A Sagrada Comunhão, de Mons. de Ségur

Por Monsenhor Louis Gaston de Ségur
(1820-1881)

“Comungai, comungai muitas vezes, e propagai, quanto em vós couber, a prática da comunhão frequente, essa prática que tão agradável é a Nosso Senhor Jesus Cristo”

Com estas palavras contidas na conclusão deste livrinho sobre a Sagrada Comunhão é que desejo apresentar mais uma piedosa obra de Mons. de Ségur aqui no apostolado Rumo à Santidade. Através deste opúsculo, espero que o fiel leitor seja munido de toda a esperança e confiança em tão útil prática de piedade; afinal, trata-se de recebermos a Nosso Senhor, verdadeiramente presente na Eucaristia, com maior frequência e, se assim nos for possível, todos os dias!

ÍNDICE

Dedicatória
Prólogo
Advertência do Autor
Verdadeira ideia da Sagrada Comunhão
1.º Para comungar muitas vezes é necessário maior santidade do que eu tenho
2.º Não sou digno de assim me aproximar de Deus
3.º A comunhão, quando muito frequente, já não produz efeito
4.º Receio familiarizar-me com as coisas santas
5.º Não me atrevo a comungar sem me confessar
6.º Não se pode comungar sem preparação
7.º Não me sinto com fervor quando comungo
8.º Não me atrevo a comungar muitas vezes, porque ando sempre a cair nas mesmas faltas
9.º Comungando muitas vezes receio tornar-me singular
10.º Se eu comungasse todos os dias, minha família se desgostaria
11.º Conheço muitas pessoas, que raras vezes comungam
12.º Desejava comungar muitas vezes
13.º Na minha terra não é uso comungar muitas vezes
14.º Basta comungar pelas festas principais
15.º Em resumo, tudo isto é exageração e impossível de praticar
A Comunhão Frequente aos Meninos
A Comunhão Frequente para Adolescentes
A Comunhão Frequente nos Seminários
A Comunhão Frequente para os Aflitos e Enfermos
Conclusão

Dedicatória

Deus incompreensível e encoberto, mas realmente presente, debaixo das espécies sacramentais, a quem os espíritos angélicos incessantemente louvam, adoram e glorificam dizendo sem fim: Sanctus, Sanctus, Sanctus humilde e reverente Vos ofereço, consagro e dedico a simples tradução deste opúsculo — A SAGRADA COMUNHÃO, por Mons. de Ségur — vertido da quadragésima segunda edição de Paris.

Envolto no meu nada, reconheço, Senhor dos senhores, a minha extrema incapacidade e completa falta dos dotes necessários para desempenho digno de obra tão interessante pelo seu objeto, como recomendável pelo seu autor; mas Vós, que costumais empregar os meios, no sentir da ciência e prudência humana, mais encontrados e opostos ao bom êxito das grandes empresas, que Vos propondes realizar, e para as quais agora mesmo, quereis servir-Vos do instrumento mais vil e desprezível para a publicação deste livrinho, não deixeis, Vos rogo, de dirigir e encaminhar as potências da minha alma, a fim de que cada uma das suas páginas, cada palavra, e mesmo cada letra, de que ele se compõe, seja um padrão erguido em perpétua memória da instituição de tão adorável Sacramento, em perene ação de graças pelos infinitos benefícios, que ali nos estais continuamente concedendo, e em profunda homenagem de sincero reconhecimento e terna gratidão, por Vos dignardes vir habitar debaixo dos mesmos tetos e dentro das mesmas paredes, onde reside o maior dos pecadores e, por isso, o mais indigno das divinas misericórdias.

Castelo Branco — Maio, 1868.

PEDRO DE PINA CARVALHO FREIRE FALCÃO

Prólogo

É certamente para admirar que numa nação, enobrecida com o título de fidelíssima por ter levado a luz do Evangelho as mais remotas partes do globo, haja muitos seculares, que, seguindo os erros dos jansenistas, despropositada e injustamente repreendem aqueles bons cristãos, que a miúdo frequentam a Sagrada Comunhão.

É, porém, de pasmar que não poucos eclesiásticos ou por faltarem aos seus deveres, ou por seguirem a mesma depravada doutrina, recusem administrar aos fiéis o Pão Eucarístico, verificando assim a profecia do desolado Jeremias:

“Os meninos pediram pão, e não havia quem lho partisse” (capítulo 4)

Para desenganar aqueles e obter destes a fácil e pronta administração dos Sacramentos da Penitência e Comunhão, e mover os fiéis a comungar o maior número de vezes possível, passo a mostrar brevemente a origem apostólica de tão pio e louvável costume.

Todos os teólogos de nome, canonistas, expositores e interpretes da Sagrada Escritura asseveram concordemente que os fiéis da primitiva Igreja comungavam todos os dias, que os Santos Apóstolos instituíram esta praxe, e que ela é tão antiga na Igreja como a promulgação do mesmo Evangelho. Para provar esta verdade, apelam eles para o texto de São Lucas (2, 42), dizendo que este, e só este, é o sentido dos Atos dos Apóstolos.

O Catecismo Romano, coordenado por decreto do concílio de Trento, publicado por mandado de São Pio, aprovado pela Santa Sé, e recomendado por tantos pontífices a todos os patriarcas, arcebispos e bispos, diz expressamente que os primeiros fiéis comungavam, todos os dias, como atestam os Atos dos Apóstolos (Lc 2, 42).

O doutíssimo Papa Bento XIV, no livro III de Beatificat (cap. XXVII, n.° 5), diz que sem a menor dúvida a comunhão geral quotidiana fora usada pelos antigos fiéis, porque os Atos dos Apóstolos assim o atestam.

Frei Luiz de Granada, comentando o citado passo dos Atos dos Apóstolos, diz que a oração e comunhão frequente deveram os primeiros fiéis a fortaleza e constância do martírio. Lamenta ele a condição de nossos tempos, em que se repreende e vitupera o que nos séculos primitivos se aprova e louva. Conclui invectivando contra aqueles que não cessam de vociferar contra a frequência dos sacramentos.

São Carlos Borromeu, instruindo os párocos da sua diocese, determina-lhes que exortem as suas ovelhas à frequente comunhão, excitando-os com o exemplo dos primeiros fiéis.

Esta mesma verdade não é desconhecida em o nosso, Portugal, pois São Martinho, arcebispo de Braga, não só aprova a comunhão quotidiana, mas diz que é da Igreja primitiva, e que não se pode negar a quem tiver a veste nupcial, isto é, o estado da graça. As máximas de fé e de costumes da primitiva Igreja foram também as dos séculos seguintes, e devem ser as mesmas infalivelmente nos verdadeiros cristãos até ao fim do mundo.

O cardeal Bona, Pedro Tamborini e Júlio Selvagio, provam com as autoridades de Santo Inácio, mártir, São Cipriano e outros Santos Padres, o uso da comunhão quotidiana no primeiro século, acrescentando que aqueles que nem sempre podiam assistir a Missa, levavam para suas casas o Santíssimo Sacramento, para lá, todos os dias, O comungarem.

Tertuliano, que viveu no segundo século, no livro Ad uxorem, inclui a comunhão quotidiana entre as práticas mais gerais e impreteríveis dos fiéis.

São Justino mártir, na apologia ao imperador Antônio, diz que na missa se distribuía a Eucaristia a todas as pessoas presentes, e que esta liturgia provinha dos Apóstolos por mandado de Jesus Cristo.
Santo Irineu atesta a mesma verdade.

No século III, Orígenes recomendava aos fiéis que fossem a Missa com pureza e santidade de corpo e alma, porque assim era preciso para participarem do sacrifício, comungando sacramentalmente. E contra Celso escreve que para o cristão todos os dias são de Páscoa, porque em todos eles comunga; em outro lugar refere que os cristãos todos os dias comem o maná do céu, principalmente nos domingos, porque alguns só podiam ir a igreja nos dias festivos.

O cânon 2.° do concílio Antiocense, no século IV, determina que se submetam a penitência canônica os que faltarem a comunhão.

São Jeronimo, no diálogo contra Plagiano, sustenta que não se deve dar outro sentido as palavras Panem nostrum, que todos os dias pedimos, senão o Santíssimo Sacramento. Santo Ambrósio se queixa desta sorte:

“Se o Pão Eucarístico é quotidiano, porque só o recebeis tão raras vezes no ano?”

No século V, o concílio de Toledo, onde se reuniram bispos de Portugal e de toda a Espanha, mandou que aqueles que não comungavam fossem advertidos de que ou comungassem, ou se posassem na classe dos penitentes, e, não o fazendo assim, seriam excomungados (Canon 13.°).

São Máximo, mártir, é também outra prova desta verdade.

O sábio escritor do século VI, Dionísio Exíguo, interpreta o 10.° cânon apostólico da comunhão quotidiana e atesta ser esta a disciplina apostólica que quem ouvia Missa do ofertório por diante, participasse do incruento sacrifício.

No nosso Portugal, escrevia, também no mesmo século VI, São Martinho arcebispo de Braga, que esta era a regra geral estabelecida na Igreja.

São Gregório Magno nos seus livros morais confirma tudo isto.

Todos os Sacramentos e Liturgias Romanas, Gregas, Armênias, Góticas, Egípcias, Etiópicas, Antigas e Modernas, demonstram evidentemente que este é o espírito da Igreja e a instituição primitiva.

No século VII, Theodoro Cantuariense conserva a tradição da disciplina apostólica, isto é, que comungariam a Missa todos que a ouvissem.

São Máximo, mártir, diz expressamente que depois de saírem os catecúmenos e penitentes que não comungavam eram fechadas as portas da Igreja para comungarem todos os que tinham ficado.

São Isidoro diz não deverem os fiéis deixar de comungar senão por pecados mortais, para não caírem na excomunhão menor, em que ainda neste século se incorria, não comungando.

Thomassim refere que os bispos e prelados mais sábios e zelosos do século VIII procuravam restabelecer a comunhão frequente, e até mesmo quotidiana da igreja primitiva.

São Pascácio não duvida afirmar que a fé nos ensina que para o recebermos quotidianamente foi instituído o Santíssimo Sacramento.

No século XI, Micrologo, que se julga ser Santo Ivo, citado por São Gregório Magno, pelo cardeal Bona, e por Bento XIV, prova que quem ouvia Missa, comungava nela sacramentalmente.

Pedro Blesense atesta a mesma verdade, e diz que, só depois que principiara a relaxação entre os gregos, se praticava menos vezes a comunhão entre os cristãos.

Santo Tomás de Aquino, no século XIII, reconhece este preceito imposto aos fiéis nas palavras de Jesus Cristo: Hoc facite in meam commemorationem.

São Boaventura confessa que a comunhão quotidiana fora instituída pelos Apóstolos; que, à sua imitação, é útil comungar todos os dias, e declara que outro evangelista nomeia mesmo o Pão quotidiano.

Sendo esta uma verdade deduzida dos séculos anteriores até ao tempo dos Apóstolos, provada com tantos e tão irrefragáveis documentos, quem se atreverá a repreender o pio costume de comungar frequentemente e todos os dias mesmo, com as devidas disposições, sem incorrer na nota de temerário, e cometer um funesto erro na fé? Os que censuram tão louvável uso, ou ignoram a doutrina da Igreja, ou, unindo-se com os seus inimigos para atacá-la são, pelo menos, maus cristãos. Quem se prezar de ser verdadeiro católico, deve necessariamente pensar como tantos Santos Padres, eminentes em ciências e em virtudes, nem de modo algum se pode opor aos decretos apostólicos, as decisões dos sagrados concílios, e a comum doutrina da Igreja, que, sempre governada e regulada pelo Espírito Santo, é coluna e firmamento da verdade, e por isso nunca pode errar. E para que alguém, pouco versado em matérias eclesiásticas, não diga, talvez, ser esta verdade conhecida em outras nações, mas ignorada no nosso Portugal, rematarei com um trecho extraído da Constituição do Arcebispado de Lisboa.

«Consta, diz a dita Constituição, que, em virtude e continuação dos divinos sacramentos da confissão e comunhão, se fundou a Igreja cristã, crescendo em todas as virtudes; e, por conseguinte vemos que as pessoas que muitas vezes os recebem, ordinariamente, vivem de muito diferente modo daquelas que, se desviam de recebê-los, as quais, como andam apartadas do santo uso destes Sacramentos, assim o andam de Deus, que neles está, e se desmandam em cometer muitas ofensas a Nosso Senhor, o que não fariam usando deste remédio, que o mesmo Senhor contra os pecados ordenou. Pelo que muito recomendamos e admoestamos a todos os nossos súditos que procurem frequentemente receber estes divinos Sacramentos todas as mais vezes que puderem, segundo o conselho do seu prudente confessor. E nenhuma pessoa eclesiástica, de qualquer qualidade ou condição que seja, presuma pregar ensinar ou admoestar o contrário pública ou ocultamente por qualquer modo. E a pessoa que contra isso for, saiba certo que se procederá contra ela, e lhe será dado grave castigo, como sua culpa merecer» (Liv. I, tit. X)

Pe. S. P. M. R.

Advertência do Autor

Tendo alguns eclesiásticos, aliás, respeitáveis, mostrado certos receios pela doutrina e regras de piedade contidas neste opúsculo, por lhes parecerem demasiadamente livres e cômodas, Mons. de Ségur teve o cuidado de dissipar todas essas dúvidas, sujeitando esta sua obra a mais competente autoridade em matérias doutrinais, a Santa Sé Apostólica. O muito reverendo padre Gigli, mestre do sagrado palácio, e como tal eleito pelo Sumo Pontífice examinador de livros, depois de ter atentamente examinado este pequeno tratado sobre a Sagrada Comunhão, lhe concedeu pela segunda vez o Imprimatur Canônico. Tal concessão não só contém um valor negativo, como o Nihil obstat; mas, além disso, uma aprovação positiva, cujo alcance ninguém ignora. Depois de concedido a primeira edição o Imprimatur Romano, pareceu ela excitar em certos pontos do nosso país algumas dificuldades; esta, porém, mais escrupulosamente revista, contém esclarecimentos e modificações, que devem prevenir qualquer falsa interpretação.

Reimprima-se. Roma, 14 de agosto de 1862.
FR. JERONIMO GIGLI,
Mestre do sagrado palácio.

Com a publicação deste opúsculo sobre a Sagrada Comunhão não me proponho esclarecer os incrédulos, senão fortificar na piedade e confiança os cristãos que já a praticam. Desejara eu dilatar-lhes os seus corações, fazendo-lhes conhecer melhor este inefável Sacramento, que é todo amor, e mostrando-lhes claramente a futilidade dos prejuízos jansenistas, que tão afastados nos trazem ainda da Sagrada Eucaristia.

Quisera cooperar com os bons padres nos seus esforços para fazer renascer o espírito de piedade e restabelecer, quanto possível, o antigo fervor pela frequente comunhão, que santificou os primeiros fiéis.

Estimara, enfim, concorrer quanto as minhas débeis forças o permitissem, para esta grande obra de regeneração, que a todos preocupa, e que, só a força de milagres, poderá realizar-se. Agora, mais do que nunca, carecemos de Santos, Santos só a comunhão os faz.

Bem certo estou que os pensamentos que exponho são os próprios pensamentos da Igreja Católica, mãe e mestra da verdadeira fé assim como da sólida piedade. Eu vo-los apresento, pois, com afouteza, e se deles colherdes fruto e consolação, comunicai-os, eu vo-lo peço em nome de Nosso Senhor, aos vossos achegados e vizinhos, fazendo-lhes conhecer este opúsculo, que consagro já Santíssima Mãe de Deus.

Tomando a liberdade de depor esta pequena obra aos pés do Soberano Pontífice, dignou-se ele conceder-lhe a mais ampla aprovação assim no tocante ao pensamento, como a doutrina.
O Breve Apostólico datado de 29 de setembro de 1860 principiava assim:

«Caríssimo filho recebemos com satisfação a obsequiosa oferta do vosso livro; e vos felicitamos vivamente pelo louvável e religioso zelo com que vos esforçais por excitar os fiéis ao uso mais frequente da Comunhão Eucarística»

Além disto, (e seja-me permitido chamar sobre este fato a atenção dos leitores) no princípio da quaresma de 1861, dando o Santo Padre, segundo o costume, em uma das salas do Vaticano, a missão e benção apostólica aos pregadores das estações de Roma distribuíram por sua própria mão este pequeno tratado, traduzido da primeira edição para o italiano, acrescentando, que este livrinho, vindo da França, tinha já produzido muitos bens; que deveria ser dado a todos os meninos que tivessem de fazer a sua primeira comunhão; que todos os párocos deveriam tê-lo, porque nele se contém as verdadeiras regras da comunhão, tais como as entende o Concilio de Trento, e como a Santa Sé quer que elas sejam aplicadas, etc. Um padre romano, pregador de uma das estações da quaresma, testemunha presencial deste ato, foi quem me comunicou esta tão preciosa mostra de aprovação.

Verdadeira ideia da Sagrada Comunhão

É um ponto de fé católica, desde sempre crido e acatado por todos os cristãos, que Nosso Senhor Jesus Cristo está verdadeira e realmente presente na divina Eucaristia. O seu santíssimo e glorioso corpo se nos manifesta debaixo das aparências da hóstia consagrada, permanecendo sempre sobre os nossos altares para ser aí o centro do culto divino, e dar as nossas almas, na sagrada Comunhão, as forças necessárias para perseverarem unidas com Deus.

A Comunhão propriamente falando, não é destinada; a consagrar-nos com Jesus Cristo; quando dela nos achegamos, já pela graça O possuímos; já, então, está em nós, como no-lo ensinam, quase a cada página, as Escrituras.

A Comunhão não tem igualmente por fim dar-nos a vida da graça, isto é, a vida espiritual que procede da nossa união com Deus. Para qualquer um poder comungar, é de necessidade o viver já desta vida — estar unido a Jesus Cristo pela graça — sem o que a Comunhão seria um sacrilégio.

Qual é, pois, o verdadeiro fim da Comunhão? É alimentar a união santificante e vivificante da nossa alma com Deus; é conservar e fortificar em nós a vida espiritual e interior; é evitar que desfaleçamos na viagem e combates desta vida e é enfim obstar a que percamos a santidade que Deus nos tenha dado pelo batismo e confirmação. Portanto o fruto particular do Sacramento da Eucaristia é uma graça de alimentação e perseverança. Por isso Nosso Senhor, falando-nos da Eucaristia, diz que não podemos viver cristãmente senão pela comunhão.

“Em verdade vos digo, que, se não comerdes a carne do Filho do Homem, e se não beberdes o seu sangue, não tereis a vida em vós” (Jo 6, 54)

Para sermos cristãos e estarmos unidos com Deus é necessário recorrer a Eucaristia. Dá-se com a alma o mesmo que com o corpo. Não podemos viver sem comer; todavia não é a comida que nos dá a vida, unicamente a sustenta e lhe comunica aquela força que se chama saúde. Neste ponto o corpo não passa de ser o símbolo da alma. A alma tem uma vida própria, efeito da sua união com Deus por Jesus Cristo: esta união chama-se graça, e carece de um alimento para sustentar-se, o qual não é outro senão Jesus Sacramentado, que disse:

“Eu sou o Pão da vida. A minha carne é verdadeiramente comida, e o meu sangue é verdadeiramente bebida. Aquele que come a minha carne e bebe o meu sangue, permanece em mim, e eu nele” (Jo 6, 48, 56-57)

A alma não pode, pois, perseverar na graça sem comungar, bem como o corpo não pode conservar a vida sem comer. A força e a saúde do corpo dependem do seu alimento; a santidade e fervor da alma dependem igualmente da Comunhão.

Notai bem que a Comunhão não é uma – recompensa da santidade adquirida, mas sim um meio de conservar a graça, de aumentá-la e de chegar a santidade; enfim nunca passa de ser um meio. O alimento do corpo tem esta mesma propriedade; ninguém come por sentir-se com forças, mas para adquiri-las ou conservá-las. Assim como é da essência do alimento físico ser um ato frequente e habitual da vida do corpo, assim também é da essência da Sagrada Comunhão o ser um ato ordinário e habitual da vida cristã. Tal é a verdadeira ideia que a Igreja Católica nos dá da divina Eucaristia. Também o concílio de Trento, invocando o testemunho de todos os séculos cristãos e dos Padres da Igreja, exprime claramente o desejo de ver comungar sacramentalmente os fiéis todas as vezes que assistem a Missa, sem se contentarem com a comunhão espiritual, a fim de colherem em mais larga cópia os frutos do Augustíssimo Sacrifício (Conc. Trid., sess. 22.ª cap. VI).

O Catecismo Romano, composto por ordem do concílio de Trento, e publicado oficialmente pela Santa Sé, confirmado por muitas Bulas apostólicas, e recomendado em França por vários concílios provinciais, acrescenta estas importantes palavras, de cuja autoridade ninguém pode duvidar:

«Saibam os fiéis que é necessário comungar muitas vezes. Será melhor comungar todos os meses, todas as semanas, ou todos os dias? Não se pode dar a este respeito uma regra certa e inalterável para todos; todavia uma há e seguríssima, dada por Santo Agostinho, que é a seguinte: Vivei de tal sorte que possais comungar todos os dias. Será, pois do dever dos párocos exortarem muitas vezes os fieis a não deixarem por incúria de alimentar e fortificar todos os dias as suas almas com este Sacramento, bem como por incúria nem esquecimento não passam um só dia sem alimentar o corpo. É, pois, evidente que a alma, assim como o corpo, carece de alimento. Será de maior importância insistir, neste ponto, sobre as imensas e divinas vantagens que tiramos da Comunhão sacramental; assim como igualmente convirá lembrar-lhes que noutro tempo o povo de Deus era obrigado a sustentar-se todos os dias no deserto com o maná, figura da Eucaristia; os párocos não devem também esquecer-se de citar as autoridades dos Santos Padres, que tanto recomendam a comunhão frequente, porque não foi só Santo Agostinho que estabeleceu esta regra: Pecas todos os dias, pois comunga todos os dias. Estude-se bem a matéria, e acharemos, sem grande trabalho, que dos mesmos sentimentos hão sido todos os padres que trataram desta questão» (Cat. Rom., da Eucaristia)

Tal é a verdade e vontade de Deus, tal é a regra que Ele nos propôs pela boca da Sua Igreja. Deixemo-nos penetrar bem dela, e reformemos, se mister for, a nossa opinião individual, conformando-a com este ensino infalível da que é coluna e firmamento da verdade.

Compreendido, pois, este princípio fundamental, procuremos desfazer radicalmente as dificuldades, que de ordinário opõe, quem se priva, ou quer privar os outros do inefável beneficio da comunhão frequente.

Mas, antes de entrarmos em matéria, estabeleçamos algumas distinções importantes: comungar três ou quatro vezes por semana, e com mais razão comungar todos ou quase todos os dias, é o que propriamente e em rigor se chama comunhão frequente; comungar nos domingos e dias de festa, como o concílio de Trento indiretamente aconselha a todos os fiéis, não é comunhão frequente para os padres, nem para as pessoas religiosas, para os seminaristas, nem mesmo para os cristãos, que fazem profissão de fervor e zelo pela perfeição; todavia o é para os meninos e para a multidão dos fiéis a quem pouco tempo sobra para empregarem nos exercícios de piedade; a comunhão de todos os meses ou das festas principais não é comunhão frequente para ninguém, nem ainda para a gente do povo, campônios, nem artistas. É sem dúvida uma excelente prática, que convém recomendar-lhes quando não se pode alcançar mais; porém, não é comunhão frequente.

Isto suposto, ouçamos e discutamos.

1.º
Para comungar muitas vezes é necessária maior santidade que eu não tenho

Pois para serdes mais santo do que não sois, é que careceis de comungar muitas vezes. Qual de nós terá razão? Pelo que vejo, sois, do número daqueles que consideram a Sagrada Comunhão, não como um meio, mas como uma recompensa; o que é um grande erro, como já dissemos. É verdade que, para comungar muitas vezes e dignamente, é necessário ter uma certa santidade. Mas que santidade será essa? Será acaso a perfeição dos grandes Santos e Mártires? De nenhuma sorte; muito para desejar seria ela, não há dúvida, mas não é necessária; a santidade que exige a comunhão frequente está ao vosso alcance e ao de todos os verdadeiros cristãos; consiste simplesmente em estar em graça com uma vontade sincera de evitar o pecado, e servir fielmente a Deus.

Não será esta disposição bem fácil, e não conheceis por vós mesmos que Deus vo-la exige? Tanto vo-la exige que sem ela é impossível serdes um verdadeiro cristão. Dizei-me: o que vem a ser um cristão em estado de pecado mortal, e que nele se deleita? Que é mesmo um cristão, um filho de Deus que, de propósito deliberado comete e ama o pecado venial? Nunca se deve confundir, como adverte Bordaloue (sermão sobre a frequente comunhão), o que é de preceito com o que é de conselho; é esta confusão que enleia a nossa piedade; e que, há dois séculos, ermos tem feito nossos templos. Uma única disposição é de preceito para comungar dignamente, e com fruto: é o estado de graça, acompanhado de um firme propósito de evitar ao menos o pecado mortal e as ocasiões dele. Tal é a regra para toda a comunhão, frequente ou não frequente, a do padre que comunga todos os dias, como a do simples cristão que só pela Páscoa comunga. «Só o pecado mortal, diz Santo Tomás, é absoluto impedimento para a Sagrada Comunhão», e Soares diz igualmente que «não consta de algum padre ter ensinado que, para comungar dignamente e com fruto, seja necessário ter disposições mais perfeitas» (Disp. 63, sess. 3.a).

Quem duvida que estas disposições mais perfeitas sejam muito e muito para desejar? A Igreja as recomenda a todos os fiéis, principalmente aqueles que comungam muitas vezes. Mas, enfim, estas melhores disposições são de conveniência, de conselho, e não de preceito rigoroso, ex quadam convenientia, como diz ainda Santo Tomás; e um bom diretor, recomendando-as com instância, não as exige absolutamente, com receio de privar as almas do único remédio que as preserva, talvez, de faltas mais graves. Escusado é acrescentar que, quanto mais vezes se comunga, tanto mais se deve trabalhar por apresentar a Deus uma consciência mais delicada, um amor mais puro, uma dedicação mais sublime e generosa. Acerca da comunhão quotidiana o conselho se confunde com o preceito. (Para maior inteligencia vede «O Céu aberto» pelo abade Favre, missionário de Saboia). Portanto, para comungar muitas vezes e dignamente Nosso Senhor não vos pede em suma senão que sejais verdadeiros cristãos, e animados de uma sincera e boa vontade para com Ele. Tendes, esta boa vontade? Respondei com a mão na consciência. Se a não tendes, deveis adquiri-la, porque sem ela faltais as sagradas promessas do vosso batismo; se a tendes, porque não ides comungar a fim de a fortalecer e aumentar? Tal era o argumento claro e sem réplica, que dirigia outrora aos fiéis de Constantinopla o seu grande arcebispo e doutor São João Crisóstomo:

«Ou estais em graça de Deus, lhes dizia, ou não. Se estais, por que não ides receber a Sagrada Comunhão, instituída para vos manter nesse estado de graça? Se não estais, porque não correis a purificar-vos do pecado por uma boa confissão, e a apresentar-vos depois à sagrada Mesa, onde recebereis a força de não mais tornar a cair?»

2.°
Não sou digno de assim me aproximar de Deus

Se esta razão valesse, nunca se deveria comungar «porque, diz Santo Ambrósio, o que não é digno de comungar todos os dias, sê-lo-á de comungar de ano em ano?» (Dos sacramentos, livro V, cap. IV). Dizeis que não sois dignos de comungar todos os dias; mas não sabeis que, a proporção que vos afastais de Jesus Cristo, mais indignos vos tornais de aproximar-vos dEle? As vossas faltas aumentam à proporção que vos apartais dos Sacramentos, porque vos privais assim deste Pão de vida, que o concílio de Trento, conforme Santo Inácio de Antioquia, propõe aos fiéis como remédio eficaz contra o pecado, e penhor seguro da imortalidade (Epist. e sess. 13.ª cap. II). Para longe, pois, de vós uma tão estranha humildade.

A Igreja sabe muito bem que não sois dignos de comungar, e todavia ela vos convida a fazê-lo muitas e muitas vezes, a quererdes vir a ser um verdadeiro servo de Deus. Ela conhece tão perfeitamente a vossa indignidade e a de todos, que obriga a seus filhos, sem excetuar os padres nem ainda os bispos, a dizerem de todo o coração, e não uma, mas três vezes, antes de comungarem:

Domine non sum dignus ut intres sub tectum meum – «Senhor, eu não sou digno de que entreis em minha casa»

A Igreja não vos manda comungar, porque sejais dignos disso, mas para que vos torneis o menos indignos possível de tão santo e bom Senhor. Convida-vos ela a comungar muitas vezes, não porque sejais santos, mas para que possais vir a sê-lo; não porque sejais fortes, mas porque sois fracos, imperfeitos, inclinados ao mal, expostos a ser facilmente seduzidos e prontos em pecar.

Temor servil de Deus não é uma virtude; a perfeição da piedade consiste no amor. Ora, o verdadeiro amor exclui o temor (Jo 6, 18), mas o temor servil. O amor não conserva do temor senão certo respeito filial que tão admiravelmente se combina com aquela terna confiança, a que se poderia dar o nome de respeito do amor. O temor servil de Deus faz parte desta piedade jansenista, tão falsa e perigosa, que comprime o coração, destrói o amor e a confiança, e lança as almas na secura, desalento e desesperação. A verdadeira humildade anda sempre junta com a confiança. Um piedoso doutor do século IV, perguntando a si mesmo qual dos fiéis é mais humilde, se aquele que comunga frequentemente, se o que raras vezes comunga, responde sem hesitar que o mais humilde é o que mais vezes recebe a Nosso Senhor Jesus Cristo, porque é isso um sinal certo de que conhece melhor a sua miséria e a necessidade de remediá-la.

Confiança, pois. Recebei a Jesus sacramentado, porque Ele vos ama, apesar da vossa indignidade; Recebei-O com humildade e ternura, ocupando-vos mais na consideração do Seu amor, que na das vossas próprias misérias. Quanto mais vezes comungardes, mais dignos sereis da comunhão.

3.º
A comunhão, quando muito frequente, já não produz efeito

Não produz efeito sobre a imaginação nem sobre os nervos, é possível, mas não acontece o mesmo com a vontade. Falo-vos com a experiência, costumado como estou a presenciar todos os dias admiráveis mudanças produzidas pela comunhão frequente em corações bem dispostos.

E certo que, se procurarmos na comunhão tão somente as doçuras da devoção sensível vê-las-emos diminuir, às vezes, na proporção da nossa mais frequente aproximação da sagrada Mesa. Mas não é a devoção sensível, nem as lágrimas, nem as impressões, que se devem procurar na comunhão; quando Deus as conceder, agradeçamo-las, bem como um menino agradece a sua mãe os diferentes mimos, que ela lhe dá, depois de comer; porém, assim como a sobremesa é pouco nutriente e é apenas um acessório do jantar, assim também na piedade e na comunhão ato principal dela, devemos mirar ao que é substancial, isto é, ao aumento de todas as virtudes, da humildade, mansidão, penitência, desapego, abnegação, caridade, atendendo pouco as consolações sensíveis, que em todo o caso não passam de ser, como que uns certos acepipes espirituais.

«Não vos deixeis enganar com a lembrança de que tereis mais devoção comungando menos vezes, diz Santo Afonso. Aquele que come menos vezes, come, é verdade, com mais apetite; mas está bem longe de ser tão forte como o que se alimenta regularmente. Se comungardes raras vezes, tereis talvez mais devoção sensível, mas a vossa comunhão vos será menos proveitosa, porque a alma carecerá de forças para evitar faltas»; não deis, pois, grande importância a um pouco mais de fervor sensível, já fitai a piedade com um olhar mais nobre e sublimado. Procurai em vossas comunhões um verdadeiro e eficaz amor a Jesus Cristo, e encontrá-lO-eis sempre. Quando comungardes com o fim de ser mais fortes nas tentações, mais castos, mais dados a oração mais esforçados nos contínuos combates da vida, estai certos de que colhereis grande fruto das vossas comunhões, as quais, quanto mais frequentes forem, mais e melhor efeito produzirão.

4.º
Receio familiarizar-me com as coisas santas

Este receio pode ser bom e pode ser mau. Se por familiaridade entendeis certa negligencia e rotina, tendes muita razão. A rotina está para o bom costume, como o abuso para o uso. Convém usar e não abusar das coisas boas, mas deve haver muito cuidado em não levarmos tão longe o temor do abuso, que deixemos o uso das coisas boas; aliás, nada se poderia fazer, porque de tudo se pode abusar.

Acautelai-vos, pois, da rotina no serviço de Deus. Mas, se por familiaridade entendeis intimidade, união contínua com Deus, completo abandono e terna confiança, muito mal fazeis então em fechar o vosso coração a este sentimento tão cristão. A Igreja, aconselhando-nos a comunhão frequente, nos exorta a verdadeira familiaridade com Deus, nosso celestial amigo, cujo amor tão admiravelmente se alia com respeito. Quem tributou mais profundo respeito a Nosso Senhor do que os Santos? Todavia, não O amaram eles com a mais íntima e familiar ternura? E sem subir tão alto, mesmo entre as pessoas do nosso conhecimento, quais são as que respeitam com maior acatamento a Deus, Sua lei, Seus Sacramentos, não são as que frequentam mais as práticas religiosas?

Não só não deveis temer familiarizar-vos com Jesus Cristo, e habituar-vos a recebê-lO frequentes vezes no Santíssimo Sacramento, mas deveis trabalhar por formar em vós este santo costume. Os bons costumes são tão estimáveis, quanto perigosos os maus.

Pode-se afirmar que qualquer pessoa não é verdadeira e solidamente cristã senão quando o serviço de Deus para ela se converter num hábito, isto é, numa segunda natureza; ora a sagrada comunhão é o centro deste divino serviço. Certo protestante convertido e excelente servo de Deus me dizia:

“Um dia sem Missa e sem comunhão é para mim como uma sopa sem sal”

Habituai-vos, pois, a comungar, mas a comungar bem e para isso comungai frequentemente. Não se faz bem feito, dizia São Francisco de Sales, senão aquilo que se faz muitas vezes; os melhores artistas são sempre os que com mais assiduidade trabalham pelo seu ofício.

5.º
Não me atrevo a comungar sem me confessar, o que não posso fazer a toda a hora

E quem vos exige essa confissão a toda a hora? A Igreja instando-nos a comungar muitas vezes e até todos os dias, sendo possível, nunca nos impôs a obrigação de nos confessarmos cada vez que houvermos de comungar.

Não queiramos ser mais católicos que o Papa, nem tão pouco imaginemos obrigações que ninguém nos impõe, nem se quer aconselha. Vou ainda mais longe e digo que, no caso presente, o vosso receio é oposto ao próprio espírito da Igreja. Não há mais do que um só caso, em que sejamos obrigados a confessar-nos antes de comungar, diz o concílio de Trento; é «quando há consciência de havermos cometido um pecado mortal» – Sibi conscius peccati mortalis (Conc. de Trento sess. l3.ª, cap. VI). Ora, os cristãos que frequentam os Sacramentos, raras vezes caem em pecado mortal.

Enquanto as faltas chamadas veniais, inseparáveis da fraqueza humana, a fé nos ensina expressamente que um ato de verdadeiro amor de Deus e sincero arrependimento é bastante para delas nos purificar completamente; e para facilitar ainda mais esta purificação, a Igreja, como mãe terna e desvelada, estabeleceu, com o nome de sacramentais, certos meios muito simples, para purificarmos por meio delas as nossas consciências; tais são, além de outros: o Sinal da Cruz, a Água Benta, rezar o Pai-Nosso, a Confissão na Missa, etc.

Se ainda duvidais comungar por causa de algumas culpas veniais, cometidas depois da vossa última confissão, eis aqui o concílio de Trento a grande voz da Igreja Católica, a declarar-vos que a santa comunhão preserva do pecado mortal e apaga os veniais – Antidotum, quo liberemur a culpis quotidianis, et a peccatis mortalibus praeservemur (Conc. de Trento, sess, 13.ª, cap. II).

Entendei bem aquela expressão: foi para vos levantar das vossas faltas quotidianas, que Jesus Cristo instituiu não a Confissão, mas sim a comunhão de que tanto medo tendes. Se delas vos arrependerdes sinceramente e não lhes tiverdes afeto, a comunhão as consumirá sem demora, bem como o fogo consome a palha; o fogo não consome as pedras nem o ferro, e as pedras e o ferro representam os pecados mortais, os quais só o pesado martelo da Confissão pode pulverizar e de todo destruir; na palha, porém, são figuradas as culpas leves, que por desgraça, todos os dias, cometemos, apesar da sinceridade da nossa boa vontade, mas que o fogo da comunhão devora.

Foi também o jansenismo que introduziu entre nós este temor anticatólico, o jansenismo que, a pretexto de maior santidade, exalta a Confissão abatendo a comunhão, cansa-nos com escrúpulos, perturba e corrompe as nossas consciências, o que muito agrada ao demônio, pois nos conserva assim respeitosamente afastados da adorável Eucaristia, centro vivo de toda a santidade. Se amais do coração a Deus, comungai com grande confiança e alegrai apesar das vossas enfermidades quotidianas. Indo procurar amiúdo o vosso confessor, podeis talvez recear incomodá-lo, mas, comungando muitas vezes e até todos os dias, estai certos de que nunca enfadareis o nosso amantíssimo Jesus.

6.º
Não se pode comungar sem preparação e não tenho tempo de preparar-me como convém

Não se trata de saber se se pode comungar sem preparação; um ato tão santo não pode ser feito à pressa. A falta de preparação leva a tibieza e torna inúteis e ainda perigosas as mais excelentes práticas da religião. Não só convém preparar-nos para receber a sagrada Eucaristia, mas é necessário fazê-lo com grande cuidado; e quando estejamos muito e muito bem preparados devemos ainda assim humilhar-nos diante de Deus, pedindo-Lhe se digne suprir, por Sua bondade, ao que nos falta por nossa miséria.

Mas em que consiste esta preparação? Acaso é necessário, dispormo-nos para comungar, multiplicando as práticas de piedade, ou fazendo profundas meditações? De nenhuma sorte: tudo isso é bom, muito bom, preciso mesmo; quando há tempo para se fazer; mas nem todas as pessoas têm esse tempo. A Igreja, que a todos sem distinção nos exorta a comungar frequentemente, é a primeira a dizer-nos que antes de tudo está o cumprimento dos deveres do nosso estado.

Que deveremos pois fazer para bem nos dispormos a comungar? Vivermos cristãmente, isto é, orarmos com atenção, pensarmos muitas vezes em Nosso Senhor, e estarmos interiormente a Ele unidos, vigiarmos sobre o nosso temperamento e habituais disposições, a fim de evitar ainda as faltas leves, aplicar-nos com ânimo resoluto a satisfazer todos os nossos deveres em ordem a agradar a Deus, e exercitar-nos na humildade e mansidão. A verdadeira preparação para a sagrada comunhão é o modo como se vive, assim como a verdadeira ação de graças é a maneira como se passa o dia, depois de recebido o amantíssimo Salvador.

Quem vos estorva de assim o fazer? Será porventura necessário muito tempo para pensar em Deus e amá-lO? Para ser casto e bom, para santificar as ações ordinárias da vida, com intenções cristãs? Não mister mais tempo para ser bom do que para ser mau, nem para andar na presença de Jesus Cristo, e buscar agradar-Lhe, que para cuidar somente em Si e viver à Sua vontade.

«Diz Cornélio a Lapide que a melhor preparação para a comunhão é comungar muitas vezes. Uma comunhão é a melhor ação de graças de outra comunhão; e a comunhão de hoje é a melhor preparação para a de amanhã; sucede com a comunhão o mesmo que com a oração: quanto mais se ora, melhor se sabe orar, e mais se gosta de orar»

«Assim, acrescenta Santo Afonso, quando vos faltar o tempo para vos preparardes, porque uma boa obra ou um dever do vosso estado vo-lo tirou, não deixeis por isso de comungar, mas ponde todo o cuidado em evitar conversações inúteis, ou qualquer ocupação desnecessária.»

Não quer isto dizer que se devam omitir as orações e outros exercícios piedosos destinados a preparar a nossa alma para a imediata recepção do divino Sacramento. Não; esta preparação e ação de graças imediatas são absolutamente necessárias, como no-lo ensina o Papa Inocêncio XI, e com ele todos os doutores e mestres da vida espiritual. Sem esta preparação o respeito para com a sagrada Eucaristia, bem como o espírito de fé, facilmente afrouxariam em nossos corações.

Se tivermos muito tempo de que possamos dispor, empreguemos maior espaço em nos preparar para a comunhão; mas se tivermos pouco, como acontece muitas vezes contentemo-nos com o que é de absoluta necessidade, e supramos com uma fervorosa piedade a falta de uma larga preparação.

São Francisco de Sales completa estes sábios conselhos, estabelecendo na sua Introdução à Vida Devota regras do procedimento, que muito seria para desejar que todas as pessoas seguissem.

“Na noite antecedente, recomenda ele, recolhei-vos o mais cedo possível, a fim de poderdes entrar em vós mesmos e orar em paz. Na manhã seguinte, em despertando, saudai logo o divino Salvador que vos espera. Indo para a Igreja, oferecei a vossa comunhão à Santíssima Virgem, e recebei depois com amor Aquele que todo é amor”

Convencei-vos de que nesta matéria se pode fazer tudo quanto se quer, e que sempre se ganha tempo para a preparação, quando há um verdadeiro desejo de comungar. Quantas pessoas tenho eu conhecido de todas as idades e condições parecendo impossibilitadas de comungar muitas vezes, e que todavia encontravam em seu fervor o meio de satisfazer a sua piedade! Conheci um pobre menino, a quem seus pais, rústicos e ímpios, tratavam com aspereza todas as vezes que ele satisfazia os seus deveres religiosos; ele, porém dispusera as coisas de tal modo, que, depois da sua primeira comunhão, não deixou passar, por assim dizer, um só domingo sem receber o Senhor. Levantava-se muito cedo, saia para a Igreja sem ser pressentido; ali comungava, e, dando graças a caminhar para casa, nela entrava, sem que seus pais soubessem que ele tinha saído. Sei também de muitas mães de família, na cidade, que, tanto de verão como de inverno vão cedo à Missa, a fim de recolherem a tempo que seus filhos e maridos nada tenham a sofrer com a sua ausência.

Procurai ter esta boa vontade, este mesmo espírito de fé, e nunca, por falta de tempo, deixareis de receber muitas vezes e santamente a divina Eucaristia:

Vade! et tu fac aimiliter – «Vai, e faze também assim»


7.º
Não me sinto com fervor quando comungo; estou todo distraído e sem devoção

Quando São Pedro, por ocasião da pesca milagrosa, conheceu a santidade e majestade divina dAquele que tinha entrado na sua barca, lançou-se aos pés de Jesus dizendo-lhe:

Exi a me, Domine, quia homo peccator sum. “Apartai-vos de mim, Senhor, porque sou um homem pecador”, e o divino Mestre lhe respondeu: Noli timere. “Não tenhas medo” (Lc 5, 8)

Não vos assusteis também; acaso o vosso coração não pertence a Deus? E não quereis vós servi-lO bem? Ele não exige outra coisa. As nossas distrações devem humilharmos e não desanimar-nos; poucas vezes são voluntárias, bem o deveis saber, e por isso não nos privam do fruto das nossas comunhões. Haja boa vontade e haverá boa comunhão.

Os Santos também sofreram, como vós, tristezas, desgostos, privações de toda a consolação sensível e impertinentes distrações. São Vicente de Paulo esteve por dois anos em uma tal secura espiritual, que não podia sequer fazer um ato de fé; e, aproveitando-se o demônio deste estado de aflição, para muito e muito tentar o amargurado Santo, colocou este então sobre o seu coração o Credo, que para este fim tinha escrito e cosido na sua sotaina, combinando de uma vez para sempre com Nosso Senhor que, quando tocasse com a mão aquela fórmula, seria o mesmo que fazer atos de piedade, que de outro modo não podia praticar. Firme na sua fé continuou com os seus exercícios espirituais, celebrando Missa todos os dias. Pergunto-vos agora, seriam boas as suas comunhões? Fénelon passou os últimos anos da sua vida em tribulações quase iguais, e escrevia a um seu piedoso amigo, o duque de Beauvilliers:

«Estou numa secura profunda e numa paz muito amarga»

Estas provas são o meio ordinário de que Nosso Senhor se serve para purificar todos os Seus verdadeiros servos. E precisamente para estas almas atribuladas que, segundo o parecer de Santa Teresa, melhor remédio não há do que a frequente comunhão.

Além disso o Santíssimo Sacramento opera muitas vezes na alma, sem que se perceba, como nota São Lourenço Justiniano; e o grande doutor São Boaventura diz também:

«Ainda quando vos sentísseis tíbio e sem devoção, não devíeis fugir da sagrada comunhão, porque quanto mais doente estiverdes, mais careceis de médico» (De Perf. relig., cap. XXI)

Um virtuoso padre, superior de certo seminário, me diz igualmente uma vez:

«Temo-me menos da comunhão tíbia, que da total abstenção da mesma comunhão; porque enfim a doença sempre é melhor do que a morte»

A Eucaristia é o foco do amor de Deus; quanto mais tibieza sentirdes, mais a esse divino foco deveis achegar-vos.

E estas securas que vos inquietam não provirão de alguns defeitos vossos? Pondes grande cuidado em evitar os pecados veniais? Procurais não contristar em vós o divino Espírito Santo? De ordinário tais infidelidades trazem consigo como consequência imediata, direi até como castigo, uma certa tristeza interior, não sei que abandono aparente, e uma total privação de doçuras espirituais.

Ainda mais; as vossas tribulações não serão também produzidas por um certo egoísmo espiritual? Em vossas comunhões, e geralmente em vossas orações, pensais mais nos outros do que em vós? A caridade, e só a caridade pode fazer-vos ditoso. O vosso coração dilatar-se-á quando vos ocupardes mais da salvação dos vossos irmãos, da conversão dos maus e da propagação da fé. Orando pelo próximo achar-vos-eis possuído de sentimentos, e com uma atenção que nunca conhecestes quando só a vós atendíeis, em vós só pensáveis.

Enfim é necessário notar que estas securas e distrações são quase sempre uma tentação. O demônio, que não pode atacar-vos de cara a cara, busca vingar-se afligindo-vos e apurando-vos com tais impertinências. Sede mais ladinos do que ele, que só trabalha por arrastar-vos ao desalento e impaciência. Coragem, que o tempo da consolação não tardará.

8.º
Não me atrevo a comungar muitas vezes, porque ando sempre a cair nas mesmas faltas

Ah! Cuidais que sereis melhor, comungando menos vezes? Se, comendo regularmente, ainda sentis debilidades, que será quando não comerdes nada ou quase nada? O resultado será não já sentir debilidades, mas morrer de fome. Privando-vos do pão dos fortes, o vosso estado de fraqueza se agravará cada vez mais, e tereis então a lamentar não como agora, faltas leves, mas sim quedas desastradíssimas, pecados mortais.

«Eu peco todos os dias, dizia Santo Ambrósio, citado por Santo Tomás de Aquino; peco todos os dias, tenho portanto necessidade de remédio todos os dias» – Quotidie pecco, quotidie remedio indigeo (Summ., m. part. q. 80, art. 10)

Diz mais:

«Tomamos este pão de cada dia, como remédio para as enfermidades de cada dia» – Iste panis quotidianœ sumitur in remedium quotidianœ infirmitatis (S. Amb., liv. IV de Sacra. Cathec. Rom.).

Foi isto que a Santíssima Virgem fez saber um dia a Santa Francisca Romana, que se achava perturbada com a lembrança do pouco adiantamento que notava em si depois das suas comunhões.

«Minha filha, Lhe diz ela com ternura, as faltas que cometeste não te devem afastar da sagrada comunhão; antes sim mais e mais a ela achegar-te, porque no Santíssimo Sacramento do altar é que acharás remédio para todas as tuas misérias»

A comunhão, mesmo a de todos os dias, preserva de pecados graves, mas não nos torna impecáveis. Enquanto estamos neste mundo pecamos, e os melhores de entre nós não são propriamente senão os menos maus. Tenhamos paciência conosco mesmos; suportemo-nos, porque também o nosso amantíssimo Jesus nos suporta.

Assim têm praticado os Santos, assim os primeiros cristãos praticaram. Comungavam todos os dias, e todavia eram tão fracos como nós. Engana-se completamente quem cuidar que todos eles eram santos. Os escritos dos Apóstolos e os documentos que nos restam dos tempos primitivos da Igreja nos provam superabundantemente o contrário. Não há uma só das Epístolas de São Paulo, em que ele não repreenda a muitos deles as suas divisões, as suas inconstâncias, as suas ingratidões e as suas negligencias. São Cipriano lamenta amargamente as fraquezas e descuidos dos cristãos de Cartago. Santo Agostinho e outros dão testemunho das mesmas misérias. Portanto, nem todos os primeiros cristãos eram santos, e todavia, torno a dizer, eles comungavam todos os dias. O Papa Santo Anacleto, citado por Santo Tomás, nos ensina que esta regra provinha diretamente dos apóstolos: Sic et Apostoli statuerunt, e que esta era também a doutrina da santa Igreja Romana, et sic sancta tenet Romana Ecclesia ( Const. Apost., Summ.,m. pars. q. 80, art. 10).

Esta decretal faz parte das constituições apostólicas, as quais todas, segundo a opinião dos teólogos mais autorizados, remontam pelo menos ao segundo século da Igreja.

A comunhão quotidiana não os tornava impecáveis, mas santificava-os muito, livrava-os de muitas culpas graves e fazia com que muitos deles chegassem a alcançar incomparáveis virtudes.

O mesmo nos acontecerá. A sagrada comunhão, sem nos fazer de todo perfeitos, pouco a pouco diminuirá as nossas culpas e nos fará crescer insensivelmente na piedade e sabedoria.

Não vos admireis de que esta mudança não se faça em um dia. Quantos anos não são necessários para que um menino venha a ser homem? Porventura vê-se ele crescer ? Todavia, ele vai crescendo todos os dias; é uma ação oculta, mas efetiva, para a qual contribui cada ama das suas refeições. Não vos admireis tão pouco de recatardes nas mesmas culpas. A piedade e a comunhão, aperfeiçoando a nossa natureza, não a destroem; ainda que, debaixo da ação santificante de Jesus Cristo, cada um de nós conserva em si mesmo o gérmen ou princípio dos seus vícios dominantes. É este gérmen, este lado fraco que o demônio procura continuamente explorar; e é daí que procedem estas recatadas, por desgraça tão frequentes, que inquietam e humilham os cristãos, mas que nunca devem desalenta-los.

Se podeis afirmar com afouteza que não amais o pecado, e que quereis servir fielmente a Jesus Cristo, não vos perturbeis com os vossos defeitos quotidianos; a comunhão vos purificará deles, como já dissemos, citando a formal doutrina do santo concílio de Trento.

Porque os diretores das almas acham, infelizmente poucos cristãos assim dispostos, é que eles não podem, bem a seu pesar, aconselhar a todos os seus penitentes a comunhão frequente. É também por isto que o grande Santo Tomás, estabelecendo definitivamente, na sua Summa, a tese católica e tradicional da excelência da comunhão quotidiana, diz:

«Que nem todos os fiéis devem indistintamente receber, todos os dias, a sagrada Eucaristia»

Reverência e amor, tal é a conclusão prática de Santo Tomás; mas ele tem o cuidado de advertir «que o amor e a confiança devem dominar o respeito e temor» – Amor tamen et spes praeferuntur timori (m. pars. q. 8, art. 10). Não esqueçamos nunca esta excelente regra.

9.°
Comungando muitas vezes receio tornar-me singular e causar admiração e escândalo às pessoas do meu conhecimento

Quereis falar dos meio-cristãos, isto é, dessa multidão de pessoas que nada entendem das coisas de Deus, apesar de observarem algumas práticas religiosas? Sabeis, também como eu, o caso que se deve fazer dos seus esforços. Deixai-os falar; as suas críticas equivalem quase um elogio.

Trata-se, pelo contrário, de pessoas piedosas? Estai bem certos de que nunca as escandalizais, nem mesmo lhes causais admiração, vivendo como verdadeiros cristãos. Quereis saber o que escandaliza numa pessoa que comunga muitas vezes? Não são as suas comunhões, não; é sim o pouco cuidado que põe, apesar de comungar tão frequentemente, em reprimir o seu mau gênio, em harmonizar a sua vida ordinária com as práticas religiosas; são as suas impaciências, as suas maledicências e as suas gulodices, a excessiva delicadeza e cuidado com que trata da sua saúde e das suas comodidades, e enfim é esse sem número de defeitos, que, sendo mais do que imperfeições, não podem escapar ao exame duma consciência por muito pouco zelosa que seja da sua santificação. Se, o que Deus não permita, vos, reconhecêsseis neste retrato, seria mister aplicar sem demora um remédio eficaz a este tão real e verdadeiro mal. Devereis, não abandonar a comunhão, mas armar-vos de maior energia, para viverdes uma vida mais santa e mais digna de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Bem sei que mesmo entre os bons cristãos, há pessoas pouco ilustradas a quem um nada escandaliza. Pondo todo o cuidado em não ofendê-las, não se deve, todavia, fazer caso dos seus ditos. Por mais que façais, nunca podereis contentar a todos. Procurai agradar a Deus; tendo sempre uma reta intenção de obrar bem; ouvi com humildade os diversos juízos que as pessoas de bem fizerem sobre o vosso procedimento, e, podendo ser, tirai deles proveito, emendando-vos. Em vossas dúvidas, dirigi-vos com toda a simplicidade a um sacerdote esclarecido nos caminhos do Senhor, e guiai-vos por seus conselhos.

Destes mesmos sentimentos era o sábio e piedoso Fénelon, que tanto aconselhava a comunhão frequente.

«É necessário habituarmo-nos, dizia ele, a ver fiéis que cometem pecados veniais, apesar do sincero, desejo que têm de não cometer nenhum, e que todavia comungam com fruto todos os dias. Não devemos escandalizar-nos tanto, com as imperfeições que Deus lhes permite para os humilhar, que cheguemos a perder de vista os pecados mui hediondos e perigosos de que este remédio quotidiano os preserva.

«Porque há de qualquer escandalizar-se de ver a bons seculares que, para melhor corrigirem as suas imperfeições, mais facilmente resistirem as tentações do século corrompido, querem alimentar-se de Jesus Cristo Sacramentado?

«Consenti em ser julgados, não por esses reformadores, que sempre estão dispostos a escandalizar-se e a criticar tudo, mas por um confessor experimentado, que vos dirija segundo o espírito da Igreja»

Andai, pois, com muita vigilância sobre vós mesmos; tende tanto medo do escrúpulo como da negligência. Renovai, todos os dias, os vossos bons propósitos, e fazei o menos caso possível do que dirão.

10.º
Se eu comungasse todos os dias, minha família se desgostaria

É para dar gosto a vossa família que comungais, ou por vosso próprio interesse? Se a vossa família não gostasse que comêsseis todos os dias, deixaríeis por isso de comer? A obediência filial e os deveres de família são de certo uma coisa importante e santa, contanto porém que a família não se ocupe senão do que lhe pertence. Até certo ponto, bem o sei, há obrigação de atender, mesmo nas coisas do serviço de Deus, as exigências da família; mas esta atenção tem seus limites, os quais todos nós muito devemos respeitar. Os Sacramentos, mais do que tudo, estão fora do alcance das atribuições da família, a qual nada faria melhor que deixar esta grave e melindrosa questão de consciência ao juízo da Igreja e dos seus ministros.

A sagrada comunhão é a fonte de toda a graça, doçura e bondade. Se comungardes muitas vezes e bem, facilmente vos tornareis melhores; a vossa família será a primeira, a conhecer uma tal mudança; e como será também a primeira a aproveitar-se dela, abster-se-á de a estorvar. Sede prudentes e constantes; deste modo podereis seguramente achar meio de frequentar os Sacramentos, sem incomodar ninguém.

Enfim, se apesar de todas as cautelas e atenções vossa família ainda achar que censurarem vossa piedade, continuai em paz, como se tais censuras não percebêsseis. As preocupações prestes acabarão por certo, ou pelo menos acostumar-se-ão ver-vos comungar, do mesmo modo que se habituam a ver tantas outras coisas desagradáveis. Quem sabe se Nosso Senhor quererá recompensar a vossa constância, atraindo ao seu amor aqueles mesmos que dele procuram hoje retirar-vos?

E o que acontece, agora mesmo que escrevo estas linhas, a um rico negociante da capital, de todo indiferente em matérias de religião, e inimigo declarado de toda a prática de piedade. Enviuvado, há anos, pôs as suas duas filhas em um excelente colégio, onde receberam uma educação solidamente cristã. Logo que sua filha mais velha chegou a idade de dezesseis anos, mandou-a vir para sua companhia afim de governar-lhe a casa. Esta menina, tão firme como piedosa, não interrompeu nenhum dos seus hábitos de piedade; mas via-se obrigada a empregar mil precauções para não irritar seu pai. Este porém surpreendeu-a certa manhã, em que ela voltava da Missa com sua criada grave, sem ter ainda almoçado. Suspeitando o que sucedera, perguntou- lhe se tinha comungado.

«Sim, meu pai, lhe respondeu prontamente a encantadora menina, e muito rezei por vós»

— E comungas muitas vezes? lhe tornou o pai com aspereza.

«Sim, meu pai; tenho essa felicidade muitas e muitas vezes. É onde recebo as forças para satisfazer as minhas obrigações e principalmente a de ser para convosco o que devo ser»

O pai calou-se por um instante abaixando a cabeça. Quando a levantou, os seus olhos estavam arrasados de lágrimas, e abraçando sua filha não menos comovida que ele, lhe diz em voz baixa:

«Minha filha! Que feliz que eu sou de ter uma filha como tu!»

Desde então uma completa mudança se operou nas ideias e procedimento deste negociante, e se ainda falta alguma coisa para uma completa conversão, tudo indica estar ela próxima a realizar-se.

Quantas famílias se converteriam a Deus se entre elas houvesse uma alma tão firme na prática do amor para com Jesus Cristo e na fidelidade a comunhão frequente!

11.º
Conheço muitas pessoas piedosas, que raras vezes comungam

E eu conheço bem poucas. Pelo contrário, das pessoas que comungam muitas vezes quase nenhuma conheço que não seja verdadeiramente piedosa. Falando assim, confundis os termos, e dais o nome de piedosas a pessoas que vivem com uma certa regularidade. Regularidade não é o mesmo que piedade. Para ser regular, basta ser pontual na observância das leis de Deus e da Igreja, assistir a Missa todos os domingos, comungar pelas festas principais, acatar a religião e viver honradamente. Para ser piedoso é necessário subir mais alto e viver mais inflamado no amor de Jesus Cristo. Uma vez entrado nos caminhos da piedade, o cristão não se contenta com os simples preceitos, esforça-se além disso por praticar os conselhos evangélicos, a renuncia de si mesmo, o recolhimento interior, o zelo pela salvação das almas, e todo esse belo agregado de virtudes, que constituem a santidade cristã; obra mais por amor que por dever e adquire o preciso costume de encarar o serviço de Deus, não como um jugo opressivo, mas como uma dedicação terna e filial.

Dizei-me, conheceis muitas pessoas animadas desta verdadeira piedade, as quais poucas vezes se aproximem da divina Eucaristia? Seria a primeira vez que se vissem efeitos sem causa, pois que a Igreja Católica nos propõe a sagrada comunhão como um ato essencial da piedade. Mesmo a experiência mostra que é tão impossível o ser piedoso, sem comungar muitas vezes, como ter saúde robusta e vigorosa sem uma boa alimentação.

12.°
Desejava comungar muitas vezes, mas o meu confessor não o consente

E porque é que não vo-lo consente? O vosso confessor conceder-vos-ia sem dúvida a comunhão frequente, e até vo-la aconselharia se visse que tínheis as disposições necessárias para dela tirar o devido fruto. Já lhe pedistes com instância esta preciosa graça da comunhão frequente?

«Batei e abrir-se-vos-a, diz o Evangelho; pedi e recebereis»

Acreditai-me: mostrai os vossos bons desejos a vosso pai espiritual, removei os obstáculos, como os hábitos, as negligências, tudo que possa ser causa de não obterdes uma resposta favorável, e vereis que, se até aqui tendes comungado poucas vezes, vossa é a culpa e não do confessor.

«Mas dizeis vós, eu faço da minha parte o que posso; porto-me o melhor possível e sempre me negam a comunhão»

Se assim é, se não estais iludido, oh! Então tenho dó do confessor, porque não cumpre o seu dever e há de responder diante de Deus por vossas tibiezas e frouxidões. Todos os Santos Padres animados do verdadeiro espírito da Igreja são apologistas da comunhão frequente; são os servos fiéis do Evangelho, que conduzem com um zelo incansável as pobres almas para Jesus Cristo, exortando-as a confiança, compelindo-as quanto possível a entrar para o banquete eucarístico, segundo o preceito do Divino Mestre: Compelle intrare ut impleatur domus mea; «forçai-vos a entrar para que se encha a minha casa»; e obrando deste modo, não fazem mais do que aplicar uma regra geral formalmente estabelecida pela mesma Igreja. Com efeito, nós não podemos seguir livremente a opinião que mais nos agrade no tocante a comunhão frequente; temos regras terminantes a este respeito, as quais todos devemos seguir na direção das almas, não as podendo violar sem faltar gravemente a nossa obrigação. A Igreja as resumia naquele célebre catecismo, tão pouco conhecido de certos eclesiásticos franceses (e não mais de alguns portugueses – nota do tradutor), o qual com o título Cathecismus Romanus ad Parochos, foi publicado por ordem do concílio de Trento e a instâncias do Papa São Pio V. O seu objetivo é prescrever o método que os padres devem seguir no ensino dos reis. Ora o supradito catecismo declara, como já dissemos no princípio, que os párocos são obrigados em consciência a exortar as suas ovelhas a comunhão frequente e mesmo quotidiana, por isso que a alma, bem como o corpo tem necessidade de um alimento diário (Cath. Rom. ad Par., 11.ª pars, c. XI); acrescenta que esta doutrina é a dos padres e concílios.

E São Carlos Borromeu, o grande e incomparável arcebispo de Milão, publicando este Catecismo nos dezoito bispados sujeitos à sua jurisdição, sabendo que havia alguns padres opostos a esta santa prática, encarregou os bispos de punirem severamente «Severe puniendos» os párocos que se atrevessem a ensinar o contrário.

Antes de São Carlos Borromeu, e com a autoridade que compete ao supremo pontificado, o Papa Leão IX tinha dado aos padres em uma bula ad hoc, uma instrução não menos formal:

«A comunhão, dizia ele, não deve facilmente ser negada a qualquer cristão e nunca uma tal denegação seja por parte do sacerdote, o efeito dá importância ou duma vontade caprichosa e despótica» – Nulli christianorum communio facile denegetur negue indignanter hoc fiat arbítrio sacerdotis

O Papa Inocêncio XI, de venerável memória, insiste igualmente sobre a obrigação dos bispos e dos padres acerca da comunhão frequente tendo sabido que em muitas dioceses, onde a comunhão
quotidiana estava em vigor, se tinham introduzido vários abusos sobre este excelente costume, teve grande cuidado de conservar o uso legítimo, notando e condenando o abuso, assim como de fazer lembrar aos pastores das almas, que devem dar muitas graças a Deus por um costume tão salutar, e que devem conservá-lo e animá-lo no termo de uma justa prudência. (Episcopi autem, in quorum diocesibus viget hujusmodi [quotidianae communionis] devotio erga sanctissimum sacramentum, pro illa gratias Deo agant, eam que ipsi adhibito prudentiae et judicii temperamento alere debebunt [Decretum 12 de fev. de 1679]).

«O zelo dos pastores de almas, acrescenta o soberano pontífice, vigiará muito particularmente porque ninguém seja privado da comunhão frequente ou quotidiana; o que não obstará às medidas que devem convenientemente tomar-se para que cada um dos fiéis comungue mais ou menos vezes, segundo estiver mais ou menos dignamente preparado» – In hoc igitur Pastorum diligentia potissimum invigilabit, illud que omnino provideat ut nemo a sac. Convivio seu frequenter, seu quotidie accesserit, repelatur; et nihilominus det operam, ut unusquisque digne pro devotionis et praeparationis modo varius aut crebrius. Dominici Corporis suavitatem degustet (Decretum de 12 de fev. de 1679)

Enfim Bento XIV em um breve especialmente dirigido aos bispos da Itália, declara que os prelados, os párocos e confessores não empregariam melhor seu zelo e cuidados, do que em persuadir os fiéis a que sejam tão fervorosos e frequentes na comunhão, como foram os cristãos dos primeiros séculos. Até os Bispos estão sujeitos a estas regras da Igreja e da Santa Sé; e tendo um Concílio provincial de Rouen estatuído que, por causa do respeito devido aos Santos Mistérios, «ob irreverentiam quam potest quotidiana hujus sacramenti sumptio parere», não se desse a comunhão mais do que duas vezes por semana além do domingo, Roma anulou este decreto empregando estas expressivas palavras: «obstare Concilium Tridentinum» É contra a doutrina do Concílio de Trento.

Repito, portanto, não podemos seguir a opinião que mais nos agrade nesta matéria; e o nosso, dever sacerdotal consiste unicamente em aplicar a cada uma das almas em particular, com o necessário discernimento, o princípio geral da comunhão frequente.

Bem sei que há certos padres, aliás muito respeitáveis, que parecem temer que a comunhão frequente faça mal as almas. Enganam-se redondamente, pois que a Igreja ensina o contrário; mas, direi, não é sua a culpa. A culpa está na educação que receberam, educação repassada ainda de não sei que ideias jansenistas, das quais os melhores espíritos nem sempre hão sabido librar-se. Não acuso ninguém em particular; estabeleço apenas princípios absolutamente verdadeiros, pois que são os da Igreja e da Santa Sé. A principal sabedoria de um diretor não consiste em ser católico? Desconfiai, pois, desses bandos, chagados jansenistas e galicanos, que condenam, senão em princípio, pelo menos na prática, o que a Igreja Romana ordena e aconselha. Não confieis nunca a vossa direção espiritual a um eclesiástico, que conheçais eivado de tais prejuízos. Um tal eclesiástico não duvidará substituir ideias particulares e falíveis as certas e infalíveis da Igreja Católica, Mãe das almas, e da verdadeira piedade.

As almas sofrem tanto mais com tal direção, quando ela não só é falsa, mas quase sempre muito apertada e despótica.

«Refere o venerável Luiz de Blois, que Nosso Senhor Jesus Cristo se queixou uma vez daqueles que dissuadiam os fiéis da comunhão frequente. O meu gosto, diz ele, é estar com os filhos dos homens; é para eles que instituí o Santíssimo Sacramento do altar, e aquele que estorva as almas de me receberem diminui a minha alegria»

O venerável padre d’Ávila, tão estimado de São Francisco de Sales e de Santa Teresa, costumava dizer «que aqueles que murmuram da comunhão frequente, fazem o ofício do demônio, que tem um ódio implacável ao Santíssimo Sacramento».

Bendito Deus! Os vestígios do jansenismo vão se apagando cada vez mais em nossas igrejas, por ele tão profundamente desoladas. Hoje mais do que nunca os diretores das almas sabem que, conformando-se com as sagradas regras da Santa Igreja sobre a comunhão frequente, asseguram! Ao mesmo tempo sua felicidade eterna, e a dos fiéis confiados aos seus cuidados. Santa Margarida de Cortona tinha um diretor que sempre a exortou muito à comunhão frequente. Quando ele morreu, Nosso Senhor revelou a Santa Margarida que este bom padre era magnificamente recompensado no céu, pela caridade, com que lhe tinha facilitado o acesso a Sagrada Eucaristia. Também se lê na vida de um santo religioso, chamado Antônio Torres, da Companhia de Jesus, que logo depois da sua morte, apareceu a uma alma santa, e lhe disse que Deus tinha aumentado muito a sua glória no céu, por ter aconselhado a comunhão frequente a todos os seus penitentes.

Feliz o sacerdote que atenta e constantemente se aplica a seguir no exercício do seu sagrado ministério as instruções da Igreja; e felizes também as almas, a quem a bondade de Deus deparou um tal guia no caminho da vida!

13.º
Na minha terra não é uso comungar muitas vezes

Chamai-lhe antes abuso e não uso! Com o outro de usos e costumes, só há introduzido entre nós uma multidão de preconceitos, que, pouco a pouco, têm secado, na tão bela França cristã (como no nosso Portugal outrora fidelíssimo as fontes da vida religiosa – nota do tradutor). Este trabalho destruidor tem durado mais de um século; com fingidas aparências de respeito, chegou a tornar quase impossível a prática da piedade; fez dos nossos templos uns ermos; dos nossos corações áridos desertos; e foi com grande dificuldade que, há uns vinte anos, sacudimos esta poeira, estes usos desastrosos. Muitas paróquias, restituídas a piedade pelas verdadeiras doutrinas católicas, e pelo zelo ilustrado de bons e corajosos padres, têm já experimentado os efeitos da comunhão frequente. Conheço alguns países, a quem ela, em poucos anos, tem completamente mudado. Efetivamente, para uma paróquia, como para um país, ou para uma alma, a Sagrada Comunhão é o foco da vida.

Por amor de Deus, ponhamos todos mãos a obra, sem respeitos humanos, sem medo nem covardia; sacudamos o jugo da mentira. Fazendo pedaços o gelo, que estorva os raios do sol de penetrar até à água viva, salvaremos os pobres peixinhos, há tanto tempo entorpecidos; daremos a vida e a alegria a muitas almas que desfalecem, porque se lhes nega a recepção de Jesus Cristo. Os usos bons são tão respeitáveis quanto perigosos os abusos. O abuso de não comungar é o pior de todos, e um dos mais fortes e poderosos obstáculos a regeneração cristã do nosso país.

14.°
Basta comungar pelas festas principais, ou quando muito uma vez por mês

Isso mesmo ainda é muito, quando se comunga sem amor, e quando se considera a comunhão como um dever custoso de cumprir. A comunhão mensal é boa sem dúvida; mas muito se enganaria quem julgasse satisfazer desse modo ao desejos da Igreja, e praticar um ato de grande piedade. São Francisco de Sales não pensa assim; declara ele que, nas comunhões de um cristão verdadeiramente zeloso da sua salvação, o mais largo espaço de tempo que entre uma e outra deve mediar, é o de um mês. O já citado Catecismo Romano parece indicar a mesma regra: aconselhando a comunhão quotidiana, semanal ou mensal, parece supor que não se pode ir mais além.

Esta Comunhão mensal, instituída em muitas confrarias, catequeses e casas de piedade, é como a comunhão semanal fixada pelos estatutos nos seminários e comunidades é o mínimo, ou o menos; e não o máximo, ou o mais; é necessário seguir estas regras com o mesmo espírito que as ditou, — espírito de piedade católica que, desejando com a Igreja uma comunhão muito mais frequente, teve que marcar um termo fixo para as almas pouco fervorosas.

O sentido destes louváveis estatutos e usos deve interpretar-se pela grande regra superior a todas as outras, quero dizer o ensino tradicional da Igreja e da Sé Apostólica. Já se vê qual seja este ensino Sagrado, que o Papa Bento XIV assim resumia:

«Não há ninguém a quem a comunhão mensal não possa ser aconselhada, e há poucas almas a quem a comunhão semanal deve ser negada»

Santo Antônio, arcebispo de Florença, tinha claramente expressado estes mesmos sentimentos:

«Exorto, escrevia ele, a comungarem todos os domingos, toda aquela pessoa que não tem a consciência manchada de pecado mortal» (Pars. III, tract. XIV, cap. XII)

São Francisco de Sales, recomendando a todos os cristãos na sua Introdução à Vida Devota esta comunhão de todos os oito dias, parece menos claro e preciso que a maior parte dos outros Santos, no tocante a comunhão quotidiana; mas tem-se exagerado muito o sentido das suas palavras. Limita-se ele a declarar, e com muita razão, que a comunhão de cada dia não pode ser aconselhada indistintamente a todos os fiéis:

«porque, diz ele, devendo ser muito apurada a disposição que demanda tão frequente comunhão, não é bom aconselhá-la a todos em geral. Mas, porque esta disposição, conquanto apurada, se pode encontrar em muitas almas boas, também não é bom dissuadir e desviar dela a todos geralmente; antes sim se deve tratar ponto tão delicado, atendendo ao estado interior de cada um em particular. Seria imprudência aconselhar a todos sem distinção este uso tão frequente; mas também não seria menos imprudência criticar qualquer pessoa por tal motivo, mormente se ela obra por conselho de algum digno diretor» (Liv. XI, cap. XX).

Como regra prática, nada conheço mais claro e simples do que o que disse Santo Tomás sobre a Sagrada Comunhão. Depois de ter exposto a doutrina católica sobre a comunhão quotidiana, fundando-se na autoridade dos padres, e em particular no celebre dito de Santo Agostinho:

«E o pão de cada dia, recebei-o pois cada dia, a fim de que vos aproveite cada dia; mas vivei de tal sorte que possais recebê-lo cada dia»

O doutor Angélico estabelece este excelente principio:

«Quando uma pessoa sabe por experiência que a comunhão quotidiana aumenta o amor de Deus em seu coração, e que o seu respeito para com o Santíssimo Sacramento nada por isso diminui, deve comungar todos os dias» (S. Thom. in libro quarto Sententiarum)

Se estais neste caso, comungai todos os dias. Se quereis contentar-vos com a comunhão de cada semana, depende isso da vossa vontade. É a comunhão ordinária dos bons cristãos; mas não é a comunhão frequente, como Santo Afonso de Ligório ensina formalmente. Ele não chama comunhão frequente senão aquela que é feita muitas vezes por semana. Poderá dizer-se, acrescenta o Santo bispo cujos princípios de moral têm sido juridicamente examinados e confirmados pela Santa Sé, poderá dizer-se que qualquer assiste muitas vezes à Missa, limitando-se a ouvi-la nos domingos e dias de festa? Certo que não. Pois também se não poderá dizer que comunga muitas vezes aquele que comungar todos os oito dias.

Em todo o caso, «não vos habitueis a medir a comunhão pela lei do tempo; pela pureza de consciência é que deveis regular-vos para aproximar-vos ou não da Sagrada Comunhão», diz São João Crisóstomo; e Santo Ambrósio:

«Aquele que não tem a pureza necessária para comungar todos os dias, menos a terá para comungar uma vez no ano»

15.°
Em resumo tudo isto é exageração e impossível de praticar

Não só não é impossível, mas muito fácil de praticar, como o prova o viver de muitos piedosos fiéis; e a exageração está toda da parte dos jansenistas ou meio-jansenistas, que exigem para a comunhão uma perfeição, a que mal pode atingir a pobre criatura humana. Ah! Que seria de nós, os padres que temos o santo costume de dizer Missa todos os dias? Não temos nós também como os outros fiéis, as nossas misérias, as nossas imperfeições, as nossas fraquezas de todos os dias? Nenhum padre, notai bem, nenhum está obrigado a dizer Missa todos os dias; os mesmos párocos não são obrigados a isso senão nos domingos e dias de festa. Será logo um abuso a nossa comunhão quotidiana? Quem se atreverá a dizê-lo? Pelo contrário não é bem claro que, apesar da imperfeição tão frequente das nossas disposições a celebração do Santo Sacrifício em todos os dias e a comunhão quotidiana são a nossa principal salvaguarda, já nossa salvação, o princípio de toda a nossa força, o segredo da nossa castidade, já fonte do nosso zelo e nosso amparo nos perigos de cada dia?! Quereremos ter dois pesos e duas medidas, uma para nós, e outra para os nossos irmãos? Qual de nós quererá fazer como os fariseus do Evangelho, e impor aos outros obrigações que não se atreva a tomar sobre si?

Nada do que aconselha a Igreja Católica é exagerado, nem impossível de praticar. Ela nos ensina a verdade na piedade; ouvi-la, é ouvir o mesmo Senhor nosso; desprezar os seus conselhos é desprezar a luz de Deus.

É de pasmar ver alguns católicos e as vezes até alguns padres, fazerem tão pouco caso duma autoridade divina. Sede lógicos em vossa crença, em todas as suas consequências práticas. Credes e sabeis que é Jesus Cristo quem fala por sua Igreja; não vos contenteis de a ouvir e aprovar o que ela diz; ide até o fim, e praticai também o que ela ensina.

Deixai murmurar aqueles que nada querem com a verdade. Deixai-os alardear: do que eles têm como respeito devido ao Santíssimo Sacramento, e que não é em suma senão um temor servil, que revela, ao mesmo tempo, pouca inteligência dos mistérios de Jesus Cristo, e muito aferro as suas próprias ideias.

Quanto a vós verdadeiros filhos da Igreja, caminhai em paz pelo caminho que vos hão ensinado os santos: e com os apóstolo, os mártires e todos os primeiros fiéis; com Santo Ambrósio, São João Crisóstomo, São Jerônimo, Santo Agostinho; com São Francisco de Assis, Santo Tomás de Aquino, São Boaventura; com São Filipe Neri, São Carlos Borromeu, Santo Inácio, São Caetano, São Francisco de Sales, Santo Afonso de Ligório; com Belarmino, Fénelon, Bourdaloue e tantos outros, que a porfia tem exaltado a comunhão frequente, a comunhão de todos os dias, a verdadeira comunhão católica; não temais nem a exageração nem o erro .

«Alegrai-vos no Senhor; sim, eu vo-lo digo, alegrai-vos» (Fl 4, 4)

E querendo viver para Jesus Cristo, alimentai-vos abundantemente de Jesus Cristo.

A Comunhão Frequente aos Meninos

Vendo-se o pouco assento e volubilidade das crianças, talvez se cuide que não podem elas comungar frequentemente, e que as regras da Igreja, neste ponto, só respeitam as pessoas crescidas. Não é assim, antes é isso um desses de pioráveis prejuízos, que causam a ruína de um sem número de alminhas, entregando-as sem apoio nem defensa aos terríveis ataques das paixões.

Os meninos, assim como as pessoas grandes, podem e devem comungar muitas vezes. Nosso Senhor não lhes pede senão o que eles são capazes de lhe dar, e conhece melhor de que nós essa volubilidade e falta de assento que nos assusta; assim como, melhor do que nós, sabe que a inocência é o mais precioso de todos os tesouros, que o demônio quer roubar-lhes cedo, e que só a comunhão pode defendê-los dos embustes e ciladas de tão formidável inimigo.

Nunca se comunga demais, quando se comunga bem, dissemos nós acima; e para bem comungar, basta receber o Salvador com uma sincera e boa vontade. Este princípio é tão aplicável aos meninos, como aos homens; e assaz tem mostrado a experiência que nada há mais sincero do que a boa vontade de um menino que acaba de fazer a sua primeira comunhão. Ele ama a Jesus Cristo, e deseja recebê-lO em seu peito: porque negá-lO? Mais digno é ele, e quantas vezes de O receber, que nós outros, que menos acabamos e desfazemos em Sua piedade.

«Deixai vir a mim os meninos, nos diz o divino Mestre; o reino dos céus é para os que a ele se assemelham»

O reino do céu, cá na terra, é a Eucaristia.

«Mas, dizeis vós, os meninos são levianos e distraídos»

É verdade, mas é por isso mesmo que convém fazê-los comungar muitas vezes, quando eles amam e querem amar a Nosso Senhor. A leveza do ânimo, as distrações não são um obstáculo a comunhão, senão quando voluntárias. Para um menino, uma semana corresponde a um mês: nesta idade as impressões sucedem-se vivas e rápidas; é necessário, pois renovar muitas vezes as impressões cristãs, se se quer preparar para o futuro homens valentes na fé!

Os meninos são distraídos; é verdade, mas são bons e afetuosos; é preciso ministrar a necessidade, que eles tem de amar, o seu verdadeiro alimento; é preciso fazê-los amar a Jesus Cristo, e para isso é de muita necessidade fazê-los estreitar com Ele, e por muitas vezes, as mais íntimas relações de ternura e afeto. Seus defeitos, conquanto verdadeiros, são de pouca importância, e a piedade é que há de fazer que não degenerem em vícios. Um menino cristão, feita a sua primeira Comunhão, deve ter como regra o Comungar todos os domingos e dias de festa; salvo, se o seu diretor, seus pais ou mestres conhecerem nele uma evidente falta de boa vontade. Ainda assim cumpriria prescrever-se-lhe uma tal privação da Sagrada Comunhão em suma cautela e prudência; porque o perigo dos maus costumes, esse perigo que paralisa de susto o coração maternal, e que só a Sagrada Eucaristia vitoriosamente combate e debela, para logo se manifesta. Quereis, pois, conservar a inocência e pureza do vosso filho? Fazei que ele comungue muitas vezes, e nunca reproveis a direção do confessor que lhe prescreve a comunhão frequente. Quantos pais e mães, sem quererem, são, por um zelo mal entendido, a causa principal da perda de seus filhos! Quantos não temos conhecido que lhes foram a causa direta e fatal dessa mesma corrupção, de que tão vivamente se temiam! Não é a comunhão frequente, que deveis temer para vosso filho; é sim o seu descuido em comungar, e o seu pouco fervor para com o Santíssimo Sacramento. Tudo há de temer de um menino que se afasta de Deus.

Mas receamos pelo futuro; é melhor ir mais devagar ao principio; é sempre triste coisa o tornar para trás. E porque hão de tornar para trás? E porque hão de estes bons e piedosos meninos cessar de amar a Deus? O melhor penhor, a mais segura caução de um futuro cristão não será porventura uma puerícia fervorosa? Se quereis que vosso filho seja, de futuro, valente contra o mal, deixai-o, desde agora, beber a largos sorvos na fonte de toda a força, deixai-o unir-se intimamente com o princípio de toda a fidelidade. A sua piedade presente será o penhor da sua piedade futura, e a inocência conservada será para vós e para ele a aurora de uma pura adolescência. Se, apesar da Sagrada Comunhão, acontece muitas vezes que os meninos não podem evitar todas as quedas, que será sendo privados do «pão sagrado que faz germinar as virgens»? Poucos meninos há a quem baste uma comunhão por mês; e quase nenhum que não possa colher grande fruto da comunhão semanal; comunhão que tenho por necessária aqueles que são inclinados às paixões dos sentidos. Confesso, todavia que, até a idade de quatorze ou quinze anos, poucos há que sejam assaz piedosos para comungarem mais de uma vez por semana; mas todos aqueles que amam muito a Nosso Senhor, que vigiam atentamente sobre si mesmos e que não cometem nenhum pecado com propósito deliberado, podem comungar com muito fruto, duas ou três vezes por semana.

Nos primeiros séculos, os meninos eram admitidos, como as pessoas grandes, a comunhão de cada dia, recebiam no Sacramento de Jesus Cristo esta vigorosa seiva da vida cristã, este espirito de fé, de oração e de fervor que tem dado a Igreja santos e mártires de dez, doze e quinze anos. O poder de Deus é sempre o mesmo infinito. Iguais meios hão de produzir no nosso século iguais resultados: sim a comunhão ministrada na puerícia, nela fará ainda germinar santos.

«Receamos, dizem enfim certos pais, que nosso filho se dê muito a piedade e que acabe por querer ser padre, por querer consagrar-se a Deus»

Piedade e vocação serão porventura termos sinônimos, significarão exatamente a mesma coisa? Recear a vocação é já um grande desatino em pais cristãos, pois que a consagração a Deus é, com certeza, «a melhor parte», e uma graça especial, um favor singular do céu feito a uma família toda; porém ter medo da piedade é uma loucura completa. A piedade é o bem, é a verdadeira felicidade; «é útil para tudo, diz a Escritura, como enriquecida que está com as promessas da vida futura e também da vida presente». Ninguém é piedoso de mais, porque também ninguém é bom de mais. Pobres crianças, a quem perdem com tais desvarios!

Deixemos, pois, aos meninos esta liberdade religiosa a que só pode abrir-lhes o coração e iniciá-los na vida cristã. Nós não temos mais direito a intimidá-los, que constrangê-los, mormente no que respeita aos Sacramentos. Instruamo-los, dirijamo-los; cerquemos de nossos desvelos e cuidados a sua falta de experiência, nada melhor; é um direito e dever nosso: mas que nossas instruções e direções sejam, antes de tudo, católicas e nunca cheguem a embaraçar a liberdade de consciência. Depravam-se as almas por este abuso de autoridade, e, sem o querer, atalham-se os desígnios que Deus sobre elas tem. Portanto não se afastem os meninos da comunhão frequente. Se desejamos criar gerações cristãs, esforçadas, valentes, haja cuidado de ministrar aos meninos a Sagrada Eucaristia, porque gerações cristãs assim só a Eucaristia as faz.

«Mas não será isso exigir uma coisa impossível? Os padres, sobrecarregados de trabalho, não podem, apesar de todo o seu zelo, cuidar assim de todos os meninos, formá-los na piedade e pô-los em estado de comungarem muitas vezes»

Sou o primeiro a reconhecer tudo isso, com dor o digo. Creio todavia, que se tivesse na devida conta esta parte, tantas vezes descurada do santo ministério, preciosos resultados poderiam ainda, esperar-se; e quando não pudessem iniciar-se na piedade a todos os meninos, pelo menos nunca, deixaria de haver oportunidade para preparar a comunhão frequente aqueles que, por sua inteligência, seu bom coração e ótimas disposições, dessem as melhores esperanças.

Ponham os eclesiásticos e pais de família, encarecidamente lho peço, neste ponto tão capital a mais desvelada solicitude e madura atenção!

A Comunhão Frequente para Adolescentes

O que acabo de dizer dos meninos se aplica, com mais justa razão aos adolescentes de dezesseis a vinte anos, idade terrível, em que a luta das paixões vem juntar-se aos exemplos corruptores do mundo, e a mil dificuldades exteriores. São Filipe Neri, que dedicava a sua vida a santificação da mocidade romana, e cujo testemunho tem o duplo valor de uma santidade angélica e de uma experiência muito especial, dizia que a comunhão frequente, junta a devoção para com a Santíssima Virgem, era, não o melhor, mas o único meio de conservar um adolescente nos bons costumes e na vida da fé, de o levantar de suas quedas e de corrigir seus defeitos. Em certo dia, veio um estudante procurá-lo, suplicando-lhe que o ajudasse a desenredar-se de maus hábitos, que muito tempo o escravizavam. São Filipe o consolou, deu-lhe sábios conselhos, e, depois de ter ouvido a humilde confissão das suas fraquezas, o mandou absolvido e feliz, recomendando-lhe viesse comungar no dia seguinte.

«Se, o que Deus não permita, recairdes no pecado, vinde logo ter comigo, acrescentou ele, e confiai na bondade de Deus»

Na tarde do dia seguinte via São Filipe chegar ao seu confessionário o pobre jovem para lhe confessar uma recaída. O bom santo o tornou a levantar esta segunda vez como da primeira, recomendou-lhe que lutasse com coragem, e de novo lhe deu a absolvição, ordenando-lhe, como na véspera, recorresse ao Sagrado Corpo do Senhor. O estudante, combatido de um lado pela violência do hábito, e do outro pelo desejo de converter-se para Deus, recebe nesta direção misericordiosa e na frequência da Sagrada Eucaristia uma tão vigorosa energia, que por treze dias sucessivos veio procurar o Santo, tão incansável em sua caridade, como ele em sua penitência. Venceu por fim o amor, e Jesus Cristo contou nas fileiras dos seus fiéis um novo servo, que em pouco tempo fez tão rápidos progressos de santidade, que São Filipe o julgou digno do sacerdócio. Admitido depois na congregação do Oratório, edificou os habitantes de Roma com seu zelo e virtudes, e morreu ainda novo muito santamente. Comprazia-se em contar ele mesmo a história da sua conversão, para animar os pobres pecadores e fazer compreender aos adolescentes que a comunhão frequente era a sua salvação.

Quanto eu desejaria capacitar também disto a todos, e vê-los recorrer a participação do Sagrado Corpo de Jesus Cristo! O adolescente, pelo ardor mesmo da sua idade, é empuxado para dois extremos: o amor fatal da sua carne revoltada que o desdoura e perde, e o amor do Santíssimo e adorável Corpo do Salvador que o santifica, protege e lhe dá a força de vencer suas paixões. Forçoso é escolher; não querendo este segundo amor, abraçará o primeiro. Aos dezoito ou vinte anos, sem a Eucaristia não é possível a continência, e muito menos essa constância no bem, essa singeleza e ingenuidade na mais forte e veemente das paixões, e todas essas virtudes a desabrochar apenas, que fazem do jovem cristão o que há de mais belo e respeitável sobre a terra. Que admirável mudança se daria em nossos colégios e escolas públicas, se a comunhão frequente aí se estabelecesse! Em lugar de uma imoralidade que revolta o coração, em vez de uma indiferença religiosa mais corruptora ainda que os maus costumes, ver-se-ia a nossa mocidade portuguesa naturalmente tão dócil, tão viva, tão amável, dotada de tão belas qualidades da alma e do coração, levantar-se novamente da ignorância em que vive, há século e meio a esta parte; dar, como noutro tempo, a Igreja e a pátria homens de subido merecimento; longe de Jesus Cristo tudo desmaia, definha tudo, e nada pode florescer, nada tem vigor senão por virtude de seu divino contato. A experiência mostra bem qual é a influência da comunhão sobre a vida de um adolescente. Não há vícios que uma regular frequência dos Sacramentos não venha de toda a extirpar, não há ressurreição moral que ela não possa levar ao cabo. Jovens, como quer que sejais, inocentes e puros ainda, ou de pecados já enodoados, vinde, oh! Vinde a comunhão, que só a comunhão é capaz de manter-vos ou restabelecer-vos na prática da virtude. Nada é mais fácil, acreditai-me, do que ser casto com a Eucaristia. O que não podeis fazer sem Jesus, facilmente com Jesus o fareis. Atentai bem no futuro que vos aguarda: se quereis vir a ser homens de bem, necessário é que dignamente passeis a vossa adolescência e para que, nessa idade, a vossa vida seja pura, a vossa reputação sem labéu, outro meio não tendes a empregar que valha, senão — deixai-me repeti-lo ainda uma vez— senão a Sagrada Comunhão.

A Comunhão Frequente nos Seminários

Se no mundo há um lugar, em que se deva comungar muitas vezes, sem dúvida nos grandes e pequenos seminários, onde vão abrigar-se à sombra dos altares os jovens escolhidos, que o Salvador, por Seu amor infinito, predestina a tomar parte no Seu divino sacerdócio. Em muitos seminários permite-se aos ordenandos o seguirem livremente o santo atrativo, e, por assim dizer, o instinto da graça, que os move a comungar muitas vezes. Nem poderia ser de outro modo; a vocação ao amor de Jesus Cristo pede necessariamente a participação do sacramento do seu amor. A comunhão frequente e regular é e deve ser o primeiro artigo dos estatutos de um seminário, porque sem ela as vocações não poderão firmar-se, e ainda menos desenvolver-se.

A vocação eclesiástica é aquela reunião de boas qualidades e atrativos, que tornam um jovem apto para de futuro vir a ser um bom padre. Estas qualidades e aptidão vêm de Deus, e é neste sentido que a vocação ao sacerdócio é uma escolha divina. Mas as vocações são como as plantas: para que o olho duma planta, dum lírio, por exemplo, possa crescer e desenvolver suas folhas e belas flores, são necessárias certas condições, faltando as quais, tudo se perde; é necessário uma boa terra, certa porção de sol, de calor de orvalho; são necessários contínuos cuidados para livrar a sua haste de tudo que possa quebrá-la. Assim é também a respeito da vocação ao sacerdócio; para que ela cresça e vingue é necessário uma afluência de cuidados, uma direção, uma atmosfera de santidade, coisas todas, sem as quais a vocação infalivelmente se perderá.

O seminário é a terra escolhida, onde a Igreja, transplanta aqueles de seus filhos, que querem ser um dia seus ministros; e a santa comunhão junta com a oração, é ao mesmo tempo o calor que vivifica e o orvalho celeste que alenta estas queridas plantas de Jesus Cristo.

Não sei compreender como um seminário possa ser seminário sem a comunhão frequente; e o mesmo digo de qualquer noviciado ou comunidade religiosa. Um ordinando que não se sinta atraído para a Sagrada Eucaristia, mal poderá vir a ser um bom sacerdote; e um diretor que não compreenda a importância e mesmo a necessidade da comunhão muito frequente para os alunos do santuário, não merecerá jamais as honras dum bom diretor, nunca poderá ser tido na conta dum hábil cultor das mimosas plantas de Jesus Cristo.

Os Seminários de São Sulpício sempre se hão distinguido dos demais todos por seu amor à Sagrada Comunhão. Em cinco anos que vivi no de Paris, nem um só dia se passou sem que um certo número de estudantes participasse dos santos mistérios; todas as quintas-feiras e domingos a comunhão era quase geral, sendo muitos os que comungavam todos os dias, ou quase todos os dias. No tocante a Sagrada Comunhão dizemos dos pequenos seminários o mesmo que já dissemos dos grandes. E, enquanto se vive nos pequenos seminários, isto é, dos doze aos vinte anos, que ocorrem as primeiras crises da puberdade, que a inocência se perde ou se conserva, que se formam os bons ou maus hábitos, que enfim o mesmo chega a ser homem, Jesus Cristo deve presidir pela Sagrada Comunhão a estes anos de transição, tão importantes e decisivos; só Ele pode defender Seus filhos; Ele só salvará o navio de soçobrar em tão violenta borrasca. Falo com experiência: o pequeno seminário tem pelo menos tanta necessidade da comunhão frequente, como o grande; a comunhão frequente, em um persevera, noutro aperfeiçoa. Mas como aperfeiçoar o que não houver preservado do contagio do pecado?! Conheço um dos pequenos seminários mais importantes da França, que produz excedentes frutos, graças aquela divina cultura de que há pouco falei. Poucos meninos há lá, mesmo dos mais novos, que não comunguem ao menos uma vez por semana, comungando mais vezes ainda alguns dos mais fervorosos. Nas classes superiores, está em seu pleno vigor a comunhão de duas, três e quatro vezes por semana, e para alguns alunos destas classes até a comunhão diária. E por isso, que boa e cordial piedade, que espírito católico, que regularidade, que pureza de costumes se vê reinar nesta casa abençoada!! Estes jovens ordinandos quando chegam a entrar no grande seminário, levam já o espírito formado na piedade, e conseguintemente vão o mais bem preparados possível para as santas fadigas que os aguardam.

Oxalá que nas atuais necessidades da Igreja lhe prepare Nosso Senhor muitos verdadeiros padres, assim educados, segundo as regras católicas, no puro espírito do Evangelho e da Igreja, e neste terno, constante e eficaz amor para com Deus, a quem os padres, como é da sua missão, devem fazer reinar em todas as almas!

A Comunhão Frequente para os Aflitos e Enfermos

Sempre e em todos os casos temos necessidade de Nosso Senhor; mas esta necessidade se torna mais que nunca sensível nas aflições, nas penas e sofrimentos. Do fundo do Seu tabernáculo, o divino Consolador nos convida e nos brada:

«Vinde a mim, todos os que sofreis e estais oprimidos, e eu vos consolarei»

Só Ele enxuga as lágrimas, ou pelo menos as sabe suavizar; só Ele restabelece, em nosso pobre coração estortegado pelo sofrimento, a paz, a esperança e aquela intima alegria, toda sobrenatural, que só os cristãos, conhecem, e que tão maravilhosamente se combina com as lágrimas. Pode um cristão estar agonizando de dor, e não ser infeliz.

«Eu choro, dizia um dia tranquilamente certa mãe que acabava de perder sua filha única, eu choro, e todavia estou contente»

É que ela comungava todos os dias.

Em Jesus Cristo achamos a eternidade, achamos o céu. Recorramos a Ele, quando sentirmos nimiamente amargo e pesado o desterro desta nossa vida de misérias. Recorramos ao Santíssimo Sacramento, que nos fará esquecer o mundo e suas provações, e suas cruzes e seus combates, e suas injustiças. Jesus Cristo nos ensinará em pessoa o segredo de sofrer com paciência: e, tomando para si nossas amarguras, dar-nos-á em troca a Sua paz e a Sua fortaleza. Quando a moléstia nos atacar recorramos a Jesus; Ele é o melhor de todos os médicos, a Sua visita produzirá ao mesmo tempo alívio em nosso corpo e alegria em nosso coração. Todo o cristão enfermo deveria comungar pelo menos uma vez por semana, e isto logo desde o princípio da sua enfermidade; o médico do corpo só deveria ser chamado depois do confessor; a terra depois do céu; o tempo depois da eternidade; é assim que se pratica em Roma. Estas comunhões, se a doença não é mortal, farão de vossos dias de sofrimento, dias de santificação, o que muito influirá no vosso futuro; se for, elas vos serão excelente preparação para a Extrema-Unção, e para aparecerdes já purificados pelo amor na presença de Deus.

Procurai estas mesmas graças para vossos filhinhos, quando caírem enfermos, a Igreja nos ensina formalmente que eles podem e devem comungar logo que cheguem ao uso da razão, e o Papa Bento XIV declara ser suficiente que o menino «possa distinguir a diferença que há entre este celestial alimento e o alimento ordinário». Quão santamente comungam os meninos enfermos a graça batismal opera neles uma força admirável, e os prepara melhor do que nós o poderíamos fazer, ainda empregando os maiores esforços, para dignamente receberem a Sagrada Eucaristia.

Conclusão

Meu caro leitor, qual é a conclusão prática que deveis tirar desta obrinha? Que deveis doravante comungar todos os dias? Um tal conselho dado indistintamente seria sobremaneira imprudente; pelo que eu não vos exorto com Igreja comungar todos os dias, a não ser que vivais ou queirais viver inteiramente para Deus.

O fim que me propus foi fazer-vos conhecer bem o objeto e o uso da Eucaristia, excitar em vós o desejo da comunhão muito frequente e quotidiana, evitar que murmureis daqueles que a praticam santamente, e mostrar-vos, enfim, que bem longe de nos temermos da Sagrada Comunhão, devemos todos recebê-la muitas vezes, e realizar mais e mais os votos da Igreja, que todos são dadas estas condições, pela comunhão diária. Comungai, comungai muitas vezes, e propagai, quanto em vós couber, a prática da comunhão frequente, essa prática que tão agradável é a Nosso Senhor Jesus Cristo.

Não deis ouvidos aos contraditores, ajustai com a vossa fé o vosso procedimento e segui com passo firme pelo trilho dos Santos.

«Comungai muitas vezes, Filotéia, diz São Francisco de Sales, e o maior número de vezes que vos for possível com licença do vosso pai espiritual, e assim como as lebres dos nossos montes se fazem brancas no inverno, porque outra coisa não veem, nem comem senão neve, assim vós também, acreditai-me, a força de ver e comer a formosura, a bondade e a pureza por essência neste divino Sacramento, vireis a ser muito formosa, muito boa e muito pura»

Sancte ac frequenter
Santa e frequentemente
(Ritual Romano)

(SÉGUR, Monsenhor de. A Sagrada Comunhão. Livraria Católica Portuense, 1904, 2ª edição.)