São João Eudes

Quem foi São João Eudes?

Fundador da Congregação de Jesus e de Maria, atualmente conhecida pelo nome de Congregação dos Eudistas, São João Eudes consagrou sua vida a suscitar e desenvolver a devoção aos dois Corações que abraçava no mesmo amor, o do Filho de Deus e o de sua Bem-aventurada Mãe, tão estreitamente unidos no mistério da Encarnação.

Nascido em Rye, na diocese de Séez, João Eudes manifestou, desde a mais tenra infância, uma piedade tão pura e uma humildade tão profunda que, a fim de perfazer a sua formação espiritual, entrou muito jovem ainda para a Congregação do Oratório. Sob a direção do Padre de Bérule, cuja elevadíssima estima logo conquistou, a tal ponto aperfeiçoou o seu talento da palavra que lhe confiaram certas missões importantes, antes mesmo de receber as sagradas Ordens.

Sua pregação inflamada, tão segura de doutrina quanto prática nas exortações murais, suscitou grande entusiasmo na Normandia. Em 1636, os Superiores o designaram chefe das missões; em 1640, tornava-se Superior da Casa do Oratório de Caen. Mas em 1643, deixava os Oratorianos para fundar a Congregação chamada dos Eudistas, cujo desenvolvimento conheceu, desde o início, considerável extensão. Votados à educação dos jovens clérigos nos seminários e à conversão dos fiéis nas missões, os Eudistas estabeleceram suas Casas em todas as dioceses da Normandia. Formavam um corpo de eclesiásticos seculares, sem votos monásticos, praticando o retiro e seguindo com regularidade os exercícios de uma alta perfeição sacerdotal.

Todavia, sérias dificuldades vieram contrariar o zelo de João Eudes; graças a proteção da Rainha Mãe, ele terminou por superar os obstáculos, e a Santa Sé autorizou a ereção em Ordem religiosa, de sua comunidade de Nossa Senhora da Caridade.

Faleceu em Caen, em 1660, deixando grande número de obras; as principais são:

– Exercícios de Piedade para Viver Cristã e Santamente (1636)
– A Vida e o Reino de Jesus (1637)
– A Vida do Cristão (1641)
– O Contrato do Homem com Deus pelo Batismo (1654)

As páginas aqui apresentadas são extraídas do capítulo X de uma obra que compôs no fim de sua vida, obra que tem por título “O Coração admirável da sacratíssima Mãe de Deus”, e na qual trata detalhadamente das razões de ser da devoção ao Coração de Maria. Mas o capítulo em questão, no qual comenta o Magnificat e canta as maravilhas da “Virgem fiel”, foi terminado algumas semanas antes de sua morte.

“Hoje, vinte e cinco de julho de 1660, escreve ele, Deus me fez a graça de terminar o meu livro”

Falecia a 19 de agosto seguinte, no seminário de Caen, com sentimentos de uma profunda e de uma confiança sem limites na misericórdia de Jesus e de Maria.

Sumário

Magnificat anima mea Dominum - "A minha alma glorifica o Senhor"

Magnificat anima mea Dominum – “A minha alma glorifica o Senhor”

Esse primeiro versículo contém quatro palavras apenas, mas cheias de grandes mistérios; consideremo-las atentamente e com espírito de humildade, respeito e piedade, para que nos animemos a glorificar a Deus com a Bem-aventurada Virgem, pelas grandes e maravilhosas coisas que operou nEla, por Ela, para Ela e também para nós.

A minha alma glorifica o Senhor: observai que a Bem-aventurada Virgem não diz Eu glorifico, mas A minha alma glorifica o Senhor, para demonstrar que Ela O glorifica do mais íntimo do seu coração e em toda a extensão de suas potências interiores. Não O glorifica somente com os lábios e a língua, mas emprega todas as faculdades de sua alma, o entendimento, a memória, a vontade e todas as potências das partes superior e inferior de sua alma.

E não O glorifica somente em seu nome particular, nem para satisfazer às infinitas obrigações que tem de fazê-lo por motivo dos inconcebíveis favores que recebeu de sua divina bondade; mas glorifica-O em nome de todas as criaturas e por todas as graças que Ele concebeu a todos os homens, fazendo-Se homem para deificá-los e para salvar a todos, se quiserem corresponder aos desígnios do inconcebível amor que tem por eles.

A minha alma glorifica o Senhor: qual é esta alma que a Bem-aventurada Virgem chama a sua alma? Respondo, em primeiro lugar, que acho num grande autor, o Cardeal Marcos Vigier, a opinião de que essa alma da Bem-aventurada Virgem, é o seu Filho Jesus, que é a alma de sua alma.

Em segundo lugar, respondo que essas palavras, anima mea, compreendem primeiro, a alma própria e natural que anima o corpo da sagrada Virgem; segundo, a alma do divino Menino que Ela traz no seio, alma unida tão estreitamente à sua que ambas formam, de certo modo, uma só alma, pois a Criança que se acha em suas entranhas maternais é um só com a sua Mãe. Terceiro, que essas palavras, anima mea, assinalam e compreendem todas as almas criadas à imagem e semelhança de Deus, que existiram, existem e existirão em todo o universo. Pois, se São Paulo nos assegura que o Pai eterno “nos deu, com seu Filho, todas as coisas”, é evidente que, dando-O à sua divina Mãe, deu-lhe também todas as coisas. Razão pela qual todas as almas Lhe pertencem. E como a Virgem não ignora, e conhece também perfeitamente a sua obrigação de utilizar tudo quanto Deus Lhe deu para honrá-lO e glorificá-lO, quando pronuncia as palavras A minha alma glorifica o Senhor, considerando todas as almas que existiram, existem e existirão como almas que Lhe pertencem, Ela a todas abrange para uni-las à alma de seu Filho e à sua, e para empregá-las no louvor, exaltação e glorificação d’Aquele que desceu do Céu e Se encarnou em seu seio virginal para operar a grande obra da Redenção.

A minha alma glorifica o Senhor: qual é este Senhor? É o Senhor dos senhores, e o Senhor soberano e universal do céu e da terra. Este Senhor é o Pai eterno, este Senhor é o Filho, este Senhor é o Espírito Santo, três Pessoas divinas que são um só Deus e Senhor, e que têm uma só e mesma essência, poder, sabedoria, bondade e majestade. A Santíssima Virgem louva e glorifica o Pai eterno por have-lA associado a Si em sua divina paternidade, tornando-A Mãe do mesmo Filho de quem é o Pai. Ela glorifica o Filho de Deus por ter sido de sua vontade escolhe-lA por Mãe e ser o seu verdadeiro Filho. Glorifica o Espírito Santo, por ter querido realizar nEla a maior de suas obras, isto é, o mistério adorável da Encarnação. Ela glorifica o Pai, o Filho e o Espírito Santo pelas infinitas graças que fizeram e têm o desígnio de fazer a todo o gênero humano.

Et exultavit spiritus meus in Deo salutari meo – “E o meu espírito se alegra em Deus, meu Salvador”

Essas divinas palavras, pronunciadas pelos sagrados lábios da Mãe do Salvador, nos declaram a alegria inefável e incompreensível que Lhe encheu e santamente Lhe inebriou o coração, o espírito e a alma, com todas as suas faculdades, no momento da Encarnação do Filho de Deus e enquanto O levou em suas benditas entranhas; e até por todo o resto de sua vida, segundo Santo Alberto Magno e alguns outros Doutores. Alegria que foi tão excessiva, especialmente no momento da Encarnação que, assim como a sua santa alma separou-se do corpo no último instante de sua vida, pela força de seu amor a Deus e pela abundância de sua alegria ao ver-se prestes a ter com o seu Filho no Céu; Ela teria também morrido de alegria em vista das indescritíveis bondades de Deus para com Ela e para com todo o gênero humano, se a vida não Lhe fosse conservada por milagre. Pois se a história nos afirma que a alegria causou a morte de muitas pessoas, em razão de algumas vantagens temporais que lhes haviam sucedido, é bem para crer-se que a divina Virgem teria morrido também se não fora sustentada pela virtude do divino Menino que trazia em seu seio, visto que Ela possuía os maiores motivos de alegria que jamais existiram e existirão. Pois:

1. — Ela se rejubilava em Deus, in Deo, isto é, porque Deus é infinitamente poderoso, sábio, bom, justo e misericordioso, e porque faz resplandecer, de maneira tão admirável, o seu poder, a sua bondade e todos os outros divinos atributos, no mistério da Encarnação e da Redenção do mundo.

2. — Rejubilava-se em Deus seu Salvador, por ter vindo a este mundo, para salvá-lo e remi-lo, em primeiro lugar e principalmente, preservando-A do pecado original e cumulando-A de suas graças e favores, com tanta plenitude que A tornou, consigo, a Medianeira e cooperadora na salvação de todos os homens.

3. — Seu coração achava-se cumulado de alegria porque Deus A contemplara com os olhos de sua benignidade, isto é, amara e aprovara a humildade de sua serva, na qual achou singularíssima satisfação e complacência. É esta, diz Santo Agostinho, a causa da alegria de Maria, porque Ele olhou a humildade de sua serva; como se Ela dissesse: Rejubilo-me com a graça que Deus me fez, porque dEle recebi o motivo desta alegria; e nEle me rejubilo, porque amo os seus dons por seu amor.

4. — Rejubilava-se pelas grandes coisas que a sua onipotente bondade nEla operara, que são as maiores maravilhas de quantas Ele jamais fez em todos os séculos passados e fará em todos os séculos vindouros.

5. — Rejubilava-se, não só pelos favores que recebera de Deus, mas também pelas graças e misericórdias por Ele derramadas sôbre todos os homens que se dispõem a recebê-las.

6. — Rejubilava-se não só com a bondade de Deus em relação aos que não lhe opõem obstáculo, mas também com os efeitos de sua justiça sobre os soberbos, que Lhe desprezam as liberalidades.

Quia respexit humilitatem ancillæ suæ – “Lançou os olhos à humildade da sua serva”

Lançou os olhos à humildade da sua serva: qual é essa humildade de que fala a Bem-aventurada Virgem? A esse respeito, não são unânimes os pensamentos dos santos Doutores. Dizem alguns que, entre todas as virtudes, a humildade é a única que não se contempla e não se conhece a si mesma; pois o que se julga humilde é soberbo. Razão pela qual, ao dizer a Bem-aventurada Virgem que Deus olhou a sua humildade, não se refere à virtude da humildade, mas à sua baixeza e abjeção.

“Há duas espécies de humildade, diz São Bernardo. A primeira é a filha da verdade, é fria e sem calor. A segunda é a filha da caridade, e nos abrasa. A primeira consiste no conhecimento, e a segunda na afeição. Pela primeira, conhecemos que nada somos, e este conhecimento, tomamo-lo de nós mesmos e de nossa própria miséria e enfermidade. Pela segunda, calcamos aos pés a glória do mundo, e aprendemo-la dAquele que se aniquilou a Si mesmo, e que fugiu quando O procuraram para elevá-lO à glória da realeza; e que, em vez de fugir, ofereceu-Se voluntariamente quando O procuraram para crucificá-lO e mergulhá-lO em um abismo de opróbrios e ignomínias”

Se perguntardes porque Deus considerou antes a humildade da Santíssima Virgem que a sua pureza e suas outras virtudes, se todas nEla se achavam em grau elevadíssimo, responder-vos-á São Alberto Magno, com Santo Agostinho, que considerou antes a sua humildade, porque Lhe era mais agradável que sua pureza.

“A virgindade é muito louvável, diz São Bernardo, mas a humildade é necessária. Aquela é de conselho, esta, de mandamento. Podeis ser salvo sem a virgindade, mas sem humildade não há salvação. Sem a humildade de Maria, ouso dizer que não teria sido agradável a Deus a sua virgindade. Se Maria não fora humilde, o Espírito Santo não teria descido a Ela; e se não houvera descido a Ela, Ela não seria Mãe de Deus. Ela agradou a Deus pela virgindade, mas concebeu o Filho de Deus pela humildade. Donde é necessário concluir que foi a humildade que tomou sua virgindade agradável à divina Majestade”

Quem não possui humildade, nada possui; e quem possui humildade, possui todas as outras virtudes. Daí, resulta parecer, segundo as palavras do Espírito Santo pela bôca da Igreja, que o Pai eterno só enviou seu Filho a este mundo, para encarnar-Se e ser crucificado, a fim de ensinar-nos a humildade com o seu exemplo.

“O que o demônio destruiu pela soberba, diz um santo Padre, o Salvador restabeleceu pela humildade”

Ecce enim ex hoc beatam me dicent omnes generationes – “De hoje em diante me chamarão bem-aventurada todas as gerações”

Essa grande profecia, declarando-nos que todas as gerações devem reconhecer e proclamar Bem-aventurada a Mãe do Salvador, compreende todo o universo, desde o mais alto dos céus até o mais profundo dos infernos, pois:

1. — Além de Lhe ter a Santíssima Trindade enviado um dos primeiros príncipes de seu império para anunciar-Lhe que é cheia de graça, que o Senhor é com Ela para nEla operar as maiores maravilhas que jamais existiram e jamais existirão, e que é bendita entre todas as mulheres e acima de todas as criaturas: a mesma Trindade A exalta acima de todos os anjos, no dia de sua Assunção, e A estabelece no mais alto trono de glória.

2. — O Pai eterno A honra como a mais feliz de todas as mulheres, dando-Lhe poder que ultrapassa todos os poderes da terra e do céu; o Filho de Deus A proclama Bem-aventurada entre todas as nações às quais manda pregar o seu santo Evangelho; o Espírito Santo A torna felicíssima e gloriosíssima, comunicando-Lhe sua santidade em tão alto grau que Ela é a Rainha de todos os anjos e de todos os santos.

3. — Todas as hierarquias de anjos A reconhecem Bem-aventurada, pois, contemplando-A no dia de seu triunfo e de sua gloriosa Assunção, acham-nA tão cheia de maravilhas, que falam com admiração e como que todos arrebatados e transportados. Quae est ista? dizem eles, Quae est ista? Quem é esta? Quem é esta? E, após as adorações que rendem continuamente a Deus no céu, a primeira de suas ocupações é a de fazer ressoarem incessantemente os louvores de sua soberana Imperatriz.

4. — Não é verdade também que todas as almas que se achavam nos limbos, desde o início do mundo até a morte do Filho de Deus, foram libertadas por intermédio dessa Virgem incomparável, se foi Ela quem lhes deu um Redentor para livrá-las de seu cativeiro?

É assim que todas as gerações do céu, dos anjos, dos santos, da Igreja triunfante, da Igreja militante e da Igreja padecente cumprem a profecia da gloriosa Virgem: Beatam dicent omnes generationes.

In nomine Iesu omne genu flectatur, coelestium, terrestrium et infernorum – “Ao nome de Jesus dobre-se todo o joelho no céu, na terra e nos infernos”

Fecit mihi magna qui potens est, et sanctum nomen eius – “O Todo-Poderoso fez em mim maravilhas: Santo é o seu nome”

Tendo a Bem-aventurada Virgem dito no versículo precedente que todas as gerações A chamarão Bem-aventurada, neste declara as causas, que são as grandes coisas que Deus Lhe fez.

Quais são essas grandes coisas? Escutemos Santo Agostinho:

“É uma grande coisa, diz ele, que uma Virgem seja mãe sem pai. É uma grande coisa que tenha levado em seu seio o Verbo de Deus Pai, revestido de sua carne. E uma grande coisa tornar-Se Mãe de seu Criador aquela que só se atribui a qualidade de serva”

Deus fez portanto coisas tão grandes a essa divina Virgem, que não pôde fazer-Lhe maiores. Pois me bem pode fazer um mundo maior do que o fez, um céu mais extenso, um sol mais refulgente; mas não pode fazer, diz São Boaventura, uma Mãe maior e mais nobre que uma Mãe de Deus. Pois, se pudesse fazer maior, seria necessário dar-Lhe um Filho mais excelente. Ora, pode achar-se mais digno filho que o próprio Filho de Deus, de quem a Bem- aventurada Virgem Maria é a Mãe?

Que mais direi? Deus elevou tão alto essa Virgem incomparável e Lhe deu privilégios tão extraordinários que se pode dizer ter Ela dado à sua divina Majestade, se é permitido falar assim, coisas de certo modo maiores que as recebidas. De Deus, Ela recebeu ser sua criatura, ser-Lhe agradável, cheia de graça, bendita acima de todas as mulheres, etc. Mas a Deus, Ela deu ser o nosso Emanuel, isto é, Deus conosco; ser Deus e homem; o Redentor dos homens pelo precioso sangue que dEla recebeu; ter todo o poder no céu e na terra enquanto homem; ser o chefe da Igreja enquanto homem; ser o chefe dos anjos enquanto homem; perdoar os pecados enquanto homem.

Se o nosso Salvador deu a seus Apóstolos o poder de fazer milagres maiores que os feitos por Ele próprio, segundo o testemunho do Evangelho (João XIV, 12), não é para admirar que tenha dado à sua Mãe santíssima o poder de Lhe dar coisas maiores que as dEle recebidas. Pois esse poder é uma das grandes coisas de que Ela fala ao dizer que o Todo-Poderoso Lhe fez grandes coisas

Depois de tudo isso, quem não admirará as grandes e maravilhosas coisas que Deus fez à gloriosa Virgem? E quem não reconhecerá que foi o Espírito Santo quem Lhe fez pronunciar as palavras: Fecit mihi magna qui potens est? Oh! Quantos prodígios e milagres compreendem essas palavras! Oh! como é grande ser Virgem e Mãe de um Deus! Oh! Como é grande dar nascimento temporal em um seio virginal, Aquele que nasceu antes de todos os séculos no seio do Pai das misericórdias! Oh! como é grande para uma criatura mortal dar a vida Aquele de quem a recebeu! Oh! como é grande ter um poder e autoridade de Mãe sobre Aquele que é soberano Monarca do universo! Oh! Como é grande ser a nutridora, a guardiã e a governante dAquele que conserva e governa o mundo inteiro por sua imensa Providência! Oh! Como é grande ser a Mãe de tantos filhos quantos cristãos têm existido e existirão para sempre na terra e no céu!…

Eis muitas coisas grandes e maravilhosas, feitas por Deus à Rainha do céu. Mas eis o milagre dos milagres: é que, sendo tão grande quanto é, Ela se considera como se nada fosse.

Téndo a Bem-aventurada Virgem dito que o Onipotente Lhe fez grandes coisas, acrescenta em seguida as palavras: Et sanctum Nomen eius, e santo é o seu Nome. O mistério assinalado por estas palavras consiste em que a humanidade santa do divino Menino, que a Bem-aventurada Virgem concebeu em suas entranhas, é santificada pela união intima em que Ela entrou com a santidade essencial, que é a Divindade; o que se acha também designado pelas palavras de São Gabriel: O que nascer de Ti, será chamado Santo.

O mistério consiste também em que esse Menino Deus é assim santificado e constituído Santo dos santos, a fim de santificar e glorficar o Nome do três vezes Santo, tanto quanto Ele o merece; e ainda, a fim de fazê-lO santificado e glorificado na terra, no céu e em todo o universo, cumprindo, desta forma, o que se acha determinado nas palavras: Sanctificetur Nomen tuum, seja santificado o vosso Nome.

Vede e admirai quantas maravilhas se acham contidas nessas poucas palavras, pronunciadas pelos sagrados lábios da Mãe do Santo dos santos, cujo santo Nome seja santificado, louvado e glorificado, por toda a eternidade.

Jesus, o Bom Pastor

Et misericordia eius a progenie in progenies timentibus eum – “A Sua misericórdia se estende de geração em geração sobre aqueles que O temem”

Depois de ter glorificado a Deus pelos favores infinitos com que A cumulou, e de ter feito a admirável profecia: Todas as gerações me chamarão Bem-aventurada, profecia que compreende um mundo de maravilhas que o Onipotente operou e há de operar em todos os séculos e por toda a eternidade, para tomar essa Virgem Mãe gloriosa e venerável em todo o universo: eis uma outra profecia, cheia de consolação para todo o gênero humano, especialmente para aqueles que temem a Deus, pois essa divina Maria nos declara que a misericórdia de Deus se estende de geração em geração sobre aqueles que O temem.

Qual é essa misericórdia? É o nosso boníssimo Salvador, diz Santo Agostinho. Por isto, o Pai eterno é chamado Pai das misericórdias, porque Pai do Verbo encarnado, que é a própria misericórdia. É desta misericórdia que o régio profeta pedia a Deus, em nome de todo o gênero humano, a vinda a este mundo pelo mistério da Encarnação, quando dizia:

“Mostrai-nos, Senhor, a vossa misericórdia, e dai-nos o vosso Salvador” – Ostende nobis, Domine, misericordiam tuam, et salutare tuum da nobis

Pois, como o Verbo encarnado é todo amor e todo caridade, é também todo misericórdia. Deus é sempre misericordioso por natureza e por essência, diz São Jerônimo, e sempre pronto a salvar por sua clemência os que não pode salvar por sua justiça. Mas somos tão desgraçados e tão inimigos de nós mesmos que, quando a misericórdia se nos apresenta para salvar-nos, nós lhe voltamos as costas e a desprezamos.
É pela Encarnação que o Filho de Deus exerceu a sua misericórdia, segundo as palavras do Príncipe dos Apóstolos:

“Ele nos regenerou segundo a sua grande misericórdia” (I Pedro, I, 3)

Pois todos os efeitos de misericórdia que o Salvador operou sobre os homens, desde o início do mundo até agora, e operará por toda a eternidade, procederam e procederão do adorável mistério de sua Encarnação, como de sua fonte e princípio primeiro. É por isso que Davi, pedindo perdão de seus pecados, ora desta maneira:

“Ó meu Deus, tende piedade de mim segundo a vossa grande misericórdia”

Três coisas são necessárias à misericórdia. A primeira é ter compaixão da miséria alheia; pois é misericordioso quem traz no coração, por compaixão, as misérias dos miseráveis. A segunda, é ter uma grande vontade de socorrê-los em suas misérias. A terceira, é passar da vontade ao efeito. Ora, o nosso bom Redentor encarnou-Se para exercer em nós a sua grande misericórdia.

Pois, fazendo-se homem, e tomando um corpo e um coração capaz de sofrimento e dor como o nosso, Ele se encheu de tal compaixão de nossas misérias e as levou em seu coração com tanta dor, que não há palavras para exprimi-la. Pois, de um lado, tendo um amor infinito por nós, como um pai boníssimo por seus filhos; e, de outro lado, tendo sempre diante dos olhos todos os males do corpo e do espírito, todas as angústias, todas as tribulações, todos os martírios e todos os tormentos que seus filhos deveriam padecer até o fim do mundo; seu Coração boníssimo foi dilacerado por mil dores, extremamente sensíveis e penetrantes, as quais Lhe teriam dado mil vezes a morte, se o seu amor, mais forte que a morte, não Lhe houvesse conservado a vida, a fim de sacrificá-la por nós na cruz.

Na verdade, o que não fez Ele e o que não sofreu para livrar-nos efetivamente de todas as misérias temporais e eternas nas quais nos tinham mergulhado os nossos pecados? Todas as ações de sua vida, e de uma vida de trinta e quatro anos, e de uma vida divinamente humana e humanamente divina; todas as virtudes que praticou, todos os passos e peregrinações que fez sobre a terra, todos os trabalhos que passou e todas as humilhações, privações e mortificações que suportou; todos os seus jejuns, preces, vigílias, pregações; todos os seus sofrimentos, chagas, dores, a sua morte crudelíssima e cheia de opróbrio, o seu precioso Sangue derramado até à última gota; todas essas coisas, digo eu, não foram todas essas coisas empregadas, não só para libertar-nos de toda espécie de males, mas também para dar-nos a posse de um império eterno, cheio de uma imensidade de glória, grandezas, alegrias, felicidades e bens inconcebíveis e inefáveis?

Mas que significam as palavras seguintes: Sua misericórdia se estende de geração em geração sobre aqueles que O temem? Significam, segundo a expressão dos santos Doutores, que, assim como o nosso Salvador encarnnou-Se e morreu por todos os homens, derrama também os tesouros de suas misericórdias sobre todos aqueles que não lhes opõem obstáculos, mas que O temem. De modo que, assim como me é uma fonte inexaurível de graça e de misericórdia, acha também um soberano prazer em comunicá-las continuamente a seus filhos, em todo tempo e em todo lugar.

Mas me não quis fazer inteiramente só essa grande obra. Pois, além de fazer todas as coisas com o seu Pai e o seu divino Espírito, quis ainda associar a sua Mãe santíssima nas grandes obras de sua misericórdia. Não é bom que o homem esteja só, disse Deus, quando quis dar a primeira mulher ao primeiro homem: façamos-lhe um adjutório semelhante a ele. Assim, o novo homem, que é Jesus, quer ter um adjutório que é Maria, e seu Pai eterno Lha concede para ser sua coadjutora e cooperadora na grande obra da salvação do mundo, que é a obra de sua grande misericórdia.

Maria é pois a administradora da misericórdia, porque Deus A encheu inteiramente de uma bondade, de uma doçura, de uma liberalidade extraordinária e de um poder sem igual, a fim de que Ela queira e possa assistir, proteger, amparar e consolar todos os aflitos, todos os miseráveis, e todos quantos a Ela recorrerem em suas necessidades.

É o que Ela faz continuamente para com os indivíduos, os reinos, as províncias, as cidades, as casas e até para com todo o mundo, segundo as palavras de um dos mais santos e mais sábios Padres da Igreja, São Fulgêncio, que vivia há cerca de mil e duzentos anos:

“Há muito que o céu e a terra se teriam reduzido ao nada de que foram tirados, se Maria os não sustentasse”

Fecit potentiam in brachio suo, dispersit superbos mente cordis sui – “O grande Deus manifestou o poder de seu braço e dispersou os soberbos”

Tendo a Bem-aventurada Virgem louvado e glorificado, no versículo precedente, os efeitos da divina Misericórdia, que se originam da Encarnação do Salvador, e se estendem de geração em geração sobre aqueles que temem a Deus, glorifica e exalta no presente versículo os prodígios do divino Poder, que refulgem de maneira admirável no mesmo mistério.

O grande Deus, diz Ela, manifestou o poder de seu braço. Qual é este braço? Santo Agostinho, São Fulgêncio, São Boaventura dizem que é o Verbo encarnado, pois, assim como é pelo braço que o homem faz as suas ações, é também pelo seu Filho que Deus faz todas as coisas. Assim como o braço do homem, diz Alberto Magno, origina-se do corpo, e a mão do corpo e do braço: o Filho de Deus origina-Se do Pai, e o Espírito Santo procede do Pai e do Filho.

Mas que significam as palavras: Fecit potentiam? Significam que Deus operou poderosamente e produziu efeitos admiráveis de seu poder, in bracnio suo, por seu Filho único e seu Verbo encarnado, que é o seu braço. É por Ele que seu Pai criou todas as coisas; por Ele que remiu o mundo inteiro; por Ele que venceu o demônio; por Ele que triunfou do inferno; por Ele que nos ofereceu o céu; por Ele que fez uma infinidade de outros milagres. Nada faço de Mim mesmo, diz o Filho de Deus, mas é o meu Pai que, permanecendo em Mim, faz tudo quanto Eu faço. Quantas maravilhas opera a divina Providência nesse mistério da Encarnação! Que milagre ver o Verbo encarnado sair das sagradas entranhas de uma Virgem, sem afetar-Lhe a integridade! Quantos milagres na instituição do Santíssimo Sacramento do Altar! Que milagre, enfim, do divino Poder, ter elevado uma neta de Adão à dignidade infinita de Mãe de Deus, e havê-la estabelecido Rainha de todos os Anjos e de todo o universo!

Eis ainda duas coisas extremamente consideráveis. A primeira, é nada haver em que o divino Poder mais apareça do que na remissão e destruição do pecado, segundo as palavras da santa Igreja:

Ó Deus, que manifestais a vossa onipotência em perdoar-nos os pecados e em fazer-nos misericórdia, mais que em qualquer outra coisa…

A razão é que a injúria feita a Deus pelo pecado é tão grande, que só o poder infinito de uma imensa bondade a pode perdoar; e que o pecado é um monstro tão horrendo que só o braço do Onipotente o pode esmagar.

A segunda coisa na qual refulge maravilhosamente esse adorável Poder, é a virtude e a força que dá aos santos Mártires e a todas as pessoas que sofrem penas extraordinárias, a fim de suportá-las generosa e cristãmente por amor dAquele que por ele sofreu os tormentos e a morte da cruz.

Eis um pequeno resumo dos inúmeros milagres que o braço onipotente do Verbo encarnado operou e opera para glória de seu divino Pai, para honra de sua Mãe sacratíssima, para salvação e santificação dos homens e para os excitar a servi-lO e amá-lO de todo o coração, assim como Ele os ama de todo o seu.

Mas quais são os soberbos de que fala a Virgem Maria, ao dizer: Dissipou aqueles que se orgulhavam nos pensamentos de seu coração? Os santos Padres dão diversas explicações. Dizem alguns que esses soberbos são os anjos rebeldes que Deus expulsou do céu e precipitou no inferno, por causa de seu orgulho. Santo Agostinho escreve que, por esses soberbos, podem entender-se os judeus que desprezaram o humilde advento de nosso Salvador, motivo pelo qual foram condenados.

Mas, segundo o pensamento de vários e graves autores, isso significa que, não só Deus dissipa e aniquila os pensamentos malignos e perniciosos desígnios que os maus maquinam contra Ele e contra os seus amigos; mas age também de tal modo que todas as suas pretensões redundam em confusão própria, para glória de sua divina Majestade, e para acréscimo da santidade e felicidade eterna daqueles que O servem.

E o que é mais ainda, é que os derrota com as suas próprias armas: Mente cordis sui. Pois Ele faz com que as flechas despedidas por sua malícia contra Ele e os seus filhos, voltem-se contra eles próprios. Faz com que os desígnios deles sirvam para realização dos seus; faz com que as invenções malignas de sua impiedade redundem em perdição própria e proveito dos seus servos. Transforma os obstáculos que eles opõem às obras de sua glória, em meios poderosíssimos de que se serve para dar-lhes maior firmeza, maior perfeição e maior brilho.

Não se voltou a malícia de Satanás contra o primeiro homem, contra ele mesmo para sua confusão, e para proveito não só daquele homem mas de tôda a sua posteridade? Pois Deus tirou tantos e tão grandes bens do mal em que a tentação do demônio fez cair o primeiro homem, que a Igreja canta: O felix culpa, ó feliz culpa.

Não serviu a maldita inveja e a má vontade dos irmãos de José, como um meio da divina Providência para elevá-lo até à participação no trono real do Egito, e para dar-lhe o glorioso título de deus do Faraó?

De que serviu ao sucessor desse mesmo Faraó a dureza e crueldade que exerceu contra o povo de Deus, senão para abismá-lo, com todo o seu exército, no fundo do mar Vermelho, e para melhor manifestar a proteção de Deus sobre os seus?

Enfim, pode dizer-se com verdade de todos quantos perseguem e afligem os servos de Deus o que Santo Agostinho disse do ímpio Herodes, quando mandou matar tantos Inocentes, a fim de perder Aquele que viera para salvar todo o mundo:

“Eis uma coisa maravilhosa, é que o ódio e crueldade desse ímpio inimigo de Deus e dos homens, foram de muito maior proveito a essas bem-aventuradas crianças, que toda a amizade que pudesse ter por elas e todos os favores que lhes pudesse ter feito”

É assim que o braço onipotente do Verbo encarnado derruba os empreendimentos dos soberbos, pelo próprio pensamento de seus corações; e é à Virgem que cabe o papel de esmagar a cabeça da serpente, isto é, esmagar o orgulho e a soberba. Por isto, dEla se pode dizer com toda a razão: Tu gloria Jerusalem, tu laetitia Israel…:

“Vós, a glória de Jerusalém, Vós a alegria de Israel, Vós a honra do povo cristão, porque combatestes generosamente e gloriosamente vencestes os inimigos de sua salvação”

A primeira palavra: Vós, a glória de Jerusalém, é a voz dos anjos, cujas ruínas foram reparadas por meio de Maria. A segunda: Vós, a alegria de Israel, é a voz dos homens, cuja tristeza se transformou em alegria por seu intermédio. A terceira: Vós, a honra do povo cristão, é a voz das mulheres, cuja infâmia foi apagada pelo fruto bendito de suas entranhas. A quarta: Combatestes e gloriosamente vencestes, é a voz das almas santas, prisioneiras nos limbos, que foram libertadas do cativeiro pelo seu Filho bem-amado, o Redentor do mundo.

Virgem Maria, modelo de Humildade

Deposuit potentes de sede et exaltavit humiles – “Derrubou os poderosos de seus tronos e exaltou os humildes”

Chegando o tempo em que aprouve ao Pai das misericórdias cumprir o seu eterno desígnio de salvar o gênero humano, a sua divina Sabedoria quis empregar, para tal fim, meios aparentemente sem aptidão alguma e em nada conformes à elevação dessa grande obra. Quais são? Ei-los: envia seu Filho único a este mundo, em estado passível e mortal, e em tal abjeção e baixeza a que Ele mesmo diz: Sou um verme da terra e não homem; e traz por titulo de honra em suas Escrituras: o último de todos as homens.

Esse Pai adorável quer que seu Filho, nascido desde toda a eternidade em seu seio, e que é Deus como Ele, tome nascimento de uma Mãe, santíssima na verdade, mas tão abjeta e pequenina aos próprios olhos e aos olhos do mundo, que se considera como a última de todas as criaturas.

Além disso, esse Pai divino, querendo dar a seu Filho coadjutores e cooperadores para trabalharem com Ele na grande obra da redenção do universo, dá-Lhe doze pobres pescadores sem ciência, sem eloquência, e sem qualidades que os exaltem diante dos homens. Envia esses doze pescadores por toda a terra para destruir uma religião inteiramente conforme às inclinações humanas e enraizada desde muitos anos nos corações de todos os homens, e para estabelecer outra, completamente nova, oposta à primeira é contrária a todos os sentimentos da natureza.

Os doze pobres pescadores se vão por todo o mundo para pregar e estabelecer a nova religião, e para destruir a primeira. Mas como são recebidos? Todo o mundo se ergue contra eles, grandes e pequenos, ricos e pobres, homens e mulheres, sábios e ignorantes, filósofos, sacerdotes dos falsos deuses, reis e príncipes; todos os homens em geral, empregam toda a sua habilidade para opor-se à pregação do Evangelho que os doze pescadores se esforçam por publicar. São capturados, lançados nas prisões, acorrentados de pés e mãos, tratados como celerados e feiticeiros, açoitados, esfolados vivos, queimados, lapidados, crucificados, em uma palavra, submetidos aos mais atrozes suplícios.

E que acontece? Por fim, alcançam a vitória, triunfam gloriosamente dos grandes, dos poderosos, dos sábios e de todos os monarcas da terra. Aniquilam a religião, ou antes, a irreligião e a abominável idolatria que o inferno estabelecera por toda a terra, e estabelecem por todo o mundo a fé e a religião cristãs. Enfim, permanecem senhores do universo e Deus lhes dá o principado da terra: Constituit eos principes super omnem terram. O Senhor derruba os tronos dos reis e as cátedras dos filósofos; dá o primeiro império do mundo a um pobre pescador, elevando-o a tão alto grau de poder e glória, que os reis e os príncipes consideram uma grande honra beijar o pó de seu sepulcro e os pés de seus sucessores. Que é tudo isso, senão a realização da profecia da Bem-aventurada Virgem: Depôs do trono os poderosos, e elevou os humildes?…

Observai que, embora essas palavras, assim coas outras contidas nesse cântico,- expressem um tempo passado: Deposuit, abrangem todavia o passado, o presente e o futuro, porque são pronunciadas por espírito profético. E com efeito, a realização dessa profecia apareceu manifestamente nos séculos passados, e aparecerá cada vez mais- nos séculos futuros, até o fim do mundo.

Esurientes implevit bonis et divites dimisit inanes – “Aos famintos encheu de bens e aos ricos despediu de mãos vazias”

Essas palavras da Bem-aventurada Virgem, segundo as explicações dos santos Doutores, aplicam-se aos bons e aos maus anjos, aos anjos humildes e aos anjos soberbos, aos anjos obedientes a Deus e ao anjos revoltados contra Ele. Os bons anjos reconhecem que Deus os tirou do nada e que de sua divina bondade receberam todas as perfeições que a Deus se atribuem, rendendo-Lhe homenagem por elas e só reservando para si o nada. Razão pela qual Deus os faz passar do estado de graça, em que se acham, ao estado de glória, cumulando-os com os bens inestimáveis que se encerram na bem-aventurada eternidade.

Os maus anjos, ao contrário, contemplando as excelências com que Deus os ornou em sua criação, nelas se comprazem e delas se apropriam e glorificam como se as possuíssem por si mesmos, por uma soberba e uma insuportável arrogância que obrigam a divina justiça a despojá-los de todas as suas perfeições e claridade, reduzi-los a uma extrema miséria e pobreza, e precipitá-los no fundo do inferno.

Santo Agostinho aplica essas mesmas palavras, Esurientes, aos humildes, e Divites, aos soberbos. Os humildes, diz ele, reconhecem que nada possuem de si mesmos e que têm necessidade extrema do auxílio e da graça do céu; mas os soberbos se persuadem de que estão cheios de graça e de virtude. Por isso, Deus se compraz em derramar seus dons sobre aqueles e em retirá-los destes.

Essas mesmas palavras se entendem ainda, conforme o pensamento de vários santos Doutores, a respeito de todos os pobres que têm o coração desapegado das coisas da terra, e que amam e abraçam a pobreza por amor dAquele que, possuindo todos os tesouros da Divindade, quis fazer-Se pobre por nosso amor, a fim de nos dar a posse das riquezas eternas. Mas, é necessário entendê-las especialmente dos que se despojaram voluntariamente de todas as coisas, pelo santo voto de pobreza, a fim de imitar mais perfeitamente o nosso divino Salvador e sua Mãe santíssima, em seu estado de pobreza, pobreza tão grande que o Filho de Deus pronunciou as palavras: As raposas têm seus covis, as aves do céu os seus ninhos; mas o Filho do homem não tem onde repousar a cabeça.

Eis outra explicação das supramencionadas palavras: Esurientes, etc., a qual é de grande consolação. É ainda uma profecia da sacrossanta Mãe de Deus, a qual compreende uma conversão extraordinária que se deve realizar por todo o mundo, conversão dos infiéis, dos judeus, dos hereges e dos falsos cristãos, conversão predita e anunciada desde muito tempo pelo oráculo das santas Escrituras. Essa grande conversão foi revelada pelo Espírito Santo, não só aos Profetas da antiga Lei, mas também aos mais santos e santas da Lei nova. Não nos assegura o grande Apóstolo São Paulo que todos os judeus se converterão e que sua conversão será seguida pela de todo o mundo? A esse respeito, rogo-vos considerardes que não existem no mundo homens mais opostos a Deus, mais contrários ao nosso Salvador, mais inimigos de sua religião, e por conseguinte mais afastados da conversão, que esses pérfidos. Se, não obstante tudo isso, Deus lhes deve fazer essa misericórdia, há grandes motivos para crer que não a recusará a todos os outros homens…

Então se realizará a grande profecia da Rainha dos Profetas: Esurientes implevit bonis; não talvez em toda a perfeição que seria para desejar, e de modo a não restar pessoa alguma na terra sem o conhecimento e o amor de Deus. Mas, embora essa conversão não seja talvez geral, será todavia magnífico e delicioso banquete para todos quantos têm uma grande fome e ardente sede da glória de Deus e da salvação das almas.

Oh! Que grandes tesouros encerra a pobreza voluntária, pois que- disse Nosso Senhor: Bem-aventurados os pobres, tanto que deles é o reino dos céus. Oh! Quão perigosa é a posse das riquezas, pois disse Aquele que é a verdade eterna:

“Ai de vós, ó ricos, porque tendes aqui a vossa consolação”

Por isso, se amais as riquezas, não ameis as falsas riquezas da terra; amai porém as verdadeiras riquezas do céu, que são o temor e o amor de Deus, a caridade para com o próximo, a humildade, a obediência, a paciência, a pureza e as outras virtudes cristãs que vos estabelecerão na posse de um eterno império…

Suscepit Israel puerum suum recordatus misericordiæ suæ – “Acolheu a Israel, seu servo, lembrado da sua misericórdia”

O Deus onipotente fez duas criaturas no princípio do mundo, o anjo e o homem: o anjo no céu, o homem na terra. Ambos foram tão ingratos que se revoltaram contra o seu Criador: o anjo pela soberba, e o homem, pela desobediência ao mandamento de seu Deus. O pecado do anjo, sendo um pecado de soberba, foi tão grande diante de Deus que sua divina justiça O obrigou a expulsá-lo do paraíso e lançá-lo no inferno.

Mas a sua misericórdia, vendo que o homem caíra no pecado pela tentação e sedução de Satanás, teve compaixão dele e tomou a resolução de retirá-lo do estado miserável a que se achava reduzido, e até se comprometeu a isso pela promessa que lhe fez. E todos os gravíssimos e inúmeros pecados cometidos depois dessa promessa, pelos judeus, pelos gentios e por todos os homens, não foram capazes de impedir-lhe a execução; mas retardaram-na de muitos séculos, durante os quais toda a raça de Adão, condenada e reprovada por Deus, achava-se mergulhada em abismo de trevas e redemoinho de males e inexplicáveis, sendo-lhe impossível sair por si mesma.

Mas finalmente, o Filho de Deus se lembrou de suas misericórdias, que parecia ter esquecido havia mais de quatro mil anos: Recordatus misericordiae suae, e da promessa que fizera a Adão, a Abraão, a Davi e a outros Profetas mais, de retirar o gênero humano desse abismo de males. Ele mesmo d^e do céu ao seio virginal da divina Maria, onde e à sua divina Pessoa a natureza tão miserável que abandonara, faz-Se homem para salvar todos os homens que quiserem pertencer ao número dos verdadeiros israelitas, isto é, que quiserem crer nEle e amá-lO.

Eis o que a Bem-aventurada Virgem nos anuncia pelas palavras: Suscepit Israel puerum suum, recordatus misericordiae suae. É a conclusão de seu divino Cântico; uma recapitulação dos inefáveis mistérios nele encerrados; é o fim da Lei e dos Profetas; a realização das sombras; a consumação das figuras. E o mesmo que se Ela dissesse: Eis o efeito da predição dos Profetas; eis o que as sombras assinalaram; eis o que os Patriarcas esperaram; eis o que me faz cantar do mais profundo de meu coração: Magnificat anima mea Dominum. Eis o grande motivo de minhas alegrias e de meus transportes: Et exultavit spiritus meus in Deo salutari meo. Eis o que fará com que todas as nações me proclamem Bem-aventurada. Eis o que exaltará os humildes e confundirá os soberbos: Suscepit Israel puerum suum.

Sicut locutus est ad patres nostros, Abraham et semini eius in sæcula – “Conforme tinha dito a nossos pais, a Abraão e à sua posteridade para sempre”

Os homens falam muito e são extremamente hábeis em prometer muitas coisas; mas suas palavras e promessas não são, às mais da vêzes, senão mentira e embustes. Deus fala pouco; Ele tem uma só palavra, mas, com esta só palavra, governa todas as coisas e cumpre verdadeira e fielmente todas as suas promessas. São as promessas que fez a Adão, a Abraão e aos outros Pais e Patriarcas, as mencionadas pela Bem-aventurada Virgem nessas últimas palavras de seu divino Cântico: Conforme tinha dito a nossos pais, a Abraão e à sua posteridade para sempre; promessas que cumpriu ao encarnar-Se em seu bendito seio. Foi o que Ele declarou aos judeus quando lhes disse: “Abraão desejou ardentemente ver o meu dia”, isto é, o dia de minha Encarnação, de meu nascimento e permanência na terra, do qual esperava a sua salvação e a salvação do mundo.

Vemos assim como Deus é verdadeiro em suas palavras e em suas promessas, o que deve causar-nos uma grande consolação. Pois essa fidelíssima realização das promessas de Deus nos dá uma certeza infalível de que se cumprirão perfeitíssimamente todas as outras promessas que nos fez.

Ora, o nosso adorável Salvador não é o único a quem se chama o Fiel e o Verdadeiro; pois a santa Igreja atribui também essa . qualidade à sua divina Mãe: Virgo fidelis, Virgem fiel. Escutemo-la nas palavras do Espírito Santo:

Transite ad me omnes – “Vinde todos a mim”

Omnes, não só alguns, mas todos, homens e mulheres, grandes e pequenos, ricos e pobres, jovens e velhos, sãos e enfermos, justos e pecadores, fiéis e infiéis, sábios e ignorantes; pois desejo aliviar-nos em todas as necessidades e alcançar a salvação de todos. Vinde a mim com grande confiança; pois Deus me concedeu todo o poder no céu e na terra, e tenho mais amor e ternura por vós do que é possível existir nos corações de todas as mães, passadas, presentes e futuras. Vinde a mim, pois, assim como dei a vida à vossa adorável cabeça que é o meu Filho Jesus, posso dá-la também a seus membros; estarei convosco para conduzir-vos sempre e por toda a parte, em todas as coisas. Eu vos consolarei nas aflições; protegerei entre todos os perigos dessa vida; defenderei de todos os inimigos visíveis e invisíveis; iluminarei nas trevas; fortalecerei nas fraquezas; darei amparo nas tentações. Assistir-vos-ei na hora da morte; receberei vossas almas. à saída do corpo para apresentá-las a meu Filho. Enfim, dar-vos-ei lugar em meu regaço e em meu Coração maternal; ter-vos-ei sempre presentes diante de meus olhos e mostrar-vos-eis que tenho um verdadeiro coração de Mãe por vós.

E, terminando, eis o que me resta dizer-vos: Lançai os olhares sôbre a vida que leveis na terra e sôbre todas as virtudes que então pratiquei pela# graça de Deus: são outras tantas vozes que vos falam e vos dizem: Beati qui custodiunt vias meas, Bem-aventurados os que seguem o caminho que Eu segui, isto é, os que seguem o caminho da fé, da esperança, da caridade, da humildade, da obediência, da pureza, da paciência e das outras virtudes que na terra pratiquei. Abraçai pois todas essas virtudes, de todo o vosso coração. E meu Filho Jesus abençoar-vos-á, se O amardes e guardardes fielmente todos os seus mandamentos.

São João Eudes e a Virgem Maria

São João Eudes, rogai por nós!