A Pequena Trilha de Santa Teresinha, traduzido por Pe. Pascoal Lacroix

A Pequena Trilha, a Trilha Heroica, a Trilha Real e a Trilha Triunfal

Por Antonin Eymieu, S. J.
Traduzido do Francês e editado pelo Pe. Pascoal Lacroix (1935)

Índice

Prefácio do Autor
Prefácio do Tradutor
A Pequena Trilha
Em que consiste essa pequena trilha
O que não é a pequena trilha
A Trilha Heroica
A Teoria
A Prática
A Trilha Real
O Amor
A subida do Calvário
Consummatum est
A Trilha Triunfal
O Tufão de Glória
As Previsões de Teresinha
Conclusões
Aniversários de Santa Teresinha
Novena dos 24 Gloria Patri
Oração que se pode recitar todos os dias
2 Orações de Santa Teresinha
Oração a Santa Teresinha do Menino Jesus pelo Clero
Cântico à Santa Teresinha do menino Jesus

Prefácio do Autor

Um livro a mais — Oh! Bem pequeno — sobre Teresa de Lisieux. E há tantos! Porém, grandes ou pequenos, leem-nos todos. Bem pode suceder que leiam este também.

Porquanto, feito em grande parte com citações da Santa, talvez achem nele um perfume da sua alma — dessa alma que conserva o dom de atrair as almas e de levá-las para Deus, na luz e na paz.

Prefácio Do Tradutor

O presente opúsculo — A trilha de Santa Teresinha — está para a História de uma Alma, obra escrita pela própria Santa Teresinha do Menino Jesus, como a Imitação de Cristo está para os quatro Evangelhos.

A Trilha de Santa Teresinha representa acertada síntese da monografia da Santa. Sem entrar mais nas circunstâncias acessórias e dispensáveis, aponta o que da História de uma Alma deve cada um tirar para si. Os capítulos em que se divide o opúsculo formam as quatro faces da mesma santidade.

A Trilha de Santa Teresinha constitui a sinopse psicológica admirável da História de uma Alma. É, aliás, esta mesma em miniatura, artisticamente esculpida.

Mas é, por outro lado, muito mais que simples resumo do livro da Santa. É a essência do espírito de Santa Teresinha. Reduzindo-o a uma fórmula concisa, constitui não só a edição mais nova, mas também a mais perfeita da História de uma Alma, por adaptar-se a vida impulsiva e rápida do homem moderno.

Neste opúsculo tão pequenino, Santa Teresinha tornou a escrever a História de uma Alma pela mão de um devoto, para guiar também o homem moderno — descobridor de caminhos mais simples para o progresso técnico, — pela sua trilha simplificada da infância espiritual, rumo à eterna felicidade.

Desta arte, A Trilha de Santa Teresinha realiza maravilhosamente o supremo escopo que a Santa propôs a sua obra, qual seja dar aos homens muito mais do que uma simples história interessante, isto é, apontar-lhes o caminho a trilhar, trilhando-o ela antes, como precursora e exemplar, até as culminâncias da perfeição.

Por ironia da sorte e pela lógica do postulado medicinal contraria contrariis, A Trilha de Santa Teresinha é a trilha a que o homem moderno tem que volver, e a qual deve ir ter, para nela terminar, o progresso humano. É que a nossa época é a época da supra-cultura senil, dos extremismos e da complicação sempre crescente da vida inteira, ao passo que A Trilha de Santa Teresinha é a trilha da clareza, da simplicidade, da santa infância enfim.


A Pequena Trilha

Teresa de Lisieux, dizia Pio XI, abriu uma senda nova, a “pequena trilha”, accessível a todos e que leva até à santidade.

Em que consiste essa Pequena Trilha

Santa Teresinha nos vai dizer: Teve ela sempre o grande desejo de chegar à santidade, vendo embora a incomensurável distância que a separava de todos os Santos. Em vez de desanimar, dizia consigo:

“O bom Deus não poderia inspirar desejos irrealizáveis; posso, pois, apesar da minha pequenez, aspirar à santidade. Fazer-me maior é impossível, devo-me suportar tal qual sou, com as minhas imperfeições sem número; mas quero achar o meio de ir para o céu por uma pequena trilha bem reta, bem curta, uma pequena trilha inteiramente nova”

Estamos num século de invenções; agora não vale mais a pena galgar os degraus duma escada. Entre os ricos, um elevador substitui-a vantajosamente. Eu de mim quisera achar um elevador para chegar até Jesus, porque sou pequena demais para galgar a rude escada da perfeição. Então, li nos livros santos:

“Se alguém é pequenino, venha a mim”

Aproximei-me, pois, de Deus, adivinhando bem que tinha descoberto o que procurava.

“Querendo ainda saber o que faria Ele ao pequenino, continuei as minhas investigações. Eis o que achei: ‘Qual uma mãe acaricia o filho, assim eu vos consolarei. Carregar-vos-ei ao seio e vos embalarei aos joelhos’. Ah! Nunca palavras mais deliciosas, mais ternas, me vieram rejubilar a alma. O elevador que me deve elevar até ao céu são Vossos braços, ó Jesus! Para isso, não preciso crescer; devo, ao contrário, ficar pequenina. Fazer-me pequenina cada vez mais”

Ficar pequena, fazer-se criança cada vez mais: tal é o segredo de Teresinha.

A criança sente-se fraca e pobre, mas fia-se na força e na riqueza dos pais. A desconfiança de si, a confiança em Deus: eis os dois traçados paralelos que assinalam a “pequena trilha.

A desconfiança de si, a convicção de que não é nada, de que nada tem, de que nada pode, Teresinha sente-a, proclama-a, canta-a, compraz-se, pois vê nisso o seu melhor título, as bondades de Jesus.

“O que agrada a Jesus na minha pequena alma é ver-me amar a minha pequenez, a minha pobreza; é Jesus que faz tudo em mim, e eu nada faço senão ser pequena e fraca”

“Para ser de Jesus, há que ser pequena, pequena como a gota de orvalho”.

E ela se resguardará bem de crescer.

“Até entre os pobres, dá-se a criança o que lhe é necessário; mas, logo que ela cresceu, o pai não quer mais sustentá-la e lhe diz: Trabalha agora, já te podes bastar. — Pois bem, acrescenta ela, foi para nunca ouvir isto que nunca quis crescer, sentindo-me incapaz de ganhar minha vida, a vida eterna do céu; porquanto eu nunca soube fazer nada sozinha”.

Esta desconfiança de si, quando voluntária e amada, toma outro nome, augusto e que nos parece terrível: chama- se humildade.

“O espírito de infância, diz Monsenhor Charles Gay, mata o orgulho muito mais seguramente que o espírito de penitência”

Teresinha matou o orgulho.

“A maior coisa, assevera, que o Todo-Poderoso fez em mim foi ter-me mostrado a minha pequenez, a minha impotência para todo bem”

Ela vai até se felicitar das próprias imperfeições, porque lhe fazem sentir melhor a sua fraqueza.

“É tão doce a gente se sentir fraca e pequena”

Tem horror ao “óleo dos louvores, tão delicioso à natureza, mas que lhe poderia amolecer a cabeça”. “Os cumprimentos só lhe causam desprazer”, ao passo que as censuras “lhe são festim delicioso a encher-lhe a alma de alegria”. “Desejei ardentemente ser humilhada”, afirma ela.

Há, porém, uma humilhação mais requintada: é o esquecimento; e é esse o anelo de Teresinha. No dia dos primeiros votos trazia este bilhete ao seio:

“Ó Jesus, fazei que ninguém se ocupe de mim. Seja eu calcada aos pés. Esquecida qual grãozinho de areia”

Ainda postulante, escrevia a uma de suas irmãs:

“Não quero mais nada senão o esquecimento; não o desprezo, as injurias: seria glorioso demais para o grãozinho de areia; se desprezassem um grão de areia, é que o veriam, é que pensariam nele. Que felicidade estar tão bem escondida que ninguém pense em vós, ser desconhecida mesmo das pessoas que vivem convosco!”

“Desde a idade de cinco anos, diz-nos um dos seus historiadores, até as últimas semanas que lhe precederam à morte, ela se esforçou por passar despercebida”

“Era realmente preciso prestar atenção, depõe um dos seus confessores, para perceber que era muito inteligente”

E quantos não o perceberam!

No dia do seu ingresso, o Superior eclesiástico, que se opusera à admissão, terminou a alocução, cheia de reservas, por esta frase endereçada à Superiora:

“Enfim, Reverenda Madre, obedeço a Monsenhor, de quem sou mero delegado; almejo, porém, que a Comunidade não se tenha que arrepender mais tarde de ter acolhido postulante tão jovem”

A sua juventude, no noviciado, não lhe valerá outro privilégio que o de ser repreendida sem parcimônia. A Madre Prioresa dava o exemplo.

“Ela é muito mais orgulhosa do que pensais, dizia. Precisa ser constantemente humilhada”

De fato. Teresinha confessa que não podia encontrar-se com ela sem receber alguma censura. E quando a via em direção era “para ser increpada quase todo o tempo”.

Nem para a admissão ao noviciado, nem para a profissão religiosa, recolheu a unanimidade dos sufrágios; sem dúvida, porque muitos achavam que era demais três irmãs na mesma comunidade.

Mais tarde, confiá-la-ão de fato a formação das noviças, mas sem lhe darem o título de Mestra. Será apenas “a mais velha do noviciado”. Ficará assim entre as noviças até a morte, sem nunca tomar o seu lugar entre as professas no Capítulo.

As religiosas que se aproximavam dela mais de perto nem sempre lhe suspeitavam, sob a simplicidade perpétua das aparências; a sublimidade da virtude. No leito de doente, onde acabava de suportar com sorriso umas 500 pontas de fogo, ela ouviu muito distintamente estas palavras que vinham da cozinha, situada bem defronte da sua cela:

“Irmã Teresa do Menino Jesus vai morrer breve, e me pergunto na verdade o que nossa Madre poderá dizer a seu respeito depois que morrer. Há de ficar bem embaraçada, porque essa freirinha, por mais amável que seja, não fez, entretanto, nada que valha a pena ser contado”

Uma irmã conversa tomou a se oferecer a Teresinha moribunda um alimento que teria infalivelmente provocado vômito. A doente escusou-se muito meigamente, alegando os motivos. A enfermeira de ocasião mostrou-se descontente com essa resistência, todavia tão doce e tão justificada, e permitiu-se dizer a uma pessoa da roda:

“Não sei por que falam tanto de Irmã Teresinha do Menino Jesus. Não faz nada de notável; nem sequer se pode dizer exatamente que seja boa religiosa”

A murmuração foi contada à doente, cujo rosto se iluminou de um sorriso:

“Ouvir dizer no leito de morte que eu não sou boa religiosa, que alegria!”

A sua humildade atingira, pois, o grau em que se está bastante convencido do próprio nada, para achar bem que os outros tão pouco duvidem dele.


Mas a desconfiança de si, quando se chama humildade, torna fácil a confiança em Deus.

Porquanto a humildade não é virtude deprimente. Não há virtude deprimente. A virtude — virtus — é força. A humildade, desviando-se do eu, volve-se para Deus e chama-o. E Deus vem para encher o vácuo, e com Deus a gente se sente capaz de tudo.

Conheço Alguém tão grande que me escuta e me ama: grande, forte, e bom, amante, e todo paternal! E tão perto! É só lançar-se-Lhe nos braços.

“Ó Jesus, exclama, deixa-me dizer-te que me amas loucamente. Como então a minha confiança teria limites?”

E depois, ela sabe “que a gente alcança do bom Deus na medida em que espera”. Ela espera, pois, tudo, confia nEle para tudo. Conta-Lhe “muito singelamente o que Lhe quer dizer, e sempre Ele a compreende”.

É paupérrima, mas “o bom Deus lhe dá à proporção o que lhe é preciso para praticar a virtude”. Se não a ouve, tem as suas razões que ela não precisa compreender. E ela Lhe agradece mesmo assim. Deixa-O “gerir-lhe os interesses, jogar por ela no banco do amor, sem de modo algum se intrometer no jogo”. Se é noite e se a criança tem medo, “queixa-se de não ver quem a carrega, pois bem, feche os olhos… a noite não a assustará, porque ela não a verá mais”.

Ante as dificuldades, “é pequena demais para se lhes sobrepor. Passa-lhes então por debaixo muito simplesmente. É bom para as grandes almas alar-se acima das nuvens quando a tempestade brame; ela sofre pacientemente o aguaceiro: tanto pior, se ficar um pouco molhada, aquecer-se-á ao sol do amor”.

Encarregada da educação das noviças, compreende a evidência que a tarefa lhe excede as forças. Acha-a por isso mesmo simplificada:

“Coloca-se bem depressa nos braços do bom Deus como o bebê que esconde a cabeça loura no ombro do papai e diz: Senhor, vedes, sou pequena demais para criar vossas filhas; se lhes quereis dar por mim o que convém a cada uma, enchei minha mãozinha, e, sem deixar os vossos braços, sem sequer desviar a cabeça, distribuirei os vossos tesouros”

E “a sua mão se achou cheia tantas vezes quanto foi necessário”.

Não ignorava que o pai ama os filhos, e que Deus é o melhor dos pais. “Papai, o bom Deus”, ousa falar, traduzindo a seu modo a palavra de São Paulo: Abba, Pater! Assim, ficar criança é não se preocupar com coisa alguma. Sem dúvida, escapam-lhe pequenas tolices, porém se as crianças caem com frequência, são pequenas demais para se machucarem muito…

“Não cessam de quebrar, de rasgar, de cair, amando embora muito aos pais e por eles sendo amadas”

Mas, e a reparação, a dívida a pagar? Teresinha é muito pequena e muito pobre “para pagar uma só das suas dívidas espirituais”; então diz a Jesus:

“Pagai todas as minhas dividas”

E fica encantada de não ter nada, para contar unicamente com Ele.

E o Purgatório? Quase não a inquieta.

“Ficará sempre contente com a sentença do bom Deus”

E o Inferno? Oh! Nenhum risco.

“As crianças não se condenam”

Sem dúvida ela nunca cometeu pecado grave. No entanto, não é isto o que lhe infunde confiança, é o amor de seu Salvador. E “ainda quando tivesse na consciência todos os crimes que se podem cometer, iria, com o coração partido de arrependimento, lançar-se nos braços”.

Em suma, com a desconfiança de si, vai de mãos dadas à confiança em Deus, uma confiança perpétua, absoluta, infinita se tal pudesse ser. Afinal, é uma confiança infinita que Deus merece: não nos arriscamos, pois, a exagerar.

Ah! Bonito método, e tão simples! Cabe em duas palavras: desconfiança de si, confiança em Deus. Tão simples, que as crianças o acham por instinto na sua fraqueza em face do poder e da bondade dos queridinhos pais. E tão eficaz! Se Judas o tivesse praticado, se, acabrunhado pelo crime inexpiável; se, enojado de si próprio, tivesse olhado para o Mestre com olhos enternecidos e confiantes, não teria se dependurado a uma figueira, mas ao pescoço de Jesus. E diríamos hoje: “São Judas”, como dizemos: “São Pedro, São João, São Paulo”… Em vez de ser aquele que a gente só nomeia com horror, aquele de quem a Verdade pôde dizer: “Melhor fora que não tivesse nascido”, teria permanecido apóstolo, um dos Doze, isto é, um daqueles homens que são os maiores da história. Pois não os há que tenham feito tão grandes coisas e tão duradouras, já que fundaram a Igreja imortal. Não os há que tenham exercido influência tão decisiva no futuro da humanidade. E ademais, eles são, pela eternidade, Santos, e dos maiores. Entre Judas e os outros, qual foi a diferença? O pecado? Não, os outros igualmente, mais ou menos, eram pecadores. Todavia, os outros creram no amor do Mestre. Et nos credidimus caritati. Confiaram no amor. Judas, não. Não acreditou. Confiou só em si; era muito, e era muito pouco, e quando o percebeu, desesperou. Não seguiu a “pequena trilha” de Teresa de Lisieux.


O que não é a Pequena Trilha

Não vamos crer que essa “pequena trilha” só convenha às pequenas virtudes, nem que essa “santa infância” seja mera criancice se os Papas a aconselham a todos, se veem nela, para os mais fervorosos, o segredo da santidade, há de ser coisa séria; segundo a palavra de Pio XI, que “essa simplicidade infantil só tenha de infantil o nome”.

De fato, era a íntima opinião de Teresinha. Durante a sua moléstia, as irmãs que lhe exprimiam a sua inquietação, manifestava:

“Deixem agir Papai, o bom Deus, Ele bem sabe o que é preciso ao seu pequenino bebê!” — “Você é então bebê?”

Perguntou-lhe sua irmã Maria. Resposta:

“Sou, mas um bebê muito sabido!”

Teresinha sempre pensou que a “santa infância” não era uma infância como as outras; para ser santa, se é que deve conservar os predicados da infância, sobrenaturalizando-os, deve proscrever-lhes os defeitos. Pensou sempre que se, para ser praticável às pequenas almas, a sua pequena trilha não se atulha de grandes obras, nem de grandes austeridades, nem de milagres, nem de êxtases, não basta olhá-la de longe e sorrir; é preciso percorrê-la, para que leve à meta.

Ela era mesmo bastante sabida para prever que se arrisca a ser mal compreendida. A uma noviça, que lhe manifestava a intenção de comunicar essa senda aos parentes e amigos, respondeu ela:

“Oh! Preste bem atenção ao se explicar, porque a nossa pequena trilha mal compreendida poderá ser tomada por quietismo e iluminismo. Não julgue ser trilha de repouso”

Não, um caminho de repouso não conduz a parte alguma, e Teresa quer ir longe. Quer ficar criança; contudo, não criança amimada a cuidar só dos seus caprichos.

Quer cativar Jesus com carícias; e isto parece infantil tanto quanto bonito! Quais, porém, essas carícias? Sacrifícios.

“A sua única ocupação será colher flores, flores do amor e do sacrifício, e oferecê-las ao bom Deus para seu prazer”

Pois bem! É uma ocupação isso, e séria! Não é quietismo!

E se diz bonitas palavras, bem ternas, bem carinhosas, não são infantilidades, pois os atos seguem. Se fita Jesus nos olhos, não é para se divertir, mas para adivinhar o que lhe pode agradar, e realizá-lo logo.

Ou mesmo, se parece divertir-se, é brinquedo de criança só na forma; o fundo é sério até ao trágico. Eis como ela conta as peripécias através das quais vinga a sua vocação:

“Oferecera-me ao Menino Jesus para ser o Seu brinquedinho. Dissera-Lhe que não se servisse de mim como de um brinquedo de valor, que as crianças se contentam com olhar sem tocar; porém qual bolinha sem valor, que Ele poderia atirar ao chão, empurrar com o pé, furar, deixar a um canto, ou então estreitar ao coração, se isto Lhe desse prazer. Numa palavra, eu queria divertir o pequeno Jesus”

Em Roma, acrescentava, por alusão ao malogro da sua diligência junto a Leão XIII, “Jesus furou o seu brinquedinho: queria ver, sem dúvida, o que havia dentro. E depois, contente com a descoberta, deixou cair a bolinha e adormeceu. Que fez no seu doce sono, e que foi da bola abandonada? Jesus sonhou que se divertia ainda, que ora a tomava e ora a deixava, que a jogava bem longe, a rolar, e finalmente, a apertava ao coração”.

Em suma, se ela se abandona qual criança numa confiança inconfundível, entrega-se com uma presteza, continuidade e generosidade tal que, vê-lo-emos, atinge ao heroísmo. A sua pequena trilha levou-a até lá.

Essa permanece acessível a todos, mas leva mais ou menos longe na medida em que se anda nela. Não é caminho em que a gente se deite para dormir, não é quietismo.

Nem, tão pouco, iluminismo.

O iluminismo é, primeiramente, contra o bom senso. A marca de Teresinha foi a aliança indissolúvel da espontaneidade com o bom senso; e em grau raro.

Desde tenra idade tinha palavras admiráveis pelo senso profundo. De natureza ardente e impetuosa, era sobretudo maravilhosamente equilibrada: “Não se excedia em nada”, diz-nos uma de suas irmãs. Se não punha limite ao surto para Deus, aos seus desejos de santidade, a confiança, a coragem, é que nisso, precisamente, a gente nunca se excede.

O capelão das beneditinas, que lhe ensinava catecismo no colégio, admirado da sua madureza precoce, chamava-lhe a sua “doutorazinha”.

A Madre Maria de Gonzaga, que foi severa para ela, escrevia desde os primeiros dias do noviciado:

“Eu nunca teria podido acreditar em juízo tão adiantado numa menina de quinze anos. Não há palavra alguma a dizer-lhe, tudo é perfeito”

Aos vinte anos teve a seu cargo a formação das noviças. Em tarefa tão delicada portou-se com prudência consumada. E não só as noviças tiravam beneficio da sua direção.

Sucedia que as religiosas mais antigas, às escondidas, às vezes, furtivamente, sentindo bem o que o seu expediente tinha de insólito, vinham solicitar os conselhos daquela menina, quando se viam na necessidade duma decisão selada pelo cunho dum juízo seguro e duma inspiração sobrenatural. Para quem quer que saiba um pouco de psicologia, é este um testemunho que pesa!…

Um dos confessores que melhor a conheceram declarava:

“Jamais notei nela algo de imprudente e de inconsiderado, nada que traísse inconsideração ou impulso da natureza. Em todas as suas palavras, e mesmo na expressão do semblante, havia ponderação maravilhosa”

Enfim, essa ponderação, essa madureza, essa sabedoria, Bento XV e Pio XI celebraram-na por sua vez; a doutrina da pequena senda, eles a recomendaram a todos como “uma trilha certa de salvação” e como “o segredo da santidade”. E, ademais, canonizaram Teresinha.

Ora, os papas não canonizam os iluminados, nem pregam o iluminismo.

De fato, aliás, não foi no sonho, nem em visão, nem no êxtase que Teresinha achou o seu método. Deus ajudou-a, sem dúvida; contudo, deixando-a ajudar-se a si. Essa ideia ela a amadureceu pouco a pouco, através de pesquisas, de reflexões, de experiências e de orações.

E, em definitivo, em que dá esse método? Em destacar, na espiritualidade, o essencial. Em repor melhor em luz dois ou três textos do Novo Testamento:

“Se vos não converterdes e não vos tornardes como crianças, não entrareis no reino dos céus. Nisi conversi fueritis, se vos não converterdes, se não mudardes”

Há, portanto, nota Bento XV, mudança a fazer, e que não se fará sem um esforço, um trabalho. Qual?

Nisi efficiamini sicut parvuli, se não vos fizerdes como crianças”

Não se trata de sermos crianças, mas de nos parecermos com elas. E quem é que deve ser outra vez criança senão aquele que o não é mais? É pois, aos adultos que esse preceito se dirige. Um preceito verdadeiramente, e que se endereça a todos, pois é a condição para “entrar no reino dos céus”.

E o meio de consegui-lo? Dois outros textos o indicam:

Sine me, nihil potestis facere, sem mim nada podeis fazer”

Nada é valido para a eternidade; não muito, nem pouco, porém nada; e é Jesus, a Verdade, que fala.

São Paulo exclama:

Omnia possum in eo qui me confortat, tudo posso naquele que me conforta”

E isto completa aquilo. Senhor, eu não posso nada, bem o sei, confesso-o, proclamo-o, regozijo-me disso: In hoc ego sperabo, é nisto que coloco a minha esperança; é a minha impotência que faz a minha segurança. Porquanto, bem a sabeis, Vós, a minha impotência! Disseste-o: Sem Vós, nada posso fazer.
Entretanto, Vós quereis que eu faça muito, que me salve, me santifique, seja “perfeito como o Pai celeste é perfeito”. Então é que, portanto, me quereis prestar auxílio, ajuntar à minha miséria a Vossa misericórdia, à pobreza a riqueza, à fraqueza a força. Pois bem! Se só por mim não posso nada, Convosco nada há que eu não possa. Tenho só que me fazer pequeno, pequeno como uma criança, e me lembrar de que Sois meu Pai. Mas eis aí, justamente, a “santa infância”.

Impossível levar demasiado longe a desconfiança de mim próprio; pois, exatamente, nada posso. Impossível levar demasiado longe a confiança em Deus; porque Ele pode tudo, e o Seu amor é infinito como o Seu poder. Eis os dois faróis que iluminam toda a espiritualidade. Mas eis precisamente a “pequena trilha” de santa Teresinha.

Não há aí nem quietismo, nem iluminismo, porém cristianismo o mais puro, haurido na fonte. E já não há admiração de que os papas proclamem essa trilha acessível a todos os cristãos, mostrem nela, para os mais fervorosos, “o segredo da santidade”.

Poder-nos-íamos admirar é de que uma jovem, em tão curta vida, tenha tão exatamente visto isso, e o tenha posto em tão bela luz, que os versados em ciência sacra não tenham mais senão que se fazerem seus discípulos.

“Ela desentulhou o caminho do céu, aprecia um cardeal; nas nossas relações com o bom Deus, ela suprimiu as matemáticas”

Substituiu-as por alguma coisa que vale infinitamente mais: um coração de criança.


A Trilha Heroica

A Teoria

Sine me, nihil; omnia possum in eo qui me confortat: Sem Deus, nada posso; com Ele, posso tudo. Em outros termos, a desconfiança de si, a confiança em Deus: tais são os dois polos da vida cristã. Tal é também a “pequena trilha” de Teresa de Lisieux.

E “pequena” neste sentido que é acessível a todos, mesmo aos mais pequenos; que não requer nem grandes ocasiões, nem grandes obras; mas é só segui-la com magnânimo coração, para que conduza longe, até à santidade. “Nisso está o segredo da santidade”, declaram os papas. Ora, a santidade é uma forma, e a mais alta, do heroísmo. A “pequena trilha” é, pois, para os que o querem, a trilha heroica.

Tudo! Isto vai longe, e nada a assusta. Quanto mais pequena e fraca ela se sente, tanto mais confiança tem. Conta com o elevador divino. O seu papel é não sair dele e aspirar a subir, desejar tudo, para que Jesus, tocado da sua confiança, não lhe recuse nada.

O seu desejo de santidade, longe de ser fogo de palha, aviva-se, despedindo a todo instante chispas, abrasando-lhe cada vez mais toda a alma; e, dois anos antes da sua morte, deixa cair da pena páginas que parecem escritas com fogo. Cito, abreviando:

“Ó meu Bem-Amado! Perdoai-me se tresvario, querendo repetir os meus desejos, que tocam ao infinito… Ser Vossa esposa, ó Jesus, ser carmelita, ser, por minha união convosco, mãe das almas, tudo isto deveria bastar-me. Entretanto, sinto em mim outras vocações. Sinto a vocação de guerreiro, de sacerdote, de apóstolo, de mártir!”

De guerreiro:

“Quisera realizar todas as obras heroicas. Sinto a coragem do cruzado; quisera morrer no campo de batalha pela defesa da Igreja”

A vocação de sacerdote:

“Com que amor, ó Jesus, vos traria em minhas mãos, quando a minha voz vos fizesse descer do céu! Com que amor vos daria as almas!”

A vocação de doutor, de apóstolo:

“Quisera esclarecer as almas. Quisera percorrer a terra, pregar o Vosso nome e plantar no solo infiel a Vossa cruz gloriosa… Mas uma só missão não me bastaria. Eu as quereria todas há um tempo e desde a criação do mundo até a consumação dos séculos”

A vocação de mártir:

“Ah! Esta sobretudo! O martírio! Eis o sonho da minha juventude. Esse sonho cresceu comigo na estreita cela do Carmelo. Mas, não desejo só um gênero de suplício; para me satisfazer, ser-me-iam precisos todos”

E, sem tremer, pormenoriza-os:

“Abri, ó meu Jesus, acrescenta ela, o Vosso livro de vida, onde estão relatadas as ações de todos os santos; essas ações, eu as quisera ter realizado por Vós”

Tudo! Ela escolhe tudo.

Eis aí bem o heroísmo no desejo. É difícil levá-lo mais alto.

Mas não se realizam ao mesmo tempo os contraditórios. Não se pode ser simultaneamente sacerdote e monja carmelita, missionário na Oceania e entre os esquimós. Não se pode viver todas as vidas e morrer de todas as mortes. De que modo Teresinha fez a unidade nesse caos; como discerniu o desejo profundo e único que era a fonte, a mola de todos os seus desejos dispersos, vê-lo-emos mais adiante. Digamos imediatamente que o seu firme bom senso a preservou das quimeras. Em vez de ansiar pelo impossível, em vez de aguardar as ocasiões extraordinárias, que verossimilmente não viriam, foi nas coisas insignificantes de que toda a vida é feita, foi na pequena trilha que ela buscou a santidade, pondo nisso toda a alma.

Há, com efeito, dois modos de ser grande; um, dando a própria alma à medida das grandes coisas; outro, dando às pequenas coisas a medida duma grande alma. Um consiste em fazer com simplicidade as coisas grandes, com o que a gente se lhes mostra ao nível; outro consiste em fazer grandemente as mínimas, com o que as eleva a gente à sua altura. O primeiro método depende das ocasiões; o segundo só depende de nós e da graça, que Deus não recusa. Era deste que Teresinha, no plano divino, nos devia oferecer o modelo.

Falando da temporada no colégio, uma das suas antigas mestras sentenciou:

“Ela não fez nada de extraordinário, mas fez tudo extraordinariamente bem”

Assim foi até á morte. Maxima in minimis: nada mais que pequeninas coisas, porém feitas grandemente.

O martírio! Sim, sonhara sempre com ele, mas “o martírio a alfinetadas”, esse que os outros não veem. Nada que atraia os olhares, que a faça sair da fila e a ponha em relevo. Os pequenos não fazem volume.
A uma noviça que se felicitava de ter conseguido fazer adotar a sua ideia, ela retrucava:

“Ah! Você está no fazer valer! Eu, eu me preservo sempre de usar esse ofício!”

E nunca o usou. Na sua vida religiosa, a regra, a vida comum sem adição nem subtração. Ela não reclama exceções a Deus mais que as suas superioras. Como lhe falassem de consolações espirituais, de visões e revelações, perguntando-lhe se isso não a tentava, contesta ela:

“Oh! Não, absolutamente: não desejo ver o bom Deus na terra, e, no entanto, O amo!”

Uma noviça aventura-se a interpelá-la:

“Amastes tanto o bom Deus que Ele fará por vós maravilhas: havemos de achar vosso corpo sem corrupção”. — “Oh! Não, não quero essa maravilha, seria sair da minha pequena trilha de humildade; é preciso que as pequenas almas não me possam invejar nada”

Ao menos, morrer em beleza, depois da comunhão, em dia de grande festa!

“Oh! Isso não se pareceria com a minha pequena trilha. Eu sairia assim dela para morrer! Na minha pequena trilha, só há coisas comuníssimas. É preciso que tudo o que tenho feito as pequenas almas também possam fazer”

“Coisas comuníssimas”, nada que os outros não pratiquem ou não possam praticar. Em resumo, a vida quotidiana, uma humilde vida como toda gente, no desenrolar monótono dos deveres pequenos, das dificuldades mesquinhas, dos sacrifícios minúsculos: eis aí o quadro.

E ela mostrou que nesse quadro pode-se pôr, pondo-lhe toda a alma, o heroísmo que faz os santos.


A Prática

Nesse quadro da vida comum Teresinha colocou, já o sabemos, o fundamento da humildade. E a humildade, no grau a que a levava, é heroísmo.

Se duvidais, fazei a experiência. Nada vos impede. Podeis sempre conseguir tomar o último lugar e conservá-lo. Há tão poucos que o disputarão! Não é contra os outros que tereis de lutar, mas contra ti mesmo. E para vencer a ponto de aceitar, de procurar a humilhação, o esquecimento, vereis bem que o heroísmo não é por demais.

É ele também preciso para fazer grandemente, na extensão do dia, as pequenas coisas.

“O bom Deus, foi dito no processo de canonização, mostra tanto poder na criação dos infinitamente pequenos como dos infinitamente grandes, e parece que Soror Teresinha lhe desvendou justamente a força na multiplicidade de atos pequenos e microscópicos, se assim nos podemos exprimir”

Atos microscópicos, mas incontáveis, e que se repetem a cada instante, e que, pela repetição e continuidade, exigem tão enorme dispêndio de energia quanto os grandes rasgos com que se ilustram os heróis.

Para os grandes rasgos há que aguardar as circunstâncias, que são raras. Conforme afirma Réné Bazin, “temos três ou quatro vezes na vida ensejo de ser bravo; temos todos os dias — e em toda a extensão do dia — ensejo de não ser covardes”. A gente afrouxa, quando cessa de segurar. E a primeira coisa que o homem deve segurar é a si mesmo. Deve-se segurar para fazer a sua unidade, para se alçar acima dos instintos, para se conduzir ao dever, à perfeição, subindo pela trilha de maior resistência. Se deixa-se escorregar no declive, rolar em baixo e desagregar, não se segura, afrouxa, e é, portanto, um covarde.

Teresinha teve horror à covardia. Teve o cuidado de se segurar para ser senhora de si, de se possuir para fazer tudo, sempre, como Deus queria e com perfeição. Trabalhando para tal amo, não tolerava nem a hesitação, nem o mais ou menos. E para estar certa de não ser covarde, mostrava-se brava em tudo; para estar certa de não escorregar, forçava-se a subir sempre.

Criança ainda, já sabia vencer-se. Nos três meses que precederam a sua primeira comunhão, fazia a conta dos seus sacrifícios: uma media de trinta por dia. No colégio, as professoras testemunham que ela foi duma “mortificação de todos os instantes”. Nas menores coisas, duma “fidelidade minuciosa ao regulamento, duma fidelidade heroica”, que não se desmentia nem mesmo em face da turbulência geral das companheiras. Ela mesma convém que nunca faltou ao silêncio. Um nada: mas esse nunca!

Falando dos meses que precederam a sua entrada no Carmelo, ela escreve:

“Longe de me parecer com as belas almas que, desde a infância, praticam toda espécie de macerações, eu fazia unicamente consistir as minhas em quebrar a vontade, em conter uma palavra de replica, em prestar pequenos serviços à volta de mim, sem os fazer valer, e mil outras coisas desse gênero”

E confessa ter feito progressos pela “prática desses nadas”.

Assim prosseguiu, com mais ocasiões ainda e com incrementado fervor, uma vez no Carmelo. Dizia, mais tarde, as suas noviças, “cada uma devia agir como se a perfeição da ordem dependesse do seu comportamento pessoal”. Era assim que agia quanto a si.

Mas esses “mil nadas” valem pelo número, e o número torna-lhes impossível a enumeração. Digamos em globo que, em todas as virtudes religiosas, em todas as miúdas observâncias, Teresinha requinta o dia todo. E demos alguns exemplos:

Como os outros, tem ela antipatias instintivas: as pessoas que lhas inspiram são tratadas de tal sorte que imaginam ser-lhe as melhores amigas, a ponto de suas próprias irmãs terem a tentação de ficar enciumadas.

A sua pobreza economiza não só uma pena, um fósforo, uma ponta de papel, mas ainda o menor minuto de tempo, que tem escrúpulo de perder!

Sobre a obediência, deixemos ela própria contar-nos:

“Durante o meu postulado, a nossa mestra ordenara-me avisá-la toda vez que eu, tivesse dor de estômago. Ora, isso me sucedia todos os dias e esse mandamento foi para mim um verdadeiro suplício. Quando o mal me acometia, preferiria cem pauladas à obrigação de ir dizê-lo; mas, não obstante, o dizia a cada vez por obediência. A mestra das noviças, que não se lembrava mais da ordem dada por si, externava-se então: ‘Minha pobre menina, você nunca terá saúde bastante para seguir a Regra; é muito forte para você’. E lá se ia a pedir remédios para mim a madre Prioresa, que, admirada e descontente com o relato das minhas confissões quotidianas, replicava vivamente: ‘Essa menina está sempre a se queixar! Se não pode suportar os seus males, o lugar dela não é entre nós’. Continuei, porém, por muito tempo ainda, por pura obediência, a revelar as minhas dores de estômago, com risco de ser despedida, até que enfim o bom Deus, apiedando-se da minha fraqueza, permitiu que me exonerassem da obrigação de fazer essa confissão”

Evidentemente, é esse apenas um desses mil nadas de que ela fala; no entanto, esses nadas, justamente porque são mil, acabam por fazer massa. Oh! É sempre e apenas o “martírio a alfinetadas”, pouco reluzente; porém, acaba por tirar, senão tanto sangue das veias, ao menos tanta energia, tanto heroísmo da vontade, quanto o martírio a cutiladas.

Os homens não veem nada disso ou só lhe veem aparas. Deus vê, com o presente, o passado e o futuro, o dom total da alma que, em cada uma das suas diminutas ações, se entrega em holocausto.

Pio XI dizia, em magnifica linguagem:

“O mesmo Deus que lança no espaço, reguladas com harmonia maravilhosa, as moles imponentes dos mundos, talha também, no segredo da rocha, as facetas dos cristais, que não dizem menos eloquentemente a perfeição da sua sabedoria; a mesma mão que suscita os gigantes da vida, na terra e nos oceanos, forma igualmente os invisíveis organismos dos infinitamente pequenos. Da mesma forma na ordem sobrenatural. Para nos cingirmos aos últimos centenários, o mesmo Deus que suscita esses gigantes da santidade e do apostolado que foram Santo Inácio e São Francisco Xavier, por trás dos quais se erguem sempre, resplandecentes no horizonte da vida espiritual, as figuras incomparáveis de Pedro e de Paulo, de Atanásio, de Crisóstomo, de Ambrósio e de Carlos Borromeu, o mesmo Deus que se revela neste momento a nós como Aquele que, com amor infinito, formou em segredo, qual uma miniatura primorosamente fina de santidade perfeita, essa humílima, pequenina e tão virginal menina”

“Uma miniatura”, sim, pelo finito da minúcia; mas não uma santidade mesquinha.

O que é que dá mais a sensação do infinito? Os infinitamente grandes ou os infinitamente pequenos? Não sei.

Quem foram os mais heroicos, os couceiros de Reischoffen pulando, numa hora sublime, de espada em punho, de bandeiras desfraldadas, a toque de clarins, na luz, oferecendo o peito a metralha? Ou os “poilus” de Verdun, soterrados de longas semanas, invisíveis, imóveis na sua trincheira, na lama, tiritando de frio, sem outra esperança que a de resistir debaixo do furacão das bombas?

Quem foi mais heroico, Francisco Xavier percorrendo o mundo a passos de gigante, ou a pequena carmelita caminhando na sua pequena vereda? O Papa não o ousa dizer. Compara-os, porém, e isto basta para proclamar heroica a pequena trilha de Teresinha.

E de qual exemplo precisávamos mais? Quem é que nos dá a lição mais prática e mais animadora? Sem dúvida alguma, é Teresinha.

Os gigantes, a gente os admira, não os imita; ou, em querer imitá-los, arrisca-se a perder o seu tempo. Bem se quer ser um herói, mas herói em disponibilidade. Aguarda-se o chamado da ocasião que, geralmente, não vem; ou, se vem, sente-se falta de treino, hesita-se; remancha-se bastante em auto-sondagens para deixá-la passar. Mas os atos diários, as coisinhas inúmeras de que a nossa vida é feita: eis aí outras tantas ocasiões de não ser covarde, de desempenharmos o nosso ofício de homem e de cristão.

E é aí, na vida que nos dá a viver, que Deus nos espera. Por mais humilde que seja, por mais vulgares os atos de que lhe é feita a trama, essa nossa vida é para nós o caminho do céu. Acolhamos, se eles veem, os grandes deveres, as obras de destaque, e não lhes tenhamos medo adiantadamente. A cada dia basta a sua pena, a cada pena bastará a sua graça.

Não esqueçamos a lição de confiança que Teresinha nos dava em outro capítulo! Neste aproveitemos da lição de força — e de bom senso — que ela nos dá. Empreguemos a nossa vida quotidiana: tiremos dela, a seu exemplo, o máximo de rendimento! Saibamos, também nós, na medida da nossa graça e da nossa coragem, fazer grandemente as mais pequenas coisas!

É uma resolução ao alcance de todos, e pode levar-nos longe.

“Nisso está o segredo da santidade”


A Trilha Real

O Amor

Se a “pequena trilha” de Teresinha se continua pela trilha heroica, esta entronca-se com a trilha real, a trilha onde passa, sob o lábaro do Rei — vexilla Regis — o amor crucificado.

A santidade, dizia Tomás de Aquino, é um ato de amor de Deus moralmente contínuo. Tal era também a opinião de Santa Teresinha:

“Desejais um meio para chegar à perfeição, só conheço um único: o amor”

Antes de dar esse conselho, ela o havia seguido. Certo lembrai-vos daquela página sublime em que lançava em dardos de fogo o sonho de ser a um tempo sacerdote e carmelita, guerreiro e doutor, apóstolo e mártir. Sonho irrealizável sob essas formas contraditórias. Sonho louco! Ela bem o sabia:

“A todas as minhas loucuras, ó Jesus, que ides responder?”

Pois haverá realmente resposta. Deus é bom demais para inspirar a sua filha desejos que a incendem, se não levassem a nada. Ela inventou um elevador para as almas pequenas; cumpre invente um meio à sua medida pira pôr todos os seus sublimes desejos num só — e para realizá-lo sem sair da pequena trilha.

E procura. Lê São Paulo. De repente acha, compreendeu que o amor faz função de coração no Corpo Místico da Igreja. Consequentemente, só ele “faz agir os seus membros; e se o amor viesse a extinguir-se, os apóstolos não anunciariam mais o Evangelho e os mártires recusariam derramar o sangue. Vê claramente que, sob esse ponto de vista, o amor encerra todas as vocações, que o amor é tudo e abrange todos os tempos e todos os lugares, porque é eterno”. Então, numa explosão de júbilo, exclama:

“Oh! Jesus, achei enfim a minha vocação! A minha vocação é o amor! Sim, achei o meu lugar no seio da Igreja. Esse lugar, ó meu Deus, fostes Vós que me destes. No Coração da Igreja, minha Mãe, eu serei o amor. Deste modo serei tudo: o meu sonho será realizado”

O amor: eis o segredo de Teresinha, a palavra que explica tudo, a pequena trilha, o seu heroísmo, a sua perfeição, a magnifica unidade da sua vida. Ele também constitui o seu feitio, que era de ir até ao fim, com um firme bom senso que se não desviava nunca, e uma força impetuosa e tenaz que vencia todos os obstáculos.

O amor de Cristo, sendo tudo, ela quer esse tudo e o quer “sem limites”. Não mais meio amor nem metade da santidade.

Antes da profissão, que será o dia das bodas divinas, ela escreve a uma de suas irmãs:

“Antes de partir, meu Noivo perguntou-me em que terra eu desejava viajar, que caminho seguir. Respondi-lhe que tinha só um único desejo: o de ir ao píncaro da montanha de amor”

O píncaro! É só aí que ela poderá fazer alto. Em toda a extensão da vida, e esgotando todos os termos mais fortes que o amor inventa, ela repetirá o seu sonho:

“Jesus! Eu quisera amá-lO tanto, amá-lO como nunca foi amado! Não tenho desejo algum, a não ser amar Jesus até a loucura. Amá-lO até morrer de amor”

Para semelhante amado não sente o coração demasiado grande. Razão por que não admitiu nele outros amores.

“Não quero que as criaturas tenham um só átomo do meu amor: quero dar tudo a Jesus. Que as criaturas não sejam nada para mim; e eu nada para elas”

Amor total, amor único; porém, sobretudo, amor agente. Oh! Ela não se sente capaz de trabalhar, como os grandes santos, para a glória de Deus. Trabalhará unicamente para prazer dEle:

“Quero ser nas mãos do bom Deus uma florinha, uma rosa inútil, mas cuja vista e perfume Lhe sejam no entanto como um passatempo, uma alegriazinha de acréscimo”

Ela não teria “querido apanhar um alfinete para evitar o purgatório. Tudo o que fez, foi para dar prazer ao bom Deus”.

E portanto também para consolá-lO. Ela adivinha perfeitamente que Ele tem sede de amor. Quer então mitigar essa sede. Com a sua alma quisera dar-Lhe todas as almas. “O bom Deus não é bastante amado!”, exclama.

“A única coisa que desejo é ver o bom Deus amado; e confesso, se no céu eu não pudesse mais trabalhar nisso, preferiria o desterro à pátria!”

O amor de Teresinha é, pois, desinteressado.

“Não sou egoísta. É ao bom Deus que amo, não a mim… Não desejo o amor sensível: contanto que Ele seja sensível para Jesus, isto me basta… Envergonhar-me-ei de que o meu amor se assemelhasse ao das noivas da terra que olham as mãos dos noivos, para ver se eles não lhes trazem algum presente; ou então o rosto para surpreenderem nele um sorriso que as enleva. Teresa, a noivinha de Jesus, ama a Jesus por Ele mesmo”

“Quem, pois, quererá servir a Jesus por Ele mesmo? Ah! Serei eu!”

Uma carmelita não deve fazer “como o comum dos mortais”, e procurar junto a Jesus consolação.

“Nós é que devemos consolar Jesus: e não Ele a nós”

Se ela ama tanto “seus filhos, os pecadores”, ah! Sem dúvida é por eles; mas, antes de tudo, é por Jesus.

“Não quero que Jesus sofra. Quisera enxugar as lágrimas que Lhe fazem derramar os pecadores, convertendo-os todos”

Se ela veio para o Carmelo, se “escolheu uma vida austera, não foi para expiar as próprias culpas, mas as dos outros”.

Portanto, amor ardente, exclusivo, generoso, desinteressado. Ela sabe, porém, que o amor se paga: pôr-lhe-á o preço, sem regatear. Amar é dar. Amar plenamente é dar tudo. É, pois, tanto quanto preciso, sacrificar tudo. O amor faz daquele que lhe abre o coração um holocausto destinado a flamejar num altar. Teresinha não o ignora:

“E, unicamente, tornava sempre a repetir, a imolação inteira de si próprio, que se chama amar”

E imolou-se.

“Não tenho um coração insensível; e é justamente porque ele é capaz de sofrer muito, que desejo dar a Jesus todos os gêneros de sofrimento que ele puder suportar”

Faz questão de ser ouvida:

“Na minha morte, quando eu vir o Bom Deus tão bom; quando Ele quiser cumular-me da sua ternura durante toda a eternidade; e quando eu não puder mais, nunca, provar-Lhe a minha por sacrifícios, isso ser-me-á impossível de suportar, se não tiver feito na terra tudo o que tiver podido para Lhe dar prazer”

Numa forte imagem, comparando o Cristo a uma águia, exclama:

“Por tanto tempo quanto quiseres, minha Águia adorada, ficarei de olhos fixos em Ti; quero ser fascinada por Teu olhar divino. Quero tornar-me a presa do Teu amor. Um dia, tenho esperança, arremeterás sobre mim”

Ela foi pega pela palavra: a Águia arremeteu sobre a presa. Quando se faz ao Cristo dessas preces, não se deve fazê-las para rir, porque Ele as toma frequentes vezes a sério. Ele próprio orou assim a seu Pai, que o atendeu.

“Assim como meu Pai me amou, eu vos amei”

Os chefes de guerra nem sempre rejeitam o oferecimento dos heróis que pedem os postos perigosos. Todavia eles não estão em estado de lhes pagar os sacrifícios. A Águia, empolgando a presa, sabia que depois do sacrifício viria a recompensa. Empolgou-a, pois.

E eis a subida do Calvário: foi no Calvário que se sofreu mais, porque foi aí que mais se amou.

A subida do Calvário

No dia da profissão, trazia ela ao seio um bilhete com esta prece:

“Jesus, morra eu mártir por Vós! Dai-me o martírio do coração ou do corpo. Ah! Antes, dai-me ambos!”

Teve-os ambos.

O martírio do corpo começou na véspera da Sexta-Feira Santa, ano e meio antes da sua morte. Cumpre ouvi-lo contar por ela própria:

“Na Quinta-Feira à noite, não tendo obtido licença para ficar no Sepulcro a noite inteira, recolhi-me à meia-noite a cela. Mal a cabeça me pousava no travesseiro, senti uma golfada subir-me borbotando até aos lábios; cuidei que ia morrer, e o coração se me desfez de alegria. Entretanto, como eu acabava de apagar a lampadazinha, mortifiquei a minha curiosidade até a manhã, e adormeci tranquilamente. Às 5 horas, dado o sinal de acordar, pensei imediatamente que tinha alguma coisa de feliz a saber. Aproximando-me da janela, logo o verifiquei, achando o lenço cheio de sangue. Oh! Minha Mãe, que esperança! Fiquei intimamente persuadida de que meu Bem-Amado, naquele dia de aniversário da Sua morte, me fazia ouvir um primeiro chamado, como um doce e longínquo murmúrio que me anunciava a sua ditosa chegada”

Haverá muitos, entre os doentes, os tísicos, os feridos, que, sentindo uma golfada subir-lhes borbotando aos lábios, esperam pelo dia seguinte para olharem o lenço, e adormeçam tranquilamente?

No dia seguinte, Teresinha assiste aos Ofícios da manhã. Não sente, afirma, nenhuma fadiga, o menor sofrimento. Por isto, consegue facilmente licença de acabar a quaresma como a começara, e de compartilhar todas as austeridades do Carmelo sem alívio algum: Ofícios longos, o jejum até a noite, a disciplina durante três Miserere, as ocupações de casa; à tarde, em cima de um banquinho, lava os vidros das janelas.

“Nunca, certifica, essas austeridades me tinham parecido mais deliciosas”

À noite, novo jato de sangue…

Ela soube tão bem fazer, que a deixaram seguir o regulamento. Acessos violentos de tosse sacudiam-lhe o peito. Era principalmente à noite. Na sua cela afastada, ninguém a podia ouvir.

Veio o outono, depois o inverno, o terrível inverno de 1896. Não havia fogo no Carmelo! Teresinha, transida de frio durante o dia todo, volta à cela, após o Ofício, pelo meio da noite. É-lhe precisa, na exaustão das suas forças, meia hora para subir a ela; meia hora para acomodar-se. Não chega a aquecer-se. Às 6 horas, o dia recomeça; e assim, dia por dia, até que ela se deita para agonizar.
Transportada para a enfermaria, confessa, ao deixar a cela:

“Sofri muito nela, nela gostaria de morrer”

O martírio do coração não lhe foi poupado: e ela o começou jovem, aos 4 anos, pela morte da mãe. Cruel moléstia do pai aditou-lhe novo capítulo. Seria demasiado longo pormenorizar os outros.
Mais se, talvez, esse martírio não foi excepcionalmente duro, um terceiro se lhe juntou, que não previra: o da alma.

Desde a infância, Teresinha vivera em pleno sobrenatural. A fé. Era-lhe a luz, a força, a doçura. E essa luz era tão clara, tão límpida, que ela não chegava a compreender, assim diz, como se podia duvidar.
Mas fez a experiência disso: alguns dias depois dos seus escarros de sangue, a luz, de repente, se apaga. Quanto mais se esforça por arredar as ideias perturbadoras, quanto mais se aferra a fé, tanto mais a sente vacilar. E é a sensação duma queda vertiginosa em poço sem fundo.

“Não digo mais, escreve ela, recearia blasfemar”

E a tempestade conserva a violência até ao êxtase que lhe acompanhará a morte. Em certos dias exclama:

“Oh! Como é preciso rezar pelos agonizantes! Se se soubesse!…”

Durante semelhante martírio, qual foi o seu comportamento? Qual o primeiro grito do seu coração? A ação de graças: agradece a Deus o tirar-lhe a única consolação natural que lhe restava, e fazê-la comer o pão amargo da dúvida à mesa dos pecadores.

Mas, contra a tentação que persiste, como vai ela reagir?

“Eu me porto como brava, declara. Sabendo que é covardia bater-se alguém em duelo, volto as costas ao adversário, sem jamais encará-lo; depois, corro para o meu Jesus. Digo-lhe estar pronta a derramar todo o sangue para confessar que há um céu. Digo-lhe ser feliz de não poder contemplar na terra, com os olhos da alma, esse belo céu que me aguarda, afim de que Ele se digne de abri-lo pela eternidade aos pobres incrédulos. Assim, apesar dessas trevas que me tiram todo sentimento de gozo, ainda posso exclamar: Senhor, vós me encheis de alegria por tudo quanto fazeis, pois haverá alegria maior do que a de sofrer por vosso amor? E depois, não ignoras que, mesmo não tendo o gozo da fé, esforço-me por lhe ter as obras. Pronunciei mais atos de fé num ano do que em toda a minha vida”

Em suma, dois gestos: recusa de aceitar a dúvida, e redobramento dos atos que a fé inspira. Dois gestos de bom senso e de coragem, mas sobretudo dois gestos de amor.

A esse martírio que a tortura no íntimo do ser, e que se junta aos outros sem suprimi-los, ela põe o penacho, o penacho do sorriso! Esse sorriso, perdera-o Teresinha aos 4 anos, na morte da mãe. Achara-o no momento da “sua conversão”, antes da entrada para o Carmelo. Conservá-lo-á até o fim: ser-lhe-á o meio de ocultar a cruz debaixo das flores. De tal sorte que o Bom Deus, “como que iludido — diz ingenuamente — pela expressão do seu semblante, não perceberá que ela sofre”; ou, pelo menos, compreenderá que é feliz de sofrer por Ele.

Com efeito, referem-nos as testemunhas, “o sorriso nunca lhe deixava os lábios. Permanecia graciosa como uma criança”.

Quando se lhe afigura que o sofrimento excede da medida, convence-se de que “Jesus deve saber melhor que ela até onde é capaz de ser levado o seu sofrimento e o seu amor”.

As noviças que a visitam na cela:

“Não se aflijam por mim! Já cheguei a não poder mais sofrer, porque todo sofrimento me é doce”

E ainda:

“Eu gozo de sofrer. Quanto mais intenso é o sofrimento, quanto menos aparece aos olhos das criaturas, tanto mais Vos faz sorrir, ó meu Deus. E se, por impossível, Vós mesmo o devêsseis ignorar, eu ainda seria feliz de sofrer, na esperança de que, por minhas lágrimas, pudesse impedir ou reparar talvez uma só falta contra a fé”

E a heroica menina, triturada no corpo, no coração, na alma, carregando até ao limite das suas forças a cruz de todas as observâncias do Carmelo, lá se vai, de sorriso nos lábios, para o cimo do seu Calvário, almejando morrer nele como Jesus, sem consolo, mas pelo amor e por amor.

Consummatum est

Diariamente, desde muito, Teresinha pedira na oração que o seu martírio de amor, “depois de havê-la preparado para comparecer perante Deus, a fizesse enfim morrer”.

Nisso também foi atendida.

Extenuada pela moléstia, não pôde fazer, sem socorro, o mais leve movimento. Ouvir falar, mesmo em voz baixa, é-lhe um suplício. A febre e a opressão lhe não permitem articular uma só palavra sem a mais extrema fadiga. O médico repete a cada visita:

“As Sras. não imaginam o que ela atura!”

E ele não sabe a angústia incomensuravelmente mais profunda da sua alma!…

O Capelão do Carmelo, doente, não pôde visitá-la; e é a outro padre que tem de fazer a sua derradeira confissão.

Desde o dia 19 de Agosto, incessantemente sob a ameaça de novas hemoptises, não pode mais receber a Sagrada Comunhão. Todos os socorros parecem faltar-lhe há um tempo!

Apesar de tudo, ela conserva a sua atitude tranquila e graciosa. O sorriso, o seu heroico sorriso aflora-lhe sempre os lábios pálidos.

“Oh! como o bom Deus é bom, exclama às vezes. Sim, é preciso que Ele seja bom para me dar a força de suportar tudo o que estou sofrendo!”

De quando em vez, apesar da fadiga extrema, seus lábios se entreabrem para dizer o seu amor, a sua resignação, a sua felicidade.

Recolhamos algumas dessas pérolas:

“Nosso Senhor, no Horto das Oliveiras, gozava de todas as delícias da Trindade, e, no entanto, nem por isso sua agonia era menos cruel. É um mistério! Asseguro-lhes, porém, que compreendo alguma coisa dele pelo que eu própria sinto”

E em outro dia:

“Morrer de amor, como Nosso Senhor morreu de amor na cruz, parece-me que é o que experimento!… Está tudo bem, tudo está consumado! É só o amor que voga!”

Perguntam-lhe:

“É bem duro sofrer tanto, não é? — Não, eu ainda posso dizer ao Bom Deus que O amo; isto basta!. Achei a felicidade e a alegria na terra, mas unicamente nos sofrimentos, pois muito sofri neste mundo; será preciso dizer que está no fundo da minha alma a alegria e os transportes; mas isto não alentaria tanto as almas, se elas julgassem que eu não sofri muito!”

Em resumo, como apontou um de seus panegiristas, “nem um só átomo de prazer, mas toda a felicidade”.

Assim, através dos sofrimentos, com o coração a pulsar de amor, com o rosto iluminado pelo sorriso, pouco a pouco, dia por dia, chega o dia supremo, o 30 de setembro de 1897.

Pela manhã ela suspira:

“É a agonia purinha, sem mistura alguma de consolo”

Pouco mais tarde, este grito de angústia:

“Se é isso a agonia, que é então a morte?”

E no meio do dia:

“Minha Mãe, o cálice está cheio até a borda! Não, nunca teria crido que fosse possível sofrer tanto! Só me posso explicar isso pelo meu desejo extremo de salvar as almas”

Algum tempo depois — recolhamos bem estas palavras:

“Tudo o que escrevi sobre o sofrimento, oh! É bem verdadeiro! Não me arrependo de me haver entregue ao amor”

E repete várias vezes:

“Não me arrependo de me haver entregue ao amor”

Pelas 7 horas comunicam-lhe que a agonia poderia agora prolongar-se por algum tempo. Então, em tom resignado:

“Pois bem, seja, seja! Oh! Não quereria sofrer menos!”

Depois, olhando para o seu crucifixo:

“Oh! Quanto O amo! Meu Deus, eu vos… amo…”

Foram as suas últimas palavras.

“Com grande surpresa nossa, dizem as testemunhas, ela se deixou cair de repente, com a cabeça pendida para a direita… Qual vítima de amor, aguardando do arqueiro divino a flecha abrasada de que quer morrer”

Súbito reergueu-se. O semblante, decomposto pela agonia, fica outra vez fresco e rosado; os olhos, irradiados de surpresa e de alegria, olham direito para a frente; o coração pulsa-lhe fortemente no peito. O êxtase! O primeiro êxtase de Teresinha. Dura isso o tempo de recitar um Credo. Depois o amor é forte demais, o coração se parte, a cabeça torna a pender, e a alma fica sozinha para continuar o êxtase eterno.

Tal vida, tal morte. Uma palavra resume-as: o amor.

Teresa de Lisieux amou magnificamente.


A Trilha Triunfal

O Tufão de Glória

Uma menina, salientou alguém, que larga a sua boneca para entrar no Carmelo, que morre aos 24 anos e é mais celebre no universo do que jamais o foi Napoleão: eis aí Teresa de Lisieux.

Teresa de Lisieux, como se diz Teresa d’Ávila, Francisco de Assis. Quem, pois, fora alguns turistas, conhecia Lisieux? É hoje, graças a Teresinha, estação interessante, cidade celebre, uma das cidades santas da terra. A pequena carmelita iluminou-a de um reflexo da sua glória.

A “pequena trilha”, que, só com ser seguida sem desviar, encontra-se com a trilha heroica, e depois com a trilha real, veio dar, portanto, na trilha triunfal. Mal a humilde menina exalou o último suspiro, a sua glória irradia, espontânea, refulgente, irresistível, impondo-se pelo esplendor e pelos benefícios, como a do sol, quando ascende no céu claro.

Dela se ilumina primeiro a sua comunidade. Ninguém duvida mais de que se contemplam naquela cama as relíquias de uma santa. Ela prometeu passar o seu céu em fazer bem na terra: quem terá as primícias dos seus favores?

Uma freira conversa que fora dura e ingrata para ela, sofria duma anemia cerebral; beija os pés do cadáver, encosta-lhes longamente a cabeça e sente-se curada. Eis aí quanto aos favores temporais.
Na ordem espiritual, a primeira intervenção foi para a Madre Maria de Gonzaga, a priora cujo espírito autoritário e temperamento desigual tinham muitas vezes exercitado a paciência de Teresinha. Tornou-se ela cada vez mais humilde e mansa, em seguida a uma graça cujo segredo guardou, mas que lhe fazia dizer, falando da defunta:

“Oh! O que ela me disse!… Mas tão meigamente!”

Assim se vingam os santos.

É de uso, no Carmelo, dirigir a todos os mosteiros da Ordem pequena notícia biográfica sobre as religiosas falecidas. Estais lembrados daquela irmã conversa que dizia a propósito disso:

“Nossa Madre priora ficará bem embaraçada, porque essa freirinha, por mais amável que seja, não fez nada que valha a pena ser contado”

A Madre priora em absoluto não ficou embaraçada.

Mandou imprimir e ofereceu ao público, como as diversas casas do Carmelo, a História de uma Alma, isto é, as páginas em que Teresinha, por ordem de duas prioras sucessivas, tinha ela própria contado a sua vida. Escrevera isso nos seus raros lazeres, aos pedaços e ininterruptamente, sem plano e sem emendas, ao correr de pena, com toda franqueza e toda simplicidade. Os últimos capítulos foram traçados algumas semanas antes da sua morte, a lápis, com mão desfalecente que já não tinha força para molhar a pena no tinteiro. Mas justamente porque ela pusera nelas toda a sua alma, porque era ela que a gente sentia viver naquelas páginas, foi, nos Carmelos e no público, uma explosão de admiração, ou, para falar como Pio XI, foi “um tufão de glória” que se desencadeou rapidamente sobre o mundo inteiro e que dura ainda.

Em 1925, 27 anos depois da publicação desse livro, já se haviam esgotado 410.000 exemplares da edição francesa completa, e 2 milhões da edição resumida; enquanto no espaço de quinze anos foram lançadas através do mundo 35 traduções em diversas línguas. Aí está sem dúvida um grande êxito de livraria.

Eis agora grande êxito de simpatia e de confiança: na mesma data de 1925, o Carmelo já havia distribuído 30.388.000 retratos e 17.507.000 estampas-relíquias.

Vede aqui outro grande êxito, que dá a glória de Teresinha o seu verdadeiro colorido: a confiança que ela inspira faz rezar; o amor que proporciona faz agir.

Ao contato da sua alma, as almas têm vibrado, desejosas de imitá-la; as almas de boa vontade têm enveredado em multidão pela sua pequena trilha; as almas ardentes têm-na seguido na sua trilha heroica e povoado os claustros, enquanto na França, na Europa, na América, nas índias, no Japão, no centro da África, em toda parte, nas choças dos selvagens como nas nossas cidades ou nos nossos campos, nas trincheiras da grande guerra como nas celas dos conventos, vozes inúmeras proclamam as maravilhas alcançadas por sua intercessão. Os testemunhos impressos enchem 7 volumes in-8° de cerca de 600 páginas cada um.

“Ela não fez nada que valha a pena ser contado”, dizia a freira conversa. Cada vez se expressa menos essa opinião, e os historiadores, os teólogos, os literatos ainda não acabaram de contar sobre a humilde carmelita de Lisieux, coisas que os leitores continuam a achar interessantes. O nome de Teresinha num livro faz sempre “reclame”.

Mas essa glória que dão os homens, os homens acharam-na insuficiente. Por instinto, muito depressa, volveram-se para o Papa, para suplicar-lhe que pusesse na fronte de Teresinha a glória suprema que é neste mundo um reflexo da glória do céu.

“Pela idade de 10 ou 11 anos, escrevia Teresinha na sua História, pensando que eu tinha nascido para a glória e procurando o meio de chegar a ela, foi-me revelado interiormente que a minha glória consistiria em vir a ser uma grande santa”

Ora, Teresinha, neste mundo, costumava agir muito depressa. Com a sabedoria que escolhe o seu fito, tinha a força que realiza, e o amor que faz a força indomável. Aos quinze anos, mal grado todos os obstáculos, era carmelita. Aos 24 anos, era uma santa, como havia querido. No céu, conserva o seu feitio, age depressa, ou, pelo menos, Deus age depressa por ela. O hábito de Roma é agir devagar. Roma só aborda os preliminares da beatificação decorridos 50 anos. É prudência. Mas quando Deus fala demasiado claro, a prudência já não é cabível.

Ora, os milagres se multiplicam; o entusiasmo das multidões vai crescendo; as petições afluem à Roma dos quatro cantos do mundo. Deus fala; Roma faz ceder às regras. O Cardeal Vico, prefeito da Congregação dos Ritos, exclama:

“Temos que nos apressar, se não quisermos que a voz dos povos nos preceda”

Roma apressou-se. Em 1910, 12 anos após a morte de Teresinha, a Congregação dos Ritos autoriza o Bispo de Bayeux a encetar o processo. Em 1914, Pio X assina o decreto de introdução da causa. Em 1919, Bento XV autoriza a abertura dos debates sobre a heroicidade das virtudes, processo que se conclui em 1921. Depois, cabe a Pio XI apressar-se.

De feito, as últimas etapas são vencidas a passo vertiginoso. Em 1923? Três etapas decisivas: em fevereiro, a aprovação dos milagres; em março, o decreto que estatue poder-se proceder, com toda segurança, à beatificação; em abril, a beatificação. Dois anos mais tarde, em 1925, a canonização. Quatro irmãs dela viviam ainda no claustro; uma delas, Paulina, era priora do seu Carmelo de Lisieux. Com que emoção não deviam elas dizer:

“Santa Teresinha, rogai por nós!”

Pio XI continuou a agir depressa. Em 1927, proclamava Teresinha padroeira das missões e dos missionários, e estendia sua festa a todas as dioceses do mundo. Em 1928, aprovou um Ofício próprio especial. Não se vê verdadeiramente o que ele pudesse fazer a mais.

Quase não há mais de trinta anos que a pequena carmelita baixava ao túmulo. (Segundo a data do original francês).

Mas se, em regra geral, trinta anos de admiração são bem pouca coisa para emocionar a Igreja, são muitíssimo para não cansar a emoção do público. Pois bem! A emoção das multidões não se cansou. Saudaram com entusiasmo todas as etapas dessa ascensão para a glória.

Antes da beatificação, no dia em que transportam as relíquias do cemitério para o Carmelo, trezentos sacerdotes, um grupo de oficiais franceses de toda graduação, um piquete de honra do exercito americano, de baioneta calada, rodeiam o carro triunfal; 50.000 peregrinos seguem, por dois quilômetros, desfiando o Terço. O sol brilhava num céu límpido, parecendo associar o seu esplendor a essa glória.

Deus também lá está com o milagre: penetrante perfume de rosas envolve todos os assistentes. Uma moça paralítica, deposta adormecida sobre as relíquias, levanta-se curada. Um ferido da guerra mundial recupera subitamente, à passagem do carro, o uso das pernas e se junta ao cortejo. Uma jovem cega, postada junto ao Carmelo, recobra a vista para contemplar as santas relíquias a transporem as portas da Capela.

Alguns meses após a beatificação, Lisieux aclama de novo a sua Santinha. As relíquias encerradas numa urna de prata dourada oferecida pelo Brasil, ornada de lírios e de rosas brancas, passam triunfo através das ruas embandeiradas e floridas, pararam em todas as igrejas, escoltadas por 100.000 peregrinos, vindos de toda parte, vários dos quais, desta vez ainda, proclamam que o milagre os tocou para lhes curar as chagas do corpo ou da alma.

No dia da canonização, é o “tufão de glória”. Em São Pedro acotovelam-se 35 cardeais, 200 arcebispos ou bispos, 4.000 sacerdotes e 60.000 peregrinos privilegiados. Tanto quanto o Vasto recinto pôde conter. Quando o estandarte de Teresinha atravessa a basílica, as aclamações entusiásticas rolam em trovão por sob as abóbadas. Quando o Papa, cuja voz os alto-falantes ampliam, há pronunciado as palavras decisivas, todas almas se inclinam na veneração e na prece. À noite, por iniciativa de Sua Santidade, reatando uma tradição interrompida desde 1870, é o abrasamento feérico de São Pedro. Quinhentos mil espectadores lá estão, vindos de todos os pontos do mundo, misturando as suas aclamações àqueles esplendores de apoteose, e que repetirão a todos os ecos o nome de Teresa de Lisieux.

“Um tufão de glória”

Exaltavit humiles. É assim que Deus, quando lhe apraz, exalta os humildes. E é só a glória da terra. Que não deve ser, para a humilde carmelita, a glória do céu?

As previsões de Teresinha do Menino Jesus

Coisa estranha! Essa glória, mesmo a da terra, a humilde carmelita previra-a.

Revelação precisa? Não creio. Antes, parece, intuição duma alma profunda e atenta, confirmada por motivos sobrenaturais. A humildade não exclui a verdade nem a gratidão. Pelo contrário. Se deixa a Deus toda a glória, porque Ele a merece e reclama, reconhece e proclama os dons recebidos:

“Sou pequena demais, dizia Teresinha semanas antes da sua morte, para ter vaidade. Sou pequenina demais ainda para saber tornear belas frases, afim de deixar crer que tenho muita humildade. Prefiro convir singelamente que o Todo-Poderoso fez em mim grandes coisas”

Inteligência nítida e coração reto, ela tomava consciência, cada vez mais, das suas relações com Deus. Sabia que não lhe recusava nada. Experimentava que obtinha tudo dEle.

Pouco a pouco, pelo fim da vida, sentiu, de alguma sorte, que todos os seus grandes desejos para a terra e para o céu seriam atendidos. Com simplicidade, de quando em quando deixou brotar a confissão disso:

“O bom Deus carregou-me de graças para mim e para os outros”

“Bem será que Ele me faça todas as vontades no céu, porque eu nunca fiz as minhas na terra”.

Suas irmãs diziam-lhe:

“Você nos olhará do alto do céu?” — “Não, eu descerei. Nunca dei ao bom Deus senão amor, Ele me pagará com amor. Depois da minha morte, farei cair uma chuva de rosas… Amar, ser amada e tornar a terra para fazer amar o Amor… Sinto que minha missão vai começar, a minha missão de fazer amar o bom Deus como eu O amo; de dar a minha pequena trilha às almas. Quero passar o céu em fazer bem na terra. Não é impossível, visto que no próprio seio da visão beatífica os anjos velam por nós. Não, não poderei tomar nenhum descanso até ao fim do mundo! Mas quando o anjo disser: ‘O tempo não existe mais’, então descansarei, poderei gozar, porque o número dos eleitos estará completo”

A história da sua vida, ela a escrevera por obediência e não se preocupou mais com ela. Porém, nas últimas semanas, recomendou que a publicassem:

É um meio de que o bom Deus se servirá. Aí vai a minha alma! Sim, essas páginas hão de fazer grande bem. Conhecer-se-á melhor a doçura do bom Deus… e sinto-o, acrescenta, toda gente me amará”

Estranhas todas essas palavras em lábios que vão morrer! O mais estranho é que todas se realizam aos nossos olhos.

E outras mais, não menos surpreendentes. Traziam-lhe rosas, que ela desfolhava no seu crucifixo:

“Apanhai bem essas pétalas, servir-vos-ão para obsequiar”

Serviram para fazer milagres.

Como lhe falassem da dor que a irmã Paulina teria com a sua morte, ela respondeu:

“Não fique intranquila, ela não terá tempo de pensar na sua mágoa; pois, até ao fim da vida, ficará tão ocupada de mim, que nem sequer poderá bastar para tudo”

Ela esteve e ainda está muito ocupada.

Outro dia, na mesma intenção de confortar as irmãs, dizia-lhes — uma carmelita falando a carmelitas:

“Depois da minha morte, vocês irão à caixa das cartas, e encontrarão lá consolações”

Trinta anos são passados. A caixa postal se enche todo dia, trazendo, de todos os cantos do universo, a mais alta consolação de que possa fruir o coração fraterno.

Em resumo, dois grupos de fatos claríssimos, seguríssimos: de um lado, promessas estupendas e categóricas, reduzindo-se nestas:

“Passarei o meu céu em fazer bem na terra!”

De outro lado, trinta anos de prodígios, mostrando que Deus ratificou a promessa.


Conclusões

Dessa promessa, podemos ser os beneficiários.

Ninguém é excluído. Ela é denominada a “flor da França”. Flor primorosa, desabrochada em plena seiva, esplendorosa de alvura e rica de perfume. Semelhante, porém, à flor que espalha o seu odor não só pelo canteiro onde tomou raiz, mas por toda a vizinhança e até ao longe. Tanto que a graciosa santinha espalhou o seu perfume pelo mundo inteiro, atraindo à sua veneração todo o universo católico, sem distinção de raças nem de nacionalidades. E sobre todos tem derramado e derramará a sua chuva de rosas.

Ela é uma das mais lindas flores do jardim da Igreja Católica. Assim, o sermos católicos já nos confere um título de beneficiários da sua promessa.

E depois, há um título que todos temos e que basta aos olhos de Teresinha do Menino Jesus: somos pecadores. Foi para eles que viveu, que escolheu as austeridades do Carmelo, sofreu, quis morrer. “Meus filhos, os pecadores”, repetia ela. O primeiro cuja conquista empreendeu, o seu “primeiro pecador”, conforme notou, foi Pranzini, criminoso condenado ao cadafalso.

“Sei que me ouvireis, dirigia-se a Deus. Seja o meu primeiro pecador. Por causa disto, para meu simples consolo, rogo-vos um sinal de arrependimento”

E o teve.

Acima de tudo, se quisermos estar certos de conseguir, peçamos-lhe aquilo que ela principalmente nos quer dar: a sua “pequena trilha”, a desconfiança de nós mesmos, a confiança em Deus, o cuidado de fazer grandemente as pequenas coisas, de sorrir no sofrimento, de irradiar assim a alegria santa que atrai as almas e as faz alçar-se para Deus.

Contudo, não lhe peçamos só serviços, peçamos-lhe também lições.

Ela no-las oferece brilhantes e precisas: para a mente, para a vontade e para o coração.

Lição de sabedoria, pela sua inteligência prática a lhe marcar o reto caminho a igual distância do orgulho que transvia e do desânimo que embota;

Lição de coragem, de força ordenada que vai ao fito através de todos os obstáculos, com arrojo contínuo que nada quebra;

Lição de amor, sobretudo, de amor esplendido que não recusa nada, que oferece tudo! Que exulta de ver que tudo é tomado!

E uma outra lição se desprende dessa curta vida, a qual nos põe em pleno sobrenatural.

Falamos de Napoleão, a propósito de Teresa de Lisieux. Em torno dum e doutra, foi um “tufão de glória”. Mas, salvo neste ponto, tudo diverge nesses dois destinos, tudo nos mostra a distância que separa um grande gênio dum grande coração, e as obras do homem das obras de Deus.

Napoleão fez ver o que pode um homem de gênio, quando trabalha por própria conta, com energia indomável, com confiança ilimitada na sua estrela, com todos os recursos dum grande povo, com todas as cumplicidades do entusiasmo, da sorte e da glória. Foi maravilhoso de audácia, de força e de felicidade. A sua palavra improvisou exércitos heroicos. Seus gestos fizeram tremer o mundo. Esboroou a Europa e reconstruiu-a com sua potente mão. Cimentou a obra com ondas de sangue. Ornou-se com prodigiosas vitórias. Refundiu as fronteiras seculares para lhe fazer baluartes. Tomou os irmãos e fê-los reis, para montarem guarda em derredor. Tomou o filho no berço e fê-lo o Rei de Roma, para habituá-lo à glória. Depois, previsto tudo, pôs a mão à espada e prorrompeu:

“O futuro é meu!”

Não. Em alguns dias o futuro lhe foge. Tudo lhe foge: a coroa, os soldados, os amigos, a própria mulher e o filho. Tudo rui daquilo que edificou, e não fica nada, menos que nada: houve que pagar na carne viva da França o resgate do seu orgulho. A obra colossal e sangrenta não foi só vã, foi desastrosa. Ele próprio exclamava com soluços:

“Deixar a França tão pequena, depois de recebê-la tão grande!”

Napoleão passou como a torrente que se precipita, estrepitosa e irresistível, em dia de tempestade; depois, seca e, nos campos atravessados, nada mais deixa que cascalhos estéreis.

A trilha de Teresinha desenrola-se qual córrego calmo e límpido, vindo de fonte profunda, e que só rega as margens, afim de fecundá-las. Ela passou sem ruído, sem atrair os olhares, sem fazer medo nem obstáculo a ninguém, fazendo só pequenas coisas, só tendo de grande o próprio coração, todo aberto para o lado de Deus, como um lírio para o lado do sol. Ascendeu, cândida e radiosa, tomando toda a seiva da sua natureza e todas as graças de Deus, para se fazer sempre mais esplendente de alvura e rica de perfumes. E quando a morte a colheu em plena floração, ela sacudiu os seus perfumes sobre o mundo para embalsamar as almas.

Esplendido trânsito terrestre, sim! Porém, esse esplendor é mero reflexo da sua beleza sobrenatural, como a sua glória terrena é mero reflexo da sua glória do céu. Razão porque sua glória é imperecível. Teresinha só trabalhou para Deus, Deus trabalha para ela, confiando-Lhe o seu poder para realizar os desejos do seu coração, e as almas vêm a ela, atraídas pela admiração, pela gratidão e pelo amor.

Não são os gênios ainda quando fossem conquistadores, são os mansos, são os Santos que “possuem a terra”, porque possuem a Deus.

A vida, verdadeiramente, só dá aquilo que se lhe pede. Aos que lhe pedem pouco — e tudo o que passa é pouco — ela dá só o efêmero, que acaba por não ser nada. Mas aos que o reclamam, ela dá o infinito e o eterno. Dá-o sem olhar a grandeza das obras, que dependem das circunstâncias, porém a grandeza do amor, que depende da liberdade.

Santa Teresinha do Menino Jesus! Iluminai-nos com a vossa luz tranquila! Cumpri a vossa palavra! Continuai a vossa missão — a “missão de fazer amar o bom Deus como vós O amastes, de fazer amar o Amor!”.


Aniversários de Santa Teresinha

AcontecimentoData
Nascimento2 de janeiro de 1873
Batismo4 de janeiro de 1873
Primeira Comunhão8 de maio de 1884
Confirmação (Crisma)14 de junho de 1884
Entrada no Carmelo9 de abril de 1888
Profissão Religiosa8 de set. de 1890
Morte30 de set. de 18
Beatificação29 de abril de 1923
Canonização17 de maio de 1925
Dia de sua festa (Forma Ordinária)1 de outubro
Dia de sua festa (Forma Extraodinária)3 de outubro

NOVENA DOS 24 GLORIA PATRI (GLÓRIA AO PAI)

Em honra de santa Teresinha do Menino Jesus, para se obter uma graça

Origem

O Rev. Padre Putigan, S. J., no dia 3 de Dezembro de 1925, iniciou uma novena em honra de Santa Teresinha do Menino Jesus, pedindo a milagrosa Santinha uma graça importante. Nesta intenção começou a rezar, durante a novena, 24 Gloria Patri, em ação de graças à Santíssima Trindade, pelos favores e graças concedidos a Santa Teresinha do Menino Jesus, durante os 24 anos de sua existência terrena. Pediu o padre a Teresinha que lhe desse um sinal que a novena era ouvida, e este sinal seria receber ele de alguém, uma rosa fresca e desabrochada. No terceiro dia da novena, pessoa amiga procura o Padre Putigan e lhe oferece uma linda rosa vermelha.

No dia 24 de Dezembro do mesmo ano, o padre começou segunda novena e pediu, agora, como sinal, uma rosa branca. No quarto dia de novena, uma Irmã, enfermeira do hospital, lhe trouxe linda rosa branca, dizendo: Aqui está uma rosa, que Santa Teresinha envia a V. Revma.
Surpreendido pergunta o Padre:

— Donde vem esta rosa?
— Fui à Capela, onde se acha adornada a bela imagem de Santa Teresinha, diz a freira. Ao aproximar-me do altar da Santinha, caiu-me aos pés esta rosa. Quis colocá-la, de novo, na jarra, mas, lembrei-me de trazê-la a V. Revma.

O Padre Putigan alcançara as graças pedidas na novena e resolveu propagá-la, formando uma cruzada de orações em honra de Santa Teresinha.
Assim, do dia 9 a 17 de cada mês, todas as pessoas que desejarem fazer a novena dos 24 Gloria Patri unem as suas intenções as das pessoas que, na mesma época, fazem a dita novena, e se forma desta maneira uma bela comunhão de orações.

A novena

Pode-se fazer a novena dos 24 Gloria Patri em qualquer época, mas é preferível e muito mais vantajoso fazer-se do dia 9 a 17 de qualquer mês, afim de se participar da comunhão de orações dos que a fazem.

Rezam-se, durante os nove dias, somente 24 Gloria Patri à Santíssima Trindade, em ação de graça pelos favores e graças com que enriqueceu a alma de Santa Teresa do Menino Jesus, durante os anos que viveu na terra, podendo usar da seguinte fórmula ou de outra semelhante:

Santíssima Trindade, Pai, Filho, Espirito Santo, agradeço-Vos todos os favores, todas as graças com que enriquecestes a alma de Vossa serva Teresinha do Menino Jesus, durante os 24 anos, que passou na terra. E pelos méritos de tão querida Santinha, concedei-me a graça que ardentemente Vos peço, se for conforme a Vossa santíssima vontade e para a salvação de minha alma.

Rezam-se em seguida 24 Gloria Patri, podendo-se acrescentar a cada Gloria Patri, a jaculatória: Santa Teresinha do Menino Jesus, rogai por nós!

Oração que se pode recitar todos os dias de qualquer novena feita a nossa santa

Ó bem aventurada Teresinha, venho aos vossos pés cheio de confiança pedir-vos alguns favores. A cruz da vida pesa-me muito, e só encontro espinhos entre os seus braços. Florzinha de Jesus, enviai à minha alma uma chuva de rosas de graça e de virtude, para que eu possa subir ao Calvário da vida inebriado com seus perfumes. Ó esposa de Jesus, com um sorriso de vossos lábios angélicos e com um olhar de vossos olhos tão castos, movei o Coração do vosso divino Esposo a conceder-me a graça que tanto desejo.

Meu Deus, por intercessão de Santa Teresinha, dai-me forças para cumprir fielmente os meus deveres. Dignai-vos, outrossim, conceder-me as graças que ela vos pedir para mim nesta novena.


2 Orações De Santa Teresinha

Ó meu Jesus, para que a minha vida seja um ato de contínuo e perfeito amor, ofereço-me como vítima de holocausto ao Vosso amor misericordioso, suplicando-vos que me consumais inteiramente, deixando transbordar na minha alma a infinita abundância de ternura encerrada no Vosso Coração. Fazei de mim, ó meu Deus, a mártir do Vosso amor. Quero, ó meu único e doce Amor, que cada palpitação do meu coração vos renove infinitas vezes este meu oferecimento. Ofereço-Vos, enfim, o amor, e os merecimentos da Santíssima Virgem, minha terna Mãe; nas suas mãos virginais deponho este meu oferecimento, para que ela vo-lo apresente. Amém.

Ó Jesus, desejo consolar-Vos da mágoa que tendes da ingratidão dos pecadores, e peço-Vos que me tireis a liberdade de Vos poder desagradar. Se por fragilidade vier a cair, purificai logo a minha alma com o Vosso divino olhar, consumindo todas as minhas imperfeições, com o fogo que tudo transforma em sua substância


Oração à Santa Teresinha do Menino Jesus pelo Clero

“Almas, Senhor, precisamos de almas, principalmente, almas de apóstolos e de mártires, para que, por elas, abrasemos de vosso amor à multidão dos pobres pecadores”

Ó angélica e mimosa florzinha do Carmelo! Foi essa a mais ardente súplica do vosso coração ao Coração de vosso Deus. O grito de Jesus moribundo: eu tenho sede! Ressoava a cada instante, em vosso peito. Tínheis a sede ardente de almas, e quisestes, a todo custo, arrancar das chamas eternas os pecadores. Ouvi, pois, as súplicas ardentes que vos fazemos pelo nosso clero e por aqueles que aspiram ao ministério sublime da salvação das almas.

Santa Teresinha! Pedi instantemente ao Senhor da Messe numerosos e dedicados operários: seja esta a vossa mais ardente súplica junto ao trono do Eterno. Fazei cair sobre o Brasil, que tanto vos quer, uma chuva de rosas de vocações sacerdotais, e que, pela vossa valiosa proteção, perseverem na sublime carreira aqueles a quem Deus honrou com a graça tão preciosa da vocação.

Entrastes no Carmelo para rezar pelos sacerdotes e vossa vida foi uma contínua imolação pelos Apóstolos Evangélicos. Hoje que tanto podeis junto de Deus, hoje, que Jesus faz a vossa vontade no céu, pois que fizestes a dEle sobre a terra, ó Santa Teresinha, santificai, afervorai, abrasai daquele vosso zelo ardente o coração dos nossos padres. Não permitais, ah! Sim, não permitais que sejam profanados os mistérios do amor de Jesus por mãos de sacerdotes indignos, debaixo do céu deste Brasil, que tanto amais.

Santa Teresinha! Tende compaixão de tantos infelizes, desgraçados apóstatas, de tantos sacerdotes desertores das fileiras sagradas. Dissestes,

Anjo de zelo e de amor: “Eu tenho compaixão das almas que se perdem”.

As almas se perdem, Santa Teresinha, pela escassez de padres para salvá-las! Oh! Pedi à Virgem Santíssima, nossa Mãe querida, Rainha do Clero, numerosos e santos sacerdotes para a Igreja de Deus!


Cântico
À Santa Teresinha do Menino Jesus

Glória a Deus neste dia tão belo!
Honra e glória a Jesus Salvador,
E a florzinha gentil do Carmelo,
Revestida de novo esplendor.

Derramai vossas chuvas de rosas,
Teresinha da Pátria do amor,
Sobre a Igreja e almas ansiosas,
Que a vós clamam com todo o fervor.

Ó Teresa de Cristo menino,
Que na terra, em tão curto viver,
Espalhastes perfume divino!
Ah! Do céu fazei graças chover.

A inocência vos segue, ó Teresa,
No caminho da paz e do amor.
Toda a Igreja vos fia essa empresa,
Essa glória vos deu o Senhor.

Os arautos de Cristo, sagrados,
Abençoai nas longínquas regiões!
Ah! Tornai-os zelosos soldados,
Confortai-os nas santas legiões!

Cantai, jovens, um hino de glória
À Florzinha gentil de Jesus,
Para que ela vos dê a Vitória,
Que ela é o guia que ao céu vos conduz.

Como esposa de Cristo, no exílio,
Vós passastes fazendo só bem.
E no céu vós prestais vosso auxílio,
Vossas rosas lançando também!