: viste todas as palavras que concernem ao estabelecimento desse mistério. Que simplicidade! Que nitidez nessas palavras! Ele não deixa nada a adivinhar, a glosar; e si alguma glosa se faz mister a isso, é somente notando que, segundo a força do original, cumpriria traduzir: Isto é meu corpo, meu próprio corpo, o mesmo corpo que é dado por vós. Isto é meu sangue, meu próprio sangue, o sangue da nova aliança, o sangue derramado por vós em remissão dos vossos pecados. Porque é também por esta razão que o siríaco, tão antigo quanto o grego, e feito no tempo dos apóstolos, diz: Isto é meu próprio corpo; e que a liturgia dos Gregos traduz que o que nos dão o que fazem desse pão e desse vinho, é o próprio corpo de Jesus, Seu próprio sangue. Eis a glosa, se preciso.

Que simplicidade, repito! Que nitidez! Que força nessas palavras! Se Ele tivesse querido dar um sinal uma semelhança pura, bem saberia dizê-lo: ele bem sabia que Deus disse ao instituir a circuncisão:

“Circuncidareis vossa carne: será o sinal da aliança entre vós e mim”

Quando propôs símile, bem soube tornear a sua linguagem de maneira a se fazer entender, de sorte que ninguém jamais duvidasse:

“Eu sou a porta: aquele que entra por mim será salvo. Eu sou a vinha, e vós sois os galhos: e como o galho não dá fruto senão pegado à cepa, assim também não podeis dar frutos senão permanecerdes em mim” (Jo 10, 9)

Quando Ele faz comparações, símiles os evangelistas bem souberam dizer: Jesus diz esta parábola; fez esta comparação.

Aqui, sem nada preparar, sem temperar nada, sem nada explicar, nem antes, nem depois, dizem-nos pura e simplesmente: Jesus diz: Isto é meu corpo; isto é meu sangue, meu corpo dado, meu sangue derramado: eis o que eu vos dou. E vós, que fareis recebendo-O? Lembrai-vos eternamente do presente que eu vos faço esta noite: lembrai-vos de que fui eu que vo-lo deixei, e que fiz este testamento; que vos deixei esta Páscoa, e que a comi convosco antes de padecer. Se eu vos dou o meu corpo como devendo ser, como tendo sido entregue por vós, e meu sangue como derramado por vossos pecados; numa palavra, se vo-lo dou como uma vítima, comei-o como uma vítima; e lembrai-vos de que é esse um penhor de que ela foi imolada por vós.

Ó meu Salvador, pela terceira vez, que nitidez, que precisão, que força. Mas ao mesmo tempo que autoridade e que poder nas Vossas palavras! Mulher está curada (Lc 13, 12): e ela é curada imediatamente. Isto é meu corpo; e é Seu corpo. Isto é meu sangue; e é Seu sangue. Quem é que pode falar deste modo, senão Aquele que tem tudo em mãos? Quem é que pode fazer-se crer, senão Aquele para quem fazer e falar é a mesma coisa?

Minha alma, para aqui, sem discorrer: crê tão simplesmente, tão fortemente quanto teu Salvador falou com tanta submissão quanta autoridade e poder Ele faz aparecer.

Uma vez mais, Ele quer, na tua fé, a mesma simplicidade que pôs nessas palavras. Isto é meu corpo; é, portanto o Seu corpo. Isto é meu sangue; é, portanto Seu sangue. No antigo modo de comungar, o sacerdote dizia: O corpo de Jesus Cristo, e o fiel respondia: Amém: Assim é. O sangue de Jesus Cristo, e o fiel respondia: Amém: Assim é. Tudo era feito, tudo era dito, tudo era explicado por essas três palavras. Calo-me, creio, adoro: tudo está feito, tudo está dito.


VII
Promessa da Eucaristia.
O que Nosso Senhor nos dá, o fruto que devemos tirar, e o meio de tirar esse fruto.
Sua carne e Seu sangue, fontes de vida

Para compreender todo o desígnio do Filho de Deus na Eucaristia, cumpre escutar o que Ele diz dela em São João. Acharemos que Ele faz aí três coisas. Primeiramente explica-nos o que nos dá; segundo, o fruto que devemos tirar dela; terceiro, o meio de tirar dela esse fruto.

O que Ele nos dá é a Si próprio, e é Sua carne e Seu sangue; e mal Ele fala disso, os homens exclamam:

“Como é que este homem pode dar-nos sua carne a comer”

O homem argumenta sempre contra si próprio e contra as bondades de Deus. Quando Jesus, para preparar-nos para o mistério que Ele devia deixar à Sua Igreja no dia da ceia, disse que nos daria Sua carne a comer e Seu sangue a beber, os Judeus caíram em três erros. Acreditaram que Ele lhes falava da carne de um puro homem, do filho de José, eis o seu primeiro erro; duma carne semelhante àquela com que os homens alimentam o corpo, eis o segundo; duma carne, enfim, que eles consumiriam comendo-a, eis o terceiro.

Contra o primeiro:

“Eu sou, diz ele, o pão vivo descido do céu”

A carne que comemos não é, pois, a carne do filho de José; é a carne do Filho de Deus, uma carne concebida do Espírito Santo, e formada do sangue duma virgem.

“O Espírito Santo virá sobre vós, e a virtude do Altíssimo vos cobrirá com sua sombra; e a coisa santa que nascerá de vós terá o nome do Filho de Deus” (Lc 1, 25)

QUOD NASCETUR EX TE SANCTUM. SANCTUM, no substantivo, para os que sabem um pouco de gramática, e que entendem a força desse neutro, quer dizer uma coisa substancialmente santa: modo de falar que faz ver que a santidade é substancial em Jesus Cristo. Por quê? Porque Sua pessoa é santa por Si mesma, pela santidade essencial e substancial do Filho de Deus.

“E eis porque, continua o anjo, ele será chamado Filho de Deus”

Que quer dizer Ele será chamado? É que Ele não o será essencialmente, e que Lhe darão esse nome por alguma figura? Livre-nos Deus! Pelo contrário, Ele o será chamado por excelência. O Pai, que O gera na eternidade gerá-lO-á no seio de Maria, a virtude do Altíssimo cobri-la-á da Sua sombra, insinuar-se-lhe-á no seio, e a carne que o Filho de Deus tomará no seio dessa Virgem será formada pelo Espírito Santo. Será, pois, uma carne santa, da santidade do Filho de Deus, que a une a si; será cheia de vida, fonte de vida, viva e vivificante por si mesma. Assim o primeiro erro é destruído.

Para refutar o segundo, que consistia em imaginar que a vida, que Jesus Cristo prometia por Sua carne seria essa vida comum e mortal, Ele repete, inculca, em todo o Seu discurso, que é a vida eterna, tanto da alma quanto do corpo, que Ele nos quer dar:

“A vontade de meu Pai é que não perca nenhum daqueles que ele me deu, e que os ressuscite no último dia… Quem comer deste pão, desta vianda celeste, da minha carne, que eu darei pela vida do mundo, viverá eternamente” (Jo 6, 30ss)

Para destruir o terceiro erro dos Judeus que imaginavam uma carne que consumiríamos comendo-a, diz-lhes Ele:

“Isto vos escandaliza? Muito mais admirados ficareis então quando virdes o Filho do homem subir ao lugar donde veio”

Como se dissesse: Comerão a minha carne, disse-o eu; mas nem por isto ficarei menos vivo e menos inteiro. Donde Ele conclui: Não imagineis, pois, que eu vos fale de uma carne humana comum, ou da carne do filho de José; nem que vos fale duma carne que vos deva ser dada para manter essa vida mortal, nem, por conseguinte, duma carne que deva ser posta em pedaços e consumida comendo-a:

“A carne, nesses sentidos, de nada serve; é o espírito que vivifica; as palavras que eu vos digo são espirito e vida”

Posto que só tenha falado, por assim dizer, da Sua carne, do Seu sangue; de comer aquela, de beber este, tudo o que Ele disse é espirito; quer dizer manifestamente que na Sua carne, no Seu sangue, tudo é espírito, tudo é vida, tudo está unido à vida e ao espirito; porque Sua carne e Seu sangue são a carne e o sangue do Filho de Deus.

Tanto, pois, quanto desejamos a vida, devemos desejar essa carne que no-la dá, que a contém, que é a própria vida.

“Saiu de mim uma virtude; senti-a sair”

Era uma virtude para curar os corpos: quantas mais sairão para vivificar as almas? Aproximemo-nos, pois, dessa carne, toquemo-la, comamo-la: sairá dela uma virtude que trará a vida às nossas almas, e que a seu tempo a dará aos nossos corpos.

O mesmo sucede com o sangue de Jesus; esse sangue é cheio de virtude para nos vivificar; pois é o sangue do Filho de Deus, o sangue do Novo Testamento, como o chama Ele próprio; e quer dizer, como o interpreta São Paulo, “o sangue do Testamento eterno, pelo qual o grande pastor das ovelhas foi torado da morte”. Ele próprio ressuscitou, pois, dos mortos pela virtude de Seu sangue, porque devia entrar na glória pelos Seus sofrimentos. É por esse mesmo sangue, por esse sangue do Testamento e da Aliança eterna, que devemos também herdar o Seu reino e ter a vida eterna. Comamos, bebamos, vivamos, alimentemo-nos, unanimo-nos à vida por essa carne, por esse Sangue vivificador. Ele os tomou para se aproximar de nós.

“Não foi aos anjos que ele quis unir-se; foi a natureza humana que ele quis tomar. E por isto que os homens são compostos de carne e de sangue, ele quis também ser composto de uma e de outro” (Hb 2, 14.16)

É desse modo que Ele se une a nós, e é por essa forma que nos salva.

Temo-lo dito muitas vezes, e não nos devemos cansar de dizer: essa carne e esse sangue tornaram-se o vínculo da nossa união com Ele, o instrumento da nossa salvação, a fonte da nossa vida, porque  Ele os tomou para nós, porque os ofereceu pela nossa salvação, porque no-los dá ainda para nos vivificar. Vamos com santa avidez a essa vianda celeste; tudo nela é espirito e vida.


VIII
A Fé dá a inteligência desse mistério.
A voz do Pai que nos atrai ao Filho

Não é tudo sabermos que dom recebemos de Jesus Cristo; há ainda que saber dele duas coisas muito necessárias; das quais, uma é o fruto que devemos tirar dele, e outra é o meio de recebê-lo. Tudo isto é nos explicado no mesmo capítulo. Mas o que primeiro se deve aí entender é que só Deus nos pode dar a inteligência disso, conforme esta palavra:

“Não murmureis entre vós: ninguém pode vir a mim, se meu Pai, que me enviou, não o atrai” (Jo VI, 43ss)

Portanto, para vir a Jesus e lhe penetrar as palavras, há que ser atraído pelo Pai, senão ser ensinado por Deus, como acrescenta o Salvador:

“Escrito está nos profetas: Eles serão todos ensinados por Deus. Aqueles que ouviram a voz de meu Pai, e que aprenderam o que ele lhes ensina, vêm a mim”

Assim, ser atraído por Ele é escutar-Lhe a voz, e ser ensinado pela doce e onipotente insinuação e inspiração da verdade. Quando somos instruídos desse modo, não murmuramos das Suas palavras; ouvimo-las, saboreamo-las, e foi por isto que Ele disse no fim:

“Há uns entre vós que não creem; e foi por isto que eu vos disse que ninguém pode vir a mim, se isso não lhe é dado por meu Pai”

Atraído a Jesus Cristo é, pois, aquele a quem é dado crer. O Pai atrai-nos a Jesus Cristo quando nos inspira a fé.

Creio Senhor, creio; não sou daqueles que querem retirar-se de Vós, por causa da altitude das Vossas palavras: ao contrário, sou dos que Vos dizem com São Pedro:

“Mestre, a quem iriamos nós? Tendes palavras de vida eterna, havemos crido e conhecido que sois o Cristo, o Filho de Deus”

Crede, pois, e conhecei: crede primeiro como verdadeiro filho da Igreja, dócil e submisso, e verdadeiramente ensinado por Deus. Depois de serdes ensinado por Deus e docemente atraído à fé, sê-lo-eis ainda à inteligência, tanto quanto é necessário para confirmar a Vossa fé; e direis em todas as ocasiões, mas particularmente na comunhão:

“Havemos crido e conhecido que Sois o Cristo, o Filho de Deus”

Roguemos ao Pai de Jesus Cristo, que quis ser o nosso, que nos atraia, que nos faça ouvir a Sua voz e penetrar a Sua palavra.


IX
Fruto espiritual da Eucaristia:
O desapego da vida deste mundo, para só apreciar a vida onde nunca se morre.
Vida completa e inestimável da alma e do corpo

No capitulo de São João, devemos achar duas coisas: a primeira é o fruto espiritual que devemos tirar da Eucaristia; a segunda é o meio de tirar dela esse fruto.

Quanto ao fruto, é fácil entendê-lo: esse fruto é desapegarmo-nos da vida e apegarmo-nos a Deus. É sobre o que Jesus Cristo se explica claramente por estas palavras:

“Em verdade, em verdade, vos digo: vós me buscais, não porque vistes milagres; mas porque comestes pães que multipliquei no deserto, e vos alimentastes deles. Trabalhai não pela comida que perece, mas pela que não perece que o Filho do homem vos dará: pois ele é aquele que o Pai celeste vos designou, imprimindo nele seu cunho e seu caráter”

E confirmando-lhe a doutrina e a missão por tantos milagres.

Vós vos explicais, meu Salvador! O Vosso desígnio é desapegar-nos da comida e da vida perecedora, que tem todos os nossos cuidados, pela qual trabalhamos o ano todo; e transportar-nos a inteligência e o trabalho para a comida e para a vida que não perece. Ensinai-me, meu Salvador, meu Salvador: atraí-me dessa maneira admirável que faz com que vamos a Vós; desgostai-me de todos os cuidados que só resultam em viver para morrer: fazei-me apreciar essa vida em que nunca se morre.

“Que milagre fazeis vós, para que creiamos em vós?”

Que fazeis de tão maravilhoso? É verdade, fardastes-nos de pão no deserto. Mas esse pão é comparável ao maná que Moisés deu a nossos pais, do qual ele escreveu: Deu-lhes a comer o pão do céu. O pão que nos destes era o pão da terra, e há tanta diferença entre Vós e Moisés quanta há entre a terra o céu.

Vê-se claramente por esse discurso que eles só pensavam nos meios de sustentar esta vida mortal, e que não era sem razão que Jesus Cristo lhes exprobara os seus desejos carnais. Porque eles não levam o pensamento mais longe do que ao maná, com que seus corpos foram alimentados no deserto; nem conhecem outro céu a não ser as nuvens donde ele lhes fora enviado; sem cogitar de que ele não fora chamado o pão do céu, e o pão dos anjos, senão em figura de Jesus Cristo que lhes devia trazer a vida eterna. Serve-se Ele, pois, da expressão de que se serve a Escritura, para salientar a maravilha do maná, para elevar os espíritos ao verdadeiro pão dos anjos, à verdade que os faz felizes e que, havendo-se encarnado, se tornou familiar e sensível aos homens para fazê-los viver.

Diz-lhes, pois, que desceu do céu; que quem vem a Ele nunca tem fome, e que quem crê nEle nunca tem sede; que Ele é, por conseguinte o verdadeiro pão, a verdadeira comida das almas que a Ele vêm pela fé; que os homens, pois, não devem esperar atingi-lO pela Sua divindade, nem unir-se a Ele nela mesma; que é um objetivo demasiado alto para uma natureza pecadora e entregue aos sentidos corporais; que Ele se fez homem para se aproximar deles; que a carne que Ele tomou é o único meio que Ele lhes deu para se unirem a Ele, e que para isso a encheu Ele da própria divindade, por conseguinte de espírito e de espírito e de graça, ou, como fala São João, de graça e de verdade, e alhures: “O espírito não lhe foi dado com medida: e nós todos havemos recebido do seu espírito”; que dai, portanto, se segue que nós temos nele a verdadeira vida, a vida eterna, a vida da alma e do corpo, e não precisamente nele como Filho de Deus, mas nele como Filho do homem: pois é por aí que ele começa. Trabalhai por vós preparardes a comida que vos será dada pelo Filho do homem; contanto que creiais que a Sua carne, pela qual Ele quer vivificar-nos, é cheia de espírito e de vida.

Assim o fim a que Ele quer chegar é fazer-nos viver, porém da vida eterna, tanto segundo a alma como segundo o corpo:

“É, diz ele, a vontade de meu Pai que eu não perca nada daquilo que meu Pai me deu, e que, para dar a vida ao corpo como à alma, eu o ressuscite no último dia; e ainda: Vossos pais comeram o maná, e morreram; aquele que comer deste pão viverá eternamente”

É, pois, esse o fruto da Eucaristia; ela é feita para contentar o desejo que temos de viver, e por isso dar-nos a vida eterna, na alma pela manifestação da verdade, e no corpo pela Sua gloriosa ressurreição. Senhor, que tenho a desejar? Viver; viver em Vós, viver para Vós, viver de Vós e da Vossa eterna verdade, viver todo, viver n’alma, viver mesmo no corpo: nunca perder a vida, viver sempre! Tenho tudo isto na Eucaristia, nela tenho, pois, tudo e só me resta fruir.


X
Ainda a fé.
Duas verdades que cumpre crer: a segunda, que é preciso comer carne para viver.

“A obra de Deus é que creiais naquele que ele enviou. Eu sou o pão de vida: aquele que vem a mim nunca terá fome, e aquele que crê em mini nunca terá sede; quem crê em mim tem a vida eterna”

É, portanto, constante que é pela fé que devemos aproveitar desse celeste alimento, para recebermos dele a vida eterna; e não se trata mais senão de saber o que ele nos ensina hoje: que devemos crer para isso. Ora, ele nos ensina claramente que é preciso crer duas coisas: a primeira, que o Filho de Deus desceu do céu e tomou uma carne humana, na qual veio a nós; a segunda, que, para ter parte na vida que ela contém, há que come-la.

A primeira dessas verdades é claramente ensinada nestas palavras tantas vezes repetidas:

“Eu desci do céu: não é Moisés quem vos dá o verdadeiro pão descido do céu, mas é meu Pai quem vos dá o verdadeiro pão descido do céu; porque o pão de Deus é aquele que desce do céu, e que dá vida ao mundo”

E ainda:

“Desci do céu para fazer a vontade de meu Pai, e ressuscitar tudo o que ele me deu”

E ainda:

“Está aqui o pão descido do céu”

E ainda:

“Eu sou o pão descido do céu”

E ainda:

“Está aqui o pão descido do céu” (Jo 6, 38ss)

Eis aí, pois, o fundamento de toda a doutrina do Salvador clarissimamente explicado, que é haver Ele descido do céu, isto é, haver-se encarnado, tomado carne.

Mas a segunda verdade, que é ser preciso comer essa carne para ter parte na vida que ela contém, não é menos explicada nem menos inculcada em todo o discurso do Filho de Deus, a começar por estas palavras:

“E o pão que eu der, é minha carne para a vida do mundo”

Ou, como traz o original:

“O pão que eu der, é minha carne, que darei para a vida do mundo”

O que, tendo dado lugar a que os Judeus dissessem entre si:

“Como é que ele nos pode dar a carne dele para comer?”

O Filho de Deus explica-se ainda mais, e insiste cada vez mais em dizer:

“Senão comerdes a minha carne e não beberdes o meu sangue, não tereis a vida em vós” (porque a vida está para vós nesta carne que Eu tomei)

E sem descontinuar:

“Quem come minha carne e bebe meu sangue terá a vida eterna”

Não deixa de repeti-lo, visto que acrescenta logo depois:

“Porque minha carne é verdadeiramente comida, e meu sangue é verdadeiramente bebida: quem come minha carne e bebe meu sangue fica em mim e eu nele; quem me come viverá por mim; quem come deste pão terá a vida eterna”

Vê-se como Jesus Cristo se afunda, por assim dizer, sempre e cada vez mais na matéria; Ele introduz o discurso da comida celeste por ocasião do pão material que acabava de dar-lhes, e chega até a dizer que será preciso comer a Sua carne e beber o Seu sangue: o que Ele inculca tão insistentemente quanto fez a Sua Encarnação, ensinando-nos claramente por esse modo que devemos tão realmente comer a Sua carne e beber o Seu sangue, quanto os tomou Ele uma e outro; e é essa a nossa salvação, é a nossa vida, porque por esse meio Ele não toma só, em geral, uma carne humana, toma a carne de cada um de nós, quando cada um de nós recebe a dEle. Então Ele se faz homem para nós, aplica-nos a Sua Encarnação; e, como dizia Santo Hilário, Ele só trás, só toma a carne daquele que toma a dEle; Ele não é nosso Salvador, e não foi para nós que se encarnou, se nós próprios não tomamos a carne que Ele tomou. Assim a obra da nossa salvação consuma-se na Eucaristia, comendo a carne do Salvador.

Cumpre trazer a fé, pois é por aí que Ele começa; cumpre crer em Jesus Cristo que dá Sua carne a comer, como cumpre crer em Jesus Cristo descido do céu e revestido dessa carne. Não é, entretanto, a fé que faz que essa carne seja dada a comer. Quer creiamos quer não, isso é fato; quer creiamos quer não, Jesus Cristo desceu do céu em carne humana; quer creiamos que não Jesus Cristo dá a comer a mesma carne que tomou; pois é dito absolutamente: “Isto é meu corpo”; e não: Isto o será, se crerdes; como é dito absolutamente: “O Verbo se fez carne”, o Verbo desceu do céu a terra; e não: Ele se faz carne pela vossa fé, e desce do céu se crerdes nisso.

Ó verdade da carne comida ceio-vos, como creio a verdade da carne tomada pelo Filho de Deus, descido do céu. Meu Salvador, com que força me confirma a Vossa Encarnação! Ah! Aquele que não crê que se recebe realmente a Vossa própria carne, na Sua própria e verdadeira substância, não crê, como é preciso, que Vós a tomastes, e não tem parte no pão de vida.


XI
O grande benefício de Deus: meditação.
É a Encarnação estendida a cada um de nós tantas vezes quantas comungamos.
O fruto da Eucaristia: viver da vida de Jesus Cristo

Minha alma, estabeleceste o fundamento; creste com simplicidade, por um simples ato. Expande-te agora na meditação de tamanho beneficio; desenvolve-te a ti mesma tudo o que ele contém tudo o que Jesus te deu por essas poucas palavras.

Sois, pois, a minha vítima, ó meu Salvador! Mas se eu só fizesse ver-Vos no altar e na cruz, não saberia bastante que é a mim, que é por mim que Vos ofereceis. Mas hoje, que eu Vos como, sei, sinto, por assim falar, que foi por mim que Vos oferecestes. Sou participante do Vosso altar, da Vossa cruz, do sangue que aí purifica o céu e a terra, da vitória que alcançastes nela sobre o Vosso inimigo, sobre o demônio, sobre o mundo, vitória que Vos faz dizer:

“O mundo vos afligirá, mas tende ânimo, eu venci o mundo”

Se Vos oferecestes por mim, logo me amareis: pois por quem é que se dá a vida, senão pelos próprios amigos? Como-Vos em união com o Vosso sacrifício, por conseguinte com o Vosso amor; gozo do Vosso amor todo, de toda a Sua imensidade; sinto-o tal qual é, sou penetrado dele.

Vós mesmos vindes pôr-me esse fogo nas entranhas, a fim de que eu Vos ame com um amor semelhante ao Vosso. Ah! Vejo agora e conheço que tomastes por mim essa carne humana, que por mim lhe carregastes as enfermidades, que foi por mim que a oferecestes que ela é minha. Tenho só que toma-la, comê-la, possuí-la, unir-se a ela. Encarnando-Vos no seio da santíssima Virgem, tomastes apenas uma carne individual; agora tomais a carne de todos nós, a minha em particular; aproveitai-Vos dela, ela é Vossa; torná-la-eis como a Vossa pelo contato, pela aplicação da Vossa, primeiramente pura, santa, sem mácula; segundo, imortal, gloriosa; receberei o caráter da Vossa ressurreição, contanto que tenha a coragem de receber o da Vossa morte.

Vinde, carne do meu Salvador: carvão ardente purificai-me os lábios, abrasai-me do amor que Vos entrega à morte! Vinde, sangue que o amor fez derramar; correi no meu seio, torrente de chama! Ó Salvador! Está, pois, aqui o Vosso corpo, esse mesmo corpo perfurado de chagas. Uno-me a todas; foi por elas que todo o Vosso sangue escorreu por mim. Penais, morreis passais; é aqui a Vossa passagem: passo, expiro convosco. Que me é o mundo? Nada absolutamente. Estou crucificado para o mundo e o mundo para mim. Ele não me apraz, e eu não quero aprazer-lhe. Ele não me aprecia: tanto melhor para mim, contanto que eu também não o aprecie. A ruptura está feita de parte a parte; não é como quando um ama e o outro odeia; não posso sofrer o mundo, que, por seu lado, não pode sofrer-me; tal como é um morto para com outro morto, tal é o mundo para mim, e eu para o mundo.

Porém o mundo dirá isto, dirá aquilo; o mundo dirá que eu ainda lhe quero agradar na minha separação: que importa que ele diga?

“Estou pregado à cruz de Jesus Cristo: vivo não mais eu, mas Jesus Cristo em mim, e o que tenho de vida na carne, tem na Fé do Filho de Deus que me amou e se entregou por mim”

Se ainda sou tocado por um amor humano, vivo ainda; se odeio aquele que me odeia, vivo ainda; se sinto as injúrias, vivo ainda; se a dor me penetra, vivo ainda. Adeus, adeus; vou-me embora; não sou mais de nada; não sou mais de mim; “é para Jesus Cristo que vivo; é Jesus Cristo que vive em mim”.

É assim que cumpriria ser; é o fruto da Eucaristia. Oh! Como estou longe disso! Mas só por ela chegarei a isso.


XII
Deus amou tanto o mundo!
As consequências desse amor.
Creiamos nesse amor e imitemo-lo

“Deus amou tanto o mundo que deu seu Filho único, a fim de que aquele que nele crer não pereça, mas tenha a vida eterna” (Jo 3, 16)

Que quer dizer: que deu seu Filho único? É que o deu à morte, assim como Ele dissera antes:

“Assim como Moisés elevou a serpente no deserto, cumpre também que o Filho do homem seja elevado”

Quer dizer que seja elevado e posto na cruz. Foi, pois, assim que Deus deu seu Filho único: deu-o à morte, e à morte de cruz.

Mas como foi que Deus fez para dar seu Filho único à morte? O Filho de Deus, em quem está a vida, e que é Ele próprio a vida, pode morrer? A fim de que ele pudesse morrer, Deus fê-lo homem, fê-lo Filho do homem de uma maneira admirável, incompreensível, veracíssima, realíssima, singularíssima, que admira toda a natureza; e por esse meio cumpriu-se o que Deus queria que o Filho do homem, que é ao mesmo tempo Filho de Deus, fosse elevado na cruz, e dado à morte pela vida do mundo.

Deus, portanto, amou tanto o mundo que lhe deu seu Filho único. Deu-O primeiro ao mundo quando Ele se fez homem; e deu-O em segundo lugar ao mundo quando o deu para ser a vítima dele. A mesma carne que Ele tomara para tornar-Se semelhante a nós e unir-Se a nós, no-la dá Ele de novo dando-a por nós em sacrifício.

Eis aí duas coisas que deviam ser realizadas na carne do nosso Salvador: uma, que o Filho de Deus devia vir em carne, para se unir a nós e ser-nos semelhante; outra que o mesmo Filho de Deus devia imolar-se na mesma carne que tomara, e oferecê-la por nós em sacrifício. Uma terceira deve realizar-se nessa carne imolada: cumpre ainda que ela seja comida para consumação desse sacrifício, em penhor certo de que foi por nós que o Filho de Deus a tomou e ofereceu, e de que ela é inteiramente nossa. É uma terceira maravilha que deve realizar-se na carne de Jesus Cristo.

Como o fará Ele?

Teremos que devorar-Lhe a carne, ou viva ou morta, na Sua própria espécie de natureza? E já que é preciso que Seu sangue nos seja tão dado a beber quanto a Sua carne a comer, a fim de que, assim dado, nos seja em penhor de que foi para a remissão dos nossos pecados que Ele foi derramado, haverá que engolir esse sangue em Sua própria forma? Livre-nos Deus! Deus achou o meio de, sem nada perder da substância de Seu corpo e de Seu sangue, os tomarmos apenas de maneira diferente daquela por que eles são naturalmente expostos aos nossos sentidos. Por esse meio, temos toda a substância duma e doutro; e Deus, dando-no-los sob uma forma estranha, poupa-nos o horror de comer carne humana e de beber sangue humano na sua própria forma.

E como foi que Ele fez isso?

Tomou pão e disse: Isto é meu corpo, meu verdadeiro corpo, mas sob a figura de pão; tomou uma taça de vinho e disse: Isto é meu sangue, meu verdadeiro sangue, sob a figura deste vinho de que enchi a taça que vos apresento. Portanto, assim como Ele fez seu Filho eterno e imortal o Filho do homem, para que Ele pudesse morrer, assim também, para que pudéssemos comer essa carne e beber esse sangue, fez Ele esse corpo pão de certo modo, visto que revestiu Seu corpo da espécie e da forma do pão; quis que Seu sangue fosse vertido nas nossas bocas, e corresse em nós sob a forma e figura do vinho. Temos, pois, toda a substância duma e doutro; as figuras antigas se cumprem, a nossa fé fica contente, o nosso amor tem o que pede: tem Jesus Cristo todo, na Sua própria e verdadeira substância; e a Igreja O come, a Igreja O recebe; como esposa, goza-lhe do corpo; está-lhe unida corpo a corpo, para lhe estar também unida coração a coração, espírito a espírito.

Como é que tudo isso pode fazer-se?

Deus amou tanto o mundo! O amor pode tudo; o amor faz, por assim dizer, o impossível; para se contentar, e para contentar o seu caro objeto. Deus também fez para nós o impossível; digo para nós, porque, para Ele não há impossível, tudo Lhe é possível. Mas aquilo que era impossível à natureza fazer, e ao senso humano compreender, Ele o fez; seu Filho tornou-Se filho do homem, e aproximou-se de nós; a natureza humana, que Ele pôs de alguma forma entre Ele e nós, não impediu que fosse Ele próprio em pessoa que viesse a nós, mesmo como Deus; ao contrário, Ele a nós veio pelo próprio homem, e a carne que Ele tomou foi o nosso vínculo com Ele. Do mesmo modo, quando o Filho do homem foi dado à morte, foi verdade que o próprio Filho de Deus morria, na natureza que havia tomado. Se em seguida se faz mister comer carne dada por nós em sacrifício, o Seu amor achará meios para isso: Tomai, comei; isto é meu corpo; não vos informeis do modo, é a substância que vos é preciso, pois é a substância que está unida a divindade e a vida. Sob a figura deste pão, está o meu próprio corpo; sob a figura deste vinho, está o mesmo sangue que foi derramado por vós. Comei, bebei; tudo é vosso, não penseis no que os sentidos vos apresentam; é à vossa fé que falo; é a ela que digo: Isto é meu corpo. Lembrai-vos, pois, de que sou Eu que o digo. Ninguém mais senão Eu, nenhum outro senão um Deus, nenhum outro senão o Filho de Deus, por quem tudo foi feito, poderia falar deste modo. Lembrai-vos de que, sob a figura deste pão e deste vinho, está meu corpo, está meu sangue, que Eu vos dou, este corpo dado à morte, este sangue derramado por vossos pecados.

E como foi que tudo isso se fez?

Deus amou tanto o mundo! Só nos resta crer, e dizer com o discípulo bem-amado:

“Havemos crido no amor que Deus teve a nós” (Jo 4, 16)

Bela profissão de fé! Belo símbolo! Que credes cristãos? Creio no amor que Deus tem a mim. Creio que Ele me deu seu Filho; creio que Ele se fez homem? Creio que Se fez minha vítima; creio que Se fez meu alimento, e que me deu Seu corpo a comer, Seu sangue a beber, tão substancialmente quanto tomou e imolou um e outro. Como, porém, o credes? É que eu creio no Seu amor, que pode por mim o impossível, que o quer, que o faz. Perguntar-lhe outro como, é não crer no Seu amor e no Seu poder.

Se cremos nesse amor, imitemo-lo. Quando se trata da glória de Deus e do Seu serviço, o nosso zelo não deve achar nada impossível.

“Se podeis crer, diz Ele, tudo é possível àquele que crê”

Notai: se podeis crer; toda a dificuldade é crer; mas se uma vez crerdes bem, tudo vos é possível. Deus entra nos desígnios do vosso zelo, e o Seu poder vos vem em auxílio. O obstáculo que tendes a vencer não está nas coisas que tendes a executar por Deus; está em vós mesmo, está na vossa fé; se puderdes crer. Porém Deus nos ajuda a crer.

“Creio Senhor! Ajudai a minha incredulidade”


XIII
Jesus, nossa vítima, dado à cruz, dado na Eucaristia.
Seu sangue, derramado por nós, corre ainda no cálice, Seu corpo é-nos distribuído como o pão de nossas almas

Quanta doçura acho em meditar Vossa palavra! Quanta doçura acho nessa palavra pela qual estabeleceis e continuais esse banquete, que é ao mesmo tempo um sacrifício! Não me canso de meditá-la; considero-a por todos os lados; rumino-a, por assim falar, e passo-a na boca para tirar-lhe todo o suco. “Isto é meu corpo dado por vós”; em tempo presente, que se dá. ”Isto é meu sangue derramado por vós”; no mesmo tempo, que se derrama. São Mateus assim fala. São Marcos, São Lucas, São Paulo, quatro testemunhas perfeitamente uniformes da Vossa palavra. Todos quatro falam em presente; isto é claro no original, e o intérprete latino que traduziu no futuro será entregue, será derramado, em
relação à cruz, aonde aquele corpo ia efetivamente ser entregue e onde o sangue ia ser derramado, conservou em São Lucas o tempo presente: Hoc corpus quod pro vobis datur, a fim de que entendêssemos, não só que Jesus Cristo, dizendo: Isto é meu corpo, o entendia daquele mesmo corpo que ia ser entregue por nós, mas ainda entendia que esse mesmo corpo que ia ser entregue e dado por nós já era dado antecipadamente na consagração mística, e sê-lo-ia a cada vez que se celebrasse esse sacrifício. Creiamos, pois, não só que o corpo de Jesus Cristo devia ser dado por nós na cruz, e o foi, com efeito; mas ainda que, a cada vez que se pronuncia essa palavra, Ele é por essa palavra atualmente dado por nós: Hoc corpus quod pro vobis datur.

Ele quer, portanto, dizer que esse corpo não só nos é dado na Eucaristia: “Tomai e comei: isto é meu corpo”; mas ainda que Ele seja aí dado por nós, oferecido por nós, tanto quanto o foi na cruz; o que assinala que ainda aqui e Ele é a nossa vítima, que ainda aqui é oferecido, posto que doutra maneira. Assim esse termo: dado por vós, diz-se de Jesus Cristo na cruz, e se diz de Jesus Cristo na Eucaristia, e convém a esse duplo estado do corpo de Nosso Senhor presente numa e noutra. É por isso que o Salvador não somente fala em tempo presente, para nos mostrar que está aqui como na cruz dando-Se atualmente por nós, mas ainda escolhe um tempo que convém ao Seu sagrado corpo nesses dois estados. Se Ele tivesse dito: Isto é meu corpo, que é crucificado, perfurado de chagas, posto à morte por vós, não se poderia dizer que isso lhe convém na Eucaristia, porquanto neste Ele não morre mais, e haveria que explicar necessária e unicamente: Isto é esse mesmo corpo que será posto na cruz por vós, e nela exalará o último suspiro pela vossa salvação. Mas disse: “Isto é meu corpo dado”: isto convém a esses dois estados; esse corpo é dado na cruz; esse corpo é ainda dado na Eucaristia; e, num e noutro estado, dado por vós desde que está na Eucaristia para vos ser dado nela, é dado por vós; antes de vo-lo dar a comer, a palavra de Jesus Cristo torna-o presente, e essa presença ainda é para vós. Jesus Cristo está presente por Vós diante de seu Pai; apresenta-se por Vós, oferece-a e por Vós, e a Sua simples presença é para Vós uma intercessão onipotente.

Eis aí, pois, o que opera na Eucaristia esse precioso termo:

“Isto é meu corpo dado”

Talvez, porém, que os termos referidos pelos escritores sacros não tenha sido pronunciados com a mesma escolha, e não convenham igualmente aos dois estados da presença de Jesus Cristo. Vejamos, leiamos, meditemos: Isto é meu sangue derramado: ele é derramado na cruz, mas não é ainda derramado no cálice? Não há porventura nesse cálice com que fazer a Deus, pela nossa salvação, a mais salutar efusão que jamais tenha havido? Esse sangue está ali para ser derramado sobre os fiéis; está ali em estado de ser derramado sob a forma dum licor, cuja propriedade é derramar-se. Esse sangue que foi derramado na cruz e que correu de todas as veias rompidas do Salvador corre ainda nesse cálice de todas as Suas chagas, e principalmente da do sagrado lado. É por isso que nós misturamos esse cálice com um pouco de água, em memória da água que correu do lado aberto com o sangue.

Senhor Jesus, Sois a palavra, e Vossas palavras são pronunciadas com uma escolha digna de Vós. Dizendo: Isto é meu sangue derramado por vós, em tempo presente, Vós me assinalais que não somente ele é derramado por mim na cruz, mas ainda que se derrame por mim, e pela remissão dos meus pecados, nesse cálice, para assegurar-m’a, para aplicar-m’a, para continuar eternamente a intercessão onipotente que fazeis por mim por esse sangue.

Continuemos a ruminar essas santas palavras: Isto é meu corpo dado por vós, conforme lemos em São Lucas; porém a palavra que São Paulo pôs no lugar foi esta: “Isto é meu corpo rompido por vós”; mas que quer dizer esse termo, segundo o uso da língua santa? Isaías no-lo explicou por estas palavras: “Rompe o teu pão aquele que tem fome” (Is 58, 7): dá-lhe esse pão, reparte-o com ele. São Paulo explica, portanto, bem: Isto é meu corpo dado por vós, por: Isto é meu corpo rompido por vós. Esse corpo é posto em estado de nos ser dado, de nos ser distribuído, de nos ser rompido na Eucaristia; e desde que é posto nesse estado, já é rompido e dado por nós, na destinação e pela palavra de Jesus Cristo. Porém esse mesmo termo também tem sua relação com o corpo na cruz, com o corpo machucado de golpes e furado de chagas, suspenso a uma cruz em estado tão violento, em que o Seu sangue escorre por todos os lados das Suas veias cruelmente rompidas. A palavra romper convém, pois, ainda aos dois estados, quer ao de Jesus Cristo na cruz, quer ao de Jesus Cristo na Eucaristia: o corpo é dado em ambos os estados; é rompido em ambos. O mesmo sucede com o sangue. O corpo é em toda parte dado por nós, é em toda parte nossa vítima; o sangue é em toda parte derramado por nós na cruz, corre ainda por nós na taça sagrada.

Meu Salvador, que sacrifício! Meu Salvador repito quanta doçura em meditar Vossa palavra! Acho sempre nela novos gostos; como no maná, Vosso corpo e Vosso sangue são a minha oblação, o meu sacrifício, a minha vítima tanto na cruz como na mesa sagrada: e, como a cruz, essa mesa é um altar. Ah! Realmente o que diz São Paulo é bem verdadeiro!

“Temos um altar, do qual os que permanecem apegados ao tabernáculo antigo, e ao altar da lei, não têm poder de comer”

Para participar dele, há que entrar em espírito no “tabernáculo que não é feito por mão de homem” (Hb 9).


XIV
A Eucaristia é o sangue do novo Testamento.
Um testamento, donde é que recebe o seu pleno efeito?
Jesus Cristo morre e assina com Seu sangue o ato que nos faz Seus herdeiros

Torno às palavras da instituição com novo gosto, e acho nelas esta palavra que me toca: Isto é meu sangue do novo Testamento. Acho, nesta palavra Testamento, não sei que me impressiona que me enternece. Está aqui um testamento; é a segurança da minha herança; cumpre, porém que esta custe à morte aquele que a faz. Abro ainda a divina epístola aos Hebreus, acho-lhe estas palavras: Onde quer que haja um testamento, cumpre que a morte do testante aí se encontre: porque o testamento é firmado na morte, e não tem valor enquanto o testante, está em vida; foi por isto que o próprio Antigo Testamento não foi consagrado sem sangue. Porquanto, depois que Moisés leu o mandamento da lei a todo o povo, tomou sangue da vítima e lançou-o sobre o próprio livro e sobre o povo, dizendo:

“É este o sangue do Testamento que o Senhor fez por vós”

Vejo, pois, a herança celeste dada por testamento aos filhos de Deus. Jesus Cristo é o testante: cumpre que morra; o testamento só é válido e só recebe a sua última força pela morte do testante; até aqui é sem efeito; pode-se mesmo mudá-lo; o que o torna sagrado e inviolável, o que lhe dá o seu pleno e inteiro efeito, e põe o herdeiro em posse de todo o bem que lhe foi deixado pelo testador, é a morte deste. E tudo isto se cumpre perfeitamente em Jesus Cristo, que morre para assegurar-nos a nossa herança. É por isto que o Antigo Testamento, que devia ser a figura do novo, não foi consagrado sem sangue: todo o povo, e o próprio livro da lei, onde a promessa da herança estava encerrada, é santificado pela aspersão desse sangue; tudo é ensanguentado, e o caráter de morte aparece em toda parte; e Moisés, lançando esse sangue sobre o livro da aliança, dá-lhe o caráter de testamento, dizendo, segundo o interprete São Paulo: “Está aqui o sangue do Testamento que faz o Senhor para vosso proveito”: o que Jesus realiza dizendo também: Isto é o sangue, não do antigo Testamento, porém do novo.

O que aparece, pois, nessas palavras, e pela relação que elas têm com as antigas figuras, é que o sangue de Jesus Cristo derramado na cruz, e derramado de modo realíssimo e veracíssimo, posto que diferente daquele, é o sangue do Novo Testamento, isto é, o sangue derramado para lhe dar toda a força. Há testamentos cuja lei é serem escritos pela mão do testador; mas a lei do testamento de Jesus Cristo é que ele devia ser confirmado, como todo escrito com o seu sangue. O instrumento deste testamento, e o ato em que ele é escrito, é a Eucaristia. As promessas de Jesus Cristo e da nova herança são-nos feitas pela morte de Jesus Cristo, que nos tira por elas do inferno, e nos assegura o céu; e o ato em que essa promessa é redigida, o instrumento em que a vontade e o depoimento de nosso Pai são escrito, esse ato, esse instrumento é todo escrito com Seu sangue; o Seu testamento, numa palavra, é a Eucaristia.

Quem, pois, não ficaria comovido ouvindo todos os dias essas palavras do Salvador: Isto é meu sangue do novo Testamento, ou, como o traduz São Lucas: Este cálice é o novo Testamento por meu sangue, que ele contém; porque Ele é a natureza desse testamento, que deve ser todo do próprio sangue do testador!

Vinde ler, cristãos, vinde ler este testamento admirável: vinde ouvir-lhe a publicação solene na celebração dos santos mistérios; vinde fruir das bondades de vosso Salvador, de vosso Pai, divino testador que vos compra por Seu sangue a vossa herança, e que escreve ainda com esse mesmo sangue o testamento pelo qual vo-la deixa. Vinde ler esse testamento; vinde possuir; vinde gozar; a herança celeste é vossa!


XV
Ainda o Novo Testamento.
Os evangelistas e São Paulo se esclarecem e se completam.
A nossa herança celeste, ó como é magnífica!

“Este cálice é o novo Testamento por meu sangue”

É assim que São Lucas e São Paulo exprimem o que referem São Mateus e São Marcos: Isto é o sangue do novo Testamento.

Não há razão para duvidar de que as palavras pronunciadas por Jesus Cristo, ao dar o Seu corpo, sejam estas: Isto é meu corpo; visto que todos aqueles que escreveram essa instituição, São Mateus, São Lucas e São Paulo, o referem nesses mesmos termos.

Não há mais razão para duvidar de que Jesus Cristo tenha consagrado o Seu sangue com o mesmo modo de falar com que consagrou Seu corpo, isto é, como o referem São Mateus e São Marcos:

“Isto é meu sangue do novo Testamento”

Mas como havia qualquer coisa de particular a considerar nesse sangue do novo Testamento, e como era mister entender que esse sangue derramado por nós na cruz, e ainda derramado por nós e transformado num licor na Eucaristia, era aí a confirmação e o testemunho certo da derradeira disposição de nosso Pai, São Lucas e São Paulo o exprimem assim: Esta taça é o novo Testamento em meu sangue; como se dissesse: Do mesmo modo que esse papel onde está escrita pela mão de vosso pai a sua última vontade é o seu testamento, assim também essa taça sagrada é o testamento de Jesus Cristo por Seu sangue, que ela encerra, e com o qual a última disposição devia ser escrita.

Não há nada, pois, de mais simples do que as palavras que Jesus Cristo usou: Isto é meu corpo; isto é meu sangue do novo Testamento; não há aí figura alguma tudo aí é verdadeiro ao pé da letra. Nessas palavras de São Lucas e de São Paulo, ou antes, nessas palavras de Jesus Cristo, tal como esses dois escritores sacros as exprimiram: Esta taça é o novo Testamento por meu sangue, há um modo de falar um pouco mais torneado, fácil, todavia e de linguagem familiar, e semelhante ao que chama de testamento o instrumento onde está declarada a última vontade do testante. Mas ao mesmo tempo a verdade do sangue é assinalada com força particular; pois é expressamente assinalado que, se a taça que nos apresentam é o testamento de Jesus Cristo, se é o instrumento sagrado onde a sua última disposição é consignada, é pelo sangue de Jesus Cristo, que ela contém, é porque esse testamento, como acabamos de ver, era de natureza a ser escrito, não de próprio punho, mas com o próprio sangue do testador. E as palavras de São Lucas consignam este sentido evidentemente. Porquanto, a traduzi-las termo por termo, conforme elas se acham no original, há que referir estas palavras: derramado por vós, não ao sangue, porém à taça; e devemo-las traduzir assim: esta taça, no mesmo sentido em que se diz todos os dias, quando um licor é derramado, que o vaso em que ele estava foi derramado. Entendamos, pois, também que essa taça é aqui destramada por nós; quer dizer que o sangue que ela contém não é derramado por nós somente na cruz, mas que, enquanto corre ainda nessa taça e dela escorre sobre nós, é ainda uma efusão que se faz pela nossa salvação, e uma efusão que se faz pela nossa salvação, e uma oblação verdadeira.

Demos graças a Jesus Cristo, que nos explicou por tantos modos, e de maneira tão expressa, o sacrifício que Ele continua a oferecer por nós na Eucaristia. Vejamos ainda aí correr por nós o sangue da redenção em verdade como na cruz, posto que sob forma estranha. Ele é poderoso para operar tudo o que disse: Seu sangue está aqui: essa taça está cheia dEle; Ele ai se derrama todos os dias por nós; é com esse sangue que está escrito o testamento de nosso Pai. E qual é esse testamento, senão esse do qual está escrito:

“É este o testamento que farei com eles; porei minha lei nos seus corações, e escrevê-lo-ei no seu espírito; e não me lembrarei dos seus pecados” (Jer 31, 31; Hb 8, 8ss)

E porque legar-nos por testamento a remissão dos pecados, senão é para levantar o obstáculo que nos impede de entrar no céu, que é a nossa verdadeira herança? E porque fazer isso por um testamento, senão é para nos fazer lembrar que, para estar em direito de nos legar essa herança celeste, devia isso custar à vida aquele que no-la legava por testamento? E porque dar-nos o sangue do novo Testamento, ou, como o exprimem São Lucas e São Paulo, porque dar-nos esse testamento selado, confirmado, escrito com o sangue do testador, senão para firmar a nossa fé e inflamar o nosso amor? Quem não se enterneceria vendo um testamento escrito desse modo? Como é grande a herança que nos é legada por testamento tão augusto, tão precioso! Quem teria o coração tão endurecido, que, vendo correr ainda dessa taça sagrada o sangue desse testamento, pelo qual nossos pecados são lavados, não teria horror a estes, e não lhes desarraigaria até os menores restos, à vista e pela virtude desse Sangue?


XVI
A Missa continua e renova a Ceia.
Grandeza e simplicidade desse sacrifício.
Unir-se ao sacerdote, confessar os próprios pecados para lhes obter o perdão

Reconheçamos, pois cristãos, que todas as graças abundam nesse sacrifício. Jesus morreu uma vez, e só uma vez pôde ser oferecido desse modo; do contrário, haveria que concluir que a virtude dessa morte seria perfeita. Mas aquilo que Ele fez uma vez dessa maneira, que era oferecer-Se assim todo ensanguentado e todo coberto de chagas, e exalar a alma com todo o sangue, continua-o Ele todos os dias de maneira nova no céu, aonde vimos, por São Paulo, que Ele não cessa de se apresentar por nós, e na Sua Igreja, onde todos os dias se torna presente sob esses caracteres de morte.

Povo redimido congregue-vos para celebrar as misericórdias de vosso Pai celeste por Jesus Cristo imolado por vós. Onde está o corpo de Jesus, aí está o lugar da vossa assembleia:

“Onde estiver esse corpo, aí devem acorrer às águias” (Mt 24, 28)

E que faremos nós aí? Que fez Jesus? Tomou pão; benzeu; deu graças em cima; fez santas preces; tomou uma taça: fez o mesmo em cima. O sacerdote faz como Ele; come-se, bebe-se esse corpo e esse sangue, diz-se o hino, sai-se.

Sejamos atentos; sigamos o sacerdote que age em nosso nome, que, fala por nós; lembremo-nos do costume antigo de oferecer cada um seu pão e seu vinho e de fornecer a matéria desse sacrifício celeste. A cerimônia mudou, o espírito dela permanece; nós todos oferecemos com o sacerdote; consentimos em tudo o que ele faz e em tudo o que diz. E que diz ele? Rogai irmãos, que o meu sacrifício e o vosso sejam agradáveis ao Senhor nosso Deus. E que respondeis? Que o Senhor o receba das vossas mãos. Que? O nosso sacrifício e o vosso. E que diz ainda o padre? Lembrai-vos dos vossos servos, por quem Vos oferecemos. E é só? Ele acrescenta: ou que vos oferecem este sacrifício. Ofereçamos, pois, também com ele; ofereçamos Jesus Cristo, ofereçamo-nos a nós mesmos com toda a sua Igreja Católica, espalhada por toda a terra.

O padre benze, dá graças sobre aquele pão e sobre aquele vinho, que vai ser convertido no corpo e no sangue; ora por toda a Igreja: benzei, dai graças, orai. Chega-se a essa especial benção, pela qual se consagram esse corpo e esse sangue; escutai, crede, consenti. Oferecei com o sacerdote; dizei Amém sobre a sua invocação, sobre a sua oração. Ei-lo, pois; Ele está presente, a palavra teve o seu efeito; eis Jesus tão presente como está no céu, onde Ele aparece ainda por nós ante a face de Deus. Essa consagração, essa santa cerimônia, esse culto cheio de sangue, e, todavia incruento, em que a morte está em toda parte, e onde, todavia a hóstia está viva, é o verdadeiro culto dos cristãos, sensível e espiritual, simples augusto, humilde e magnífico ao mesmo tempo.

Como! Durante tão grande mistério nenhum suspiro sobre os vossos pecados, nenhum sentimento de compunção! Assistis de corpo somente! Oh! Como! Jesus só está aqui segundo o corpo? Seu espírito não está também conosco? E que quer então dizer o sacerdote, quando nos saúda, dizendo: dominus vobiscum: O Senhor seja convosco? E com vosso espírito, respondeis vós. É, portanto ao espírito do sacerdote, ao espírito do sacrifício, que vos deveis unir; e o vosso corpo está ali como morto, sem espírito, sem fé! Como então, não sentis nada? Não pensais em que aquelas espécies sagradas são o invólucro onde está encerrado o corpo do vosso Salvador, e como que o lençol mortuário de que Ele está coberto? Assistis ao túmulo, onde está vosso Pai que morreu perfurado de chagas para vos salvar; e ficais insensíveis? Despertais aquelas palavras; mas pensais bastante que esse Jesus aqui presente não vos quer ver com o menor ressentimento de vosso irmão contra vós? Os vossos outros desregramentos não lhe causam menos horror. Ide hipócritas, que só me honrais com os lábios, e cujo coração está longe de mim: retirai-vos. Não, voltai: reanimai-vos, tornai a entrar em vós mesmos; dai, ao menos, um suspiro ao deplorável estado vossa alma. Dizei: Confessarei a Deus o meu pecado, e Vós m’o perdoareis. Sim; podereis confessá-lo com tanta compunção e de tão bom coração, que Ele vos será perdoado incontinente.


XVII
A Comunhão.
Deve-se comungar ao menos em espírito

Vem-se à comunhão: hora terrível, hora desejável. O padre comungou: preparai-vos, vossa vez chegará dentro um momento. Comungai primeiro em espirito; crede, adorai, desejai. É a minha comida; é a minha vida; desejo-a, quero-a. Não estais preparados para comungar? Chorai, gemei. Ai! Onde está o tempo em que ninguém assistia a não ser os comungantes, em que expulsavam em que repreendiam, ou pelo menos censuravam os que assistiam ao banquete sagrado sem comer? Efetivamente, assistir a ele sem comer não é desonrar o festim e desprezar-lhe as iguarias? Que desprezo! Que doença! Que desgosto! Mas não é mais o costume. Escutai o que diz a Igreja no concílio de Trento:

“O santo concílio desejaria que todos os que assistem ao sacrifício participassem dele”

E porque é que o santo concílio o deseja, senão porque Jesus Cristo deseja? Porque ele não se converte em vianda senão para ser comido. A Igreja deseja, pois, que comungueis, vós todos que assistis ao sacrifício. O concílio, todavia não diz que deseja; diz que desejaria: Optaret sancta synodus. Por quê? A Igreja não ousa formular desejo absoluto de tão grande bem; desejaria que todos o fizessem que todos fossem dignos dele.

Ó sacerdote desejai também que todos comunguem convosco! E vós todos que assistis, correspondei a esse desejo da Igreja e do seu ministro. Senão comungais, repito, chorai pelo menos, gemei, reconhecei tremendo que o cristão deveria viver de maneira que pudesse comungar todos os dias. Prometei a Deus preparar-vos para comungar quanto antes: tereis comungado ao menos em espírito. O sacerdote comunga: o sacerdote acaba, aflito, de comungar sozinho; não é culpa sua; não se deve deixar de armar a mesa, ainda que nem todos se aproximem dela. Tal é liberalidade, tal é a bondade do grande Pai de família.

Finalmente, o sacrifício está consumado: retirai-vos com dor de não terdes tido nele toda a parte que vos era destinada.


XVIII
Comunhão Indigna. João e Judas.
É um atentado direto à pessoa de Cristo.
Aos Santos as coisas santas

Jesus, que tudo faz pela nossa salvação, permitiu que Judas recebesse o dom sagrado com os outros, a fim de que víssemos os efeitos funestos duma comunhão indigna.

Vede o bem-amado discípulo à mesa do Salvador, e repousando no peito deste; eis ai a imagem dos que comungam dignamente. Repousam no peito de Jesus; a exemplo de São João aprendem nessa fonte os segredos celestes; como ele, são honrados com a familiaridade e com as carícias de seu mestre, e, fiéis imitadores da sua castidade, da sua bondade, da sua doçura, que são os verdadeiros caracteres de São João, são dignos como ele de ser seus discípulos diletos.

Vede do outro lado um Judas na comunhão; a disposição em que ele está, a em que entra; ó Deus, que oposição, que tremendo contraste! Quem não tremeria a essa vista?

Os que recebem indignamente o corpo e o sangue de Jesus Cristo, “bebem, diz São Paulo, e comem a sua condenação, porque não discernem o corpo do Senhor” (1Cor 11, 20).

O santo apóstolo fala aqui de maneira terrível, visto como, depois de avivar na memória dos fiéis que Jesus Cristo dissera que aquilo que Ele dava a comer era o Seu corpo, o mesmo que devia ser perfurado e dilacerado na cruz, e que a taça que lhes dava a beber era, pelo sangue derramado que ela continha, o instrumento da aliança e do testamento que o Salvador fazia para proveito deles. Conclui daí que “aqueles que comem esse pão”, notai esse pão, quer dizer, esse pão feito corpo, tal como ele acaba de narrar, “e bebem a taça do Senhor indignamente, são réus do seu corpo e do seu sangue”. E que é ser réu desse corpo e desse sangue, se não é, não somente profaná-los, mas ainda fazer-lhes um ultraje da mesma natureza do que lhes fora feito pelos Judeus, quando dilaceraram um e derramaram o outro? E é por isto que eles bebem e comem a própria condenação, porque são semelhantes àqueles pérfidos que não tinham posto nenhuma diferença entre o corpo de Jesus Cristo e o dos ladrões que crucificaram com Ele. E notai que o ultraje que os Judeus haviam feito a Jesus Cristo dizia respeito precisamente ao Seu corpo; porque é só ao corpo que se pode fazer mal, entregando-o à morte, conforme esta palavra:

“Não temais os que só podem matar o corpo, e não podem estender mais longe o seu nascimento” (Lc 12, 4)

Os Judeus, portanto, ultrajaram o próprio corpo e na sua própria substância, quando o puseram na cruz; ultrajaram aquele sangue em si mesmo e na sua própria substância, quando o fizeram correr sobre a terra por um infame suplício, como se fora o sangue dum réu.

Vós fazeis sacrilégio semelhante, quando comeis e bebeis indignamente, esse corpo e esse sangue; vós os profanais e os ultrajais em si mesmos; e esse ultraje que fazeis ao corpo do Salvador é não discerni-lo, é não Lhe conhecer a santidade nem o preço. Ele não diz que esses não o recebem, por falta de fé, como dizem os nossos hereges, mas que não o discernem, supondo-se que o recebem como se diria duma pedra preciosa que atirásseis à lama como outra pedra, depois de recebê-la; não a deixastes de receber, mas não fizestes dela o discernimento e a estima que cumpria.

Também não é o que dizem ainda esses hereges: Sois réu desse corpo e desse sangue, como se é réu para com a pessoa do príncipe quando se lhe rasga injuriosamente o quadro. Porquanto não se fala aqui de quadro nem de figura; o apóstolo coloca na mesma linha: Isto é meu corpo, réu do corpo; e: não discernir o corpo. Não se deve, pois, diminuir o crime daqueles contra quem o apóstolo se eleva, nem enfraquecer a honra que se deve ter disto. É verdade que, em tratando indignamente a imagem do próprio príncipe, o atacamos, o desonramos, porém por uma injúria bem inferior à que lhe faríamos atentando contra a sua pessoa sagrada. O atentado dos cristãos que comem indignamente o corpo do Salvador e lhe bebem indignamente o sangue, é deste último gênero; é um atentado feito mediatamente à Sua pessoa; numa palavra, há duas coisas a considerar no suplício de Jesus Cristo: o crime dos Judeus e a obediência do Salvador. Os que recebem dignamente o Seu corpo e o Seu sangue participam do mérito da Sua obediência; os que os recebem indignamente participam do sacrilégio dos Seus matadores e atentam como eles imediatamente contra a Sua pessoa sagrada.

Senhor, atraí-nos a Vós, inspirai-nos um justo discernimento do corpo que recebemos; não o tratemos como uma coisa imunda, recebendo-o num corpo impuro e manchado. As coisas santas são para os santos, como se bradava outrora ao povo fiel, quando se ia distribuir o corpo de Jesus Cristo. Não o toquemos com mãos sacrílegas, não o recebamos com boca impura, não lhe demos um ósculo de Judas, um beijo de traidor: seja um ósculo de esposa, um ósculo cheio de ardor, e seja o penhor dum casto e perpetuo amor (1).

“Atraí-nos, Senhor, a esse casto e doce ósculo, atraí-nos, e correremos atrás dos vossos perfumes. Os que são retos vos amam” (Ct 1,2)

São esses os que Vos dão esse santo beijo, esse ósculo de paz e dum amor eterno. Porque “ninguém vem a mim que meu Pai o não atraia”; ninguém vem a mim que tal lhe não seja dado por meu Pai; ninguém comunga dignamente senão por esse atrativo.

Referência:

(1) A respeito do título de esposo místico de nossas almas, reivindicado por Nosso Senhor, de que se falam tantas vezes nos Livros Santos e nos hagiógrafos, eis aqui uma página primorosa de Bossuet, extraída das Elevações sobre os mistérios. São João Batista, dando testemunho a Cristo, chama-lhe o Esposo.

“Quem poderia, exclama Bossuet, entender a suavidade dessas palavras? São João descobre-nos nelas um novo caráter de Jesus Cristo, o mais terno e o mais doce de todos; é que Ele é o Esposo. Esposou a natureza humana que Lhe era estranha; fez dela um mesmo todo consigo; nela, esposou a Sua santa Igreja, esposa imortal que não tem nem mácula nem ruga; esposou as almas santas que Ele chama à sociedade, não só do Seu reino, porém do Seu tálamo real, cumulando-as de dons, de castas delícias, fruindo delas, dando-Se a elas, dando-lhes não somente tudo o que tem, mas ainda tudo o que é Seu corpo, Sua alma, Sua divindade, e preparando-lhes na vida futura uma união incomparavelmente maior. Eis aí, pois, como é que Ele é o Esposo, como tem a esposa. — Desposei-vos, diz Ele, em fé; dai-me a vossa fé; recebei a minha. Nunca vos repudiarei, Igreja Santa, nem vós, alma que escolhi de toda eternidade; nunca vos repudiarei. Achei-vos, diz o Senhor, na vossa impureza; lavei-vos, enfeitei-vos, estendi meu manto sobre vós, e vos tornastes minha, et facta et mihi. Esposa, tomai cuidado com o seu santo e inexorável ciúme; não partilheis o vosso coração; não sejais infiel; do contrário, se romperdes o sagrado contrato que fizestes com Ele no batismo, qual não será contra vós o seu justo furor!

Eis aí, pois, o caráter de Jesus: é um esposo terno apaixonado, transportado, cujo amor se mostra pelos seus efeitos inauditos” (XVI.ª Semana, VIII.ª Elevação)


XIX
Quem são os que comungam indignamente?
Não se pode beber no cálice do Senhor e no cálice dos demônios.
A Eucaristia requer, sobretudo a prática da Caridade Fraterna

É ainda uma terrível sentença contra os que comungam indignamente.

“Não podeis beber do cálice do Senhor e do cálice dos demônios: não podeis participar da mesa do Senhor e da mesa do demônio”

Beber na taça dos demônios, não é só beber na taça de que se lhes faz efusão: é beber a longos goles os prazeres do mundo, pelos quais nos entregamos a eles. Participar da mesa dos demônios, não é só comer viandas que lhe foram imoladas; é entregar-se à avareza, que é uma idolatria; à gula, pela qual se faz do ventre um deus; a todos os outros vícios, pelos quais se entrega ao demônio o que a Deus era devido.

Porém um dos pecados que a Eucaristia menos sofre é o da dissensão e do ódio contra seu irmão; porquanto o efeito próprio da Eucaristia é unir-nos para não fazermos mais que um mesmo corpo, segundo o que diz São Paulo:

“Posto que sejamos muitos, não somos todos juntos senão um mesmo pão e um mesmo corpo, nós todos que participamos de um mesmo pão”

Portanto, todo aquele que toma esse pão de vida, que toma esse corpo que nos é dado sob a forma e sob a espécie do pão para sustentar-nos a alma e que, sendo distribuído a muitos, permanece sempre o mesmo e perfeitamente o mesmo, não sofrendo divisão alguma na substância, todo aquele que o toma deve ser um com todos os membros, como deve ser um com Jesus Cristo. E é a impressão que traz em si o pão sagrado da Eucaristia. Aquele, portanto, que a recebe, tendo o ódio no coração contra seu irmão, faz violência ao corpo do Salvador, visto que Ele vem para fazer-nos um mesmo corpo, e nós persistimos na desunião.

Que sucederá, porém, aos que permanecem assim desunidos, enquanto o corpo de Jesus Cristo os vem unir? Esse divino corpo não pode ficar sem eficácia; os que não querem deixar-se unir, Ele os parte, os põe em pedaços, divide-os contra si mesmos; a sua própria consciência condena-os: Ele os arranca da sua unidade, separa-os do Seu corpo místico. Se eles ficam no exterior, estão separados dele segundo o espírito: são membros apodrecidos; árvores infrutíferas, duplamente mortas, desarraigadas, como dizia o apóstolo São Judas. Parecem estar ainda em pé e assentar na raiz; mas têm a morte no seio, e a raiz não tira mais alimento.

Ide, pois, e como o próprio Salvador vos ordenou, “ide reconciliar-vos com vosso irmão”, não somente não sois dignos de participar do altar, mas ainda não sois dignos de oferecer nele o vosso presente; não só não sois dignos de participar da oblação do altar, mas não sois dignos de assistir a ela. O sangue de Jesus Cristo que é levantado ao céu, clama vingança contra vós, porque é um sangue que “pacificou e reconciliou todas as coisas no céu e na terra”: e não somente os homens com Deus, porém ainda os homens entre si. E não escutais “a voz desse sangue que fala melhor do que o de Abel”. Porque fala pela paz, e o sangue de Abel clamava vingança; porém vós O constrangeis a clamar vingança, se rejeitais a paz fraterna pela qual é ele derramado. Esse sangue clama morticínio, vingança; é o matador contra quem ele clama: porque “aquele que odeia seu irmão é homicida”. Retirai-vos, infeliz, fugi à voz desse sangue!


XX
A Comunhão e a Preparação para a Morte.
Virtude da Cruz; ela abunda na Eucaristia

“Todas as vezes que comerdes este pão de vida e beberdes este cálice, anunciareis a morte do Salvador até que Ele venha”

Anunciá-lo-eis como uma coisa já realizada para a salvação do gênero humano; anunciá-la-eis como uma coisa que deve continuar-se de algum modo até o fim dos séculos. A morte de Jesus Cristo está sempre presente na Eucaristia pela separação mística do Seu corpo e do Seu sangue; a impressão da morte de Jesus Cristo deve fazer-se sobre todos os fiéis, que, à imitação do Filho de Deus, devem tornar-se eles próprios vítimas. Toda a virtude da cruz está nesse mistério; anuncia-se nele por todos esses meios à morte do Salvador.

Qual é a virtude da cruz?

“Quando eu for elevado da terra, atrairei tudo a mim”

O efeito seguiu a palavra: tudo veio a Jesus Crucificado; tal é a virtude da cruz. Essa virtude está toda viva na Eucaristia creem nela, aproveitam-na e recebem-na dignamente aqueles que o Pai atrai a seu Filho. Jesus Cristo diz que eles vivem por Ele, como Ele próprio vive por seu Pai e para seu Pai; não têm outra vida senão a dEle. A Sua carne é toda cheia do espírito que nos comunica essa vida; tudo é espírito, tudo é vida nesse mistério; toda a eficácia da cruz para atrair-nos a Jesus, para fazer-nos viver nEle e dEle, está nEle encerrada. Que violência sofre o Salvador quando nos não deixamos possuir por Ele, quando resistimos à força com que Ele nos atrai! Se lhe recusamos o nosso coração enquanto não só Ele o pede, mas, faz, por assim dizer, tamanhos esforços para uni-lo a Si, é um esposo desprezado que entra em fúria contra a esposa insensível; não há mais para ela senão a condenação e a morte. Ai! Aí está tudo perdido; com toda a força com que nos atraía, ele nos repele e nos destrói.


XXI
A Perseverança, efeito da Comunhão Frequente.
Aplicar-se a receber bem o seu Deus

“Quem come a minha carne e bebe o meu sangue fica em mim e eu nele” (Jo 6, 57)

O grande dom pelo qual suspiram os cristãos é o da perseverança, que nos assegura a corôa, que nos une, que nos incorpora a Jesus Cristo para fazer-nos eternamente um com Ele, sem jamais podermos ser dEle separados. Eis o grande dom de Deus, o dom que é unir-se à Sua predestinação eterna: e Jesus Cristo nos ensina que há na Eucaristia uma graça particular para no-lo alcançar. Portanto, se quisermos perseverar na virtude, devemos comungar e comungar amiúde; pois é o mais poderoso meio que nos seja dado para alcançar a perseverança; é o pão dos cristãos, o seu alimento comum e de todos os dias.

Ó meu Deus, como o cristão têm o coração duro, já que vêm tão raramente à sagrada mesa! Se eles saboreassem a Jesus Cristo Crucificado viria celebrar com frequência o mistério dessa morte. Ficamos comovidos na Sexta-feira Santa por causa de celebrarmos a memória da morte do Salvador. Vinde, meus filhos, é todos os dias a Sexta-feira Santa; todos os dias se erige o Calvário no santo altar. Vinde, e lembrai-vos dessa morte que é a nossa vida; vinde receber um Sacramento em que se aprende a ficar em Jesus Cristo, em que se recebe a força, a coragem, a graça de ficar nEle.

Mas também devemos tremer quando recaímos nas nossas faltas depois da comunhão visto que Jesus Cristo não diz: Aquele que come a minha carne está em mim, porém fica apegado a mim, nem: Eu estou nele, porém: Eu fico nele, e nunca o deixo. Jesus é fiel, nunca nos deixa: somos nós que O deixamos quando caímos no pecado. Infelizes, devemos bem recear não O termos recebido como convém, pois teríamos ficado nEle, e ai, O deixamos. Recebê-lO como convém, é recebê-lO detestando os próprios pecados, afastando as ocasiões de cometê-los, buscando na Eucaristia o sustentáculo da nossa fraqueza e da nossa instabilidade.


XXII
A Comunhão consuma a união do fiel com Jesus Cristo.
Vivamos para aquele que morreu e ressuscitou por nós.
Que pureza de espírito e de corpo requer tal mistério!

“Isto é meu corpo”: é, pois, aqui a consumação da nossa união com o Salvador; Seu corpo não é dEle, porém nosso; nosso corpo não é nosso, porém de Jesus Cristo. É o mistério do gozo, o mistério do Esposo e da Esposa. Está escrito:

“O corpo do Esposo não está em seu poder, porém no da Esposa”

Santa Igreja, casta Esposa do Salvador; alma cristã, que o haveis escolhido para vosso Esposo no batismo, em fé, e com promessas mútuas, vedes esse corpo sagrado de vosso Esposo, na santa mesa onde acabam de consagrá-lo? Ele não está mais na Sua pessoa, porém na vossa. Tomai-o, diz Ele, é vosso; “é meu corpo, entregue por vós”, tendes sobre Ele um direito real. Mas também o vosso não é vosso; Jesus quer possuí-lo. Assim sereis unidos corpo a corpo; e sereis dois numa só carne, que é o direito da Esposa, e o cumprimento perfeito desse casto, desse divino conúbio.

O uso passa, mas o direito fica. Nem sempre se está nesse casto amplexo; mas fica-se nele de direito. Assim, diz nosso Salvador, quem me come fica em mim, e eu nele; não fica por um momento; esse gozo mútuo tem um efeito permanente. Quem me come, quem goza de mim, fica em mim; porém a união é recíproca; fica em mim, e eu nele. Como essa união é real, como o efeito dela é permanente! O corpo de Jesus Cristo está em meu poder; recebi este direito sagrado pelo batismo; exerço-o na Eucaristia: meu corpo é, pois, do Salvador, como o corpo do Salvador é meu. Há que juntar a isso um casto e perfeito amor. “Assim como meu Pai está vivo, e eu vivo por meu Pai, assim aquele que me come viverá por mim” (Jo 5, 58); só respirará o meu amor; só terá de vida a que receber de mim.

É também o que nos conduz a lembrança da morte do nosso Salvador. Nessa terna, nessa bem-aventurada, nessa cara lembrança, “o amor de Jesus Cristo faz-nos pressão, enquanto pensamos que, se um só morreu por todos, todos também morreram; e um só morreu e ressuscitou por todos, afim de que os que vivem não vivam mais para si mesmos, mas para aquele que morreu e ressuscitou por eles” (2Cor 5, 14-15).

Tomemos, pois, esse corpo sagrado com transporte, com aquele bem-aventurado excesso de que fala São Paulo no mesmo lugar, dizendo:

“Se somos transportados em nosso espírito e fora de nós mesmos, é para Deus”

Sim, com a presença desse corpo, fico fora de mim; esqueço-me de mim mesmo: quero fruir do Esposo e dele só.

“Como! Eu tomaria aquilo que está unido com Jesus Cristo, até fazer um só corpo com ele, para uni-lo a uma impudica, e tornar-me com ela um mesmo corpo! Deus não permita!” (1Cor 6, 15)

Mas tudo aquilo que compartilha o meu coração, tudo o que tira a Jesus Cristo a menor parcela dele é para mim essa impudica que quer roubar-me Jesus Cristo. Retirem-se todos os maus desejos:

“Meu corpo unido ao corpo de Jesus não é para a impureza, mas para Jesus Cristo, e Jesus Cristo também é para meu corpo”

Eis aí o perfeito cumprimento desta palavra: a Eucaristia explica-nos todas as palavras de amor, de correspondência, de união, que há entre Jesus Cristo e sua Igreja, entre o Esposo e a Esposa, entre Ele e nós.

No transporte do amor humano, quem não sabe que a gente se come, se devora que quereria incorporar a si de todos os modos, e, como dizia aquele poeta, arrebatar até com os dentes aquilo que a gente ama, para possuí-lo, para se alimentar dele, para se unir a ele, para viver dele? O que é furor, o que é impotência no amor corporal, é verdade, é sabedoria no amor de Jesus. Tomai, comei, isto é meu corpo, devorai, engoli não uma parte, não um pedaço, mas a todo.

Cumpre, porém, que o espirito se junte a isso; porquanto, que é unir-se ao corpo se nos não unimos ao espírito?

“Aquele que é unido ao Senhor, que lhe permanece ligado, é um mesmo espirito com ele”

Não tem senão uma mesma vontade, um mesmo desejo, uma mesma felicidade, um mesmo objeto, uma mesma vida.

Unamo-nos, pois, a Jesus, corpo a corpo, espírito a espírito. Não digamos: O espírito basta; o corpo é o meio para nos unirmos ao espírito; foi fazendo-se carne que o Filho de Deus desceu até nós; é pela Sua carne que devemos retomá-lo para nos unirmos ao Seu espírito, à Sua divindade. “Somos feitos participantes, diz São Pedro, da natureza divina”; porque Jesus Cristo também participou da nossa natureza. Devemo-nos, pois, unir à carne que o Verbo tomou, a fim de que por essa carne gozemos da divindade desse Verbo, e nos tornemos deuses, tomando sentimentos divinos.

Purifiquemos, pois, o corpo e o espírito, visto devemos estar unidos a Jesus Cristo, segundo um e segundo outro. Tornemo-nos dignos de receber esse corpo virginal, esse corpo concebido duma virgem, nascido duma virgem.

Purificai-vos, sagrados ministros, que no-lo dais. Que a vossa mão, que no-lo dá, seja mais pura que a luz; que a vossa boca, que o consagra, seja mais casta que a das virgens mais inocentes. Ó que mistério, com que pureza deve ele ser celebrado! “O matrimônio é santo e honroso entre todos; e o tálamo nupcial é sem mancha” (Hb 13, 3): mas ainda não é bastante santo para os que devem consagrar a carne do Cordeiro. Por essa santa instituição da continência, que a Igreja sempre teve em vista, — sabem-no os doutos — desde o tempo dos apóstolos, que ela afinal estabeleceu, quando pode, desde os primeiros séculos, em toda parte onde o pode, e de maneira mais particular na Igreja do Ocidente, e na de Roma, especialmente consagrada e fundada pelos dois príncipes dos apóstolos, São Pedro e São Paulo, a Igreja quer preparar a esse corpo virgem, ministros dignos dele, e dar-nos uma viva ideia da pureza desse mistério. “Tomai, comei, isto é meu corpo”; purificai o vosso corpo, que deve recebê-lo, a vossa boca, onde Ele deve entrar. A pureza da boca, é que dela só saiam palavras de benção; a pureza da boca, é moderar a língua, mantê-la o mais que se puder no silêncio; a pureza da boca é desejar o casto osculo do Esposo, e renunciar a qualquer outra alegria que não a de possui-lo. Amém, amém!


XXIII
A Eucaristia, penhor da remissão dos pecados.
É o sangue da nova aliança que purifica e santifica

“Bebei dele todos: isto é meu sangue, o sangue da nova aliança; o sangue derramado por vós em remissão dos vossos pecados”

É aqui a parte admirável do mistério, e também, como se vê, aquela em que Jesus fala com mais força. Que Ele nos dê a comer do Seu sacrifício, a carne da Páscoa, é o costume, é o desígnio desse sacrifício; jamais, porém, se lhe bebeu o sangue, nem o de nenhuma vítima, ainda que se tivesse comido as carnes.

“Moisés, diz São Paulo, tendo recitado diante de todo o povo as ordenações da lei, tomou do sangue das vítimas com água, e lançou-o sobre o próprio livro e sobre todo o povo, dizendo: É o sangue do testamento que Deus já fez para vós”

Eis aí, ao que parece, tudo o que se pode fazer do sangue das vítimas; regar, com ele todo o povo, mas não dar-lhe a beber. Só Jesus Cristo vai mais adiante. Moisés diz, lançando o sangue das vítimas sobre o povo: Isto é o sangue da aliança; ao que o Salvador alude manifestamente quando diz: Isto é meu sangue da nova aliança. É, portanto, sangue numa e noutra ocasião. Todo o povo é por ele tocado, mas diferentemente; pois é tocado por aspersão sob Moisés, e a aspersão que Jesus ordena é bebê-lo; é a boca, é a língua, que deve ser regada dele por essa aspersão; “bebei dele todos, diz ele, pois é meu sangue, o sangue da nova aliança; o sangue derramado em remissão dos pecados”.

Essa diferença dos dois testamentos é cheia de mistério. Uma das razões que eram dadas aos antigos para não comerem o sangue, “é porque ele era dado, diz o Senhor, a fim de que, sendo derramado em volta do altar, seja em expiação das nossas almas em propiciação pelos nossos pecados; e, para isso, mandei aos filhos de Israel, e aos estrangeiros que moram entre eles, não o comerem” (Lv 17, 11-12). Proíbem-lhes comer sangue, “por ser ele derramado pela remissão dos pecados”; e ao contrário o Filho de Deus quer que o bebam, “por ser ele derramado pela remissão dos pecados”.

Era pela mesma razão que estava escrito: “Toda vítima que se imolar para expiar o pecado no santuário, não será comida, mas será consumida pelo fogo” (Lv 6, 30): e essa observância significava que, não podendo a remissão dos pecados efetuar-se pelos sacrifícios da lei, os que as ofereciam ficavam sob o interstício, e numa espécie de excomunhão, sem participar da vítima que era oferecida pelo pecado. Mas, por uma razão contraria Jesus Cristo, havendo expiado as nossas almas, e tendo realizado perfeitamente a remissão dos pecados, pela oblação de Seu corpo e pela efusão do Seu sangue, ordena-nos “comermos esse corpo entregue por nós, e bebermos o sangue da nova aliança, derramado pela remissão dos pecados”, para nos mostrar que esta estava feita, e que nós não tínhamos mais senão que no-la aplicar.

Degustemos, pois, na Eucaristia a graça da remissão dos pecados, dizendo com Davi: “Bem-aventurados aqueles a quem são perdoadas as iniquidades e cujos pecados são cobertos. Bem-aventurado aquele a quem o Senhor não imputa pecado, e que se não impõe a si próprio” (Sl 31, 2), no pensamento que tem de que eles lhe são perdoados. E ainda:

“Minha alma, bendize o Senhor, e tudo o que está em mim bem-diga o seu santo nome. Minha alma, bendize o Senhor, e não lhe esqueças os benefícios. É ele quem perdoa todos os teus pecados; é ele quem cura todas as tuas doenças… Ele não nos tratou segundo os nossos pecados; não nos retribuiu com o que mereciam as nossas culpas… Tanto quanto o levante dista do poente, tanto ele afastou de nós as nossas iniquidades” (Sl 102, 1ss)

Que repouso tem uma consciência perturbada pelo seu crime e alarmada com a justiça divina que a preme, em saborear no corpo e no sangue de Jesus a graça da remissão dos pecados, e por isso mesmo de apagar lhe todos os resíduos!

Aprendamos que a Eucaristia é um remédio dos pecados. Se nos purgamos dos grandes, ela apagará os pequenos e dar-nos-á força para evitar assim os pequenos como os grandes.

É o pecado que põe a separação entre Deus e nós. Purificar-se dos pecados, é tirar todo empecilho e tornar os amplexos entre o Esposo e sua Igreja mais ardentes, mais puros, mais íntimos.


XXIV
A Eucaristia, força da alma e do corpo.
Ela faz predominar o espírito sobre a carne.
Espiritualiza-nos o corpo

Porém, que necessidade havia de termos o corpo de Jesus Cristo em verdade, em substância? De termos a carne desse sacrifício? De termos nesse sangue o sinal certo da consumação da remissão dos pecados? De sermos unidos a Jesus Cristo todo, como uma casta esposa a um esposo querido, e nessa qualidade termos poder sobre o seu corpo, para lhe fruirmos ao mesmo tempo do espírito?

E por falar do corpo em particular, não há nada a fazer no nosso corpo? Não é a carne que cobiça contra o espírito? Quem pode melhor tempera-la do que o corpo de Jesus Cristo aplicado sobre ela? Não há nos nossos membros uma lei que combate a lei do espírito? Quem melhor pode enfraquecê-la, e pôr os nossos membros mortais sob o jugo? Não nos cumpre trazer nos nossos corpos a mortificação de Jesus? Mas quem pode imprimir melhor neles o caráter dela, e santificar as penas dum corpo afligido? Mas não se faz mister que esse corpo mortal saia um dia do túmulo e da corrupção? E quem melhor pode tirar-nos dela do que esse corpo que nunca a sentiu? Para nos tornarmos com Jesus Cristo um corpo espiritual, como o chama São Paulo, que havia para isso de mais eficaz do que a sua união com esse mesmo corpo, e a impressão dessas divinas qualidades?

Meu Salvador! Se me tocardes o corpo, sairá dele uma virtude: e será preciso que ele se torne semelhante ao Vosso. A virtude que dele sairá não me dará como àquela mulher, uma saúde fraca e frágil, mas a verdadeira saúde que é a imortalidade.

Mas as crianças que não comungaram não ressuscitarão então — Grosseiros e carnais, que não entendeis que esse corpo é dado a toda a Igreja, e que esse fermento misterioso é capaz de vivificar toda a massa? Essas crianças de que falais não receberam com o batismo um direito sobre esse corpo? Ele é delas, ainda que elas o não recebam a princípio, segundo o costume presente; mas aquilo que é recebido por alguns, é para todos um mesmo penhor de imortalidade. Consolai-vos em Nosso Senhor, e fruí duma doce esperança.


XXV
A Eucaristia, viático dos moribundos.
Ela deposita no nosso corpo um gérmen de vida e de imortalidade.
Doce confiança e invencíveis esperanças que ela faz nascer nessa hora suprema.
Antes de comungar, pôr-se em estado de morte

Consideremos aqui o corpo do Salvador como o doce viatico dos moribundos.

Eu morro; meus sentidos se extinguem, minha vida se esvai: que tenho a desejar nesse estado senão alguma coisa que me tire o temor da morte, e me tire da escravidão em que essa apreensão me manteve durante todo o tempo de minha vida? Meu Salvador! Trazem-me o Vosso corpo, esse corpo imortal, esse corpo espiritualizado: recebe-o no meu:

“Não morrerei, viverei. Quem comer a minha carne, dizeis vós, terá a vida eterna, e ressuscitá-lo-ei no último dia”

Restará nesse corpo morto um gérmen de vida que a podridão não poderá alterar; ficará nele uma impressão de vida que nada pode apagar. Todos os dias de minha vida quero comungar nesta esperança; quero considerar-me como moribundo, e o sou; quero receber-Vos em viático. Não temerei a morte: libertar-me-eis da servidão que esse temor me impunha. Porque temer o mal, se lhe tenho sempre o antídoto? Sem Vós, a morte é um jugo insuportável: conVosco, é um remédio, e uma passagem para a vida. Como sou feliz! Trazem-me o Vosso precioso corpo: vindes à minha casa, hospede celeste! E a este propósito que posso dizer: Senhor, não sou digno de que entreis em minha casa. A ela vindes não obstante; entrais nela, e não é o bastante para o Vosso amor: a casa em que quereis entrar é o meu corpo.

É aqui o tempo de nos lembrarmos da Vossa morte; dessa morte pela qual a morte foi vencida; dessa morte que nos faz dizer com confiança:

“Ó morte, onde está teu aguilhão? Ó morte, onde está a tua vitória?”

Dessa morte pela qual é cumprida esta palavra:

“Romperei o vosso pacto com a morte; e a vossa aliança com o túmulo não subsistirá mais”

E ainda:

“A morte será precipitada para sempre no abismo. Fazei isto em memória de mim: lembrai-vos da minha morte: anunciai-a”

Ó Senhor! Anunciaram-me a minha; anunciem-me, porém a vossa, e nada mais temerei. Sim, agora poderei cantar com o salmista:

“Se eu andar no meio da sombra da morte, não temerei nada, porque estais comigo”

Ah! Doce lembrança a da Vossa morte, que apagou os meus pecados, que me assegurou o Vosso reino! Meu Salvador uno-me à Vossa agonia; digo conVosco: In manus:

“Meu Deus, nas vossas mãos entrego o meu espírito”

Como Vós mesmo o vindes buscar para apresentá-lo a vosso Pai! Acabou-se; tudo está consumado. Quero morrer como Vós, dizendo esta palavra: Tudo está consumado; não tenho mais nada na terra, e o Vosso reino vai ser o meu quinhão. Tudo está consumado; vejo o Vosso reino celeste, esse santuário eterno, abrir-se para me receber por graça, por misericórdia, em Vosso nome, ó Jesus! Então será cumprida esta palavra: Quem me come fica em mim, e eu nele. Não vos deixarei mais. Maldita seja a minha desgraçada e criminosa inconstância, que me fez deixar tantas vezes tão bom senhor! E agora, meu Salvador, estarei sempre conVosco; ides marcar-me com o Vosso cunho. Ah! Senhor guardai-me até ao último suspiro, e exale-o eu nos Vossos braços!

E este corpo, que será dele? Ei-lo unido ao Vosso. Pelo Vosso corpo ressuscitado, ressuscitarei novinho; só deixarei na terra a mortalidade. Vivo nesta esperança; porém nela morro. Morro todos os dias, visto que não cesso de avançar para o último momento. Meus dias dissipam-se como uma fumaça, vão se como uma água rápida, cujo curso não se pode deter. Dentro de um momento, passarão onde eu estava, e não me acharão mais. Eis aí o quarto dele, ali está o seu leito, dirão; e de tudo isso, não resta mais senão o meu túmulo, onde dirão que estou; e não estou nele; haverá nele apenas um resto de mim mesmo; e esse resto, tal qual, diminuirá a cada momento, e se perderá afinal.

Como isso é triste! Sim, se eu não tivesse Vosso corpo para me tornar a dar a vida. Esta esperança me sustenta. Quero sempre considerar-me em estado de morte, confessar-me qual um moribundo, dispor-me a cada vez como se fosse morrer. Morro: fechai- me os olhos; não veja eu mais as vaidades; envolvei-me com esse pano; não preciso mais de outra coisa, restitui-me a minha nobreza natural, metei-me na terra. É dela que venho segundo o corpo, é a ela que devo tornar; foi essa a minha mãe que me gerou para morrer; ela me dará à luz um dia para não morrer mais. Não falemos, pois, de morte; não passa de um nome, de morte só há o pecado.


XXVI
A Eucaristia, junta por Jesus Cristo ao banquete ordinário, figura a alegria do banquete eterno.
Assentar-se à mesma mesa é entre os homens o sinal da amizade e uma causa de alegria.
Poderoso simbolismo do banquete eucarístico celebrado à noite, no fim do dia.
Uma só Páscoa, a de Jesus Cristo

Uma das observações mais necessárias na instituição da Eucaristia, é que Jesus Cristo a fez num banquete comum, conversando como de ordinário com Seus discípulos, sem assinalar distinção entre o que dizia respeito ao repasto comum e o que dizia respeito aquele divino repasto em que Ele devia dar se a Si próprio.

“Enquanto ceavam, diz São Mateus, tomou ele pão, partiu-o e disse-lhes: Tomai e comei: isto é meu corpo”

E continua: ele acaba a ceia, e depois da ceia, dizem São Lucas e São Paulo, “tomou o cálice e disse: Este cálice, e a bebida que vos apresento, é o novo Testamento por meu sangue”. Depois continua o seu discurso, diz, segundo São Lucas: “A mão daquele que me trai está comigo à mesa”; e segundo São Mateus: “Não mais beberei deste fruto da vida, até que o beba de novo no reino de meu Pai”: palavras todas que não pertencem à instituição, e das quais também São Paulo nada refere, ainda que se tivesse proposto contar toda a instituição desse mistério, como a continuação do seu discurso o faz parecer. Não se dirá que nada haja de singular e de extraordinário no banquete eucarístico; todas as palavras da instituição assinalam o contrário. Mas esse extraordinário e esse divino que aparece nesse ponto do banquete está junto e continuado com todo o resto; e parece que o repasto eucarístico não faça senão uma parte do repasto comum, que Jesus fez com os Seus.

O que se apresenta primeiramente, para entender esse mistério, é que comer e beber juntos é entre os homens uma prova de sociedade, alimenta-se a amizade por essa doce comunicação; repartem-se os próprios bens, os próprios prazeres, até a própria vida com os amigos; parece que se lhes declara que não se pode viver sem eles, e que a vida não é vida sem essa sociedade. Comei, bebei, meus amigos, embriagai-vos, quer dizer alegrai-vos, meus caríssimos, dizia o esposo aos amigos. E a sabedoria, para convidar-nos à Sua companhia, nada tem que nos propor de mais atraente do que um repasto que ela nos prepara:

“Vinde, meus amigos, comei o meu pão, bebei o vinho que vos apresento”

Era também por esta razão que Deus ordenava a Seu povo vir ao lugar que o Senhor escolhera, para ali regalar-se perante o Senhor, com tudo o que se tinha de mais caro, com seu filho, com sua filha, com todo o seu doméstico, com seu servo e sua serva, com aqueles a quem mais se honrava, com o Levita que morava no seu país, sem esquecer o estrangeiro, como tão pouco a viúva e o órfão; e, com maioria de razão, sem esquecer os vizinhos, os próximos, a fim de que eles fossem saciados dos bens que o Senhor nos havia dado, e compartissem a nossa alegria.

Esses festins e essa alegria foram a causa de ser-nos a bem-aventurada celeste representada como um banquete. Virão do Oriente e do Ocidente, diz o Salvador; e pôr-se-ão à mesa com Abraão, com Isaac e com Jacob. E ele próprio, no fim dos séculos, fará pôr à mesa os seus bons servos; passando de mesa em mesa, servi-los-á. E no próprio dia da ceia, para aplicar essa ideia ao festim que acabava de fazer com seus discípulos, diz- lhes: Preparo-vos o reino que meu Pai me preparou a fim de que comais e bebais à minha mesa no meu reino.

Queria Ele, pois, que a ceia fosse um verdadeiro festim, para ligar a sociedade entre Seus discípulos, e figurar-lhes a alegria desse festim eterno, onde “eles serão saciados e inebriados da abundancia da sua casa, e abeberados da torrente da sua volúpia” (Sl 35, 9). Foi por isto que Ele celebrou esse divino banquete à noite, no fim do dia, em figura dessa ceia eterna que Ele nos dará no fim dos séculos, quando todas as coisas forem consumadas.

Era ainda o que Ele queria dizer quando, tomando segundo o costume a taça de vinho, de que todos bebiam nos festins em sinal de sociedade, a apresentou aos discípulos, dizendo-lhes:

“Reparti-a entre vós; quanto a mim, não beberei mais do fruto da vide, até que venha o reino de Deus”

São Lucas assinala expressamente essa ação e essa palavra antes da instituição da Eucaristia; e Jesus Cristo repetiu a mesma palavra, depois de consagrar o santo cálice, dizendo: Digo-vos, não beberei mais deste fruto da vinha, de que bebi convosco em todo este repasto, e de que me servi para fazer dele meu sangue, até o dia em que o beberei de novo convosco no reino de meu Pai.

Esperemos, pois, por esse repasto eterno, onde o pão dos anjos nos será dado a descoberto, onde seremos inebriados e transportados da volúpia do Senhor e das arrebatadoras delícias do Seu amor. O festim de Nosso Senhor era a imagem dEle: e para Lhe imitar o exemplo, era também em festins que os primeiros cristãos celebravam a Eucaristia em alegria, como São Paulo lhes diz sem cessar: e é por esse meio que eles são iniciados na alegria e na glória eternas.

O ano significava para os Judeus a eternidade toda e a universalidade dos séculos. Mas agora cada dia no-la significa; estamos mais próximos que eles da eternidade, e a ideia desta deve estar-nos mais presente.

A Páscoa celebrava-se uma só vez, a entrada do sumo pontífice no santuário uma só vez: tudo isso para figurar que efetivamente há uma única Páscoa que é a de Jesus Cristo. Porquanto, se há também uma Páscoa e uma passagem para nós, é nEle; e cumpre que Ele passe à Sua glória todo completo, isto é, o corpo e os membros. Não há também senão uma única entrada do mesmo Jesus, soberano pontífice, no céu: é quando Ele ali entra para nós e para si, e nos vai preparar ali o lugar. Ele passa, pois, uma só vez, entra uma única vez no santuário, a só considerar a sua pessoa; porém nos seus membros, passam todos os dias, todos os dias nos representa esse mistério. Passemos, pois, todos os dias a Deus: passemos em Jesus Cristo cada vez mais; que a Sua vida apareça sempre e cada vez mais na nossa, pela imitação das virtudes que Ele praticou. Entremos todos os dias no Seu santuário; entremos nele pela fé; corramos a Ele por santos desejos; é isto celebrar todos os dias o banquete de Jesus Cristo, como o deve um cristão.


XXVII
A Eucaristia, junta à refeição comum,
ensina a santificar tudo o que serve para alimentar o corpo.
Sustentando as forças do corpo, apliquemos o espírito às coisas celestes

Direi tudo, Senhor, dir-me-ei a mim mesmo, e direi a todos aqueles a quem destino este escrito, — e destino-o a todos os que puserdes na mente sobre os Vossos santos mistérios, na Vossa santa palavra.

Vejo ainda outra razão que Vos levou a unir a Eucaristia à refeição comum: quereis santificar toda a nossa vida, na ação que a mantem e a faz durar; quereis que a comida corporal fosse acompanhada da espiritual, a fim de que aprendêssemos a fazer tudo em espírito, mesmo às coisas que deviam servir para sustentar-nos o corpo. Só devemos alimentar esse corpo para ser um digno instrumento ao espírito: devíamos tomar o comer e o beber neste espírito. A Eucaristia, tomada antes da refeição, devia ser um tempero salutar ao prazer dos sentidos, de modo que nos deixássemos arrastar a este, e que Ele viesse a predominar. Mas, ainda que a Igreja, aquém Jesus Cristo deixou a dispensação dos Seus mistérios, tenha com a continuação separada, e mui sabiamente, o que Jesus Cristo parecia haver unido e ainda que ela celebrasse a Eucaristia fora da refeição ordinária, o desígnio de Jesus Cristo não está aniquilado: a instrução que Ele nos deu subsiste sempre. Quando fizermos as nossas refeições, devemos sempre lembrar-nos de que, segundo a instituição primitiva da Eucaristia, esta devia acompanhá-las; que Jesus Cristo assim o fez; que a Igreja assim observava sob os apóstolos; que então, portanto, se queria ensinar aos cristãos que todas as duas ações, e mesmo as mais comuns, desciam ser feitas santamente. Esta instrução subsiste sempre.

Comendo e bebendo, pensemos naquele beber e naquele comer espiritual da mesa de Nosso Senhor; tenhamos o espírito aplicado às coisas celestes; não lhes abandonemos o pensamento durante as refeições. Senão as pudermos acompanhar de santas leituras, como se faz nas casas especialmente consagradas a Deus, acompanhemo-las de santos discursos, ao menos de santos pensamentos. Não nos entreguemos aos sentidos, nem a esse corpo miserável que seria vergonhoso engordar e nutrir, se o não nutríssemos como ministro e servo do espírito. Pois, do contrário, nutrirmo-nos não é mais do que trabalharmos para a morte, engordar-lhe a presa, e aos vemos o seu pasto. Alimentemo-nos com regra e, como dizia um antigo, comamos tanto quanto é necessário para nos sustentarmos; bebamos tanto quanto convém a pessoas pudicas, que não querem irritar os desejos sensuais. Enfim, façamos o que fizermos, “quer bebamos, quer comamos, quer façamos alguma outra coisa em relação ao corpo façamo-lo para a glória de Deus, e em nome de Nosso Senhor Jesus Cristo, dando graças por ele a Deus Pai”.

“O reino não é beber, nem comer; mas justiça e paz, e alegria no Espírito Santo” (Rm 14, 17)


XXVIII
A Ação de Graças.
Cantar o cântico da Redenção.
Ao Cordeiro Imolado, glória e benção

“E depois de dizer o hino, foram-se à montanha das Oliveiras” (Mt 26, 30)

Foram para ali na verdade; mas antes que Jesus Cristo partisse, passaram-se várias coisas, que veremos na continuação. Detenhamo-nos um momento sobre esse hino, sobre esse cântico de ação de graças e de alegria, pelo qual Jesus e Seus apóstolos findaram o santo mistério. Que podiam cantar aqueles que estavam saciados de Jesus Cristo e embriagados do vinho do Seu cálice, senão aquele de que estavam cheios?

“O Cordeiro que foi imolado é verdadeiramente digno de receber a força, a divindade, a sabedoria, o poder, a honra, a gloria, a benção. E ouvi todas as criaturas que estarão no céu, na terra, debaixo da terra, no mar e dentro do mar, e tudo que está nesses lugares, que clamavam dizendo: Ao que está sentado no trono e ao Cordeiro, benção, honra, glória, e poder pelos séculos dos séculos! (Ap 5, 12-13).

O mundo canta as alegrias do mundo; e nós, que é que cantaremos, depois de recebermos o dom celeste, senão as alegrias eternas?

O mundo canta as suas paixões, os loucos e criminosos amores; e nós, que é que cantaremos, senão Aquele a quem amamos?

O mundo faz ecoar de todos os lados as suas alegrias dissolutas; e que é que se ouvirá da nossa boca, depois de bebermos esse vinho que germina as virgens, senão cânticos de sobriedade e de continência? Cheios da morte de Jesus Cristo, que acaba de ser-nos resposta diante dos olhos, e da carne do Seu sacrifício, que cantaremos senão:

“O mundo está crucificado para mim, e eu para o mundo”?

Não vos vejais sem dizer este hino, sem recitar o cântico da redenção do gênero humano. Como Moisés e o antigo povo cantaram com tanta alegria o cântico da sua libertação, depois de saírem do Egito e passarem o mar Vermelho! Cantai também, povo liberto, cantai o cântico de Moisés e o cântico do Cordeiro, dizendo:

“Como as vossas obras são grandes e admiráveis, ó Senhor, Deus onipotente! Como os Vossos caminhos são justos e verdadeiros, ó Rei dos séculos! Senhor, quem não Vos temeria, e quem não glorificaria o Vosso nome? Porque só Vós sois santo: todas as nações virão, e adorarão ante a Vossa face, porque os Vossos juízos são manifestos. Destruístes por Vossa morte aquele que tinha o império da morte, isto é, o diabo; o príncipe deste mundo está expulso: e, prendendo à Vossa cruz e a célula da nossa condenação, desarmastes os principados e as potências, e os levastes em triunfo altamente, e à face de todo o universo, depois de os haverdes vencido pela Vossa cruz” (Livros santos, passim)

E agora, em memória de tão bela vitória, oferecemos por Vós e em Vós, a Vosso Pai celeste, este sacrifício de louvores e de ações de graças, que no fundo outra coisa não é senão Vós mesmos, porque, não temos senão a Vós para oferecer por todas as graças que havemos recebido por Vosso meio.


XXIX
Oração a Nosso Senhor e
Ato de Fé na sua Santa presença na Eucaristia

Cumpre confessar, ó Jesus meu Salvador, que quisestes testemunhar-nos Vosso amor por efeitos incompreensíveis. Esse amor foi à causa dessa união real pela qual Vos fizestes homem. Esse amor levou-Vos a imolar por nós esse mesmo corpo, tão realmente quanto o tomastes; e querendo Vós, ó Jesus, fazer sentir a cada um de vossos filhos, dando-Vos a ele em particular, a caridade que testemunhastes a todos em geral, instituístes o admirável Sacramento da Eucaristia, essa obra-prima da Vossa onipotência, esse raro efeito da Vossa bondade, pelo qual nos tornais a todos participantes do Vosso corpo divino, a fim de persuadir-nos por esse modo de que foi por nós que o tomastes e que o oferecestes em sacrifício. Portanto, se os Judeus, na antiga aliança, comiam a carne das hóstias pacíficas oferecidas por eles, como um sinal da parte que tinham nessa imolação, assim também, ó Jesus, quisestes, depois de Vos fazerdes Vós mesmo a nossa vítima, que comêssemos efetivamente essa carne do nosso sacrifício, a fim de que a manducação atual dessa carne adorável fosse um testemunho perpétuo, para cada um de nós em particular, de que foi por nós que a tomastes e imolastes.

Ó prodígio de bondade! Ó abismo de caridade, ó ternura do amor de nosso Salvador! Que excesso de misericórdia! Ó Jesus, que invenção da Vossa sabedoria! Mas que confiança nos inspira a manducação dessa carne sacrificada pelos nossos pecados! Que segurança da nossa reconciliação conVosco! Era proibido ao antigo povo comer da hóstia oferecida pelos seus crimes, para lhe fazer compreender que a verdadeira expiação não se fazia naquela lei pelo sangue dos animais. Todos estavam como que interditos por essa proibição, sem poder atualmente participar da remissão dos pecados.

Não é assim que tratais Vossos filhos, divino Salvador; mandai-nos comer o Vosso corpo, que é a verdadeira hóstia imolada pelas nossas culpas, para nos persuadir de que a remissão dos pecados é efetuada no Novo Testamento. Também não quereis, ó meu Deus, que esse mesmo povo comesse sangue, e uma das razões dessa proibição era que o sangue nos é dado para a expiação das nossas almas. Mas, ao contrário, dais-nos Vosso sangue, e nos ordenais bebê-lo, porque ele é derramado pela remissão dos pecados, assinalando-nos por essa forma, ao mesmo tempo, que a manducação do Vosso corpo e do Vosso sangue é tão real na santa mesa, quanto à graça e a expiação dos pecados é atual e efetiva na nova aliança.

Assim é, meu Deus, creio-o; é a fé da Vossa Igreja; é o que ela sempre creu, apoiada na Vossa palavra; porquanto Vós mesmo o dissestes por Vossa boca sagrada:

“Tomai, é meu corpo; bebei, é meu sangue”

Creio-o; a Vossa autoridade domina sobre toda a natureza. Sem me incomodar, pois, de como executais o que dizeis, apego-me, com a Vossa Igreja, precisamente às Vossas palavras. Aquele que faz o que quer, opera o que diz falando; e Vos foi mais fácil, ó Salvador, forçar as leis da natureza, para verificar a Vossa palavra, do que nos é fácil acomodar a nossa mente a interpretação violenta, que subverte todas as leis do discurso. Essa palavra onipotente tirou todas as coisas do nada: ser-lhe-ia, pois, difícil converter noutras substâncias aquilo que já existiu?

Creio Senhor; mas aumentai a minha fé: tornai-a vitoriosa no combate que lhe dão os sentidos. Este mistério é um mistério de fé, não escute eu, pois, senão o que ela me ensina dele, creia eu, sem nenhuma dúvida, que o que está no altar é o Vosso próprio corpo, que o que está no cálice é o Vosso próprio sangue, derramado pela remissão dos pecados.

(BOSSUET, Jacques-Bénigne. A Eucaristia. Livraria Boa Imprensa)