São Francisco de Sales, Bispo e Doutor da Igreja

São Francisco de Sales, Bispo e Doutor da Igreja Católica (1567 – 1622)

Salve Maria!
Vos apresento uma das obras que mais influenciaram minha caminhada, na qual despertou-me a busca do autoconhecimento, da prática das virtudes, da firme resolução de não mais ofender a Nosso Senhor, vivência dos Sacramentos com mais afinco; em outras palavras, que me ajudou e ainda ajuda, a cada dia, ser um católico autêntico e que busca em tudo agradar a Deus pelas mãos da Virgem Maria.

O Doutor do Amor Divino, São Francisco de Sales, também conhecido como o Santo da Mansidão, testemunhou com sua vida que é possível transformar o mundo pela força da não-violência, através do Amor. Acolhemos, portanto, estes riquíssimos ensinamentos desta obra que, como nos diz no documento com que o Papa Pio IX o proclamou Doutor da Igreja, «[A verdadeira piedade] chegou a penetrar até no trono dos reis, na tenda dos chefes dos exércitos, no pretório dos juízes, nos escritórios, nas oficinas e nas cabanas dos pastores […]» (Breve Dives in misericordia, 16 de Novembro de 1877), e busquemos imitá-lo em suas virtudes e conselhos piedosos presentes em usa obra Filoteia.

“A viva e verdadeira devoção, ó Filoteia, pressupõe amor de Deus, ou, melhor dizendo, é verdadeiro amor de Deus, mas não um amor qualquer; porque, quando o amor divino embeleza a nossa alma, toma o nome de graça, tornando-nos agradáveis à sua divina Majestade; quando nos dá a força de fazer o bem, chama-se caridade; mas quando chega a tal grau de perfeição, que não somente nos leva a praticar o bem, mas até no-lo faz praticar com zelo, frequência e prontidão, então chama-se devoção”

Sumário de Filoteia

Breve Biografia de São Francisco de Sales

Prefácio de São Francisco de Sales

Audiência Geral do Papa Bento XVI sobre São Francisco de Sales

PRIMEIRA PARTE
Avisos e exercícios necessários para conduzir a alma que começa a sentir os primeiros desejos da vida devota, até possuir uma vontade resoluta e sincera de abraçá-la

1. A Natureza da Devoção

2. Propriedades e Excelências da Devoção

3. A Devoção é Útil a todo Estado e Circunstâncias da Vida

4. Necessidade dum Diretor Espiritual para Entrar e Progredir nos Caminhos da Devoção

5. Necessidade de Começar pela Purificação da Alma

6. Antes de tudo é necessário que a Alma se Purifique dos Pecados Mortais

7. Em seguida é necessário Purificar a Alma de toda a Afeição ao Pecado

8. Como alcançar este segundo grau de Pureza da Alma

9. Meditação sobre a Criação do Homem

10. Meditação sobre o Fim do Homem

11. Meditação sobre os Benefícios de Deus

12. Meditação sobre os Pecados

13. Meditação sobre a Morte

14. Meditação sobre o Último Juízo

15. Meditação sobre o Inferno

16. Meditação sobre o Paraíso

17. Meditação sobre uma alma que delibera a escolha entre o Céu e o Inferno

18. Meditação para deliberar entre a Vida Mundana e a Vida Devota

19. Espírito necessário para fazer bem a Confissão Geral

20. Protestação da alma a Deus para confirmar-se numa resolução inabalável de servir-lhe e para concluir os Atos de Penitência

21. Conclusão de tudo o que fica dito sobre o primeiro grau da pureza da alma

22. Necessidade de purificar a alma de todos os afetos ao pecado venial

23. Necessidade de purificar a alma das coisas inúteis e perigosas

24. Necessidade de purificar a alma mesmo das imperfeições naturais

SEGUNDA PARTE
Diversos avisos para elevar a alma a Deus por meio da oração e da recepção dos sacramentos

1. A necessidade da oração

2. Breve método de meditação. Primeiro ponto da preparação: pôr-se na presença de Deus

3. Segundo ponto da preparação: a invocação

4. Terceiro ponto da preparação: propor-se um mistério

5. Segunda parte da meditação: As considerações

6. Terceira parte da meditação: Os afetos e as resoluções

7. A conclusão e o ramalhete espiritual

8. Avisos utilíssimos acerca da meditação

9. A aridez espiritual na meditação

10. A oração da manhã

11. A oração da noite e o exame de consciência

12. A solidão do coração

13. As aspirações ou orações jaculatórias e os bons pensamentos

14. A santa Missa e o melhor modo de ouvi-la

15. Outros exercícios públicos e comuns de devoção

16. Devem os honrar e invocar os santos

17. Como se deve ouvir e ler a palavra de Deus

18. Como se devem receber as inspirações

19. A santa confissão

20. A comunhão frequente

21. Como se deve comungar

TERCEIRA PARTE
Avisos necessários para a prática das virtudes

1. A escolha das virtudes

2. Continuação das reflexões necessárias sobre a escolha das virtudes

3. A paciência

4. A humildade nas ações exteriores

5. A humildade interior é a mais perfeita

6. A humildade nos faz amar a nossa própria abjeção

7. Modo de conservar a reputação juntamente com o espírito de humildade

8. A mansidão no trato com o próximo e os remédios contra a cólera

9. A mansidão para conosco

10. Deve-se tratar dos negócios com muito cuidado, mas sem inquietação nem ansiedade

11. A obediência

12. Necessidade Lia castidade

13. Conselhos para conservar a castidade

14. O espírito de pobreza unido à posse de riquezas

15. Modo de praticar a pobreza real, permanecendo na posse das riquezas

l6. As riquezas de espírito no estado de pobreza

17. A amizade em geral e suas espécies más

18. As mais perigosas amizades

19. As verdadeiras amizades

20. Diferença das amizades vãs e verdadeiras

21. Avisos e remédios contra as más amizades

22. Outros avisos sobre as amizades

23. Exercício de mortificação exterior

24. A sociedade e a solidão

25. A decência dos vestidos

26. As conversas e, em primeiro lugar, como se há de falar de Deus

27. Honestidade das palavras e respeito que se deve ao próximo

28. Os juízos temerários

29. A maledicência

30. Alguns outros avisos acerca do falar

31. Os divertimentos; em primeiro lugar os honestos e lícitos

32. Os jogos proibidos

33. Os bailes e outros divertimentos permitidos, mas perigosos

34. Quando se pode jogar ou dançar

35. A fidelidade devida a Deus tanto nas coisas pequenas como nas grandes

36. Devemos ter um espírito justo e razoável

37. Os desejos

38. Avisos para os casados

39. Da honestidade do leito conjugal

40. Aviso para as viúvas

41. Uma palavra sobre a virgindade

QUARTA PARTE
Avisos necessários contra as tentações mais comuns

1. Não se deve fazer caso do que dizem os mundanos

2. É preciso dotar-nos de coragem

3. Natureza das tentações; diferença entre o sentir e o consentir

4. Dois belos exemplos sobre este assunto

5. Consolação para uma alma que se acha tentada

6. Como u tentação e a deleitação podem ser pecados

7. Meios contra as grandes tentações

8. É preciso resistir às pequenas tentações

9. Meios contra as pequenas tentações

10. Modo de fortificar o coração contra as tentações

11. O desassossego

12. A tristeza

13. As consolações espirituais e sensíveis e como nos devemos portar nelas

14. Securas e esterilidades espirituais

15. Frisante exemplo para esclarecimento da matéria

QUINTA PARTE
Avisos e exercícios necessários para renovar e conservar a alma na devoção

1. Necessidade de renovar todos os anos os bons propósitos

2. Consideração da bondade de Deus em nos chamar ao seu serviço, segundo as protestações feitas na primeira parte

3. Exame da alma sobre o seu adiantamento na vida devota

4. Exame do estado da alma para com Deus

5. Exame do estado da alma para consigo mesma

6. Exame do estado da alma para com o próximo

7. Exame sobre as paixões

8. Afetos que se devem seguir a este exame

9. Considerações próprias para se renovar os bons propósitos

10. Primeira consideração: a excelência da nossa alma

11. Segunda consideração: a excelência tias virtudes

12. Terceira consideração: o exemplo dos santos

13. Quarta consideração: o amor de Jesus Cristo por nós

14. Quinta consideração: o amor eterno de Deus por nós

15. Afetos gerais sobre as considerações precedentes, para concluir este exercício

16. Sentimentos que se devem conservar depois deste exercício

17. Resposta a duas objeções possíveis contra esta introdução

18. Três avisos importantes para terminar esta introdução

São Francisco de Sales, Bispo de Genébra

Vida de São Francisco de Sales

São Francisco de Sales, que em sua atraente personalidade nos apresenta o mais fiel retrato da caridade cristã, nasceu aos 21 de Agosto de 1567, oriundo de nobre família, no castelo de Sales, na Sabóia, hoje França. Até aos 17 anos o jovem Francisco passou a feliz adolescência sob os cuidados de seus pais, Francisco de Sales e Francisca de Sionas. Só então é que foi cursar as aulas do colégio de Annecy.

Dotado de inteligência viva, sentimento profundo e de grande força de vontade, entregou-se desde Jogo a estudos sérios, que se tornaram a ocupação constante de toda a sua vida. Em 1578, dirigiu-se a Paris, a fim de estudar retórica e filosofia, sob a direção dos padres da Companhia de Jesus, e em 1584 foi terminar os estudos na universidade de Pádua, doutorando-se em teologia e direito.

Cultivando Francisco com tanto esmero e brilhantismo o espírito, não se descuidava, entretanto, de ornar a alma das mais belas virtudes. Mesmo no meio das múltiplas ciladas que lhe armara a sua estadia em Paris e em Pádua, o seu coração permaneceu puro e intacto, ligando- se até por um voto perpétuo de castidade, levado do grande amor de Deus que o inflamava.

Ao regressar ao lar paterno, esperavam seus pais que contraísse núpcias c encetasse uma carreira de honrarias e dignidades no mundo. Francisco, porém, já tinha decidido dedicar-se ao estado eclesiástico e viver unicamente para Deus, o único objeto de seu amor. Inquebrantável neste propósito, apesar de todas as contradições do pai e parentes, dominou todas as dificuldades, e aos 18 de dezembro de 1593 recebeu o Sacerdócio das mãos do bispo de Genebra, Dom Cláudio Granier.

Entre os muitos trabalhos que assumiu em sua atividade de padre, merecem especial menção: a reconciliação dos habitantes de Chablas com a Igreja c a sua viagem a Paris, onde pregou os sermões quaresmais.

Falecendo em breve o bispo D. Granier, todos os olhos se volveram para Francisco, como o seu mais digno sucessor; e o Papa, que não ignorava as heroicas virtudes do zeloso sacerdote, não duvidou um instante em dar o consentimento.

Em 1602, depois de um retiro espiritual de 20 dias, Francisco foi sagrado bispo de Genebra, diocese essa que se tornou até à sua morte a arena de muitas lutas e trabalhos em prol das ovelhas do rebanho de Cristo. A custa de muita abnegação tornava-se tudo para todos, a fim de ganhar a todos para Jesus Cristo. Uma caridade santa e sempre igual, que se manifestava principalmente para com os clérigos subalternos e para com os pobres e desamparados, uma humildade e uma simplicidade de coração inexcedíveis, uma mansidão e paciência inalteráveis em todas as vicissitudes da vida — eis aí os seus traços mais característicos. A Congregação das Visitandinas, fundada por ele juntamente com Santa Francisca de Chantal, sua filha espiritual, é um monumento perene de seu espírito belíssimo e de seu coração todo terno e compassivo.

A sua vida, tão cheia de trabalhos, foi relativamente curta. Aos 55 anos de idade já entregava a alma nas mãos do Criador, de seu Deus, único objeto de seu amor, aos 28 de dezembro de 1622. Canonizado em 1665, pelo Papa Alexandre VII, e Pio IX, em 1877, acedendo ao pedido de muitos bispos, elevou-o à dignidade de Doutor da Igreja. Em 1923, foi declarado por Pio XI Padroeiro da Boa Imprensa e dos jornalistas católicos.

Obras de São Francisco de Sales

No meio de suas múltiplas e importantíssimas ocupações, São Francisco de Sales achou, entretanto, tempo bastante para uma grande e preciosíssima atividade literária, exarando excelentes obras de ascética cristã, que primam principalmente pela suavidade, solidez, simplicidade e uma sublime elevação de espírito.

Eis aqui as principais:

  1. Filotéia, ou Introdução à vida devota
  2. Teotimo ou Tratado do amor de Deus
  3. Controvérsias
  4. Sermões
  5. Instruções às Irmãs da Visitação
  6. Cartas (cerca de 2.000)

Para a apreciação dessas obras, limitamo-nos aqui a transcrever alguns textos de insignes autores que não acham palavras para encomiá-las condignamente:

“Os escritos de S. Francisco de Sales, — diz Fénelon — abundam de graça e de experiência”.

“Nenhum outro santo — escreve o padre Huguet — contribuiu tanto como S. Francisco de Sales, com seus escritos imortais, para fazer amar e praticar a piedade em todas as classes. da sociedade”.

“Ninguém sabe como ele — acrescenta o padre Alet (no livro: Divinas oportunidades do doutoramento de São Francisco de Sales) — erguer uma alma prostrada, inerte, e animá-la, fortalecê-la, conduzi-la suavemente pelos caminhos fáceis d

“São Bernardo — continua o mesmo autor — é o amor que transborda… São Boaventura é o seráfico abrasado nas chamas da caridade, espalhando-as com profusão comunicativa… Santo Afonso é a abelha infatigável, que durante sessenta anos recolhe sobre todas as flores da tradição cristã o suco dos seus piedosos opúsculos… São Francisco de Sales tem muito deste amor ardente, muitos destes arrebatamentos seráficos, muito dessa atividade industriosa; mas nos sobreleva principalmente pela beleza dos conceitos, pela regularidade dos planos, pela vastidão da doutrina e mais ainda pela admirável riqueza das observações, pelo caráter eminentemente prático dos ensinamentos, pelo encanto inimitável do estilo, que compensa todas as graças duma cândida simplicidade por todas as seduções da poesia e da eloquência”.

“Nos escritos de São Francisco de Sales — são palavras do padre Desjardin — admiramos a maravilhosa expressão da alma santa que se compraz nas belezas da natureza pelo atrativo que o impele para as belezas do céu; para ele toda criatura é um prisma, onde se refrange em mil cores o raio único da infinita caridade”

A essas apreciações e louvores poderíamos acrescentar inúmeros outros testemunhos de estima e veneração, quais foram os que nos legaram Fénelon, Bossuet, o cardeal Duperron, Olier, o célebre historiador M. Sayons, o Papa Alexandre VII, Mons. de Ségur. Mas para que citá-los? Abra-se este livro da Introdução à Vida Devota, folheie-se o Tratado do Amor de Deus, tomem-se à mão as suas Cartas. Outro testemunho mais eloquente do alto valor dos escritos de São Francisco de Sales não existe do que essas mesmas páginas, tão cheias de salutares ensinamentos e de uma celeste unção.

São Francisco de Sales e Joana Francisca de Chantal

São Francisco de Sales e Joana Francisca de Chantal

Prefácio de São Francisco de Sales

Peço-te, caro leitor, que leias este prefácio, tanto para a tua como para a minha satisfação.

Uma mulher por nome Glicéria sabia distribuir as flores e formar um ramalhete com tanta habilidade que todos os seus ramalhetes pareciam diferentes uns dos outros. Conta-se que o célebre pintor Pausias, tendo procurado imitar com o seu pincel tamanha variedade, não o pôde conseguir e declarou-se vencido. De modo semelhante o Espírito Santo dispõe e arranja com uma admirável variedade as lições de virtude que nos dá pela boca e pela pena de seus servos. É sempre a mesma doutrina, apresentada de mil modos diferentes. Na presente obra outro fim não temos em mira senão repetir o que já tantas vezes se tem dito e escrito sobre esta matéria. São as mesmas flores, benévolo leitor, que te venho ofertar aqui; a única diferença que há é que o ramalhete está disposto diversamente.

A maior parte dos autores que trataram sobre a devoção dirigiram-se exclusivamente a pessoas retiradas do mundo ou ao menos se esforçaram por lhes ensinar o caminho deste retiro. O meu intento, porém, é ser útil àqueles que se veem obrigados a viver no meio do mundo e que não podem levar uma . vida diversa da dos outros. Acontece muitas vezes que estas pessoas, sob o pretexto duma impossibilidade pretensa, nem sequer pensam em aspirar à devoção. Imaginam que, assim como animal algum ousa tocar naquela erva chamada Palma Christi, do mesmo modo pessoa alguma que vive no meio de negócios temporais pode fomentar pretensões à palma da piedade cristã. Mas vou mostrar-lhes que muito se enganam e que a graça é em suas operações ainda muito mais fecunda que a natureza. As madrepérolas são banhadas pelas águas do mar e contudo não são penetradas delas; perto das ilhas de Celidônia existem fontes de água doce no meio do mar; os piranetas voam por entre as chamas sem se queimar; as almas generosas vivem no mundo sem impregnar-se do seu espírito, acham a doce fonte da devoção no meio das águas amargas das corrupções mundanas sem queimar as asas de santos desejos du¬ma vida virtuosa. Não ignoro as dificuldades do grande trabalho que empreendo e bem desejara que outros mais doutos e santos o tomassem a si; todavia, apesar da minha impotência, farei o que possível for de minha parte, para auxiliar esses corações generosos que aspiram à devoção.

Não era meu desejo nem minha intenção publicar esta obra; uma alma de esmerada virtude, tendo recebido de Deus, há tempo, a graça de aspirar à vida devota,, pediu-me lhe ajudasse a conseguir este desígnio. Muito devia eu a essa pessoa, que aliás eu julgava plenamente disposta para esse árduo trabalho. Considerei, pois, como um dever, instruí-la, o melhor possível, deixando-lhe uma direção por escrito, que lhe poderia ser útil no futuro. Aconteceu que essa obra caiu nas mãos de um santo e sábio religioso que, tendo em vista o proveito que muitas almas daí poderiam haurir, me aconselhou publicá-la. De bom grado anuí ao seu conselho, porque esse santo homem tinha grande influência e autoridade sobre mim.

A fim de aumentar um pouco a utilidade desta obra, eu a revi e pus em ordem, acrescentando diversos avisos e conselhos, conforme me permitia o pouco tempo de que disponho. Ninguém procure aqui uma obra exarada com esmero. É apenas uma série de avisos que julgo necessários e a que procurei dar uma forma clara e precisa. Quanto aos ornamentos de estilo, nem sequer pensei neles; tenho mais que fazer

Dirijo minhas palavras a Filotéia, porque Filotéia significa uma alma que ama a Deus e é para essas almas que escrevo.

Toda a obra se divide em cinco partes: na primeira esforço-me, por meio de alguns avisos e exercícios, a converter o simples desejo de Filotéia numa resolução decidida, tomada depois da confissão geral, por uma protestação firme e seguida da sagrada comunhão. Esta comunhão, em que ela se entrega inteiramente ao divino Salvador, enquanto o Salvador se dá a ela, fá-la entrar auspiciosamente no amor divino.

Para a levar adiante, mostro-lhe dois grandes meios de se unir mais e mais com a Majestade divina: o uso dos sacramentos, pelos quais Deus vem a nós, e a oração, pela qual nós vamos a Deus. Nisto consiste a matéria da segunda parte. A terceira contém a prática de diversas virtudes que muito contribuem para o adiantamento espiritual; limito-me, porém, a certos avisos particulares que não se podem achar de si mesmos ou raramente se encontram nos autores. Na quarta parte faço ver a Filotéia os embustes do inimigo e lhe mostro como livrar-se deles e vencê-los. Por fim, na quinta parte, eu levo a alma à solidão, para que aí se refrigere um pouco, tome alento e recupere as forcas, de modo que possa caminhar em seguida, com mais ardor, nas veredas da vida devota.

Nosso século é extremamente bizarro e já estou vendo dizerem-me que uma obra semelhante devia ser escrita por um religioso ou ao menos por alguém que professe a vida devota e não por um bispo encarregado duma diocese tão difícil corno a minha, a qual requer para si toda a atenção do prelado.

Mas, caríssimo leitor, posso responder, com São Dionísio, que são exatamente os bispos que antes de todos estão incumbidos de encaminhar as almas para a perfeição. Eles ocupam o primeiro lugar entre os homens, como os serafins entre os anjos, e o seu tempo não pode ser empregado duma forma melhor.

Os antigos bispos e padres da Igreja, que não se ocuparam menos de suas funções do que nós, encarregaram-se, entretanto, da direção de certas almas, que recorriam aos seus avisos e à sua prudência. É o que se vê por suas cartas e faziam-no a exemplo dos apóstolos, que, por mais sobrecarregados que estivessem com a evangelização do mundo, acharam tempo para escrever as suas epístolas, cheias dum amor e afeto extraordinários para com as diversas almas, suas filhas espirituais.

Quem não sabe que Timóteo, Tito, Filêmon, Onésimo, Santa Tecla, Ápia eram filhos espirituais muito caros ao grande São Paulo, como São Marcos e Santa Petronilha o eram a São Pedro? E ponho neste número a Santa Petronilha, porque, como sabiamente provam Barônio e Galônio, não foi filha carnal, mas espiritual de São Pedro. E São João não escreveu uma das suas Epístolas Canônicas à devota senhora Electa?

É penoso, confesso-o abertamente, conduzir as almas em particular, mas esse trabalho não deixa de ter as suas consolações. Os ceifadores nunca estão tão satisfeitos como quando têm muito que ceifar. É um trabalho que alivia e fortifica o coração. Diz-se que, se a fêmea do tigre acha um de seus filhotes que o caçador abandona no meio do caminho para caçar outros, imediata¬mente o carrega, por mais pesado que seja, e, ajudada pelo amor de mãe, corre ainda mais de¬pressa do que de costume. Como, pois, um coração paterno não tomará a si uma alma que anseia per sua própria perfeição, carregando-a como uma mãe a seu filho, sinta embora o seu peso?

Sem dúvida, esse coração deve ser verdadeiramente paterno; razão pela qual os apóstolos e os homens apostólicos chamavam os seus discípulos de filhos e até de filhinhos.

De mais, caro leitor, é verdade que escrevo sobre a vida devota, sem que possua cu mesmo a devoção, mas não sem que tenha um grande desejo de a ter; e é este desejo que me anima. Um douto dizia: Um bom modo de aprender é estudar: um melhor, é escutar, mas o melhor de todos, é ensinar. Acontece muitas vezes, diz Santo Agostinho à piedosa Florentina, que, dando, se adquire um título para receber e que, ensinando, nos obrigamos a aprender.

Diz-se que os pintores se apegam não só aos quadros que pintam, mas também às coisas que querem desenhar. Mandou Alexandre ao insuperável Apeles que lhe pintasse, a formosa Campaspe, sua amada. Apeles, tendo que fixar demoradamente Campaspe para ir copiando suas feições na tela, acabou gravando-a também no coração. Apaixonou-se tanto por ela que Alexandre bondosamente lha deu em casamento, privando-se, por amor dele, da mulher que mais amou na terra. E nisso, diz Plínio, revelou a grandeza de seu coração, tanto quanto poderia manifestá-la numa das suas maiores vitórias. Meu caro leitor, penso que, sendo eu bispo. Nosso Senhor quer que eu desenhe nos corações não só as virtudes comuns, como também a devoção que lhe é tão cara; e eu o faço de bom grado, cumprindo o meu dever e esperando que, gravando-a no espírito dos outros, o meu também receberá alguma coisa. E a divina Majestade, vendo que me apego vivamente à devoção, se dignará de infundi-la em meu coração. A bela e casta Rebeca, dando de beber aos camelos de Isaac, tornou-se sua esposa e recebeu dele os brincos e pulseiras de ouro. Espero, pois, também, da imensa bondade de meu Deus, que, conduzindo as suas caras ovelhas às águas salutares da devoção, ele escolherá minha alma para sua esposa, pondo em meus ouvidos as palavras de ouro de seu amor e em meus braços a força de praticá-las. Nisto consiste, pois, a essência da devoção verdadeira, que suplico à Majestade divina de conceder a mim e a todos os membros da Igreja, à qual quero submeter para sempre meus escritos, minhas ações, minhas palavras, minha vontade e meus pensamentos.

Annecy, no dia de Santa Maria Madalena, 1609.

ORAÇÃO DEDICATÓRIA

“Ó doce Jesus, meu Senhor, meu Salvador e meu Deus, aqui me tendes prostrado diante de vossa Majestade, para oferecer e consagrar este escrito à vossa glória. Vivificai com vossa bênção as palavras que contém, a fim de que as almas, para quem as escrevi, possam delas retirar as inspirações sagradas que lhes desejo e particularmente a de implorar em meu favor a vossa imensa misericórdia. Não se dê o caso de que, mostrando aos outros o caminho da piedade neste mundo, venha eu a ser eternamente reprovado e confundido no outro. Antes pelo contrário, em companhia deles quero vir a cantar por todo o sempre, como hino de triunfo, a expressão que de todo o coração, em testemunho de fidelidade, no meio dos perigos e vicissitudes desta vida mortal: VIVA JESUS! VIVA JESUS! Sim, Senhor Jesus, vivei e reinai em nossos corações pelos séculos dos séculos. Assim seja”

São Francisco de Sales

Papa Bento XVI sobre São Francisco de Sales

Amados irmãos e irmãs

«Dieu est le Dieu du coeur humain» [Deus é o Deus do coração humano] (Tratado do Amor de Deus, I, XV): nestas palavras aparentemente simples vemos a característica da espiritualidade de um grande mestre, do qual gostaria de vos falar hoje: são Francisco de Sales, Bispo e Doutor da Igreja. Nasceu em 1567, numa região francesa de fronteira, filho do Senhor de Boisy, antiga e nobre família de Sabóia. Viveu entre dois séculos, XVI-XVII, e reuniu em si o melhor dos ensinamentos e das conquistas culturais do século que terminava, reconciliando a herança do humanismo com o impulso rumo ao absoluto, próprio das correntes místicas. A sua formação foi muito atenta; realizou os estudos superiores em Paris, dedicando-se também à teologia, e na Universidade de Pádua fez os estudos de jurisprudência, como desejava o pai, concluindo-os de modo brilhante, com uma licenciatura in utroque iure, direito canônico e direito civil. Na sua juventude harmoniosa, ponderando sobre o pensamento dos santos Agostinho e Tomás de Aquino, teve uma crise profunda que o levou a interrogar-se sobre a própria salvação eterna e acerca da predestinação de Deus no que se lhe referia, padecendo como verdadeiro drama espiritual as principais questões teológicas da sua época. Rezava intensamente, mas a dúvida atormentou-o de maneira tão forte, que durante algumas semanas praticamente não conseguiu comer nem dormir. No ápice da provação foi à igreja dos Dominicanos, em Paris, abriu o seu coração e orou assim: «Aconteça o que acontecer, Senhor, Vós que tendes tudo nas vossas mãos, e cujos caminhos são justiça e verdade; independentemente do que tiverdes estabelecido a meu propósito…; Vós que sois sempre Juiz justo e Pai misericordioso, amar-vos-ei, ó Senhor […] amar-vos-ei aqui, ó meu Deus, e esperarei sempre na vossa misericórdia, e repetirei sempre o vosso louvor… Ó Senhor Jesus, Vós sereis sempre a minha esperança e a minha salvação, na terra dos vivos» (I Proc. Canon., vol. I, art 4). Francisco, então com vinte anos, encontrou a paz na realidade radical e libertadora do amor de Deus: amá-lo sem nada pedir em troca, confiando no amor divino; já não perguntar o que Deus fará de mim: amo-O simples e independentemente de quanto Ele me concede ou não. Assim encontrou a paz, e a questão da predestinação — sobre a qual se debatia naquela época — tinha sido resolvida, porque ele não buscava mais do que podia receber de Deus; amava-O simplesmente, abandonando-se à sua bondade. E este será o segredo da sua vida, que transparecerá na sua obra principal: o Tratado do amor de Deus.

Vencendo as resistências do pai, Francisco seguiu o chamamento do Senhor e, no dia 18 de Dezembro de 1593, foi ordenado sacerdote. Em 1602 tornou-se Bispo de Genebra, num período em que a cidade era uma fortaleza do Calvinismo, a tal ponto que a sede episcopal se encontrava «no exílio», em Annecy. Pastor de uma diocese pobre e atormentada, na paisagem montanhosa da qual conhecia bem tanto a dureza como a beleza, ele escreve: «Encontrei-O [Deus] repleto de candor e suavidade, no meio das nossas montanhas mais altas e íngremes, onde muitas almas simples O amavam e adoravam com toda a verdade e sinceridade; cabritos-monteses e corças corriam aqui e ali, no meio de geleiras assustadoras, para anunciar os seus louvores» (Carta à Madre de Chantal, Outubro de 1606, em Oeuvres, Ed. Mackey, T. XIII, p. 223). E no entanto, a influência da sua vida e do seu ensinamento na Europa dessa época e dos séculos seguintes parece imensa. É apóstolo, pregador, escritor, homem de ação e de oração; comprometido na realização dos ideais do Concílio de Trento; empenhado na controvérsia e no diálogo com os protestantes, experimentando cada vez mais, para além do necessário confronto teológico, a eficácia da relação pessoal e da caridade; encarregado de missões diplomáticas a nível europeu, e de tarefas sociais de mediação e de reconciliação. Mas sobretudo, são Francisco de Sales é guia de almas: do encontro com uma jovem, a senhora de Charmoisy, encontrará inspiração para escrever um dos livros mais lidos na era moderna, a Introdução à vida devota; da sua profunda comunhão espiritual com uma personalidade extraordinária, santa Joana Francisca de Chantal, nascerá uma nova família religiosa, a Ordem da Visitação, caracterizada — como o santo desejava — por uma consagração total a Deus, vivida na simplicidade e na humildade, a cumprir extraordinariamente bem as tarefas ordinárias: «…quero que as minhas Filhas — escreve — não tenham outro ideal, a não ser o de glorificar [Nosso Senhor] com a sua humildade» (Carta a mons. de Marquemond, Junho de 1615). Faleceu em 1622, com cinquenta e cinco anos de idade, depois de uma existência marcada pela dureza dos tempos e da obra apostólica.

A vida de são Francisco de Sales foi relativamente breve, mas vivida com grande intensidade. Da figura deste santo emana uma impressão de rara plenitude, demonstrada na tranquilidade da sua investigação intelectual, mas também na riqueza dos seus afetos, na «docilidade» dos seus ensinamentos, que tiveram uma grande influência sobre a consciência cristã. Da palavra «humanidade» ele encarnou várias acepções que, tanto hoje como ontem, este termo pode adquirir: cultura e cortesia, liberdade e ternura, nobreza e solidariedade. No aspecto tinha algo da majestosidade da paisagem em que viveu, conservando também a sua simplicidade e naturalidade. As antigas palavras e imagens com que se expressava ressoam inesperadamente, até aos ouvidos do homem contemporâneo, como uma língua nativa e familiar.

Na Filotea, destinatária ideal da sua Introdução à vida devota (1607), Francisco de Sales dirige um convite que, nessa época, podia parecer revolucionário. Trata-se do convite a pertencer completamente a Deus, vivendo em plenitude a presença no mundo e as tarefas da sua condição. «A minha intenção é de instruir aqueles que vivem nas cidades, no estado conjugal, na corte […]» (Prefácio da Introdução à vida devota). O Documento com que o Papa Pio IX, mais de dois séculos depois, o proclamará Doutor da Igreja, insistirá sobre esta ampliação da chamada à perfeição, à santidade. Nele está escrito: «[A verdadeira piedade] chegou a penetrar até no trono dos reis, na tenda dos chefes dos exércitos, no pretório dos juízes, nos escritórios, nas oficinas e nas cabanas dos pastores […]» (Breve Dives in misericordia, 16 de Novembro de 1877). Assim nascia aquele apelo aos leigos, o cuidado pela consagração das realidades temporais e pela santificação da vida diária, sobre o qual insistirão depois o Concílio Vaticano II e a espiritualidade do nosso tempo. Manifestava-se o ideal de uma humanidade reconciliada, na sintonia entre ação no mundo e oração, entre condição secular e busca da perfeição, com a ajuda da Graça de Deus, que permeia o humano e, sem o destruir, o purifica, elevando-o às alturas divinas. A Teótimo, o cristão adulto, espiritualmente maduro, ao qual dirige alguns anos depois o seu Tratado do amor de Deus (1616), são Francisco de Sales oferece uma lição mais complexa. Ela supõe, no início, uma visão específica do ser humano, uma antropologia: a «razão» do homem, aliás, a sua «alma razoável», é aí vista como uma construção harmoniosa, um templo subdividido em vários espaços, ao redor de um centro ao qual ele chama, juntamente com os grandes místicos, «cimo», «ponta» do espírito, ou «fundo» da alma. É o ponto em que a razão, percorrendo todas as suas fases, «fecha os olhos» e o conhecimento se torna um só com o amor (cf. livro I, cap. XII). Que o amor, na sua dimensão teologal e divina seja a razão de ser de todas as realidades, numa escada ascendente que não parece conhecer fraturas nem abismos, são Francisco de Sales resumiu-o nesta frase célebre: «O homem é a perfeição do universo; o espírito é a perfeição do homem; o amor é a do espírito, e a caridade a do amor» (Ibid., livro X, cap. I).

Num período de intenso florescimento místico, o Tratado do amor de Deus é uma verdadeira suma, e ao mesmo tempo uma obra literária fascinante. A sua descrição do itinerário rumo a Deus começa a partir do reconhecimento da «inclinação natural» (Ibid., livro I, cap. XVI), inscrita no coração do homem, também do pecador, a amar a Deus acima de todas as coisas. Segundo o modelo da Sagrada Escritura, são Francisco de Sales fala da união entre Deus e o homem, desenvolvendo toda uma série de imagens de relação interpessoal. O seu Deus é pai e senhor, esposo e amigo, tem características maternas e de nutriz, é o sol do qual até a noite é uma misteriosa revelação. Este Deus atrai o homem a Si com vínculos de amor, ou seja, de verdadeira liberdade: «Pois o amor não tem forçados nem escravos, mas reduz tudo à sua obediência com um vigor tão delicioso que, se nada é tão forte como o amor, nada é tão amável como a sua força» (Ibid., livro I, cap. VI). No Tratado do nosso santo encontramos uma meditação profunda sobre a vontade humana e a descrição do seu fluir, passar e morrer para viver (cf. ibid., livro IX, cap. XIII) no abandono completo não apenas à vontade de Deus, mas àquilo que é do seu agrado, ao seu «bon plaisir», ao seu beneplácito (cf. ibid., livro IX, cap. I). No ápice da união com Deus, além dos arrebatamentos da êxtase contemplativa, coloca-se aquele fluxo de caridade concreta, que se faz atenta a todas as necessidades do próximo, à qual ele chama «êxtase da vida e das obras» (Ibid., livro VII, cap. VI).

Lendo o livro sobre o amor de Deus e ainda mais as numerosas cartas de guia e de amizade espiritual, compreende-se bem como são Francisco de Sales foi um grande conhecedor do coração humano. A santa Joana de Chantal, a quem escreve: «[…] Eis a regra da nossa obediência, que te escrevo com caracteres grandes: fazer tudo por amor, nada por força — amar mais a obediência do que temer a desobediência. Deixo-te o espírito de liberdade, não aquele que exclui a obediência, porque ela é a liberdade do mundo; mas aquele que exclui a violência, a ansiedade e o escrúpulo» (Carta, 14 de Outubro de 1604). Não é por acaso que, na origem de muitas formas da pedagogia e da espiritualidade do nosso tempo, encontramos precisamente o vestígio deste mestre, sem o qual não teriam existido São João Bosco, nem o heroico «pequeno caminho» de Santa Teresa de Lisieux.

Caros irmãos e irmãs, num período como o nosso que procura a liberdade, mesmo com violência e inquietação, não deve passar despercebida a atualidade deste grande mestre de espiritualidade e de paz, que transmite aos seus discípulos o «espírito de liberdade», aquela verdadeira, no ápice de um ensinamento fascinante e completo sobre a realidade do amor. São Francisco de Sales é uma testemunha exemplar do humanismo cristão; com o seu estilo familiar, com parábolas que às vezes têm as asas da poesia, recorda que o homem traz inscrita no profundo de si mesmo a saudade de Deus, e que somente nele encontra a alegria autêntica e a sua realização mais completa.

Saudação

Queridos amigos dos países de língua portuguesa, sede bem-vindos! São Francisco de Sales lembra que cada ser humano traz inscrita no íntimo de si a nostalgia de Deus. Possais todos dar-vos conta dela e por ela orientar as vossas vidas, pois só em Deus encontrareis a verdadeira alegria e a realização plena. Para tal, dou-vos a minha bênção. Ide em paz!

(Audiência Geral de 2 de Março de 2011: São Francisco de Sales)