Este pequeno livro, cheio de vigor e ciência, tem atraído a atenção dos estudiosos sobretudo a partir do século XVI, e suas afirmações têm sido levadas em conta nos momentos de confusão doutrinal, desde as polêmicas entre protestantes e católicos do século XVII até a crise modernista, porque nele se encontra um excelente testemunho cristão e resposta ante os riscos do ceticismo e do relativismo teológico. Com efeito, os temas chave do tratado são: fidelidade à Tradição e progresso dogmático.

O Comonitório é um dos livros que mais história tem deixado sobre si. Hoje passam de 150 edições e traduções em diversas línguas. A palavra Comonitório (Commonitorium), bastante frequente com o título de obras naquela época, significa notas ou apontamentos postos por escrito para ajudar à memória, sem pretensões de compor um tratado exaustivo.

Nesta obra, São Vicente de Lerins se propôs facilitar, com exemplos da Tradição e da história da Igreja, os critérios para conservar intacta a verdade católica. Não recorre a um método complicado. As regras que oferece para distinguir a verdade do erro podem ser conhecidas e aplicadas por todos os cristãos de todos os tempos, pois se resumem em uma excelente fidelidade à Tradição viva da Igreja. O Comonitório constitui uma joia da literatura patrística. Seu ensinamento fundamental é que os cristãos devem crer quod semper, quod ubique, quod ad ómnibus: somente e tudo quanto foi crido sempre, por todos e em todas as partes. Vários Papas e Concílios confirmaram com sua autoridade a validade perene desta regra de fé. Segue sendo plenamente atual este pequeno livro escrito em uma ilha da França, há mais de quinze séculos.

São Vicente de Lerins

São Vincente de Lerins

Sabemos pouco sobre a vida de São Vicente de Lerins. Foi um Padre da Igreja do século V. Se possuem escassos dados sobre sua vida; apenas os de uma breve notícia que lhe dedica o marselhês Genádio (De viris illustribus, 64; PL58,1097-98) e os que se desprendem de sua obra mais importante: o Comonitório.

Era de origem francesa, ainda que se ignore seu local de nascimento e onde passou sua vida, somente que, se fez religioso uma vez “afugentados os ventos da vaidade e da soberba, aplacando a Deus com o sacrifício da humildade cristã”. Teve um passado tempestuoso, como parece deduzir-se de certa alusão que faz em um de seus livros? Não é seguro, possivelmente a ênfase que põe em suas palavras deve-se porem conta a severidade com que os santos costumam julgar-se a si mesmos. O que sim é induvidável é que foi um homem muito douto nas Escrituras e nos dogmas e com profundos conhecimentos das letras clássicas.

Sacerdote no mosteiro da ilha de Lerins (chamada hoje de São Honorato), como o pseudônimo de Peregrino compôs um tratado contra os hereges. Genádio narra também que é autor de outra obra de tema análogo, cujo manuscrito foi roubado, e que elaborou um breve resumo, que foi conservado. Morreu no reinado de Teodósio e Valentiniano, pouco antes de 450. O Comonitório foi escrito três anos depois do Concílio de Éfeso, ou seja, em 434. Somente duas obras lhe são atribuídas com certeza: O Commonitorium primum, cujo título mais antigo é De Peregrino em favor da antiguidade e universalidade da fé católica contra as profanas novidades de todos os hereges, e o Commonitorium secundum, recapitulação do livro que foi roubado. Lhe é atribuído também uma outra intitulada Objectiones lerinianae, cujo conteúdo conserva Próspero de Aquitana (Pro Augustino responsiones al capitula objectionum vicentianarum: PL 51,177-186), e um florilégio de frases de Santo Agostinho concernentes ao mistério da Santíssima Trindade e da Encarnação, que conserva o Cód. 151 de Ripoll sob o seguinte título: Excerpta sanctae memoriae Vicentiilirinensis insulae presbyteri ex universo beatae recordations Augustini in unumcollecta.

Índice

1. Introdução
2. Regra para distinguir a Verdade Católica do erro
3. Exemplo de como aplicar a regra
4. Exemplos históricos de recurso à Universalidade e Antiguidade contra o erro
5. Testemunho de São Ambrósio
6. Testemunho do Papa Estevão
7. Astúcia tática dos hereges
8. Advertência de São Paulo aos Gálatas
9. Valor universal da advertência Paulina
10. Por que Deus permite que existam heresias na Igreja
11. Exemplos de Nestório, Fotino e Apolinário
12. A verdadeira Fé Trinitária e Cristológica
13. Nestório está infectado por um humor totalmente oposto ao de Apolinário
14. Realidade da natureza humana de Cristo
15. Maria, “Mãe de Deus”
16. Condenações e Bênçãos
17. A queda de Orígenes
18. O escândalo de Tertuliano
19. Função providencial destes exemplos
20. O verdadeiro católico e o herege
21. “Oh, Timóteo! Guarda o depósito!”
22. A Igreja, guardiã fiel do Depósito
23. O progresso do dogma e suas condições
24. Estar atentos ante os hereges
25. Os hereges recorrem à Escritura
26. A Escritura na boca de Satanás
27. Como vencer as insídias diabólicas dos hereges
28. Os Padres e a Tradição Católica
29. É legítimo recorrer aos Padres
30. Os Padres citados em Éfeso
31. O Concílio de Éfeso proclamava a antiga fé
32. Intervenções de Sixto III e de Celestino I contra as inovações ímpias
33. Conclusão

Introdução

1. Dado que a Escritura nos aconselha: “Interroga teu pai e ele te contará; os teus avós, e eles te dirão“. (Dt 32,7); “Ouve as palavras dos sábios” (Pr22,17); e também: “Meu filho, não te esqueças da minha lei, e guarda no teu coração os meus preceitos” (Pr 3,1), a mim, Peregrino, último entre todos os servos de Deus, me parece que é coisa de não pouca utilidade escrever os ensinamentos que recebi fielmente dos Santos Padres. Para mim isto é absolutamente imprescindível, a causa de minha debilidade, para ter assim ao alcance das mãos um auxílio que, com uma leitura assídua, supra as deficiências de minha memória. Induzem-me a empreender este trabalho, ademais, não só a utilidade desta obra, mas também a consideração do tempo e a oportunidade do lugar. Em relação ao tempo, já que ele nos tira tudo o que há de humano, também nós devemos, em compensação, roubar-lhe algo que nos seja gozoso para a vida eterna, tanto mais quanto que ver aproximar-se o terrível juízo divino nos convida a pôr maior empenho no estudo de nossa Fé; por outro lado, a astúcia dos novos hereges reclama de nós uma vigilância e uma atenção cada vez maiores. Em relação ao lugar, porque afastados da multidão e da agitação da cidade, habitamos num lugar bem separado no qual, na cela tranquila de um mosteiro, se pode pôr em prática, sem medo de distrair-se, o que canta o salmista: “Desisti – disse ele – e reconhecei que sou Deus“(Sl 45,11). Aqui tudo se harmoniza para que eu alcance minhas aspirações. Durante muito tempo fui perturbado pelas diferentes e tristes peripécias da vida secular. Graças à inspiração de Jesus Cristo, consegui por fim refugiar-me no porto da Religião, sempre muito seguro para todos. Deixados para trás os ventos da vaidade e do orgulho, agora me esforço em aplacar a Deus mediante o sacrifício da humildade cristã, para poder assim evitar não só os naufrágios da vida presente, mas também as chamas da vida futura. Posta minha confiança no Senhor, desejo, pois, iniciar a obra que me insta, cuja finalidade é colocar por escrito tudo que nos têm sido transmitido por nossos pais e que temos recebido em depósito. Meu intento é expor cada coisa com a fidelidade de um relator, e não com a presunção de querer fazer uma obra original. Não obstante, me aterei a esta lei ao escrever: não dizer tudo, mas resumir o essencial com estilo fácil e acessível, prescindindo da elegância e do maneirsimo, de maneira que a maior parte das ideias pareçam melhor enunciadas que explicadas. Que escrevam brilhantemente e com finura aqueles que se sentem levados a isto pela profissão ou pela confiança em seu próprio talento. No que a mim se refere, já tenho muito em preparar estas anotações para ajudar a minha memória, ou melhor, a minha falta de memória. Não obstante, não deixarei de me empenhar, com a ajuda de Deus, em corrigi-las e completá-las cada dia, meditando no que tenho aprendido. Assim, pois, caso estas notas se percam ou acabem caindo em mãos de pessoas santas, rogo a estas que não se apressem em jogar-me na cara que algo do que nestas notas haja espera todavia ser retificado e corrigido, segundo minha promessa.

Regra para distinguir a Verdade Católica do erro

2. Havendo interrogado com frequência e com maior cuidado e atenção a inúmeras pessoas, sobressalentes em santidade e doutrina, sobre como distinguir por meio de uma regra segura, geral e normativa, a verdade da Fé Católica da falsidade perversa da heresia, quase todas me têm dado a mesma resposta:

“Todo cristão que queira desmascarar as intrigas dos hereges que brotam ao nosso redor, evitar suas armadilhas e se manter íntegro e incólume numa fé incontaminada, deve, com a ajuda de Deus, apetrechar sua fé de duas maneiras: com a autoridade da lei divina ante tudo, e com a tradição da Igreja Católica”.

Sem embargo, alguém poderia objetar: Posto que o Cânon das Escrituras é em si mais que suficientemente perfeito para tudo, que necessidade há de se acrescentar a autoridade da interpretação da Igreja? Precisamente porque a Escritura, por causa de sua mesma sublimidade, não é entendida por todos de modo idêntico e universal. De fato, as mesmas palavras são interpretadas de maneira diferente por uns e por outros. Se pode dizer que tantas são as interpretações quantos são os leitores. Vemos, por exemplo, que Novaciano explica a Escritura de um modo, Sabélio de outro, Donato, Eunomio, Macedônio, de outro; e de maneira diversa a interpretam Fotino, Apolinar, Prisciliano, Joviano, Pelágio, Celestino, e em nossos dias, Nestório. É pois, sumamente necessário, ante as múltiplas e arrevesadas tortuosidades do erro, que a interpretação dos Profetas e dos Apóstolos se faça seguindo a pauta do sentir católico. Na Igreja Católica deve-se ter maior cuidado para manter aquilo em que se crê em todas as partes, sempre e por todos. Isto é a verdadeira e propriamente católico, segundo a ideia de universalidade que se encerra na mesma etimologia da palavra. Mas isto se conseguirá se nós seguimos a universalidade, a antiguidade e o consenso geral. Seguiremos a universalidade se confessamos como verdadeira e única fé a que a Igreja inteira professa em todo o mundo; a antiguidade, se não nos separamos de nenhuma forma dos sentimentos que notoriamente proclamaram nossos santos predecessores e pais; o consenso geral, por último, se, nesta mesma antiguidade, abraçamos as definições e as doutrinas de todos, ou de quase todos, os Bispos e Mestres.

Exemplo de como aplicar a regra

3. Qual deverá ser a conduta de um cristão católico, se alguma pequena parte da Igreja se separa da comunhão na Fé universal?

– Não cabe dúvida de que deverá antepor a saúde do corpo inteiro a um membro podre e contagioso.

Mas, e se for uma novidade herética que não está limitada a um pequeno grupo, mas que ameaça contagiar à Igreja toda?

– Em tal caso, o cristão deverá fazer todo o possível para agarrar-se à antiguidade, a qual não pode evidentemente ser alterada por nenhuma nova mentira.

E se na antiguidade se descobre que um erro tem sido compartilhado por muitas pessoas, ou inclusive toda uma cidade, ou por uma região inteira?

– Neste caso porá o máximo cuidado em preferir os decretos – se os tiver – de um antigo Concílio Universal, à temeridade e à ignorância de todos aqueles.

E se surge uma nova opinião acerca da qual nada tenha sido ainda definido?

– Então indagará e confrontará as opiniões de nossos maiores, mas somente daqueles que sempre permaneceram na comunhão e na fé da única Igreja Católica e vieram a ser mestres provados da mesma. Tudo o que ache que, não por um ou dois somente, mas por todos juntos de pleno acordo, tenha sido mantido, escrito e ensinado abertamente, frequente e constantemente, sabe que ele também pode crer sem vacilação alguma.

Exemplos históricos de recurso à Universalidade e Antiguidade contra o erro

4. Para realçar melhor aquilo que digo, documentarei com exemplos minhas asserções, me detendo um pouco mais, para que não aconteça que o desejo de ser breve a todo custo me faça deixar passar coisas importantes. No tempo de Donato, de quem tomaram o nome os donatistas, uma parte considerável da África seguiu as delirantes aberrações deste homem. Esquecendo-se de seu nome, sua religião e sua profissão de fé, antepuseram à Igreja a sacrílega temeridade de um só indivíduo. Os que se opuseram então ao ímpio cisma permaneceram unidos às Igrejas do mundo inteiro e só eles entre todos os africanos puderam permanecer a salvo no santuário da Fé católica. Agindo assim, deixaram àqueles que viriam o exemplo egrégio de como se deve preferir sempre o equilíbrio de todos os demais à loucura de uns poucos. Um caso semelhante aconteceu quando o veneno da heresia ariana contaminou não apenas uma pequena região, mas o mundo inteiro, até o ponto de que quase todos os bispos latinos cederam ante a heresia, alguns obrigados com violência, outros sacerdotes diminuídos e enganados. Uma espécie de névoa ofuscou então suas mentes, e já não podiam distinguir, no meio de tanta confusão de ideias, qual era o caminho seguro que deviam seguir. Somente o verdadeiro e fiel discípulo de Cristo que preferiu a antiga Fé à nova perfídia não foi contaminado por aquela peste contagiosa. O que se sucedeu então mostra suficientemente os graves males a que podem dar lugar um dogma inventado. Tudo se revolucionou: não só relações, parentescos, amizades, famílias, mas também cidades, povos, regiões. Até mesmo o Império Romano foi sacudido até seus fundamentos e transtornado, de cima a baixo, quando a sacrílega inovação ariana, como nova Bellona ou Fúria, seduziu inclusive o Imperador, o primeiro de todos os homens. Depois de ter submetido as suas novas leis inclusive aos mais insignes dignatários da corte, a heresia começou a perturbar, transtornar, ultrajar todas as coisas, privada e pública, profana e religiosa. Sem fazer distinção entre o bom e o mau, entre o verdadeiro e o falso, atacava a mão livre todos que estivessem à sua frente. As esposas foram desonradas, as viúvas ultrajadas, as virgens profanadas. Se demoliram mosteiros, se dispersaram os clérigos; os diáconos foram açoitados com varas e os sacerdotes foram mandados ao exílio. Cárceres e minas se encheram de santos. Muitos, expulsos das cidades, andavam errantes sem pousada até que nos desertos, nas covas, entre as rochas abruptas pereceram miseravelmente, vítimas das feras selvagens e da desnudez, fome e sede. E qual foi a causa de tudo isto? Uma só: a introdução de crenças humanas em lugar do dogma vindo do céu. Isto ocorre quando, pela introdução de uma inovação vazia, a antiguidade fundamentada nos mais seguros embasamentos é demolida, velhas doutrinas são pisoteadas, os decretos dos Padres são desgarrados, as definições de nossos maiores são anuladas; e isto, sem que a desenfreada concupiscência de novidades profanas consiga manter-se nos nítidos limites de uma tradição sagrada e incontaminada.

Testemunho de São Ambrósio

Santo Ambrosio

5. É possível que alguém pense que eu invento ou exagero por amor à Antiguidade e ódio às novidades? Quem quer que assim pense, preste pelo menos atenção a São Ambrósio, que, em seu segundo livro dedicado ao Imperador Graciano, deplorando a perversidade dos tempos, exclamava:

“Deus todo poderoso, nossos sofrimentos e nosso sangue já têm resgatado suficientemente as matanças dos confessores, o exílio de bispos e tantas outras coisas ímpias e nefandas. Está mais que claro que quem tem violado a fé não podem estar seguros”.

E no terceiro livro da mesma obra diz:

“Observamos fielmente os preceitos de nossos Pais, e não rompemos com insolente temeridade o selo da herança. Porque nem os senhores, nem as Potestades, nem os Anjos, nem os Arcanjos ousaram abrir aquele profético livro selado: somente a Cristo compete o direito de rompê-lo”.

“Quem de nós se atreveria a romper o selo do livro sacerdotal, selado pelos confessores e consagrado por tantos mártires? Inclusive aqueles mesmos que, constrangidos pela violência o violaram, imediatamente rechaçaram o engano em que haviam caído e retornaram à Fé antiga. Aqueles que não ousaram violar-lo, setor naram confessores e mártires. Como poderíamos renegar sua fé, se celebramos precisamente sua vitória?”

A todos eles vai, ó venerável Ambrósio, nosso louvor, nosso elogio, nossa admiração! Quem seria tão estulto que, não podendo igualá-los, não deseje ao menos imitar estes homens, a quem nenhuma violência conseguiu desviá-los da fé dos Padres? Ameaças, lisonjas, esperança de vida, temor à morte, guardas, corte, imperador, autoridades, não serviram de nada: homens e demônios foram impotentes ante eles. Seu tenaz apegamento à Fé antiga os fez dignos, aos olhos do Senhor, de uma grande recompensa. Por meio deles, Ele quis levantar as Igrejas prostradas, voltar a infundir nova vida às comunidades cristãs esgotadas, restituir aos sacerdotes as coroas caídas. Com as lágrimas dos bispos que permaneceram fiéis, Deus tem limpado, como com uma fonte celestial, não as fórmulas materiais, mas a mancha moral da impiedade nova. Por meio deles, enfim, tem reconduzido ao mundo inteiro– todavia sacudido pela violenta e repentina tempestade da heresia – da nova perfídia à Fé antiga, da recente insana à primitiva saúde, da cegueira nova à luz de antes. Mas o que devemos destacar principalmente neste valor quase divino dos confessores é que defenderam a fé antiga da Igreja e não a crença de parte alguma dela. Nunca teria sido possível que tão grandes homens se desdobrassem em um esforço sobre-humano para sustentar as conjecturas errôneas e contraditórias de um ou dois indivíduos, ou que se dedicassem a fundo em favor da irreflexiva opinião de uma pequena província. Nos decretos e nas definições de todos os bispos da Santa Igreja, herdeiros da Verdade, é no que têm crido, preferindo se expor à morte a trair a antiga fé universal. Assim mereceram alcançar uma glória tão grande, que foram considerados não só confessores, mas, com todo direito, príncipes dos confessores.

Testemunho do Papa Estevão

Papa Estêvão I

6. O exemplo verdadeiramente grande e divino destes Bem-aventurados deveria ser objeto constante de meditação para todo o verdadeiro católico. Eles, irradiando como a um candelabro de sete braços a luz septiforme do Espírito Santo, tem mostrado, de maneira claríssima aos que vieram depois, como que prevendo o futuro, diante de qualquer verborreia jactanciosa do erro, que se pode aniquilar a audácia de inovações ímpias com a autoridade da antiguidade consagrada. Quanto aos demais, esta maneira de atuar não é novidade na Igreja; efetivamente, nela sempre se observou que quanto mais se cresce o fervor da piedade, com maior presteza se põe barreira às novas invenções. Tem-se uma grande quantidade de exemplos, mas para não alongar-me muito, citarei apenas um, adequadíssimo para nossa finalidade, tomando-o da história da Sé Apostólica. Todos poderão ver, com mais claridade que a própria luz, com quanta fortaleza, diligência e zelo os veneráveis sucessores dos santos Apóstolos têm defendido sempre a integridade da doutrina recebida uma vez para sempre. Sucedeu que o bispo de Cartago, Agripino, de piedosa memória, teve a ideia de fazer que os hereges fossem rebatizados; e isto contra a Escritura, a norma da Igreja universal, a opinião de seus colegas, os costumes e os usos dos Padres. Isto deu origem a grandes males, porque não só oferecia a todos os hereges um exemplo de sacrilégio, mas também foi ocasião de erro para não poucos católicos. Dado que em todas as partes se protestava contra esta novidade, e em cada sítio os bispos tomavam diferentes posturas com respeito a ela, segundo lhes ditava seu próprio zelo, o Papa Estevão, de santa memória, bispo da Sé Apostólica, se somou com maior força que nada à oposição de seus colegas, pois entendia –acertadamente, a meu ver – que devia superar a todos na devoção à fé tanto quantos superava pela autoridade de sua Sé. Escreveu então uma carta à África e decretou nestes termos: “Nenhuma novidade, mas só o que tem sido transmitido”. Sabia aquele homem santo e prudente que a mesma natureza da religião exige que tudo seja transmitido aos filhos com a mesma fidelidade com a qual tenha sido recebido dos pais, e que, ademais, não nos é lícito levar e trazer a religião por onde nos pareça, mas que melhor somos nós os que temos que segui-la por onde quer que ela nos conduza. E é próprio da humanidade e da responsabilidade cristã não transmitira quem nos sucedam nossas próprias opiniões, mas conservar o que foi recebido de nossos superiores. Como acabou, pois, a situação? Como haveria de acabar senão da maneira comum e normal? Se agarraram à antiguidade e rechaçou-se a novidade. Então não houve defensores da inovação? Ao contrário, houve um tal desdobramento de ingênuos, uma tal profusão de eloquência, um número tão grande de partidários, tanta verossimiltude nas teses, tal acúmulo de citações da Sagrada Escritura, ainda que interpretada em um sentido totalmente novo e errado, que de nenhuma maneira, creio eu, se poderia superar toda aquela concentração de forças, se a inovação tão fortemente abraçada, defendida, louvada, não tivesse vindo abaixo por si mesma, precisamente por causa de sua novidade. O que ocorreu com os decretos daquele concílio africano e quais foram suas consequências? Graças a Deus não serviram para nada. Tudo se dissipou como um sonho e uma fábula e foi abolido como coisa inútil, desprezado, não levado em conta. Mas foi aqui que se produziu uma situação paradóxica. Os autores daquela opinião são considerados católicos, e em troca seus seguidores são hereges; os mestres foram perdoados e os discípulos condenados .Quem escreveu os livros errôneos serão chamados filhos do reino, enquanto que o inferno acolherá a quem se fazem seus defensores. Quem pode ser tão louco até o ponto de pôr em dúvida que o beato Cipriano, luz esplendorosa entre todos os santos bispos e mártires, reina junto com seus colegas eternamente com Cristo? E, ao contrário, quem poderia ser tão sacrílego que negasse que os donatistas e as outras pestes, que presunçosamente querem rebatizar apoiando-se na autoridade daquele concílio, arderão eternamente com o diabo?

Astúcia tática dos hereges

7. A meu modo de ver, um juízo tão severo foi pronunciado pelo Céu, por causa da malícia destes mistificadores, que não duvidavam em encobrir com outro nome as heresias que fabricavam. Com frequência se apropriavam de passagens complicadas e pouco claras de algum autor antigo, os quais, por sua mesma falta de caridade parecia que concordavam com suas teorias; assim simulavam que não eram os primeiros nem os únicos que pensavam dessa maneira. Esta falta de honradez eu a qualifico de duplamente odiosa, porque não têm escrúpulo algum em fazer que outros bebam o veneno da heresia, e porque mancham a memória de pessoas santas, como se espalhassem ao vento, com mão sacrílega, suas cinzas dormidas. Fazendo reviver determinadas opiniões, que melhore era deixar enterradas no silêncio, levam a cabo uma difamação. Nisto seguem a perfeição os passos de seu primeiro modelo Cam, que não só não se preocupou de cobrir a nudez de Noé, mas que a fez notar aos demais para zombar dele. Por causa de uma ofensa tão grave à piedade filial, até seus descendentes estiveram incluídos na maldição que mereceu seu pecado. Seu comportamento foi totalmente contrário ao de seus irmãos, os quais se negaram a profanar com seu olhar a venerável nudez de seu pai e a expô-la aos olhares de outros, mas que, como está escrito, o cobriu acercando-se de braços. Não aprovaram nem censuraram o erro daquele homem santo, e por isso mereceram uma esplêndida bênção, que se estendeu a seus filhos de geração em geração. Mas voltemos a nosso tema. Devemos ter horror, como se tratasse de um delito, de alterar a fé e corromper o dogma; não só a disciplina da constituição da Igreja nos impede fazer uma coisa assim, mas também a censura da autoridade apostólica. Todos conhecemos com quanta firmeza, severidade e veemência São Paulo se lança contra alguns que, com incrível frivolidade, se afastaram em pouquíssimo tempo daquele que que os havia chamado à graça de Cristo, para passar-se a outro Evangelho, ainda que a verdade é que não existe outro Evangelho; ademais, se haviam rodeado de uma turba de mestres que secundavam seus próprios caprichos, e apartavam os ouvidos da verdade para os dar às fábulas, incorrendo assim na condenação de ter violado a fé primeira. Se deixaram enganar por aqueles de quem escreve o mesmo Apóstolo em sua carta aos irmãos de Roma:

“Rogo-vos, irmãos, que desconfieis daqueles que causam divisões e escândalos, apartando-se da doutrina que recebestes. Evitai-os! Esses tais não servem a Cristo nosso Senhor, mas ao próprio ventre. E com palavras adocicadas e linguagem lisonjeira enganam os corações simples”. (Rm16,17-18)

Se introduzem nas casas e fazem escravas às mulheres carregadas de pecados e movidas por toda classe de desejos, as quais, ainda que sempre dispostas a instruir-se, não conseguem chegar nunca ao conhecimento da verdade. Charlatães e sedutores, revolucionam famílias inteiras, ensinando o que não convêm, com o fim de adquirir uma vil ganância. Homens de mente corrompida e desqualificados em matéria de fé, presunçosos e ignorantes, que se envolvem em discussões e em debates estéreis; privados da verdade, pensam que a piedade é algo lucrativo. Como não tem nada em que se ocupar, se dedicam ao perambulismo, e não só estão ociosos, mas que são falastrões e indiscretos, falando do que não devem. Têm depreciado uma boa consciência e naufragam na fé. Seus palavreados fúteis e profanos fazem que cada vez vão mais adiante na impiedade, e essas palavras sujas corroem como gangrena. Com razão se escreveu deles:

“Mas não irão longe, porque será manifesta a todos a sua insensatez, como o foi a daqueles dois (Jannes e Mambres)”. (2Tm 3,9)

Advertência de São Paulo aos Gálatas

8. Indivíduos desta ralé, que percorriam as províncias e as cidades mercadejando com seus erros, chegaram até os Gálatas. Estes, ao escutá-los, experimentaram como uma certa repugnância pela verdade, rechaçaram o maná celestial da doutrina católica e apostólica e se deleitaram com a sórdida novidade da heresia.A autoridade do Apóstolo se manifestou então com maior severidade:

“Mas, ainda que alguém – nós ou um anjo baixado do céu – vos anunciasse um evangelho diferente do que vos temos anunciado, que ele seja anátema”. (Gl 1,8)

E por que disse São Paulo ainda que alguém – nós e não ainda que eu mesmo? Porque quis dizer que se inclusive Pedro, André, João, ou o colégio inteiro dos apóstolos anunciasse um evangelho diferente do que vos temos anunciado, que ele seja anátema. Tremendo rigor, com ele que, para afirmar a fidelidade à fé primitiva, não se exclui nem a si mesmo nem aos outros apóstolos. Mas isto não é tudo: ainda que um anjo baixado do céu vos anunciasse um Evangelho diferente do que vos temos anunciado, que ele seja anátema. Para salvaguardar a fé entregue uma vez para sempre, não lhe bastou recordar a natureza humana, mas que quis também incluir a excelência angélica: ainda que nós – diz – ou um anjo do céu. Não é que os santos ou os anjos do céu possam pecar, mas que é para dizer: inclusive se acontecesse isso que não pode acontecer, qualquer que fosse o que tentasse modificar a fé recebida, este tal seja anátema. Mas talvez o Apóstolo escreveu estas palavras às pressas, movido mais por um ímpeto passional humano que por inspiração divina! Continua, sem embargo, e repete com insistência e com força a mesma ideia, para fazer que seja assimilada:

“Repito aqui o que acabamos de dizer: se alguém pregar doutrina diferente da que recebestes, seja ele excomungado!” (Gl 1,9)

Não disse: se um lhe anuncie um Evangelho diferente do nosso, seja bendito, louvado, acolhido; mas disse: seja excomungado, ou seja, separado, cortado, excluído, com o fim de que o contágio funesto de uma ovelha infectada não se estenda, com sua presença mortífera, a todo o rebanho inocente de Cristo.

Valor universal da advertência Paulina

9. Poderia se pensar que estas coisas foram ditas apenas para os Gálatas. Neste caso, também as demais recomendações que se fazem no resto da carta seriam válidas somente para os Gálatas. Por exemplo:

“Se vivemos pelo Espírito, andemos também de acordo com o Espírito. Não sejamos ávidos da vanglória. Nada de provocações, nada de invejas entre nós”. (Gl 5,25-26)

Pois se isto nos parece absurdo, ele quer dizer que essas recomendações se dirigem a todos os homens e não apenas aos Gálatas; tanto os preceitos que se referem ao dogma, como as obrigações morais, valem para todos indistintamente. Assim, pois, como a ninguém é lícito provocar ou invejar o outro, tampouco a ninguém é lícito aceitar um Evangelho diferente do que a Igreja Católica ensina em todas as partes. Então o anátema de Paulo contra quem anuncia um Evangelho diferente do que havia sido anunciado valia apenas para aqueles tempos e não para hoje? Neste caso, também o que se prescreve no resto da carta: “Digo, pois: deixai-vos conduzir pelo Espírito, e não satisfareis os apetites da carne” (Gl 5,16), já não nos obrigaria hoje. Se pensar uma coisa assim é ímpio e pernicioso, necessariamente há de se concluir que, posto que os preceitos de ordem moral têm de ser observados em todos os tempos, também os que têm por objeto a imutabilidade da fé obrigam igualmente em todo tempo. Por conseguinte, anunciar aos cristãos alguma coisa diferente da doutrina tradicional não era, não é e não será lícito; e sempre foi obrigatório e necessário, como é todavia agora e será sempre e no futuro, reprovar a quem faz bandeira de uma doutrina diferente da recebida. Diante disso, haverá alguém tão ousado que anuncie uma doutrina diferente da que é anunciada pela Igreja, ou será tão frívolo que abrace outra fé diferente da que recebeu da Igreja? Para todos, sempre, e em todas as partes, por meio de suas cartas, se levanta com força e com insistência o grito daquele instrumento eleito, daquele Doutor das Gentes, daquele sino apostólico, daquele estandarte do universo, daquele expert dos céus: “se alguém anuncia um novo dogma, seja excomungado”. Mas vemos como se eleva o coachar de algumas rãs, o zumbido desses mosquitos e essas moscas morimbundas que são os pelagianos. Estes dizem aos católicos:

“Toma-nos por mestres vossos, por vossos chefes, por vossos exegetas; condenai o que até agora tendes crido e credes no que até agora tendes condenado. Rechaçai a antiga fé, os decretos dos Padres, o depósito de vossos superiores, e recebei…”

Recebei, o que? Me causa horror dizê-lo, pois suas palavras estão tão cheias de soberba que me parece cometer um crime não só ele dizê-las, mas também refutá-las.

Por que Deus permite que existam heresias na Igreja

10. Mas alguém poderá dizer: Por que Deus permite que com tanta frequência pessoas insignes da Igreja se ponham a defender doutrinas novas entre os católicos? A pergunta é legítima e merece uma resposta ampla e detalhada. Mas responderei fundamentando-me não em minha capacidade pessoal, mas na autoridade da Lei divina e no ensinamento do Magistério eclesiástico. Ouçamos, pois, a Moisés: que ele nos diga o porquê de vez em quando Deus permite que homens doutos, inclusive chamados profetas pelo Apóstolo por causa de sua ciência, se ponham a ensinar novos dogmas que o Antigo Testamento chama, em seu estilo alegórico, de divindades estrangeiras. (Realmente os hereges veneram suas próprias opiniões tanto como os pagãos veneram seus deuses). Moisés escreve:

“Se se levantar no meio de ti um profeta ou um visionário – ou seja, um mestre confirmado na Igreja, cujo ensinamento seus discípulos e ouvintes creem ser proveniente de alguma revelação – anunciando-te um sinal ou prodígio, e suceder o sinal ou o prodígio que anunciou…” (Dt 13,1-2a)

Certamente, com estas palavras se quer assinalar um grande mestre, de tanta ciência que pode fazer crer a seus seguidores, que não somente conhece as coisas humanas, mas que também tem a presença das coisas que superam ao homem. Era mais ou menos isto que os discípulos de Valentim, Donato, Fotino, Apolinário e outros da mesma laia acreditavam. E como continua Moisés?

“…e te disser: vamos, sigamos outros deuses que te são desconhecidos e prestemos-lhes culto,” (Dt 13,2)

Quem são estes outros deuses senão as doutrinas erradas e estranhas? Que te são desconhecidos, ou seja, novas e inauditas. E prestemos-lhes culto, ou seja, acreditemos nela e as sigamos. Pois bem, o que diz Moisés neste caso?

“…tu não ouvirás as palavras desse profeta ou desse visionário;” (Dt 13, 3a)

Mas eu lhes ponho esta questão: Por que Deus não impede que se ensine o que Ele proíbe que se escute? Então Moisés responde:

“…porque o Senhor, vosso Deus, vos põe à prova para ver se o amais de todo o vosso coração e de toda a vossa alma”. (Dt 13,3b)

Assim, pois, está mais claro que a luz do sol o motivo por que de vez em quando a Providência de Deus permite mestres na Igreja que preguem novos dogmas: porque o Senhor, vosso Deus, vos põe à prova. E certamente que é uma grande prova ver um homem tido por profeta, por discípulo dos profetas, por doutor e testemunha da verdade, um homem sumamente amado e respeitado, que de repente se põe a introduzir ocultamente erros perniciosos. Tanto mais quanto que não existe possibilidade de descobrir imediatamente esse erro, posto que lhe apanha de surpresa, já que se tem de tal homem um juízo favorável por causa de seu ensinamento anterior, e se resiste ao condenar o antigo mestre ao qual nos sentimos ligados pela afeição.

Exemplos de Nestório, Fotino e Apolinário

11. Chegando a este ponto, alguém poderá me pedir que contraste as palavras de Moisés com exemplos tomados da História da Igreja. O pedido é justo e respondo a seguir. Partindo, em primeiro lugar, de fatos recentes e bem conhecidos, poderia alguém de nós imaginar a prova pela qual atravessou a Igreja, quando o infeliz Nestório se converteu repentinamente de ovelha em lobo, começou a desgarrar o rebanho de Cristo, ao mesmo tempo que aqueles a quem ele mordia, o tendo por ovelha, estavam assim mais expostos a seus mordiscos? Na verdade dificilmente podia passar pela cabeça de alguém que pudesse estar em erro quem tinha sido eleito pela alta judicatura da corte imperial e tinha grande estima pelos outros bispos. Rodeado de profunda afeição das pessoas piedosas e de uma grande popularidade, todos os dias explicava publicamente a Sagrada Escritura, e refutava os erros perniciosos dos judeus e pagãos. Quem não estava convencido que de que um homem desta classe não ensinava a fé ortodoxa, que pregava e professava a mais pura e sã doutrina? Mas sem dúvida para abrir caminho a uma só heresia, a sua, tinha que perseguir todas as demais mentiras e heresias. A isto precisamente se referia Moisés, quando dizia:

“…porque o Senhor, vosso Deus, vos põe à prova para ver se o amais de todo o vosso coração.”

Deixemos então de lado Nestório, nele que sempre teve mais brilho de palavras que verdadeira substância, mais resplendor que efetiva valentia, e ao qual o favor dos homens, e não a graça de Deus, o fazia aparecer grande diante da estima do povo. Recordemos melhor a quem, dotados de habilidade e do atrativo dos grandes êxitos, se converteram para os católicos em ocasião de tentações não sem tanta importância. Assim, por exemplo, sucedeu-se em Panônia nos tempos de nossos Padres, quando Fotino tentou enganar a Igreja de Sirmio. Havia sido eleito bispo com grande estima por parte de todos, e durante certo tempo cumpriu com seu ofício como um verdadeiro católico. Mas chegou um momento em que, como profeta ou visionário malvado sobre quem falava Moisés, começou a persuadir ao povo de Deus que lhe havia sido confiado de que devia seguir a outros deuses, ou seja, a novidades errôneas nunca antes conhecidas. Até aqui nada de extraordinário. Mas o que era particularmente perigoso era o fato de que, para esta empresa tão malvada, se servia de meios nada comuns. Com efeito, possuía um agudo ingênio, riqueza de doutrina e ótima eloquência; disputava e escrevia abundantemente e com profundidade tanto em grego quanto em latim, como mostram as obras que compôs em uma e outra língua. Por sorte, as ovelhas de Cristo que lhe foram confiadas eram muito prudentes e estavam vigilantes no que se refere à Fé Católica; imediatamente se recordaram das advertências de Moisés, e ainda que admirassem a eloquência de seu profeta e pastor, não se deixaram seduzir pela tentação. Desde esse momento começaram a fugir, como se fosse um lobo, daquele a quem até pouco tempo seguiram como guia do rebanho.

Além de Fotino, temos o exemplo de Apolinário, que nos põe em guarda contra o perigo de uma tentação que pode surgir no seio mesmo da Igreja, e que nos adverte de que temos de vigiar muito diligentemente sobre a integridade de nossa fé. Apolinário introduziu em seus ouvintes a mais dolorosa incerteza e angústia, pois por uma parte se sentiam atraídos pela autoridade da Igreja, e por outra eram retidos pelo mestre ao qual estavam habituados. Vacilando assim entre um e outro, não sabiam o lhes era conveniente fazer. Era, então, aquele um homem de pouco o nenhum destaque? Pelo contrário, reunia tais qualidades que se sentiam levados a crer nele, inclusive muito rapidamente em um grande número de coisas. Quem poderia fazer frente a sua agudeza de ingênio, a sua capacidade de reflexão e a sua doutrina teológica? Para se ter uma ideia do grande número de heresias esmagadas, dos erros nocivos à fé desbaratados por ele, basta recordar a obra insigne e importantíssima, de não menos de trinta livros, com a que refutou, com grande número de provas, as loucas calúnias de Porfírio. Nos alargaríamos demasiado se recordássemos aqui todas as suas obras; à mercê delas poderia ser igual aos mais grandes artífices da Igreja, se não houvesse sido empurrado pela insana paixão da curiosidade a inventar não sei que nova doutrina, a qual como uma lepra, contagiou e manchou todos seus trabalhos, até o ponto de que sua doutrina se converteu em ocasião de tentação para a Igreja, mais que de edificação. Doutrina destes hereges À primeira vista parece que distingue despretensiosamente duas substâncias em Cristo, mas de repente introduz duas pessoas, cometendo um crime inaudito, afirma que há dois filhos de Deus, dois Cristos, um é Deus e o outro e homem, um é engendrado pelo Pai, o outro é nascido da mãe. Por isso conclui que Maria Santíssima não pode ser chamada Theotókos, Mãe de Deus, mas somente Christotokos, Mãe de Cristo, pois quem dela nasceu não foi o Cristo que é Deus, mas o Cristo que é homem. Somente alguém que não raciocina pode crer que Nestório, em seus escritos, admite um só Cristo e prega uma só pessoa de Cristo. Na realidade, se expressou de maneira enganosa, para poder mais facilmente insinuar o mal através do bem, segundo nos diz o Apóstolo:

“acarretou para mim a morte por meio do que é bom”. (Rm 7,13)

Se em alguma parte de seus escritos proclama que crê em um só Cristo e em uma só pessoa de Cristo, o diz somente para enganar. Na realidade afirma que depois de haver nascido da Virgem, as duas pessoas se reuniram em um só Cristo, mantendo assim que no tempo da concepção ou do parto virginal – e inclusive durante um certo tempo após – haviam dois Cristos. Segundo isto, Cristo havia nascido primeiro como um simples homem comum, sem estar contudo associado na unidade de pessoa ao Verbo de Deus; só depois desceria n’Ela a pessoa do Verbo que o assumiria. E se agora Cristo segue assumido na glória de Deus, houve, não obstante, um tempo no qual não havia diferença alguma entre Ele e os demais homens.

A verdadeira Fé Trinitária e Cristológica

12. Antes de seguir adiante, talvez se espere que me detenha a expor as doutrinas heréticas daqueles a quem acabei de mencionar: Nestório, Apolinário e Fotino. Na verdade isto sairia de meu intento, porque não propus a refutar os erros um a um. Se fiz uso de alguns exemplos, o fiz para demonstrar com clareza e evidência que o que disse Moisés é verdade, ou seja, para demonstrar que, se um doutor da Igreja – um profeta, poderíamos dizer – que interpreta os mistérios proféticos, procura introduzir alguma novidade na Igreja de Deus, é a Providência Divina quem o permite para nos provar. Não obstante, não será inútil expor, de passagem, as doutrinas dos hereges acima citados.

Quanto a Fotino, diz que existe um Deus único e somente, que deve ser entendido segundo a mentalidade judaica. Nega, portanto, a plenitude da Trindade e mantém que nem o Verbo de Deus nem o Espírito Santo são pessoas reais. Afirma, ademais, que Cristo foi somente um homem que teve sua origem em Maria. Reafirma, de todas as maneiras possíveis, que devemos honrar somente a pessoa de Deus Pai, e a Cristo como puramente homem.

Apolinário declara que está de acordo conosco sobre a unidade da Trindade, ainda que logo, sobre este mesmo ponto, sua fé não é de todo íntegra. Acerca da Encarnação do Senhor blasfema abertamente. Diz que na carne de Nosso Senhor não havia realmente uma alma humana, ou se havia, não tinha inteligência nem razão humana. A carne do Senhor não foi tomada da carne da Santíssima Virgem Maria – afirma – mas que desceu do céu ao seio da Virgem. Sempre inconcreto e vacilante, às vezes afirmava que esta carne é coeterna ao Verbo de Deus, outras vezes que é criada pela divindade do Verbo. Não admitia que em Cristo haja duas substâncias, uma divina e uma humana, uma proveniente do Pai e outra da Mãe. Pensava realmente que a mesma natureza do Verbo estava dividida, como se uma parte d’Ele permanecesse eternamente em Deus, enquanto que outra parte tivesse se encarnado. Assim, enquanto a verdade afirma que há um só Cristo, formado por duas substâncias, ele sustentava, pelo contrário, que duas substâncias se formaram de uma só divindade de Cristo.

Nestório está infectado por um humor totalmente oposto ao de Apolinário

13. Estas são as coisas que Nestório, Apolinário e Fotino, como cães raivosos, ladram contra a Igreja Católica: Fotino não admite a Trindade, Apolinário afirma a convertibilidade da natureza humana do Verbo e nega a existência de duas substâncias em Cristo, ao mesmo tempo que não admite em Cristo uma alma inteira, ou pelo menos não admite nela a inteligência e a razão, pretendendo que o lugar da inteligência foi ocupado pelo Verbo de Deus; por último, Nestório diz que houve sempre, ou ao menos durante um certo tempo, dois Cristos. Em troca, a Igreja Católica, que pensa retamente acerca de Deus e acerca de nosso Salvador, não profere blasfêmias nem contra o mistério da Trindade nem contra a Encarnação de Cristo. A Igreja adora uma só divindade na plenitude da Trindade e a igualdade da Trindade em uma única e mesma majestade; professa um só Cristo Jesus, não dois; o qual é igualmente Deus e homem. Crê que n’Ele há uma só pessoa, mas duas substâncias; duas substâncias, mas uma só pessoa, porque, admitindo dois Filhos, poderia parecer que a Igreja adora uma quaternidade e não uma Trindade. Mas talvez seja necessário tratar com mais tempo e precisão este ponto. Em Deus há uma só substância e três pessoas; em Cristo, duas substâncias, mas uma só pessoa. Na Trindade há diversas pessoas, mas a substância é uma; no Salvador há mais substâncias, mas a pessoa é única. De que maneira há na Trindade diferentes pessoas e não há diferentes substâncias? Porque uma é a pessoa do Pai, outra a do Filho, outra a do Espírito Santo; e, sem embargo, o Pai, o Filho e o Espírito Santo não têm diferentes naturezas, mas uma única e a mesma natureza.

E como é que no Salvador há duas substâncias, mas não duas pessoas? Porque, evidentemente, uma coisa é a substância divina e outra a substância humana; sem embargo, a divindade e a humanidade não são dois Cristos, mas um único e o mesmo Filho de Deus, uma só e mesma pessoa, a de um único e mesmo Cristo e Filho de Deus. Da mesma forma que no homem uma coisa é a carne e outra é a alma, e alma e corpo não formam senão um único e mesmo homem. Em Pedro e Paulo uma coisa é a alma e outra é o corpo; mas o corpo e a alma de Pedro não formam dois Pedros, nem existe um Paulo-alma e um Paulo-carne, subsistentes cada um por uma dupla e diferente natureza, a da alma e a do corpo. Assim, em um único e mesmo Cristo há duas substâncias, mas uma é divina e a outra humana, uma procede de Deus Pai, a outra da Virgem Mãe; a primeira é coeterna e igual ao Pai, a segunda é temporal e inferior ao Pai; uma é consubstancial ao Pai, a outra consubstancial à Mãe, sem embargo, é um único e mesmo Cristo em ambas as substâncias. Não temos, pois, um Cristo-Deus e um Cristo-homem; o primeiro incriado e o segundo criado; um impassível e outro capaz de sofrer; um igual ao Pai e outro inferior a Ele; um engendrado pelo Pai e o outro pela Mãe. Existe um único e mesmo Cristo que é Deus e homem, incriado e criado, imutável, impassível, mas que ao mesmo tempo está sujeito a mudanças e sofrimentos; um único e mesmo Cristo, o qual é juntamente igual e inferior ao Pai, gerado pelo Pai antes de todos os séculos e nascido da Mãe no tempo, perfeito Deus e perfeito homem. Enquanto Deus, possui a plenitude da divindade; enquanto homem, uma humanidade perfeita. Perfeita, repito, que compreende alma e carne: uma carne verdadeira como a nossa, tomada da Mãe; uma alma inteligente, dotada de pensamento e de razão. Em Cristo está, pois, o Verbo, a alma e o corpo, mas tudo isso é um só Cristo, um único Filho de Deus, um único Salvador e Redentor nosso. Um só Cristo, não por uma mistura corruptível da divindade com a humanidade – por demais incompreensível – mas por uma total e singular unidade de pessoa. Esta união não modificou nem transformou nem uma substância nem a outra (que é o erro próprio dos arianos), senão juntou em uma só coisa as duas naturezas, de modo que em Cristo permanecem eternamente tanto a unicidade de uma só e mesma pessoa como também as propriedades específicas de cada natureza. Daqui se segue que Deus não começou nunca a ser corpo, nem o corpo cessará em nenhum momento de ser tal. O exemplo da natureza humana pode nos dar alguma luz a respeito. Cada homem é composto de alma e corpo, e assim será sempre, e nunca acontecerá que o corpo se transforme em alma ou alma em corpo. Posto que cada homem viverá para sempre daqui por diante, em cada um permanecerá necessariamente sempre a diferença entre as duas substâncias. Assim também em Cristo, a propriedade característica de cada substância persistirá por toda a eternidade, ficando sempre a salvo a unidade de pessoa.

Realidade da natureza humana de Cristo

Jesus Cristo

14. Posto que estamos usando com muita frequência o termo “pessoa”, e dizemos que Deus se fez homem in persona, é preciso prestar atenção para que não pareça estarmos afirmando que o Verbo de Deus assumira só externamente o que é próprio da natureza humana, limitando-se a imitar nossas ações; e que não tenha tomado parte na atividade humana como verdadeiro homem, mas só aparentemente, como se faz no teatro, onde um só ator pode interpretar vários personagens sem sêlos realmente. Cada vez que os atores imitam a conduta de outros, ainda que reproduzam à perfeição seu modo de atuar e comportar-se, eles não são os personagens representados. Na verdade, servindo-me de termos profanos, quando um ator faz o papel de um sacerdote ou de um rei, ele não é nem sacerdote e tampouco rei; encerrada a peça, deixa de existir também o personagem representado. Longe de nós este ímpio e ignominoso insulto a Cristo, próprio da demência maniqueísta. Estes pregadores de bobagens fantásticas afirmam que o Filho de Deus, Deus mesmo, não assumiu realmente a natureza humana, mas apenas uma aparência de homem em seus atos e em todo seu comportamento. A fé católica, ao contrário, afirma que o Verbo de Deus se fez homem até o ponto de assumir tudo que pertence à nossa natureza, e não por via de ficção ou de aparência, mas de uma maneira real e substancial. Os atos humanos que levava a cabo eram atos próprios seus, e não imitação de atos de outrem; seu atuar era expressão de seu ser. Como quando falamos, conhecemos, vivemos, existimos, não imitamos aos homens, mas somos realmente nós mesmos. Pedro e João, por exemplo, eram homens porque tal era seu ser, não por imitação; Paulo não fingia ser Apóstolo ou Paulo; ele era Apóstolo, ele era Paulo. Assim, o Verbo de Deus, assumindo e possuindo a carne, pregando, atuando, sofrendo na carne – sem nenhum menosprezo da própria natureza divina – se dignou mostrar que Ele não imitava ou fingia ser um homem perfeito, mas que realmente era o que parecia: homem perfeito e não aparência humana. Assim como a alma, unindo-se à carne, sem transformar-se em carne, não imita o homem, mas o constitui realmente, assim também o Verbo de Deus, unindo-se à natureza humana, sem modificar-se ou confundir-se com ela, se fez realmente homem, não uma imitação ou uma aparência de homem. É preciso, pois, evitar absolutamente dar ao termo “pessoa” um significado que suponha uma imitação, uma diferença entre o que finge e o personagem objeto da ficção, na qual quem atua não é nunca aquele a quem representa. Por isso, não ocorra nunca que creiamos que o Verbo de Deus assumiu de maneira fictícia a natureza humana. Pelo contrário, devemos crer que, permanecendo imutável sua substância divina, assumiu uma natureza humana completa em si, que fez ser carne, homem, realidade humana não simulada, mas verdadeira; não imaginária, mas entitiva; não destinada a cessar de existir como ao término de uma apresentação teatral, mas a persistir para sempre de maneira substancial.

Maria, “Mãe de Deus”

Maria e menino Jesus (Pompeo Baton)

15. Esta unicidade de pessoa em Cristo se atuou e foi perfeita não depois do parto virginal , mas no próprio seio da Virgem. Portanto, devemos atender com todo cuidado a professar não somente que Cristo é um, mas que sempre foi um. Seria uma blasfêmia intolerável sustentar que agora Cristo é um, mas que durante um determinado período de tempo existiram dois: um Cristo depois do batismo; dois, entretanto, no momento do nascimento. Podemos evitar assim tão grande sacrilégio apenas se cremos que o homem se uniu a Cristo na unidade de pessoa já e desde o seio materno, no mesmo instante da concepção virginal, e não no momento da ascensão ou da ressurreição, ou no momento do batismo. Em virtude desta unidade de pessoa se atribui indiferentemente e de maneira indistinta ao homem o que é próprio de Deus, e a Deus o que é próprio da carne. Por inspiração divina foi escrito que o Filho do homem baixou do céu e que o Senhor da majestade foi crucificado na terra. Assim nós dizemos que o Verbo de Deus foi feito, que a Sabedoria mesma de Deus foi aperfeiçoada, que sua ciência foi criada, quando é a carne do Senhor que foi feita, criada, como foi predito que suas mãos e seus pés seriam traspassados. Por causa desta unidade de pessoa e em razão deste mesmo mistério, é perfeitamente católico crer que quando nasceu a carne do Verbo de uma Mãe incontaminada, foi o mesmo Deus Verbo quem nasceu de uma Virgem. Negá-lo seria uma grande impiedade. Ninguém, pois, pretenda jamais privar Maria Santíssima do privilégio desta graça divina e de uma glória tão especial. Pelo querer determinado do Senhor, Deus nosso e Filho seu, devemos proclamá-la com toda verdade e acerto Theotokos, Mãe de Deus. Não, certamente, o entendendo no sentido de uma heresia ímpia, a qual sustenta que Maria pode ser dita Mãe de Deus só de nome, enquanto que engendrou um homem que depois se converteu em Deus; ao modo como usamos comumente a expressão: mãe de um sacerdote ou mãe de um bispo, não porque estas mulheres tenham engendrado a um presbítero ou bispo, mas porque puseram no mundo homens que depois se fizeram sacerdotes ou bispos. Não neste sentido, repito, Maria Santíssima é Mãe de Deus, mas, como se disse antes, porque em seu sagrado seio se realizou o mistério sacrossanto pelo qual, em razão de uma particular e única unidade de pessoa, o Verbo é carne na carne, e o homem é Deus em Deus.

Condenações e Bênçãos

16. Já é tempo de fazer uma breve síntese, para recordá-lo com maior facilidade, de tudo o que temos dito acerca das heresias e da fé católica. Quando se repetem as coisas, se compreendem melhor e se afixam mais profundamente na memória. Condenação, pois, de Fotino, que rechaça a plenitude da Trindade e ensina que Cristo foi pura e simplesmente um homem. Condenação de Apolinário, que sustenta que a divindade de Cristo se transformou e se corrompeu, negando assim a propriedade de uma humanidade perfeita. Condenação de Nestório, que afirma que Deus não nasceu de uma Virgem, admite dois Cristos e, rechaçando a fé na Trindade, nos propõe uma quaternidade. Bendita, entretanto, a Igreja Católica, que adora a um só Deus na plenitude da Trindade e a igualdade das Três Pessoas Divinas em uma única Divindade, de maneira que nem a unidade de substância dilui a propriedade das Pessoas, nem sua distinção rompe a unidade da Divindade. Bendita a Igreja, que crê que em Cristo há duas substâncias reais e perfeitas, mas que é única a pessoa de Cristo; a distinção entre as duas naturezas não divide a unicidade da pessoa, nem a unicidade de pessoa confunde as duas diferentes naturezas. Bendita a Igreja, que para proclamar que Cristo é e tem sido sempre um, professa que o homem se uniu a Deus no seio materno da Mãe, e não depois do parto. Bendita seja esta Igreja, que compreende que Deus se fez homem, não por uma modificação de sua natureza, mas em virtude da pessoa, não de uma pessoa fictícia ou provisória, mas real e permanente. Bendita a Igreja, que ensina que esta unicidade de pessoa é tão profunda que atribui ao homem, por um mistério admirável e inefável, o que é de Deus e a Deus o que é do homem. Em virtude desta unicidade, a Igreja não teme afirmar que o homem, enquanto Deus, desceu do céu, e crer que Deus, enquanto homem, nasceu na terra, padeceu e foi crucificado. Consequência desta unicidade, a Igreja confessa que o homem é Filho de Deus e que Deus é Filho de uma Virgem. Bendita, pois, e veneranda, bendita e sacrossanta é esta profissão de fé, totalmente comparável ao louvor angélico que dá glória ao único Senhor Deus com uma trina exaltação de sua divindade. A Igreja prega a unicidade de Cristo principalmente por isto: para respeitar o mistério da Trindade. Tudo o que disse nessa digressão, se a Deus apraz, tratarei de maneira mais ampla e completa em outra ocasião. Agora voltemos a nosso tema.

A queda de Orígenes

17. Dizíamos que na Igreja de Deus o erro de um mestre é uma tentação para os fiéis; tentação tanto maior quanto mais douto é o que erra. Tenho provado isto desde já com a autoridade da Escritura, depois com exemplos da história eclesiástica, recordando aqueles homens que foram tidos durante certo tempo por plenamente ortodoxos e que acabaram em uma seita acatólica ou inclusive fundaram uma heresia. Este é um aspecto muito importante, que pelo mesmo é necessário conhecer e ter sempre presente, inclusive ilustrado com grande número de exemplos para que penetrem bem na mente, com o fim de que os verdadeiros católicos saibam que devem receber aos Doutores com a Igreja, e não abandonar a Igreja pelos Doutores. Poderia citar numerosos exemplos de tal classe de tentação, mas penso que nenhum é comparável ao caso de Orígenes. Possuía qualidades tão excepcionais e maravilhosas que qualquer um prestaria fé, desde o primeiro momento, a todas as suas afirmações. Pois se a vida edifica a autoridade da pessoa, ele foi um homem de grande laborosidade, castidade, paciência e constância incomuns. E se consideramos seu berço e sua ciência, quem foi mais nobre que ele? Nasceu de uma família ilustrada pelo martírio, e depois de ter sido privado de pai e de morada, por causa de Cristo, saiu adiante em meio das estreitezas de uma santa pobreza, sofrendo com frequência, segundo nos contam sempre, por confessar o nome do Senhor. Possuía muitos outros dotes, que depois se mudaram em motivo de tentação. Sua inteligência era tão vasta, penetrante, aguda, nobre, que não tinha rival. Ademais, tinha tal conhecimento da doutrina cristã e uma erudição tão grande que poucas coisas da filosofia divina lhe escapavam, e quase nenhuma da humana havia que ele não conhecesse profundamente. Sua ciência não se limitou às obras gregas, mas também se estendeu às hebraicas. Devo recordar sua eloquência? Era tão agradável, pura, suave, que se podia dizer que era mel, não palavras, o que destilavam seus lábios. Não havia questão difícil de expor que ele não tornasse límpida com a força de seu raciocínio, nem coisas que pareciam áridas que ele não as tornassem facílimas.

– Mas não terá, talvez, construído suas obras e fundamentado suas asserções somente sobre argumentos racionais?

– Pelo contrário, nunca houve um mestre que tenha utilizado mais que ele a Sagrada Escritura.

– É possível que tenha escrito pouco.

– Em absoluto! Nenhum mortal escreveu mais que ele, tanto que não é possível, penso, não só ler todas suas obras, como nem sequer encontrá-las todas. E para que não lhe faltasse nenhum meio para formar-se e aperfeiçoar-se na ciência, teve o dom da plenitude dos anos.

– Talvez tenha tido pouca sorte com seus discípulos…

– Existiu alguém mais afortunado que ele? Inumeráveis são os doutores, os bispos, confessores, os mártires saídos de sua escola. É verdadeiramente impossível medir a admiração, a glória, o favor de que gozou por parte de todos. Quem, por pouco religioso que fosse, não acudia a ele desde os mais remotos rincões da terra? Sabemos pela história que era reverenciado não só pelas pessoas privadas, mas também pelo próprio imperador. Se conta que a mãe do imperador Alexandre o fez chamar a seu lado por causa da sabedoria divina que superabundava nele, e que ela desejava ardentemente conhecê-lo. Encontramos outro testemunho nas cartas que escreveu, com autoridade de mestre, ao imperador Felipe, primeiro príncipe de Roma; que se fez cristão. E se não se quer dar crédito a nosso testemunho cristão sobre sua incrível ciência, escutemos ao menos o que dela dizem os filósofos pagãos. O ímpio Porfírio narra que, sendo ele ainda um menino, foi até Alexandria atraído pela fama de Orígenes, e ali o viu, já muito avançado em idade, mas com tal classe e com tanta grandeza, que parecia que ele havia construído a cidadela de toda a sabedoria. Mas se passaria uma noite inteira antes de que pudesse expor, nem sequer sucintamente, uma pequena parte das virtudes insignes que se encontravam neste homem. Sem embargo, todas estas qualidades não serviram somente para a glória da religião, mas também para fazer a tentação mais perigosa. Ninguém se encontrava disposto a abandonar a um homem de tão grande engenho, de doutrina e dotes tão exímios; qualquer um repetiria a sentença:

“É preferível estar equivocado com Orígenes que ter razão com os demais”.

Se poderia acrescentar algo mais? A tentação que esta grande personalidade, este doutor e profeta insigne provocou não foi de pouca monta, mas foi de tal envergadura, como demonstra o resultado final, que desviou a muitos da integridade da fé. Por ter abusado com temeridade da graça de Deus, por ter feito concessões demais à sua inteligência e posto uma confiança desmedida em si mesmo, por ter desconsiderado a antiga simplicidade da religião cristã, presumindo, todavia, saber mais que os outros; por ter depreciado as tradições da Igreja e o magistério dos antigos, interpretando de maneira totalmente nova algumas passagens da Sagrada Escritura; por tudo isso Orígenes – mesmo sendo tão eminente e extraordinário como era – mereceu que também a propósito dele se lhe dissesse à Igreja de Deus:

“Se no meio de ti se levanta um profeta…, não escutes as palavras desse profeta…, porque está te provando Javé, teu Deus, para ver se lhe amas ou não.”

E, por certo, não foi esta uma prova indiferente para a Igreja que, confiando nele e arrebatada pela admiração de seu engenho, de sua ciência, de sua eloquência, de seu modo de viver, de sua autoridade, sem suspeitar nada nem temer nada, se veria arrancada da antiga fé e escorregar-se até novidades profanas. Alguém dirá: as obras de Orígenes foram interpoladas e arranjadas. Concedo, e também desejaria que tivessem sido. Há muitos que falam e escrevem sobre estas interpolações, e não só católicos, mas também hereges. O que quero sublinhar e o fato de que, ainda que os livros não tenham sido escritos por Orígenes, mas empregando seu nome, foram igualmente ocasião de grande tentação. Formigam de afirmações ímpias, mas são lidos e apreciados como se fossem de Orígenes e não de outrem. Assim, ainda que não fora sua intenção emitir erros, sem embargo, estes foram difundidos sob a autoridade de seu nome.

O escândalo de Tertuliano

Tertulliano

18. O mesmo ocorreu com Tertuliano, que foi o maior entre os nossos latinos, como Orígenes o foi entre os gregos. Quem foi mais douto que ele, quem mais esperto tanto nas coisas divinas quanto nas humanas? Com a maravilhosa capacidade de sua mente se passeava pelo conhecimento de toda a filosofia, das escolas filosóficas, de seus fundadores e seguidores, de todas as suas disciplinas, da história e dos mais variados ramos do saber. Dotado de um engenho forte e profundo, não tinha dificuldade que se propusesse resolver que não a superasse e a conquistasse com sua inteligência aguda e poderosa. Quem seria capaz de louvar como se deve a estrutura e o estilo de suas composições? Tudo está nelas concatenado com tal necessidade lógica, que obriga a assentir com ele a aqueles a quem não consegue convencer. Se pode dizer que nele cada palavra é uma sentença, cada afirmação uma vitória. Sabem muito bem isto os discípulos de Marcion, de Apeles., de Praxeas, de Hermógenes, os judeus, os pagãos, os gnósticos e todos os demais, cujas blasfêmias fulminou, demoliu e destruiu com seus muitos e poderosos livros. Sem embargo, também ele, esse Tertuliano que havia levado a cabo todas estas coisas por ter sido pouco tenaz em apegar-se ao dogma católico, ou seja, a fé antiga e universal, e mais eloquente que profundo, ao final trocou suas ideias –como diz dele o bem-aventurado confessor Hilário – “com esse erro final privou de toda autoridade seus louváveis escritos”. Assim, pois, também ele foi para a Igreja ocasião de grande tentação. Não quero acrescentar mais, apenas recordar que por ter afirmado, sem ter em conta o preceito de Moisés, que as novas fúrias de Montano surgidas na Igreja e as loucas fantasmagóricas de mulheres delirantes de novos dogmas eram verdadeiras profecias, mereceu que dele e de seus escritos se dissesse:

“Se no meio de ti se levanta um profeta…, não escutes as palavras desse profeta…”

Por quê?

“Porque está te provando Javé, teu Deus, para ver se lhe amas ou não.”

Função providencial destes exemplos

19. O número e a importância destes exemplos eclesiásticos, e de muitos outros do mesmo gênero, não pode deixar de nos fazer prudentes, e nos mostram como uma luz mais clara que a do sol que, segundo o que nos diz o Deuteronômio, se um doutor se desvia da fé, é a Providência de Deus que o permite, para ver se amamos a Deus com todo o coração e com toda nossa alma.

O verdadeiro católico e o herege

20. De tudo que temos dito, aparece evidente que o verdadeiro e autêntico católico é o que ama a verdade de Deus e a Igreja, corpo de Cristo; aquele que não antepõe nada à religião divina e à fé católica: nem a autoridade de um homem, nem o amor, nem o gênio, nem a eloquência, nem a filosofia; mas que depreciando todas estas coisas e permanecendo solidamente firme na fé, está disposto a admitir e a crer somente o que a Igreja sempre e universalmente tem crido. Sabe que toda doutrina nova e nunca antes ouvida, insinuada por uma só pessoa, fora ou contra a doutrina comum dos fiéis, não tem nada a ver com a religião, mas que melhor constitui uma tentação, doutrinado nisto especialmente pelas palavras do Apóstolo Paulo:

“É necessário que entre vós haja partidos para que possam manifestar-se os que são realmente virtuosos” (1Cor 11,19)

Como se dissesse: Deus não elimina imediatamente aos autores de heresias, para que se manifestem os que são de uma virtude provada, ou seja, para que apareça em que medida cada um é tenaz, fiel, constante e nele mora a fé católica. E verdadeiramente, apenas um vento de novidades começa a soprar, imediatamente se vê como os grãos coalhados de trigo se separam e se distinguem da casca sem peso, e sem grande esforço é arrancado fora de lá o que não é sustentado por peso algum. Alguns voltam imediatamente; outros, no entanto, transtornados e desalentados, temem perecer, mas se envergonham de regressar, espancados como estão e mais mortos que vivos; parece exatamente como tivessem bebido uma dose de veneno que já não podem eliminar e que, ainda que não lhes mate logo, não lhes permite seguir realmente vivendo. Situação desgraçada! Quantas violentas aflições, quantas perturbações lhes assaltam! Já se deixam levar pelo erro como um vento impetuoso; já se recolhem em si mesmos, como ondas na tempestade, e são lançados na praia; outras vezes, com audácia temerária, dão sua conformidade ao que é errado; em outros momentos, sob o impulso de um medo irracional, se espantam até do que é verdade. Não sabem mais aonde ir, aonde voltar, não sabem o que querem, não sabem do que devem fugir, não sabem o que deve ser mantido e o que, ao contrário, deve ser rechaçado. E se ao menos soubessem que estas dúvidas e esta angústia de um coração vacilante são o remédio que a misericórdia divina lhes preparou! Por isto precisamente, afastados do porto seguro da fé católica, sãos acudidos, golpeados, como imersos na tempestade, para que, recolhidas e amainadas as velas da mente, que estavam estendidas ao largo e desdobradas aos ventos infiéis das novidades, voltem a buscar morada no refúgio confiado de sua Mãe boa e tranquila e, rechaçadas as ondas amargas e alvoroçadas do erro, possam alcançar a fonte de águas vivas e saltitantes e beber dela. Que “desaprendam” bem o que não fizeram bem em aprender; e que compreendam, de todos os dogmas da Igreja, o que a inteligência pode compreender; o que não podem compreender, que creiam.

“Oh, Timóteo! Guarda o depósito!”

21. Pensando e repensando dentro de mim estas coisas, não deixo de admirar-me ante a imensa loucura de alguns homens, ante a impiedade de sua mente cegada e ante a paixão desenfreada do erro, que não lhes deixa satisfeitos com uma norma de fé tradicional e recebida da antiguidade, mas que cada dia andam buscando coisas novas e ardem continuamente em desejos de trocar, de acrescentar, de tirar algo da religião. Como se esta não fosse um dogma celestial, que já é suficiente que tenha sido revelado uma vez para sempre; como se fosse uma instituição humana, que não pode chegar a ser perfeita a não ser mediante assíduas emendas e correções. E, sem embargo, temos a Palavra Divina que proclama:

“Não passes além dos marcos antigos que puseram teus pais” (Pr 22,28);

“Não julgues (o procedimento) de um juiz” (Eclo 8,17);

E também:

“Quem cava uma fossa, pode nela cair, e que derruba um muro pode ser picado por uma serpente” (Ecl 10,8)

Ademais está o mandato do Apóstolo, com o qual, como se fosse uma espada espiritual, têm sido decapitadas e o serão sempre todas as malvadas novidades heréticas:

“Ó Timóteo, guarda o bem que te foi confiado! Evita as conversas frívolas e mundanas, assim como as contradições de pretensa ciência. Alguns, por segui-las, se transviaram da fé” (1Tm 6,20-21)

Depois destas advertências, haverá no entanto homens tão ousados e teimosos, de uma cabeça mais dura que o aço, que não se dobrem sob o peso de tal eloquência celestial, que não se sintam esmagados por semelhante autoridade, feitos pedaços por marteladas como essas, reduzidos a cinzas por raios desta classe? “Evita – diz o Apóstolo – as conversas frívolas e mundanas”. Não diz a antiguidade, a vetustez. Mostra claramente o contrário, se temos em conta as consequências do que se tem dito: se deve-se evitar a novidade, tem que ater-se à antiguidade; se a novidade é ímpia, a antiguidade é sagrada.“(E) as contradições de pretensa ciência”. Verdadeiramente que somente como falsa ciência pode ser qualificada a doutrina dos hereges, os quais mascaram sua própria ignorância chamando-a de ciência, do tempo revolto dizem que está calmo, às trevas chamam-na luz. “Alguns, por segui-las, se transviaram da fé”. O que lhe anunciaram que lhes fizeram prevaricar, senão uma doutrina nova e ignorada? Podes escutar como dizem alguns: vinde, pobres ignorantes, os que sois comumente chamados católicos, e aprendei a fé verdadeira, que, fora de nós, ninguém entende. Permaneceu oculta durante muitos séculos, mas agora tem sido revelada e manifestada. Mas a aprende em segredo. Lhes dará alegria. Uma vez que tenhais aprendido, ensina a outros, mas ocultamente, para que não lhes odeie o mundo nem o saiba a Igreja, porque somente a uns poucos lhes é dado conhecer o segredo de tão grande mistério. Mas, por acaso não são estas as palavras que lemos nos Provérbios de Salomão, dirigidas pela prostituta aos que passam e vão ao seu caminho?: “Quem for simples venha para cá!” Já aos pobres de mente, lhes exorta dizendo: “As águas furtivas são mais doces e o pão tomado às escondidas é mais delicioso”. Mas, o que também encontramos escrito?

“Ignora ele que ali há sombras e que os convidados[da senhora Loucura] jazem nas profundezas da região dos mortos”. (Pr 9,16-18)

Quem são estes? Que diga o Apóstolo: “os que vierem a perder a fé”.

A Igreja, guardiã fiel do Depósito

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22. Mas é proveitoso que examinemos com maior diligência esta frase do Apóstolo:

“Ó Timóteo, guarda o bem que te foi confiado! Evita as conversas frívolas e mundanas, assim como as contradições de pretensa ciência”. (1Tm 6,20)

Este grito é o grito de alguém que sabe e ama. Previa os erros que surgiriam e se doía por ele enormemente. Quem é hoje Timóteo senão a Igreja universal em geral, e de modo particular o corpo de bispos, os quais, principalmente, devem possuir um conhecimento puro da religião cristã, e ademais transmiti-lo aos demais? E o que quer dizer “guarda o bem que te foi confiado”? Esteja atento, lhe diz, aos ladrões e aos inimigos; não suceda que enquanto todos dormem, venham em oculto a lançar a cizânia no meio da boa semente que o Filho do homem semeou em seu campo. Mas, o que é um depósito? O depósito é o que te foi confiado, não encontrado por ti; tu o recebestes, não o excogitastes com tuas próprias forças. Não é o fruto de teu engenho pessoal, mas da doutrina; não está reservado para um uso privado, mas que pertence a uma tradição pública. Não saiu de ti, mas que a ti veio: a seu respeito tu não podes comportar-se como se fosse seu autor, mas como seu simples guardião. Não és tu quem o iniciou, mas és seu discípulo; não te cabe dirigi-lo, mas é teu dever segui-lo. Guarda o bem que te foi confiado, diz; quer dizer, conserva inviolado e sem mancha o talento da fé católica. O que te foi confiado é o que deve guardar junto a ti e transmitir. Recebeste ouro; devolve, pois, ouro. Não posso admitir que substituas uma coisa por outra. Não, tu não podes desavergonhadamente substituir o ouro por chumbo, ou tratar de enganar dando bronze em lugar de metal precioso. Quero ouro puro, e não algo que só tenha sua aparência. Ó Timóteo! Ó sacerdote! Intérprete das Escrituras, doutor, se a graça divina te deu o talento por engenho, experiência, doutrina, deves ser o Beseleel do Tabernáculo espiritual. Trabalha as pedras preciosas do dogma divino, reúne-as fielmente, adorna-as com sabedoria, acrescenta-lhes esplendor, graça, beleza: Que tuas explicações façam que se compreenda com mais claridade o que se ainda se crê de maneira bem obscura. Que as gerações futuras se congratulem de terem compreendido por tua meditação o que seus pais veneravam sem compreender. Mas hás de estar atento a ensinar somente o que aprendeste: não suceda que por buscar maneiras novas de dizer a doutrina de sempre, acabes também por dizer também coisas novas.

O progresso do dogma e suas condições

23. Talvez alguém diga: então nenhum progresso da religião é possível na Igreja de Cristo? Certamente que deve haver progresso, e grandíssimo! Quem poderá sertão hostil aos homens e tão contrário a Deus que tentaria impedi-lo? Mas a condição de que se trate verdadeiramente de progresso pela fé, não de modificação. É característica do progresso de todas as maneiras possíveis a inteligência, o conhecimento, a sabedoria, tanto da coletividade como do indivíduo, de toda a Igreja, segundo as idades e os séculos; com tal de que isso suceda exatamente segundo sua natureza peculiar, no mesmo dogma, no mesmo sentido, segundo uma mesma interpretação. Que a religião das almas imite o modo de desenvolvimento dos corpos, cujos elementos, ainda que com o passar dos anos se desenvolvem e crescem, sem embargo permanecem sendo sempre eles mesmos. Há grande diferença entre a flor da infância e a maturidade da velhice; não obstante, quem agora é velho são os mesmos que foram adolescentes. O aspecto e o porte de um indivíduo mudarão, mas se tratará sempre da mesma natureza e da mesma pessoa. Os membros de um lactante são pequenos e maiores os dos jovens, e seguem sendo os mesmos. Tantos membros têm os adultos quanto têm as crianças; e se algo novo aparece em idade mais madura, já pré-existia no embrião; assim, nada novo se manifesta no adulto que já não se encontrasse de forma latente na criança. Não cabe nenhuma duvida de que este é o processo regular e normal do progresso, segundo a ordem precisa e belíssima do crescimento: o crescer na idade revela nos grandes as mesmas partes e proporções que a sabedoria do Criador havia delineado nos pequeninos. Se a forma humana adotasse com o tempo um aspecto estranho a sua espécie, se lhe adicionasse ou lhe tirasse algum membro, necessariamente todo o corpo morreria ou se faria monstruoso, ou ao menos se debilitaria.A estas mesmas leis de crescimento deve seguir o dogma cristão, de modo que com o passar dos anos se vá consolidando, se vá desenvolvendo no tempo, se vá tornando mais majestoso com a idade, mas de tal maneira que siga sempre incorrupto e incontaminado, íntegro e perfeito em todas as suas partes, e, por assim dizer, em todos seus membros e sentidos, sem admitir nenhuma alteração, nenhuma perda de suas propriedades, nenhuma variação no que está definido. Vejamos um exemplo. Nossos pais, no passado, semearam no campo da Igreja a boa semente da fé; seria por demais injusto e inconveniente se nós, seus descendentes, em lugar de trigo da autêntica verdade tivéssemos que replantar acizânia fraudulenta do erro. Em troca, é justo que a sega corresponda à semeadura que recolhemos, quando o grão da doutrina chega à maturidade, o trigo do dogma. Se com o passar do tempo, uma parte da semente original se desenvolveu alcançando felizmente a maturidade plena, não se pode dizer que tenha mudado o caráter específico da semente; pode se dar uma mudança no aspecto, na forma, uma formação mais precisa, mas a natureza própria de cada espécie permanece intacta. Não suceda jamais, pois, que os roseirais da doutrina católica se transformem em cardos espinhosos. Não suceda jamais, repito, que neste paraíso espiritual de onde brotam o cinamomo e o bálsamo, despontem às escondidas acizânia e o acônito. Tudo que a fé dos pais têm semeado no campo de Deus que é a Igreja, é o que deve ser cultivado e guardado pelo zelo dos filhos; somente este deve florescer, e não outra coisa; deve florescer e amadurecer, crer e alcançar a perfeição. É legítimo que os antigos dogmas da filosofia celestial, ao correr dos séculos, se afinem, se aparem, se lustrem; mas seria ímpio mudá-los, desfigurá-los, mutilá-los. Adquirem, ao contrário, maior evidência, clareza, precisão; mas é necessário que conservem sempre sua plenitude, integridade, propriedade. Se começa a misturar o novo com o antigo, o estranho com o que é familiar, o profano com o sagrado, em breve esta desordem se difundirá por todos os lados, e nada na Igreja permanecerá intacto, íntegro, sem mancha; e onde antes se levantava o santuário da verdade pura e incorrupta, exatamente neste lugar, se levantará um prostíbulo de infâmias e torpes erros. Que a misericórdia divina mantenha afastado da mente dos seus este crime; que isto não seja mais que uma loucura dos ímpios. A Igreja de Cristo, guardiã vigilante e prudente dos dogmas que lhe são confiados, não muda nada neles, nem lhes tira ou acrescenta nada; não rejeita o que é necessário nem acrescenta o que é supérfluo; não deixa que escape o que é seu nem se apropria do que pertence a outrem. Ao tomar cautelosamente e com fidelidade e prudência as doutrinas antigas, só busca fazer com sumo zelo o seguinte: reforçar o que tem sido expresso com precisão; guardar o que tem sido confirmado e definido. Na realidade, que fim se propôs obter sempre a Igreja com os decretos conciliares, senão que se creia com maior conhecimento o que antes já se cria com simplicidade; que se pregue com maior insistência o que antes se pregava com menor empenho; que se venere com maior solicitude o que já antes se honrava com demasiada calma? Isto e não outra coisa tem feito sempre a Igreja com os decretos dos concílios, provocada pelas inovações dos hereges: transmitir à posteridade em documentos escritos o que fora recebido de nossos pais mediante somente a tradição; resumir em fórmulas breves uma grande quantidade de noções e, mais frequentemente, com o fim de ilustrar a inteligência, especificar com termos novos e apropriados uma doutrina não nova.

Estar atentos ante os hereges

24. Então voltemos à exortação do Apóstolo:

“Ó Timóteo, guarda o bem que te foi confiado! Evita as conversas frívolas e mundanas, assim como as contradições de pretensa ciência.”

Evita, disse-lhe, como se faz com uma víbora, comum escorpião, com um basilisco, para que não somente o contato, mas nem sequer sua vista ou seu sopro te firam. Agora bem: o que significa evitar?

“Com tais indivíduos nem sequer deveis comer” (1Cor 5,11)

E também:

“Se alguém vier a vós sem trazer esta doutrina– e que doutrina é esta senão a católica universal, que permanece sendo única e a mesma através dos séculos, em uma incorrupta tradição de verdade, e que permanecerá assim sempre – não o recebais em vossa casa, nem o saudeis. Porque quem o saúda toma parte em suas obras más”. (2Jo 1,10-11)

O Apóstolo nos falava de novidades profanas nas expressões (N. do T.: na tradução para o português usou-se a Bíblia Ave Maria, que apresenta este versículo: Evita as conversas frívolas e mundanas). Agora bem, profano é o que não tem nada de sagrado nem de religioso, e é totalmente estranho ao santuário da Igreja, templo de Deus. As novidades profanas nas expressões são, pois, as novidades concernentes aos dogmas, coisas e opiniões em contraste com a tradição e a antiguidade; sua aceitação implicaria necessariamente a violação pouco menos que total da fé dos Santos Padres. Levará necessariamente a dizer que todos os fiéis de todos os tempos, todos os santos, os castos, os continentes, as virgens, os clérigos, os levitas e os bispos, os milhares de confessores, os exércitos de mártires, um número imenso de cidades e de povos, ilhas e províncias, de reis, de pessoas, de reinos enações, em uma palavra, o mundo inteiro incorporado a Cristo cabeça mediante a fé católica, durante um grande número de séculos tinha ignorado, errado, blasfemado, sem saber no que deveria crer. Evita, pois, as novidades profanas ns expressões, já que recebê-las e segui-las nunca foi costume dos católicos, e sim dos hereges. Na verdade, que heresia não tenha surgido sob um nome num lugar e numa época determinadas? Quem jamais tenha fundado uma heresia sem se separar assim do acordo com a universalidade e a antiguidade da Igreja Católica? Os exemplos nos mostram isto de maneira evidente. Com efeito, quem nunca, antes do ímpio Pelágio, teve a presunção de atribuir ao livre-arbítrio o poder tão grande de pensar que o auxílio da graça não é necessário para cada um dos atos, para levar a cabo as boas obras? Quem, antes de seu monstruoso discípulo Celestino, negou que todo o gênero humano está contaminado pelo pecado de Adão? Antes do sacrílego Ário, quem teve a audácia de rasgar a unidade da Trindade ou de confundi-la, como o pérfido Sabélio? Antes do rígido Novaciano, quem tinha dito que Deus era cruel, porque preferia a morte do agonizante a que ele se convertesse e vivesse? Quem, antes de Simão Mago, duramente castigado pela reprimenda apostólica – e de quem provém a antiga enxurrada de torpezas que, por sucessão ininterrupta e oculta, tenha chegado até Prisciliano – se atreveu a dizer que Deus criador é o autor do mal, ou seja, de nossos delitos, de nossas impiedades, de nossos vícios? Este afirma que Deus, com suas próprias mãos, cria a natureza estruturada de maneira que, por movimento espontâneo e sob o impulso de uma vontade necessitada, não pode mais, não quer mais que pecar. Agitada e incendiada pelas fúrias de todos os vícios, se vê arrastada com ânsia inesgotável aos abismos de toda sorte de crimes. Exemplos como estes existem e não acabam mais, mas deixemo-los para sermos breves. Demonstram a todos com evidência que a atitude normal e comum de qualquer heresia é gozar-se nas novidades profanas e sentir repulsa pelos dogmas da antiguidade, até o ponto de naufragar na fé por causa de discussões de uma falsa ciência. Ao contrário, é próprio dos católicos guardar o depósito transmitido pelos Santos Padres, condenar as novidades profanas e, como muitas vezes repetiu o Apóstolo, descarregar o anátema sobre quem tem a audácia de anunciar algo diferente do que foi recebido.

Os hereges recorrem à Escritura

25. Mas alguém se dirá: então os hereges não se servem dos testemunhos da Sagrada Escritura? Certamente que se servem, e com tão apaixonada veemência! Os vemos passar de um livro a outro da Lei Santa: desde Moisés aos livros dos Reis, desde os Salmos aos Apóstolos, desde os Evangelhos aos Profetas. Em suas assembléias, com os estranhos, em privado, em público, nos discursos e nos escritos, durante as refeições e nas praças públicas, é raro que mantenham alguma coisa sem que antes não a tenham revestido com a autoridade da Sagrada Escritura. Basta ler as obras de Paulo de Samosata, de Prisciliano, de Eunomio, de Joviniano e de todas as outras pestes; imediatamente se nota o cúmulo infinito de textos bíblicos: quase não há página que não esteja colorida e assinalada com citações do Antigo e do Novo Testamento. Mas se torna mais necessário estar em vigilância e temer-lhes quando mais tentam ocultar-se e esconder-se sob a sombra da Lei Divina. Efetivamente, sabem que suas exalações pestilentas, desnudadas e diretas, não encontrariam o favor de ninguém; por isso as perfumam com o aroma da palavra celestial, já que quem facilmente rejeitaria um erro humano não está dispôs toa depreciar com tanta facilidade os oráculos divinos. Fazem o que aqueles que, para suavizar a amargura dos remédios destinados às crianças, untam de mel a borda do frasco; as crianças com a simplicidade ingênua de sua idade, uma vez que provaram o doce, bebem sem suspeitar nem temer o amargo. Da mesma maneira atuam quem mascaram com nomes medicinais ervas nocivas e sucos venenosos, para que ninguém, ao ler a etiqueta, possa suspeitar que se trata de venenos e que não são remédios para cuidar da saúde. A este propósito o Salvador gritava:

“Guardai-vos dos falsos profetas. Eles vêm a vós disfarçados de ovelhas, mas por dentro são lobos arrebatadores” (Mt 7,15)

Que outra coisa são estas peles de ovelhas senão as palavras dos Profetas e dos Apóstolos, com as quais estes mesmos, com mansa simplicidade, revestiram como um véu ao Cordeiro imaculado que tira o pecado do mundo? Quem são, ao contrário, os lobos vorazes, senão as doutrinas selvagens e raivosas dos hereges, que infectam o redil da Igreja, para desgarrar, da melhor maneira possível, o rebanho de Cristo? Para surpreender mais facilmente as incautas ovelhas, mascaram seu aspecto de lobos, ainda que conservando sua ferocidade, vestindo-se com frases da lei Divina como a um véu, para que, ao sentir a brandura da lã, as ovelhas não suspeitem de seus dentes afiados. Mas, o que nos diz o Salvador?

“Pelos seus frutos os conhecereis” (Mt7,16)

Quer dizer, quando já não se dão por satisfeitos em citar e pregar as palavras divinas, e então começam a explicar e comentá-las, se manifestará sua amargura, sua aspereza e sua raiva; então se exalará um novo odor e aparecerão as novidades ímpias; então se verá pela primeira vez as setas arrancadas e ultrapassados os limites postos pelos pais; ultrajada a fé católica e o dogma da Igreja feito em pedaços. Pessoas desta ralé eram as fustigadas pelo Apóstolo em sua segunda carta aos Coríntios:

“Esses tais são falsos apóstolos, operários desonestos, que se disfarçam em apóstolos de Cristo,” (2Cor 11,13)

Que significa “se disfarçam em apóstolos de Cristo”? Os Apóstolos citavam textos da Lei Divina, e aqueles faziam o mesmo; os Apóstolos se apoiavam na autoridade dos Salmos e dos Profetas, e aqueles também. Mas quando começaram a interpretar de maneira diferente os mesmos textos, então se distinguiram os sinceros dos falsários, os genuínos dos artificiais, os retos dos perversos, em uma palavra, os verdadeiros Apóstolos dos falsos.

“O que não é de espantar – explica São Paulo – Pois, se o próprio Satanás se transfigura e manjo de luz, parece bem normal que seus ministros se disfarcem em ministros de justiça” (2Cor 11,14-15)

Segundo o ensinamento do Apóstolo, cada vez que os falsos apóstolos, os falsos profetas, os falsos doutores citam passagens da Lei Divina com as quais, as interpretando mal, buscam apontar seus erros, não cabe dúvida de que seguem a tática pérfida de seu autor e mestre, o qual certamente não a usaria se não compreendesse que não há melhor caminho para induzir ao engano aos fiéis, que introduzir fraudulentamente um erro cobrindo-o com a autoridade das palavras divinas.

A Escritura na boca de Satanás

Tentações de Jesus, mosaico do séc. 12 - Basílica de São Marcos, Veneza

Tentações de Jesus, mosaico do séc. 12 – Basílica de São Marcos, Veneza

26. Alguém poderia então perguntar: como se explica que o diabo utilize as citações da Sagrada Escritura? Não precisa mais que abrir o Evangelho e ler. Encontrará escrito:

“O demônio transportou-o – ao Senhor – à Cidade Santa, colocou-o no ponto mais alto do templo e disse-lhe: “Se és Filho de Deus, lança-te abaixo, pois está escrito: Ele deu a seus anjos ordens a teu respeito; proteger-te-ão com as mãos, com cuidado, para não machucares o teu pé em alguma pedra (Sl 90,11s)” (Mt 4,5-6)

O que não fará a nós, pobres mortais, aquele que teve a ousadia de assaltar, com testemunhos da Escritura, ao mesmo Senhor da majestade?

“Se és Filho de Deus – disse-lhe – lança-te abaixo.”

Por quê?

“Porque está escrito…”

Devemos prestar muita atenção à doutrina aqui exposta e retê-la bem em nossas mentes, para que, postos em vigilância pela autoridade de um exemplo evangélico tão grande, não duvidemos nem por um instante que é o diabo quem fala pela boca daqueles que citam contra a fé católica passagens dos Apóstolos e dos Profetas. Então era a cabeça quem falava à Cabeça, agora são os membros que falam aos membros; ou seja, os membros do diabo aos membros de Cristo, os renegados aos fiéis, os sacrílegos aos homens piedosos, os hereges aos católicos. Mas o que eles dizem? Se tu és o Filho de Deus, lança-te abaixo. Ou seja, se queres ser realmente filho de Deus e receber a herança do reino celestial, lança-te abaixo de cima da doutrina e da tradição desta Igreja sublime, templo de Deus. E se alguém pergunta a qualquer herege que quer persuadi-lo da verdade disto: Em que provas te fundamentas para afirmar que eu devo abandonar a antiga e universal fé da Igreja Católica? Imediatamente responderá: “Está escrito”, e sem mais amontoará mi ltestemunhos, mil exemplos, mil argumentos com os quais, interpretados de nova e errada maneira, buscará precipitar a alma do desgraçado desde o alto da rocha católica ao abismo da heresia. Mas é com promessas como as que agora vamos mostrar que os hereges costumam enganar, com uma arte que é uma verdadeira maravilha, aqueles que não estão prevenidos. Efetivamente, ousam prometer e ensinar que em sua igreja, ou melhor, em seu conventículo de sua seita, está presente uma graça de Deus extraordinária, especial, absolutamente pessoal; e é de tal classe que sem fadiga, sem esforço, sem ansiedade alguma, inclusive ainda que não peçam, nem busquem, nem almejem, todos os que fazem parte de seu número obtém de Deus esse auxílio, até o ponto de serem levados por mãos angélicas e guardados por sua proteção, sem que seu pé nunca tropece em alguma pedra, ou seja, sem sofrer escândalo.

Como vencer as insídias diabólicas dos hereges

27. Depois de tudo que temos dito, seria lógico perguntar: se o diabo e seus discípulos – os falsos apóstolos, profetas, mestres e hereges em geral – costumam utilizar as palavras, as sentenças, as profecias da Escritura, como deverão se comportar os católicos, os filhos da Madre Igreja? Que deverão fazer para distinguir nas Sagradas Escrituras a verdade do erro? Tenham grande preocupação por seguir as normas que, ao início destas notas escrevi, foram transmitidas por doutos e piedosos homens; ou seja, interpretarão o Cânon divino segundo as tradições da Igreja universal e as regras do dogma católico; na mesma Igreja Católica e Apostólica deverão seguir a universalidade, a antiguidade e a unanimidade de consenso. Por conseguinte se acontecesse que uma parte se rebelasse contra a universalidade, que a novidade se levantasse contra a antiguidade, que a dissensão deum ou poucos equivocados se elevasse contra o consenso de todos ou ao menos deum número bem grande de católicos, se deverá preferir a integridade da totalidade à corrupção de uma parte; dentro da mesma universalidade, será preciso preferir a religião antiga à novidade profana; e, na antiguidade, há que antepor à temeridade de pouquíssimos os decretos gerais, se os há, de um concílio universal; no caso de que não os tenha, se deverá seguir o que próximo esteja deles, ou seja, as opiniões concordes de muitos e grandes mestres. Se, com a ajuda do Senhor, observamos com fidelidade e solicitude estas regras, conseguiremos descobrir sem grande dificuldade, e desde sua mesma fonte, os erros nocivos dos hereges.

Os Padres e a Tradição Católica

Padres da Igreja

28. Penso que talvez seja oportuno demonstrar, por meio de exemplos, como podem ser descobertas e condenadas as novidades heréticas, investigando e confrontando entre si as opiniões concordes dos antigos mestres. De todos os modos, é evidente que este consenso antigo e unânime dos Santos Padres não devemos invocá-lo apenas em questões minuciosas da Lei Divina; mas que será objeto da mais ativa investigação e adesão só no que se refere à regra da fé. Nem tampouco todas as heresias, de todos os tempos, podem ser combatidas desta maneira; somente as novas e mais recentes, em sua primeira floração e em suas primeiras manifestações, antes de que, pela mesma escassez de tempo, tenham a possibilidade de falsear a regra antiga da fé e de infeccionar com seu veneno os livros dos Padres. Em relação àquelas que já foram difundidas e já fincaram raízes profundas, não podem ser combatidas por este caminho, porque o largo prazo de tempo de que dispuseram foi ocasião mais que favorável para erodir a verdade, e por isso é que as impiedades mais antigas, tanto heréticas como cismáticas, não podemos refutá-la mais que com a autoridade da Escritura, ou evitálas desde que já estão refutadas e condenadas por antigos Concílios universais do Episcopado Católico. Apenas, pois, começa a se estender a podridão de um novo erro e este, para justificar-se, se apodera de alguns versículos da Escritura, que ademais interpreta com falsidade e fraude, é preciso imediatamente abrir mão das sentenças dos Padres interpretando as passagens em questão; com seu auxilio, qualquer novidade profana será no ato desmascarada sem nenhuma ambigüidade e condenadas em vacilação. Em relação aos Padres, deve-se consultar o pensamento de quem santamente, sabiamente e com constância viveu, ensinou e permaneceu firme na fé e na comunhão católica, e morreram fiéis a Cristo ou mereceram a alegria de dar sua vida por Ele. Mas a estes se deve prestar fé seguindo esta regra: o que todos, ou ao menos a maioria, têm afirmado claramente, através de concílio de mestres perfeitamente unânimes, e que têm confirmado ao aceitá-lo, conservá-lo e transmiti-lo, isso é o que deve ser mantido como induvidável, certo e verdadeiro. Ao contrário, tudo que, fora da doutrina comum, e inclusive contra ela, tenha pensado um apenas, ainda que seja um santo e um douto, um bispo, um confessor, um mártir, deve ser relegado entre as opiniões pessoais, não oficiais, privadas, que não tem a autoridade da opinião comum, pública e geral; não nos suceda, com sumo perigo para nossa salvação eterna, que abandonemos a antiga verdade da doutrina católica para seguir o erro novo de um só indivíduo, segundo o sacrílego costume dos hereges e cismáticos. Para que não haja quem se atreva a depreciar este acordo sagrado e universal dos Padres, o Apóstolo escreveu em sua primeira carta aos Coríntios:

“Na Igreja, Deus constituiu primeiramente os apóstolos (ele era um deles), em segundo lugar os profetas (como lemos nos Atos dos Apóstolos que era Ágabo), em terceiro lugar os doutores” (1Cor 12,28),

Mas o mesmo Apóstolo às vezes os chama profetas, porque explicam ao povo cristão os mistérios da mensagem profética. Quem quer que se atreva a depreciar a estes homens postos por Deus em sua Igreja segundo os lugares e os tempos, e que estão de acordo na interpretação do dogma católico, não estará depreciando a um homem, mas ao próprio Deus. E com o fim de que ninguém esteja em desacordo com sua unidade, a única verdadeira, o mesmo Apóstolo disse:

“Rogo-vos, irmãos, em nome de nosso Senhor Jesus Cristo, que todos estejais em pleno acordo e que não haja entre vós divisões. Vivei em boa harmonia, no mesmo espírito e no mesmo sentimento”. (1Cor 1,10)

E se alguém deixa de estar de acordo com sua doutrina, escute o que diz o Apóstolo:

“Porquanto Deus não é Deus de confusão, mas de paz”. (1Cor 14,33)

Ou seja, não é Deus de quem rompe a unidade e a concórdia, mas de quem permanece na paz de um só sentimento.

“Como em todas as igrejas dos santos” (1Cor 14,34),

Ou seja, dos católicos, e são coisas santas precisamente porque permanecem na comunhão da fé. E com o propósito de que ninguém se arrogue a pretensão de ser ele somente escutado e crido, sem ter em conta aos demais, pergunta:

“Porventura foi dentre vós que saiu a palavra de Deus? Ou veio ela tão-somente para vós?” (1Cor14,36)

Ademais, para evitar que suas palavras fossem tomadas à ligeira, acrescenta:

“Se alguém se julga profeta ou agraciado com dons espirituais, reconheça que as coisas que vos escrevo são um mandamento do Senhor”. (1Cor 14,37)

Mas de que mandamentos se trata, senão de qualquer um que seja profeta o pessoa espiritual, ou seja, mestre das coisas espirituais, deve ter o maior cuidado em cultivar a imparcialidade e a unidade, a fim de que não chegue a preferir sua opinião pessoal à dos demais ou a separar-se do sentimento comum? “Mas – adverte o Apóstolo – se alguém quiser ignorá-lo, que o ignore!” (1Cor 14,38) ou seja, quem não aprende as coisas que não sabe ou se desfaz das que sabe, será tido por indigno de ser incluído por Deus no número daqueles que estão unidos na fé e iguais na humildade. Se poderia pensar um mal tão grande? Precisamente isto é o que, como sabemos, ocorreu, de acordo com a ameaça do Apóstolo, ao pelagiano Juliano, que se negou a compartilhar a doutrina de seus colegas e teve a presunção de separar-se deles. Mas é chegado o momento de trazer à luz o exemplo a que nos referimos, e mostrar onde e de que maneira, por decreto e autoridade de um concílio, recorreu-se às opiniões dos Padres, com o fim de fixar, seguindo-as, a regra de fé da Igreja.Para maior comodidade, ponho aqui fim a estas notas. O resto tratarei em uma segunda parte.(O segundo Commonitorium desapareceu; não ficou dele mais que a segunda parte, que é uma simples recapitulação e que acrescentamos a seguir.)

É legítimo recorrer aos Padres

29. Creio ter chegado o momento de recapitular ao final deste segundo Comonitório tudo o que foi tratado nos dois Comonitórios. No primeiro disse que os católicos tiveram sempre o costume, e continuam tendo, de determinar a verdadeira fé de duas maneiras: com a autoridade da Escritura divina e com a tradição da Igreja Católica. Não porque a Escritura, por si só, não seja suficiente em todos os casos, mas porque muitos, interpretando a seu capricho as palavras divinas, acabam por inventar uma quantidade incrível de doutrinas errôneas. Por este motivo é necessário que a exegese da Escritura divina seja guiada pela única regra do sentir católico, especialmente nas questões que tocam os fundamentos de todo o dogma católico. Também afirmei que na mesma Igreja é necessário ter em conta a universalidade e a antiguidade, com o fim de que não nos suceda que nos separemos da unidade do conjunto e acabar desagregados, no fragmentarismo particularista do cisma, ou nos precipitar, desde a antiga fé, em novidades heréticas. Disse ainda, em relação à antiguidade, que é preciso a todo custo terpresente duas coisas e se agarrar a elas profundamente, se não queremos nos converter em hereges; primeiro: ver se houvera antigamente algum decreto por parte de todos os bispos da Igreja Católica, emanado sob a autoridade de um concílio universal; depois, no caso de que surja uma nova questão, em torno da qual não se encontre nada definido, recorrer às sentenças dos Padres, mas somente a aqueles que, por haverem permanecido, em seu tempo e lugar, dentro da unidade da comunhão e da fé, se converteram em mestres provados. Tudo aquilo que se encontre e que tenha sido por eles mantido com unanimidade de sentir e de consenso pode ser submetido sem temor algum como expressão da verdadeira fé católica. Como poderia parecer que eu afirmava estas coisas por minha conta, porém baseando-me na autoridade da Igreja, fiz referência ao exemplo do Santo Concílio ocorrido há três anos em Éfeso, na Ásia, sob o consulado dos preclaros Basso e Antíoco. No curso das discussões que ali se tiveram para estabelecer a regra da fé, com o fim de evitar que uma novidade ímpia se insinuasse do mesmo modo que se levou a cabo a perfídia de Rimini, pareceu a todos os bispos, reunidos em número de quase duzentos, que o melhor procedimento, o mais católico e o mais conforme a fé, era o de remeter-se às sentenças dos Santos Padres, alguns dos quais foram mártires, outros confessores, de tal modo que de todos eles houvera constância de que foram bispos católicos e que perseveraram como tais. Fortalecidos por seu consenso, foi confirmada por decreto, em devida forma e solene, a antiga fé, e condenada a blasfêmia da nova impiedade. À luz deste procedimento, e com todo direito e merecidamente, o ímpio Nestório foi julgado por estar em desacordo com a antiguidade católica, e o bem aventurado Cirilo em comunhão com a santíssima fé antiga. Para que nada faltasse à fidelidade dos fatos que narrei, proporcionei também os nomes e o número dos padres (ainda que tenha trocado a ordem), de conformidade com cuja sentença unânime foram interpretadas as palavras da Sagrada Escritura, e foi confirmada a regra da fé divina. Penso que não será supérfluo voltar a recordar, para refrescar minha memória.

Os Padres citados em Éfeso

30. Eis aqui, pois, os nomes daqueles cujos escritos foram citados naquele Concílio como juízes e testemunhas. São Pedro bispo de Alexandria, doutor insigne e mártir; Santo Atanásio, bispo da mesma cidade, mestre fidelíssimo e confessor exímio; São Teófilo, também bispo de Alexandria, célebre por sua fé, vida e ciência; seu sucessor, o venerável Cirilo, que atualmente ilustra a igreja alexandrina. E para que não se pensasse que aquela era a doutrina de uma só cidade ou província, se recorreu também às celebérrimas luminárias da Capadócia: São Gregório, bispo de Nanziano e confessor; São Basílio, bispo de Cesaréia da Capadócia e confessor; o outro Gregório, bispo de Nissa, por fé, costumes e sabedoria realmente digno de seu irmão Basílio. Ademais, para demonstrar que não apenas a Grécia e o Oriente, mas também o Ocidente, o mundo latino, tinha mantido a mesma fé, foram lidas algumas cartas de São Félix Mártir e de São Júlio, bispos da cidade de Roma. Mas não somente a cabeça do mundo, também as partes secundárias proporcionaram seu testemunho àquela sentença. Dos meridionais foi citado o beatíssimo Cipriano, bispo de Cartago e mártir; das terras do Norte, Santo Ambrósio, bispo de Milão e confessor. Sem dúvida poderia citar um número maior de Padres, mas não foi necessário. Não era, com efeito, conveniente ocupar o tempo numa multidão de textos, desde o momento em que ninguém duvidada de que a opinião daqueles dez era a de todos os demais colegas.

O Concílio de Éfeso proclamava a antiga fé

Concílio de Efeso

31. Ademais, consignei as palavras do bem-aventurado Cirilo, tal como estão contidas nas mesmas Atas eclesiásticas. Elas dizem que, apenas foi lida a carta de Capreolo, o santo bispo de Cartago, que não pedia nem desejava mais que se rejeitasse a novidade e se defendesse a antiguidade, tomou a palavra o bispo Cirilo. Não parece inútil que cite aqui de novo suas palavras. Segundo está escrito ao final das Atas, ele disse:

“A cartado venerando e religiosíssimo bispo de Cartago, Capreolo, que nos foi lida, deve ser incluída nas Atas oficiais. Pois se pensa mente é claríssimo: quer que sejam confirmados os dogmas da antiga fé e reprovadas e condenadas as novidades inutilmente excogitadas e impiamente pregadas. Todos os bispos o aprovaram e maltas vozes: essas palavras são nossas, expressam o pensamento de todos nós, este é o voto de todos”.

Quais eram, pois, as opiniões de todos? Quais os desejos comuns? Que se mantivesse tudo o que havia sido transmitido desde a antiguidade e se rejeitasse oque recentemente se havia acrescentado. Foi admirado e proclamado a humildade e a santidade desse Concílio. Os bispos reunidos ali em grande número, a maior parte dos quais eram metropolitas, possuíam uma tal erudição e doutrina, que podiam quase todos discutir sobre questões dogmáticas, e o fato de se encontrarem todos reunidos pôde lhes animar e lhes afirmar na sua capacidade para deduzir por si mesmos. Ao contrário, se preocuparam por todos meios de transmitir à posteridade somente o que receberam dos Padres, com o fim não somente de resolver bem as questões do presente, mas também de oferecer às gerações futuras o exemplo de como se devem venerar os dogmas da antiguidade sagrada e condenar as novidades ímpias. Também foi impugnado a presunção criminosa de Nestório, que seu fanava de ter sido o primeiro e o único a compreender a Sagrada Escritura, tachando de ignorantes a todos aqueles que, antes dele, investidos do ofício do Magistério, explicaram a Palavra Divina, ou seja, a todos os bispos, a todos os confessores, a todos os mártires. Alguns destes tinham explicado a Lei de Deus, outros haviam aceitado as explicações que lhes deram e prestaram fé. Ao contrário, segundo o parecer de Nestório, a Igreja se equivocara sempre, e continuava equivocando-se por ter seguido, segundo ele, a doutores ignorantes e heréticos.

Intervenções de Sixto III e de Celestino I contra as inovações ímpias

32. Ainda que todos estes exemplos são mais que suficientes para destroçar e aniquilar as novidades ímpias, sem embargo, para que não possa parecer que falta alguma coisa a tão grande número de provas, acrescentei ao final dois documentos da Sé Apostólica: um do Santo Papa Sixto, que na atualidade ilustra a Igreja de Roma, e outro de seu predecessor de feliz memória, o Papa Celestino. Creio ser necessário reproduzir aqui também estes dois documentos. Na carta que o santo Papa Sixto enviou ao bispo de Antioquia a propósito de Nestório, escreveu: “Posto que o Apóstolo disse que uma é a fé (cfr. Ef4,5), a fé que se impôs abertamente, acreditamos no que devemos falar e pregamos o que devemos manter”. Queremos saber o que é aquilo que devemos crer e pregar? Ouçamos o que ele diz a seguir:

“Nada é lícito à novidade, porque nada é lícito acrescentar à antiguidade. A fé límpida de nossos pais e sua religiosidade não devem ser turvadas por nenhuma mistura de lama”.

Sentença verdadeiramente apostólica, que descreve a fé dos pais como limpidez cristalina, e as novidades ímpias como mistura de lama. No Papa Celestino encontramos o mesmo pensamento. Na carta que enviou aos bispos das Gálias, os censurava que, de fato, estavam coniventes com os propagadores de novidades, enquanto que seu silêncio culpável vinha a aviltar a fé antiga e permitia, por conseguinte, que se difundissem as novidades ímpias.

“Com toda razão – diz – devemos nos considerar responsáveis se, com nosso silêncio, favorecemos o erro. Estes homens devem ser repreendidos; não têm a faculdade de pregar livremente!”

A alguns poderia lhes explicar a dúvida acerca da identidade das pessoas a quem está proibido pregar como lhes apraz: se serão os pregadores da antiga fé ou os inventores de novidades. Que o próprio Papa fale e resolva as dúvidas dos leitores. Com efeito, acrescenta: “Se isso é verdade…”, quer dizer se é verdade isso de que alguns os têm acusado, ou seja, que vossas cidades e províncias acolhem as novidades, “se isso é verdade, que a novidade cesse de lançar impropérios e acusações contra a antiguidade”. O venerando parecer do bem-aventurado Celestino não foi, pois, que a fé antiga deixasse de opor-se com todas as suas forças à novidade, mas que esta parasse já de molestar e perseguir a antiguidade.

Conclusão

33. Qualquer um que se oponha a estas decisões apostólicas e católicas, ofende ante tudo a memória de São Celestino, o qual decretou que a novidade devia cessar de acusar a antiga fé; se burla do juízo de São Sixto, que decretou que não poderia tolerar as novidades, porque não se pode acrescentar nada à antiguidade; por último, deprecia a decisão do bem-aventurado Cirilo, que louvou em alta voz o zelo do venerando Capreolo, desejoso de que os dogmas da antiga fé fossem confirmadas e condenadas as invenções inovadoras. O mesmo Sínodo de Éfeso seria violado, quer dizer, as definições dos Santos Bispos de todo o Oriente, os quais, divinamente inspirados, decretaram que a posteridade não deveria crer ou coisa mais que o que a antiguidade sagrada dos Santos Padres, unanimemente concordes em Cristo, havia mantido. Com altas vozes e aclamações todos a uma, deram testemunho de que a sentença, o desejo, o juízo de todos era que, do mesmo modo que foram condenados os hereges anteriores a Nestório, por depreciar a fé antiga e manter novidades, fosse também condenado Nestório, que igualmente era autor de novidades e adversário da antiguidade. Se alguém é contrário a este consenso unânime, que foi santamente inspirado pela graça celeste, se segue que julga condenada injustamente a impiedade de Nestório. Como última e lógica conseqüência, deprecia como lixo a toda a Igreja de Cristo e a seus Mestres, Apóstolos e Profetas, de maneira especial ao Apóstolo Paulo, que escreveu:

“Oh, Timóteo, guarda o depósito evitando as novidades profanas nas expressões”

E também:

“Qualquer um que os anuncie um Evangelho diferente do que haveis recebido, seja anátema”

Assim, pois, se as decisões dos Apóstolos e os decretos da Igreja não podem ser transgredidos – em virtude dos quais, segundo o consenso sagrado da universalidade e da antiguidade, todos os hereges têm sido sempre e justamente condenados – em consequência, é dever absoluto de todos os católicos, que desejam demonstrar que são filhos legítimos da Mãe Igreja, aderir-se, agarrar-se à fé dos Santos Padres, e morrer por ela, ao mesmo tempo que detestam, tem horror, combatem, perseguem as novidades ímpias. Isto é tudo o que, mais ou menos, expus nos dois Comonitórios, e que resumi aqui brevemente. Desta forma, minha memória, cujo auxílio escrevi estas notas, poderá consultá-las com freqüência e tirar proveito, sem sentir-se agoniada por uma expressão prolixa.

(Do original COMMONITORIO – Apuntes para conocer La Fe verdadeira)