São Francisco de Sales, Doutor da Perfeição

Biografia de São Francisco de Sales
por ABBÉ JACQUES LECLERCQ

SUMÁRIO

Prefácio

Doutor da perfeição

Papel histórico de São Francisco de Sales

1. O ambiente e o homem
2. Tendência psicológica
3. Tendência prática
4. Otimismo
5. Piedade salesiana
6. Formação das almas

Um primoroso espírito de sanidade

Desprendimento dos Afetos

São Francisco de Sales na Visitação

Advertência

São Francisco de Sales na Visitação

1. O bom Pai e as caras Filhas
2. As palestras do bom Pai com as caras Filhas
3. O motivo pelo qual as caras filhas não são todas perfeitas
4. As caras Filhas devem morrer a si mesmas
5. As caras Filhas devem unir-se a Deus pela parte superior da alma
6. A bela virtude da simplicidade
7. As caras Filhas se tornarão perfeitas pela prática da simplicidade

Prefácio

Certas almas parecem feitas de um só bloco, — um Catão, um Gregório VII, um Veuillot — e julgamos compreendê-las facilmente. Reservam-nos, entretanto, surpresas, como, por exemplo, o aspecto sob o qual se apresentam um Veuillot ou um Joseph de Maistre em suas cartas íntimas, e os estudos recentes que modificaram a fisionomia tradicional de Gregório VII.

Há almas, porém, que desde o princípio parecem variáveis, almas em que os caracteres opostos se aliam e os traços contrários se reúnem, em gradações sutis, um Pascal, um Fénelon, um Montaigne. Essas almas servem indefinidamente de ponto de mira aos psicólogos. Cada um encontra nelas o que quer.

Seria Montaigne realmente cético, e teria sido Pascal verdadeiramente atormentado pela dúvida? Tantos autores, tantas opiniões…

São Francisco de Sales é classificado entre os espíritos variáveis. Tem sido muito estudado. A publicação da edição crítica de suas obras completas forneceu, há poucos anos, aos historiadores, um instrumento de trabalho perfeito, e assim a sua personalidade foi encarada sob todos os seus aspectos e foram feitas descobertas imprevistas. Não o transforma M. Brémond, na sua Vie de Sainte Jeanne de Chantal, num prelado italiano espertalhão?

Apareceram alguns livros que tratam de sua vida. Citemos em primeiro lugar Saint François de Sales et ses Amitiés, de Henry Couannier, e Saint François de Sales, Directeur d’âmes, de M. Vincent, que trata de sua doutrina. Pode-se acrescentar a estes, Saint François de Sales et notre coeur de chair, de M. Henry Bordeaux, obra encantadora, de fina psicologia ou de compreensão esclarecida.

Os historiadores, sob pretexto de devoção, parece que tentaram fazer de São Francisco de Sales um personagem convencional. Mas trabalhos recentes nos dão a conhecer seu verdadeiro retrato, colocado de novo na moldura própria. A presente obra só deve a sua existência a estes trabalhos sobre os quais se apoia.

Divide-se em duas partes, ligeiramente discordantes. A primeira consta de vários estudos de extensão diversa, sobre a personalidade e a infância do Santo.

São tentativas de síntese, que o procuram colocar na Igreja Católica entre os outros santos, seus êmulos, e dar à sua doutrina o lugar que lhe compete na história do pensamento cristão. Poder-se-ia intitulá-lo: O que devemos e o que não devemos procurar em São Francisco de Sales.

A segunda parte é uma nova edição de um pequeno volume que apareceu em 1920.

São Francisco de Sales, na Visitação, é um exemplo do espírito salesiano. Mostra o Santo em atividade. Os princípios gerais da primeira parte são ilustrados pela segunda.

Bruxelas, 29 de janeiro de 1928.

Doutor da Perfeição

Modesto pastor de uma pobre diocese, príncipe e bispo de Genebra, que, devido à heresia dos seus súditos, de lá foi exilado e se refugiou na cidadezinha de Annecy, à orla das montanhas, São Francisco de Sales recebeu da Igreja o título mais glorioso que ela concede aos seus santos. Pertence à falange dos Doutores.

São, ao todo, trinta e seis, cujos nomes relembram todas as glórias; lutas e esplendores da história do cristianismo. São os Padres, os ilustres teólogos da idade média, é o genial compilador da Moral, o mais recente de todos, Afonso de Ligório. Qual o papel de São Francisco de Sales nessa augusta galeria?

Sua obra não é vasta. Escreveu apenas dois livros de piedade para ensinar às almas de boa vontade a viverem bem. Não nos enganemos neste ponto. As edições atuais de suas Obras completas compreendem muitos outros volumes. Mas a Introdução à Vida Devota e o Tratado do Amor de Deus são as únicas obras que foram propriamente dirigidas e publicadas por ele, são seus únicos “livros”. Os mais, são todos escritos de ocasião, obras de mocidade, como Controverses, ou cartas reunidas depois da sua morte, ou sermões e conferências espirituais, que não foram redigidas por ele, mas editadas de acordo com notas tomadas por alguns dos seus ouvintes. A Introdução à Vida Devota e o Tratado do Amor de Deus são as únicas obras terminadas por ele, são seus títulos de Doutor.

Títulos bem insignificantes, comparados à sólida Summa de Santo Tomás de Aquino, dos in-folio maciços dos Padres, da pilha de volumes da Teologia Moral de Santo Afonso! E, entretanto, o fato é que Francisco de Sales é Doutor da Igreja, e o é só por causa destas duas obras.

Os Doutores da Igreja são os espíritos possantes que Deus suscitou no decorrer dos séculos, para defenderem Sua doutrina, minada pela heresia, libertarem a Verdade, obscurecida por sutilezas e embustes, e reunirem, em sínteses fortes, a doutrina dogmática e moral.

Nesse cortejo de gênios possantes, São Francisco de Sales faz modesta figura. Só escreveu para nos mostrar o que deve ser um bom e perfeito cristão. E foi por isso que a Igreja o proclamou Doutor, pois tão bem o soube ele dizer que ela encontrou no método espiritual do santo a expressão do seu próprio pensamento. Ocupa, na gloriosa falange, um lugar seu, mais modesto do que o dos outros, é verdade, mas um belo  lugar. Entre os Doutores, só a ele e a São João da Cruz coube esta honra suprema, unicamente por causa da sua doutrina espiritual.

Outros têm escrito obras de piedade, simples acessórios no conjunto de sua produção. São Francisco de Sales só escreveu isso e, por causa disso, foi proclamado Doutor.

São João da Cruz é o doutor da mística, da união extraordinária com Deus. São Francisco de Sales é o doutor da vida cristã ordinária, da perfeição, que todos devem procurar.

A Igreja o designa, pois, com razão, como o Doutor da Perfeição; que belo título! Convida-nos a segui-la, a colocar-nos debaixo da sua direção, a adotar o seu método, a tornar-nos seus discípulos.

Nada mais distante daquilo a que damos o nome de “método” do que a direção de São Francisco de Sales. Será este o motivo pelo qual a Igreja viu na sua doutrina a fórmula consumada do ascetismo católico?

Tinha ele um gênio essencialmente prático e a investigação teórica pouco o interessava. Seus primeiros livros (Tratado do Amor de Deus), onde estuda a psicologia racional e a graça, não são mais que uma exposição de vulgarização sem nenhum traço poderosamente pessoal. E quando se lhe apresenta uma alma que seu gênio se manifesta com mais intensidade. Que delicadeza, então, que compreensão clara, que precisão em discernir todos os movimentos que se cruzam, em descobrir o que ela própria desconhece, que segurança em apontar-lhe o caminho!

E um dos mais admiráveis psicólogos que jamais existiu! Digo talvez o mais admirável. Um espírito observador a quem move excepcional generosidade grande e terna, que o impele a partilhar as penas e as alegrias do próximo, tal foi o ponto de partida natural dos esplendores do Espírito Santo, que lançou então sobre o Santo o dom maravilhoso do discernimento dos espíritos. O todo se unificou numa caridade que foi crescendo sem cessar durante todo o percurso de sua carreira sacerdotal, até absorver, pouco a pouco, todos os seus móveis de ação. Caridade que acabou por abrasar aquele coração ardente por natureza numa chama de amor inextinguível, que se revela em cada linha, ao espírito observador, sob a unção e a ternura do estilo.

Esse gênio prático, essa ternura de coração levaram-no a interessar-se pelas almas, sem preocupação de método nem de sistema. Ele as viu nas suas realidades profundamente diversas. Não pensou senão em mostrar-lhes o grande amor terno e compassivo, com o qual o Mestre nos ama e, em conduzi-las a esse amor, com toda simplicidade. Disse-lhes que contemplassem e amassem a Deus, que considerassem quanto Ele é amável; disse-lhes que a perfeição não consiste em trinta e seis práticas, mas somente nesse amor e mostrou-lhes que, nesse grande amor, cada um deve viver conforme a vocação a que Deus o chama. Nada de novo disse sobre tudo isso, mas o que disse foi de modo tão amável, tão afetuoso e tão prático, insistindo de tal maneira sobre o que tem de atraente esse doce amor, que isto se tornou, enfim, um método quase propriamente seu, o do amor. Consiste em amar, em amar primeiro, em amar sobre tudo, em só se ocupar de amar, fazendo atos de renúncia e de apostolado, como consequência do amor, que, entretanto, deles depende, para se elevar. Mas será isto método?

“Viva Jesus! Amemos muito ao doce Amante de nossas almas!”

Por felicidade — felicidade nossa — São Francisco de Sales dirigiu várias senhoras e numerosas religiosas, em lugares diversos, o que nos proporcionou, em sua Correspondência, a mais interessante aplicação dos princípios que nos inculca na Introdução e no Tratado. Suas cartas, entre outras as que dirigiu a Santa Joana de Chantal, sua colaboradora na obra da fundação da Visitação, são o mais acabado modelo, e um verdadeiro curso prático de direção de almas, bem como suas encantadoras Conferências Espirituais (Entretiens spirituels), séries de conselhos práticos, dados às religiosas da Visitação. Assim tudo contribui, na sua obra, para formar o monumento completo da prática da perfeição.

Cita-se, muitas vezes, a mansidão como virtude própria de São Francisco de Sales. Se ele a possuiu, em grau elevado, não me parece, entretanto, que baste para exprimir a índole de seu gênio, de que é simples consequência. São Francisco de Sales é, antes de tudo, um gênio ponderado, e a virtude da ponderação que, harmonizando suas faculdades “como nunca se viu”, imprime a sua santidade um caráter de radiosa harmonia, que a torna uma das obras-primas mais acabadas do mundo moral. Os santos não são todos igualmente harmoniosos; não são identicamente senhores de suas paixões. Alguns conservam uma alma violenta, embora toda orientada para a glória de Deus. Em São Francisco de Sales nenhuma aspereza parece ofender o olhar; tudo nele é guiado pela razão e, todavia, esta não lhe abafa em absoluto as efusões do coração; pelo contrário, à medida que cresce em anos e que sua alma se une mais estreitamente a Deus, tanto mais se dilata sua ternura.

Para conhecê-lo perfeitamente, precisamos visitar sua cidade de Annecy, situada nas fronteiras da Sabóia, às margens do lago, circundado pelos primeiros contrafortes dos Alpes. A paisagem suave e aprazível é uma imagem de sua alma. As montanhas se elevam em direção ao céu, mas não nos esmagam com suas massas enormes, como o Monte-Branco e o Monte-Rosa, um pouco mais distantes. A luz do meio-dia reflete-se nas águas do lago, cujo tom azulado os poetas decantaram; mas o sol, nessas ondas de luz, não apresenta essa languidez que cativa e prende os olhos do outro lado dos montes, nas ilhas Borroméias ou no lago de Como; e os fluxos, às vezes, se encrespam em vagas curtas e impetuosas, que fazem dançar os barcos. A cidade é clara, graciosa, sossegada, muito frequentada durante a estação de verão; é ponto reunião das famílias e a proteção do Santo parece ter afastado dela gente suspeita. Toda Annecy transluz seu espírito de moderação.

E quem sobe, colina acima, até onde as religiosas do primeiro convento da Visitação construíram, recentemente, nova morada, encontra o Santo na Cripta da basílica em construção; encontra-o repousando num relicário de vidro, ao lado do altar-mor, num quadro que ele teria amado. A cripta, de abóbadas baixas, é de uma beleza austera, com ornamentação sóbria. Não se veem nem ex-votos acumulados, nem centenas de círios e de lâmpadas. Apenas algumas velas ardem, o dia todo, diante do altar, e algumas pessoas rezam em silêncio.

Quem ali se recolhe, fugindo das distrações provocadas pelos turistas, sente uma presença que fala à alma, como na Gruta de Lourdes, ou em Sena, na casa de Santa Catarina, em Assis, na igrejinha de São Damião, ou em Roma, junto ao túmulo dos Apóstolos. Há ali como que uma presença pacificadora, que derrama sobre a alma um senso harmonioso da ponderação, o amor confiante que dá paz e põe tudo em ordem.

“Ora, minhas filhas, coragem, e amemos, pois, a este doce Amante de nossas almas”

Estes conselhos, que ele dava às suas filhas, que perto do seu corpo continuam a velar atrás das grades e dos véus, ainda pairam na atmosfera, e, ao descermos a colina, sentimo-nos “devotos”, alegremente “devotos” dessa devoção na qual ele nos “introduz” e que nos dilata a vida.

São Francisco de Sales, o Ambiente e o Homem

Papel Histórico de São Francisco de Sales

 1. O Ambiente e o Homem

“Façamos tudo pelo amor e nada pela força”

Nenhum outro santo sente menos o esforço do que São Francisco de Sales.

Nenhuma vida é mais humanamente harmoniosa.

Francisco de Sales pertence à pequena, mas boa nobreza. Seu pai não é titular; caberá a um dos irmãos do Santo ser o primeiro barão da família. Mas Francisco possui seus trinta e dois quartos de sangue nobre, sendo aliado a quase toda a nobreza de Sabóia. Seu pai é um velho guerreiro, casado aos quarenta anos, depois de uma mocidade consagrada à vida militar. Bom cristão, um tanto rude, é cavalheiro do campo, de sólidas tradições, que une à fé vigorosa os preconceitos do mundo. Francisco, seu primogênito, faz honra ao nome. O pai muito se preocupa de como há de estabelecê-lo, propõe-lhe ricos partidos e irrita-se ao vê-lo recusar todos. Aflige-se, também, a respeito da carreira que vai seguir, quer impeli-lo aos cargos públicos e aborrece-se porque ele não os aceita. Quando, finalmente, o jovem, já com vinte e cinco anos, se atreve a declarar-lhe que deseja ser padre, desencadeia-se uma tempestade, aliás curta. Os amigos, conhecendo o velho fidalgo, e prevendo o que ia suceder, cuidaram, de antemão, de arranjar para o filho um emprego honorífico, o de prepósito do Capítulo de Annecy. Entrar para a carreira sacerdotal anuindo sem esforço a um posto que faz dele o segundo personagem da diocese, lisonjeia a vaidade da família.

O velho fidalgo deixa-se convencer, mas há de morrer sem compreender por que quis seu filho ser padre, de coração, e sinceramente. Ele representa na vida do Santo o espírito do mundo tal qual se alia, muitas vezes, às tradições cristãs.

Repreende a Francisco, quando este, pouco depois de ordenado, começa a pregar em toda ocasião.

— Preposto, pregas demais… Tornas tuas práticas tão frequentes, que perdes a estima geral.

Quando Francisco consente em aceitar o cargo de evangelizar Chablais, uma região protestante recentemente anexada à Sabóia, o pai protesta ainda, porque seu filho vai arriscar-se a perigos, vai esgotar-se num ministério obscuro e, se fracassar, vai cair no ridículo. Afasta-se de mau humor para não assistir à partida do preposto, e proíbe que lhe seja dado qualquer auxílio para as despesas de viagem.

Nada disto, porém, impede que o velho senhor, passado algum tempo, tome ao filho para confessor.

A mãe de Francisco de Sales é a mãe cristã que figura em mais de uma vida de santos; esposa exemplar, mãe dedicada, toda entregue a Deus, aos deveres do lar, à família, aos pobres. Parece ter sempre compreendido o filho e tê-lo sempre protegido. Entre Francisco e a mãe reinou sempre a mais doce intimidade.

A vida familiar desenrola-se nos castelos da família, nos arredores de Annecy. Uma vida simples, tranquila, honrada, de gente abastada. A família goza da estima geral; a vida é farta, os haveres bem administrados, tudo respira santidade.

Francisco de Sales pertence a uma dessas famílias extraordinárias, em que a virtude, a honestidade e a retidão parecem congênitas. Os cinco irmãos do Santo são todos homens honradíssimos; nunca se deu um escândalo na família.

Lutos frequentes a entristeceram, é verdade. O casal perdeu cinco filhos em tenra idade, e uma filha aos quatorze anos. Ficaram, porém, outros sete que lhe honraram o nome. A fortuna não sofreu reveses, a honradez foi sempre impecável. Esse lar feliz parece ter sido preservado de qualquer mácula.

A Sabóia, onde se passa toda a sua existência, é também privilegiada, formando como que uma pequena ilha de paz, num dos tempos mais tormentosos da história.

As guerras religiosas ensanguentavam a França durante a infância de Francisco. As margens do lago de Genebra, a poucas léguas de Annecy, são teatro de frequentes conflitos entre a Sabóia, Genebra e a França. Mas esse retumbar de batalhas parece deter-se à entrada das montanhas. Lá a nobreza de Sabóia vive tranquila em seus castelos. A não ser os fidalgos, que abraçam, por gosto, a carreira das armas, ninguém pensa em guerra.

Francisco cresce nesse meio sadio, onde a vida é fácil, em suma, embora austera, e ele cresce qual alma jovem, reta e generosa, em que só sentimentos nobres têm acesso.

A graça e a natureza formam nele um conjunto tão harmonioso que a ação divina dificilmente se distingue da virtude humana.

Os autores espirituais repetem, em geral, que Deus forma seus santos pelo sofrimento, e que nenhum chega ao cimo da perfeição sem ter passado pelo crisol de provações excepcionais. São Francisco de Sales desmente a regra geral; sua vida é o exemplo de uma carreira feliz e fácil, em que as sombras são raras.

Menino, é estudante aplicado, dado aos outros por modelo e que, pela sua virtude cordial, se torna querido tanto dos colegas como dos mestres. Jovem colhe os louros nas academias. Em Pádua, passa um brilhante doutorado em direito. Sua recepção como advogado, no Senado de Sabóia, é um triunfo. Sacerdote, é logo nomeado para o segundo cargo da diocese, torna-se o filho querido do Bispo, ao qual sucede aos trinta e cinco anos de idade. Fica, pois, sendo a personagem mais importante do seu país natal, adquire tal reputação de pregador e de diretor de consciência, que é convidado para visitar toda a vizinhança, enquanto um pequeno tratado de devoção, que escreve, quase sem pensar, faz dele um autor célebre. Torna-se, assim, a glória da Sabóia.

“Ninguém é profeta na sua terra”

São Francisco, ainda uma vez, desmente o provérbio. É o ídolo de sua família. É o confessor do pai e da mãe; os irmãos o têm em conta de um oráculo, e durante toda a sua vida, não haverá a menor desavença na sua família. Bispo, havendo renunciado aos bens do mundo, engrandece o nome que traz e, em consideração a ele, seu irmão Bernardo é agraciado com o título de barão de Thorens.

Para não fugir à regra de que um santo deve passar por grandes provações, certos historiadores pintam, com cores negras, as dificuldades que, como todo homem, encontrou na sua carreira. Consideradas sem prevenção, cifram-se a muito pouca coisa: Uma crise moral, aos dezoito anos, quando estudante, em Paris, crise de angústia, diante do problema da predestinação. Durou um mês, e gravou-se-lhe na lembrança como a maior provação da sua vida. Não parece, depois disso, ter encontrado sombras no interior. Suas relações com Deus mantêm-se sempre serenas.

Como sacerdote e bispo ele foi caluniado e acusado; diversas vezes tentaram desacreditá-lo junto do duque de Sabóia; e até em Annecy espalharam-se a seu respeito boatos vergonhosos. Intrigas de aldeia! Nada há, em tudo isso, de muito extraordinário, nada que possa prejudicar a carreira mais brilhante.

Conclui-se daí que a santidade de São Francisco de Sales e a sua doutrina espiritual poucas dificuldades encontraram; e que a sua santidade não impede que ele seja homem do mundo. Se há um Santo, a quem deva custar compreender o ódio de Jesus pelo mundo, é Francisco de Sales, que nele foi cercado de bons exemplos.

Comparemo-lo aos santos, cuja conversão se opera de modo violento. Que diferença! Converteu-se Santo Agostinho depois de ter experimentado o pecado e vivido na desordem. Santo Inácio de Loyola, depois de alguns anos de uma juventude pouco edificante. A conversão desses dois santos é, pois, um retorno e supõe um propósito firme em relação aos maus hábitos antigos. Donde, inevitavelmente, alguma coisa de apaixonado, ou de necessariamente excessivo. A alma desses santos não é uma terra tratada, revolvida periodicamente, com cuidado. É um solo rude, cheio de troncos, que devem ser arrancados, cavando-se ao redor; e abrindo-se buracos profundos.

Quando São Luís Gonzaga troca uma família principesca pelo convento, deixa uma corte, onde havia dissolução dos costumes. São Francisco de Sales, durante a infância, só conheceu a vida austera, pacífica, regular, essencialmente cristã do castelo de Sales, situado no meio das montanhas. A nobreza da corte é-lhe estranha, e desconhece qualquer espécie de intriga e de desordem. E o êxito o acompanha, sem que o procure.

A reação contra o mundo é, pois, reduzida ao mínimo em São Francisco de Sales. Essa diferença; se acentuará quando ele vier a tratar com a sua colaboradora no que foi a grande obra de sua vida. Senhora de Chantal também pertencia a uma família distinta. Seu pai, senhor Frémyot, presidente do parlamento de Dijon, era homem altamente conceituado e cristão exemplar. Sua mãe morreu deixando-a com dezoito meses de idade; faltando, assim, à sua educação a ternura maternal.

As guerras de religião tiveram forte repercussão na família. Frémyot, partidário de Henrique III, foi obrigado a deixar Dijon, dominada pelos liguistas, e seu palácio e seus bens foram confiscados.

Passou, então, durante anos, a viver retirado em Flavigny com os membros do Parlamento que haviam aderido ao seu partido, tendo previamente enviado sua filha para Poitou, a fim de pô-la ao abrigo dos perigos.

Joana Frémyot, aos vinte anos, casou-se com o barão de Chantal, jovem encantador, e gozou alguns anos de felicidade. A família de Chantal era nobre, a família Frémyot, rica. A aliança foi tão acertada quanto feliz; Mas, depois de oito anos de casados, o barão de Chantal foi morto por acidente, numa caçada. Para a baronesa acabava a felicidade.

Foi, então, residir durante grande parte do ano no castelo do sogro, fidalgo de têmpera bem diversa da dos pais de São Francisco de Sales. O velho barão de Chantal, depois de uma vida agitada, retirara-se para o campo, com a fortuna abalada. Ali vivia irritado e de mau humor, dominado por uma governante, a quem ninguém em casa ousava resistir. A jovem baronesa teve também de suportar esse jugo e de sujeitar-se a ver seus filhos tratados do mesmo modo que os da serva. Vemos, pois, que a vida da Santa foi repassada de dores e de humilhações, que a carreira luminosa de São Francisco de Sales não parece ter conhecido.

Assim, embora Sta. Joana não tivesse como São Francisco, conhecido o pecado; embora encontrasse no pai e no irmão, o arcebispo de Bourges, nobres exemplos de retidão, concebe-se que sua espiritualidade fosse mais violenta que a dele. A reação é nela maior. Sua generosidade traduz-se facilmente em gestos excessivos. São Francisco de Sales, apesar de impeli-la a um sacrifício mais completo, mais radical de si mesma nas pequenas coisas, deverá, no entanto, moderá-la muitas vezes.

No tempo de São Francisco de Sales, Annecy, sua cidade episcopal, tinha três a quatro mil habitantes. Basta isto para mudar completamente as perspectivas. Quando lemos que toda a cidade foi pressurosa ouvir o primeiro sermão do Santo, lembremo-nos de que “toda a cidade” constava apenas dessas três a quatro mil pessoas…

As cerimônias, contam-nos, reuniam toda a nobreza da cidade; ou toda ela acompanhava em cortejo ao nosso Santo. Mas lembremo-nos que essa nobreza de uma cidade de três a quatro mil habitantes devia compreender poucas famílias. Em nossos dias, as cidades de trinta a quarenta mil almas são consideradas pequenas, e a sociedade é restrita.

Para apreciarmos devidamente a atividade de São Francisco de Sales, e determinarmos o que nele pode ser imitado por outros, devemos levar em conta o meio em que vivia. Bispo, tinha um confessionário na sua catedral. Depois de fundar a Visitação, ia quase todos os dias ao convento, e aí se demorava longamente. Vejamos bem em que consistia o cargo episcopal numa cidade de três a quatro mil almas, numa época em que não havia estradas de ferro, nem telefone, nem telégrafo. As comunicações com as regiões distantes da diocese eram difíceis; o bispo podia, apenas, receber visitas da cidade e dos arredores imediatos… Não podemos comparar essa situação com a de um bispo de hoje, de algumas das nossas grandes cidades…

Conta-se que, tendo sido a Visitação instalada fora da cidade, São Francisco de Sales ia lá quase diariamente, a pé, “até com mau tempo, chuva e neve…”. Mas verificamos, indo até lá, que a casa da Visitação, fora da cidade, distava apenas quinhentos metros do bispado, situado bem no centro da cidade!…

Quando se fala, pois, da atividade esfalfante do Santo é mister discerni-la. É verdade que ele não se poupou; no entanto a administração de uma diocese como a sua, permitia-lhe certa folga. Hoje em dia, o bispo de uma das nossas regiões urbanas ou industriais, que quisesse seguir seu exemplo, ouvir confissões na catedral, e ir todos os dias a um convento de religiosas para as dirigir minuciosamente, arriscar-se-ia a não o poder fazer, por causa dos cuidados que estaria a exigir dele a sua diocese.

Pode-se aplicar a mesma discriminação em se tratando da direção espiritual de que se encarregava São Francisco. Quem lhe estuda a correspondência, percebe que o número de seus penitentes era restrito. Explica-se isto facilmente. Sendo Annecy pequena, o número de pessoas piedosas que nela recorriam à direção espiritual não podia ser considerável. Os penitentes do bispo eram principalmente senhoras que assistiam a suas pregações, mas nunca foram muito numerosas. Não se pode compará-lo a certos confessores de algumas grandes cidades que dirigem pessoalmente cem ou cento e cinquenta pessoas…

São Francisco de Sales, aliás, percebia bem a realidade dos fatos. Nunca pensou em gabar-se da sua atividade. Queixou-se, é verdade, de esgotamento, de não poder trabalhar com vagar por falta de tempo, de ser interrompido a cada instante, no meio dos trabalhos mais diversos, o que acontece a todo homem apostólico. Mas, quando se acha numa cidade importante, como Paris ou Lião, está sempre a suspirar pela sua Cara “Lecy”, sua “aldeia”, seu “ninho”. Queixa-se da vida superficial e fatigante da grande cidade, onde passa o tempo a receber e a fazer visitas. Não perde ocasião de se declarar um camponês, e de manifestar a atração que tem pela sua aldeia, dizendo até que ponto só nela se sente bem.

Como era Santo, há quem queira ver nisso puros atos de humildade. Creio que outro seria também o motivo e que, de fato, habituado à vida pacífica de Annecy, penosamente se adaptava à multidão e confusão das grandes cidades. Ora, estas correspondiam às cidades de importância mediana de hoje, e não possuíam os meios de comunicação que, em nossos dias, não nos deixam uma hora sequer senhores de nós mesmos.

O meio social em que se desenrola a vida de São Francisco de Sales completa assim o que havia preparado o seu meio familiar. A vida em Annecy não é intensa como a dos grandes centros, nem será preciso a mesma luta para conservar o recolhimento, nem, de modo geral, para tudo mais.

***

O modo de agir de São Francisco de Sales depende muito da formação que teve e do meio em que viveu. Se bem que a sua doutrina seja uma continuação da tradição ascética da Igreja, — este ponto será desenvolvido num capítulo posterior, — há, na sua ação algo de agradável que revela o homem de boa sociedade e deixa transparecer, ao mesmo tempo, o membro de uma família cristã, em que o sobrenatural se expande de maneira tão espontânea, que parece natural.

“Mesmo que ele não fosse um grande santo, dizia a presidente de Lamoignon, seria ainda o homem mais cortês que eu conheço”

São Francisco de Sales, ao dirigir a fervorosa baronesa de Chantal, a levará, mais do que o fizeram seus antigos diretores, a se mortificar, mas, ao mesmo tempo, lhe ensinará a fazê-lo como pessoa bem educada, sem dar na vista, e saberá ordenar seus ímpetos exagerados de devoção. Do próprio Santo, contam-se fatos que não sabemos dizer se pertencem à virtude sobrenatural, ou à delicadeza natural do homem do mundo.

Assim, o cuidado com que interrompia suas austeridades, ao receber um hóspede, era nele simples gesto de cortesia; ou o que punha em conservar sempre o mesmo decoro em presença de Deus. Conta seu amigo, Monsenhor Camus, bispo de Belley, que tendo Francisco de Sales se hospedado em sua casa, ele o espreitou no seu quarto pelos buracos que mandara abrir no biombo, e verificou que o Santo conservava a sós a mesma atitude modesta que lhe era habitual em público. O pensamento da presença de Deus acompanhava-o por toda parte, razão pela qual sua conduta era sempre igual e irrepreensível.

Muitos santos mostram-se na sociedade um tanto excêntricos, e, seja por humildade, seja por desprezo das convenções do mundo, cometem extravagâncias assombrosas. Sem falar dos Padres do deserto, mencionemos São Francisco de Assis, São Filipe Neri, ou o piedoso mendigo São Bento José Labre. Quanto a São Francisco de Sales dir-se-ia que é muito homem do mundo para imitá-los. Em toda a sua carreira, cita-se apenas um caso desses. É o sermão que fez, na sua última estada em Paris, propositadamente enfadonho. Tomando aí a palavra pela primeira vez, ficou tão confuso com a afluência de gente que o viera ouvir, que não pôde deixar de procurar humilhar-se pregando mal de propósito. Este fato é o único em toda a sua vida, pois, em geral, não manifestava a sua modéstia por impulsos do momento.

Homem educado e fino, onde vai, encanta, apesar do seu aspecto reservado. Em sociedade falava pouco e ouvia atentamente, e a benevolência com que o fazia agradava de certo mais aos seus interlocutores do que longos discursos. Sua palavra não era viva, mas antes lenta e ponderada. Tudo quanto dizia era oportuno e dito com extrema delicadeza.

Com ele nunca poderia suceder o que se conta de Santo Tomás de Aquino. Estando a jantar na corte do rei da França, enquanto a conversação prosseguia animada, o Santo, absorvido na meditação, exclamou de repente:

“Encontrei-o! Eis o argumento decisivo contra os Maniqueus”

Felizmente o rei era São Luís, que, longe de se formalizar com essa extravagância do sábio, mandou vir escrivães para tomarem nota do argumento.

O nosso Santo, pelo contrário, era muito atencioso e encantava pela sua afabilidade.

Se, muitas vezes, manifesta aborrecimento pelo mundo, é antes pelo enfado que lhe causa o fingimento e a leviandade da vida da corte, ou das grandes cidades, do que pelo horror que lhe inspira a corrupção reinante. Em ocasião própria saberá dizer a fidalgo, chamado pela sua posição, que embora ali se torne difícil a salvação, não se opõe, no entanto, à sua ida, porque acha que um bom cristão deve ser bastante forte para enfrentar o assalto (1).

Ele tem mesmo para com pessoas altamente colocadas certas indulgências, ou faculdade de ignorar, que o nosso puritanismo burguês qualificaria facilmente de fraqueza. Um século de democracia fez ressaltar a ideia de que a moral, sendo a mesma para todos, os pecados dos grandes, por serem mais escandalosos, merecem talvez menos que os outros que se lhes fechem os olhos.

Constrange-nos um pouco o elogio que São Francisco de Sales faz, repetidas vezes, a Henrique IV, sem sequer manifestar pesar pelos escândalos constantes e públicos da sua vida privada. Surpreende-nos a cordialidade com que tratou, em 1618, ao passar por Paris, a marquesa de Verneuil, antiga favorita de Henrique IV, a quem Francisco outrora tivera ensejo de ver… triunfante perto de Vert-Galant, no castelo de Annecy. Agora, jovem ainda reclamava para seu filho, que o era também do rei, o chapéu cardinalício com tanta violência que o Núncio dizia dela:

“É uma mulher diabólica”

Mas o bondoso Francisco, com quem, de bom grado, essa celebérrima beleza conversava sobre obras pias, escrevia, com toda ingenuidade, a baronesa de Chantal:

“…fui à casa da marquesa de Verneuil, a quem aprecio, porque é, na minha opinião, muito franca” (2)

Os modos corteses da boa sociedade não lhe causavam o mínimo embaraço. É simpaticamente indulgente para com a faceirice da mocidade. Compreende que jovem queira enfeitar-se e admoesta Santa Chantal porque não faz com que sua filha se vista bem. Na instalação da ordem da Visitação, vai mais longe ainda e demonstra que não quer que as pessoas se tornem feias por gosto. Para resolver qual será o feitio do véu das Religiosas, faz-se uma prova diante do Bispo. E ele próprio, para lhe dar a forma que julga conveniente, pega na tesoura e arredonda as pontas… O mesmo não se dá com São Bernardo.

Os penitentes de São Francisco de Sales são quase todos pessoas do seu meio, da nobreza de província ou da alta burguesia de gente togada. Não há, do seu lado, preferência alguma; ocupa-se indiferentemente, com a mesma caridade, de uma ou de outra mulher do povo, e trata com a mesma bondade obsequiosa os seus empregados. Mas, pela natureza das coisas, parece que a sua principal obra, a qual lhe dá glória, é a ação que exerce sobre as senhoras da sociedade. A ordem religiosa que funda, a elas se destina. São Pedro Fourier, pouco depois, fundará escolas de aldeia, dirigidas pela sua Congregação de Irmãs educadoras; o Bispo de Annecy poderia, pois, também ter pensado nisto. Sua diocese carecia de escolas. São Vicente de Paulo agrupará moças simples que se ocuparão dos pobrezinhos abandonados; o bispo de Annecy também poderia ter pensado nisso. Em sua diocese não faltavam desgraçados. Mas, ao invés, funda uma ordem que não tem relação com o ministério episcopal, com o serviço diocesano.

***

Negava que fosse homem de iniciativa. Tudo que fez, fê-lo obrigado pelas circunstâncias, que lhe designaram o caminho. Não há, nele, a teimosia arrojada de um Santo Inácio, obstinando-se em ficar em Jerusalém, onde julga que Deus o chama, apesar das circunstâncias e das ordens expressas das autoridades que finalmente o expulsam de lá. Não luta contra ventos e marés, como alguns fundadores de ordens, uma Santa Teresa, por exemplo, ou como certos apóstolos, um São João Crisóstomo, um São Bernardo, uma Santa Catarina de Sena.

Segue o seu caminho “suavemente”, levado pela vida como por um rio belo e calmo, vendo a vontade divina no desenrolar de todas as circunstâncias. É uma flor desabrochada da vida sobrenatural da família cristã e da sociedade culta. Um São Francisco de Sales não podia deixar de sair de uma família como a sua, de uma província pacífica. É o que constitui, talvez, o principal encanto da sua santidade. Nenhum outro santo teve por base da perfeição sobrenatural tão grande perfeição e equilíbrio naturais. Não há violência alguma, em sua santidade, porque não parece estar a reagir contra as más paixões; não é mais que o desabrochar de uma alma admiravelmente reta ao bafejo da graça divina. Não lhe falta, entretanto, a luta, sem a qual ninguém se santifica, mas não é a luta corpo a corpo e violenta como em tantos santos, e que lhes arranca gritos de angústia; é antes a calma pressão de uma alma consciente, que tem pleno domínio sobre si mesma.

São Francisco de Sales, em virtude desses caracteres, é, mais que qualquer outro, sensível às influências do seu tempo. É, no seu século, um santo “moderno”, aproveitando-se, para a glória divina, de tudo que sua época oferecia de útil. Nos capítulos seguintes veremos até que ponto foi intelectualmente do seu tempo. Humanista, fundou em Annecy uma sociedade literária e procurou dar aos seus livros um estilo artisticamente atraente. Não se desculpa por isso: pelo contrário. A “santa estupidez” parece-lhe um contrassenso.

Em compensação, não tendo reações, tão pouco tem preocupações estranhas ao seu século. Em São Vicente de Paulo, que não é homem do mundo, que se fez por si mesmo, que aborda tarde a sociedade com o olhar clarividente daquele que a ela não pertence, há uma intuição genial das reformas que só dois séculos mais tarde serão tentadas sistematicamente. Nada disso em São Francisco de Sales. Ele exerce tranquilamente o ministério que se lhe apresenta; suas ideias inspiram-se no meio em que vive. Revela-se gênio, é principalmente pelo equilíbrio e a perfeição das virtudes ordinárias que nele se tornam extraordinárias pelo conjunto que revestem e, depois, é pelo dom do discernimento dos espíritos, que faz dele o mestre da direção de consciência, o Doutor da perfeição, e que é também, antes de tudo mais critério e equilíbrio.

2. Tendência Psicológica

Um dos fatos mais notáveis da história moderna é a orientação psicológica do pensamento ocidental depois da Renascença. Antigamente o homem contemplava o mundo; mas há uns quatrocentos anos que se contempla principalmente a si mesmo. Muitos filósofos só tratam da psicologia, e até aqueles que conservam bastante vigor de espírito para formar um sistema metafísico, como Descartes e Kant, baseiam-se geralmente em dados psicológicos. Com Kant e os sensualistas do século XVIII, o mundo exterior desaparece, de certo modo, do campo do pensamento, que se torna irredutível, ao mundo da experiência chamada científica.

Os teólogos participam dessa evolução do pensamento, porque são homens, e homens do seu tempo. A mesma orientação encontra-se, pois, na teologia, cujo esforço mais considerável, depois do século XVI, se concentra na moral, ou mais exatamente na moral prática, casuística, ascética e mística, isto é, na aplicação das noções da psicologia aos princípios da ação humana. Em matéria dogmática a origem do molinismo pode ser considerada como um efeito da mesma corrente de ideias.

Entre os dois termos do cristianismo, a alma e Deus, a atenção prende-se, de preferência, à alma. E convém dar, aqui, algumas explicações, a fim de não sermos acusados de cega parvoíce.

O problema da vida cristã é unir a alma a Deus, abismá-la Nele, pelo desenvolvimento da vida da graça, pela perfeita conformidade com a sua vontade. A alma, entretanto, permanece distinta de Deus, e os dois termos subsistem: alma e Deus.

Entre os bons cristãos, alguns tendem espontaneamente para Deus. No que diz respeito ao progresso de sua vida interior, a natureza ou a graça, ou a natureza e a graça, os impelirão de preferencia ao isolamento, a fim de viver mais facilmente na presença de Deus, de contemplá-lo, louvá-lo. Estariam até dispostos a passar toda a vida repetindo, como São Francisco de Assis, em êxtase: “Meu Deus e meu tudo’’, sem fazer outra coisa. Eu chamaria isto, de bom grado, o “gosto de Deus”. Há almas que sentem esse gosto de Deus. Ponhamos que sejam as almas contemplativas.

A par dos que têm o gosto de Deus, há os que têm o “gosto das almas”. O gosto das almas leva-os a dedicar-se a elas e de nelas encontrar a ação divina. Há o gosto de penetrar na própria alma, e o de penetrar na alma de outrem. Isto, na realidade, é ainda “o gosto de Deus”, mas de Deus nas almas, é uma tendência para considerar a Deus não somente tal qual se revela em si mesmo e na natureza, mas ainda como nós o percebemos nas almas em que coabita pela sua graça. É uma modalidade especial do gosto de Deus, a modalidade psicológica, e funda-se numa tendência toda natural para a observação psicológica.

O “gosto de Deus” e o “gosto das almas” são ambos, portanto, em certo sentido, “gosto de Deus”; ambos adaptam-se tão perfeitamente à vida ativa como à contemplativa. Mas o “gosto de Deus” conduz a um apostolado mais doutrinal, mais dogmático, porque nos impele a falar às almas de Deus, enquanto que o gosto das almas produz de preferência um apostolado de direção, de moral prática, que nos leva ainda a falar às almas de Deus, mas enquanto nelas habita e elas o devem deixar agir.

Na piedade, o “gosto de Deus” acentuará o aspecto de louvor e de adoração do culto; o “gosto das almas” acentuará seu lado benéfico, isto é, aquele que dedica ao proveito que as almas tiram da piedade. Diante de uma prática de piedade, quem tem o “gosto de Deus” se perguntará se, por esta prática, Deus é dignamente louvado, o que tem o “gosto das almas”, se a alma tira dela algum proveito.

Para concretizar esta noção, quisera citar exemplos, embora seja isto um tanto perigoso, porque nunca se encontram estas duas tendências inteiramente puras no mesmo indivíduo. Um cristão, para oferecer-se à perfeição, terá que analisar de certo modo a sua alma e ser um tanto propenso à contemplação. Embora uma inclinação não exclua a outra, uma talvez domine a outra. Assim podemos afirmar, sem medo de errar, que São Bento, ou São Bruno, ao se retirarem para o deserto, manifestaram o “gosto de Deus” e não o “gosto das almas”.

Isso não os impede, porém, de analisarem a sua alma e de se revelarem grandes psicólogos, se tiverem que redigir uma regra; mas dir-se-ia que eles se ocupam casualmente das almas, levados pelas circunstâncias e não por gosto nem predileção. Alguns, como São Francisco de Assis, serão admiráveis fachos de entusiasmos, mas nunca chegarão a redigir, sozinhos, uma regra aplicável aos homens.

***

Sondemos, agora, as obras de São Francisco de Sales, de modo particular, os seus escritos mais espontâneos, cartas, sermões ou conferências. É o psicólogo que aparece, o amador de almas, o analista. Possui o “gosto das almas” no grau mais elevado; sente-se feliz quando delas se ocupa, gosta de estudar-lhes os movimentos, e discute de bom grado as particularidades de cada qual.

Nem por isso deixa de ter o “gosto de Deus”, e de conhecer as doçuras da vida interior; sua alma afetiva comove-se facilmente ao menor pensamento do sobrenatural; mas não se emociona muito, diante dos grandes problemas metafísicos e dogmáticos.

Como obra doutrinal, temos apenas dois trabalhos apologéticos de sua juventude e o exórdio do Tratado do Amor de Deus. Essa introdução do Tratado é um bom trabalho de divulgação de princípios filosóficos e teológicos, um ótimo trabalho, porque São Francisco de Sales se esmera em se fazer compreender e emprega, para os temas mais abstratos, imagens tão graciosas, que acabamos por as idear. Mas penso que o autor nunca deu um passo em favor da ciência teológica; basta-lhe o papel de vulgarizador.

O mesmo não se dá quando trata da parte da psicologia aplicada. O escritor consciencioso revela-se então, de improviso, homem de gênio. Está em casa, e sabe investigar e aprofundar com mais segurança que seus antecessores, e vai mais longe do que eles.

Mas, em relação à pura doutrina, será de uma indiferença quase desconcertante.

O exemplo apontado em geral a este respeito parece, todavia, prova fraca: é sua recusa de intervir na questão entre tomistas e molinistas. Solicitado a tomar partido, declarou que não compreendia como os católicos podiam perder tempo em discutir futilidades, quando havia tantos hereges a converter. Há quem diga que foi ele quem aconselhou a Paulo V que mandasse calar os molinistas e os tomistas, sem resolver a questão (3). Este exemplo nada prova, porque a atitude de São Francisco de Sales foi, finalmente, a da Igreja, e esta não pode ser acusada de se desinteressar das questões dogmáticas. Parece-me que o exemplo conclusivo foi a sua atitude perante o protestantismo.

São Francisco de Sales era bispo de uma diocese dividida ao meio pela heresia. Em Genebra, fora expulso de sua sede episcopal pelos calvinistas vencedores. Chamar esses hereges de novo ao seio da Igreja era necessariamente uma de suas maiores preocupações. Manifestava também muitas vezes seu pesar pelo estado em que se achava a sua diocese.

Além disso, seu primeiro ministério sacerdotal havia sido a evangelização de Chablais, um território protestante que voltara à Sabóia em 1593, e onde ele trabalhara durante dois anos, com êxito maravilhoso.

Assim sendo, e baseados nestas premissas, se perguntarmos qual terá sido sua obra episcopal, devemos supor que foi uma obra consagrada, em primeiro lugar, à conversão dos hereges.

Estando Genebra fechada à pregação católica, seu bispo vai procurar penetrar por meio de seus escritos, como fez em Chablais, inundando-a de folhas esparsas, que, coligidas, formaram mais tarde o livro das Controvérsias.

Contemporâneo de Belarmino, cujas compactas Controvérsias são a cidadela intelectual do catolicismo naquele século, São Francisco de Sales tomará certamente a peito associar sua pena à do ilustre jesuíta. Tendo gosto e talento para escrever, consagrará esses dons a defender a fé contra os ataques da heresia.

Mas, praticamente, que fez ele? Nada. Creio mesmo que nunca refletiu seriamente sobre isto. Pregou quaresmas e adventos em todas as cidades do Sudeste da França, dirigiu religiosas e senhoras piedosas; trabalhou muito para avivar a devoção dos católicos e  aperfeiçoar a dos bons católicos.

Ao apostolado doutrinal, que fica no domínio das ideias, que não age diretamente sobre a alma, sobre a vontade, que não compreende a direção das almas, e não corresponde ao “gosto das almas”, ele fica completamente alheio.

Na mocidade, escreveu uns dois volumes de apologética, mas fê-lo durante uma missão de apostolado, prático e direto, com intuito de atingir a pequena população de Chablais; e o fato de não ter continuado essa atividade missionária, apesar das circunstâncias próprias a desenvolvê-la, é um dos traços negativos mais evidentes da sua fisionomia.

Pelo seu “gosto das almas”, seu “gosto” dominante das almas, pelo contato com as almas, seus dons de analista e seu amor da análise, São Francisco de Sales é genuinamente representativo da tendência psicológica que domina o pensamento ocidental depois da Renascença. É bem da sua época, e creio que a fim de melhor compreendê-lo, é necessário considerá-lo nesse quadro.

***

A tendência psicológica prende-se a grande controvérsia teológica que, no tempo de São Francisco de Sales, dividia a Igreja em dois campos. A controvérsia do tomismo e do molinismo.

Ainda não se sabe, ao certo, se o bispo de Genebra era tomista ou molinista.

É molinista, afirma Vincent; tomista, replica o padre Chenu (4).  É mais provável que não fosse nem uma coisa nem outra. Esta opinião, pelo menos, tem a vantagem de concordar com a vontade expressa do próprio Santo.

Admitamos, porém, que ele não fosse molinista, mas talvez molinizante… Que não fosse molinista, está de acordo com o seu espírito pouco dado a controvérsias teóricas, e com a resposta que deu em outra ocasião, quando quiseram induzi-lo a entrar em discussões.

Não sendo nem molinista nem tomista, não compreende como outros possam apaixonar-se por semelhantes questões.

Mas sua carta a Lessius (5), e na sua doutrina do Tratado do Amor de Deus, o Santo declara-se a favor da predestinação, “em consequência da previsão das obras”.

É verdade, mas também há muitas outras coisas no molinismo, e, como diz Chenu, encontram-se artigos da Summa em muitas páginas do Tratado. A síntese filosófica, a concepção do universo em São Francisco de Sales é toda escolástica.

“Se, por hipótese, do seu Tratado do Amor de Deus fosse suprimido o fundo de ideais que tem em comum com Santo Tomás, este se desmembraria pelas ideais-mães, pela própria estrutura.

Se, por hipótese contrária, fossem suprimidas destas páginas as noções formalmente molinistas, não haveria quase nada a mudar” (6)…

São Francisco de Sales é, pois, tomista!…

Compreendamos e distingamos, porque tomista é um termo equívoco. Há o tomismo de Santo Tomás e o tomismo de Báñez; muitos pretendem que não seja a mesma coisa. Báñez julga-se intérprete autêntico do pensamento tomista; mas outros teólogos, Belarmino, por exemplo, consideram-se igualmente tomistas, afastando-se de Báñez. Que São Francisco de Sales seja tomista no sentido da concepção geral do homem e do universo, ou que seja banesiano quando se trata da natureza da graça eficaz ou suficiente da premoção ou da predestinação, são duas questões diferentes!

Querer, pois, alistar São Francisco de Sales nas fileiras, quer do tomismo, quer do molinismo, parece falso e ingênuo. Tomando, entretanto, em consideração o lugar que ocupa o molinismo no movimento geral das ideias, pode-se lhe atribuir simpatias molinizantes. E o interesse desta questão que, à primeira vista, pode parecer ocioso, é de marcar novamente as tendências do século e nelas situar São Francisco de Sales.

O molinismo, com efeito, é uma aplicação à dogmática da orientação psicológica das almas. E é por isso que se torna impossível o seu acordo com o tomismo.

O tomismo é a solução do problema da graça, conforme o descobriram os metafísicos. O metafísico é essencialmente um realista na plena significação da palavra. Prende-se à realidade, ao que é, ao ser; e, por conseguinte, entre os seres, prender-se-á, ele, à primeira, à maior das realidades, ao primeiro, ao maior dos seres. Coloca Deus no centro da filosofia, o que corresponde ao lugar que Deus ocupa em verdade no universo.

Encarando a questão das relações entre Deus e o homem, e a aparente contradição que existe entre o domínio supremo e necessário de Deus sobre todas as criaturas, e a liberdade do homem, o metafísico tratará, primeiro, de salvaguardar os direitos de Deus, e baseará seu sistema sobre o fato desse domínio universal. Se encontrar dificuldade na explicação da liberdade humana, resignar-se-á, como um mal menor, e recorrerá, para defender essa liberdade, a fórmulas tão sutis, que será preciso ser tomista a todo custo, para não achar que estão em desacordo com a noção vulgar da liberdade.

A atitude do psicólogo será inteiramente outra. Habituado a ocupar-se do homem, tendo gosto pelo estudo das almas, prefere partir do homem, que julga conhece. Não que negue a suprema prepotência de Deus sobre o universo, mas o fato da liberdade humana cativa sua atenção, e causa-lhe estranheza toda tese que parece negá-la. Se for preciso desprezar, como inexplicável, um destes dois termos do problema, abandonará de preferência o da soberania divina, e, inclinando-se, com um ato de fé, ficará quite.

Creio que foi esta tendência que deu origem ao molinismo. E, por isto, tornou-se uma criação do seu século, um produto puramente da Renascença. Convém, pois, a fim de melhor o compreender, conhecer a data em que apareceu.

O tomismo, raciocinando sobre a realidade, terá necessariamente uma estrutura lógica invencível. O molinismo, raciocinando sobre a experiência, e baseando sua certeza numa experiência renovada sem cessar pela análise psicológica, não resistirá a uma comparação lógica e o molinista será forçosamente vencido na discussão. Há de conquistar, todavia, a simpatia da maior parte dos espíritos imbuídos da mentalidade moderna, porque é conforme ao conhecimento que temos da alma.

Digamos a verdade: O tomismo é mais lógico; o molinismo, mais prático. Quem fica absorvido pelo lado prático, simpatizará com o molinismo e precisará de uma sólida formação metafísica para se deixar levar pela superioridade lógica do tomismo.

São Francisco de Sales é, antes de tudo, psicólogo; vive nas almas, e analisa-as; é também essencialmente benevolente e animador; toda doutrina severa, como a da predestinação ante praevisa merita, deve desagradar-lhe. Por todos estes motivos sua doutrina parece revestir de preferência um som molinizante, se bem que não o possamos chamar molinista, pois sua filosofia é tomista, e ele se recusa a tratar da maior parte dos pontos dogmáticos concisos sobre os quais versa a polêmica.

3. Tendência Prática

Encontramo-nos ainda aqui perante duas categorias de homens: espíritos doutrinais e espíritos práticos.

Uns têm o sentido da abstração e dão toda importância aos princípios, vendo sobretudo a isto. Apegam-se às questões de doutrina, cogitando menos da sua ação imediata na vida prática dos contemporâneos. Contentam-se em procurar a verdade, e, quando pensam na vida prática, alegam que o ato segue o pensamento.

Outros, pelo contrário, vivendo mais no mundo dos sentidos, sentem necessidade de saber qual o resultado imediato dos atos, e o seu efeito sensível na ordem da ação. Não lhes basta atuar sobre o pensamento dos contemporâneos se este pensamento não se manifestar em ato; ainda menos se contentarão em procurar a verdade sem saber se a sua doutrina será compreendida ou aceita.

Esta dupla tendência manifesta-se no movimento psicológico de que já falamos. Uma, em alguns, produz o estudo teórico da psicologia, a análise aguda, agudíssima, e até a análise árida, que oferecem numerosos exemplos todos os autores de Pensamentos e Notas íntimas dos últimos séculos. A outra, pelo contrário, atua sobre as almas, deseja o seu bem, procura tudo quanto possa beneficiá-las, buscando, às vezes, até com certa mesquinheza, aquilo que lhes possa outorgar um bem imediato.

Essa dupla tendência revela-se no apostolado. Há apóstolos da doutrina e apóstolos da prática; há o evangelho de São João e o evangelho de São Mateus; o discurso depois da Ceia e o Sermão da montanha; há pregadores que desenvolvem a fé, e os há que corrigem os costumes; há os propagandistas que espalham teorias, e os que organizam obras. Não digo, mais uma vez, que um seja o oposto do outro, pelo menos na Igreja católica; doutrina e moral unem-se, mas permanecem sempre distintas, e cada espírito, segundo seus gostos, inclina-se, de preferência, para um ou outro.

São  Francisco de Sales é apóstolo, apóstolo prático, apóstolo perito das almas. Administrador consciencioso da sua pequena diocese, conserva certa preferência pelo confessionário, pela pregação e a direção espiritual. O bem das almas, a glória de Deus pelo bem das almas parece um bom resumo de sua atividade. Deus qui ad animarum salutem beatum Franciscum confessorum tuum atque Pontificem, omnibus omnia factum esse voluisti, diz a Igreja dele, na oração de sua Missa. E isto esclarece de modo mais preciso a indiferença doutrinal que assinalamos acima. As raras partes dogmáticas que se encontram em suas obras são escritas no decorrer de uma missão, com um fim de ação imediata, seja para auxiliá-la, seja para introduzir a obra de análise psicológica no manual da perfeição que é o Tratado do Amor de Deus. Atirou-se de todo o coração à evangelização de Chablais, donde esperava um resultado positivo e imediato. Teve grande desejo de, futuramente, penetrar em Genebra, e ali dedicar-se a polêmicas públicas, isto é, a ação de penetração imediata. Ele não escreveu obra de controvérsia doutrinal, arma de longo alcance, cujo efeito não aparece logo.

Bem sei que isso pode dar lugar a numerosas objeções. São Francisco de Sales, dir-me-ão, tinha desejo ardente de escrever contra os protestantes, mas era bispo e seu ministério pastoral o absorvia. Ele próprio, mais de uma vez, queixou-se disto.

Teve tempo, todavia, de escrever inúmeras cartas, algumas bem longas, de direção espiritual, como também a Introdução à Vida Devota e o Tratado de Amor a Deus.

Foram as circunstâncias, alegar-se-á, que o levaram a isso. Possuía um espírito de submissão profunda à divina Providência, e sujeitava-se a tudo quanto lhe vinha dela, sem vontade própria.

É verdade, mas não serão as circunstâncias, até certo ponto, suscitadas pelo nosso caráter, ou mais exatamente, não será o nosso caráter uma das principais circunstâncias da nossa vida?

Creio um pouco, mas um pouco somente, nessa força das circunstâncias. Creio muito, ao contrário, no provérbio: Chassez le naturel, il revient au galop. Tomemos, ao acaso, dez padres, coloquemo-los na mesma cátedra episcopal; um será administrador, outro estará sempre a percorrer a diocese, a fim de estimular o zelo do clero e do povo; um terceiro dedicar-se-á à teologia; um quarto será diretor de religiosas. Nada mais mutável que as circunstâncias; nada mais variável que os temperamentos! E cada qual, segundo seu caráter, escolhe, entre as circunstâncias, as que mais lhe convêm. Há padres em quem logo pensamos quando nos vem algum escrúpulo de consciência, e a quem não havíamos de consultar nas dúvidas contra a fé; um nos ajudará a organizar uma obra, outro nos dará uma boa solução doutrinal; a outro nos dirigiremos visando se ratar de angariar dinheiro.  Será isso devido à diferença que existe na formação que tiveram? Ou no meio em que vivem? Nem sempre. Alguns, vivendo num mesmo meio, ocupando as mesmas posições, têm tendências inteiramente diversas. Tal vigário passa o dia no confessionário; tal outro, procura principalmente atrair os fiéis à Igreja por meio do esplendor litúrgico; um terceiro dedica-se às obras paroquiais. Isso dá-se igualmente em todas as carreiras, e com todos os homens; há divergências análogas no modo de gerir um ministério, um negócio, um escritório de advogado ou uma usina.

São  Francisco de Sales, devido às circunstâncias, e, de modo particular, às do seu caráter, foi um homem de ação “prática”, de ação de resultado imediato.

Chamo esta ação, ação prática propriamente dita, para evitar o equívoco, no qual caem muitas vezes precisamente os espíritos que se chamam “espíritos práticos”. Este equívoco consiste em comparar a prática com a eficácia. Se tomarmos a prática no sentido de eficácia, é claro que os espíritos mais práticos o serão menos no sentido próprio da palavra, pois as ideias exercem uma influência muito mais profunda e extensa que a dos atos. Platão, Aristóteles, Santo Tomás, Descartes ou Kant, são homens muito mais “práticos” do que Alexandre Magno, Júlio César, Carlos Magno, ou Napoleão. Não é mais, porém, aquele o sentido da palavra “prática” quando em oposição com a “teórica”. No sentido comum a palavra “prática” significa, pouco mais ou menos, “visar um resultado positivo ou imediatamente perceptível”. Neste sentido, o filósofo não é um homem prático, ao passo que o cozinheiro o é.

Então nada menos prático que um doutor, isto é, um homem que ensina a doutrina. E nenhum doutor da Igreja o será menos que São  Francisco de Sales, doutor um tanto paradoxal. Se sua doutrina adquire valor teórico, é à força de perfeição prática, de equilíbrio, de bom senso variado, que supõe certa aplicação geral, até nos conselhos mais íntimos.

Este espírito prático impele-o, pois, a procurar o bem das almas, e a glória de Deus pelo bem das mesmas, mais pela sua santidade interior do que pelo conhecimento da verdade. Atua vivamente sobre a vontade e a sensibilidade, e menos sobre a inteligência. Isso explica, talvez, o motivo pelo qual obteve tanto êxito entre as mulheres, e relativamente pouco entre os homens. A desproporção entre seus correspondentes e seus penitentes, homens e mulheres, é demasiado forte, e não me parece valer a desculpa que atribui isso ao fato das mulheres serem mais ávidas que os homens desse gênero de consultas. Se os homens têm menos necessidade de direção minuciosa para suas almas, eles se entregam de boa vontade às formas de influências mais gerais, mais morais, mais doutrinais, não menos profundas.

A mulher recorre à direção para cada um dos seus atos; o homem discutirá apenas a orientação geral a dar à sua vida, e pedirá, de bom grado, esclarecimentos sobre pontos de doutrina. É outro gênero de direção, mas nem por isso inferior àquela. Quem lê a correspondência de Santo Agostinho, nela encontrará muitas cartas dirigidas a homens, sobre centenas de questões de toda espécie. E quando lemos a correspondência de uma Santa Catarina de Sena, ou de uma Santa Teresa, parece-nos que elas atuam mais sobre os homens que São  Francisco de Sales!

Basta, além disso, ler os sermões de São  Francisco de Sales para ter a impressão de que ele procura quase exclusivamente edificar de preferência a instruir, como acontece também nos sermões que pregou a auditórios leigos.

Basta também correr a lista dos livros que ele aconselha a Filotéia na sua Introdução. Filotéia alimentará a devoção com leituras de caráter prático, e o santo autor nunca se lembra de recordar-lhe que se instrua na fé, que se aprofunde nos fundamentos teológicos da sua vida sobrenatural.

***

Naquele tempo ninguém pensava nisso e o simples fato de o notarmos, nós, indica uma nova preocupação de nossa parte. Há alguns anos, vem aparecendo uma quantidade de livros que não são somente livros de piedade, destinados a comover-nos o coração e a indicar-nos os meios de desenvolvermos a vida sobrenatural, mas cujo fim é divulgar as noções teológicas relativas a vida, e por este meio difundir toda a teologia.

É, em suma, coisa inteiramente nova. E para demonstrá-la, devemos examinar mais de perto este espírito prático com tendência psicológica, este “moralismo”, do qual São  Francisco de Sales é um dos mais eminentes representantes.

Há um enigma neste moralismo, enigma inquietador, porque nos perguntamos a nós mesmos se não lhe devemos, em parte, atribuir o enfraquecimento do catolicismo nestes últimos séculos.

A partir da Renascença, começa um possante movimento intelectual, que afasta os espíritos da fé católica e tende a paganizar a cristandade. Este movimento é um plano que visa, não tolher práticas cristãs, nem tão pouco combater a fé diretamente, mas destruir profundamente, no espírito, os princípios da fé. Nunca a Igreja se viu ameaçada de perigo tão iminente, tanto mais temível quanto mais pérfido. Os espíritos pervertem-se lentamente e, debaixo dessa perversão do espírito, os atos da vida privada, as instituições sociais ainda se conservam cristãs por muito tempo. Mas como é o espírito que domina, cedo ou tarde a perversão geral há de seguir a do espírito. Então, é árvore morta que cai de repente, é a casa edificada sobre terreno minado que desmorona bruscamente, e nada mais resta a fazer senão ver ruir o esqueleto corroído.

A água mana da fonte, e a fonte que fecunda a vida humana é o espírito. Secando a fonte, é inútil querer canalizar o leito do rio, ou fazer trabalhos de irrigação, diques e pontes, pois a própria perfeição desses trabalhos só serve para aumentar a penúria da corrente d’água, já quase estancada.

Os nossos autores clássicos só falam em Apolo, nas Musas, em Júpiter e no Olimpo. Julgar-se-iam diminuídos se fossem cantar uma ode com o nome de Jesus ou da Santíssima Virgem. O Partenon parece-lhes uma maravilha e gostariam de ver desaparecer a Notre Dame de Paris; não se cansam de admirar os filósofos gregos, mas a síntese escolástica da filosofia cristã parece-lhes o produto de um século de trevas. Além disso, a Idade Média torna-se sinônimo de barbaria, e não perdem ocasião de rebaixar o poder pontifício. A vida privada, no entanto, conserva-se cristã; o rei assiste à Santa Missa todas as manhãs, a fé permanece viva, e no século XVII um incrédulo é o que se chama um libertino saturado de depravação. É preciso estudar a vida íntima das famílias burguesas da época, para fazer ideia do quanto se conservam nelas inabaláveis as tradições cristãs.

Isto, porém, não impede que a fé se corrompa e se desvie da vida geral do espírito. Dia virá, se não houver reação, em que, estando o espírito paganizado, a fé decairá. O cristianismo não é um Credo de artigos estritamente limitados, que se possam manter mudando-lhes as tendências intelectuais e a concepção do universo; é uma doutrina cósmica, que projeta uma luz particular sobre o universo inteiro e orienta toda a vida do homem. O meio de atacar o cristianismo sem pronunciar o nome de Cristo, sem se ocupar da Igreja, nem da revelação, serve-se, para isto, da astronomia, da matemática, da botânica ou da geografia, da história, da política, da filosofia.

Depois da demonstração admirável que o século XIX apresentou sobre isto, parece incrível que ainda hoje haja espíritos que se recusem a acreditá-lo.

A partir da Renascença, inicia-se em torno da Igreja, e contra a Igreja, um imenso movimento concêntrico, que deixa, por assim dizer, o cristianismo no seu lugar, mas arranca-lhe tudo quanto considera independente dos princípios religiosos. A filosofia, as ciências, os estados, os salões, as artes e a literatura laicizam-se, isto é, ficam estranhos ao cristianismo, separados do império de Cristo, e a Sua Igreja fica isolada no mundo. Depois, no dia em que terminar o movimento envolvente, lançar-se-ão, de todo lado, como que de assalto, as forças naturalistas, para que a barca de Pedro, submergindo nas trombas que se lançam contra ela, vá a pique.

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Voltemos ao século XVII e ao moralismo.

Contra o perigo dissimulado, mas terrível, que ameaça as próprias fontes da vida da Igreja, que fez São Francisco de Sales? Nem sequer cogitou disso. Que fizeram os casuístas? Nada absolutamente. Que fizeram os inúmeros autores da ascética e da mística? Nada, tão pouco. Ocuparam-se das almas cristãs, resolveram casos concretos, deram direções práticas, agiram sobre os corações, orientaram as vontades. Pouco ou nada influíram sobre os espíritos,  quase não pensaram na necessidade dessa atuação, e ainda menos que fosse algo de urgente. Pertencem ao seu século. Deixam-se arrastar pela corrente psicológica que será uma das principais causas da dissolução do pensamento Cristão, e limitam-se a tirar dessa corrente só o que há de bom para a prática das almas devotas e dos confessores. Os teólogos dos últimos séculos que a Igreja proclamou doutores são: São João da Cruz, o doutor da vida mística, e São Pedro Canísio, o doutor da apologética de orientação imediata no século XVI; São Francisco de Sales, o doutor da perfeição individual do século XVII; Santo Afonso de Ligório, o doutor da casuística, no século XVIII. Nas ciências que cultivaram, atingiram verdadeira culminância; mas nem eles, nem nenhum outro tratou daquilo que era da maior necessidade do século. Quanto aos doutores da metafísica e da dogmática, só indo mais longe ainda os encontraremos nos séculos XIII e V.

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E aconteceu o que era de esperar, a desoladora epopeia da santidade católica do século XIX. Epopeia, sim, porque nunca a caridade católica se desenvolveu com maior magnificência. Conta as ordens religiosas, as obras de caridade, os sofrimentos, os suores, o dinheiro, as missões nos quatro cantos do mundo, contemos as irmãzinhas dos pobres nas mansardas, nos hospitais, nos orfanatos, contemo-las, admiremo-las e choremos!

Quem lê a vida dos grandes cristãos do século, um Cura d’Ars, um padre Ratisbonne, fica maravilhado com as conversões que operaram, às dez, às vinte, às cem, conversões que germinam sob seus passos. Apesar disto, entretanto, o paganismo cresce rapidamente. Ganha, primeiro, a burguesia, depois os operários, e finalmente os camponeses.

Os santos católicos são santos práticos, as obras católicas são obras práticas! Nunca houve mais bela eflorescência de caridade. A impressão que se tem é de assistir a um eclipse do dom de inteligência! Os católicos, por isso mesmo, só atingem aqueles a quem tocam diretamente, os indivíduos, porque só a inteligência é universal, e só as ideias se difundem sem corpo. O paganismo está em toda parte, paganismo de espírito, naturalismo, positivismo, teosofismo, subjetivismo. Penetra as massas, as instituições e infiltra-se nos cérebros. O Estado é neutro, o casamento é civil, a escola é leiga, a imprensa livre-pensadora. Os literatos e filósofos que escrevem a língua que o povo entende, são quase todos estranhos ou hostis à Igreja, enquanto a irmãzinha cuida do pobre na mansarda, foge-lhe a alma do mesmo dominada pela imprensa, escola e por todo um ambiente de tal maneira penetrante, que o simples respirar parece produzir liberais e naturalistas.

No meio da corrupção geral dos espíritos, a Igreja deve limitar-se a manter suas posições essenciais, deixando gritar o mundo contra ela.

Em certas épocas o mal é tamanho que, até entre os jovens oriundos dos colégios católicos, parece que o maior número perde a fé! E enquanto os missionários se esgotam para evangelizar a China, os chineses que vêm à Europa voltam maçons. A caridade católica não passa dos corpos, dir-se-ia que apenas toca às almas acidentalmente, enquanto que uma onda pagã de livre-pensamento surge qual corrente irresistível a invadir todas as avenidas do espírito.

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Eis aí, creio eu, o moralismo ou o espírito prático, colocado de novo no quadro próprio. A história parece inverossímil. Como é que não se previu o perigo iminente para os dias que se deviam seguir à Reforma, quando, na Europa, a cristandade acabava de ser dividida em duas partes, pela heresia, no meio da invasão da cultura pagã da Renascença? Como é que os “humanistas devotos” não viram o perigo do “humanismo”, quando a verdade é um “divinismo”? Mistério que os mais sábios se encarregarão de desvendar; observemos simplesmente que São  Francisco de Sales às portas de Genebra calvinista e da França de Henrique IV, dirige religiosas e senhoras, com a mesma tranquilidade com que Santo Tomás doutrinava no Paris de São  Luís!

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São Francisco de Sales é do seu tempo. Desenvolveu um trabalho admirável sobre a ciência ascética; e os de seu tempo eram capazes de apreciá-lo. Não conheceu o pior dos inimigos que ameaçava a Igreja, e por isso não pôde cogitar de desviá-lo.

Seria injustiça acusá-lo por causa disso, pois ninguém, tão pouco, o previu. Se, porém, por um golpe de vista profético, ele tivesse tido um pressentimento de tudo isto, sem dúvida não teria sido compreendido, teria ficado como um daqueles precursores sem influência na sua época e que só são descobertos depois de dois ou três séculos, quando todos reconhecem que foram bons profetas.

São Francisco de Sales é o doutor da perfeição, possui o verdadeiro método do progresso espiritual, e é a ele que recorrem aqueles que têm o encargo de dirigir as almas. Mas esta breve exposição sobre o moralismo deve lembrar-nos que, se São Francisco de Sales soube explorar de modo admirável o “raio” da vida espiritual, ainda sobram ao cristianismo muitos outros raios a explorar.

Bispo São Francisco de Sales, santo da mansidão

4. Otimismo

 A discussão do otimismo e do pessimismo danificou o mundo moderno, e a grande vitória do otimismo, no século XVIII, seja talvez, a chave da história contemporânea. Nasce o homem naturalmente corrompido, ou sente ele, pelo contrário, uma atração natural para o bem, que fica à espera de uma ocasião propícia para se manifestar? O protestantismo de Lutero e de Calvino afirma rigorosamente a corrupção da natureza. Com os jansenistas a polêmica entra na Igreja, e todo o século XVII católico sofre as consequências.

Poucas polêmicas doutrinais tiveram a repercussão prática imediata desta, porque é claro que da educação das criancinhas à direção das almas perfeitas, toda a conduta do homem varia conforme tiver de lutar, quer contra uma natureza viciada, que a graça deve transformar, quer contra uma natureza sem energia, que a graça deve fortalecer e reerguer.

Em oposição ao pessimismo teológico dos protestantes e jansenistas, o otimismo difunde-se no humanismo da Renascença, otimismo naturalista, que se inspira no pensamento grego do otimismo platônico, quase confundindo sabedoria com ciência, e fazendo desta sabedoria a mãe da virtude. A teologia católica acha-se no meio termo.

Os teólogos já haviam abandonado há muito tempo o pessimismo, que o espetáculo dos vícios do mundo pagão inspira a certos padres. Na Europa cristã havia escabrosidades e pecados, mas as virtudes brotavam também, em abundância, do solo regado pela graça. Os santos viviam lado a lado com os bandidos, a quem convertiam na hora derradeira. Além disso, as ordens religiosas chegaram a constituir ambientes onde a natureza, penetrada do sobrenatural, parecia voltar ao bom caminho, pelo menos nas linhas gerais do seu desenvolvimento.

Grandes admiradores dos gregos, discípulos de Aristóteles, os escolásticos não sentem dificuldade alguma em reconhecer na natureza humana uma tendência essencial para o bem, uma inclinação natural para o amor divino, amar a Deus mais que a nós mesmos, tendência cujo desenvolvimento é obstado pela decadência original, se encontra debaixo do pecado, desordenada, mas não destruída, e faz do homem um candidato à graça.

Quem fala da espiritualidade sombria da Idade Média, é porque não a conhece. Encontram-se, na Summa de Santo Tomás, dissertações desconcertantes, neste século de bolchevismo, sobre a tendência natural do homem para o bem e para o amor de Deus (7).  Não parece possível encarar a nossa natureza com olhar mais amigo que o de São Francisco de Assis. Se, pelo contrário, os moralistas práticos e os pregadores prescrevem um ascetismo vigoroso, e por vezes duro, é porque são chamados a lidar com naturezas rudes. Sendo violentas as paixões, a mortificação também o deve ser. É fato que não acarreta nenhum pessimismo na concepção teórica da natureza humana.

A partir, todavia, da Renascença, o otimismo se acentua primeiro sob a influência exterior do otimismo dos humanistas, depois dos filósofos, e mais tarde ainda sob a influencia interior da reação contra o pessimismo teológico protestante e jansenista. Manifesta-se na ideia que fazem os teólogos dos efeitos do pecado original, da salvação dos infiéis, e daí resulta, na teologia católica, um movimento de suavidade (8).

À primeira vista, parece acontecer o mesmo com o papel atribuído à mortificação na vida cristã. Os costumes suavizam-se, bem como o ascetismo e a linguagem. As ordens religiosas modernas substituem a mortificação exterior pela interior, Jesuítas, Ursulinas, Visitandinas, Irmãs de Caridade, Irmãos da Doutrina Cristã. Mas essa primeira vista poderia enganar. A reforma do Carmelo fica entre a fundação da Companhia de Jesus e a da Visitação; os Trapistas são do princípio do século XVII, e o século XIX viu nascer diversas Congregações expiatórias, que em austeridades não ficam atrás de nenhuma das ordens antigas. Além disso as antigas subsistem, e está dito tudo.

Este último fato põe-nos de sobreaviso contra conclusões apressadas. No domínio teórico, a tendência para o otimismo parece certa; no domínio prático, a mitigação da espiritualidade, ou de uma sua parte, poderia ter causas mais complexas.

Que lugar ocupa São Francisco de Sales, o doutor da perfeição, neste movimento?

Nas eras cristãs que se sucedem, encontra-se, entre os autores mais divergentes, notável unidade a respeito da doutrina da mortificação. São Bento e Cassiano, São Bernardo e São Francisco de Assis, Santo Tomás, Santa Catarina de Sena, o autor da Imitação, Santo Inácio, Santa Teresa, São Vicente de Paulo, todos sustentam a mesma. As aplicações podem e devem variar conforme as almas às quais o autor se dirige; os princípios, porém, são idênticos. Até nas ordens mais austeras, entre os santos que se flagelam com macerações, são sempre os mesmos princípios de justo meio, de ascetismo subordinado ao aperfeiçoamento da alma, de austeridade estudada e calculada para um fim que não seja a própria austeridade; mas todos, até os mais moderados, afirmam irredutivelmente a necessidade da mortificação.

São Francisco de Sales identifica-se inteiramente com a tradição. Nenhuma mortificação lhe é desconhecida, disciplina, cinta de ferro, cilício, jejum, vigília; dá a todas lugar e faz do espírito de mortificação um dos esteios da devoção.

Não introduziu ele, entretanto, algumas inovações? E que devemos pensar de sua brandura, tão preconizada, que o caracteriza, e que repercute em toda a sua doutrina espiritual?

As discussões sobre a doçura de São Francisco se reproduzem periodicamente. Os que não o apreciam acusam-no de ter enfraquecido o espírito de mortificação rigorosa da tradição cristã; enquanto seus partidários não se cansam de citar grande quantidade de textos em que ele exalta a mortificação nos mesmos termos de seus antecessores, acrescentando ainda o testemunho de suas penitentes, Santa Chantal, por exemplo, que o declara o mais mortificador dos diretores.

Distingamos o fundo da forma. Na forma, a unção santa de São Francisco e o seu estilo floreado emprestam-lhe, às vezes, um aspecto de enfado. No fundo, ninguém é mais convencido de que é preciso morrer para viver em Cristo e ninguém o repete mais formalmente.

Resta, todavia, uma observação a fazer, que é expressa de modo muito significativo no capítulo da Introdução à vida devota, consagrado aos exercícios da mortificação exterior. Penso que se escrevêssemos em nossos dias um capítulo sobre a mortificação dos sentidos, começaríamos por afirmar a sua necessidade. São Francisco não parece pensar nisto, e começa por sustentar o caráter acessório da mesma, para depois tratar longamente do desapego dos bens sensíveis, da indiferença a respeito, afirmando que é muito mais importante do que a mortificação. Há nisso vontade evidente de reagir, de reagir contra alguma coisa que não pode ser senão a crença exagerada na eficácia da penitência física.

Hoje em dia não é mais preciso reagir contra isto… Se bem que todos os autores ascéticos católicos sejam de opinião que a penitência física não tem valor sem a penitência do coração, os profetas do Antigo Testamento já o ensinavam, e, embora todos restrinjam a penitência ao seu papel de educadora, de dominadora do corpo para subordiná-lo a alma, todavia São Francisco de Sales pode ser considerado, creio eu, como tendo particularmente insistido sobre esta doutrina, e isto se explica pelo público a que se dirigia.

A Introdução à vida devota é escrita especialmente para as pessoas do mundo, os leigos, como se dizia, então. Além disso, na sua atividade apostólica, a predileção do santo era pelas pessoas de “compleição fraca”, que, incapazes de suportar as duras penitências das ordens antigas, aspiravam, no entanto, à verdadeira santidade. Para elas fundou a Ordem da Visitação. Com exceção das Visitandinas, os religiosos e religiosas não ocupam lugar marcado na sua correspondência, nem nos seus sermões.

Isto já não era novidade. Os Jesuítas vinham trabalhando para difundir a oração entre os leigos piedosos e na correspondência de Santa Teresa encontram-se diversas cartas nesse sentido. São Francisco de Sales seguiu a mesma corrente; firmou nela a sua doutrina com admirável segurança e sua ação marchou-lhe, de certo modo, o pleno desenvolvimento.

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Resta ainda alguma coisa, a dizer?

Resta, sim. Tudo quanto vimos no primeiro capítulo, o humanismo de que São Francisco de Sales estava compenetrado; a estima de tudo o que é humano, o gosto pela cultura do espírito e da beleza, que lhe faz lançar para o mundo um olhar de benevolência; a educação numa família profundamente cristã, entre gente digna; a carreira, que se fez num meio provincial basicamente honesto. Existem tais meios pacíficos em que o homem parece naturalmente muito bom, onde não transparece a urgência imperiosa da luta.

Acrescentemos, enfim, uma índole bondosa por natureza e que se interessa por tudo. O conjunto contribui para formar uma personalidade eminentemente benevolente. Mas será o espírito benevolente, otimismo?

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Aproxima-se do otimismo, porque uma alma benevolente verá, em tudo, o bem de preferência ao mal, e a alma bondosa procurará consolar os infelizes que lutam.

Animador, consolador, São Francisco de Sales o é mais que ninguém. É impossível, a quem ler uma página escrita por ele, não sorver o gosto do bem e de Deus. Mas será isto otimismo?

Há um otimismo católico que quase não se discute, embora abranja diversas gradações. É o otimismo após a graça, ou o otimismo pós-batismal. Este otimismo consiste numa grande confiança naquilo que o homem pode fazer quando é batizado e vive na graça. É a base da revelação que nos ensina o caminho da salvação, e apoia-se no amor divino. Acomoda-se, aliás, com todas as opiniões teológicas ortodoxas sobre a natureza do homem e os efeitos do pecado original.

Haverá em São Francisco de Sales outro otimismo teórico além daquele, e devemos procurar nele uma doutrina precisa sobre a natureza sem a graça? Penso que não. Ele só escreveu para as almas, e sobre as almas, em estado de graça; a questão de maior ou menor decadência da natureza não entrava no objeto direto dos seus estudos, e sabemos quão pouco o atraía a simples especulação.

Quando lhe acontece falar do pecado original, reproduz o lugar comum dos autores ascéticos e dos pregadores sobre a impotência em que se acha o homem de alcançar a virtude sem o auxílio divino. Encontramo-lo mais uma vez na linha da tradição católica.

Pelo pecado original o homem perdeu sua primeira inocência, sem que a sua natureza ficasse, no entanto, fundamentalmente corrompida; São Francisco de Sales conserva-se à distância do naturalismo otimista dos filósofos gregos, ou dos humanistas paganizantes, e do teologismo pessimista dos protestantes e dos jansenistas.

Mas será o homem, segundo a expressão dos teólogos, vulneratus in naturalibus ou somente spoliatus gratuitis, o que representa as duas posições ortodoxas? Creio que São Francisco de Sales não julgou necessário tomar partido, e quando um de seus historiadores modernos (9) quer convencer-nos de que ele adota a tese otimista, não encontra, em suma, quase nada a citar, a não ser textos de Belarmino, acrescentando que São Francisco é seu discípulo!

Livro Filotéia ou Introdução à Vida Devota

Livro Filotéia ou Introdução à Vida Devota

5. Piedade Salesiana

São Francisco de Sales desempenhou um papel considerável no desenvolvimento da piedade católica.

Este papel deverá ser precisado, confrontado com as tendências novas que apareceram na piedade moderna. Estudando a influência que exerceu sua atitude perante as diversas formas da piedade, o que fez e o que deixou de fazer, precisaremos o que devemos buscar nele e o que não devemos procurar.

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O primeiro aspecto da piedade católica é o sacrifical e o sacramental. A Missa e os Sacramentos ocupam, no centro da vida cristã, um lugar claramente determinado pelas definições doutrinais e os textos conciliares. São as fontes principais da vida sobrenatural, que nosso Senhor estabeleceu especialmente para este fim, e que a Igreja cercou de ritos e de preces que firmam a sua oração oficial ou liturgia.

Mas, quando se trata do Ofício, ou das orações que acompanham o sacrifício da Missa, a Igreja abstém-se de definir o lugar que devem ocupar na piedade ordinária dos cristãos. Atesta simplesmente que existe um Ofício Canônico, fruto de uma lenta elaboração, dez ou quinze vezes secular. A Igreja o impõe aos seus clérigos, que o devem recitar em comum ou em particular. Este Ofício constitui, juntamente com a Santa Missa, o ato de culto principal da Igreja. Mas, além disto, outras devoções estranhas ao Ofício se desenvolveram no decorrer dos séculos, foram mais ou menos regulamentadas pelas autoridades eclesiásticas, tomando, assim, um caráter relativamente oficial. São a adoração do Santíssimo Sacramento sob todas as suas formas, o caminho da Cruz, o Rosário, o Ângelus e muitas outras.

Como a autoridade eclesiástica raramente se preocupa com suas decisões, é quase impossível dizer quais são, entre essas devoções, as que entram no culto oficial da Igreja, e as que fazem parte da devoção particular. Todas são aprovadas e estimuladas. O culto oficial da Igreja é, na verdade, um culto público, isto é, de coletividade. Mas as principais devoções particulares são praticadas regularmente em comum, sob a direção do clero. Essa incerteza favorece extremamente as discussões inevitáveis entre amadores de questões cultuais, liturgistas ou anti-liturgistas. Trataremos, porém, mais adiante da questão litúrgica.

Enfim, a oração particular, a oração individual, deve também desempenhar papel preponderante na vida do cristão, porque o cristianismo é uma vida fundada sobre as relações íntimas de Deus com os homens, e a oração é o ato pelo qual o homem se comunica com Deus. A doutrina dos teólogos dá à oração múltiplos fins: o de louvar a Deus, oração de louvor; de implorar a misericórdia divina, oração propiciatória; de alcançar graças, oração imperatória; de agradecer a Deus, oração de ação de graças. Os autores espirituais atribuem-lhe, ainda, um quinto efeito, indireto, mas importante, que é o de atrair a nossa atenção para Deus e de inflamar o nosso amor. Encontra-se assim com a meditação, que é uma reflexão sobre as realidades sobrenaturais.

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Este último é o psicológico, que une a oração à meditação, examinando, tanto numa coisa como na outra, o bem direto e perceptível que produzem na alma. Estuda-se, pois, a oração enquanto auxilia a alma a unir-se a Deus por uma percepção mais clara de sua realidade e um impulso mais ardente de seus afetos. E, considerando a oração sob este aspecto, conclui-se que a oração e a meditação estão ligadas entre si; que a meditação leva a alma a orar bem, tornando-se inútil no dia em esta se ache habitualmente na presença de Deus; que a prece — ou oração, — é, ao mesmo tempo, o meio de nos unirmos a Deus e o resultado desta união, que, na realidade, a verdadeira oração é a própria união, e as almas que se acham perfeitamente unidas a Deus chegam a orar constantemente, sem palavras, e, mesmo até, sem sucessão de pensamentos, porque sua vida é uma série de manifestações de amor, o que constitui a essência da oração.

Concebe-se facilmente, depois do que foi dito do movimento psicológico da Renascença até aos nossos dias, quanto este aspecto psicológico da oração deve ter sido analisado, desde o século XVI. É examinado com tal penetração e tal clareza que se constitui, nessa época, uma ciência da oração, que parece nova. Sublinho a palavra porque tenho consciência de escrever algo de ridículo, mas poucos autores dos séculos XVI e XVII teriam pensado do mesmo modo. Muitos julgam sinceramente ter descoberto alguma coisa nova, e que a ciência da oração data de Santo Inácio e de Santa Teresa! Quem lê a maior parte dos autores daquele tempo, uma Santa Teresa, por exemplo, tem a impressão de que a oração mental, — e aquilo a que dão este nome é simplesmente a oração segundo o método de Santo Inácio — é uma descoberta, um novo método — ia escrevendo uma norma — infalível, verdadeira chave do enigma da santidade, por falta da qual a alma mais generosa se acharia bloqueada em sua marcha. Vemos, nas narrações daquela época, almas que vegetam, ao serem iniciadas no método da oração mental, e começarem, somente a partir desse dia, a elevar-se para Deus; depois se iniciarem nos diversos graus da oração, e pautarem sua união com Deus no modo de orar. Os modos e graus de oração parecem tornar-se como uma espécie de religião esotérica para almas de escol. Santificar-se não quer dizer somente amar muito a Deus, nem orar é dizer-lhe somente que o amamos muito. Santificar-se e orar, e, sobretudo, fazer oração, é seguir um método. Um santo é, por conseguinte, alguém “que faz oração elevada”; os graus de oração são marcados, e quem tem a pretensão de ser místico, gosta de dissertar a respeito.

A bela obra do abbé Brémond, Histoire du sentiment réligieux en France depuis la fin du XVI siècle (11), retrata com pormenores toda essa história. Revelam-se de modo muito significativo, tanto mais que o autor não partilha a minha desconfiança a respeito dessa mística que se alardeia, e que ele analisa com extrema complacência. Esta ciência da oração aparece muitas vezes como singularmente factícia, até entre os mais piedosos. Vigora, infelizmente, e as almas simples e retas, que se elevam para Deus livremente, sem se deterem a considerar o seu “modo” de orar, desagradam a algumas pessoas, que se julgam com direito de se porem a par das suas experiências sobrenaturais (12).

Hoje, graças a Deus, conhecemos melhor a admirável continuidade de vida da Igreja, e sabemos que a oração é tão antiga como o cristianismo, ou mais ainda, porque já a encontramos nos patriarcas! Sabemos que a ciência da oração foi abundantemente cultivada durante toda a Idade Média numa literatura de luxuriante riqueza, e que o amor dispensa métodos assim como o gênio não se prende a regras. A obra da Renascença, ao nosso ver, reduz-se a proporções mais modestas e mais verdadeiras. Completou a análise dos estados da alma e dos modos de sua união com Deus; firmou melhor certos estados pelos quais as almas passam, algumas vezes, quando se unem a Deus, e precisou as condições mais favoráveis ao recolhimento.

É nisto, talvez, que se torna mais admirável a obra de São Francisco de Sales. Sem contradizer ninguém, servindo-se de todas as doutrinas de seus antecessores, soube, pelo simples poder de seu bom senso genial, repor a oração no lugar que lhe é destinado na vida. É muito metódico; quer que ponhamos ordem na nossa vida espiritual e aconselha os métodos habituais da oração; mas enquanto isto, consegue, graças ao encanto do seu gênio particular, despojar a devoção desse aspecto de norma espiritual que outros tão facilmente lhe dão; e fundi-la de tal maneira na vida que, explicada por ele, apareça simplesmente como o desabrochar normal da alma, desabrochar contínuo, harmonioso, total. Quem lê, pela primeira vez, o Tratado do Amor de Deus, encontra dificuldade em descobrir os “estados extraordinários”, se bem que aí se achem, e a classificação categórica dos graus, embora também estejam lá. Está tudo lá, tudo de que tratam outros, mas cada coisa colocada no seu lugar e adaptada à vida. Regulamentando assim a oração extraordinária, São Francisco de Sales fez mais que qualquer outro para livrá-la dos perigos e prestou relevante serviço à Igreja.

A união sobrenatural das almas com Deus, para a qual nosso Senhor nos chama, é coisa tão elevada, sobrepuja de tal forma tudo quanto se possa imaginar e exprimir, que fica sempre certo receio quanto às mil contrafações que possam sobrevir. Até na melhor mística existe o perigo do espírito afeiçoar-se pura e unicamente a esses fenômenos, fenômenos que se produzem na própria vida, que são talvez o cume da vida, mas não constituem a vida, e que, na realidade, não se podem conceber separados da vida e da prática do amor na vida cotidiana. Fica sempre o receio de que, estes fenômenos, se estudados em si mesmos, isoladamente, com um interesse que se torna apaixonado, acabemos, de fato, por separá-los da vida e torná-los numa espécie de ginástica espiritual — de acrobacia espiritual, poder-se-ia dizer — que não dilata mais a alma toda, mas somente o seu poder de oração.

Bem sei que os verdadeiros místicos estão ao abrigo desse perigo; mas trata-se aqui da literatura mística e de sua influência. Sei, também, que os grandes autores místicos concordam todos quanto à existência deste perigo. Lembremos somente, a título de exemplo, a bela carta do bem-aventurado João d’Ávila a Santa Teresa, a respeito da Vida da Santa escrita por ela mesma, carta em que expõe precisamente os perigos graves desse gênero de escritos. Santa Teresa, São João da Cruz, para citar apenas dois grandes clássicos, gostam de lembrar que os estados de oração não constituem a santidade, e que o principal fator da apreciação desses estados é a pureza de vida, a humildade, o desapego, a caridade efetiva que deles decorre.

Isto não impede que as obras de uma Santa Teresa, que são, aliás, obras fortuitas, tratem quase exclusivamente da oração. Basta isso para levar muitos espíritos a confundir oração com perfeição, e fazer com que as discussões sobre os métodos de oração, com suas divisões, e divisões sutis, deem a muita gente a impressão de que a santidade depende do método, e que sem o método, nem a graça, nem a generosidade, podem conduzir bem a alma.

Na obra de Brémond, o tomo consagrado aos métodos de Lallemant e de Surin dá uma forte impressão de artificial; não é a vida verdadeira.

O grande perigo da mística é fazer perder facilmente contato com a vida real. Assim é que todas as grandes épocas da literatura mística se distinguem, não só pelo desabrochar de obras primas, mas também pelas condenações retumbantes.

O século XIV teve Eckart e o misticismo panteísta; o século XVII encerra-se com madame Guyon. O demônio gira, sem cessar, à volta do santuário; o faquirismo espreita a mística a fim de a atacar.

É nisso tudo que São Francisco de Sales sobressai admiravelmente. Sua obra é a própria vida, tal qual se apresenta em toda a sua realidade complexa, e reproduzida de modo tão natural e tão suave que não pode ser taxada da menor parcialidade. Há nela alguma coisa do que se atribui ao gênio de La Fontaine:

“Olhar, e escrever o que se vê”!

E pode-se dizer dele, à vontade, que é o maior dos místicos, ou que não é místico de todo, visto o pouco interesse que demonstra pelas diversas escalas de estados e pela distinção sutil dos graus de oração.

Nada há, em suma, de mais realista que o sublime cristão.

Jesus é Deus andando de pés descalços sobre a terra, repousando à beira de um poço, dormindo sobre uma velha capa no fundo de um barco, mas é sempre Deus. A perfeição cristã está em reproduzir Jesus na sua simplicidade e, ao mesmo tempo, em encontrar nesta simplicidade a vida divina. O perigo da mística está em procurar Deus nele mesmo, fora dessa simplicidade da existência terrestre, em procurá-lO tal qual se encontra no céu, mas como nós não O encontramos aqui na terra. Se quisermos, pois, tornar-nos anjos, não nos tornaremos animais?

São Francisco de Sales reagiu suavemente contra este perigo, sem nem sequer mencioná-lo, pela sua incomparável compreensão, simples até parecer algumas vezes ingênua, da realidade cristã. É doutor da Igreja por ter exprimido, melhor que qualquer outro, esse natural da sublimidade cristã, por ter explicado como esta perfeição cristã se encontra na vida de todos os dias e por tê-lo sabido fazer sem nada sacrificar dos dois termos, nem da sublimidade divina nem do terra-a-terra humano.

***

São Francisco de Sales, como, aliás, todos os autores espirituais, tanto os da Idade Média como os modernos, trata longa, frequente e minuciosamente da oração mental, e muito menos e rapidamente da Missa e dos Sacramentos.

Há nisto uma particularidade que surpreende à primeira vista. Não é próprio, como acabo de dizer, de São Francisco de Sales, e chega a ser tão universal, que afasta a priori a ideia de menoscabo pelos Sacramentos, porque então a totalidade dos autores espirituais ficariam excluídos da tradição católica.

Declara ele formalmente que a Missa é o centro da religião cristã, “o coração da devoção, a alma da piedade”. Quanto à comunhão, “todos aqueles que a recebem frequentemente, com devoção, robustecem de tal maneira a saúde e a vida da própria alma que é quase impossível se envenenar com qualquer espécie de afeição má”. Estes textos são da Introdução.

O problema reveste a seguinte forma: Os autores piedosos, e São Francisco de Sales em primeiro lugar, falam relativamente pouco da Missa e dos Sacramentos, quando, ao mesmo tempo, os consideram o centro da vida cristã. E por quê?

A dificuldade suscitada por este ponto é muito mais aparente que real. Duas questões importantes se relacionam com os Sacramentos e a Missa: é preciso, primeiro, saber o que são; segundo, como os receber com fruto. Os tratados de teologia dogmática resolvem a primeira, mostrando a ação divina exercida em nós pelos Sacramentos. A segunda é uma questão de moral, a ser tratada por um autor ascético, que a deverá encarar de modo especial. Dirigindo-se a cristãos instruídos, não lhes ensina as condições de validade ou de legitimidade do Santo Sacrifício da Missa. Pode limitar-se, como o fez São Francisco de Sales, a lembrar, em ocasião oportuna, a sua importância primordial; mas se estenderá, de preferência, sobre às condições de participação que dependem de nós e que a tomam mais proveitosa.

Ora, o fervor da alma é condição principal para se tirar maior fruto dos santos mistérios, e é a oração que o incrementa mais depressa. Falar, por conseguinte, longamente da oração e brevemente dos santos mistérios ou falar primeiro daquela e depois desses, não é relegar os santos mistérios a segundo plano. Formar almas de oração é formar almas capazes de se unirem perfeitamente ao Santo Sacrifício; este, por sua vez, tornará a oração mais perfeita.

Não resta dúvida, entretanto, que tanto São Francisco de Sales como os autores do seu tempo dão, no que diz respeito à Missa e aos Sacramentos, um caráter um pouco diverso do que era de esperar. Digo os autores do seu tempo, mas parece-me que deva, talvez, dizer todos os autores, até os nossos dias. E isto leva-nos à questão litúrgica.

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O que chamamos, hoje, questão litúrgica é uma novidade na Igreja, novidade cheia de consequências.

O movimento litúrgico, que estabeleceu a questão litúrgica, nasceu pelo ano de 1850, com a restauração da grande tradição beneditina na Alemanha, na França e depois na Bélgica. Tendia a repor em seu posto de honra o culto oficial da Igreja, ou liturgia, submerso sob o montão de devoções particulares. Este culto oficial da Igreja consiste essencialmente, como já o dissemos, na Missa e no Ofício. A Missa é o centro, o Ofício a moldura.

Os beneditinos eram logicamente induzidos, pela sua própria propaganda, a tornar a Missa mais conhecida, pondo novamente em relevo a noção do sacrifício, relembrando que o sacrifício de Jesus Cristo é o centro único da nossa religião, e, assim, reunir em torno de Jesus Cristo toda devoção. A Igreja dá-nos o exemplo disso no ano litúrgico, que os beneditinos nos ensinaram de novo, e que gira em torno da Páscoa.

Esse movimento litúrgico foi, sobretudo, um movimento prático, no sentido de que não começou por exposições doutrinais, mas por fundações. Os beneditinos criaram nas suas abadias centros de vida litúrgica, organizaram, entre eles, o culto católico tal qual deve ser; preconizaram a volta da liturgia, primeiro com o exemplo, e somente depois, com a propaganda. O decreto de Pio X sobre a comunhão frequente deu lugar, nesse ínterim, a um movimento, que se adaptava perfeitamente ao deles. Quem compreende o fim do Santo Sacrifício da Missa, compreende que a comunhão é o modo normal e racional de participar do sacrifício; a comunhão cotidiana, tomando lugar no centro da vida cristã, acarretava o culto do sacrifício, de que é fruto.

Eis aí o movimento litúrgico: movimento prático ao qual faltou, talvez, um grande teólogo. Foi o padre de la Taille São J., quem, parece-me, expôs pela primeira vez, em 1921, no Mysterium fidei (13), a doutrina da eucaristia, segundo a concepção verdadeira da liturgia, sacrifício primeiro, comunhão depois, sendo a presença real simplesmente o meio, meio sublime, mas meio, de que se serviu o Salvador para perpetuar seu sacrifício e unir nossas almas à sua pessoa divina.

Há, evidentemente, no movimento litúrgico, como em todo movimento conquistador, certa intolerância. Entre os seus partidários há quem seja hostil ou antipático a uma ou outra devoção popular, dignas, ao seu ver, de estima em si mesmas, mas que são empregadas inoportunamente. Acham absurdo, por exemplo, rezar-se o Rosário durante a Missa.

Ora, São Francisco de Sales acha muito natural que a abadessa de Puits d’Orbe, beneditina, reze todos os dias o Rosário durante a Missa (4). Foi também grande propagandista da adoração solene do Santíssimo Sacramento, com luzes, flores, incenso, cânticos, e ornamentos suntuosos a reluzir, e que acabou, sob a forma de bênção, por eliminar quase completamente as vésperas dos hábitos cristãos. Se bem me lembro, foi ele quem introduziu as orações das Quarenta Horas na diocese de Annecy, e, se não as introduziu, não deixou, em todo caso, de organizá-las com o máximo brilho. E sabemos que essa substituição das vésperas pela bênção é um dos grandes agravos dos liturgistas contra a piedade moderna…

São Francisco de Sales manifesta, entretanto, a mais tocante estima pelo Ofício; antes de ser ordenado, já o recitava por devoção e na Introdução recomenda a Filotéia assistir, todos os domingos, às horas e vésperas.

“E depois, (digo-o uma vez por todas), há sempre maior bem e consolação nos ofícios públicos da Igreja do que nos atos particulares…”

Eis o espírito litúrgico!…

Mas, na realidade, São Francisco de Sales nunca refletiu sobre o que chamamos questão litúrgica. Seria mesmo quase impossível que o tivesse feito, porque esta questão ainda não havia surgido no século XVII. Encontrou no meio em que vivia um plano já traçado, feito de tradições e hábitos, e os admitiu sem discussão.

***

É mister, para expor bem a diferença entre o estado de espírito no tempo de São Francisco de Sales, e do nosso, ir muito longe — longe demais — e chegar até à constituição e à razão de ser da Igreja! É mister ainda fixar as consequências dessa constituição sobre a vida religiosa íntima dos fiéis.

Nosso Senhor, ao instituir sua religião, não se limitou a propor um ideal de perfeição interior; instituiu uma sociedade humana, em cujos quadros a alma cristã deve desenvolver-se.

Esta sociedade, a Igreja, tem a missão de render a Deus a homenagem perfeita da coletividade humana e, ao mesmo tempo, de conduzir as almas para Deus. A homenagem da coletividade manifesta-se por instituições públicas, pelo caráter religioso impresso em todas as instituições sociais, estados, corporações, famílias, e depois, de modo mais discreto, pelo culto oficial, organizado pela Igreja, onde a comunidade dos fiéis rende a Deus uma homenagem tão completa e tão perfeita quanto possível.

O culto organiza-se em torno da celebração da ceia, única homenagem realmente digna de Deus.

Como já lembramos em trechos anteriores, os fins da oração são louvor, ação de graças, propiciação, impetração. A oração é, antes de tudo, a homenagem da criatura ao Criador, é este o seu primeiro fim, o ato de adoração por excelência. A oração pública da Igreja é, sob um ponto de vista, o ato supremo prestado pelos homens aqui na terra, porque o ato coletivo organizado ultrapassa em dignidade e intensidade o ato individual.

Encarada doutro modo, a oração pública tem pouco valor. A que vale é a que vem do coração e não dos lábios. Essas molduras cristãs, despidas da virtude cristã, são antes blasfêmia que homenagem e o grande louvor dado a Deus Pai, pela sua Igreja, é o louvor da santidade, louvor do Espírito Santo nas almas. O que importa, por conseguinte, sob este outro ponto de vista, é santificar individualmente o maior número possível de almas.

Conclui-se, pois, daí, que o homem, se é feito para viver em sociedade, deve render a Deus uma homenagem coletiva, e, embora os atos coletivos do homem sejam as manifestações supremas de sua atividade, todavia esses atos só valem conforme as disposições interiores de quem os pratica. Consequentemente é desumano separar o culto público da obra de santificação privada.

Devemos, até, acrescentar: Na realidade, a homenagem que rendemos a Deus e a santificação de nossas almas são elementos não somente unidos, mas tão estritamente ligados entre si como a oração impetratória à oração de louvor. É quase impossível louvar a Deus sem que venha logo o pensamento de Lhe pedir auxílio para melhor o fazer (14). Assim também, por perfeito que seja o culto público, estaria incompleto se não fosse um meio propriamente dito de santificação das almas. Em outros termos, todo ato da vida cristã deve revestir um duplo caráter: honrar a Deus e santificar o homem. Isso redunda sempre em homenagem, porque, de fato, quem se, santifica, serve a Deus, portanto louva-o cada vez melhor. Quando falamos, porém, de santificação, visamos de preferência o aspecto humano da obra, tornando-se assim o homem o seu fim imediato, e Deus o fim ulterior.

Não convém separar estes dois aspectos da oração; digo mais, é preciso não os separar. Distingui-los a fim de melhor as conhecer, está muito bem, mas na vida prática devem ficar unidos. A oração é o ato de adoração por excelência; e é sempre benéfica ao homem.

A oração individual parece, às vezes, corresponder melhor às exigências da alma, por se adaptar a ela. Não é a oração mais fervorosa a que mais agrada a Deus? Mas a oração pública corresponde melhor às exigências da glória divina. E corresponder melhor às exigências da glória divina é mostrar melhor a Deus o amor que lhe temos. Não lucra com isso a nossa alma?

Querer, pois, separar estas duas formas de piedade redundará em maior confusão, porque não devem estar separadas, e sim unidas, e em combinação uma com a outra, apoiando-se uma na outra, assim como a natureza individual do homem não se há de separar da sua natureza social. O homem realiza na sociedade o seu fim individual; uma das qualidades da sua natureza individual é ser sociável e só poder expandir-se plenamente na vida social e por meio dela. Não as separemos, pois. A Igreja, mais uma vez, mostra-se perfeitamente sábia, colocando o culto público acima da piedade particular e servindo-se da piedade individual para vivificar o culto público.

Se forem colocados um ao lado da outra, sem formarem um sistema, cada um, conforme seus gostos, há de sacrificar esse ou aquela… Existem estas duas falhas, e há religiões puramente rituais; o cisma ortodoxo parece ter incorrido, não raras vezes, neste erro. Quanto ao protestantismo, pretendeu limitar a religião à vida individual. O catolicismo caminha entre os dois.

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O culto social da Igreja nasce com a própria Igreja na celebração, em comum, da Eucaristia pelos Apóstolos.

Logo que a Igreja se tomou livre, os fiéis devotos começaram, sem mais, a reunir-se nas igrejas para rezarem juntos, sob a direção do clero. Este costume que se fixou e se regularizou no decorrer da Idade Média, nas ordens monásticas e nos capítulos canônicos, dando origem aos ritos da Missa e ao Ofício canônico, tais quais existem hoje no missal e no breviário. A vida cristã organiza-se nesse quadro, sem que ninguém pense em esquivar-se. A Idade Média é litúrgica sem o saber.

A decadência da liturgia começa na Renascença sob a influência de múltiplos fatores. Mencionaremos apenas um: o individualismo.

O homem da Idade Média tem o sentimento social desenvolvido; o pensamento da Renascença exalta o indivíduo, e esse individualismo está ligado por laços estreitos à tendência psicológica, da qual já tratei aqui longamente. O indivíduo é exaltado, analisado; a emancipação do pensamento individual é proclamada. Um dos elementos que talvez tenha contribuído para o desenvolvimento desse individualismo, dispensando os particulares de se ocuparem dos negócios públicos, é o estabelecimento das monarquias absolutas. As democracias, embora muitas vezes tempestuosas, ou talvez por isso mesmo, desenvolvem o senso social, obrigando cada um a se interessar pelo bem comum.

Este individualismo repercute, evidentemente, entre os católicos; chama a atenção para aquilo que é de benefício imediato para a alma. Já falamos do lugar que ocupa, naquela época, a oração mental sistematizada, que se torna o elemento essencial da vida interior, não acima da Missa ou do Ofício, nem contra a Missa e o Ofício, mas ao lado da Missa e do Ofício. Assim também a importância das orações particulares, como o Rosário, tende a aumentar.

Tal a situação do século XVI. Os autores de então conservam o culto da liturgia, e limitam-se a acrescentar um elemento novo, que colocam ao seu lado. Não é outra a atitude de Santo Inácio, atitude aliás pouco conhecida. Nas Anotações, que ele coloca no princípio dos Exercícios, declara, na vigésima, que o retirante deve procurar ir todos os dias à Missa e às vésperas. Como pode, por conseguinte, em nossos dias, muita gente pensar que haja contradição entre os Exercícios e a liturgia!

A atitude de São Francisco de Sales é a mesma. Ambos, neste sentido, são, pois, litúrgicos. Alguma coisa, no entanto, mudou, mudança que as circunstâncias exteriores vão acentuar.

A decadência do senso social e o desenvolvimento do individualismo reagirão pouco a pouco contra o gosto do culto público. Permanecemos cristãos, procuramos a perfeição na união com Deus, por nosso Senhor, mas damos menos importância ao fato de sermos membros da sociedade humana visível, que é a Igreja. Os ritos da Missa, do Ofício, a união com a Igreja no ano litúrgico, engolfam-nos numa atmosfera católica, dão-nos o sentimento da nossa união com o Corpo místico. Toda a tradição vibra aí, dos profetas nos salmos aos séculos modernos, nos hinos e nas festas dos santos. Adquirimos o espírito católico, mas de modo geral, de alcance longínquo, que faz de nós, primeiramente, membros ativos da Igreja, para, depois, nos tornar capazes de nos santificarmos na Igreja. A partir do século XVI, enfraquecendo-se o senso social, firmando-se o moralismo, vamos perdendo o hábito das grandes verdades e procuramos, de preferência, a eficácia da piedade sobre a alma. O coração não se prende mais ao Ofício; continuamos a venerá-lo, por ser rito público da Igreja, mas damos preferência a outras devoções. A bênção, por exemplo, excita mais vivamente a sensibilidade, e é justamente isso que procuramos.

Há ainda outros elementos: o desenvolvimento da cultura intelectual; o intelectual que se vai tornando facilmente um individualista; a necessidade de reagir contra a atmosfera de mais a mais leiga do meio, que restringe a vida cristã, concentrando-a na alma.

Estes elementos se entrecruzam e explicam como a oração, introduzida primeiro ao lado do Ofício, tende, pouco a pouco, a absorvê-lo. As devoções particulares multiplicam-se até atingirem quase esse estado de individualismo radical, contra o qual o movimento litúrgico atual constitui reação salutar e providencial.

Qual é, neste movimento, o verdadeiro lugar de São Francisco de Sales? Tudo quanto já dissemos basta para o demonstrar.

O movimento individualista esboçava-se; a tradição litúrgica da Igreja ainda estava em pleno vigor; São Francisco de Sales, como Santo Inácio, estava compenetrado dela. A Missa é para ele o centro da vida, e vem antes da oração.

“É preferível, de todo modo, ouvir Missa todos os dias, com as orações que lhe são próprias, a não assistir a ela sob pretexto de continuar a rezar em casa” (15)

Assim também ele ensina que na Santa Missa devemos “oferecer com o sacerdote o sacrifício da nossa Redenção, a Deus Pai, para nós e para toda a Igreja”. Dá repetidas provas de estima pelo Ofício. E, entretanto, parece-me que lhe falta alguma coisa… Falta-lhe, creio eu, exatamente o seguinte: Esboçando-se, então, um movimento, que ia afastar os cristãos do espírito social cristão e do espírito litúrgico, ele não percebeu até onde havia de chegar, não pressentiu a necessidade que havia de reagir. Participa do espírito do seu tempo, mas nesse setor não o dirige. Sua ação pessoal exerce-se toda sobre a vida interior. No que diz respeito à vida pública, seu pensamento nada tem, por assim dizer, de pessoal. Demais, nada indica que, para ele, ofícios públicos sejam o que, de fato, chamamos ofícios litúrgicos. No seu tempo, eram ainda as vésperas o grande oficio da tarde, e ele nada faz para as diminuir. Pelo contrário, sendo tal o culto, ele procurou torná-lo o mais perfeito possível, quis que as vésperas fossem bem cantadas, e quis também que as orações das Quarenta Horas, extra-litúrgicas, fossem celebradas solenemente.

A ideia de trabalhar para dar realce ao culto social da Igreja, como culto social, não lhe passa pela mente. E quando forma as suas Visitandinas, a quem impõe somente o pequeno ofício da Santíssima Virgem, fica patente que ele nunca pensou em falar-lhes de liturgia.

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São Francisco de Sales fica sendo, assim, o doutor da perfeição individual, da devoção, da união da alma com Deus. É isto, e nada mais. Estimemo-lo, veneremo-lo e amemo-lo como é. Há muitas moradas na vasta catedral da Igreja e no próprio Espírito há diversidade de dons.

É o mestre da vida interior. Saibamos colocar a sua doutrina, como ele próprio diria, no coração de nossa vida e na vida de nosso coração. Ajuda-nos a encontrarmos a Deus em nossa alma, e com isso, de modo algum, exclui aquilo que não ensina, enquanto dilata as almas à luz divina, torna-nos mais aptos a compreender os mestres da dogmática e os apóstolos atuais da vida social do cristão, no corpo místico da Santa Igreja. Mas não vamos procurar nele o que não nos pretende dar. É grande ciência conhecer os santos tais quais são, e depois venerá-los conforme os conhecemos.

Formação das Almas

São Francisco de Sales é um educador que nunca se ocupou de educação.

Coube-lhe apenas formar adultos. Emprega, para este fim, o dom do discernimento das almas, dom por excelência do educador, dom real, sem o qual os outros pouco valor têm, dom que excede quaisquer normas ou métodos ou regras, o dom de observar as almas, de ultrapassar o invólucro de carne e de descortinar o que constitui a personalidade de cada um.

O educador deve ser capaz de sair de si mesmo para viver nos outros, de sentir com eles, de apoderar-se dos seus pensamentos, com gradações próprias.

Ninguém, como São Francisco de Sales, possuiu esse dom de adaptar-se à diversidade das almas, ninguém teve, mais que ele, o amor, o gosto das almas, a alegria de ver nelas o reflexo de Deus.

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Nos primeiros anos do episcopado, foram principalmente senhoras da sociedade que o santo dirigiu. Só mais tarde, depois de fundar a Visitação, ocupou-se, em primeiro lugar, de religiosas. Dessas, aliás, as primeiras serão recrutadas entre essas mesmas senhoras formadas por ele.

Para São Francisco de Sales, como já vimos, o mundo não se apresenta como um antro de vícios, de que devemos fugir a todo custo. O mundo, conforme o conheceu na sua família, é digno de respeito. Além disso, sacerdote secular, contente com o seu estado, não pode considerar uma regra religiosa como necessária à perfeição.

Dirigindo senhoras de posição, ele não se propõe aconselhar-lhes a fugir do mundo e a adotar uma regra de vida apertada, tal qual é praticada na vida religiosa. Esta ideia, embora bastante generalizada na Idade Média, e adotada por certos diretores, não tem sua aprovação.

Quem dirige almas “seculares” para a perfeição, procura fazê-lo sem lhes impor qualquer espécie de regra religiosa, já que o método de santificação é diferente. As regras religiosas, forçosamente, organizam, para aqueles que tendem à perfeição, um plano exterior uniforme que todas devem seguir, com as mesmas observâncias, as mesmas práticas de piedade, até com atitudes idênticas. Para os leigos, é mister procurar outra coisa que supra esta norma. Precisam de um amparo interior. Devem adquirir têmpera.

Santo Inácio de Loyola já havia tentado alguma coisa nesse sentido nos seus célebres Exercícios espirituais, e todo o método ascético dos jesuítas neles se inspira. O plano exterior é substituído pela formação da vontade. O jesuíta, e aqueles a quem forma, são homens de vontade firme, que fazem o bem porque querem, porque o acham razoável, e porque submetem a vontade à razão.

São Francisco de Sales vai de preferência ao coração. É o amor que guia o homem, e ainda mais a mulher, e são as mulheres que ele dirige, ao passo que Santo Inácio, quando compunha seus Exercícios, pensava mais particularmente nos homens.

“Tudo é do amor, no amor, para o amor e de amor na santa Igreja” (16)

A perfeição cristã consiste também no amor; e o caminho que a ela nos conduz é, ainda, o amor. Aprende-se a amar, amando-se. Tudo mais é de pouca monta, se não visar o amor.

“Quanto a mim, Filotéia, jamais pude aprovar o método daqueles que para reformar o homem começam pelo exterior, pelos gestos, pelos hábitos e pelos cabelos”

Poder-se-ia tomar isto como uma sátira às ordens religiosas, porque a primeira coisa a fazer quando um jovem ou uma donzela é recebido num convento, é “tratar do exterior, dos gestos moderados, do hábito, dos cabelos”. É óbvio que São Francisco de Sales não teve semelhante ideia. O primeiro comentário, aliás, que um bom mestre de noviços faz ao jovem religioso, depois da tonsura, da vestição, e da recomendação de como se há de portar na comunidade, é que ele ainda nada fez, e que a obra da perfeição só começa depois do exterior se achar em ordem.

Isso não impede, porém, que nos conventos, devido à vida de comunidade, se principie pela exterioridade, levando os fiéis a crer que a obra da perfeição deve começar por aí.

São Francisco de Sales não concorda com isto.

“Parece-me, pelo contrário”, continua ele, “que se deve começar pelo interior. Converte-te a mim de todo o teu coração, disse Deus; meu filho, dá-me o teu coração. Sendo o coração a fonte das ações, estas serão conforme for aquele. O Esposo divino convida a alma: Põe-me como um selo sobre o teu coração, como um sinete sobre o teu braço. Sim, na verdade, quem tem a Jesus Cristo no coração, tê-lo-á em todas as suas ações exteriores… Em suma, quem ganhou o coração de um homem, ganhou-o todo inteiro” (17)

Pouco importa a matéria dos nossos atos, só o amor tem valor, — eco fiel da mais antiga tradição cristã. Não disse São Paulo que o amor se pratica no comer, no beber, em tudo quanto se faz? A originalidade de São Francisco de Sales está em ter ele insistido sobre este ponto de modo quase exclusivo, e de o ter aplicado com tanta assiduidade na sua direção e nos seus livros, que esta doutrina ficou doravante ligada ao seu nome.

O seu discípulo, procurando unicamente a prática do amor, será indiferente às mil modalidades sob as quais se pratica este amor. Há, na espiritualidade, certa praxe aceita como nas formalidades do mundo. Quando cogitamos de nos santificar, ocorrem-nos logo ao espírito umas formas de oração e de mortificação, que são de certo modo “chapas”. São Francisco de Sales pouco se incomoda com isso. A quem se queixa de não poder recolher-se durante muito tempo, — sem dúvida a hora, ou meia hora de orações prescrita — manda que o cumpra mais brevemente, mas com maior frequência.

Devemos praticar o amor onde o encontrarmos. Às Irmãs da Visitação, o bom Pai está sempre a pregar que o amor não se prova com o brilho das ações, mas com o fervor com que são praticadas. Quanto às ações, ah! cada qual pratique as que se lhe deparam na vida.

“Pega-se no que se acha!” dir-se-ia hoje em linguagem familiar. Haja amor, é quanto basta.

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Na espiritualidade salesiana, a conformidade com as contrariedades da vida ocupa também lugar importante. É assim que São Francisco de Sales prepara o nosso século.

Quem vive no mundo, tem contrariedades a todo momento. Ora é um marido pouco delicado, ou filhos pouco obedientes, ou falta de saúde, ou lidas caseiras, ou então relações sociais um tanto difíceis. As mortificações artificiais, as que nos infligimos por nossa livre vontade, têm, em suma, muito menos importância do que essas contrariedades de cada instante. Só terão importância para alguns entes privilegiados, a quem a vida não pede tais renúncias, ou que as suportam de modo tão perfeito que podem abordar uma etapa ulterior.  Estes são, porém, pouco numerosos. Na vida das almas medíocres, a mortificação artificial constará de pequenos exercícios para domar a vontade, pequenas práticas de secundária importância.

A maioria dos autores espirituais dirige-se a um público diverso do de São Francisco de Sales. São quase todos mestres de noviços, ou diretores de religiosas contemplativas, e seus livros são o fruto de suas pregações.

Ora, tanto essas como aqueles fugiram das preocupações do século para se dedicarem, na solidão, ao cuidado do próprio aperfeiçoamento, ficando, assim, livres de muita inquietação. Vivem enclausurados, debaixo de regras estabelecidas, com o intuito de se santificarem do melhor modo. Não tendo encargos nem de família nem de casa, nem de sociedade, convém criar-lhes mortificações artificiais como sua vida.

Nenhum noviciado, nenhum convento de contemplativas, representa a vida ordinária dos homens. São necessários, pois, meios maleáveis ao se aplicarem as regras da vida espiritual de um noviciado, ou de um convento, às pessoas que vivem no mundo.

Quando tais pessoas, que visam a perfeição, consultam livros que tratam do assunto, encontram, muitas vezes, uma fonte de erros, isto é, de conselhos que não lhes convêm, porque não foram escritos para elas. Ora, o singular serviço prestado por São Francisco de Sales foi ter ele escrito primeiro para os leigos. Mais tarde, mesmo quando se ocupou de religiosas, ocupou-se de uma Ordem que ele mesmo fundara, tendo em vista pessoas demasiadamente fracas para praticarem as mortificações em uso até então nos conventos. Continuou assim na direção de religiosas o sistema que havia inaugurado com gente do mundo, reduzindo a quase nada as mortificações que nos impomos diretamente, e insistindo sobre a aceitação daquelas que nos sobrevêm espontaneamente da vida em comum, e das que resultam da nossa índole.

“Pequenos atos cotidianos de caridade, uma dor de cabeça ou de dentes, um resfriado, exigências do marido ou da mulher, o quebrar de um copo, o desprezo, o mau humor, a perda de uma luva, de um anel, de um lenço, o incômodo de, às vezes, nos deitarmos cedo e nos levantarmos de madrugada para rezar, ou comungar, certo respeito humano quando praticamos atos de devoção em público, enfim, todos esses pequenos sofrimentos, se forem recebidos e abraçados com amor, agradam extremamente à bondade divina, a qual prometeu que, em troca de um copo d’água dado de boa vontade, receberíamos um oceano de felicidades” (18)…

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É sobretudo no sofrimento aceito que o amor se manifesta. Isto também é tradicional na espiritualidade cristã, e baseia-se no exemplo do próprio Cristo. É um dos pontos principais do cristianismo. Todos os santos amaram, abençoaram e procuraram o sofrimento.

São Francisco de Sales foi, sem dúvida, um dos que menos o procuraram. Fiel ao seu sistema geral, contenta-se em deixá-lo vir, aceitando-o e abraçando-o amorosamente quando se lhe apresenta. Não parece ter sido muito tentado a praticar a renúncia heroica, mas um tanto esquisita, de um São Francisco de Assis. Quando se refere aos santos que praticaram Coisas extraordinárias, como os Estilitas ou padres do deserto, fá-lo concitando as almas a imitá-los apenas o amor. A vida de todo dia oferece-nos ocasiões de provar o amor que temos a Deus, além de bastantes contrariedades, para que seja preciso procurarmos outras a nossa vontade.

“Vejamos o grande Jó: Ei-lo rei dos miseráveis da terra, assentado sobre o monturo como sobre o trono de miséria, coberto de chagas, de úlceras, de podridão, como outros tantos mantos reais a ostentarem a magnificência de sua realeza, tão abjeto e abatido, que, se não tivesse falado, não teria sido possível discernir se era um homem reduzido a um monturo ou se o monturo era uma podridão em forma de homem. Ora, ei-lo, digo eu, o grande Jó que exclama: Se recebemos os bens das mãos de Deus, por que não receberemos Dele, também, os males? Que grande amor e confiança manifestam estas palavras! Ele julga, Teótimo, que foi das mãos de Deus que recebeu os bens, testemunhando que não os estimará só porque eram bens, mas sobretudo porque provinham da mão do Senhor. Assim sendo, conclui que devemos suportar amorosamente as adversidades, visto como procedem da mesma mão do Senhor, igualmente amável quando distribui aflições e dá consolações. Os bens são recebidos de boa vontade por todos, mas quanto a aceitar os males, isto só pertence ao verdadeiro amor que os preza só porque são amáveis em virtude da mão que os dá” (19)…

Jó representa a perfeição tal qual aparecia a São Francisco de Sales. Rico, agradeceu a Deus, fez bom uso das riquezas, mas conservou-as. Pobre, agradeceu igualmente a Deus. Agradece sempre, porque tudo quanto lhe acontece é mandado por Deus, mas não procura o sofrimento. Sua santidade consiste nessa conformidade fiel, constante, imutável, a respeito de tudo.

A santidade do tipo de Jó não daria ao mundo um São Francisco de Assis, ou uma Santa Catarina de Sena, um Santo Antônio, o Eremita, ou um São Bento, nem muitos outros grandes Santos, que dão glória à Igreja… Não daria nem uma Santa Joana de Chantal… E isto prova que não devemos tomar ao pé da letra o que diz São Francisco de Sales, quando prega a simples submissão às circunstâncias. Na vida de Santa Chantal, viúva com quatro filhos pequenos a educar, e grandes bens a administrar para eles, essas não pareciam destiná-la a ser religiosa e fundadora de Ordem.

São Francisco soube descortinar nela a vocação extraordinária, soube aceitar a responsabilidade de levá-la a deixar a via comum e induzi-la a uma iniciativa audaciosa, que nem todos aprovavam.

Este fato, o mais importante de sua vida, — porque a fundação da Visitação foi a sua grande obra; — mostra o alcance de sua admiração pelo santo homem Jó. Aconselha-nos habitualmente a procurarmos a perfeição pela simples aceitação das vicissitudes da vida; o amor prova-se pela docilidade com que se acolhe a vontade divina, e esta se manifesta pelas circunstâncias. Mas para certas almas privilegiadas o chamamento divino se manifesta de modo extraordinário, e essas devem ser tratadas também de modo excepcional.

São casos raros, porém. Fora deles, a direção de São Francisco de Sales fica uniformemente ligada à fidelidade muito atenta ao serviço de Deus, segundo o estado. Cada um se abandone ao amor, tratando tudo mais como meros acidentes, que servem unicamente para o manifestar ou exaltar.

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Outro ponto importante da espiritualidade salesiana é certa indiferença pelas coisas de pouca monta.  Ainda aqui, São Francisco de Sales reage contra um estado de espírito que a vida religiosa suscita quase necessariamente. Sendo vida de comunidade, acarreta bom número de regras, que constituem, de certa forma, as convenções da vida religiosa. Tais hábitos são indispensáveis para manter a ordem na vida comum. Mas como constituem a norma exterior da vida, e como o homem é propenso a se deixar fascinar pelo exterior, existe um perigo contínuo dessas práticas exteriores — atitudes, gestos, fórmulas, — serem tidas como o essencial da vida prática. Os superiores, mestres de noviços, diretores espirituais de religiosos e religiosas, não deixam de chamar a atenção para esse perigo.

É perigo maior ainda para as pessoas do mundo que, tendendo a modelar-se nos religiosos, só lhes percebem a vida exterior. Assim, a fim de induzi-las a uma perfeição interior, é necessário frisar a pouca importância das práticas exteriores. São Francisco de Sales se distingue neste ponto entre todos.

Não despreza, entretanto, a ascese tradicional. Adota todos os hábitos que as eras cristãs nos transmitiram; tudo se encontra em seus livros e nas suas cartas: oração à hora fixa, segundo um método, exame de consciência, mortificações, jejuns, disciplina e tudo mais; mas tudo tratado de passagem, e de modo a fazer sentir que não é o essencial.

Incute assim em suas penitentes um espírito de liberdade, que as torna muito dóceis nas mãos de Deus. Liberdade dos filhos de Deus, que é liberdade em relação ao mundo e submissão em relação a Deus.

Encontrando por toda parte meios de praticar o amor divino, o discípulo de São Francisco de Sales torna-se independente das circunstâncias. Que importa se a vida o favorece, se o cumula de bens e de honras, ou se o aniquila, o engolfa no sofrimento, na miséria, na enfermidade? Por toda parte, e sempre, verá em tudo o amor divino e amará a Deus no mundo que o reflete.

Ninguém melhor que ele soube realizar na vida cristã esse desapego das criaturas que o estoicismo antigo havia pregado, mas de um modo duro e desesperador, porque não estava preso ao amor. Pelo desapego, São Francisco de Sales desprende-se do terrestre para se unir ao divino. Aparece, então, radiante de alegria.

O discípulo de São Francisco é também inteiramente desapegado e verdadeiramente independente. Essa independência, porém, não traz consigo excentricidade alguma. Esse desapego não leva a desprezar os hábitos legítimos do mundo, mas a dominar-se sem dificuldade, porque tudo lhe é indiferente.

“A devoção não é mais que uma agilidade e vivacidade espiritual, por meio da qual a caridade opera em nós, ou nós por meio dela, pronta e afetivamente” (20)…

Mas “deverá ser praticada diversamente pelo fidalgo, pelo aristocrata, pelo operário, pelo servo, pelo príncipe, pela viúva, pela casada; será ainda necessário ajustar a prática da devoção de acordo com as forças, os negócios e os deveres de cada qual” (21).

O devoto salesiano estará, pois, à vontade no mundo, e não se fará notar por nenhuma anomalia; pelo contrário, seu próprio desapego o induzirá a dobrar-se com extrema facilidade aos hábitos em uso. Não se deixará apegar a essa ou àquela maneira de vestir-se ou de pentear-se; porque era moda antigamente, nem tão pouco há de querer a devota salesiana obrigar suas filhas aos usos do “seu tempo”, quando estes sejam diversos dos de hoje…

São Francisco de Sales fica sendo assim, perante a história, o inventor do devoto que dança, que se veste bem, que gosta do progresso, o inventor da devoção amável. Na realidade, nada inventou. Na Introdução à Vida Devota, ele mesmo lembra o exemplo de Santa Isabel da Hungria, que dançava, “nas reuniões de passatempo”. Esse gênero de devoção fica, todavia, ligado ao seu nome, porque ele soube expor o seu método de maneira encantadora e com maestria definitiva.

Mas essa facilidade em se dobrar aos usos provém da liberdade de espírito, e não a estorva. O devoto salesiano torna-se independente deste mundo, cujos usos aceita, sabendo, no entanto, libertar-se deles quando refletem preconceitos que viciam o espírito do mundo.

Esse espírito do mundo põe num mesmo plano os hábitos mundanos e a vontade de Deus. Faz desses hábitos, por mais artificiais e passageiros que sejam, um absoluto que ninguém pode transgredir. Impõe a tirania da opinião, das convenções recebidas. Aqui o discípulo de São Francisco de Sales mostra o que é a liberdade dos filhos de Deus.

Admite, sem dificuldade, os costumes legítimos, adapta-se à vida que deve levar no meio em que o colocou a divina Providência; veste-se como os outros se vestem, emprega as mesmas fórmulas de polidez, aceita as mil e uma regras que a sociedade prescreve, mas aceita-as num total espírito de liberdade, sem apego, respeitando-as só enquanto são respeitáveis. Quando, porém, as convenções sociais se opõem à vontade divina, o discípulo de São Francisco de Sales despreza-as logo, e sem pesar, porque, evidentemente, o seu coração não lhes tem o menor apego.

***

A santidade assim formada nas almas por São Francisco de Sales é, à primeira vista, insignificante. Chegado ao fim da vida, os cônegos de Annecy, que tão bem o haviam conhecido, admiravam-se ainda de sua fama de santidade, pois não viam nele nada de extraordinário.

Mas quem dele se aproxima sente um ardor suave que chega sem ruído. É um tanto semelhante a esses apartamentos modernos, cuja iluminação indireta, com lâmpadas escondidas cá e lá atrás das molduras do teto ou dos lambris das paredes, chega de todo lado, sem percebermos donde vem a luz. Assim também com São Francisco de Sales, o amor penetra por todo lado, está em tudo e em toda parte; é um movimento do coração que derrama, sobre toda a vida, luz e calor em partes iguais. Nenhuma luz é mais clara, nem mais branda; nenhuma chama aquece mais, nenhuma queima menos.

Amar a Deus igualmente em todas as coisas. “Ele não se desviou da regra comum”, diz Santa Joana de Chantal, ao depor no processo de canonização, “mas de modo tão divino e tão celeste que nada, em sua vida, era tão admirável como isto”. Quanto mais nos aproximamos dele, melhor o conhecemos, mais queremos imitá-lo, e mais compreendemos o que há nele de desprendimento total, de amor heroico, de dom completo nesse simples abandono, perpétuo, constante, de cada momento, de cada ação, de cada circunstância, sem retorno sobre si mesmo, sem busca de satisfação própria.

“A tentação seria tomá-lo por um homem qualquer, bom, calmo, dócil e honesto, mas cuja virtude nada tem de extraordinário; se, porém, lhe seguirmos os passos, eis que de repente nos inunda viva luz: sua santidade, sem nos dar nem avisos nem provas, envolve-nos bruscamente” (22)

É isto mesmo. Envolve-nos. Não nos ofusca, não nos esmaga, mas envolve-nos.

São Francisco de Sales em oração

Um Primoroso Espírito de Santidade

 Desprendimento dos Afetos

Este estudo não será muito longo. Retrata, no entanto, um aspecto importante, um dos sinais mais sintomáticos, da perfeição apurada de São Francisco de Sales.

Perfeição aprimorada. A beleza perfeita, a arte delicada não é aparatosa. Nada mais sóbrio que a Vênus de Milo, o Partenão ou a Gioconda. Nada mais simples que os Evangelhos. É verdade que existem belezas de ostentação: Miguel Ângelo, Rubens são criadores de beleza. São Francisco de Sales não pertence a esta escola.

Sua virtude não chama atenção. Gomo ele, é discreta. Como ele, homem de boa sociedade, reveste a mesma distinção. Mas ao observador atento a virtude de São Francisco de Sales revela-se tão cheia de firmeza, tão aprimorada e tão harmoniosa, que se pode dizer que ele é um dos santos mais virtuosos.

Todos os santos amaram heroicamente a Deus. Todos praticaram, de modo eminente, determinadas virtudes. Muitos apresentam lacunas. Há neles, na formação do caráter, brechas sobre as quais o amor de Deus lança um espesso véu, mas que subsistem…

São Francisco de Sales é como uma bela tábua de madeira preciosa, escolhida a dedo, bem esquadriada, bem aplainada, bem envernizada, tão bem polida, que os olhos não percebem um único nó, nem a mão encontra nenhuma aspereza. É como belo estofo, simples à primeira vista, mas de um colorido e tecido tão combinados que o olhar fica preso.

Essas virtudes discretas, mas bem trabalhadas, explicam a irradiação do santo. O desapego dos afetos é uma virtude tão rara e tão heroica, que poucos santos a souberam praticar até ao fim.

***

Há um desapego dos afetos que consiste em renunciar à família, aos amigos, às ambições do mundo, para se consagrar a Deus. Este desapego é bastante frequente, e, sobretudo entre os missionários, muitas vezes radical.

Os afetos de que o religioso se desapega são, então, substituídos por outros, que raramente desaparecem: apego à ordem religiosa a que pertence, apego à obra a que se dedica.

Mas será mesmo necessário desprender-se deles? Certos afetos são de obrigação. Se o religioso, ao entrar para o convento, renuncia à família, não pode renunciar, todavia, a querer bem aos seus, aos pais que o puseram no mundo e o educaram, aos irmãos e irmãs que foram seus companheiros de infância e a que ficam ligados pelas afinidades de sangue e de educação.

Deve, igualmente, querer bem à Ordem religiosa para qual entrou. Escolheu-a, porque lhe pareceu a melhor. É lícito e natural que lhe dedique admiração e amor maior do que a qualquer outra; consagrou-lhe a vida, e o instituto religioso é para ele uma nova família. É justo que a ela se apegue, e deve apegar-se. Cada qual deve também amar a obra a que se dedica; entusiasmar-se por ela; dela orgulhar-se, pois só assim há de trabalhar bem… Então qual é o desapego que se há de neles praticar?

***

O desapego de si próprio. Devemos amar tudo que, em nós, se relaciona com a obra da nossa vida. Devemos amar porque Deus quer que a amemos, porque é ali que provaremos a Deus o nosso amor. Devemos amá-la somente por este motivo, e não por outro qualquer. Devemos amar a Deus nisso tudo, amar a Deus nos nossos, na obra que realizamos. Devemos, pois, amá-los como Deus quer que os amemos, e na medida em que o quiser.

Isto significa amar a esses bens em espírito de verdade, amá-los tanto quanto merecem, não mais, como bens subordinados a outros, que têm por objeto contribuir para o bem geral dos homens e a maior glória de Deus.

Mas o amor próprio, o apego básico que temos a nós mesmos, o desejo intuitivo e ávido em nós de querermos ser modelos de bondade, de verdade, de beleza, nos leva com violência, quase irresistível, a fazer de tudo aquilo que amamos outros tantos ídolos.

O bom cristão, em busca de humildade, chega a engolfar-se no seu nada. Mas o orgulho e o amor próprio apoderam-se de novo dele, quando já não se trata mais de sua pessoa, e sim daquilo a que se afeiçoara.

Quem viaja sozinho de trem, olha com desconfiança e antipatia para o intruso que pretende entrar no seu compartimento. Este, no entanto, entrando, instala-se, e logo se estabelece um laço de solidariedade e simpatia entre os dois viajantes, os quais, por sua vez, não veem com bons olhos qualquer outro que a eles se queira juntar…

Essa comediazinha da vida cotidiana repete-se e reproduz-se em todos os setores. Da comunidade de interesses nasce a estima e a simpatia. Isto é, aliás, legítimo, se não ultrapassa as medidas, porque então provoca oposição ou desprezo pelos outros. Os que exercem uma mesma profissão tornam-se solidários uns com outros, e ofendem-se se alguém insultar sua profissão, ou simplesmente opinar que qualquer outra lhe possa ser superior. Os habitantes de um país constituem um bloco contra o estrangeiro, não só para defenderem sua independência ou suas tradições, mas também para sustentarem que o seu país é o mais belo do mundo; o mesmo se dá com os membros de uma família.

Encontramos igual defeito nos que fazem profissão de virtude. Em geral, os cristãos devotos que trabalham nas boas obras não toleram a menor crítica àquela que patrocinam. Sendo deles, forçosamente há de ser perfeita, e enervam-se contra quem se atreve a considerá-la com suas falhas humanas. Os religiosos não se limitam a amar a Ordem a que pertencem, acham-na melhor que as outras, e o clero secular participa do mesmo defeito. Basta isso para indicar a origem da eterna rivalidade entre o clero secular e o regular.

A mesma fraqueza existe na concorrência entre obras de caridade e obras apostólicas. Veem-se apóstolos admiráveis, prontos a sacrificarem a vida até o último suspiro pela salvação das almas, que irritaram-se interiormente quando outros se dedicaram com igual êxito a um mesmo apostolado.

Outros ainda chegarão ao ponto de não tolerar o bem que se faz sem eles, e não hesitarão em prejudicar uma obra que lhes parece fazer concorrência a sua.

“As filhas da Visitação falarão sempre com muita humildade da sua pequena Congregação, e colocá-la-ão, no que se refere à honra e à estima, abaixo de todas as outras; dar-lhe-ão, todavia, preferência, no que diz respeito ao amor. Admitamos que as outras Congregações sejam melhores, mais ricas e mais excelentes que a nossa, mas nem por isso serão mais amáveis nem mais desejáveis para nós, porque nosso Senhor quis que fosse esta a nossa pátria, a nossa barca, e que o nosso coração estivesse unido a este Instituto…”

* * *

São Francisco de Sales conseguiu, de fato, desvencilhar-se dos afetos desordenados. Estará pronto a abandonar o que lhe toca mais de perto, até sua obra de predileção, logo que julgue amar nela algo que não seja da vontade de Deus.

“Eu sou bonachão por índole… Quero pouca coisa, e o que quero, quero-o muito pouco, não tenho quase desejos, e se tornasse a nascer, não os teria, de todo”

Talvez a natureza contribuísse de certa forma para isso; mas, sem dúvida, o sobrenatural dominava, porque, para quem tem uma alma ardente, é heroísmo amoldar-se sempre aos outros, sem nunca procurar impor suas ideias.

Era, pois, de extrema condescendência no dobrar de sua opinião e vontade, à opinião e vontade dos outros. O plano primitivo que formara para a Visitação era diferente. Queria que as Irmãs visitassem, às vezes, os pobres. Era uma inovação, pois até então as Ordens religiosas de mulheres eram enclausuradas, ficando as obras de caridade reservadas às Ordens Terceiras e confrarias, cujos membros viviam no mundo. Quando se estabeleceu, em Lião, a segunda casa da Visitação, o arcebispo recusou-se a aceitar este artigo da Regra. O fundador, depois de algumas tergiversações, acabou por se dobrar, e a visita aos pobres foi suprimida. Esta concessão foi muito criticada na ocasião, e ainda o é hoje em dia. Manifesta, porém, no mais alto grau, a virtude de desprendimento do nosso santo.

Renunciar ao bem que se julga poder fazer, parece-me ponto culminante do desapego. É fazer constantemente o bem que os outros nos pedem, fazer o que eles desejam e não o que nós mesmos desejamos.

Nisto está um dos principais fatores da atração que exerce São Francisco de Sales.

O entusiasmo das senhoras por M. de Genève (como era chamado), e a simplicidade com que as acolhia, chocava a certos espíritos. Alguém o censurou asperamente:

“Não sei por que motivo o procuram tanto, pois não vejo nada de mais nas palavras que lhes dirigis”

A que ele respondeu de bom humor:

“Será então pouca coisa deixá-las dizer tudo que querem? Talvez seja por este motivo que me procuram tanto…”

Já vimos, com efeito, que ele não era dado a falar muito. Era reservado, exteriormente, mas duma condescendência inesgotável. E essa condescendência provinha de que não procurava o que agradava a ele, e sim o que agradava aos outros, e nem sequer o bem que ele desejava, mas sim o bem que Deus desejava. Chegou mesmo a fazer, de modo habitual, distinção entre o bem que ele desejava, e o que era da vontade de Deus, distinção que supõe prodigioso domínio sobre si mesmo.

A verdade é que ele conseguira extinguir todo desejo próprio, a não ser o de servir a Deus.

***

Tendo Gerardo de Groot objetado a João Ruysbroeck que alguns textos dos seus livros davam ideia de panteísmo, respondeu-lhe este:

“É impossível, porque tudo que escrevi me foi ditado pelo Espírito Santo”

Exemplo de candura um tanto ingênua, de certas almas, todavia muito sobrenaturais. A quantos místicos, em seus êxtases, não aparece sua obra como o que há de mais importante sobre a terra!

Em São Francisco de Sales não se encontra nada de parecido. Ele é somente humilde, isto é, convencido do seu nada diante de Deus, mas é modesto, isto é, convencido da sua nulidade perante os homens. Não se julga infalível, não pensa que o bem que procura fazer seja superior ao que fazem os outros; nem que aquilo que ele idealiza seja precisamente melhor que aquilo que foi concebido por outrem. E se ama aos seus e às suas obras, se ama a sua diocese ao ponto de recusar-se categoricamente a deixá-la, não é para se engrandecer, é unicamente porque se trata da família, das obras, da diocese, em que a Providência o colocou. O que ama neles é evidentemente a mão de Deus.

O amor de Deus era nele, em verdade, puro e livre de toda imperfeição.

São Francisco de Sales na Visitação

São Francisco de Sales na Visitação

 Advertência

 A história desta tentativa é semelhante à de outras muitas. O autor, durante um santo retiro que fez, leu as Conferências espirituais de São Francisco de Sales, e ficou extasiado pelo encanto de vida cristã que delas emana. Anotou algumas passagens, redigiu umas reflexões. Notas e reflexões tomaram impulso e se desenvolveram. São as páginas que o leitor tem debaixo das vistas. Admirado, o autor mostrou o seu trabalho a alguns amigos, que o convenceram de publicá-lo.

Decide-se, pois. Não ignora os defeitos do seu trabalho. Objetaram-lhe que a matéria não estava bem dividida, que a introdução não estava devidamente ligada ao resto, que faltava a conclusão.

Reconheceu a justeza destas críticas e procurou corrigir o trabalho. Verificou que, ao querer aperfeiçoá-lo, que tirava precisamente o que lhe parecia melhor, — a espontaneidade do natural.

O labor intelectual não fora suficiente para refazer o que concebera na oração. Fique, pois, o leitor advertido. Isto não é um tratado de perfeição cristã, ainda menos um livro de história. São seis meses de vida espiritual, em união íntima com o grande Doutor que é São Francisco de Sales, que se escrevem nestas páginas.

E, justamente, o que tranquiliza o autor no momento em que ele as apresenta ao público com seu nome, é que quem vai falar, quase todo o tempo, é o próprio santo. Assim como na ordem vegetal, as estacas desaparecem sob a exuberância da folhagem, e das flores que suportam, assim também o autor tem consciência de não haver colocado, por sua conta, senão algumas forquilhas para escorar, emoldurar e dar realce à doçura das Conferências espirituais.

Bruxelas, 27 de junho de 1919.

São Francisco de Sales na Visitação

Os hagiógrafos pintam muitas vezes os santos como se fossem figuras de cera, uniformes e impessoais, com um sorriso sem vida, mais anjos que homens — anjos diferentes, aliás, dos verdadeiros, que possuem, cada um, sua personalidade própria e distinta, — anjos de cromo, tais quais os materializa a imaginação popular. Por que razão será?

O santo torna-se, então, um homem que não é mais homem, que não sente mais o que sentem os homens, que vive perdido, não se sabe onde, nem em que nuvens, num mundo inacessível aos outros. Os hagiógrafos que escrevem deste modo têm o desejo louvável de edificar o leitor. Enquanto contam muita coisa magnífica, exaltando os seus heróis, levam pouca gente a imitá-los.

Não ousaríamos caminhar nas pegadas de seres que não tocam mais no solo, quando nós estamos presos a ele. Seria melhor se ficássemos menos edificados e mais animados… Nos tempos apostólicos dir-se-ia que a Igreja era composta de santos, enquanto que hoje são poucas as almas simplesmente virtuosas. Como cogitar, então, de tornarmos a este idílio dos primeiros séculos? Admiramos, sem dúvida, tais santos, e tanto mais quanto mais distantes deles nos achamos, mas imitá-los é outra coisa!… Pessoas que se tornam santas de repente, no dia mesmo de sua conversão!… Vemos através da história uma decadência que nada detém. Não é de pasmar? Nas ordens religiosas incipientes, que fervor! Os primeiros companheiros de São Francisco de Assis, as companheiras de Santa Teresa, as primeiras Madres da Visitação! É de estranhar que não sejam todos beatificados… E depois, vejamos as religiosas de hoje, de certo boas como o pão, mas que, nem por isso, deixam de ter os dois pés na terra.

Quando nos arriscamos nas regiões pouco exploradas das primeiras fontes da história, ficamos atônitos. Mas ao abrirmos as Epístolas de São Paulo… desaparece a ilusão… Alguns desses coríntios, que se reuniam para o banquete eucarístico, traziam consigo um excelente jantar, banqueteavam-se à vista dos outros, oprimidos de fome! Era gente grosseira, folgazã. E os pobres cristãos da epístola de São Tiago, a quem ele trata de assassinos, invejosos, adúlteros — naquele tempo, atacava-se mais pronta e violentamente do que hoje, — parecem merecer essa indignação pela avidez com que queriam converter os ricos israelitas… com o fim de recolherem grandes somas, porque os neófitos costumavam entregar seus bens à comunidade, para serem distribuídos entre os membros.

É claro que não eram todos santos. Pelo menos nisso, aquele tempo assemelhava-se ao nosso…

Entre eles, no entanto, emergem algumas figuras possantes. São Paulo, por exemplo. Nele, de certo, tudo palpita santidade, cheio de Cristo, ele a Cristo irradia; Jesus é toda a sua vida. Mas como está ele longe das nossas figuras de cera! A tentação seria perguntar se há pecador mais humano do que ele? Ama, sofre, luta, como nós, isto é, dez vezes mais que nós. Sua vida não é atrofiada, mas decuplada; é mais intensa e mais ardente que a nossa. Ri-se e regozija-se com os que ama, mas sabe chorar com eles. Abramos suas epístolas e veremos que seu sofrimento é grande, já não pode mais, e suplica a Deus que o livre dele, mas submete-se à vontade do Mestre. “Basta-te minha graça”. Em todas as suas palavras sente-se o frêmito da natureza que se revolta. Como está perto de nós, apesar de estar tão longe, nas alturas da união divina. Como se conserva humano, embora divinizado, a ponto de dizer que já não vive, e sim Cristo nele! Como suas epístolas são mais humanas que a literatura latina do seu tempo, afetada e aparatosa! Basta comparar seus testemunhos de afeto com as saudações pomposas de Plínio. Não lhe falta absolutamente nada dessa espontaneidade e desse imprevisto que são a paixão do nosso século.

Assim, já ganhamos um segundo ponto. Se nem todos os primeiros cristãos mereciam ser canonizados, em compensação os que iam ter este privilégio não deixavam, unindo-se a Cristo, de ser homens, muito pelo contrário.

E um vislumbre de esperança surge agora em nossa frente.

Continuando as investigações, vejamos mais de perto os primeiros religiosos e as primeiras madres, os companheiros de São Francisco de Assis, e os primeiros dominicanos, os carmelitas e as cooperadoras de Santa Joana de Chantal; levantemos-lhes os véus, penetremos nos claustros, sondemos o íntimo da sua vida doméstica. Que encontramos? Homens bons, mulheres fortes e uma ou outra alma de escol. Quantas auréolas que se extinguem!

Não que os queira diminuir, antes pelo contrário. A mim, parecem-me mais belos assim, porque são homens de fato. Religiosos que são homens, que têm as mesmas dificuldades que nós, as mesmas paixões naturais, que se querem dar a Deus, e que lutam, não é isto muito mais sublime do que todos os anjos de cromo?

Mas é que sendo também homens, participam dos defeitos dos homens, e nem todos atingem esse heroísmo que a Igreja canoniza. Existem, até entre eles, almas fracas; algumas se abrem menos ao ideal e não se deixam arrebatar. Numa palavra, é tudo como hoje, — o que vemos, o que vivemos, — e não constitui isto sumo conforto? Alguns santos, também, não se santificaram logo, mas à força de lutas e de persistência. Há santos que se apresentam belos, porque são fortes e não insípidos, porque são almas valorosas. São mais dominadores e agrada-nos vê-los tão humanos no seu sobrenatural, com as raízes lançadas num solo também humano.

Mais ainda. Esses santos, grandes e verdadeiros, não deixam por isso de ter defeitos. Observemo-los de perto e veremos que continuam a ser de carne e osso. Conservam os olhos fitos em Deus, mas os dois pés estão na terra e se estes os levam onde os conduz o amor de Deus, vão normalmente, pondo um pé adiante do outro… Às vezes, se vierem a enganar-se cometerão uma “gafe”, como os outros, — e ao escrever isto, ocorrem-me diversos exemplos. Falam, como qualquer outra pessoa, do tempo e da chuva… Imaginaremos um santo dando os cem passos depois do jantar? Por que não? Como os outros, precisa também fazer a digestão. Afinal, só no céu aparecerão as auréolas.

Não haja, porém, dúvida: não pretendemos negar o prodígio nas vidas dos santos. O estado de união excepcional com Deus a que chegaram, os milagres que algumas vezes operam, são outros tantos fatos incontestáveis. São, entretanto, até certo ponto, coisas secundárias. A santidade não consiste em êxtases e em milagres. Tudo que apresenta, assim, um caráter extraordinário, não passa, por assim dizer, de acidentes, de graças que Deus concede algumas vezes, outras não, mas que não formam de modo algum o essencial da santidade. Finalmente, embora sejam estes os fatos que impressionam a imaginação, não são, na realidade, os que mais nos devem interessar. Devemos, de preferência, estudar aquilo em que os santos mais se parecem conosco, o caminho pelo qual, partindo do estado em que nós nos achamos, sem outros meios senão os que estão ao nosso alcance, atingiram às alturas em que os veneramos. E como nós nos sentimos profundamente, direi melhor, integralmente humanos, convém, antes de tudo, compreender bem que, neles, o sobrenatural não aniquila o homem, mas transforma-o elevando-o. A palavra o indica: sobrenatural e não contranatural. Jesus não veio destruir a humanidade, mas salvá-la.

Todas essas pálidas figuras de legenda não representam absolutamente o que o Cristo veio fazer, porque Cristo é vida e eles são puras quimeras. A natureza humana foi remida, purificada, elevada, transfigurada, divinizada, mas sempre permaneceu humana, assim como Jesus, o modelo único, o Verbo Encarnado, a segunda pessoa da Santíssima Trindade, é ao mesmo tempo homem, e homem verdadeiro, com alma e corpo e tudo que é do homem, exceto o pecado. Os santos são os seus amigos mais íntimos; ser santo é assemelhar-se a ele, nada mais. Como, então, deixariam de ser homens!…

Nunca me esquecerei do prazer que senti ao ler, um dia, que São João Crisóstomo era tão nervoso que andava de cá para lá, quando trabalhava. Bem sei que este sentimento não é lógico, e que o menor silogismo demonstraria logo o seu pouco valor. E tenho certeza, entretanto, de ser compreendido.

Muito me consola também saber que Santo Tomás — o grande Santo Tomás! — tinha um medo pueril de trovoadas. E o bom rei São Luís não admitia, depois do jantar, discussões sérias, pedindo que cada um se divertisse, contando “alguma pilhéria ou anedota jocosa”… E São Carlos Borromeu, que dormia durante o sermão. Não é delicioso?

Mas todas estas reflexões em torno do assunto sério entre todos, são apenas como que uma introdução para um livro sobre o qual eu gostaria de escrever algumas páginas, livro encantador, espargindo o perfume da verdadeira santidade: as Conferências Espirituais de São Francisco de Sales. Trata-se das conversações despretensiosas, no locutório da primeira casa da Visitação, em Annecy, entre o bom Bispo as primeiras religiosas. Elas faziam perguntas, e ele dava as respostas. Anotadas estas logo em seguida pelas Irmãs tais quais eram dadas, conservaram sua espontaneidade, como o espelho em que se reflete graciosamente todo o fervor da comunidade nascente e a poesia desta vida em Deus. Vida verdadeira, vida bem humana, mas banhada pelo sangue preciosíssimo do Redentor e acompanhada também de sua prosa, de suas fraquezas, o mais das vezes tão simpáticas, de suas ingenuidades e de seus arroubos, enfim, todo aquele não sei quê, que é a vida real, humana e divina.

São Francisco de Sales e Santa Joana Francisca de Chantal

São Francisco de Sales e Santa Joana Francisca de Chantal

O bom Pai e as caras Filhas

Em 1610, São Francisco de Sales — ele era então conhecido como Monsieur de Genève — fundara a Ordem da Visitação, instalando a baronesa de Chantal e três companheiras numa pequena casa, às portas de Annecy. A Congregação realizava o seu sonho de há muitos anos: Criar uma Ordem que pusesse a perfeição da vida religiosa ao alcance de todas as almas que, extremamente desejosas de se retirarem do bulício do século para viverem só para Deus, estavam impedidas “de o fazer por não serem bastante fortes, ou terem uma compleição pouco sadia, ou não estarem na força da idade” (23).  Naquele tempo, as Ordens femininas eram todas contemplativas, e as casas de observância regular, austeras. A Idade Média, que mal acabava, não compreendia a vida religiosa sem os rigores da penitência física, tornando-se assim o claustro inacessível às pessoas débeis. São Francisco de Sales vinha cogitando, havia muito, o modo de fornecer a estas pessoas um convento em que “se pudessem entregar à perfeição do Amor divino”.

A Visitação de Santa Maria foi esta a sua obra de predileção. Fundara, de propósito, o convento perto da sua casa. Nada se passava aí que não o soubesse, e sobre o qual não opinasse. Qualquer minúcia, por pequena que fosse, merecia sua atenção. À medida que os casos se apresentavam, ele os ia resolvendo, determinando assim, pouco a pouco, todas as regras, sem que nada lhe escapasse.

Vejamos, por exemplo, um extrato da crônica da primeira casa da Galeria (24):

“Minhas caras filhas, é preciso ter sempre grande respeito umas às outras. Sei que os Padres Jesuítas, embora se encontrem cem vezes ao dia, tiram cada vez o barrete. Quanto a vós, quando vos encontrardes, inclinareis a cabeça; mas, a fim de vos conservardes alheias às modas do mundo, fareis aos seculares apenas um cumprimento. Está bem assim, minhas filhas? E todas responderam que sim”

Quando estava em Annecy, ia vê-las quase todos os dias. Mesmo com mau tempo, chuva ou neve, não deixava de visitá-las duas ou três vezes por semana, ou mais (25).  Chegava a pé, sem dar importância à lama. Celebrava a santa Missa, confessava as Irmãs, dirigia-as, determinava as práticas, e, quando lhe sobrava tempo, reunia a comunidade. As Irmãs vinham pressurosas. Em poucos meses, dobrara o número e agora eram oito. Ele falava, ou, então, elas o faziam falar.

Testemunha-o o exórdio de uma conferência feita doze anos mais tarde, na Visitação de Lyon. A linguagem é a mesma. Ao entrar, disse:

“Boa tarde, minhas caras filhas. Venho dizer-vos o meu último adeus e entreter-me um pouco convosco, porque a Corte e o mundo me furtam o resto. Enfim, minhas queridas filhas, é preciso partir; venho despedir-me das consolações que até agora encontrei junto de vós; que nos resta dizer? Nada mais, não é?”

E com certa malícia:

“É verdade que as mulheres têm sempre uma resposta a dar. É melhor, porém, falar a Deus que aos homens”

Mas, queremos falar-vos a vós, para aprendermos a falar a Deus. O amor próprio, respondeu ele, serve-se deste pretexto. Dizem-lhe:

“Vamos, então, e não usemos de prefácio. Sentai-vos, por favor, porque as nossas Irmãs assim estão mal acomodadas”

Não se pode estar mais em família.

“Não falo agora como pregador, é uma simples conferência, em que cada qual dá sua opinião” (26)

Com bom tempo, instalavam-se no jardim.

“No dia de São Lourenço, no ano de 1612, nosso bem-aventurado Pai veio ver a nossa veneranda Fundadora, como sempre acompanhado de padre Michel Favre, seu capelão, sem o qual nunca entrava ali. As Irmãs desciam ao pomar da fonte e traziam-lhe uma cadeira, colocando-a  ao lado dos degraus que conduzem ao jardim, debaixo da latada e todas sentavam-se no chão, em volta dele”

Ei-las, essas irmãzinhas, sentadas em círculo sobre a relva, ao redor do bom bispo!

Outras vezes reuniam-se na cela da Madre de Chantal.

“Como, naquele tempo, ele estivesse a escrever o livro do Amor de Deus, nossas primeiras Madres perguntavam-lhe o que havia escrito desde a sua última visita” (27)

Tendo, entretanto, aumentado o número de vocações, as Religiosas, em dois meses, mais ou menos, chegaram a vinte. A casa da Galeria, já não as comportando, elas tiveram de se mudar. Empilhando os móveis no barco do lago, foram instalar-se no centro da cidade, numa casa mais espaçosa e mais próxima do paço episcopal. E as visitas do bispo continuaram no locutório do mosteiro. Era um local um pouquinho mais apropriado — e ainda assim!…

O convento de Annecy em nada se assemelhava aos grandes e pomposos claustros beneditinos. O locutório dava sobre a rua, e o barulho que vinha de fora obrigava o bispo a ser todo ouvidos.

“Que é, minhas caras filhas? Não ouço nada, pois as crianças fazem tanta bulha na rua, que me impedem de ouvir vossas palavras” (28)

Isto lembra-me outra história, que relação não tem com esta, a não ser que trata de crianças e de locutório, mas que cito assim mesmo, porque me parece interessante. Um dia, entrando numa comunidade, deixou a porta do locutório entreaberta:

“Bispo, disse-lhe a irmã rodeira, o vento que entra pela porta pode fazer mal”

Levantou-se ele para fechá-la, mas voltou logo, dizendo:

“Há ali tantas crianças que olham tão satisfeitas para mim que não tenho coragem de fechar-lhes a porta a cara”

Era ele verdadeiramente pai e elas suas “caras filhas”. As Irmãs apreciavam o valor das suas visitas. A Madre de Chantal, quando se ausentava, importunava-o com cartas.

“Peça-lhe, escreve ela à sua assistente, quando ele for aí com um pouco de vagar, que fale à comunidade, se concordar, naturalmente, — a fim de que possamos receber umas migalhas da abundância das consolações que lhes dá” (29)

É que as religiosas tinham por costume redigir as conferências, que depois circulavam pelas outras casas (30).  A isto, devemos o livro de Conferências Espirituais.

O bom prelado tomava parte em todas as festas da comunidade. No dia de Reis, tinha sua parte no boIo, certa vez, tendo-lhe cabido a faca por sorte, isso deu motivo a que exigissem dele uma “fala do trono”. Prestava-se, aliás, de bom grado, a tudo: “Estou muito satisfeito com todo nosso querido rebanho, com quem irei entreter-me, porque minha Madre assim ordenou”, escreve ele a Santa Chantal. Recebe de Deus graças especiais para lhes falar. Um dia, foi pregar no convento das Clarissas.

“O padre Michel (seu capelão) disse-me ao sair, que lá eu quase nunca falo como na Visitação. Ah! Não é porque não deseje muito servir a esta boa companhia de servas de Deus, mas devo dizer que a Divina Providência, que me dedicou à nossa querida Congregação, me dá graças, particulares para o seu serviço” (31)

Gosta de repetir que seria feliz se fosse confessor de Santa Maria “o que não mereço” e “dispensado de tudo mais”. Tendo ido a Lyon, “mostrou desejo de ficar hospedado no quarto do padre Brum, nosso confessor” (32).  Insistimos em lhe dizer que ali ficaria mal acomodado; respondia sempre que não, que ficaria melhor do que merecia, e, além do mais, estaria mais perto de suas caras filhas. E, como persistíssemos em lhe dizer que não ficaria bem ali, ele nos disse:

“Estou bem demais, não vos aflijais, mas conservai a paz do coração”

E acrescentou: “Estou percebendo que vos quereis ver livres de mim; mas, por favor, deixai-me ficar acolá, e não vos preocupeis, julgando que eu não esteja bem, pois em Annecy durmo num quarto dez vezes mais frio do que este”, e acrescentando:

“Sinto satisfação, quando alguém me pergunta onde estou hospedado, de poder responder que é em casa do jardineiro de nossas filhas de Santa Maria” (33)

Vejamos agora o reverso da medalha.

“Um dia em que veio celebrar a Santa Missa — estávamos ainda na casa da Galeria — tendo-se perdido a chave do coro, ele subiu para a grande galeria, sem dizer nada, pôs-se de joelhos, e rezou as orações preparatórias. Depois, como ainda não fosse encontrada a chave, passeou para baixo e para cima, meditando, enquanto as Irmãs iam devotamente espreitá-lo através das fendas da porta…”

Sempre que ele vinha ao mosteiro, elas faziam-lhe, como era natural, uma infinidade de perguntas. Ele já falava que “as mulheres têm sempre muito que dizer” e as conferências constam, na maior parte, de respostas às perguntas, que às vezes eram muitas.

“Começarei a Conferência já que algumas perguntas me foram feitas esta tarde, e sendo que duas se referem ao mesmo assunto, destas não falarei ainda hoje. A outra foi… a terceira perguntava…; a quarta queria… Mostrou-se em seguida nossa Madre desejosa que eu falasse sobre a obediência; e como sua idade e maternidade merecem consideração, resolvi começar o meu discurso tomando a obediência por assunto” (34)

É sempre cheio de atenções para com a “nossa Madre”. Em Lyon, pediram-lhe as Irmãs que fizesse uma conferência.

“Muito bem, disse ele, mas esperemos pela nossa Madre”

Quem manda é ela; quanto a ele, “não fala com caráter de pregador”.

Às vezes, quando se trata de temas delicados, as noviças são convidadas a se retirarem. Falando um dia sobre a votação para admitir ou não as aspirantes à profissão, porque a Visitação é um regime democrático e tudo lá obedece ao sufrágio universal, ele disse:

“As noviças poderão assistir à primeira parte, mas quanto à segunda, terão paciência de esperar até o próximo ano, quando a repetiremos, se for preciso”

No meio do discurso, estando elas em silêncio, na esperança de serem esquecidas, falou:

“Mas, antes de começarmos a segunda parte, retirem-se as irmãs noviças, e peçam por nós, enquanto estivermos a tratar do outro assunto” (35)

Imagino sempre, ao ler estas coisas, um sorriso bondoso, muito paternal, com uma pontinha de malícia… Enfim, a conclusão:

“Ninguém tem nada a dizer? Que horas são? Já recitastes as Completas? Quando pretendeis recitá-las? Ora, podeis ir, que já estou com receio de ser causa de irregularidades. Demais, minhas caras filhas, peço agora a nosso Senhor que vos abençoe. Deus vos satisfaça todos os desejos e vos dê a sua santa paz. Amém” (36)

Com um sinal da cruz, separam-se. As Religiosas vão para o coro e o bom Prelado dirige-se, por sua vez, aos seus aposentos.

Estamos longe da eloquência acadêmica e da devoção de maneiras afetadas. Quem, pois, ousará ainda dizer que São Francisco de Sales é insípido?

São Francisco de Sales apresentando a Regra para Santa Joana Francisca de Chantal

São Francisco de Sales apresentando a Regra para Santa Joana Francisca de Chantal

As palestras do bom Pai com as caras Filhas

Que estão eles a se contar, o Pai tão amoroso e as filhas tão afetuosas? Não se encontram para trocarem palavras de carinho, mas para trabalharem, — trabalho das almas — cujo primeiro e principal objeto é tratarem do espírito próprio da nova congregação. Se toda Ordem religiosa tem a mesma pretensão “de aspirar à perfeição da caridade” (37),  cada qual tem, além disso, o espírito que lhe é particular, que constituirá “o meio de chegar a essa perfeição”, e que certamente “difere conforme a Ordem”. A origem e a razão de ser da Visitação dão-nos a conhecer facilmente o espírito que lhe é particular: o “de profunda humildade para com Deus e de grande mansidão para com o próximo”. Não invejemos, pois, o brilho exterior das obras.

“As filhas da Visitação falarão sempre com humildade da sua pequena congregação, e considerarão as outras como superiores a ela no que diz respeito à honra e à estima; quanto ao amor, no entanto, hão de preferi-la a qualquer outra. Concordemos que as outras congregações sejam melhores, mais ricas, mais excelentes; não, porém, que sejam mais amáveis nem mais desejáveis para nós, porque nosso Senhor quis que esta fosse nossa pátria e nossa barca, e que nosso coração se prendesse a este Instituto segundo o parecer daquele a quem se perguntou qual era a mais agradável morada e o melhor alimento para a criança,  que respondeu: O regaço e o leite de sua mãe; porque, embora existam outros regaços e leites para a criança, não haverá, no entanto, nenhum mais próprio nem mais agradável” (38)

“Noutras Congregações praticam-se rigorosas penitências corporais. Nosso Instituto foi fundado para facilitar a entrada de moças e senhoras enfermas ou de saúde franzina, que não são bastante fortes para empreender, ou não se sentem inspiradas a seguir o caminho das austeridades no serviço de Deus e união com Ele, como fazem em outras Ordens religiosas. O espírito de mansidão é de tal maneira o espírito da Visitação, que se alguém quisesse introduzir nele mais austeridades, destruiria logo a Visitação” (39)

Não devemos, entretanto, confundir o sentido das palavras: brandura não quer dizer tibieza.

“Todos os Padres antigos são de opinião que, onde falta o rigor das mortificações corporais, deve haver maior perfeição interior”

Assim é que “todas as filhas da Visitação são chamadas a uma alta perfeição e sua tarefa”, embora modesta, “é a mais alta e a mais elevada que se possa imaginar” (40). Este espírito de mansidão será, ao mesmo tempo, um espírito de fortaleza.

O seu pensamento está bem claro, — pois eu já estava a ouvir gente asceta, — ou mundana, — encolher os ombros e falar de insipidez.

“E, no entanto, a devoção será forte e generosa”

Forte, e ele enumera oito caracteres desta força, que omitirei, se bastar minha palavra, e que são todos próprios para estimular as energias; generosa “para que não nos surpreendam as dificuldades, mas, pelo contrário, nos estimule a coragem” (41).

Além do mais, não falta zelo às filhas; pelo contrário, é preciso, às vezes, retê-las. “As Irmãs daqui estão indo muito bem”, escreve ele à Madre de Chantal, “e não há nada a dizer, senão que se querem esmerar o mais possível a fim de que a nossa Madre, quando voltar, ache tudo indo otimamente; isto as torna um tanto, pressurosas. Ontem tivemos uma conferência, na qual procurei incutir-lhes um espírito mais largo” (42).

É uma expressão bem de São Francisco de Sales! Torná-las mais generosas, mais à vontade com Deus. Porque, se mansidão não é tibieza, o constrangimento também não é perfeição, mas antes lhe é contrário. As obras de Deus se fazem em paz. O fervor agitado terá sempre alguma falha.

“Disse à nossa Irmã de Gouffié que bem quisera tornar a devoção das nossas Irmãs mais generosa e livrá-las da ternura que temos às vezes conosco, de certo melindre que nos tira a paz e nos leva a desejar doçuras espirituais e interiores, a desculpar nossos caprichos e a satisfazer nossas inclinações. Mas, minha caríssima filha, a tarefa ainda não está terminada, embora todas se encaminhem em direção ao fim” (43)

Ora, nem aqui se pode adquirir a perfeição de repente…

“Julgais, talvez, que a perfeição se deva encontrar pronta, e que só nos cabe enfiá-la como uma roupa qualquer; não, minhas caras filhas, não é assim. Felizes de nós, se um quarto de hora antes da morte estivermos revestidos desse hábito” (44)

Ou me engano muito, ou é isto pouco mais ou menos o que narramos nas primeiras páginas deste livro.

“Ah! Não devemos pensar que quem entra para o convento, fica logo perfeito” (45)

“É certo que muita gente se engana redondamente, julgando que as pessoas que se fazem um dever da perfeição não deveriam mais cair em faltas, e muito particularmente os religiosos e religiosas. Parece-lhes que apenas entram para o convento, ficam logo perfeitos, o que não é exato. Porque os conventos não são feitos para abrigar gente perfeita, mas gente que tem a coragem de aspirar à perfeição” (46)

A perfeição é algo de tão belo que parece estar muito perto quando visto de longe; é como os picos de regiões alpestres: quem parte de manhã, vê a montanha a poucos passos, julga estar prestes a atingi-la, mas vai andando, andando sempre, horas a fio, sem que a distância pareça diminuir.

Esta doutrina, de que somos fracos, não é animadora para nós? Monsenhor é um bom Pai e “suas caras filhas” são boas filhas, mas nem por isso deixam de ser humanas. Ele não se ilude, e não vem fazer-lhes cumprimentos.

“Estou sempre pronto sem me preparar, mas primeiro façamos o sinal da cruz. Antes de responder às perguntas que me são feitas, veio-me à mente falar sobre uma coisa que me acontece muitas vezes: ao atacar vícios, em meus sermões, sempre pareço referir-me a alguém em particular, quando, no entanto, não é este o meu propósito. Faço, pois, esta advertência a fim de que as nossas Irmãs não pensem que viso alguma em particular ao referir-me a qualquer falta que possam ter cometido; embora não seja esta a minha intenção, ficarei, contudo, satisfeito, confesso-o francamente, se isto me acontecer. Os filósofos e, de modo particular, o grande Epicteto, fazem distinção entre um barbeiro e um cirurgião, apesar de hoje em dia ser quase a mesma coisa. Estabelecem essa diferença, primeiro, a respeito de suas lojas, alguns dizem que, quem se aproxima de uma barbearia, sente-se bem, porque costuma haver ali um menino a tocar flautim; além disto, o barbeiro aromatiza de tal maneira o seu salão, que este só rescende a perfume. Mas, ao contrário, o consultório do cirurgião tem um cheiro desagradável, aí só se veem emplastros e unguentos; só se ouvem os gritos dos pobres coitados: Ai! ai! que dor! Enquanto se fazem incisões nuns, noutros se fazem curativos, noutros ainda se aplicam pontas de fogo. É tudo muito doloroso. Para recolocarem-se ossos no lugar, o pobre paciente geme. O barbeiro, porém, não machuca o freguês quando faz a barba, que não é sensível.

Faço-me, algumas vezes, de barbeiro, e outras, de cirurgião, minhas caras filhas. Quando prego no coro, para os seculares, sou barbeiro e não faço mal a ninguém. Só falo de perfumes; de virtudes, e de coisas próprias para consolar as almas; toco um pouco de flautim, falando de como devemos louvar a Deus. Mas nas nossas conferências familiares, sou cirurgião, só trago emplastros e cataplasmas para aplicar nas chagas das minhas caras filhas e, embora elas gritem ai! Ai! Ai! Não deixarei por isso de apertar a mão com força sobre o emplastro, para melhor segurá-lo e mais depressa sarar-lhes as feridas. Se fizer alguma incisão, minhas filhas hão de sentir a dor, mas não me incomodo, porque estou aqui para isso. Os mundanos não seriam capazes do mesmo, porque pensam, erroneamente, que as pessoas religiosas entregues à perfeição não devem ter defeitos. Mas entre nós, minhas caras filhas, sabemos que isto é impossível. Não temos medo de escandalizar-nos uns aos outros, falando francamente das nossas fragilidades. Eis, pois, minhas caras filhas, como apresento minhas desculpas àquelas a quem possa magoar, assegurando-lhes que, se vier a fazê-lo, será de todo coração” (47)

Quem ousará ainda dizer que São Francisco de Sales não é enérgico? Dá ele impressão de ser tão mordaz na intimidade? Talvez até aqui só nos fosse dado conhecer o tocador de flautim; mas, agora, é o cirurgião que vai apertar com força o emplastro sobre a chaga. E que pensar da brandura do seu ceticismo?

“Mas entre nós, minhas caras filhas, sabemos que isto é impossível”

Não vale isto todos os sonetos do mundo? Esta tranquila reflexão merece atenção e denota sobretudo muita indulgência e bondade, — indulgência do amigo das almas, do sacerdote que leu em muitos corações, que conhece a fraqueza humana, bondade aquela mesma de Jesus que perdoa, que reergue as almas e não lhes pede mais do que elas podem dar. Mas tudo isso sem perder o tom de jovialidade, cheio de delicadeza, que lhe era peculiar.

“Pedi, um dia, às senhoras do mundo que frequentam esta casa, que me respondessem com franqueza ao que lhes ia perguntar. Concordando elas, perguntei-lhes o que pensavam das filhas da Visitação. Algumas responderam logo que haviam encontrado aqui maior bem do que esperavam, pelo que louvei, a Deus. Outras, a quem interroguei igualmente, disseram-me que da teoria à prática da Regra a diferença era grande, porque, na leitura, esta parece feita de mel e de açúcar, é a própria doçura e perfeição, mas nem por isso deixavam de perceber que as Irmãs cometiam algumas imperfeições. Sorri comigo mesmo por ver que elas pensavam que, por serem tão perfeitas as Regras, não deveriam existir imperfeições” (48)

E, agora, antes de continuar, uma palavra ainda.

“É preciso ser espiritual para compreender a linguagem das almas espirituais” (49)

Que se entende com isto? Entende-se, que, para compreender os pequenos defeitos das almas inocentes, as pequenas faltas que não impedem que elas sejam de Deus, e para que ninguém se escandalize com tais imperfeições, apesar dos véus e das grades, é preciso que elas tenham também uma alma inocente e um olhar puro e sem malícia, pureza que os mundanos não conhecem, que é apanágio dos filhos de Deus. E se, entre os leitores destas páginas, houver algum cujo espírito deformado pelo contato com o mundo o levasse a procurar nelas outra coisa senão o que aqui fica dito, rogo-lhe que não leia estas linhas, porque não foram escritas para ele.

São Francisco de Sales entregando a regra às Irmãs da Visitação

São Francisco de Sales entregando a regra às Irmãs da Visitação

O motivo pelo qual as caras Filhas não são todas perfeitas

“Ora, bem sei que o centro dos vossos corações está vazio, porque se assim não fosse, seria demasiada infidelidade, quero dizer que devemos não apenas rejeitar e detestar o pecado mortal, como ainda toda sorte de afeições más; ai de nós! Todos os cantos e recantos dos nossos corações estão repletos de mil coisas indignas… (50)”

Eis aí os pontos nos iis. Essas “mil coisas indignas” provêm da pobre natureza decaída com o pecado de Adão, ainda vivaz em certos pontos, e que faz germinar, apesar de tudo, sua flora deteriorada de ervas daninhas no próprio meio dos vergéis escolhidos, que Deus reservou para si.

Comecemos pelas postulantes:

“De certo, minhas caras filhas, algumas jovens entram para o convento sem saber por quê. Talvez, um dia, no locutório, viram umas religiosas com semblante sereno, acolhedoras, modestas, radiantes. E dirão consigo mesmas: Como é bom estar aqui! Por que não entrarei também eu? O mundo não me agrada, nele não realizarei os meus ideais. Outra dirá: Como se canta bem aqui! É tão bonito cantar assim! Elas fizeram bem de vir para cá, a fim de se fazerem ouvir. Se tivessem ficado em casa, talvez cantassem numa sala em que ninguém as ouvisse; mas num coro, serão ouvidas e apreciadas. Outras fazem-se religiosas para encontrar paz, consolação e toda sorte de doçuras, pensando consigo mesmas: Como são felizes as religiosas! Estão livres das queixas dos pais, que estão sempre a gritar e nunca estão satisfeitos com nada. É um nunca acabar! Nosso Senhor promete muitas consolações a quem deixar o mundo para o servir. Entremos, pois, para o convento” (51)

Vejamos bem: Não é Boileau escrevendo uma sátira, mas São Francisco de Sales falando a religiosas…

São almas tão impulsivas!

“Quando obedecem aos primeiros ímpetos, um tanto fortes, tudo lhes sorri, e parece que hão de vencer todas as dificuldades. Mas quando esses sentimentos já não se manifestam do mesmo modo na parte inferior da alma, parece-lhes que tudo está perdido: querem e não querem”

Oscilam entre todos os caprichos dos seus nervos.

Pode-se, numa casa séria, receber moças tão levianas? Por que não? Suas disposições não são perfeitas, mas “como já o disse muitas vezes, não entramos perfeitas para o convento, mas para procurarmos a perfeição”. Essas disposições defeituosas podem ser “melhoradas e ratificadas por Deus. Eu, quando se me deparam tais almas, não me admiro de suas aversões e diminuição de fervor, e nem por isso tenho sua vocação em conta de menos boa”, pois a disposição exigida é a vontade reta. São almas fracas; devemos ampará-las e não rejeitá-las.

Outras vocações são ainda mais imperfeitas.

“Pessoas que foram influenciadas pelos aborrecimentos, desastres e afeições que encontraram no mundo, desgostaram-se dele e o abandonaram”

Tais vocações tão pouco são desprezíveis, porque “nem por isso as almas deixam de se dar a Deus com uma vontade sincera. Noutras, a vocação, em si, não é melhor; são os que se fazem religiosos por causa de algum defeito físico, por serem coxos, zarolhos, feios, ou qualquer outro defeito. E, parece, mais grave ainda, porque são muitas vezes levados pelos pais, os quais desprezam os filhos nessas condições, e atiram-nos para um canto, dizendo: Este não presta para nada no mundo, é preciso que se faça religioso, e assim ficaremos livres dele em casa, e quanto a ele, ficará “muito bem junto do altar”.

Que pensar de tais sentimentos? Nem isso, porém, basta para esgotar os recursos santificadores da misericórdia divina. Eis um exemplo, “que é do nosso tempo. O Reverendo Padre Geral dos Feuillants, que foi na realidade grande servo de Deus, (conheci-o e ouvi-o pregar muitas vezes), abraçou o estado religioso por um motivo pouco louvável, pois parecia antes buscar honras e bem-estar que responder ao chamado de Deus. Comprou uma abadia, ou antes seu pai comprou-a para ele. E, no entanto, sua vocação foi tão bonificada e santificada por Deus, de tal maneira mudou de vida, que se tornou um modelo de virtude. Reformou os Feuillants e os converteu à sua primitiva perfeição. Assim o divino artífice compraz-se em construir belos edifícios com madeiras retorcidas, que não parecem prestar para nada”. E não é sem razão que “em todos os tempos, as casas religiosas foram chamadas hospitais, e aos religiosos dado um nome grego que significa curandeiros, pois se acham nos hospitais para se curarem mutuamente, como os leprosos de Santa Brígida” (52).

Voltemos às postulantes: eis, pois, a clausura que se abre. Antes de entrarem, prometem mil maravilhas.

“Pedi-lhes tudo que quiserdes e elas o farão”

É difícil conhecê-las bem, “porque se apresentam sempre com as melhores disposições, com os melhores modos”. Mas quando forem provadas, então se mostrarão coléricas ou mansas. “Algumas terão sido mal alimentadas e mal educadas”, estarão cheias “de maus hábitos, serão rudes e grosseiras, duras e altivas de coração, e a fisionomia revelará suas numerosas paixões”. Outras, que “no mundo eram verdadeiros mostruários de vaidade, vêm para o convento, não para se humilharem, mas como se quisessem doutrinar em matéria de filosofia e teologia. Ora, são estas que nos devem inspirar cuidados”. “Outras ainda não podem suportar que se lhes corrijam os defeitos, sem se perturbarem, a ponto de adoecerem. Convém então abrir-lhes as portas”. Agora, pela primeira vez, o bom Pai carrega o sobrolho. Mas, também, como se há de curar um doente que se recusa a tomar os remédios?

“E isso porque todas as outras, embora muito imperfeitas, têm ao menos, boa vontade para se corrigir, para se submeter e tomar os medicamentos indicados. E ainda que sintam repugnância pelos remédios, e os tomem com grande dificuldade, contanto que não os deixem de tomar, está bem. Quanto àquelas que no mundo foram verdadeiros ‘mostruários de vaidade’, digo que se deve tomar cuidado, e não que se deva recusá-las, se mostrarem desejos de corrigir-se e humilhar-se”

A condição mínima exigida é a reta intenção e a boa vontade. Havendo esta, pode-se relevar tudo o mais, porque não há defeito que não possa ser corrigido. Essas religiosas os têm profundamente enraizados, mas poderão sempre, “com o tempo e a graça de Deus, operar essa mudança”. É preciso, em suma, e basta, que o queiram. Para admitir uma moça no noviciado, o essencial é saber se ela tem boa vontade, e se está firmemente resolvida a aceitar o tratamento que lhe é mister para sua cura.

“Não são, pois, as pessoas de semblante triste, e as que estão sempre a suspirar, as que mais convêm; nem as que não saem da igreja e as que vivem nos hospitais, nem tão pouco as que começam com grande fervor. Não devemos olhar para as lágrimas das plangentes, nem escutar os suspiros das lamurientas, nem tomar em consideração as aparências e formalidades exteriores para descobrir quem, na verdade, é chamado; mas somente olhar para a boa vontade, a resolução firme e constante de se corrigir e de querer trabalhar com fidelidade para recuperar a saúde espiritual” (53)

Não são só as noviças que continuam mulheres sob o véu; as Irmãs professas também entram aqui em jogo.

“Elas têm tantos caprichos, que lhes custa obedecer” (54)

Não se trata mais das que pedem para entrar, mas das que já pertencem à casa.

“Queremos agora tal coisa e amanhã queremos outra” (55)

“Quem tiver sido uma hora jesuíta, quererá ser outra hora capuchinho” (56)

“O que vejo tal ou tal fazer agora, agrada-me, mas, daqui a pouco, me desagradará. Hoje gosto de tal pessoa e converso com ela com prazer; amanhã, porém, me custará a suportá-la”

São os sobressaltos do amor-próprio, sempre pronto a reapossar-se de sua vitima.

“Hoje achais consolação na oração, estais animada e decidida a servir a Deus; mas amanhã, se estiverdes na secura de alma não encontrareis mais atrativos no serviço divino; direis então: Meu Deus, estou tão sem forças, tão abatida! Quando surge qualquer contrariedade, ou se cometerdes alguma falta, por pequena que seja, julgais tudo perdido” (57)

Tais almas procuram mais “as consolações de Deus do que o Deus das consolações”.

“Já observei em todas as nossas casas que as nossas filhas não fazem distinção entre Deus e o sentimento de Deus, entre a fé e o sentimento de fé. É grande erro e ignorância”

Volta a falar no perigo da ternura, “um dos grandes empecilhos da vida religiosa” (58).

“Agrada-nos algumas vezes poder chorar, sobretudo quando muda a Superiora, e assim mostrar que tal Irmã não é ingrata e que ficou muito sensibilizada” (59)

“Pensam que se não manifestassem tais sentimentos seriam tidas como indiferentes e sem coração, quando, pelo contrário, isso não passa de fraqueza de mulher” (60)

Cheias dessas ideias que trazem do mundo, pensam, às vezes, que resplandecem de virtude, quando só têm imperfeições.

“Alegram-se se puderem parecer bem humildes e ter-se a si mesmo em pouca conta”

Pedem, a Deus, na oração, que lhes dê “essa humildade tão própria para dar o bom exemplo. Mas quanto a humildade de coração, que nos faz amar a nossa própria abjeção, parece-lhes que não necessitam dela” (61).  Muitas serão perfeitas enquanto não forem contrariadas, mas se forem “provadas, ei-las logo a resmungar”. E “quando alguém me diz: Tal pessoa nunca cometeu uma imperfeição, pergunto logo: Tem ela algum cargo? ”(62).

Os cargos — outra pedra de tropeço — o desejo dos cargos, a decepção quando não no-los dão.

“Ficamos tão contentes de ocupar um cargo que nos coloca acima dos outros, como o de Superiora ou de Assistente, e assim fazer valer nossa inteligência, para que outras possam dizer: Minha Irmã determina e arranja tudo tão bem! Enquanto outras acham que se fossem Superiora seriam muito virtuosas, cheias de humildade, de caridade… Ah! minha Irmã, nosso amor próprio gosta de que outros apreciem o nosso belo espírito. Tal Irmã é considerada dócil, quando ocupa um cargo superior porque ninguém a censura, e todas lhe admiram virtude”

Não insistiremos mais sobre todos os pontos…

Outras, sem desejarem os cargos, “têm tanto medo de vir a ter o desejo, que estão sempre apreensivas e inquietas” (63).  Pertencem à mesma família as almas “que cogitam tanto no que devem fazer” para serem santas, “que não lhes sobra tempo para tanto (64),  julgando que a santidade consiste numa grande quantidade de desejos”. “Apressam-se em procurar ora um meio, ora outro” para conseguir a perfeição “e nunca estão satisfeitas nem em paz consigo mesmas, porque quando têm um desejo, logo tratam de conceber outro, assemelhando-se às galinhas, que mal acabam de pôr um ovo, cuidam logo do outro, deixando de lado o primeiro, sem o chocar”.

Para apreciarmos bem todo o sabor destas conferências, devemos representar-nos o quadro em que se desenrolavam, o pequeno locutório de Annecy. As Irmãs assentadas defronte do Bispo. Ele a todas conhece bem, e elas se conhecem umas às outras. Todos os golpes são certeiros. Imaginem-se os sorrisos à socapa, quando ele fala da galinha cacarejando… os olhos baixos daquela que se sente atingida, embora, como disse, ele não visasse a ninguém em particular, o sorriso comprometedor de uma, a expressão de outra.

“Assim como a galinha que tem pintinhos acode-lhes pressurosa e fica a cacarejar e a fazer barulho, assim também certas almas estão sempre a cacarejar e a correr atrás dos seus filhotes, isto é, dos seus desejos de perfeição, procurando falar no assunto a todo propósito para indagar de meios novos e apropriados para progredir. Em suma, distraem-se tanto em falar da perfeição, que se esquecem de pôr em prática os meios” (65)

“Os convivas que, num banquete, provam iguaria e comem um pouco de cada, sentem-se mal do estômago, com forte indigestão, e passam a noite a vomitar, sem poder dormir. As almas que querem experimentar todos os meios e métodos que conduzem, ou podem conduzir, à perfeição, passam também por isso, porque não tendo o estômago da sua vontade bastante calor para digerir e pôr em prática tantos meios, sobrevêm-lhes certa acidez e indigestão que lhes tira a paz e tranquilidade de espírito junto de nosso Senhor” (66)

Há, enfim, vocações extraordinárias.

“Conta-me nossa Madre que algumas Irmãs dizem: É bom guiarmo-nos pelas Regras, mas é o caminho geral. Deus, porém, nos atrai por graças particulares (67). Sei de uma moça que forjara ideias semelhantes em seu espírito: Imaginando que nada devia fazer sem que lho ditasse ou inspirasse o Esposo, punha sua mãe em embaraços. Se esta a chamava para ir à Missa, ou para jantar, respondia-lhe que só iria quando o Esposo o quisesse.”

O certo é “que todas não são levadas pelo mesmo caminho; mas também não nos compete a nós conhecer o caminho a que nos chama Deus. Isto só pertence aos Superiores” (68).  E lembra, a propósito, noutra conferência, o caso de uma religiosa de “Ordem bem reformada” que, “à força de ler um livro da bem-aventurada Teresa, aprendeu tão bem a falar como ela, que parecia mesmo uma pequena Madre Teresa. Assim se julgava ela, imaginando que tudo quanto fizera a Madre Teresa em vida, se repetia na sua pessoa, inclusive as elevações de espírito e suspensões das potências, enfim, tudo o que lia na vida da Santa” (69).

Se tudo isso é muito bonito, há, no entanto, o excesso contrário. Algumas — talvez sejam as mesmas, fatigadas depois desses impulsos desmedidos do espírito, — procuram precisar exatamente a que as obriga à Regra. Têm medo do zelo; é o que, comumente, se chama, entre nós, a greve aljofrada. Isto desperta a indignação do bom prelado. Limitar-se aos mandamentos é não ter amor aos conselhos ou Àquele de quem emanam. Tais almas não serão condenadas, mas não podem reclamar nada.

“É como quem se gabasse de não ser ladrão; pois bem, se não é ladrão, não será enforcado; eis a sua recompensa. Obedeceis aos mandamentos de Deus, que vos são prescritos, — pois bem, não sereis expulsas do convento, mas também não sereis tidas em conta de servas fiéis de Deus” (70)

Tal Irmã não se considera “desobediente, quando despreza apenas uma ou duas regras, que lhe parecem de pouca importância. Mas que engano! Onde vai parar Isso? Porque aquilo a que uma dá pouco valor, outra dá muito, e reciprocamente; de maneira que se uma não observar tal regra, a segunda desprezará outra, a terceira outra ainda” (71),  e se implantará a desordem na Congregação.

Entretanto, pergunta alguém, — de fato severo demais — “se não seria lícito a uma irmã, que viveu muito tempo na Ordem e nela prestou relevantes serviços, relaxar um pouco na obediência, ao menos no que for insignificante. Ah! como seria isto possível! (72)  Então, ser religioso é fazer votos e não os cumprir!”

“O religioso que começou bem, nada fez enquanto não perseverar até o fim”

O homem é uma criatura miserável. Quando, por acaso, está em paz consigo mesmo, comete faltas em relação aos seus semelhantes. Quem, por pouco que seja, frequentou casas religiosas, sabe que uma das provações mais duras é a convivência com companheiros que não escolheu, e com quem tem de morar até o fim da vida, e a quem fica associado até nas mínimas coisas. Daí, as mil e uma contrariedades, que só um espírito muito sobrenatural pode suavizar. Não nos inspira necessariamente simpatia natural este ou aquele que o acaso colocou ao nosso lado. Imaginemo-nos no refeitório, defronte de uma Irmã que mastiga abrindo a boca, ou ao lado de outra que come sem modos. — Peço que me relevem estas minudências, mas é a realidade da vida. São coisas que acontecem, coisas insignificantes, sem dúvida, e que não impedirão que a vossa vizinha seja muito boa — uma santa até. Mas a nós repugnam-nos, e como se observa sempre a mesma ordem nos lugares, é um mal que há de durar toda a vida, até que morra uma das duas. São incidentes sem importância, mas que nos fazem tremer. São fatos que se reproduzem a cada instante. — Irmãs que batem com as portas, que fazem barulho com os saltos ao andar, e isto chama a atenção numa casa onde reina silêncio. Ou então “alguma se vestirá às avessas, e dará ocasião a que outra se ria” (73), o que é desagradável num lugar onde deve imperar o recolhimento.

“A quem se ri de tudo o que ouve, convém perguntar-lhe por que se ri (74). Responderá que não sabe o motivo. Ficarei, pois, sem saber por que se ri.”

Outra não se admira de nada, mas continua sempre sua vida de todo dia. São coisas que irritam e nem todos têm a paciência incansável do bom Pai.

Estes primeiros contratempos não passam, entretanto, de simples faltas de educação. Mas que dizer daquelas que têm tentações de inveja ao ver uma Irmã trabalhar melhor do que ela ou ser mais estimada? (75). Nesse particular as noviças recebem o seguinte conselho: “Bem quisera que as Irmãs de véu branco não se preocupassem com as faltas das outras, mas cuidassem tanto das suas e se tornassem tão atentas a Deus, que não tivessem tempo de ver as culpas das professas, ao menos durante o noviciado” (76), pois que não se pode exigir tudo de uma vez, e algumas “percebem muito bem os defeitos dos outros, mas não veem os seus próprios”.

Uma das causas de desunião está nas simpatias e nas aversões. Tal Irmã “não é cordial”, ou “não é igual para com as outras” ou “não esconde que prefere esta àquela” (77).  Certos temperamentos custam a se suportarem a si mesmos e isto dá lugar a “ligeiras murmurações, a palavras ou modos secos de lado a lado”. Às vezes “uma Irmã, pelas suas palavras, mostrará o quanto está apaixonada” (78). Houve, certo dia, um pequeno dissentimento entre as Irmãs Fabre e de Chastel a respeito de uma virtude. Nosso santo Fundador, a quem nada se ocultava, foi avisado. Vindo ele fazer uma conferência à Comunidade, falou, entre outras coisas, da união que deve haver entre nós; depois, dirigindo-se à nossa digna Madre, perguntou: São as minhas caras filhas unidas entre si e amigas umas das outras? Pode acontecer que uma ou outra vez venham a trocar palavras menos delicadas e respeitosas. Se assim acontecesse não nos admiraríamos. Eis aqui o remédio: A Irmã provocadora pôr-se-á de joelhos diante da ofendida e se acusará: Minha Irmã, peço perdão, rogo a vossa caridade que reze pela minha conversão. E acrescentou: Comecemos já com esta prática. Minha Irmã Peronne Marie e minha Irmã Marie Jacqueline, vinde e ajoelhai-vos e minha Irmã Peronne Marie peça perdão (79).

Que delicadeza no modo de corrigir! Mas parece que a boa Madre Pichet, que escreveu a história da Galeria, quis incorrer no erro dos hagiógrafos, procurando sistematicamente atenuar o que talvez pudesse ofuscar a auréola dos seus heróis! São Francisco de Sales, apesar de toda a sua mansidão, teria contado o fato em termos menos suaves. Isto me leva a dizer o mesmo a respeito da própria Sta. Chantal. Havia de surpreender aos nossos leitores que viessem a ler as Conferências Espirituais (Entretiens Spirituels) o não encontrarem, em nenhuma das edições antigas, as passagens mais picantes que temos citado. Com efeito, Santa Chantal, ao publicar a obra, suprimiu alguns trechos, cujo estilo não lhe pareceu bastante nobre. O gosto da época explica facilmente o fato. As religiosas da Visitação de Annecy, porém, ao prepararem novas edições das obras completas, encontraram esses trechos nos manuscritos conservados em suas casas. Reproduzindo elas, em consideração à sua fundadora, o texto de Santa Chantal, acrescentaram-lhe essas variantes em formas de notas. Como, em nossos dias, damos preferência ao que é vivo e verdadeiro sobre o estilo nobre, essas variantes são muitas vezes o que mais nos agrada. Mas seja dito de passagem.

Um belo artigo das Constituições manda que as Irmãs se advirtam mutuamente quando em falta. É delicado, e requer muito tato “porque não se deve chamar a atenção de uma Irmã quando estiver de mau humor, ou premida pela melancolia, pois então havia de rejeitar de pronto a correção. Se uma Irmã, ao dirigir-vos a palavra, fá-lo por meio de murmurações e se perceberdes que oculta em seu coração alguma paixão, então desviai o assunto do melhor modo possível” (80).

“Algumas são tão suscetíveis que, se forem admoestadas por uma Irmã, será o bastante para que fujam dela durante o recreio! alimentando assim abertamente o ressentimento” (81)

Seria um grande mal.

As relações com as Superioras dão lugar a críticas tão numerosas que seria fastidioso enumerá-las todas. A Superiora, “Nossa Madre”, é, para as religiosas fervorosas, a representante de Deus, e elas poderiam razoavelmente exigir dela tudo o que têm direito de esperar dEle. Infelizmente, a Superiora, por melhor que seja, não passa, como as outras, de simples mulher. Daí, até certo ponto, se escandalizarem as religiosas quando, por acaso, ela não as recebe com “espírito de mansidão”; “perdem a confiança e a tentação seria recorrer logo à Assistente” (82).  Coitada da Madre! exigem dela o impossível!

“Se vos disser alguma palavra menos branda que de costume, talvez esteja com a cabeça cheia de cuidados e preocupações, logo o amor próprio se perturba (83).  Parece que as Superioras deveriam ter a consolação à flor dos lábios, para a derramar facilmente sobre o coração de quem a procura”

Mas, “como as outras, não podem estar sempre de igual humor” (84).  Além disso, “é preciso não ser tão sensível e querer contar tudo, nem tão pouco recorrer a cada instante às Superioras, para se queixar de qualquer mal insignificante — uma dor de cabeça ou de dentes, que talvez não dure mais de um quarto de hora”. Mas “se não devemos falar nisso à nossa Madre, ainda menos devemos falar com outras religiosas que encontrarmos”.

“Creio que preferem queixar-se a quem não tem poder de aliviá-las do que a quem o tem; porque enquanto isso, cada qual se compadece da tal Irmã e se acha na obrigação de aconselhar-lhe algum remédio, ao passo que se o dissessem à Irmã encarregada, seriam obrigadas a fazer o que ela lhes prescrevesse” (85).

É difícil às mulheres dominarem a língua, mesmo na vida religiosa, apesar do silêncio, de quase todo o dia, imposto pela regra… Alguém pergunta agora se “é lícito revelar à Superiora o nome das Irmãs que repetiram o que ela, ou outra Irmã, tiver dito a nosso respeito. Cuidado! Eis-como as intrigas nascem num convento e provocam discórdias… Uma Irmã conta à outra ‘alguma palavrinha que a Superiora disse sem pensar e que, sendo relatada por outra, parece grave e causa verdadeira angústia àquele pobre coração’. Porque nada aflige tanto a uma pobre religiosa como pensar que a Superiora está aborrecida com ela”. O bom Pai de novo carrega o sobrolho:

“Isto é muito mais importante do que parece. Contar a uma Irmã que a Superiora disse isto ou aquilo dela em sua ausência é um pecado que se chama sussurro ou murmuração. Devemos aprender a falar latim; ora, susuratio quer dizer cochicho, o ruído ou murmúrio dos regatos, onde as pedras, agitando ou ondulando as águas, impedem-nas de correr sem ruído… (86)”

Sussurro!… Não lembra esta palavra certas sombras negras, conhecidas de todos que frequentam as igrejas? São pequenas, magras, de faces enrugadas. Envolve-as um manto escuro, e uma touca prende-lhes os cabelos desbotados, repartidos ao meio. Ficam muito tempo de joelhos perto das pilastras, e, sem voltarem a cabeça, veem tudo o que se passa. Reúnem-se no pórtico e ficam a conversar em voz baixa. De olhar furtivo, julgam-se muito santas e desejariam de fato sê-lo, mas suas línguas são afiadas, e cortam o próximo. Fazem-se uma noção talvez incompleta da perfeição. O povo, que não gosta delas, trata-as de hipócritas ou de beatas. Elas são, das nossas boas Irmãs da Visitação, o que se chama uma caricatura: para essas, cochichar é um pequeno defeito, logo reprimido; para as outras, é uma função social.

Algumas vezes a superiora também terá que corrigir uma religiosa:

“Aceitais, não é? de bom grado, a correção, mas sentis ao mesmo tempo certa confusão perante a Superiora, porque a afligistes, ou lhe destes motivo de zangar-se convosco; isto vos impede de chegardes a ela com confiança, embora gosteis da humilhação que sofreis devido a falta”

Que complicação! Quantos fiozinhos de amor próprio!

“Não sabemos, talvez, que existe em nós um convento, cujo superior é o amor próprio, e que nos impõe penitências” (87)

Este pesar é uma delas.

Nossas Irmãs são sequiosas de afeto. Ora, isso não é virtude sobrenatural.

“Que dirá a Superiora se eu lhe disser isto ou aquilo!… Se eu lhe for pedir algum alívio dirá, ou achará, que sou muito mole. E se é verdade, por que não há de achar?”

Quem tanto se preocupa com o juízo que outros possam formar deles, não merece que este afeto lhe seja favorável.

“Mas quando lhe peço aquilo de que preciso, faz-me uma cara tão ríspida que tenho impressão que não gostou!… Ora, minhas filhas, isto não passa de puerilidades; deveis ser simples… Mas cometi uma falta contra a Superiora, e fico com receio de que ela esteja descontente comigo e não me receba bem; numa palavra, que não me tenha mais a mesma estima e amizade”

Não é o “Pai Espiritual” que se chama amor próprio que se está dando a conhecer? Ah! cometi tal falta! Que juízo formará de mim a nossa Madre? Nada de bom se deve esperar de mim!… Nunca mais lhe poderei ser agradável. Sei que Deus é bom, que perdoará a minha infidelidade… Mas a nossa Madre!… Parece incrível, minha Madre, que as nossas Irmãs estejam de tal modo apegadas aos carinhos da Superiora!” (88) Isto não está certo e não passa de vaidades femininas. Em Lyon, disseram-lhe, há Irmãs que se distraem tanto a olhar para as virtudes das Superioras, que estão sempre a louvá-las e aplaudi-las.

“Será possível, perguntou ele, que façam isto aqui? Sim, umas três ou quatro responderam. Minha filha, não deveis consentir nisto. Quando as inferiores percebem que a Superiora é um pouco fútil, que gosta de ser elogiada, estimada, elas as louvam  a todo propósito, a fim de se tornarem queridas da Superiora, e por nenhum outro motivo; mas se ficasse aborrecida quando elogiada e lhes fechasse a cara, fá-lo-iam menos vezes. É, entretanto, quase inevitável, “porque onde há muita mulher, há também muito louvor e muita lisonja” (89)

Mas “nossa Madre é tão boa! Seria impossível não nos apegarmos a ela!…” Então, quando for deposta — porque, na Visitação, as Superioras são eleitas só por três anos, — como se habituar à ideia de que ela não é mais ‘‘nossa Madre”? Haverá então rivalidade entre as Madres. Falando da deposição duma Superiora, a qual foi muito sentida no convento, “não podendo as Irmãs se habituarem a tratá-la de Irmã, respondeu-lhes ele de modo gentil: Que a chamem “avó”, se quiserem, e nada lhes direi; mas vejo que tais Irmãs não honram, nem observam as Regras e a Constituição” (90).

Convém notar que essas observações um pouco fortes se dirigem às Irmãs de Lyon, segunda casa da Ordem, fundada em 1615. O convento de Annecy era, naquela época, governado pela inimitável Sta. Joana de Chantal.

Será que desta vez o bom Pai foi muito severo, como acham as Irmãs? — Nossa Madre era tão boa… Mas o que resulta dessas puerilidades? À tal Superiora, que era tão querida, sucede outra, a quem talvez falte a unção da primeira, que não possui o mesmo dom das palavras, dos modos, dos olhares que comovem. Fazem-se comparações que, nesses casos, não passam de críticas. Nossa antiga Madre era mais afetuosa! Sabia conduzir-nos tão bem a Deus! Ficam as saudades do antigo regime, e a obediência — ponto capital num convento — se ressente. As Irmãs não deixam, por isso, de obedecer, pois, graças a Deus, são muito fervorosas. Se o centro do seu coração, como já vimos nas primeiras páginas, está bem vazio, nos cantos, porém, estão cheio de poeira e a obediência ficará prejudicada, embora continuem a obedecer. O Santo explica:

“Hoje estimo muito a minha Superiora, e obedecerei amanhã, estimarei menos a outra e não hei de querer obedecer-lhe. Mas obedeço-lhe da mesma forma, alegareis. Sim mas não tereis a mesma consideração para com as suas ordens, nem as acatareis com a mesma satisfação…”

Que diferença!

“Dirigimo-nos a almas delicadas, que o são até nas suas faltas, se é que merecem tão pequeninas imperfeições nome tão forte. Que boa obediência querer obedecer somente às superioras que nos agradam!”

E, para rematar:

“Se Balaão foi tão bem instruído por uma jumentinha, devemos crer com mais forte razão, que Deus, tendo-nos dado esta superiora, fará com que ela nos ensine a cumprir a sua vontade, ainda que não seja conforme aos nossos desejos” (91)

Demorei-me no assunto porque queria dar uma ideia de conjunto. Há ainda uma referência às superioras que gostam de ficar no locutório a conversar, “com as pessoas do mundo” (92),  ou às religiosas que têm o que eu chamaria contrição embaraçosa. Prolongam tanto suas confissões que “prejudicam e incomodam toda a comunidade”.

“Se, neste caso, a superiora vos disser que deveis ser a última a vos confessar, isto não equivale a perguntar-vos o que dizeis ou não dizeis”

Na confissão, também, algumas fazem “ao confessor belos discursos, cheios de palavras empoladas” (93).

“Tal outra — me decido a terminar — pergunta se não pode queixar-se ao superior, ou ao confessor, quando, por algum motivo, está descontente com a superiora: Ó minha filha, queixar-se? Não disse eu a Filotéia, que, em geral, quem se queixa, peca? Ora, tolera-se que uma alma imperfeita se queixe à Superiora, quando alguma irmã a molestou, mas se uma irmã se queixar a outra de que a superiora a mortificou, direi apenas que, se alguma tiver semelhante inclinação, precisa emendar-se sem vacilar. Mas queixar-se da superiora a gente de fora; ah! isto nunca, de maneira alguma, porque é muito grave” (94)

Não é isso encantador? Eis, pois, todo o mal que encontramos nesta investigação que fizemos em torno do “grupo querido”. Vimos, no entanto, que o Prelado não as lisonjeia, mas, pelo contrário, trata-as com energia. Devem ser muito boas. E, diante disso, não havemos nós de nos regozijar ao reconhecer, nos discretos recônditos de suas pequenas falhas, toda a fraqueza humana, tal qual a sentimos unida à nossa mísera natureza, e cujo estigma se revela em cada passo que damos, cujo eco repercute em cada uma das nossas palavras, cujo selo carimba todas as nossas ações? Tudo aquilo que em nós é rude e grosseiro, nelas é delicado, mas não deixa de existir. Eis até onde eu queria chegar. Não são religiosas anônimas, fantasmagorias, a deslizar, silenciosas, ao longo de claustros legendários… Lírios puros, erguem para os céus sem nuvens sua alvura melancólica; uma Virgem, tendo nos braços ao Menino Jesus, sorri, no fundo do claustro; do campanário da capela ouve-se, de hora em hora, um ritmo ligeiro de notas argentinas que pairam no ar crepuscular… uma atmosfera de incenso faz sonhar com o paraíso… Tudo isto se encontra, talvez materialmente, na Visitação da qual ora nos ocupamos, — menos o brilho aparente do legendário. Pode chegar até a tomar objetivamente este aspecto para algumas religiosas, em certas tardes de devoção, ou para pessoas devotas que aí passam uma hora. Mas na vida de todo dia as boas irmãs não passam de mulheres; conheço-as todas: são da minha família, minhas irmãs no Pai comum, do qual recebemos uma mesma natureza. E se, apesar da grande distância que nos separa, eu me reconheço nelas, por que hesitarei em fitar, também com elas, o ideal que nos prende o olhar, e para o qual Nosso Senhor afinal parece ter-nos chamado, também a nós? Sede perfeitos como vosso Pai celeste é perfeito.

As caras Filhas devem morrer a si mesmas

“Esta Congregação, assim como as outras Ordens Religiosas”, não é, “uma associação de pessoas perfeitas, mas de pessoas que pretendem aperfeiçoar-se; não de pessoas que correm, mas que pretendem correr; as quais, por conseguinte, começam a andar devagar, depois vão mais depressa, em seguida caminham rapidamente, finalmente correm” (95).  A casa religiosa é um hospital, mas é “também uma escola onde se aprende a lição”.

Analisamos, e por vezes, com certa malícia, os vestígios mais ou menos dissonantes que a natureza deixa na alma de religiosas fervorosas. Vejamos, agora, a fim de evitar qualquer equívoco, o comentário que acompanha esta observação, que talvez nem sempre acentuamos bastante “a congregação tolera que nos cheguemos a ela com nossos maus hábitos, paixões e inclinações, mas não que as guardemos (96).  Quem vem, só o deve fazer com o fim de se mortificar” (97).  A perfeição consiste em viver só segundo a razão, e não segundo as inclinações e aversões pessoais (98).  Na teoria, parece muito simples; na pratica, muito penosa para quem tem coragem de encará-la de frente. Comecemos por fixar sinceramente o que se passa em nossa alma. Que papel ocupa a razão em nossa vida real? Quais são os móveis habituais das nossas ações? E como teremos de revolver até as raízes de nosso ser, de cortar, talhar, podar para operar esta transformação, tão simples na teoria, de praticar sempre o bem conforme a verdade, e não apenas o que nos é mais agradável! Para avaliarmos o quanto custa este trabalho, será preciso entregarmo-nos a ele; então veremos também o quanto é demorado, e a grande paciência e muita coragem que exige.

As filhas de São Francisco de Sales não serão, pois, destas pessoas que “querem ser santas de repente, sem que isto lhes custe, porque, queiramos ou não, precisaremos ter coragem para sofrer durante toda a vida na bancarrota da perfeição que empreendemos” (99). A vida cristã é um combate, contra um inimigo possante e um exército poderoso. Tanto melhor! Quanto maior o perigo, mais gloriosa a vitória.

“Minhas caras filhas, tomai a espada da mortificação para matar e aniquilar as paixões, e quem as tiver em maior número para matar, mais valorosa será” (100)

Se a natureza grita, deixemo-la gritar, mas nada nos detenha. E se as paixões vierem a sublevar o coração, “devemos torcê-lo como se torce um lenço, para conformá-lo à razão” (101).

“Queremos construir um grande edifício, minhas caras filhas, isto é, edificar em nós a morada de Deus. Consideremos, portanto, ponderadamente, se temos bastante coragem e firmeza para nos destruirmos e nos crucificarmos a nós mesmos, ou antes, para aceitarmos que Deus nos aniquile e nos crucifique, e assim reedifique em nós o templo vivo de sua Majestade divina. Digo, pois, minhas caras filhas, que nossa única pretensão deve ser a de nos unirmos a Deus, como Jesus Cristo se uniu a Deus Pai, quando morreu por, nós na cruz”

“Precisamos saber como e o que é ser um religioso. E ligarmo-nos a Deus pela contínua mortificação de nós mesmos, e só vivermos para Deus. Ora, como só iremos chegar a isto pela prática de mortificação constante das nossas paixões, inclinações, humores e aversões, somos obrigados a vigiar-nos continuamente a fim de morrermos a tudo isso”

“Se o grão de trigo que cai na terra não morre, ficará só, isto é, não produzirá fruto, mas, se apodrecer, multiplicar-se-á cem por um. Vós, por conseguinte, que pretendeis à tomada de hábito, vós que quereis fazer a santa Profissão, vede bem se estais firmemente resolvidas a morrer a vós mesmas, e a só viverdes para Deus. Refleti bem, pois ainda vos sobra tempo de pensar, antes de que os véus se tornem pretos, porque, minhas caras filhas, sem querer iludir-vos, declaro que se alguma deseja viver segundo a natureza, fique no mundo; e as que estão resolvidas a viver segundo a graça, abracem a vida religiosa, a qual outra coisa não é senão uma escola de mortificação e de abnegação de si mesma”.

Agora entram em cena as postulantes que gostam de fazer ouvir a sua bela voz ou que, no locutório, são atraídas pelo semblante sereno das religiosas. Este discurso, aliás, a elas se dirige.

“Mas, dirão, não é isso que procuravam. Pensavam que, para ser boa religiosa, bastava o desejo de rezar bem, de ter visões e revelações, de ver anjos em forma de homem, de ser arrebatada em êxtase, de gostar das boas leituras. E agora? No mundo, julgava-se tão virtuosa, tão mortificada, tão humilde! Todos a admiravam! Não era, em verdade, humilde ao falar tão suavemente com suas companheiras a respeito da devoção, ao contar-lhes os sermões que não puderam ouvir, a tratar com mansidão aos de casa, sobretudo quando não a contrariavam? Sem dúvida, minhas caras filhas, isto era bom no mundo, mas a vida religiosa manda que façamos obras dignas da nossa vocação, isto é, que morramos a nós mesmos em todas as coisas, tanto naquilo que é bom e do nosso gosto, como naquilo que é nocivo e inútil. Será que os religiosos do deserto, que chegaram a tão grande união com Deus, o conseguiram seguindo suas inclinações? Não de certo. Mortificaram-se naquilo que era santo, e embora tivessem muito pendor para os cânticos sacros, para ler, rezar e outras coisas mais, não o faziam apenas pelo prazer que sentiam. De modo algum. Pelo contrário, privavam-se muitas vezes desses prazeres, embora bons e lícitos, para se dedicarem às obras árduas e difíceis. É, porém, verdade que as almas religiosas recebem mil doçuras e consolações no meio das mortificações e práticas da santa religião, porque é principalmente sobre elas que o Espírito Santo derrama seus preciosos dons. Elas devem, portanto, na vida religiosa, procurar só a Deus e mortificar seus caprichos, paixões e inclinações, porque se buscarem outra coisa, nunca encontrarão a consolação a que aspiram. Mas é preciso uma coragem tenaz para não nos fatigarmos  e nos impacientarmos com nós mesmos, porque sempre haverá o que fazer e o que cortar”

“Tal irmã, segundo lhe parece, se sente muito dada à oração. Mas recebe ordem de ir para a cozinha. Que má notícia para quem se diz tão devota! Ah! é preciso morrer para que Deus viva em nós, porque é impossível conseguirmos por outro meio, fora da mortificação, a união da alma com Deus. São palavras duras: É preciso morrer; mas são seguidas de grande doçura, porque, por essa morte, nós nos unimos a Deus”

É mister fazer tudo o que prescrevem as Regras, por mais que nos custe.

“Notai bem que digo fazer, porque não é de braços cruzados que se adquire a perfeição” (102)

E há quem afirme que São Francisco de Sales nunca fala de mortificação! É, sem dúvida, em primeiro lugar o arauto do amor de Deus; mas “o puro amor de Deus nunca está tão bem como na mortificação de nós mesmos; à medida que esta cresce, vamos nos chegando ali onde se encontra o amor divino” (103).

É bom insistir sobre este ponto da sua doutrina — embora talvez ao preço de repetição — porque é muito desconhecido.

“Minhas caras  filhas, devemos esfolar a vítima se quisermos que ela se torne agradável a Deus. Na antiga lei, Deus não queria que o holocausto lhe fosse oferecido sem que estivesse bem purificado; assim também os nossos corações só estarão aptos a ser imolados e sacrificados em honra da divina Majestade, quando forem arrancadas as peles velhas, que são os hábitos, inclinações, repugnâncias, afeições supérfluas, que nascem do nosso “eu” e da nossa vontade própria” (104)

***

A mortificação deve ser incessante, ilimitada, estender-se a toda a vida, e desobstruir todos os cantos, afastando os numerosos detritos com que os entulha o amor próprio.

“O Bem-Amado das nossas almas vem a nós e encontra os nossos corações repletos de desejos, de afetos e de caprichos. Não é isto, porém, que procura, antes os quer encontrar vazios, para deles se apossar como dono e Senhor” (105).

“Enquanto tivermos apego a qualquer defeito, por pequeno que seja, até um pensamento inútil, nunca alcançaremos a perfeição”.

Evitemos aqui as generalidades, “nada, mais fácil na teoria do que dizer: é preciso renunciar a si mesmo e abdicar da própria vontade. Mas nada é tão difícil na prática”. Nenhuma minúcia será desprezada, o mal será “cortado” pela raiz, logo que se dê a conhecer, por menor que seja. É preciso também examinar conscienciosamente se, de fato, como nos parece algumas vezes, estamos verdadeiramente desapegados; se, por exemplo, quando alguém nos elogia, dizemos alguma coisa para realçar esse bom conceito, ou se o provocamos, por meio de palavras manhosas, alegando que nos falta memória, ou inteligência necessária, para falarmos bem” (106). A lista de exemplos a citar é longa…

Quanto às mortificações clássicas da mesa, requerem um coração intrépido, que nos arraste a praticar todos esses pequenos sacrifícios. Mas nem basta um coração intrépido, deve ainda ser alegre.

“Se num dia de jejum estiverdes indisposta e com ares melancólicos, embora não tiverdes vontade nem necessidade de tomar algum alimento, digo-vos, minha cara filha, que, em vez de dois dedos de pão e de vinho, deveis tomar dois dedos de coragem e de vigor, a fim de que vosso aspecto doentio não prejudique às outras, que ficariam apreensivas com o vosso mal” (107)

“De ordinário, contentemo-nos não só com pouco, mas com tudo. Quanto a mim, nunca acho nada a dizer da carne, exceto que é boa demais. Não é assim que devemos fazer, minhas filhas? Receais que os pratos feitos de restos vos façam mal ao estômago; a mim faz-me mal ouvir falar nisso, mas quanto a comê-los, nunca” (108)

“Desejo muito que não se fale de comedorias entre nós; comamos de boa vontade o que nos for apresentado, seja ou não do nosso gosto; basta que sustente o nosso saco de vermes” (109)

Evitemos, na oração, a tendência demasiadamente natural, para não dizer geral, de só procurar a doçura dos afetos sensíveis; porque “nossas satisfações e consolações não agradam aos olhares de Deus, mas somente a  esse miserável amor a si mesmo e cuidado que temos da nossa própria pessoa” (110).  Em que nos devemos mortificar? perguntava Sóror Isabel da Trindade. Em tudo. Quando? Sempre. Jesus baixou à terra para padecer e morrer. Quem não carrega sua cruz não pode ser seu discípulo. Mas ai de nós! Não fazemos nada disso. Quando sua bondade suprema nos priva da consolação que nos dispensava em nossos exercícios, julgamos tudo perdido. Quantos santos desejos de agradar ao Bem-Amado formula a alma cheia de consolações. “Enternece-se junto dele, e a ele se abandona”. Numerosas são suas obras de caridade! Sua modéstia chama a atenção das outras.

“As mortificações, longe de me custarem, diz ela, me eram motivo de consolação; as obediências causavam-me alegrias. Apenas ouvia o primeiro toque do sino, e logo me levantava. Agora, porém, sinto-me desgostosa e em plena secura.”

Parece-lhe, até, que lhe falta coragem para tudo; não tem mais aquele fervor primitivo; enfim, sente-se de gelo e tudo nela é frio. Pobre alma! Traz seu desgosto estampado no rosto; tem o semblante carrancudo e melancólico, e anda tão pensativa e confusa que faz pena. Que é? perguntam-lhe constrangidamente.

“Ah! Estou tão abatida; nada me dá prazer, tudo me desgosta”

Coitada, que fraqueza! Não devemos ser assim, “mas nos devemos deixar despojar pelo nosso soberano Senhor quando e como lhe aprouver, sem nos queixarmos nem nos lamentarmos, mas procurando por todos os meios aperfeiçoar os nossos exercícios a fim de lhe testemunharmos a nossa fidelidade. Um único ato feito com secura de espírito vale mais do que muitos feitos com grande ternura” (111).

“Por isso se costuma dizer, a quem entra para o convento, que é uma escola de abnegação de toda vontade, uma cruz em que se crucifica, em suma, aí devemos entrar para padecermos e não para sermos consolados. Quem quiser açúcar e pastilhas vá buscá-las na farmácia; aqui os alimentos são amargos e desagradáveis para o paladar, mas salutares para o coração. Pergunto sempre a estas almas, e faço-o sem receio de me repetir: Que viestes buscar no convento, minhas filhas? Consolações? Sim. Que fazeis aqui? Enganam-se as que pensam encontrar consolações, gozos e doçuras espirituais. Ah! Não deveis procurar isso aqui, porque semelhante procedimento é intolerável para quem conhece, por pouco que seja, a devoção. Quem vem, é para viver numa profunda humildade e inteira resignação, e receber, com a mesma boa vontade, as desolações e as consolações, as doçuras e as tribulações, as securas e os desgostos. Se Deus vos der consolações, ou confeitos, beijai-lhe a mão e agradecei-lhe muito humildemente, mas não vos detenhais no caminho, passai adiante, e humilhai-vos”

“É de certo muito doloroso para nós vermos nosso Senhor sofrer tanto, privar-se de todos os prazeres e consolações que poderia ter recebido no meio dos sofrimentos, servindo-se apenas do indispensável, e sermos nós tão apreciadores desses bens ao ponto de parecer que só trabalhamos com o fim de os alcançar! Apenas os possuímos, e logo ficamos a mirá-los e a saboreá-los, sem nada fazermos de importante. Essas doçuras só servem de divertimentos para certas almas que as procuram com demasiada avidez. Ah! não nos são necessárias, não nos tornam melhores. Deus as concede não somente aos justos, também aos pecadores, pois as dá por vezes a almas que se acham em estado de pecado e fora da sua graça. Por que, então, apegar-vos tanto a elas? Considerai, por favor, o Menino recém-nascido no presépio de Belém; ouvi o que vos diz; vede o exemplo que vos dá”

“Escolheu o que havia de mais áspero e de mais incômodo por ocasião da sua Natividade. Ah! quem seria capaz de ficar ao pé do presépio, durante toda a oitava, sem derreter-se de amor, ao ver o Infante a chorar e a tremer de frio num lugar tão pobre! Com que respeitosa reverência a gloriosa Virgem, nossa Mãe, contemplava esse coração, a palpitar de amor no seu regaço; como enxugava as doces lágrimas que rolavam suavemente pelas faces divinas dessa bendita Criancinha! (112)”

Mas o despojamento pode ir mais longe ainda, e se pode, deve, ou antes, há um despojamento que ultrapassa a todos os outros. É a renúncia à própria vontade. Muitas almas querem mortificar-se, mas a seu modo; querem praticar a renúncia, mas, bem entendido, só porque assim o querem. Ora, é preciso “o abandono total, que submete, sem reserva, a vontade e todos os afetos ao beneplácito de Deus. Digo sem reserva, porque é tão grande nossa miséria que nos reservamos sempre alguma coisa. As pessoas mais espirituais conservam, em geral, a vontade de terem virtudes”. Daí não se depreende que não devemos desejar a virtude e a ela tender, é claro. Mas quanto a termos preferência em matéria de virtude — esta é nossa, aquela não — ainda nisto há muito de nós mesmos. Pedir, por exemplo, a prudência “para vivermos honradamente, e não pedir a simplicidade… Submeto-me, ó meu Deus, inteiramente à vossa vontade; mas dai-me a necessária coragem, para que, dedicando-me ao vosso serviço, possa realizar belas obras. Na mansidão, porém, que nos leva a viver com o próximo, ninguém fala” (113).  O amor que não procura a Deus, e só a Deus não é puro. A alma não está ainda vazia. Esta obra de desapropriação deve atingir uma profundeza assustadora. Devemos morrer, minhas filhas!

“Não basta adoecermos e termos aflições, porque Deus o quer; devemos ainda ser como ele quer, quando quer, pelo tempo que quiser e do modo que lhe aprouver, sem que haja da nossa parte nem escolha nem repulsa por nenhum mal ou aflição, por mais humilhante e abjeta que seja, pois o mal e a aflição, sem a abjeção, incham frequentemente o coração, em lugar de humilhá-lo. Quando, porém, sofremos um mal sem honra, ou quando a própria desonra, o aviltamento ou a abjeção são o nosso quinhão, não nos faltam então ocasiões de praticarmos a paciência, a humildade, a modéstia e a mansidão de espírito e de coração” (114)

“As melhores abjeções são as que vêm do acaso, ou as que nos impõe as circunstâncias da vida, porque não as escolhemos, mas as recebemos conforme no-las envia Deus, cuja escolha é sempre superior à nossa” (115)

Quanto às penitências que escolhemos só mortificam a parte superficial do nosso ser, por serem do agrado da nossa vontade. Mas quanto às que chegam sem que as peçamos nem as procuremos, as que não nos agradam nem quiséramos, estas nos ferem o amor próprio na sua origem. Se as aceitamos, é quase a contragosto. Gostaríamos de as poder não aceitar ou rejeitar, e só conseguimos nos submeter a elas pela parte superior da vontade. Quanto menos, por conseguinte, forem do nosso agrado, do nosso gosto, tanto menos parte, é evidente, teremos nelas, e tanto mais arrancarão as duras raízes do amor próprio.

É por isso que nada torna nossa alma tão dócil e flexível como a obediência, ou, melhor ainda, o vivermos à mercê do nosso próximo. Não se trata, aqui, evidentemente, de quem nos levasse para o mal, e sim de saber distinguir entre as ações boas e as mil fantasias que nos alimentam o amor-próprio. — “Devemos ter um coração dócil, flexível e condescendente” (116).

Quem se dedica ao próximo, digo mais, quem dá a vida por ele, faz menos do que quem fica ao seu dispor para agir para ele ou por ele. Pois não basta ajudar nosso próximo com nossos bens temporais, nem basta, diz São Bernardo, nos dedicarmos pessoalmente, até sofrermos por amor dele. Mas é preciso ir mais longe, deixando que, em virtude da santa obediência, disponha de nós em tudo, direta, ou indiretamente.

Pois quando agimos por nós mesmos, segundo os nossos desejos e vontade própria, o amor próprio fica muito satisfeito; mas fazer o que os outros querem de nós e não o que nós queremos, isto é, o que não escolhemos, constitui o sumo grau da abnegação. Se quiséssemos pregar, por exemplo, e nos mandassem tratar de doentes, rezar pelo próximo, e nos mandassem servi-lo. Ah! Mais vale, sem dúvida, fazer o que os outros nos mandam fazer, contanto que não seja contra a vontade de Deus, nem possa ofendê-lo, do que o que fazemos ou escolhemos por livre vontade” (117).

Lembrais-vos de todas as pequeninas diplomacias e da sensibilidade sutil nas relações das irmãs com as superioras, de suas queixas por estarem descontentes? Que devemos fazer, quando alguém nos corrigir ou mortificar? Devemos abrir os braços a essa mortificação como uma prenda de amor, ocultá-la no coração, beijá-la e acariciá-la com ternura.

Quando, pois, em plena secura, nos separarmos da superiora, sem termos recebido uma só gota de consolação, levemos essa secura como se fossem um bálsamo precioso, a exemplo do que fazemos com os afetos que recebemos na santa oração, — tendo grande cuidado para não derramar o licor precioso que nos foi enviado do céu, qual dom excelente, a fim de nos perfumar o coração, privado da consolação que esperava encontrar nas palavras da superiora” (118).

Gravemos bem as últimas palavras: A fim de nos perfumar o coração, privado da consolação. Não se trata aqui de resignação, nem de aceitação, mas de perfumar o coração. Quem dirá ainda que São Francisco de Sales não fala em mortificação?

Mas não terá muito valor se não durar, “porque não custa fazer alegremente aquilo que nos mandam fazer uma só vez, mas quando nos dizem: Tereis de fazer isto sempre, e durante toda a vida, é que se revela a virtude e que aparece a dificuldade”.

As noviças, é certo, fazem prodígios durante o ano do seu noivado, e “chamam atenção pela sua mortificação, pois conservam sempre os olhos baixos” (119).

É preciso, porém, perseverar, e o grande segredo da perseverança não consiste nos impulsos do coração, nem nas virtudes extraordinárias, mas na obediência, na simples submissão às Regras, segundo o curso normal da Congregação, que, se nos dá Regras, “é para servir de lagar aos nossos corações e extrair deles tudo quanto for contrário a Deus” (120).

Esta modesta virtude é poderosíssima para quebrar o amor próprio, pois: “se houvesse uma Irmã  generosa e corajosa ao ponto de querer alcançar a perfeição num quarto de hora, fazendo mais do que faz à Comunidade, eu lhe aconselharia que se humilhasse e se sujeitasse a não querer ser perfeita senão em três dias, acompanhando o ritmo das outras”. Insinuar discretamente que há, no retraimento humilde, uma perfeição mais elevada ainda do que nessa generosidade um tanto ostensiva”.

É preciso também não “tomar como vento favorável, isto é, como inspiração, todos os caprichos que nos vêm, porque o nosso amor próprio, sempre em busca de sua própria satisfação, ficaria então contentíssimo. Não posso insistir demais sobre a importância deste ponto, isto é, do exato cumprimento das mínimas prescrições da Regra, a fim de observá-la do modo mais perfeito — até das pequenas cerimônias. Tão pouco devemos fazer mais do que prescreve, sob pretexto algum” (121).

Numa palavra, para atingir a perfeição, há um só caminho, o da obediência. Praticada todos os dias, em todas as coisas, é uma chuva miudinha que nos penetra de manso a alma, até embebê-la… Lembro-me de ter visto outrora, num país hulhífero, trabalhos de sondagem: Um tubo fino, terminando por uma verruma, introduzido no solo, abria um buraco por meio de um movimento giratório rápido, e descia lentamente, mas reta e diretamente, a centenas de metros de profundidade. Assim como a verruma, Deus penetra na alma, pela prática contínua da obediência humilde, assim perfura vagarosa, mas retamente, até ao fundo, e nenhuma camada de granito resiste à modesta mas infatigável perfuradora.

Assim morrerão “as caras filhas” para se tornarem todas de Deus.

“Ah! minha Madre, nossas Irmãs estão de tal maneira resolvidas a amar a mortificação, que faz gosto vê-las. Já não dão mais valor à consolação, que tal o apreço em que têm o sofrimento, as securas, as repugnâncias, porque desejam tornar-se semelhantes ao Esposo. Ajudai-as, pois, nesta empresa; mortificai-as bem e denodadamente, sem poupá-las, porque isto pedem. Não se afeiçoarão mais aos carinhos, por ser isto contrário à generosidade da sua devoção, mas se apegarão tão firmemente ao desejo de agradar a Deus, que não quererão mais nada” (122)

Mas será mesmo tudo isto de São Francisco de Sales? Este ascetismo duro destoa os vergéis floridos e sua doutrina sorridente. Que será deste espírito de mansidão, que é próprio da Visitação?

É o momento de lembrar o que dissemos a princípio: mansidão não é moleza, nem tibieza. Não exclui o vigor nem a generosidade, — muito pelo contrário, como tudo bem o demonstra.

Ele, no entanto, quase não tratou da mortificação física, da austeridade propriamente dita, com o aparelhamento terrível de instrumentos de penitência, que exibem as Ordens antigas.

“Ah! não, porque a perfeição não consiste nessas austeridades, meios de certo bons para a conseguir, e boas em si; não nos convêm, todavia, porque não são conformes às nossas Regras, nem ao seu espírito, nem, tão pouco, é regra geral que devamos; fazer tudo aquilo que nos repugna, ou nos abster de tudo aquilo que nos agrada” (123)

Então como há de ser? Tome-se um tubo de vidro, e procure-se curvá-lo. Há de resistir ou quebrar-se. Mas se for aquecido na chama de uma vela, tornar-se-á flexível e tomará as formas que lhe quiserem dar.

Assim também com os caracteres.

“Devemos morrer, minhas filhas”

Mas esta morte se efetuará mais facilmente pelo trabalho lento da obediência humilde e do esquecimento próprio, do que pela violência das austeridades. São virtudes que tornam as almas maleáveis nas mãos de Deus, e as transformam numa pasta que ele amassa à sua moda. E operam suavemente este trabalho; O seguinte texto, que encontrei ao acaso, demonstra bem esta transição:

“É preciso, ensinar às Irmãs que elas têm um coração para amar, louvar e servir a Deus fielmente, e que Ele as congregou, para que sejam extraordinariamente esforçadas, denodadas, corajosas, perseverantes em seu serviço, que se dediquem às grandes e perfeitas virtudes de uma devoção máscula, forte e generosa, à abnegação do amor próprio, ao amor da própria abjeção, à mortificação dos sentidos, à sincera dileção, e que façam o que lhes manda a superiora, nem mais nem menos, sem outra pretensão, senão a de servir à divina Majestade. É bem duro sentirem-se elas aniquiladas e mortificadas em todo encontro com a superiora. A habilidade, no entanto, de uma Madre caridosa e doce, fá-las engolir essas pílulas amargas com o leite de uma santa amizade, dispensando continuamente às suas filhas um acolhimento jovial, gracioso, a fim de que elas venham pressurosas e alegres, e se deixem manejar como bolas de cera que se amolecem sem a menor dificuldade ao contato com esse fogo de caridade ardente.”

É preciso morrer, mas morrer suavemente e não de morte violenta. Será, todavia, morte, e este ideal suave encerra, apesar de tudo, pavorosa austeridade. Assim é que afasta a mais de uma. A Visitação é para corpos fracos, mas para espíritos fortes e “as humilhações que aí se devem praticar fazem esmorecer algumas vezes as candidatas (124). A propósito; quero contar que, ontem, a minha priminha veio visitar-me, e abriu-se comigo a respeito de suas intenções relativamente à vocação religiosa, e me expôs seu caso com tanta sinceridade e gentileza, que me deixou muito edificado e consolado. Disse-me que desejava muito ter vocação para religiosa da Visitação, mas que não tinha coragem de se resolver, porque não podia aspirar a tão alta perfeição e julgava impossível empreendê-la. Creio que a pobre menina não pensa absolutamente em se casar, e que se acomodaria bem a outra espécie de vida, em que se não observasse uma regra tão radical como é a da Visitação” (125).

Eis aí, exposto com clareza, o nosso espírito de mansidão. Mas ouço o leitor propor-me uma série de objeções. Isto, dirá ele, de morte, de aniquilamento, e de submissão do espírito a toda sorte de obediências, desprezando a vontade própria, que é, senão renunciar ao que nos torna homens! O homem perfeito torna-se então um ser impessoal, que não ousa mais pensar nem querer, um manequim sem movimento nas mãos de quem o dirige? É levar longe demais a renúncia. Tal passividade não permite sequer que se tenha vontade de se renunciar, porque seria ainda vontade própria! Não se tem mais vontade alguma, e aguarda-se numa completa indiferença — espécie de nulidade moral, — o impulso, seja qual for, que lhe venha do diretor. Isto toca, ao Budismo!

E que fica do que já foi dito acerca da espontaneidade dos santos? Essa máquina de produzir o vácuo aspira, com os defeitos, a própria personalidade.

É isto mesmo que eu esperava. É o eterno grito da natureza contra a vida cristã, — extingue a personalidade! A ideia que o mundo faz da individualidade, da energia e da nobreza está ligada ao orgulho; tem a humildade o desprendimento em conta de fraquezas; considera a obediência uma vergonha e a doutrina de Cristo um aviltamento.

Nós, porém, pregamos a Cristo crucificado, escândalo para o mundo e demência para os filósofos. Tais objeções, sempre atuais após dezenove séculos, causar-nos-iam grande prazer, porque provariam, ao menos, que o leitor leu estas páginas com atenção, e, também, porque gostamos que surjam dificuldades no momento preciso em que as vamos resolver…

Primeiramente, nós nos limitamos a verificar que os santos são seres vivos e homens como nós. Depois, tendo tratado de perto com as boas irmãs da Visitação, verificamos, mais uma vez, que, de fato, elas não abdicam de sua personalidade, — muito pelo contrário, pois ainda soam frescas aos nossos ouvidos tantas histórias jocosas. Resta a saber se assim deveriam fazer, — se é este o seu ideal, mas se sua personalidade está unicamente nas suas imperfeições, e se este aniquilamento que lhes prega o bom Pai deve levá-las ao automatismo degradante de bonzos chineses. Chegamos aqui ao ponto culminante da doutrina salesiana, a dois princípios que resolvem claramente, ao meu ver, as objeções clássicas conhecidas, sem dúvida alguma, antes de São Francisco de Sales, mas que ninguém até então havia explicado com tão luminosa clareza. Formam estes dois princípios, se assim posso dizer, a lei da estabilidade da vida cristã. Trata-se da doutrina da união pela parte superior da alma, e a do abandono na simplicidade. As páginas que se seguem visam apresentar estas fórmulas abstratas sob o ponto de vista da realidade da vida.

As caras Filhas devem unir-se a Deus pela parte superior da alma

À primeira vista este texto parece estranho. São Francisco de Sales, depois de recomendar às suas filhas que tomassem a espada da mortificação para matar suas paixões, acrescenta “aquela que as tiver em maior número, será a mais intrépida” (126).  É, de certa maneira, dar a palma às menos perfeitas!

A mesma ideia se manifesta ainda mais fortemente algumas linhas atrás:

“Não se exige de vós que não tenhais paixões, pois não está em vosso poder, e Deus quer que estas se façam sentir até à morte, para que seja maior o vosso merecimento; nem que sejam pouco violentas, porque equivale a dizer que uma alma sem ardor não está apta a servir a Deus”

O divino Amante de nossas almas deixa-nos muitas vezes como que imersos nas nossas miséria a fim de nos mostrar que só Ele pode livrar-nos delas (127).  E isto explica por que, algumas vezes, será mais vantajoso e melhor que as virtudes não se tornem em hábito, contanto que as exerçamos todas as vezes que se nos apresentar ocasião, porque a repugnância que sentimos na prática de alguma virtude deve servir para nos humilhar, e a humildade vale sempre mais que tudo isso (128).

Essas paixões e misérias, no entanto, não deixam de ser outros tantos sinais de imperfeição. Como pode ser agradável a Deus ver-nos tão cheios de defeitos? Que é, então, a santidade?

“A espiritualidade desta casa deve ser generosa, independente de qualquer espécie de ternura, gosto ou consolação sensível. Não procuremos livrar-nos de nossas penas, repugnâncias e aversões, porque não nos prejudicam de modo algum. Quando, pelo contrário, alguém nos manda fazer aquilo que nos repugna à natureza, e   fizermos com a força do amor intelectual, não resta a menor dúvida de que o mérito desta ação será infinitamente maior do que se a tivéssemos praticado sem repugnância” (129)

Eis a santidade. É toda a doutrina da união pela parte superior. Mas, para que a compreendamos bem, precisa ser desenvolvida.

O único fim da vida cristã é o amor que une a alma a Deus, “porque, como já disse, pouco ou nada adiantaria renunciar-se e abandonar-se, a não ser para se unir perfeitamente à divina Bondade (130).  Lembremo-nos sempre de que devemos morrer, mas para que Deus viva em nós por esta morte. Só temos uma alma, Teotimo, mas nessa alma há diversos graus de perfeição, pois é viva, sensível, razoável, e tem, segundo estes diversos graus, uma diversidade de propriedades e inclinações”. Ora, “enquanto for conforme à razão, notamos duas partes manifestas, uma das quais é dita inferior, porque discorre e tira suas consequências do que conhece e experimenta pelos sentidos e outra dita superior, porque discorre e tira suas consequências do conhecimento intelectual, que não se baseia na experiência dos sentidos, mas no discernimento e juízo do espírito”.

“Não há dia em que não experimentamos em nós vontades opostas. O pai que vê o filho ir para a corte ou estudos, não deixa de chorar ao dar seu consentimento, porque, embora a parte superior queira a partida deste filho para que se aperfeiçoe na virtude, a parte inferior, no entanto, sente muito a separação. Embora, também, o casamento da filha seja do gosto dos pais, todavia, ao pedir-lhes a bênção, ela chora, mostrando assim que a vontade superior aquiesce à partida, mas a inferior não deixa de sofrer. A vontade, afagada por diversos atrativos, parece dividida em si mesma enquanto for atraída pelos dois lados, até que, escolhendo o seu partido, siga livremente um ou outro” (131)

Apliquemos estes princípios à nossa vida cristã. Muitas pessoas dizem a nosso Senhor:

“Eu me dou a vós sem reserva, mas poucas põem fielmente em prática este abandono, o qual não passa de uma perfeita indiferença na aceitação de quaisquer acontecimentos que lhes forem enviados pela Providência divina. Digo parte superior da alma, porque é inegável que a parte inferior, e a inclinação natural, tendem sempre, de preferência, para o lado da honra e não do desprezo; para o das riquezas e não da pobreza” (132)

Mas devemos praticar “todas as nossas ações segundo a parte superior. É assim que devemos viver nesta casa, e nunca segundo os sentidos e inclinações”.

Tomemos, por exemplo, a obediência: Tal superiora é-nos agradável, “mas basta que eu lhe obedeça pela parte superior, e minha obediência terá tanto mais valor quanto menos agradável me for, porque assim mostramos a Deus que obedecemos por Ele, e não pelo nosso bel prazer” (133).

Pouco importa, pois, se os sentidos reclamam.

“Precisamos de espíritos generosos que se apeguem a Deus só, sem se deixarem de modo algum deter pelas exigências da parte inferior” (134)

“Não devemos tomar seus engenhos em consideração, mas agir como se não os tivéssemos percebido” (135)

“Nem devemos ficar a ponderar se temos ou não bons sentimentos, mas proceder como se os tivéssemos” (136)

Finalmente, “a respeito das repugnâncias da parte inferior, convém dar-lhes a mesma atenção que dão os transeuntes aos cães que latem ao longe” (137).

Depois, prevendo uma objeção, já sem dúvida alegada:

“É preciso, neste caso, não dizer que fala a boca e não o coração; porque quando o coração não quer, a boca não diz uma só palavra” (138)

Friso bem que esta resolução de pleno abandono a Deus não precisa tornar-se sensível, mas deve estar conscientemente em nós, sem nos deixarmos distrair com o que sentimos ou não, pois a maior parte dos nossos sentimentos e satisfações são simples passatempos do amor próprio. Não devemos pensar tão pouco que, em se tratando de abandono e de indiferença, nunca nos hão de vir desejos contrários à vontade de Deus, nem que certos acontecimentos de seu divino agrado não nos repugnem à natureza, o que pode muito bem acontecer. São virtudes que habitam na parte superior da alma; a inferior, ordinariamente, fica-lhes alheia. Nada devemos empreender sem consultar esta vontade divina, abraçando-a, seja qual for, e unindo-nos a ela.

Nessa região superior, que paira acima dos sentidos, move-se a vida cristã.

“Nosso Senhor, às vezes, quer que as almas destacadas para o serviço da sua divina Majestade se alimentem da resolução firme e inabalável de perseverar, seguindo-o, apesar dos desgostos, securas, repugnâncias e amargores da vida espiritual, sem consolações, sem gostos, sem ternuras, sem prazer; julgando-se indignas de outra coisa, seguindo assim o divino Salvador com a parte superior do espírito; sem outro apoio senão o da vontade divina, que assim o determina. Eis, minhas caras filhas, como eu desejo que caminhemos. Há pessoas muito perfeitas, às quais nosso Senhor nunca concede tais doçuras, nem quietudes, que obedecem sempre à parte superior da alma, e fazem morrer sua vontade na vontade de Deus, à viva força, e com o cimo da razão” (139)

Trata-se agora da união, não simplesmente com a parte superior, mas com a fina ponta, o ápice do espírito. Coincide, afinal, com a morte da alma.

“É preciso morrer, minhas filhas, mas para que Deus viva em nós”

Toda a parte inferior da alma deve morrer, para que a superior possa voar para o Bem-Amado.

Ou, antes, a superior deve desprender-se. Não nos iludamos; a parte inferior, a dos sentidos e das paixões, está sempre a se agitar. Custa muito mais a morrer do que nós em relação a ela. A morte da qual devemos morrer consiste na renúncia a tudo que nos vem dessa parte inferior. Não a deveremos, pois, amar, nem alimentar. Assim, muitas paixões irão desaparecendo, enquanto outras dificilmente se hão de vencer, e, de vez em quando, hão de explodir. Que fazer, então? Santo Tomás, na Summa; compara a vontade com o que chamaríamos hoje um rei constitucional. Reina, mas nem sempre a seu gosto. Nos debates, por mais extravagantes, do seu parlamento, poderá dizer: não. É o direito do veto. Nada mais, no entanto, poderá fazer, e terá de esperar, para agir, que se acalme a exaltação do povo. O mesmo acontece com a nossa pobre carcaça.

“É meu desejo que nunca nos admiremos de nada que nos possa sobrevir da parte inferior da alma, por pior que seja” (140)

Esta doutrina da união, pela parte superior, esclarece muitos pontos obscuros e explica, sobretudo, a facilidade com que São Francisco de Sales acolhia no claustro toda espécie de jovens, algumas “coléricas e mal educadas”, outras que no mundo eram “mostruários de vaidade”. Esta vontade reta, a única condição de que não prescindia, é precisamente a que reside na parte superior, “de tal maneira que não é necessário, como indício de boa vocação, ter uma constância sensível, mas basta que esta exista ha parte superior do espírito e que seja efetiva”.

“Não é incompatível, nos principiantes, com a violência das paixões. Não resta dúvida de que, para as pessoas de natureza rude e grosseira, é mais penoso e difícil do que para as que têm gênio mais dócil e maneável; aquelas cairão mais facilmente em erros do que estas. Se, no entanto, manifestarem vontade firme de tomar os remédios, por mais que lhes custe, não lhes recusaria o meu voto, apesar das quedas, porque tais almas, depois de muitos esforços, colherão grandes frutos na vida religiosa, e se tornarão ótimas servas de Deus. A graça supre as faltas, e, muitas vezes, onde há menos da natureza, há incontestavelmente mais da graça” (141)

“A vida religiosa não tem muito mérito em aperfeiçoar um espírito bem formado, uma alma naturalmente dócil e calma, mas dá muito valor a cultivar a virtude nas almas de ânimo forte, porque estas, se forem fiéis, ultrapassarão as outras, porque conseguirão, com o trabalho do espírito, o que aquelas adquirem sem dificuldade” (142)

“Mas é preciso salientar bem a diferença entre inclinações e afetos; porque quando se trata, nesses casos, de inclinações e não de afetos, não nos devemos afligir, porque aquelas não dependem de nós, e sim estes” (143)

O mundo muito se engana a respeito.

“Deus não rejeita aquilo em que não há malícia, porque, na verdade, que culpa tem tal pessoa de ter este ou aquele gênio, estar sujeito a estas ou àquelas paixões? Tudo depende, pois, dos atos que praticamos no impulso do momento, que  independem da nossa vontade, pois o pecado é de tal forma voluntário que, sem o nosso consentimento não o pode haver” (144)

“Quisera, por conseguinte, que não nos perturbássemos com os maus sentimentos que nos vêm, mas que nos esforçássemos, corajosa e fielmente, para não consentirmos neles” (145)

“Basta, quanto a este ponto, ou haverá mais alguma coisa a dizer?”

“Que deveríamos fazer para elevar sempre, e em todas as coisas, o espírito a Deus, sem olhar para a direita nem à esquerda? Minha cara filha, gosto muito desta pergunta, sobretudo porque traz em si a resposta. É preciso fazer isso mesmo. Buscar a Deus em todas as coisas”

“Não foi bem esta a pergunta, eu sei, e sim o que se deve fazer para fixar de tal maneira o espírito em Deus, que nada o possa desviar ou afastar dEle. Isto requer duas coisas: Morrer e salvar-se, porque depois não haverá mais separação e o espírito se afeiçoará e unirá indissoluvelmente ao seu Deus”

“Mas ainda não é bem isto. Que fazer para que uma mosquinha não nos desvie o espírito de Deus, como acontece, isto é, as pequenas distrações? Perdão, minha cara filha, essas mosquinhas de distrações não afastam o espírito de Deus, como dissestes, porque nada nos afasta de Deus a não ser o pecado. A resolução tomada pela manhã, de mantermos o espírito unido a Deus e atento à sua presença, nela nos guarda sempre, até quando dormimos… Quanto à oração, não será nem menos útil, nem menos agradável a Deus, se nos vierem muitas distrações, mas, talvez, nos seja ainda mais proveitosa se fielmente procurarmos evitá-las”

“O mesmo se dá com a dificuldade que encontramos durante o dia em fixar o espírito em Deus e nas coisas celestes. Basta que tenhamos o cuidado de recolhê-lo, e assim impedir que corra atrás dessas moscas e borboletas, como faz a mãe com o filhinho. Ao ver o menino correr atrás das borboletas, pensando que vai apanhá-las, ela chama-o e segura-o pelo braço. Perdes tempo, meu filho, a correr ao sol atrás das borboletas; é melhor ficares ao pé de mim. E assim fica o pobre menino até ver outra borboleta, atrás da qual correria, se a mãe não estivesse ali para agarrá-lo novamente” (146)

‘‘Deus tão pouco se aborrece se cochilarmos durante a oração, contanto que tenhamos feito tudo para despertar” (147)

“Os mandamentos de Deus e da Igreja não são tão rigorosos como se pensa”

Aqui o sorriso indulgente do bom Pai reaparece.

“Não devem perturbar tanto os espíritos. A lei de Deus é toda de amor e de mansidão como afirma Davi. As distrações involuntárias não tornam a oração nem o Ofício menos agradáveis a Deus. O mesmo se aplica ao sono. Quando começo a rezar o Ofício estou alerta, tenho a intenção de dizê-lo do melhor modo possível, como é do meu dever. Mas me sobrevém certa sonolência que, no entanto, não me impede de recitar o versículo mais ou menos bem e que se prolonga pelo espaço de um ou dois salmos. Que fazer então?” (148)

“Não devemos sempre pensar que houve negligência da nossa parte quando a distração se prolonga, porque, às vezes perdura o tempo todo do Ofício, sem que nos caiba a mínima culpa (149).  Nosso Senhor se compraz em nos ver combater todo o tempo, sem nos querer livrar dessas distrações. Devemos sofrer com paciência e amar já nossa abjeção” (150)

Assim também a obediência não impede, de modo algum, que haja, da parte da natureza, pequenos ímpetos de complacência própria (151). Se nossa superiora é menos apta que sua predecessora, “não podemos certamente impedir que nos venha tal ideia. Estar sujeito a ter opiniões próprias, não é, em si, nem bom nem mau por ser naturalíssimo”. Mais ainda, “estar sujeito a estimar a própria opinião, procurando esforçadamente argumentos que a favoreçam, uma vez que a compreendemos bem e mereceu nossa aprovação, é também muito natural”. Acontece o mesmo com o primeiro movimento de complacência que sentimos quando a nossa opinião é acatada ou seguida, o que é inevitável, e aqui é preciso estabelecer uma distinção importante em si, e na qual nos devemos basear: Tais sentimentos são inofensivos, “conquanto não nos afeiçoemos a eles” (152).

“A superiora não deve deixar de corrigir as Irmãs pela aversão que estas possam sentir, porque tal repugnância talvez nunca desapareça, pois é inteiramente contrário à natureza do homem gostar de ser rebaixado e censurado” (153).

Quanto às que recebem alguma correção não se devem admirar se ficarem perturbadas, porque “se estivéssemos prevenidas com duas horas de antecedência, talvez não nos comovêssemos; mas de surpresa é muito difícil que isso não aconteça” (154).

“O fato das toucas serem iguais não impede que os caracteres sejam diferentes. Há necessariamente entre as Irmãs falta de simpatia e aversões naturais, que dão lugar a certa má vontade, em relação àquelas que no-las inspiram. Desagradam-nos, isto é, não temos o prazer que  teríamos em conversar com aquelas que nos são simpáticas… Ora, não devemos dar muita importância nem às aversões naturais nem às simpatias, contanto que tudo submetamos à razão”, porquanto, ninguém está isento de tais sentimentos, por perfeito que seja (155).

Cuidemos, no entanto, de não diminuir os atos de caridade para com a pessoa por quem temos aversão; devemos servi-la, falar-lhe, tratá-la com gentileza, como se nada tivéssemos contra ela, ou mais ainda, e assim provar a Deus a nossa fidelidade.

“Não digo que, se essa aversão for um pouco forte, nos seja sempre possível tratá-la com a mesma cortesia que dispensamos a quem temos amizade. Se está em nosso poder falar com ela e tratá-la bem, não nos é, todavia, impossível fazê-lo com o semblante afável e gracioso de quem nenhuma aversão sente. Se, falando com essa pessoa, mostrarmos menos bom humor, ou desviarmos um pouco o olhar, se for só isso, não haverá grande mal. Pode também acontecer que, se eu for repreendê-la, ou admoestá-la sobre qualquer falta, apesar de ter tido intenção firme de falar com caridade, todavia ao dirigir-me a ela me mostrasse um pouco apaixonada, é coisa quase inevitável a todos nós” (156).

Acontece também às vezes quando uma Irmã nos pede um favor, que, “inadvertidamente, lhe demonstramos o nosso desagrado”. Também a isto ainda devemos suportar com paciência, “porque não está em nosso poder impedir que transpareça na cor, nos olhos e nos gestos o combate que se trava em nosso interior, embora a razão procure esforçadamente dominar-se. São mensageiros que vêm sem serem chamados, e que não fazem caso se lhes dermos ordens de se retirarem” (157).

A irascibilidade é, por natureza, uma paixão efervescente, e “é impossível impedir que o sentimento de cólera não nos mova, e que o sangue não nos suba ao rosto” (158).  Não nos iludamos a respeito.

“Se me vierem contar que tal pessoa falou mal de mim, ou de qualquer forma me ofendeu, irrito-me logo, e nem uma só veia deixa de bater com violência. Mas se, em compensação, eu me voltar para Deus e fizer um ato de caridade a favor de quem me ofendeu, não terei pecado. Digo mais, se me passar pela cabeça toda espécie de pensamentos contra aquela pessoa, e isso durante o dia todo, ou até durante vários dias, se eu, de vez em quando, fizesse atos contrários, não teria pecado” (159)

Porque “a cólera e a tristeza são paixões”, são simples tendências naturais, “e seus movimentos não constituem pecado, porquanto não está em nosso poder afastá-los” (160).  Só uma coisa nos pertence, é o consentimento.

“Ponhamos que a cólera me surpreenda. Dir-lhe-ei: Vai-te, retira-te, arrebenta, se quiseres; não te darei atenção, nem uma palavra sequer direi em teu favor” (161)

“Pois bem, se me transtornar o coração, se me esquentar a cabeça de todo lado, se me fizer ferver o sangue como água no fogo, não deixarei, tanto quanto me for possível, de ser afável e mansa, e destruirei todas as razões que a natureza me apresentar para o seu desabafo, sem ouvir a uma só” (162)

“Já que tais movimentos não são pecados, é preciso, sempre observadas as regras da prudência, não deixar que nos perturbem tanto. Se eu souber que, encontrando certa pessoa, ela me dirá uma palavra que me confunda ou me comova, nem devo evitá-la por isso. Essa perturbação afeta apenas a parte inferior da alma, não devo, por conseguinte, de modo algum, me assustar, e contanto que não lhe dê atenção, quero dizer, quando não consentir nessas sugestões” (163)

“Assim também, minhas filhas, se nos for confiado algum cargo, não exclamemos logo: Meu Deus! sou tão brusca, que não me faltarão ocasiões de me afobar; sou tão distraída que se me derem o cargo de porteira, o ficarei ainda mais, porque sabem-se ali tantas novidades… Aceitai-o com simplicidade. Deus vos amparará, e vos tornareis mais perfeita ali do que se não tivésseis nenhum cargo com que vos ocupar. Não basta, disse Cassiano, para sermos pacientes e mansos com nós mesmos, que fiquemos privados da conversação dos homens, porque já me aconteceu, estando eu só na minha cela, me ter encolerizado tanto, porque o meu fuzil não dava fogo, que o atirei longe com raiva” (164)

“A mortificação das paixões e inclinações requer tempo” (165)

“Devemos ser indulgentes com os principiantes. Não se pode dizer que haja falta de perseverança, quando nos acontece interromper algumas práticas de virtudes, contanto que não as deixemos por completo” (166)

É mais que natural, e seria erro desanimarmos por causa disso.

Afinal, todas essas tristezas e desânimos não passam ainda de amor próprio, porque nos humilham.

“Nossa Madre me diz que as nossas irmãs noviças tem boa vontade, mas lhes falta força para fazerem aquilo que querem e suas paixões são tão violentas, que receiam dar os primeiros passos. Coragem, minhas caras filhas. Já vos tenho dito diversas vezes que a vida religiosa é uma escola onde se vem aprender a lição; ora o professor não faz questão de que os alunos a saibam sempre de cor, mas que tenham boa vontade e procurem aprendê-la. É como as pessoas que começam a atirar. Erram muitas vezes. Assim também as que aprendem a andar a cavalo caem com frequência. Mas não desanimam, porque uma coisa é ser vencido, de vez em quando, outra é ser derrotado. Precisamos, porém, de uma coragem inabalável para não nos enfadarmos de nós mesmos, porque sempre teremos alguma coisa a fazer e a cortar. Assim como o lavrador, que cuidou de semear bem a terra e cultivá-la, não merece censura nem se deve aborrecer quando a colheita não foi boa, também o religioso não se deve contrariar por não colher logo os frutos da perfeição e das virtudes, contanto que tenha cultivado fielmente a terra do seu coração, arrancando tudo quanto lhe parece contrário à perfeição que, na medida do possível, se prontificou a praticar, porque só no Paraíso ficaremos perfeitamente curados” (167)

E para terminar:

“Não nos iludamos, julgando poder viver sem cometer imperfeições, e mesmo pecados veniais, porque somos homens. O sacro Concílio censurou os eremitas que quiseram sustentar a doutrina contrária” (168)

“É preciso que tomemos duas resoluções de igual valor: uma, de ver germinar as más ervas no nosso jardim; outra, de ter coragem de as arrancar com as próprias mãos; porque, enquanto vivermos, o nosso amor próprio não morrerá” (169)

Ninguém, nem o santo mais sobrenatural, é jamais perfeito. Assim já dissemos nós, mas agora quem fala é São Francisco de Sales. “Em suma, todas as criaturas”, com exceção de Nossa Senhora, é claro, “têm em si perfeições e imperfeições”, e “quem dissesse que não tem nenhuma imperfeição, mentiria, igualmente quem dissesse que não tem nenhuma perfeição; porque todo homem, por mais santo que seja, não deixa de ter imperfeições…”

“Não é, pois, fazer injustiça aos santos contar seus defeitos e pecados, ao contar suas virtudes. Pelo contrário, os seus biógrafos prejudicam o próximo quando ocultam suas faltas sob pretexto de os honrarem, ou deixam, de narrar os primeiros tempos de sua vida, com receio de diminuir, ou prejudicar, a estima em que são tidos pela sua santidade. Ah! Não deve ser assim, pois prejudica a esses bem-aventurados e a toda a posteridade. Os grandes santos, quando escrevem a vida de outro santo, expõem sempre, com toda simplicidade, suas faltas e imperfeições, julgando, com razão, prestar assim igual serviço a Deus e aos próprios santos, como ao expor as suas virtudes” (170)

Como já tivemos ocasião de dizer, os filhos de Deus não temem a verdade.

Esta mesma observação encontra-se num autor contemporâneo que será, talvez, o autor da vida cristã do século XIX. Os santos, diz Monsenhor Charles Gay, “são manifestações autênticas” de Jesus, mas, com exceção de Maria, são manifestações muito imperfeitas. Ousaria dizer isto de todos, tomados em conjunto, e com mais razão de um isoladamente, sobretudo se os considerarmos durante o período de formação, que é o tempo da sua vida terrestre, e que corresponde ao único estado em que nos é dado conhecer os eleitos neste mundo. Mas nem com esta restrição chegaremos a ter, aqui na terra, um conhecimento cabal dos santos. Uma parte de sua beleza, e provavelmente a mais divina na inenarrável história de Deus em suas almas, ficará sempre oculta. Mas, também, quão longe estamos de conhecer todas as suas misérias! Como nos iludimos, pois, julgando conhecer o que se passa no homem interior e terrestre, e tudo aquilo que a tríplice concupiscência, de que ninguém está isento, a fragilidade humana, a malícia do mundo, e a do demônio ainda maior, têm muitas vezes roubado a Deus do seu ser, da sua vida, e também do seu querer, apesar da graça, e da sua correspondência a ela. Sua natureza parece-nos domada, mas quanto tempo levou, quantos esforços custou, quantas alternativas no combate, e quiçá, quantas derrotas? Eram homens excelentes, heroicos, divinos até, se quisermos; mas eram homens, e nenhum deles teria podido, sem presunção desmedida, suprimir, um dia que fosse, um único dos três últimos pedidos da oração dominical:

“Pai, perdoai as nossas dívidas, não nos deixeis cair em tentação, livrai-nos do mal”

A terra não passa de uma oficina.

“A hora em que o operário divino julga a obra terminada é, em geral, a hora em que o arrebata” (171).

“Na escola de nosso Senhor aparecem os gloriosos Apóstolos; embora tivessem trabalhado muito na reforma de sua vida, quantas faltas não cometeram! Todos diziam e prometiam mil maravilhas, inclusive seguirem a nosso Senhor na prisão e até à morte. Mas na noite da paixão, quando o bom Mestre foi preso, todos o abandonaram… E os três discípulos, a quem nosso Senhor, parece-me, mais queria, foram os que caíram em faltas maiores” (172)

“É digno de admiração haver nosso Senhor permitido que diversos fatos, na vida dos santos Apóstolos, que mereciam ser conservados por escrito, ficassem ocultos num profundo silêncio, e que uma imperfeição, de que foram autores o grande São Paulo e São Barnabé, fosse transcrita, sem dúvida, por uma especial providência de nosso Senhor, que assim o permitiu para nossa instrução particular”

Nunca nos estendemos.

“Caminhavam juntos, para pregar o santo Evangelho. Com eles estava um jovem chamado João Marcos, o qual era parente de São Barnabé. Este o queria levar consigo e houve tal desacordo entre os dois grandes Apóstolos, que se separaram. Ora, será então que nós nos devemos perturbar se cometermos faltas recíprocas, pois não as cometeram também os Apóstolos? (173)”

São Pedro, muitos anos depois de ter sido confirmado em graça pela recepção do Espírito Santo, cometeu uma falta “que foi julgada de tal importância que São Paulo, escrevendo aos Gálatas, disse que lhe resistira porque ele era repreensível” (174).

São Francisco de Sales estuda a seu modo a vida vivida e realista dos santos, da qual falamos ao começar destas páginas. Cita o exemplo de Santa Paula, cuja vida foi escrita por São Jerônimo.

“Generosa no desprezo que votou ao mundo, ao ponto de deixar a cidade de Roma e todo o bem-estar de que ali gozava, deixou-se, depois de ter feito coisas tão maravilhosas, dominar pela tentação do próprio juízo, insistindo em praticar grandes penitências, e não se querendo sujeitar à opinião dos que lhe aconselhavam de se abster. São Jerônimo, comentando o caso, confessa que ela era repreensível. E o mesmo aconteceu a outros santos, que entendiam ser preciso macerarem muito o corpo, para agradar a Deus, deixando por isso de obedecer ao médico e de fazer o necessário, para o sustento do seu corpo frágil e mortal. E embora fosse imperfeição, não deixaram, por isso, de ser grandes santos, muito agradáveis a Deus” (175).

Tendo São Pacômio empreendido obras para aumentar seu convento, um dos religiosos veio ter com ele e lho “exprobrou grandemente”. E São Pacômio, apesar de grande santo, ficou tão sentido com a repreensão, que lhe voltou as costas, para, se não me engane, que seu semblante não revelasse o seu ressentimento (176).

E agora um esboço em paralelo:

“Que diferença, por favor, há entre o espírito de São Jerônimo e o de Santo Agostinho? Os escritos deste respiram suavidade e brandura; os de São Jerônimo, pelo contrário, denotam, estranha severidade e dão ideia de se tratar de gente rude e intransigente. Nas suas epístolas, aparece quase sempre irritado. Ambos, no entanto, eram altamente virtuosos; um, porém, tinha mais doçura, e o outro, maior austeridade de vida, apesar de os dois serem grandes santos” (177).

Em resumo, convém repetir apenas o seguinte:

“Nunca seremos perfeitos nesta vida, e; sempre teremos que trabalhar. Todos devemos aspirar à virtude e procurar dar no alvo. Se a devemos desejar ardentemente, não devemos, porém, desanimar, nem perder a coragem, se não acertarmos logo, isto é, se o cercarmos tão somente; porque nem os próprios santos o conseguiram em relação a todas as virtudes” (178).

“Nosso Senhor procede conosco como o bom pai ou a boa mãe, a qual deixa o seu filhinho andar sozinho sobre a relva macia, em cima do musgo, porque, se vier a cair, pouco se há de machucar, mas que o leva cuidadosamente ao colo, nos caminhos maus e perigosos.”

“Há também almas que suportam cheias de ânimo fortes assaltos sem se deixarem vencer pelos inimigos, para, pouco depois sucumbirem às tentações pequenas. E por que motivo? Porque nosso Senhor, vendo que, se caíssem, não sofreriam grande dano, deixou-as andar sozinhas, mas amparou-as, quando se achavam nos precipícios das grandes tentações.”

A bela Virtude da Simplicidade

Parece nova esta concepção de santidade em que os santos se irritam, discutem, sofrem quedas. E a mesma pergunta se impõe novamente: Se os santos são tão vivos, não é por causa destas imperfeições, e onde está a essência da santidade? Constará simplesmente do fato de cederem menos vezes às paixões? Seria possível levantar uma escala de graus, conforme o número maior ou menor de quedas, onde se fixaria o mínimo requerido para cada graduação, como se calculam os pontos nos concursos — aos oito décimos, bem-aventurados, aos nove décimos os santos — conseguindo-se assim uma medida muito prática para as canonizações, quadro de dissecação das tendências naturais. Seria o triunfo do automatismo, mas dum automatismo que errou o tiro, pois seria aniquilar toda paixão, o que nunca se poderia conseguir. Ou, então, não haverá na santidade algo de específico, algo que mude a natureza da vida e a natureza dos atos, e torna santo quem o possui, apesar das quedas, e impede quem não a possui, de sê-lo, apesar de exercer grande domínio sobre si mesmo? Porque, afinal, tanto um Epicteto como um Calvino podem desprender-se dos sentidos, e nem por isso são santos.

A resposta está implícita na pergunta. O que há de especificamente santo na união pela parte superior é a própria união: o desprendimento dos sentidos é mera condição. Epicteto e Calvino talvez fossem desprendidos, faltou-lhes, porém, a união com Deus. O desprendimento dos sentidos é a parte negativa, e nada mais. O santo não é apenas o homem que vive segundo a parte superior, é o homem que se une a Deus por meio dela. Sem união, não há santidade, e não se ultrapassa a sabedoria natural.

A pergunta torna-se agora bem precisa: Não encontra o santo, nesta união, em lugar da vida à qual renunciou, outra vida, outra espontaneidade, a vida livre em Deus?

Concebamos bem este pensamento, em que se baseia o cristianismo: de que o valor dos nossos atos depende das suas relações com Deus. Jesus nos ensinou uma religião divina, a do amor de Deus aos homens e a dos homens a Deus. O ato cristão e meritório é unicamente o que se refere ao fim divino; o ato mau ou pecaminoso é o que lho contradiz. É dizer que só o amor dá valor aos atos, pois é só pelo amor que o homem se une ao Criador. A caridade é para a Igreja o que o sangue é para o organismo humano; as palpitações do coração divino a projetam, sem cessar, sobre o mundo, a fim de vivificar, e, sob seu impulso estabelece-se uma nova escala de merecimentos. A matéria do ato torna-se coisa secundária. O amor dá-lhe o valor, e se as obras heroicas são muitas vezes mais dignas de admiração, é porque, em geral, são mais difíceis em si, e por isso denotam mais amor. Dizemos, em geral, porque “não é pela grandeza de nossas ações que nos tornamos agradáveis a Deus, mas pelo amor com que as praticamos. Uma Irmã, na sua cela, fazendo um trabalho qualquer, pode  merecer mais do que outra fazendo outro muito mais penoso, se aquela o fizer com mais amor do que esta. É o amor que imprime perfeição e valor às nossas obras. Tal pessoa, que sofresse o martírio por Deus com uma onça de amor, mereceria de certo muito, porque ninguém pode dar mais que a própria vida; porém outra, que sofresse apenas um piparote, com duas onças de amor, teria muito mais merecimento, porque é a caridade e o amor que dão valor a tudo. A contemplação, sabeis bem, é superior à ação e à vida ativa; mas se nesta houver mais união, será melhor. Se uma irmã estiver na cozinha “a vigiar a caçarola que fumega ao lume, e tiver mais amor e caridade do que a outra, o fogo material não a prejudicará, pelo contrário” (179).

Assim, a alma perfeita é aquela cujos atos são todos de amor. Jesus é tudo para ela, e ela fixa nEle o olhar. Quando se volta para o mundo, é ainda a Ele que procura e quando, em determinada coisa não O encontra, afasta-se, e, embora ali estivesse toda a sua felicidade humana, não se deixaria atrair, mas se voltaria de novo para Jesus.

***

Se a perfeição consiste no amor de Deus, a perfeição do amor está numa virtude que se chama simplicidade. É uma virtude “inseparável da caridade. Vai diretamente a Deus. Não pode sofrer mistura de interesse próprio, senão deixaria de ser simplicidade; não pode tolerar nenhuma dobrez por parte das criaturas, nem as pode tomar em consideração. Só tem lugar para Deus.”

Aprofundemos bem este pensamento: a simplicidade só se distrai junto de nosso Senhor. Ser simples é ser um. Ter dois fins e duas intenções, uma para Deus, outra para si, ou para qualquer outra coisa, é ser dissimulado.

“A simplicidade só tem um fim, e nossa alma é simples quando não temos outra pretensão em tudo quanto fazemos”.

“É uma virtude puramente cristã. Os pagãos, mesmo aqueles que melhor trataram das outras virtudes, nunca tiveram conhecimento desta, nem tão pouco da humildade; escreveram muito bem sobre a magnificência, a liberalidade, a constância; mas nada disseram da simplicidade e da humildade” (180)

Os pagãos não tiveram, nem podiam ter senão uma virtude humana. Foi preciso Jesus para revelar ao homem que ele se pode unir a Deus. Antes de Jesus, e sem Jesus, Deus é inacessível. As virtudes essencialmente cristãs são virtudes divinas.

A alma simples, considerando em seguida a sua fraqueza diante do poder único de Deus; abandona-se a Ele. A obra da nossa perfeição é muito mais obra de Deus do que propriamente nossa. Unir-se a Deus está acima da criatura, mas Deus a ela se une, elevando-a. Assim o papel do homem na obra da sua própria santificação não é mais que uma preparação e uma obediência:

“É ser dócil, prestar atenção, esperar que o Mestre lhe trace o caminho, ser fiel, seguir o impulso divino. Só Deus pode fazer-nos santos diretamente; só a voz divina pode iluminar a alma, e só a ação divina pode dar-lhe força. Em vão trabalharão os operários se Deus não construir a casa. Inutilmente hão de velar as sentinelas, se Deus não guardar as cidade” (181)

“É mister que Deus construa a cidade, e, se for construída de outra forma, será forçoso derrubá-la” (182),  porque a cidade construída por nós mesmos não passaria de construção da sabedoria humana, da virtude filosófica. É aquela que construíram os Sócrates e os Epictetos, cidade que não é mais que um beco sem saída, que não nos leva ao infinito.

A humildade, assim unida à confiança, permite e determina o abandono. O olhar da alma simples fixa-se em Jesus. O amor é o seu único pensamento, e, perdida em Deus, esquece-se de si mesma para se dar inteiramente a Ele. Ela nada pode e Ele pode tudo: ela é propriedade sua. É o “abandono total de nós mesmos ao beneplácito de Deus. Deixa-se ficar nos braços de nosso Senhor, como uma criancinha no regaço da mamãe. A criança, quando a mãe a põe no chão, caminha até que ela a queira carregar de novo. A nada se opõe. Não sabe para onde vai, nem se preocupa com isso, mas se deixa levar ou conduzir ao querer da mãe. Assim também, a alma que ama a vontade de Deus e o seu bel prazer em tudo quanto acontece, deixa-se levar e, no entanto, caminha, cumprindo cuidadosamente com a vontade de Deus” (183).

Estas últimas palavras descrevem a santa indiferença, corolário do abandono, ou mais exatamente seu lado negativo. A alma simples, firmada em Deus e amando-O unicamente, nEle ama tudo o que representa a  sua santíssima vontade, e só a isto ama. Alheia-se, pois, necessariamente a tudo o que não é Ele; os atrativos do mundo não a seduzem mais; quando se vira para a terra, é ainda por Deus, e sua ação humana continua a ser ação divina. Assim se fundem estas virtudes, simplicidade, abandono, indiferença, que juntas constituem uma só coisa — um amor. Eis a fórmula que resume tudo.

“Falando um dia com uma excelente religiosa, esta me perguntou se, tendo desejo de comungar mais vezes, ou fazer maior número de penitências que a Comunidade, poderia pedir licença à superiora? Disse-lhe que se eu fosse religioso, penso que faria o seguinte: não pediria para comungar mais vezes do que a Comunidade, nem para fazer maior número de penitências, — trazer o cilício, a correia, fazer jejuns extraordinários, nem tomar disciplina, nem qualquer outra coisa, contentando-me em fazer, em tudo e por toda parte, o que faz a Comunidade. Se eu fosse robusto, não comeria quatro vezes ao dia, mas se devesse comer quatro vezes, fá-lo-ia sem reclamar. Se eu fosse fraco e me fizessem comer uma só vez ao dia, eu comeria uma só vez sem me lembrar que era débil ou não. Quero pouca coisa; o que quero, quero-o muito pouco, e quase não tenho desejos, mas se tornasse a nascer, não os teria de todo. Se Deus viesse a mim, para me favorecer com o sentimento da sua presença, iria também a Ele, para o receber e corresponder à sua divina graça; mas se não quisesse vir a mim, eu ficaria onde estava, e não iria a Ele”.

“Digo, pois, que nada devemos pedir, nada recusar, mas ficar nos braços da divina Providência, sem nos distrair com desejo algum, querer o que Deus quer de nós. Toda a nossa perfeição gira em torno desta prática” (184).

“Conservai, minhas caras Irmãs, os vossos corações nesta santa indiferença; deixai-vos a vós mesmas, e a todos os vossos negócios, plena e cabalmente, aos cuidados da divina Providência; deixai que vos leve como as criancinhas se deixam levar pelas amas; que vos carregue com o braço direito, ou com o esquerdo, conforme lhe aprouver, fazendo como entender, porque uma criança pouco se incomoda quer a deitem, quer a levantem, e abandona-se inteiramente aos cuidados de sua boa mãe, a qual sabe melhor o que lhe convém do que ela mesma” (185).

“Mil vezes feliz é a alma que sabe abandonar-se, porque goza já nesta vida de uma tranquilidade e paz tão grandes, que nada lhes é comparável. Não há repouso igual ao seu neste mundo, mas somente no céu, onde gozará, para sempre e plenamente, dos castos beijos do seu Esposo celeste” (186).

“Mas, se nada devemos desejar, interrompem as irmãs, então não havemos de desejar o amor de Deus e a humildade, porque nosso Senhor disse: Pedi e recebereis, batei e abrir-se-vos-á.”

“Ó minha filha, quando digo que nada devemos desejar nem pedir, refiro-me às coisas da terra, porque no que diz respeito às virtudes, podemos pedi-las. Quando pedimos o amor de Deus e a caridade, pedimos também a humildade e as outras virtudes, pois uma não se separa das outras”(187).

***

A indiferença no abandono dá paz à alma. A paz assinala as obras de Deus, enquanto a precipitação e a inquietação denotam paixão humana.

“A simplicidade consegue banir da alma o cuidado e a solicitude que certas pessoas põem inutilmente na busca de uma quantidade de práticas e meios que, conforme dizem, as levem a amar a Deus, e parece que, se não fizerem tudo quanto fizeram os santos, nunca estarão satisfeitas. Pobre gente! Atormentam-se para descobrir a arte de amar a Deus, sem saber que a única arte é amá-lO, isto é, praticar aquilo que Lhe é agradável”

“Tão grande é a simplicidade da criancinha, que não conhece senão mãe; só tem um amor, o da mãe, e, neste amor, uma pretensão, o seio materno; estando deitada nesse regaço feliz, nada mais deseja. A alma verdadeiramente simples, só tem um amor, o de Deus, e nesse amor, uma pretensão, a de repousar sobre o coração do Pai celeste, e, lá, como filho de dileção, fixar morada, deixa que seu bom Pai cuide dela, sem se preocupar com coisa alguma, a não ser conservar-se nesta santa confiança: nem sequer a inquietam mais os desejos de virtudes e de graças, que antes lhe pareciam necessários. Não se impressiona mais com o que diz ou faz, mas abandona tudo à divina Providência. Não se volta nem para a direita nem para a esquerda, mas segue simplesmente o caminho. Quando se lhe depara alguma ocasião de praticar uma virtude, aproveita-a cuidadosamente, como meio de chegar à perfeição, que consiste no amor de Deus; a nenhuma despreza, e não se inquieta a respeito, nem as busca com empenho, mas descansa, quieta e tranquila, na confiança, porque conhece o desejo que tem de lhe agradar, e isto lhe basta” (188).

Sabe também que Deus a quer para si. O sacrifício do Cristo demonstra sobejamente que Ele está disposto a tudo para nos possuir. Dar-nos-á os meios necessários para nos unirmos a Ele, e o que for preciso para chegarmos ao ponto em que nos quer. A fé no-lo certifica com inabalável confiança. Daí como, e por que, nos perturbarmos? Jesus “é meu Pastor; nada me faltará; faz-me repousar nos verdes pastos, perto das fontes refrigerantes, e, embora, me ache às portas da morte, nada hei de temer, porque Ele estará comigo” (189).

“A alma que ama ternamente a Deus dedica-se com simplicidade, e sem precipitação, aos meios prescritos para se aperfeiçoar, sem procurar outros, por melhores que sejam. Meu Bem-Amado, diz ela, pensa por mim, confio nEle, ama-me, e eu sou toda dEle. Há tempos, umas santas religiosas me perguntaram: Que faremos este ano? O ano passado jejuamos três dias por semana e tomamos disciplina outros tantos. E, agora devemos fazer mais alguma coisa para darmos graças ao Senhor pelo ano passado, e para progredirmos sempre nos caminhos de Deus? Devemos sempre progredir, com efeito, respondi-lhes eu, mas o nosso progresso não se mede, como pensais, pela quantidade de exercícios de piedade que fazemos, mas pela perfeição com a qual os fazemos, confiando sempre mais em Deus e desconfiando sempre mais de nós mesmos. Ano passado o jejum era feito três vezes por semana, e a disciplina outras tantas. Se quiserdes sempre fazer mais, este ano serão seis dias por semana, e no próximo como será? Seria preciso uma semana de nove dias, ou então jejuar duas vezes por dia”

“Uma boa obra feita com cuidado e paz de espírito vale muito mais do que outras muitas feitas com precipitação. Grande é a loucura dos que perdem tempo em desejar o martírio nas Índias, e não cumprem com seus deveres de estado! Grande também é a ilusão dos que querem comer mais do que podem digerir. Falta-nos calor espiritual para digerirmos bem tudo quanto empreendemos para nossa perfeição, e não queremos, entretanto, restringir a ansiedade de espírito que nos leva a desejar e querer fazer muita coisa. Ler livros espirituais de valor sobretudo quando são novos, é bom; falar muito e bem de Deus e das coisas espirituais para, digamos, nos excitarmos à devoção, também é bom; ouvir muitos sermões, e ter frequentes conferências, comove-nos, é verdade; confessar-se e comungar amiúde, tratar dos doentes, comunicar o que se passa em nossas almas para que todos saibam que nos queremos aperfeiçoar e conseguir assim o nosso fim, será tudo isso bom? Será, contanto que obedeça às regras dadas, e fique sempre subordinado à graça de Deus. É dizer que nisso não devemos pôr a nossa confiança, embora seja bom, e sim no Deus único, pois só Ele nos faz tirar frutos dos nossos exercícios”

“Mas, rogo-vos, minhas caras filhas, considerai um pouco a vida dos grandes santos religiosos, um Santo Antônio, um São Paulo, primeiro eremita, que comungou duas vezes na vida, e só viu um homem no deserto, Santo Antônio, que o foi visitar no fim da vida”

E os “que viviam sob a guarda de São Pacômio tinham, por acaso, livros, pregações? De modo algum. Conferências? Algumas, raríssimas. Confessavam-se muitas vezes? Poucas, nas grandes festas. Ouviam Missa? Nos domingos e dias santos”. Mas como podiam eles receber tão poucos alimentos espirituais e achar-se tão bem dispostos, isto é, tão fortes e corajosos para empreenderem a aquisição das virtudes e conseguirem a perfeição? E nós, que nos nutrimos tanto, estamos sempre fracos, isto é, somos frouxos e lânguidos em nossos negócios, e, logo que nos faltam as consolações espirituais, ficamos tão sem coragem e sem vigor para o serviço de Deus nosso Senhor? Ora, devemos imitar estes santos religiosos, dedicando-nos à nossa tarefa, isto é, ao que Deus exige de nós, segundo a nossa vocação, fervorosa e humildemente, sem pensar noutra coisa, certos de que não encontraremos melhor meio para conseguirmos a perfeição”.

“Mas, alguém poderá alegar que digo fervorosamente. E se não tivermos fervor? Não temos o que nós chamamos fervor, o do sentimento, que Deus dá a quem bem quer, e que não depende de nós adquirir. Acrescento também humildemente, para que não haja desculpas; porque ninguém dirá: Não tenho humildade, não está em meu poder obtê-la, pois o Espírito Santo, que é a mesma bondade, a concede a quem Lhe pede, não a humildade, isto é, o sentimento da nossa baixeza, que nos leva a humilhar-nos graciosamente em toda ocasião, mas a humildade que nos revela a nossa própria abjeção, que no-la faz amar, uma vez que a reconhecemos em nós, e que é a verdadeira humildade”.

Vem a propósito lembrar, mais uma vez, que esta simplicidade, este abandono e esta paz formam a união na parte superior, e nela exclusivamente.

“É esta santa igualdade de espírito, minhas caras almas, que eu vos desejo: não quero dizer igualdade de temperamento e de inclinação, mas sim igualdade de espírito; porque nem faço eu, nem desejo que façais vós nenhum caso das perturbações que afetam a parte inferior da alma, causa das inquietações e fantasias, quando a parte superior não cumpre o seu dever” (190).

“Convém frisar bem este ponto, porque o abandono, quando se afasta da realidade medíocre, na qual se debate a nossa existência terrestre, parece todo doçura, e assim é, com efeito, mas é ainda um toque, uma suavidade que reside somente na parte superior da alma. Gozará dela só quando a alma for livre, e na medida em que o for. A parte inferior pode então dar as cambalhotas que quiser, já não nos perturba. Não seria talvez melhor distrair-se simplesmente, a lutar com o espírito e teimar em querer afastar a tentação com violência? Sem dúvida, minha cara filha. A simplicidade é sempre preferível em tudo. Se, por exemplo, me viesse o desejo de ser Papa, e o Papado me preocupasse o espírito, apenas havia de rir-me, procurando distrair-me com o pensamento de que a eternidade deve ser boa. Por que nos afligir com o que sentimos, se soubemos cumprir com o nosso dever? Deixemos latir este mastim à vontade, pois nenhum mal nos pode fazer se não o quisermos” (191).

“As abelhas não têm sossego, enquanto não encontram a rainha; ficam a esvoaçar, dispersam-se, afastam-se. Desaparece a tranquilidade da colmeia, até que apareça a nova rainha. Desde então reúnem-se todas em volta dela, e só saem para a colheita, por ordem da mesma rainha. Assim também o entendimento e a vontade, as paixões e as faculdades da nossa alma, como outras tantas abelhas espirituais, enquanto não têm um soberano, isto é, enquanto não escolhem a nosso Senhor para Rei, não podem ter a mínima tranquilidade. Os nossos sentidos desviam-se curiosamente, e atraem as nossas faculdades interiores, que se distraem ora atrás disto, ora daquilo. Ficamos, assim, numa contínua agitação, que nos tira a paz e a tranquilidade de que tanto necessitamos, e causa a imodéstia do entendimento e da vontade. Mas, desde que as nossas almas elegeram, a nosso Senhor para único Rei e Soberano, estas potências retraem-se como as castas vespas, ou abelhas místicas e colocam-se junto dEle. Nunca se ausentam da colmeia, senão para a colheita das práticas de caridade que o santo Rei lhes manda realizar em favor do próximo, logo depois voltam à modéstia e ao santo recolhimento, tão amáveis, e colhendo e conservando o mel das santas e amorosas concepções e afetos que tiram da sagrada presença. E assim evitarão os dois extremos supracitados, cortando, de um lado, a curiosidade do entendimento pela simples atenção em Deus, e do outro, a ignorância e negligência do espírito, pelos exercícios da caridade que praticarão para com o próximo, quando se oferecer ocasião” (192).

“Felizes daqueles que, vivendo de esperança, nunca se cansam de esperar! É preciso que nos habituemos a procurar o êxito da nossa perfeição por meio das vias comuns, com paz de coração, fazendo tudo o que pudermos para adquirir as virtudes, e pela fidelidade com que praticaremos, cada qual, conforme a nossa condição e vocação (193), — certos de que Deus nos concederá cada coisa a seu tempo. Basta-nos que agrademos a Deus e amemos a sua santa vontade” (194).

“Esperemos alcançar, cedo ou tarde, aquilo a que pretendemos, deixando tudo ao cuidado da divina Providência, que saberá consolar-nos no momento indicado. Embora seja só na hora da morte, será o bastante, contanto que saibamos cumprir o nosso dever, fazendo sempre o que estiver ao nosso alcance e em nosso poder. Teremos sempre em boa hora o que desejamos, porque nos será dado na hora em que aprouver a Deus no-lo conceder” (195).

***

“Mas como conciliar dois pontos opostos? De um lado, devemos ter muito cuidado com a nossa perfeição e progresso, e do outro, não devemos pensar nisto! Aparece aqui a miséria do espírito humano, que não se contenta com meio termo, mas procura, de ordinário, os dois extremos. A jovem a quem a mãe tenha proibido de sair ao anoitecer, não deixará de se queixar: Que mãe esta, que nem sequer deixa-me sair de casa! Outra, que canta alto demais, será admoestada pela mãe. Bem, dirá ela, já que me censuram porque canto alto, vou cantar agora tão baixo que ninguém me ouvirá. Outra ainda, que anda depressa demais, começará, depois de advertida, a andar tão devagar que se lhe podem contar os passos. Que fazer nesses casos? Ter paciência, contanto que não queiramos alimentar tais defeitos, nem que provenham da obstinação. Não é possível andar sempre com tal retidão entre os  dois extremos que nunca resvalemos de um lado ou de outro. Saibamos levantar-nos com prontidão e contentemo-nos com isto. Herdamos este defeito da nossa boa mãe Eva, que fez outro tanto quando o espírito mau a tentou com o fruto proibido, dizendo-lhe que o comesse, já que Deus só lhe havia proibido tocá-lo. Não digo que não deveis pensar no vosso progresso espiritual, mas que o deveis fazer sem inquietação” (196).

“São duas cordas igualmente dissonantes, que devem ser afinadas como a prima e o bordão, por quem quer tocar bem a cítara. Nada de mais discordante do que o som alto e baixo; mas sem a consonância das duas cordas, a harmonia da cítara não pode ser agradável. Assim também na nossa cítara espiritual há duas cordas, isto é, duas coisas tão discordantes e quão necessárias, que precisam ser ajustadas, a saber: Devemos cuidar muito do trabalho da nossa perfeição, mas abandoná-lo inteiramente a Deus, tratar de aperfeiçoar-nos conforme devemos, isto é, da forma que Deus o quer, e no entanto deixar-Lhe o cuidado de nosso aperfeiçoamento. Deus quer que o procuremos com calma e sossego, praticando o que nos aconselham os nossos dirigentes, seguindo sempre fielmente o caminho que as regras nos traçam e as diretrizes que recebemos. Quanto ao mais, abandonemo-nos aos seus cuidados paternais, procurando, tanto quanto possível, manter em paz a nossa alma, porque a morada de Deus se faz na paz e no coração pacífico e tranquilo. Em noite serena, o lago, estando calmo, o vento não lhe agita as ondas, reflete de tal forma o céu estrelado, que quem olhar para baixo terá diante dos olhos a mesma beleza que se estivesse a olhar para cima. Assim também estando a nossa alma bem sossegada, e não a agitando os ventos dos cuidados supérfluos, a desigualdade de ânimo e a inconstância, torna-se apta a refletir em si à imagem de nosso Senhor. Mas quando os diversos tumultos das paixões a perturbam, inquietam e desassossegam, deixa-se governar por elas, e não pela razão, que nos torna semelhantes a Deus. Então não poderá de modo algum reproduzir a nobre e bela imagem de nosso Senhor crucificado, nem a variedade de suas excelsas virtudes, nem será digna de lhe servir de leito nupcial. É preciso, pois, que nos entreguemos à mercê da divina Providência, sincera e simplesmente, fazendo, todavia, da nossa parte, o que pudermos para nos corrigir e aperfeiçoar, evitando cuidadosamente que os nossos espíritos se deixem perturbar ou inquietar” (197).

São Francisco de Sales e Santa Joana Francisca de Chantal, rogai por nós!

São Francisco de Sales e Santa Joana Francisca de Chantal, rogai por nós!

As caras Filhas se tornarão perfeitas pela prática da Simplicidade

À simplicidade é uma fornalha ardente que difunde seus raios sobre a vida, iluminando-a com a luz de Deus. Descrever sua ação é delinear, pela segunda vez, o aspecto do claustro, e este quadro é par do outro; ilumina a parte que naquele estava às escuras. À censura sistemática dos pequenos defeitos opõe o que devem ser as religiosas, e o que, felizmente, para muitas, constitui a trama da sua existência, apesar dos ligeiros acidentes.

A alma simples sente-se à vontade perto do Mestre, “folgada”, como escreve São Francisco de Sales a Santa Chantal. O amor é confiante; as maneiras afetadas denotam certa desconfiança. Daí algumas verdades que não passam do bom senso comum, como esta primeira que exprime novamente, com precisão, a ideia de santidade: esta não exige em absoluto a prática de todas as virtudes, nem tão pouco obriga-nos a seguir todos os conselhos evangélicos “porque alguns são de tal maneira opostos um ao outro, que seria impossível praticar um sem prejudicar o outro. É conselho deixar tudo para seguir a nosso Senhor, despojado de tudo; é também conselho, emprestar dinheiro e dar esmolas aos pobres. Ora, Como será possível, a quem tenha dado tudo quanto possuía, fazer esmolas? Donde há de tirá-las? É preciso, pois, seguir os conselhos que Deus quer que sigamos e não nos julgarmos obrigados a cumpri-los todos” (198).

É isto sólido bom senso, mas convém repeti-lo para tranquilizar certas almas escrupulosas. Dá-nos sobejamente a conhecer a personalidade dos santos, porque “uns se distinguem numa virtude, outros noutra; e se todos se salvaram, foi de modo bem diferente, pois há tantas formas de santidade quantos são os santos” (199).  Pode acontecer que dois atos contrários sejam, ambos, atos de virtude. São Jerônimo e Santo Agostinho, fugindo do sacerdócio, praticaram atos de virtude,— da virtude de humildade; São Filipe Neri ou São Francisco de Sales, aspirando ao sacerdócio, praticaram também atos de virtude, porque os movia o zelo da glória divina. A alma que vive de amor é livre: os atos que emanam da caridade são sempre perfeitos. “Ama a Deus e faze o que quiseres”, dizia Santo Agostinho. Tal alma, pois, não hesita a respeito de seus atos, nem raciocina sobre seus impulsos, mas segue a graça que nela opera. A espontaneidade renasce. É a santa liberdade cristã, sobre a qual São Paulo escreveu páginas de sublime arrojo.

É, repito, bom senso, mas bom senso sobrenatural, que só alcançamos quando a caridade produziu o equilíbrio. Estranho seria se eu fosse fazer uma hora de meditação quando alguém me oferecesse uma bebida, para saber se era da vontade de Deus que eu a aceitasse ou não, ou se me devesse abster, por penitência ou sobriedade, e outras insignificâncias, não merecem atenção, principalmente se visse que, praticando-as, eu agradaria, por menos que fosse, ao meu próximo. Nas coisas pequenas devemos andar com simplicidade (200).  Quem tanto raciocina não tem ainda o olhar simples do amor.

“Por exemplo, enquanto eu estivesse a procurar descobrir o desejo de Deus, estaria a perder o tempo em que devia repousar tranquilo junto dEle. Quem, para seguir o desejo manifestado por nosso Senhor de socorrer os pobres, quisesse ir, de cidade em cidade, a procurá-los, enquanto socorria os de uma cidade, evidentemente não poderia socorrer os das outras. Devemos proceder nisto, como em tudo mais, com simplicidade de coração, fazer esmola quando se nos oferecer ocasião, sem nos distrairmos pelas ruas, procurando, de casa em casa, se há pobres que não conhecemos” (201).

A alma simples tem também o que chamamos hoje em dia “espírito largo” ou espírito tolerante.

“Esta devoção generosa nada despreza, e faz com que, sem nos perturbarmos, nem nos inquietarmos, vejamos cada um caminhar, correr à seu modo, voar conforme a diversidade das inspirações e variedade das medidas da graça divina que cada qual recebe! É uma advertência que o grande apóstolo São Paulo faz aos Romanos: Enquanto um, diz ele, julga poder comer de tudo, o que é fraco só come legumes; quem come não despreze o que não come; e quem não come, não julgue o que come. Firme-se cada um em seu modo de ver. Quem come, fá-lo para o Senhor, e quem não come, fá-lo igualmente, e assim um e outro dão graças a Deus. As Regras não prescrevem muitos jejuns; pode, no entanto, acontecer que a algumas Irmãs, por necessidade particular, seja permitido jejuar maior número de vezes; as que assim jejuam não desprezem as que comem, nem estas as que jejuam. E assim, em tudo que não for nem proibido nem ordenado, cada qual siga sua opinião, isto é, se aproveite e goze de sua liberdade, sem julgar nem criticar a quem não faz o que elas fazem, tendo aquilo que praticam em conta de melhor; pode mesmo acontecer que uma pessoa que coma o faça com o mesmo desprendimento da própria vontade, como outra, que jejua; e tal pessoa não diz suas culpas com o mesmo desprendimento com que as diz tal outra” (202).

Isto confirma a santa liberdade cristã. Como já vimos, São Francisco de Sales, depois de insistir sobre a imperiosa necessidade de uma total mortificação, acrescenta, entretanto: “A perfeição não consiste nas austeridades”, nem tão pouco é “regra geral que devemos fazer tudo que nos repugne, e abster-nos de tudo que nos agrada, porque se uma irmã se sente atraída a rezar o Ofício divino, não deve deixar de rezá-lo sob pretexto de se querer mortificar” (203).  A mortificação, por mais necessária que seja, não passa de meio; a perfeição está no amor, e o amor nos liberta.

É verdade que se o velho homem nunca chega a morrer de todo, nunca se poderá desprezar a mortificação. Pelo contrário, por um fenômeno, à primeira vista desconcertante, vai crescendo, sem cessar, à medida que a alma se une a Deus. Existem, em quase todos os santos dois traços: de um lado, a pouca importância que dão às penitências corporais, do outro, as espantosas austeridades que praticam. É que, aumentando a luz divina, a alma percebe melhor o horror de tudo que lhe tolhe a ação, e se desenvolve nela um ardor que leva a varrer todas as escórias, por mínimas que sejam.

Acontece, contudo, que a alma, uma Vez firmada no amor e unida ao Esposo divino, vê a mortificação, como tal, embora não diminua de intensidade, passar para o segundo plano, pelo menor interesse que inspira à alma. Quando praticamos a mortificação, ainda pensamos em nós; e a alma que o amor torna livre só pensa em Deus. Faz tudo conforme a inspiração divina, inclusive mortificar-se; a mortificação passa então a ser uma precaução de higiene espiritual indispensável. Tal alma está sempre à vontade e procede com grande simplicidade, porque no fundo é indiferente: A vontade do Mestre é tudo para ela, o resto, nada. As práticas tornam-se acessórias. A indiferença, quando não é o reverso do amor, não acanha a alma nem a torna árida; pelo contrário, leva-a a expandir-se, ultrapassando todo exclusivismo.

“A devoção generosa não procura companhia naquilo que faz, mas somente em sua pretensão, que é a glória de Deus e o progresso do próximo no amor divino; contanto que as almas se encaminhem em direção a este fim, não se preocupa com o caminho que seguem. Se quem jejua fá-lo para Deus, e quem não jejua procede do mesmo modo, fica igualmente satisfeita com uma e outra coisa. Não quer pois que os outros façam como ela, mas segue simples, humilde e tranquilamente o seu próprio caminho. Se, digamos, alguém comesse, não para agradar a Deus, mas por inclinação própria, ou não tomasse a disciplina por aversão natural e não para Deus, ainda assim quem procede de modo contrário, não o deveria julgar. Sem censurá-la, siga o seu caminho doce, suave e tranquilamente, sem desprezar nem julgar as enfermas, lembrando-se que, se em tais ocasiões algumas se entregam com demasiada moleza às suas inclinações e aversões, em outras circunstâncias elas farão o mesmo, ou pior. Mas as que têm tais inclinações e aversões devem  cuidar para que não transpareça, nem pelas suas palavras, nem de outro qualquer modo, o menor sinal de aborrecimento contra quem faz melhor do que elas, o que seria grande impertinência de sua parte. Reconheçam, pelo contrário, sua fraqueza, e olhem para as mais inteligentes, com santa, doce e cordial reverência. Assim, pela sua humildade, poderão tirar tanto fruto de sua fraqueza, como as outras dos seus exercícios. Se este ponto for bem compreendido e observado, proporcionará maravilhosa suavidade e paz à Congregação. Seja Marta ativa, mas não se levante contra Madalena; entregue-se Madalena à contemplação, mas não despreze Marta, porque nosso Senhor defenderá a causa da que for censurada” (204).

Agora, começa a aparecer a grande doçura que pode haver na vida religiosa.

A alma sente-se bem; atenta ao seu fim, subordina-lhe os detalhes e os harmoniza. Só dá às coisas a importância que merecem, e tudo faz de boa vontade.

“Deveis utilizar-vos do que for necessário ao corpo, como o aquecer-se, o comer e o vestir, com ações de graça e humildade, e não com espírito enfadonho. Mas nas vossas contrariedades e aflições, não deveis querer que se compadeçam de vós. Isto é bom para quem tem espírito fraco, mas as filhas de Deus não devem perder tempo com essas ternuras. As Constituições ensinam o que deveis fazer, isto é, pedir simplesmente, sem escrúpulo, o que vos for necessário (205).  Quanto a mim, não quisera pedir aquilo que pudesse dispensar facilmente, contanto que não fosse em prejuízo da saúde; sentir um pouco de frio, usar um hábito curto de mais, ou que não se ajuste bem ao corpo, pouco me importaria. Mas se me dessem calçados apertados, que me levassem um quarto de hora calçar, pediria outros, o que seria preferível, a perder tanto tempo pela manhã; mas não me queixaria de trazer alguma coisa que me não fosse bem, ou me magoasse um pouco. Ora, quanto ao frio, convém evitar aquele que possa debilitar a saúde, o que não se deve fazer” (206).

“Se a roupeira vos der um hábito menos bom do que aquele que costumais vestir, teve boa intenção; é certo que obedece à vontade de Deus, e que, por conseguinte, o deveis receber com santa indiferença. Se no refeitório vos servirem alguma comida que não for do vosso gosto, será , porém, sem dúvida, do agrado de Deus, e por isso deveis comê-la com indiferença, isto é, quanto à vontade. Digo o mesmo dos carinhos e provas de amizade; se tal pessoa não vos trata com carinho, deveis pensar que Deus assim o quer, ocupada que está com outra coisa mais importante. Por que motivo há de se desfazer em atenções para convosco? Mas se assim fizer, deveis também pensar que é do beneplácito divino e louvar a Deus que vos concede essa pequena consolação” (207).

“A indiferença e a simplicidade unem-se para porem a alma à vontade. Embora nos pareça que sentimos sensualidade ao comer, não há mal em fazê-lo. Afastai a todos estes escrúpulos, e comei para Deus, com sossego. É preciso fazer tudo com simplicidade, sem pensar que encontrais satisfação na obediência. Estando indiferente a vontade, não há perigo algum. É sutileza demasiada” (208).

“A respeito, minha cara filha, do que vos disse há pouco, sobre a fidelidade na prática da mortificação, devemos privar-nos de tal ou qual alimento de que gostamos muito? Se fosse eu, não o faria, porque somos obrigados, pela sagrada palavra de nosso Senhor, a comer o que nos oferecerem, e isto se faz sem preferência. Quando me dessem aquilo de que eu gostasse muito, comê-lo-ia, dando ações de graça; quando me dessem outra coisa, pouco me importaria”.

Mas se me dessem a escolha, “se eu estivesse com muito fastio, escolheria o que me soubesse melhor; fora disso, não faria distinção, tomando o que me dessem, e na mesma ordem em que mo oferecessem” (209).

Se “me acometer febre alta, vejo neste acontecimento o beneplácito de Deus, que quer que eu me conserve na santa indiferença, em relação à saúde ou à doença; mas a vontade de Deus manifesta é que eu, que não estou sob a obediência, chame o médico e tome todos os remédios indicados (não os extraordinários, mas os comuns e ordinários). Quanto aos religiosos, que vivem debaixo da obediência, recebam eles de seus superiores os remédios e o tratamento que lhes forem dispensados, com simplicidade e submissão. Feito isto, devemos ficar numa completa indiferença, quer a doença sobrepuje o remédio, quer este debele aquela. Se a doença e a saúde estivessem ao dispor da alma que se entrega e se abandona inteiramente nas mãos de Deus, e nosso Senhor lhe dissesse: Se escolheres a saúde, não te retirarei um único fio da minha graça, e se escolheres a doença, tão pouco te aumentarei, mas nesta última escolha haverá um pouquinho mais do meu bel prazer, ela escolheria, sem dúvida, a doença, pelo simples fato de ser um pouco mais do agrado divino, embora devesse ficar no leito toda a vida, não fazendo outra coisa senão sofrer. Este estado de desapego de si mesmo compreende também o abandono ao bel prazer de Deus em toda tentação, aridez, secura, aversão e repugnância da vida espiritual, porque em tudo isso vemos a vontade expressa de Deus, conquanto não provenham dos nossos defeitos, nem constitua pecado.

“O abandono é, enfim, a virtude das virtudes; é a nata da caridade, o perfume da humildade, o mérito parece da paciência, o fruto da perseverança. Grande é esta virtude, e só digna de ser praticada pelos mais diletos filhos de Deus” (210).

* * *

O olhar para Deus transforma a oração, — oração sob qualquer forma: vocal, meditação, ato ou prática da presença de Deus.

“Não nos podemos conservar na presença contínua de Deus, pois isto pertence aos Anjos: quanto a nós basta manter-nos nela tanto quanto possível, elevando frequentes vezes o espírito a Deus; não pretendo com isso dizer que o espírito se conserve sempre tenso. Se o que fazemos nos distrai a atenção de Deus, e se for necessário, não nos devemos afligir. Basta fazê-lo para Deus, com simplicidade. E embora não pensássemos, antes de começar nossas ações, em dirigir a intenção, se o fizermos depois, não precisamos ter o menor escrúpulo, a intenção geral feita da manhã é suficiente. Estará na presença de Deus quem fizer todas as suas ações para Deus. Comer, dormir, trabalhar para Ele, é estar em sua presença. Não depende de nós tê-la sempre de modo atual, senão por uma graça particular; mas o desejo que ternos de nela nos conservar torna-nos atentos a da sua bondade” (211).

“Perguntais se devemos, ao tomar água benta, fazer certas considerações, conforme nos ensinam os livros. Ah! Nem tudo quanto nos ensinam deve ser observado por quem já atingiu certo grau de adiantamento; e voltarmos, a todo propósito, o espírito para a divina Majestade por meio de certo efeito contemplativo prejudicaria a simplicidade. Quem quisesse refletir sobre a água benta, ao tomá-la, ou sobre a presença real ao visitar o Santíssimo Sacramento, ou sobre o sinal da Cruz, e coisas semelhantes ou, ainda, quem quisesse meditar sobre a vida, paixão e morte e nosso Senhor, pormenorizando todos os pontos, do princípio ao fim, não teria tempo, é claro, durante a Missa de exprimir seu afeto, ou de tomar uma resolução, o que é mais útil. Com efeito, a intenção de quem vai à igreja para adorar a Deus compreende eminentemente todas essas adorações particulares, e quem não se desviar desta intenção, e de semelhantes afetos que lhe vierem durante a Missa, a terá ouvido otimamente. Enfim, a multiplicidade de assuntos dissipa-nos o coração e o espírito, afastando-o e distraindo-o dessa simplicidade amorosa, que torna as nossas almas tão agradáveis a Deus” (212).

A santa simplicidade deve existir sempre e por toda parte, e sua companheira é a largueza de espírito.

“Alguém me perguntou há tempos se podia fazer orações particulares”

“Isto não tem muita importância, e respondo que, quanto às oraçõezinhas que por vezes temos vontade de rezar, não há nisto mal algum, contanto que não nos apeguemos a elas a ponto de, se as omitirmos, nos virem escrúpulos. Mas não devemos fazer tenção de rezar todos os dias, ou durante um ano inteiro, ou determinado tempo, orações de nossa fantasia. Se algumas vezes, durante o silêncio, tivermos vontade de recitar uma Ave Maris Stella ou um Veni Creator Spiritus, ou alguma outra reza, não vejo dificuldade nem mal algum nisto; é uma boa obra, da qual nos virá merecimento, como beijar uma imagem, ou coisa semelhante. Mas é preciso cuidado para que não redunde em prejuízo de um bem maior. Se, por exemplo, estando em presença do Santíssimo Sacramento, nos vier a inspiração de rezar três Pater em honra da Santíssima Trindade, e nos chamarem para fazer outra coisa, devemos levantar-nos imediatamente e ir fazê-la, em honra da Santíssima Trindade, em vez de rezar os três Pater. São coisas, às vezes, úteis a certas almas, mas de que outras não necessitam. Há toda espécie de plantas num jardim e, embora umas sejam mais bonitas que as outras, nem por isso serão colocadas exclusivamente nos vasos” (213).

A oração reduz-se a um simples olhar para Deus.

“Não há mal em cogitarmos às vezes de nós mesmos, contanto que seja para nos humilhar e pensar na nossa ingratidão, mas devemos sempre voltar-nos para Deus; pois, como disse algures, não fazemos propriamente oração, quando ficamos a refletir sobre nós mesmos, porque a oração é elevar a alma a Deus, para nos unirmos a ele. Devemos discorrer quando nosso Senhor a isto nos atrai, mas procurar progredir na perfeição pelo caminho mais simples e não ser tão sutil” (214).

Enganam-se muito os que pensam que fazer ‘‘oração” requer um método especial e que procuram adestrar-se numa arte que lhes parece necessária. Nunca deixam de sutilizar e esmiuçar a respeito de sua oração para ver como a fazem, ou como a poderão fazer ao seu gosto, julgando que não devem tossir, nem se mover enquanto oram, com receio de que o Espírito de Deus se retire. Que loucura! Como se o Espírito de Deus fosse tão delicado que dependesse do método e da contemplação de quem faz a oração! Não digo que não se apeguem a eles, como fazem os que nunca têm suas orações em conta de boas, se as considerações precederem os afetos que recebem de nosso Senhor, fim a que levam as considerações. Tais pessoas se assemelham àquelas que, achando-se no lugar a que se destinavam, tornam a voltar porque não vieram pelo caminho que lhes fora indicado.

É preciso, também, tomar a firme resolução de nunca abandonar a oração, qualquer que seja a dificuldade que encontrarmos, nem recorrer a ela na esperança de encontrarmos consolo e satisfação, porque assim a nossa vontade não ficaria unida e conformada com a vontade de Deus. Manda esta que, ao começarmos a oração, estejamos resolvidos a sofrer a pena das contínuas distrações, securas e desgostos que sobrevierem, permanecendo firmes, como se tivéssemos tido muita consolação e paz; pois é certo que à nossa oração não será menos agradável a Deus, nem menos útil, por serem maiores as dificuldades. Contanto que ajustemos sempre a nossa vontade à da Majestade divina, numa simples e atenta disposição de aceitar com amor os acontecimentos determinados por seu beneplácito divino, quer na oração, quer noutras circunstâncias, Ele fará com que tudo seja para o nosso maior bem e o maior agrado da sua divina Bondade. É pois, minhas caras filhas, boa oração a que nos conserva em paz e sossego junto de nosso Senhor, ou na sua presença sem outro desejo nem pretensão senão estar com Ele e o contentar” (215).

Quanto mais simples, tanto mais perfeita será, a nossa oração, e quanto mais feita em Deus, longe dos sentidos, tanto mais se unifica com toda a nossa vida.

“Como se devem conduzir em todas as suas ações as almas atraídas na oração por esta santa simplicidade e perfeito abandono em Deus? Respondo que não somente na oração, mas em toda a sua conduta devem andar invariavelmente no espírito de santa simplicidade, abandonando e entregando inteiramente sua alma, suas ações, com seus resultados, ao beneplácito de Deus, por meio de um amor de perfeita e absoluta confiança, entregando-se à mercê e aos cuidados da Providência divina e do amor eterno que esta lhes tem. E, para isso, mantenham suas almas firmes nesse caminho, sem que se distraiam a pensar em si, para ver o que fazem e se estão satisfeitas. Ai de nós! nossas satisfações e consolações não são agradáveis aos olhos de Deus, mas contentam somente ao miserável amor e cuidado que temos de nós mesmos, fora de Deus e de sua consideração. As crianças, que nosso Senhor nos aponta por modelo de perfeição, não têm, em geral, cuidado algum, sobretudo junto aos pais. Então não se preocupam com os prazeres e os consolos, mas aceitam-nos confiantes, e deles gozam com simplicidade, sem perscrutar-lhes as causas e os efeitos, todo entregue a esses afetos, e não podendo ocupar-se de mais nada. Quem estiver sempre atento, procurando agradar amorosamente ao Amante celeste, não tem tempo, nem gosto de estar sempre a pensar em si, pois; seu espírito tende sempre para o lado onde o leva o amor. Esta prática do abandono constante de si mesmo nas mãos de Deus encerra otimamente toda a perfeição dos demais exercícios em sua perfeitíssima simplicidade de e pureza. Enquanto Deus não permite dispor deles, não procuremos mudá-los” (216).

***

A humildade, virtude que todos os autores concordam em colocar na base do trabalho da perfeição — talvez o leitor se admire de tratarmos tão pouco dela aqui, — também se reduz a este único e enlevado amor, “porque a caridade é uma humildade que sobe, e a humildade, uma caridade que desce” (217).  A humildade é o dispositivo que produz em nós o conhecimento de Deus; e traduz simplesmente a vontade de conformarmos a nossa vida com esta verdade.

Já isto dissipa mais, de uma noção errônea.

“Há pessoas que se atam a uma humildade falsa e tola, não querendo reconhecer o que Deus nelas fez de bom. É um grande erro, porque devemos reconhecer os bens que Deus nos concedeu, estimá-los e exaltá-los, e não os ter na mesma pouca conta em que temos àqueles que trazemos em nós, e que são nossos”

Ora, a humildade nos rebaixa e nos humilha, revelando-nos o nosso pouco valor, a pouca estima por tudo que é nosso ou está em nós, — saúde, riqueza, ciência, beleza e coisas semelhantes, — e, ao mesmo tempo, nos leva a prezar altamente os bens que estão em nós, mas não são nossos, como a fé, a esperança, o amor de Deus, por pouco que os tenhamos, bem como certa capacidade que Deus nos deu para nos unirmos a Ele, por meio da graça. Nesta estima, em que a humildade tem a esses bens, funda-se a generosidade de espírito.

“Ora, esses primeiros bens a que nos referimos, pertencem a humildade quanto ao exercício. Os outros pertencem à generosidade. A humildade de nada se julga capaz, em vista da pobreza e da fraqueza humana que trazemos em nós. A generosidade, pelo contrário, nos faz dizer, com São Paulo: Posso tudo Naquele que me conforta. Pela humildade desconfiamos de nós mesmos; pela generosidade confiamos em Deus. Estas duas virtudes, a humildade e a generosidade estão, pois, de tal maneira ligadas e unidas que não se podem separar”

“A humildade que não produz generosidade é indubitavelmente falsa. Depois de ter dito: Nada posso, não passo de um puro nada, deve ceder lugar à generosidade de espírito, a qual diz: Nada há, e nada pode haver, de que não seja capaz se depositar inteira confiança em Deus, que tudo pode. Baseado nesta confiança, empreende corajosamente tudo quanto lhe é mandado fazer, ou simplesmente aconselhado, por mais difícil que seja. Ora, posso assegurar que não se julgará incapaz de fazer milagres, se lhe for ordenado. Se, com simplicidade de coração, começa a executar a ordem recebida, operará um milagre de preferência a negar-lhe os meios para realizar a sua empresa, porque ela não confia nas próprias forças, e sim nos dons que recebeu de Deus”.

A humildade, em suma, é o conhecimento de Deus e de nós mesmos, “e não consiste somente na desconfiança própria, mas na confiança em Deus”, da qual nasce a generosidade de espírito de que tratamos.

“Mas nunca, então, nos será lícito duvidarmos da nossa capacidade no cumprimento daquilo que nos foi ordenado? Respondo que a generosidade de espírito não nos deixa ter a menor dúvida a respeito. E para que fique mais claro, saibamos distinguir, como costumo dizer, entre a parte superior da alma e a parte inferior. Quando digo que a generosidade não nos permite duvidar, refiro-me à parte superior; porque pode bem acontecer que a inferior fique na incerteza, e tenha portanto muita dificuldade em aceitara tarefa, o cargo que lhe for designado. Mas a alma generosa se ri de tudo isto, a tudo despreza, e começa logo a exercê-lo sem proferir uma única palavra, nem nada fazer que revele o sentimento de sua incapacidade”(218).

A humildade se manifesta pela modéstia. É a arte de saber, cada qual, colocar-se no seu lugar; é ainda eminentemente uma virtude equitativa, e a alma humilde que vive dentro da ordem e da verdade pratica-a naturalmente.

“Ora, a virtude da modéstia respeita três coisas, a saber: tempo, lugar e pessoa. Porquanto não seria impertinente quem no recreio só quisesse rir, como se ri fora dele? Certas palavras, em qualquer outra ocasião, a não ser recreio, seriam falta de modéstia, mas não o são quando convém dilatar justa e razoavelmente o espírito; quem não quisesse, pois, falar, ou que outrem falasse, durante esse tempo senão de assuntos elevados e difíceis, cometeria uma imodéstia. É mister também tomar em consideração tanto o lugar e as pessoas como a natureza das conversações, e de modo particular a qualidade da pessoa com que se trata. A modéstia da mulher que vive no mundo difere da modéstia de uma religiosa; não seria apreciada na sociedade a moça que quisesse conservar sempre os olhos baixos, como fazem nossas Irmãs, nem tão pouco a irmã que fizesse o contrário. O que num homem é modéstia, noutro será imodéstia; a gravidade fica bem numa pessoa idosa, mas será afetação numa jovem, à qual convém uma modéstia mais submissa e mais humilde”.

A modéstia “diz respeito às roupas e ao modo de vestir”. Limito-me a aconselhar que se evite a falta de asseio e de decoro, como também o extremo oposto, isto é, demasiado esmero no vestir, que parece faceirice. É vaidade. São Bernardo encarece o asseio como sendo grande indício da pureza e limpidez da alma. Há na vida de São Hilarião um fato que parece desmentir este ponto. Certo dia, falando a um cavalheiro que o fora visitar, disse-lhe que não se devia procurar o asseio num cilício; entendia ele com isso que não havia necessidade de tratar o nosso corpo com tanto cuidado, pois não passa de cadáver asqueroso e infeto. Isto, porém, no grande santo, antes merece ser admirado que imitado. Se assim se exprimia era, se não me engano , por se dirigir ele a cortesãos, dados a exagerada delicadeza neste sentido, sendo pois necessário falar-lhes com certa aspereza, a exemplo de quem para desentortar o arbusto novo, não se contenta em colocá-lo na devida posição, mas dobra-o um pouco mais do lado oposto, a fim de que não entorte de novo.

Direi ainda uma palavra sobre a modéstia exterior, da qual já tratamos acima; não podeis imaginar o quanto é útil à interior, à paz e à tranquilidade da alma. Temos a prova disto na oração; pois todos os Santos padres, muito afeitos à oração, entenderam que a posição respeitosa, como o estar de joelhos, auxilia-a muito.

“Será faltar à modéstia conservar a cabeça baixa e reclinada sobre o peito, ou ainda revirar os olhos para o alto? Respondo que se acontecer uma ou outra vez, e inadvertidamente, não haverá grande mal, logo que não seja afetação, nem haja intenção de sobressair! na devoção. É preciso evitar os ares afetados, pois, tudo que é pouco natural é detestável. Cuidemos de não pronunciar o sanctificetur, sem o nomen tuumm quero dizer, de imitar os devotos e os santos nos modos exteriores, como fiz uma vez. Não haverá mal em narrar este pequeno episódio, visto tratar-se da minha pessoa. Quando jovem estudante, nesta cidade, apoderou-se de mim, um extraordinário e forte desejo de ser santo e perfeito. Imaginei que para isto me era preciso inclinar a cabeça ao recitar as Horas, porque outro estudante, que era verdadeiramente santo, assim fazia: imitei-o cuidadosamente durante algum tempo, sem por isto me tornar mais santo” (219).

Em quem, por humildade, se coloca em seu lugar, o abandono amoroso produz a obediência perfeita, que não somente obedece mas preza a ordem recebida.

“Não saberíamos amar a ordem dada, se não amamos quem a deu; na medida em que amamos e estimamos quem nos dita a lei, havemos de observá-la com maior exatidão” (220).

A alma verdadeiramente obediente preza a ordem, porque preza quem a dá. O superior é o homem que Deus coloca acima dele, e cujas ordens representam as próprias ordens de Deus e cujos desejos são os desejos de Deus. A obediência completa, o desprendimento, aperfeiçoa a união. Assim como é uma renúncia contínua, assim também nos une a todo instante à vontade divina, que manifesta. A obediência é o sal que dá gasto e sabor a todas as nossas ações e as torna merecedoras da vida eterna (221).

“Quando ouvimos o sinal da obediência, devemos crer que é a voz de nosso Senhor que nos chama, e partir prontamente, embora estivéssemos a trabalhar para Deus, a exemplo da jovem esposa que, ao ouvir a voz do esposo, deixa tudo, embora estivesse a fazer alguma coisa para ele, e corre ao seu encontro. Se bem que uma pequena demora não seja infidelidade, no entanto a prontidão é grande fidelidade e virtude muito agradável a Deus. Assim também há mil coisas que, omitidas, não constituem pecado, mas que praticadas dão prova de grande virtude” (222).

A alma abandona-se aos seus superiores como ao próprio Deus. Nada pede, nada recusa. A obediência nos leva a retomar a prática da indiferença.

“Quanto a mim, se eu fosse religiosa, nada pediria, pelo menos se pensasse como penso agora. Alguns pedem cruzes, e parece-lhes que nosso Senhor nunca lhas enviará em número bastante para satisfazer o seu fervor. Quanto a mim, nada peço; espero somente estar sempre pronto a carregar, com a possível paciência e humildade,  que a Bondade divina houver por bem enviar-me. Faria do mesmo modo se fosse religioso. Nada pediria, senão estando doente, porque os doentes pedem confiadamente tudo quanto precisam; pediria também agulha e linha, quando tivesse algum trabalho a fazer, porque a ordem dada me obriga a pedir o que for necessário para a executar. Não minha cara filha, de certo não pediria mortificações dispor-me-ia a receber prontamente as que me fosse impostas, mas não as pediria. Procuraria seguir sempre o meu caminho, com simplicidade, sem me entreter em desejar isto ou aquilo”.

“Fazeis bem de pedir para amassar a farinha, porque vos sentis bastante forte para fazê-lo; eu, porém, fá-lo-ia de boa vontade se mo ordenassem, senão não pensaria nisto. Enfim, preferiria fazer uma pequena cruz de palha, que me fosse colocada sobre os ombros, sem que eu a escolhesse, a ir cortar lenha no bosque e fazer outra, muito mais pesada, e que fosse depois carregar a muito custo. Julgaria, com razão, ser  mais agradável a Deus com a cruz de palha, do que com aquela feita por mim, embora com maior dificuldade e esforço, porque esta daria maior satisfação ao meu amor-próprio, que tanto se compraz nessas invenções e tão pouco em se deixar conduzir e governar pela simplicidade, que é isto o que mais vos desejo. Façamos com simplicidade tudo o que nos mandar a obediência, por meio das Regras, das Constituições ou dos nossos superiores e depois fiquemos tranquilos, bem perto de Deus” (223).

Poderíamos, a propósito da obediência, repetir tudo o que já dissemos e todas as passagens que citamos sobre a indiferença. Tornaremos sempre ao mesmo ponto de partida:

“Andar com simplicidade é o verdadeiro caminho das filhas da Visitação” (224).

“Admiro-me que se possa ter maior inclinação para um cargo que para outro, principalmente num convento, onde qualquer tarefa ou trabalho é indiferentemente agradável a Deus, por ser a obediência que imprime valor a todas as práticas da vida religiosa” (225)

Por isso “é sempre melhor nada desejar, mas estar pronto a aceitar” (226) todos os cargos que “a obediência nos impuser, e fossem eles honrosos ou desprezíveis, eu os acolheria com toda humildade, sem dizer uma só palavra, a não ser que me interrogassem, porque, então, diria a verdade como me ocorresse. Enfim, minhas caras filhas, guardai cuidadosa e fielmente o que vos hei dito; quer o que se refere ao interior, quer ao exterior; querendo só o que Deus quiser de vós, abraçando com amor os acontecimentos e as diversas consequências do querer divino, sem vos preocupardes com coisa alguma fora disso” (227).

Há uma obediência mais preciosa ainda, e que, para ser exato, é menos obediência que abandono nas mãos de Deus. Consiste em condescender aos desejos do próximo, em tudo que for indiferente, em ficar, de certo modo, subordinado a todos “porque não se pode conhecer melhor nem mais acertadamente a vontade e o bel querer de Deus, do que pela voz do próximo. Deus nos manifesta suas vontades pelas de nossos irmãos e, portanto, obedeço a Deus toda vez que condescendo àquilo que querem” (228).  É uma obediência que se firma na caridade perfeita. Ser sempre condescendente não é o melhor meio de evitar discussão? E pode-se conceber um amor que não seja condescendente? Esta obediência leva-nos a dizer algumas palavras sobre o amor fraternal. Antes, porém, de continuar, abro um parêntese para falar da Irmã Simpliciana, e de suas virtudes de humildade e de obediência, e ler um trecho encantador que nos é narrado a seu respeito:

Trata-se de uma humilde irmã, a primeira conversa a entrar na Ordem, com baronesa de Chantal e suas primeiras companheiras. Era uma alma inteiramente cândida, a quem São Francisco estimava imensamente, pela sua grande inocência. Tendo ela lhe dito, certa vez, que gostaria de tomar o seu lugar na casa, respondeu-lhe ele, com a sua habitual benevolência:

“Então, minha cara filha Claude Simplicienne, gostaríeis de tomar o meu lugar nesta casa e fazer o que eu faria se aqui estivesse? E o que faria eu, minha filha? Sem dúvida não faria nada tão bem quanto vós, porque sou um poltrão; nada valho de mim mesmo. Mas parece-me que, com a graça de Deus, eu me tornaria tão atento à prática das virtudes e às mínimas normas que devemos observar nesta casa, que procuraria assim ganhar o coração de nosso Senhor. Guardaria o silêncio prescrito, e falaria também algumas vezes, quando a caridade o exigisse, mas nunca doutra forma. Falaria sempre suavemente e em voz baixa, e prestaria muita atenção a este ponto, como mandam as Constituições. Ah! tenho certeza que assim faria. Abriria e fecharia as portas bem devagar, porque a nossa Madre assim o quer, e nós queremos fazer que se faça. Conservaria os olhos baixos em casa e andaria devagar. Minha cara filha, Deus e seus Anjos estão a olhar sempre para nós e tem muito amor a quem faz tudo bem”

“Parece-me que se eu me tivesse, destarte, dado inteiramente a nosso Senhor, como quando se faz profissão, eu me abandonaria totalmente a Ele, com tudo que me pertence, e deixaria que fizessem de mim o que bem quisessem, — pelo menos assim me parece. Qualquer coisa que me mandassem fazer, ou qualquer cargo que me dessem, eu estimaria, de tudo procurando desempenhar-me do melhor modo possível; se nada me dessem, se me deixassem de lado, não me intrometeria em coisa alguma, tratando de obedecer e de amar muito a nosso Senhor. Ah! parece-me que amaria muito, e de todo o coração, a esse Deus tão bom e, em toda parte, onde me encontrasse, aplicaria o espírito, procurando pensar nEle o mais possível, e observar bem as Regras e as Constituições. Ora, devemos fazer isto da melhor forma, pois não foi para isto que nos fizemos religiosos? Estou bem satisfeito que haja uma Irmã Claude Simplicienne. Esta quer estar no meu lugar e progredir sempre na perfeição. A verdade é que ambos o queremos, não é?”

“Ora, então façamos tudo do melhor modo; nada nos deve impedir de fazer bem tudo quanto nos prescrevem as Constituições, porque havemos de consegui-lo com a graça de Deus. Tão pouco nos devemos admirar se cometermos faltas, porque, sem o auxílio de Deus, que podemos nós? Nada absolutamente. Quereis que eu vos diga mais alguma coisa, minha caríssima filha? Quero crer que estaria sempre alegre, e nunca me perturbaria, porque acho que assim já faço, e creio que nunca me deixo perturbar”.

“Conservar-me-ia na minha pequenez e baixeza, e me humilharia, praticando esta virtude em toda ocasião que se apresentasse, e se não soubesse humilhar-me, humilhar-me-ia ainda por não o saber. E procuraria sempre praticar, do melhor modo possível, todas as minhas ações, na presença de Deus, com a máxima humildade e amor, porque nesta casa se aprende a fazer assim, não é exato? Deixemo-nos a nós mesmos. Comecemos já, com coragem, e Deus nos ajudará, e faremos muita coisa com o seu auxílio, se Deus quiser” (229).

***

Chegamos assim ao ponto culminante da caridade fraterna: Vimos como, em geral, nos devemos desapegar de tudo. Mas como pode a alma perfeitamente desapegada ainda amar? Vamos retomar e analisar este desapego, e veremos que, à medida que nele tem parte nosso Senhor, este desapego conduz a novo apego.

Estando algumas religiosas prestes a deixar Annecy para irem fundar um mosteiro em Orleans, veio São Francisco de Sales dizer-lhes umas palavras de despedida:

“Pensando na vossa próxima partida, e nos inevitáveis sentimentos de tristeza que tereis ao separar-vos umas das outras, julguei dever dirigir-vos uma palavrinha de conforto. Não digo que não vos seja justo chorar um pouco, porque é depois de uma convivência, suave e intima, de tantos anos”(230).

Eis, de novo, as sorridentes efusões do bom pai com as caras filhas: eis, de novo, o doce São Francisco de Sales; mas onde estará o austero: “devemos morrer, minhas filhas”?

São de três espécies os bens de que nos devemos despojar. Bens exteriores, bens do corpo, bens da alma. Por bens exteriores entende-se tudo quanto deixamos ao ingressar na vida religiosa: lar, família, amigos, riquezas e tudo mais. Para nos desprender de tudo isso, devemos renunciar a tudo nas mãos de nosso Senhor, e depois perguntar-Lhe que sentimentos nos devem inspirar, porque não podemos deixar de nos afeiçoar, nem o podemos fazer da mesma forma, mas devemos amar a cada qual em seu lugar, pois a caridade classifica os afetos.

“Os segundos bens são os do corpo, saúde e outras coisas, às quais devemos renunciar. Não devemos mirar-nos no espelho para ver se estamos bem, nem nos preocupar mais com a saúde do que com a doença, pelo menos quanto à parte superior, porque a natureza sempre se ressente, algumas vezes grita, sobretudo quando não somos ainda muito perfeitos. Devemos, pois, ficar igualmente contentes na doença e na saúde, tomando os remédios e alimentos que nos forem dados. Refiro-me sempre à razão, porque não perco tempo com as inclinações. Os bens do coração são as consolações e as doçuras que encontramos na vida espiritual. São muito bons. Então por que nos desapegarmos? Porque é preciso. Devemos depositá-los nas mãos de Deus, para que disponha dele como lhe aprouver. Quanto a nós, é mister servi-lo com eles ou sem eles”.

“Há outra espécie de bens, que não são nem interiores nem exteriores, nem bens do corpo nem do coração, mas bens imaginários, que dependem da opinião de outrem. Chamam-se: honra, estima, reputação”

Destes devemos despojar-nos radicalmente, e não querermos outra honra, senão a da Congregação, que consiste em procurar em tudo a glória de Deus; nem outra estima e reputação, senão a da Comunidade, a qual consiste em edificar sempre e em tudo. Estes desprendimentos e renúncias das coisas supraditas não devem ser feitas por desprezo, mas por abnegação, visando só o puro amor de Deus.

“É preciso notar que o contentamento que sentimos quando encontramos pessoas queridas, e as demonstrações de afeto que damos, não são contrárias à virtude do desprendimento, desde que não sejam desordenadas e que nosso coração não corra atrás dessas pessoas quando se ausentem, pois em presença dos objetos como não se hão de comover as potências? É como se alguém dissesse a outrem, ao se lhe deparar um leão ou um urso: Não tenho medo. Assim também, ao nos encontrarmos com entes queridos, não podemos deixar de sentir alegria e contentamento. Tudo isto é conforme ao beneplácito de Deus, e portanto não é contrário à virtude. Digo mais ainda, se eu desejasse ver alguém em proveito de qualquer fim útil, que pudesse reverter para a glória de Deus, e se surgisse algum empecilho, é natural que eu ficasse um pouco sentido com este contratempo, e procurasse remover as causas. Nada haveria nisso de contrário à virtude do desprendimento, contanto que não chegasse a perturbar-me”.

“A virtude não é pois tão terrível como se pensa. É erro em que muitos incorrem. Forjam-se quimeras no espírito, julgando difícil o caminho do céu; enganam-se, e sem razão, porque já Davi dizia a Deus que a sua lei era demasiadamente suave (Sl 118) e, à medida que os maus a declaravam dura e penosa, este bom rei afirmava que era mais doce do que o mel” (231)

Ninguém ama como a alma desapegada. Fá-lo, porém, com ordem, e não mais para satisfazer suas paixões, ama em Deus, que quer que ela ame, e como o quer. O Mestre manda que amemos o próximo a quem Ele amou até à morte. Se, pois, estivermos unidos a Jesus, ‘‘seremos todo doçura e suavidade para com as Irmãs e o próximo em geral, porque veremos suas almas no sacratíssimo peito do nosso Salvador. Ah! quem vê o próximo sob outro qualquer prisma, corre o risco de não o amar nem pura, nem constante, nem igualmente; mas lá, quem não o amaria, quem não o suportaria, quem não toleraria suas imperfeições, quem estranharia sua má vontade, quem o acharia enfadonho? Ora, minhas caras filhas, este próximo aí está, no Coração de nosso Salvador; e é tão querido e tão amável, que o Amante morre de amor por ele. Então o amor natural que nasce do sangue, das relações de amizade, da convivência, da reciprocidade de sentimentos, da simpatia, da graça, se purifica e se reduz à perfeita obediência do amor puríssimo do bel prazer divino. O grande bem e felicidade das almas que aspiram à perfeição seria de certo, nada mais desejarem da parte das criaturas senão o amor da caridade que nos faz amar ao próximo, e a cada um em particular, na ordem natural, conforme o desejo de nosso Senhor” (1Jo).

A vida, em Jesus, torna-se, de novo, uma.

“Se Deus assim nos amou, devemos nós também amar- nos uns aos outros, pois a doutrina que nos foi dada desde o princípio    é que  nos amemos uns aos outros” (Mc 15)

O amor de Deus e o amor do próximo se identificam. O primeiro mandamento manda que amemos a Deus sobre todas as coisas e “o segundo lhe é semelhante: Amarás ao teu próximo como a ti mesmo” (Jo 13).

“Nisto todos conhecerão que sois meus discípulos, se vos amardes uns aos outros” (Jo 17)

E quando Jesus, no momento de caminhar para a morte, para um instante e roga uma última vez ao seu Pai, que pede ele ainda?

“Pai, sejam eles um como tu em mim, eu em ti, a fim de que seja um em nós” (1Jo 4).

“Quem disser que ama a Deus, mas odiar seu irmão, é mentiroso” (232)

Como amar a Jesus, se não amamos nEle, num mesmo amor, a todos a quem ama? Amar a Jesus não é unir-se a Ele, participar dEle? E o amor inextinguível que tem às almas torna- se também nosso.

Distingue-se, pois, claramente o amor cristão dessa benevolência e beneficência natural a que se dá hoje em dia o nome de filantropia. O amor cristão é todo em Deus, e é de Deus que, de certa forma, se irradia nas criaturas. A generosidade natural é uma virtude das almas bem-nascidas que sentem prazer em espalhar alegria. Mas quem conhece, um pouco que seja, a decadência humana, não vê até que ponto, exceto no cristianismo, esta virtude carrega inevitavelmente, até entre os melhores, um fundo de egoísmo e de amor próprio. A base sólida da renúncia total é o amor, e só a humildade pode consegui-lo. Humildade, ou o conhecimento de Deus e de si mesmo, ou desapego ao que temos e também ao que somos; “porque, diz São Gregório Magno, se é relativamente fácil deixar alguém o que possui, por outro lado é cruciante deixar-se a si mesmo”.

“O coração não se desapega, senão se apegando. Para o desapegar das coisas terrenas, é preciso apresentar-lhe, no alto, outras realidades que o possam cativar” (233)

Só o cristão encontra na realidade de Deus, e no amor, tal como lho manifesta o Cristo, esta verdade atraente, que o estimula ao ponto de dar tudo, de se humilhar, de se renunciar, de quebrar a natureza, para dar plena expansão à alma, por mais que lhe custe. E por isto só a ele ama. Só a ele o amor liberta. Tudo se reduz à caridade, que é o amor cristão; que se funda na humildade, ao mesmo tempo não se concebe, fora dela, nem humildade verdadeira nem renúncia total.

A caridade é a alma da perfeição, sem a qual as outras virtudes não passam de cadáveres de virtudes; é ela que, elevando-as para Deus, as vivifica e fecunda. Essa caridade é essencial e fundamentalmente o amor de Deus, porque é o único que tem razão de ser em si mesmo, fora de nós. Nele também, e só nele, o amor ao próximo.

“Na medida em que a alma me ama, disse Deus a Santa Catarina de Sena, ama ao seu próximo, porque é de mim que vem o amor que ela lhe dedica”

Vejamos de novo a definição da beneficência: É uma virtude que nos outorga a satisfação de proporcionarmos alegria aos outros. É, pois, ao mesmo tempo para nós e para os outros que somos generosos. O filantropo nunca chegará até à abnegação de todo gozo próprio, nunca chegará ao completo esquecimento de si mesmo, porque onde encontrará na ordem natural motivo tão possante que o leve a sacrificar tudo? Só Deus pode elevar-nos acima de nós mesmos; só em Deus nos será possível amarmos até ao esquecimento próprio e é esse o amor puro, o que só pensa no objeto amado. Se quisermos, pois, amar plenamente, fitemos o olhar em Jesus.

“Amemo-nos uns aos outros, e sirvamo-nos para isto deste pensamento, tão próprio para nos excitar a esta santa dileção, de que nosso Senhor na cruz derramou até a última gota do seu Sangue sobre a terra, para que fosse como o cimento sagrado com o qual queria cimentar, unir, juntar e ligar todas as pedras de sua Igreja, que são os fiéis unidos uns aos outros, a fim de que nunca houvesse separação” (234).

***

De que consta, na prática, este puro amor ao próximo?

“Disse o grande Apóstolo São Paulo que ele se deu todo para a todos ganhar. Com o fraco, sou fraco. Com o doente, sou doente. Com o forte, sou forte. Quando me acho no meio dos enfermos, aceito de boa mente as comodidades que lhes são necessárias, a fim de animá-los a fazer o mesmo. Se estou ao pé de doentes, velo sobre eles, qual ama tema e carinhosa, junto do menino doente, ninando-o para que adormeça. Estando, porém, entre os fortes, torno-me como um gigante, para lhes dar coragem. Se percebo, no entanto, que escandalizo o meu próximo por qualquer ato, embora lícito e isento de pecado, todavia, porque prezo muito a paz e tranquilidade do seu coração, de boa vontade e de todo coração abstenho-me. É, pois, o amor que tinha a Deus, que incitava São Paulo a se tornar semelhante a cada um, para a todos ganhar” (235).

Pai, orava Jesus, sejam eles um, como nós somos um. Assim as almas que exercem a caridade, esquecidas de si mesmas, são também um. Uma junto da outra, como as cordas de um instrumento, têm tudo em comum; o instrumento todo vibra para a glória de Deus, seja qual for a corda que produz o som, e “assim todos os corações unidos cantam Jesus a Deus” (236).

“Quanto à pergunta se deveis ficar satisfeita quando tal Irmã pratica uma virtude à custa de outra, digo que devemos amar o bem do próximo tanto quanto o nosso, principalmente na vida religiosa, onde tudo deve obedecer ao bem comum, nem devemos ficar pesarosos se uma Irmã praticar certa virtude à nossa custa. Por exemplo, achando-me junto à porta com uma mais nova que eu, se me afastar para lhe dar passagem, à medida que eu pratico esse ato de humildade, ela deve com brandura, praticar a simplicidade, e procurar noutra ocasião antecipar-me. Como também, se eu lhe ceder minha cadeira, ou sair do meu lugar, ela deve ficar contente por ter eu podido pôr em prática tal virtude, participando ela do pequeno lucro que dele me advirá, e pensando consigo mesma: Já que não pude fazê-lo, alegro-me por o ter feito esta minha Irmã. E não só não nos devemos entristecer, como devemos estar sempre prontos a contribuir, tanto quanto nos seja possível, para isso, dando até a nossa pele se fosse necessário, porque, desde que Deus seja glorificado, pouco nos deve importar por quem, de tal sorte que, em se apresentando ocasião de praticarmos qualquer ato de virtude, nosso Senhor nos perguntasse quem preferíamos que o fizesse, pudéssemos responder: Senhor, quem vos render maior glória. Ora, não havendo escolha, devemos desejar fazê-lo nós, porque a caridade começa por casa, mas não nos sendo possível, devemos regozijar-nos e ficar satisfeitíssimas com que outrem o faça, e assim praticaremos perfeitamente tudo em comum. Outro tanto devemos dizer em relação ao temporal, porque, contanto que a casa esteja bem arrumada, não nos devemos incomodar se foi por nós ou por outrem. Se surgirem sentimentos em contrário, é sinal de que há ainda do teu e do meu” (237).

A inveja não tem acesso no reino de Deus, e a alma simples não a conhece. Toda virtude lhe agrada, porque agrada ao Mestre e se a tal não possui, felicita-se de que, ao menos, outra a supra. Quanto a ela, nada perde com isto, enquanto a glória divina, que é capital comum, aumenta em benefício de todos, com o lucro de cada uma.

Tudo em comum: “O amor cordial” conduz a uma confiança toda infantil. As crianças, quando têm em mão um brinquedo bonito, ou outro objeto de seu agrado, não descansam enquanto não reúnem os amiguinhos, para lhos mostrar, a fim de que todos compartilhem da sua alegria. Mas também quando se machucam, nem que seja a pontinha do dedo, querem que todos tomem parte na sua dorzinha, queixando-se a quantos encontram, para que se compadeçam do seu mal e lhes soprem o dedinho ou o lugar machucado. Ora, não digo que deveis imitar essas crianças, mas que esta mesma confiança leve a se comunicarem às vossas Irmãs, com toda simplicidade, suas pequenas alegrias e consolações, sem receio, por outro lado, que elas lhes percebam as imperfeições. Não digo que quem recebe de Deus um dom extraordinário o deva manifestar a todos, não; mas, quanto às pequenas consolações que tivermos e aos bens que nos couberem, quisera que não houvesse tanta reserva, mas que, se a ocasião se apresentar, não por forma de jactância ou vanglória, mas de simples confiança, umas as comunicassem simples e francamente às outras. Quanto aos nossos defeitos, não nos preocupemos tanto em escondê-los, porque não se tornarão menores. Devemos, pelo contrário, ficar satisfeitos de nos conhecerem tal qual somos. Podeis cometer uma falta ou uma inépcia, é verdade; mas será diante de Irmãs, que vos querem muito bem, e que saberão desculpar-vos e suportar esse defeito, antes ficando com pena de vós do que sentidas convosco… Como se fossem achar estranho sermos nós tão imperfeitas! (238)  Nada de exclusivismo tão pouco.  Algumas são tão ciosas deste espírito da Visitação que não o quereriam comunicar a gente de fora. É um sentimento exagerado, que se deve cortar, porque, pergunto, com que fim subtraireis ao próximo aquilo que pode ser-lhe proveitoso? Não concordo com isto, pois desejaria que os de fora conhecessem e apreciassem todo o bem que há na Visitação. Sempre fui do parecer de que seria bom que se imprimissem as Regras e as Constituições, a fim de que, lidas por diversas pessoas, estas pudessem tirar proveito. Conservai o espírito da Visitação, com extremo cuidado, mas não ao ponto de impedir que seja comunicado caridosamente, e com simplicidade, ao próximo, a cada um segundo a sua capacidade, sem receio de que se venha a dissipar, por causa de semelhante comunicação. Pelo contrário, a caridade nunca prejudica coisa alguma, mas aperfeiçoa tudo (239).

Esta caridade se manifesta de diversos modos. Todos se reduzem à máxima de pensar nos outros e não em si mesmo. Nunca poderemos amar de mais ao  nosso próximo, nem excedermos os termos da razão neste amor. Mas quanto às provas que dermos, podemos muito bem cair e exceder as regras da razão, ultrapassando-as” (240).  A caridade toma em consideração as circunstâncias; a nós adaptarmo-nos a elas.

Será esclarecida e maneável. Será esclarecida, se for toda em Deus; um olhar para Jesus coloca cada coisa no lugar. Será maneável, se se basear num completo desprendimento, porque então não haverá inflexibilidade de amor próprio para impedir a alma de se amoldar ao bem do próximo. Aqui, na vida cotidiana do convento, só nos é dado praticá-la nas pequenas coisas, mas os princípios permanecem os mesmos, — e sua verdade aparece mais clara ainda, quando as circunstâncias se avolumam.

“Ora, este amor cordial vem acompanhado de duas virtudes: uma se chama afabilidade, a outra boa conversação. A afabilidade imprime certa suavidade no trato com os outros, quando falamos de negócios e de coisas sérias. A boa conversação nos toma gentis e amáveis nos recreios e no comércio trivial com o próximo. As virtudes, como bem sabeis, têm todas dois vícios opostos, que são os seus dois extremos. A virtude de afabilidade está, pois, entre a gravidade, ou excessiva seriedade, e a exagerada delicadeza, tendência para lisonjear. Ora, a virtude da afabilidade fica entre o demasiado e o pouco, usando de carinho, conforme o caso, conservando, todavia, a gravidade suave, de acordo com os negócios e as pessoas com quem lidamos. Digo que precisamos usar de carinho em certas ocasiões como, por exemplo, quando uma Irmã está doente, ou aflita, ou um pouco melancólica, porque isto lhe fará tanto bem! Não seria razoável ficar ao pé de uma pessoa doente com o mesmo ar grave que tomamos alhures, não querendo acarinhá-la, como se estivesse gozando boa saúde. Nem tão pouco se deve estar a dar constantes provas de afeto, e dizer, a todo propósito, palavras adoçadas, e lançá-las aos punhados a quem encontramos. Assim como o açucarar demais em uma comida a tornará enjoativa, assim também os carinhos muito frequentes, tornam-se fastiosos e deixam de agradar por já constituírem hábito. As carnes muito salgadas também tornam-se desagradáveis, por causa da sua acrimonia. Os alimentos porém, bem temperados com sal e açúcar são  saborosos. Do mesmo modo, os carinhos feitos com medida e discrição são agradáveis e proveitosos, para quem os recebe” (241).

Isto exige certo tato, em que entram a  modéstia, o esquecimento de si mesmo, e a procura do bem alheio.

“Falando-lhe sobre a condescendência, perguntamos-lhe o que fazia ele para se tornar tão indulgente para com todos. Não me é muito difícil, respondeu-nos, e nunca me arrependo de o ser, e sim de não o ser; naturalmente, firmeza de vontade, e, na verdade, não devemos ser condescendentes com o próximo? Não sei contrariar as inclinações dos outros, e, quando vejo que alguém deseja fazer alguma coisa, deixo-o fazer (242). Deus manda exercer a caridade com o próximo, e é grande caridade conservarmos a união entre nós. Para isto não vejo ada melhor do que a  docilidade e a condescendência. A doce e humilde condescendência deve sempre pairar acima de todas as nossas ações” (243).

“É verdade que quero muito bem a todos, e de modo particular às almas simples. Quanto à consideração com que aparentemente trato a cada um, a civilidade nos ensina a proceder assim, e, demais, sou levado a isto naturalmente; nunca soube fazer o que fazem certas pessoas, que, ao ocuparem um alto cargo, julgam-se com direito à consideração geral, e, nas suas cartas, não querem subscrever “muito humilde ou humilde servo”, senão às pessoas de categoria. A não ser com Pedro e Francisco, meus empregados, que, se assim me assinasse, pensariam que eu estivesse a zombar deles, emprego estes termos e não faço muita distinção entre uma e outra pessoa” (244).

“Manda a virtude da boa conversação que cada qual contribua para a alegria santa e moderada, para as palestras afáveis, aptas a consolar ou recrear o próximo, de sorte a não lhe causarmos enfado com os nossos ares carrancudos e melancólicos, nem recusarmos distrair-nos no tempo determinado para tal fim, procedendo como os que só querem fazer tudo comedidamente, e só se resolvem a falar depois de pesar cada palavra ou frase que vão dizer, a fim de que tudo esteja certo e não haja nada a corrigir, tanto receio têm eles de sujeitar suas palavras e ações à crítica. Ficam a se observar, a todo propósito, não para ver se ofenderam a Deus, mas se deram ocasião a que alguém os menosprezasse. Ah! O trato com essa espécie de gente torna-se desagradável aos outros. Tais pessoas pecam contra a prática da virtude da boa conversação, que nos manda tratar o próximo franca e graciosamente, contribuindo, na medida do possível, para lhe ser útil e consolá-lo” (245).

“Mas, alegar-se-á, se na hora do recreio me vier forte desejo de fazer oração, a fim de me unir mais perto à soberana Bondade, não devo concluir daí que a lei que determina o recreio não se aplica a mim, que tenho um gênio jovial por natureza? Ah! não deveis pensar isto, e muito menos dizê-lo; se o recreio não vos parece necessário, deveis, no entanto, tomar parte nele, por causa daquelas que precisam dele” (246).

Estamos a ver algumas Irmãs bem fervorosas, mas ainda um tanto humanas na prática da virtude; a que fica absorta na capela, de joelhos sobre as lajes, e se julga muito santa; a que pesa suas palavras e não se atreve a falar, com receio de faltar à discrição, ou à caridade, ou à humildade, ou ainda, ao recolhimento. No recreio não se dizem palavras inúteis, pois tudo lá tem sua utilidade. As Irmãs precisam distrair-se e as noviças, sobretudo, tiram grande proveito do recreio. O espírito não se pode manter sempre tenso, senão corre perigo de se tornar melancólico. Eu quisera que não tivessem escrúpulos de falar sobre coisas indiferentes; não seriam palavras inúteis; pois não podemos sempre falar de coisas sérias (247).

“Agora, resta saber como se há de observar a simplicidade, franqueza, sinceridade e lisura na conversação, visto que, onde há diversidade de espíritos, não se pode afiançar que tudo quanto uma disser seja aprovado e acatado pelas outras. Seria bom se pudéssemos sempre adaptar as nossas palavras ao sentir e ao gênio de cada qual, de maneira que ninguém encontrasse nada a dizer, mas é impossível; nem devemos procurar fazê-lo, porque não é necessário. Deve-se, por acaso, pesar cada palavra que se diz, a fim de evitar ofender ou magoar os outros? De maneira alguma, contanto que se observe a Regra de não falar senão do que é necessário, ou do que sirva para distrair e alegrar no recreio. Mas se nos viesse a ideia ou desejo de dizer outras quaisquer, não as deveríamos dizer, posto que a simplicidade segue sempre a regra do amor de Deus, em tudo. E se devemos ser simples na conversação, não devemos, contudo, ser levianos, dizendo, a torto e a direito, o que nos vier à imaginação. Mas achar-me perto de uma Irmã de gênio um pouco melancólico, que não gosta muito de ouvir falar, — e eu, que estava tão disposta a me distrair! Que fazer? Nem por isto, minha filha, vos deveis incomodar. Hoje é ela que está séria e melancólica, amanhã sereis vós; agora corre por vossa conta, amanhã correrá pela dela. Seria de fato interessante, apenas disséssemos uma palavra jocosa, logo olhássemos para todas as Irmãs, a ver se acharam graça e se aprovaram, e que, vendo alguma com ar sério, ficássemos contrariadas, julgando que ela não gostara, ou lhe desse uma interpretação mal. Não seja assim: seria o nosso amor próprio que nos levaria a proceder deste modo, deixaríamos de caminhar com simplicidade, porque a simplicidade não se preocupa com o que diz ou faz, mas deixa tudo nas mãos da divina Providência, na qual confia inteiramente” (248).

Pode acontecer, todavia, que, apesar da nossa prudente caridade, alguém fique magoada, “porque não esta em nosso poder contentar sempre a todos”. Mas a alma simples se aproveita mais uma vez do equilíbrio estável que lhe assegura a unidade de todas as virtudes em Deus.

“Façamos o possível para não ofender a ninguém; mas se acontecer, às vezes, apesar de tudo, pela nossa fraqueza, desgostar a outrem, recorramos sem demora à doutrina que tanto vos tenho pregado, que quisera gravar em vossos espíritos”.

“Humilhai-vos, logo, diante de Deus, reconhecendo a vossa culpa, e se tanto o merecer, por um ato de humildade para com a pessoa magoada; feito isto, não vos perturbeis mais, porque o nosso pai espiritual, que é o amor de Deus, no-lo proíbe, ensinando que, uma vez feito o ato de humildade, como já disse, devemos recolher-nos e afagar ternamente esta abjeção bendita que resulta de termos caído”(249).

“As palestras santamente alegres são aquelas em que não há mal algum, em que não se exprobram as imperfeições do próximo, pecado que nunca se deve cometer, nem se falar de coisas inconvenientes e indecorosas, nem tão pouco se discutem, com prazer e longamente, negócios do mundo e futilidades. Duas ou três palavras, ditas de passagem, e logo compensadas, não têm importância. Nem haverá mal em rir-se do que disser outra. Nem me acusaria de um gracejo, dito de brincadeira, embora mortificasse um pouco tal outra Irmã, contanto que não a entristecesse. Quem tende à perfeição, deve tender ao alvo, mas não se incomoda, quando não o atinge logo. É preciso proceder com toda simplicidade um pouco ao acaso, e aproveitar bem o recreio, pelo amor de Deus. Embora não tivéssemos tido a intenção de nos recrear para Deus, não deveríamos ter escrúpulos, porque bastaria a intenção geral, apesar de que, ao começar, convém ratificá-lo” (250).

***

Uma palavra para terminar:

“É preciso que eu vos diga, minhas caras filhas, que a santa Igreja não é tão rigorosa como se pensa. Se uma Irmã estiver doente, seja mesmo com febre terçã, e se lhe vier um acesso, em dia de preceito, na hora da Missa, podeis e deveis perder a Missa para, ficar junto da enferma, embora se ficasse só nada lhe fosse acontecer; pois a caridade e a suavidade da nossa santa madre Igreja sobrenada a tudo” (251).

Sirvam-nos estas últimas palavras de remate. Revelam-nos todo Francisco de Sales, toda a vida cristã católica, todo Jesus, “doce e humilde de coração”. O pai abre o coração às suas caras filhas; fala-lhes da vida santa, da vida vivida, que ele tão bem conhece, na qual o amor cria na alma nova espontaneidade, toda orientada por Deus. O mundo não a compreende, porque só conhece a espontaneidade proveniente dos sentidos, e, se admite a existência de Deus, encara-a apenas no terreno da pura teoria, e interdiz a Deus todo contato com o homem. Isto explica os preconceitos que pesam sobre os santos. Não vivem segundo o espírito do mundo; e por isso não vivem aos olhos do mundo. Mas estas páginas, assim espero, revelando a vida que levam as almas verdadeiramente cristãs, retratam uma vida inteiramente diversa, vida que é muito mais intensa, porque é divina.

“Como visse as tochas acesas para o reconduzir, admirou-se e disse à sua gente: Que quereis de mim? Passaria de bom grado aqui a noite toda. Mas precisamos separar-nos; a obediência me chama. Adeus, minhas caras filhas, eu vos levo a todas no coração e vos deixo este como prova de minha amizade”.

“Quando a nossa Madre lhe pediu, muito humildemente, que nos dissesse umas palavras que se nos gravassem profundamente no espírito, respondeu: Que vos hei de dizer, minhas caras filhas a não ser duas palavras preciosas, que tantas vezes vos recomendei: Nada desejar, nada recusar? Nestas duas palavras, eu vos digo tudo” (252).

Foi isto como que o testamento de São Francisco de Sales, e “o último adeus do nosso bem-aventurado Pai às nossas caras Irmãs de Lyon, em 1622, no dia de São Estevão, à tarde, na antevéspera da sua bendita morte”. No dia seguinte sofreu um ataque de cabeça, e morreu à 28 de dezembro, festa dos Santos Inocentes, no momento em que, em torno do seu leito, os assistentes repetiam pela terceira vez: Omnes sancti Innocentes, orate pro eo.

Mâlines, 25 de julho de 1917.

 

Referências:

(1) Vincent, Saint François de Sales dirécteur d’âmes, p. 146.

(2) Hénry Coüannier, Saint François de Sales et ses amitiés, p. 343.

(3) Vincent, op. cit, p. 48.

(4) Révue des sciences philosophiques et théologiques, 20 avril 1923, p. 252.

(5) 26 de agosto de 1618.

(6) Artigo de Dom Idesbald Rylandt na Rêvue Liturgique et monastique, 1923.

(7) Ver, por exemplo, Summa, I parte, q. 60, art. 5 e Quodlibet a 8.

(8) Vacant et Mangenot — Dictionaire de théologie catholique, au mot Augustinisme, col. 2516.

(9) Vincent, op. cit., p. 81.

(10) Ver o segundo volume: L’invasion mystique, que trata do tempo de São Francisco de Sales.

(11) Ver em Brémond, obra cit., c. IV, a figura de Margarida Acarie, cuja santidade extraordinária deve reconhecer, mas cuja discrição não pode deixar de lastimar.

(12) Mysterium fidei. De augustissimo corporis et sanguinis Christi sacrifício atque sacramento. Paris, Beauchesne, 1921.

(13) Carta de 9 de outubro, 1604.

(14) Santo Tomás analisa muito bem esta complexidade da oração. Summa Theologica, II, q. 83, art. 17.

(15) Carta CLI, ed. Vivès. — Citada por Dom Rylandt, Saint Françoís de Sales et la piété liturgique, Révue liturgique,

(16) Traité de l’amour de Dieu, Prefácio.

(17) Introduction à la vie devote, 3° p., cap. XXIII.

(18) Introduction à la vie devote, 3° p., cap. XXXXV.

(19)Traité de l’amour de Dieu, l. IX, cap. II.

(20) Introduction à la via dévote, Ia, cap. I.

(21) Introduction à la via dévote, Ia, cap. III.

(22) Bordeaux, Saint François de Sales et notre coeur de chair, p. 98.

(23) Constituições para as Religiosas da Visitação: De la fin pour laquelle cette Congrégation a été instituée.

(24) Histoire de la Galerie, pela madre Marie-Adrienne Fichet, sétima professa da Visitação. — A primeira casa da Visitação foi chamada Casa da Galeria, por causa duma galeria coberta, que corria em redor da casa e do jardim.

(25) Ibid.

(26) Entretiens spirituels. Dos votos. — Todas as citações referem-se à edição das obras completas, publicadas pelas religiosas do mosteiro da primeira Visitação de Annecy.

(27) Histoire de la Galerie.

(28) Dos votos.

(29) Oeuvres de sainte Jeanne de Chantal. Paris, Plon, 1877: t. VI, carta XX.

(30) Por ocasião da morte de São Francisco de Sales, em 1622, havia treze casas da Visitação.

(31) Carta à Madre de Chantal, em 19 de março de 1615.

(32) O Confessor só morava no convento de tempos a tempos. Por isso o quarto ficava muitas vezes desocupado.

(33) Recueil des questions faites à Lyon, no apêndice dos Entretiens Spirituels.

(34) Da obediência.

(35) Dos votos.

(36) Ibid.

(37) Da obrigação das constituições.

(38) Do espírito das regras.

(39) Ibid.

(40) Ibid.

(41) Da obrigação das Constituições.

(42) Carta de 13 de dezembro de 1619.

(43) Carta de 13 de dezembro de 1615 à Madre Favre, superiora de Lyon.

(44) Da pretensão religiosa.

(45) Dos votos.

(46) Das aversões.

(47) Ibid.

(48) Ibid.

(49) Da Vontade de Deus.

(50) Dos Sacramentos.

(51) Da vocação religiosa.

(52) Dos votos.

(53) Coleção das perguntas feitas na Visitação de Lyon.

(54) Da firmeza.

(55) Da obediência.

(56) Da firmeza.

(57) Última conferência em Lyon.

(58) Dos votos.

(59) Última conferência em Lyon.

(60) Coleção das perguntas feitas em Lyon.

(61) Dos Sacramentos.

(62) Das aversões.

(63) Últimas conferências em Lyon.

(64) Da modéstia.

(65) Das três leis espirituais.

(66) Da modéstia.

(67) Da vocação religiosa.

(68) Da simplicidade.

(69) Da modéstia.

(70) Da obediência.

(71) Da obrigação das Constituições.

(72) Da obediência.

(73) Apêndice às conferências.

(74) Dos votos.

(75) Coleção de perguntas feitas em Lyon.

(76) Das aversões.

(77) Dos votos.

(78) Das aversões.

(79) Histoire de la Galerie.

(80) Da obediência.

(81) Última conferência feita em Lyon.

(82) Apêndice.

(83) Das aversões.

(84) Da obediência.

(85) Do juízo próprio.

(86) Das aversões. Apêndice.

(87) Da modéstia.

(88) Do juízo próprio.

(89) Última conferência feita em Lyon.

(90) Coleção das perguntas feitas em Lyon.

(91) Da obediência.

(92) Coleção das perguntas feitas em Lyon.

(93) Da vontade de Deus.

(94) Das aversões. Suplemento.

(95) Da obrigação das Constituições.

(96) Da vocação religiosa.

(97) Dos Sacramentos.

(98) Da obrigação das constituições.

(99) Do juízo próprio.

(100) Da vocação religiosa.

(101) Coleção das perguntas feitas em Lyon.

(102) Da devoção religiosa.

(103) Da simplicidade.

(104) Apêndice.

(105) Dos Sacramentos.

(106) Do desapego.

(107) Das aversões.

(108) Coleção das perguntas feitas em Lyon.

(109) Histoire de la Galerie.

(110) Da simplicidade.

(111) Das três leis espirituais.

(112) Sermão para a vigília de Natal, t. IX, p. 459.

(113) Dos Sacramentos.

(114) De nada pedir.

(115) Introduction a la vie devote, 3ª parte, cap. VI.

(116) S/F.

(117) Da cordialidade.

(118) Da obediência.

(119) Ibid.

(120) Da devoção religiosa.

(121) Do espírito das Regras.

(122) Do juízo próprio.

(123) Do espírito das Regras.

(124) Carta em 19 de setembro de 1612 à abadessa de Beaume-les-Dames.

(125) Carta em 21 de setembro de 1612 ao barão Amédée de Vibette

(126) Da vocação religiosa.

(127) Da obrigação das Constituições.

(128) Dos Sacramentos.

(129) Da obediência.

(130) Da vocação religiosa.

(131) Traité de l’amour de Dieu, livro I, cap. XI.

(132) Da confiança.

(133) Da obediência.

(134) Dos Sacramentos.

(135) Da simplicidade.

(136) Dos Sacramentos.

(137) Da modéstia.

(138) Da confiança.

(139) Da confiança.

(140) Do juízo próprio.

(141) Dos votos.

(142) Da prudência em matéria religiosa.

(143) Do desapego.

(144) Da vocação religiosa.

(145) Dos Sacramentos.

(146) Da modéstia.

(147) Coleção das perguntas feitas em Lyon.

(148) Da obediência.

(149) Dos Sacramentos.

(150) Coleção das perguntas feitas em Lyon.

(151) Da obediência.

(152) Do juízo próprio.

(153) Da simplicidade.

(154) Apêndice.

(155) Das aversões.

(156)  Apêndice.

(157) Da obediência.

(158) Da modéstia.

(159) Do desapego.

(160) Da vocação religiosa.

(161) Da vontade de Deus.

(162) Da vocação religiosa.

(163) Da simplicidade.

(164) Da firmeza.

(165) Dos votos.

(166) Da obediência.

(167) Da vocação religiosa.

(168) Das aversões.

(169) Da modéstia.

(170) Sermão no domingo de Ramos, 20 de março de 1622.

(171) Da vida e das virtudes cristãs.

(172) Dos votos.

(173) Do juízo próprio.

(174) Das aversões.

(175) Da modéstia e do juízo próprio.

(176) Da cordialidade.

(177) Ibid.

(178) Ibid.

(179) Última Conferência feita em Lyon.

(180) Da simplicidade.

(181) Salmo 126.

(182) Da vocação religiosa.

(183) Dos Sacramentos.

(184) De nada pedir.

(185) Da esperança.

(186) Das três leis espirituais.

(187) Última Conferência em Lyon.

(188) Da simplicidade.

(189) Salmo 22.

(190) Das três leis espirituais.

(191) Última conferência feita em Lyon.

(192) Da modéstia.

(193) Da obediência.

(194) Da esperança.

(195) Da obediência.

(196) Da simplicidade.

(197) Da firmeza.

(198) Da vontade de Deus.

(199) Das virtudes de São José.

(200) Da vontade de Deus.

(201) Da obediência.

(202) Da obrigação das Constituições.

(203) Do espírito das Regras.

(204) Da obrigação das Constituições.

(205) Coleção das perguntas feitas em Lyon.

(206) Apêndice II, D.

(207) Da confiança.

(208) Coleção das perguntas feitas em Lyon.

(209) Apêndice II, D.

(210) Da confiança.

(211) Coleção das perguntas feitas em Lyon.

(212) Da modéstia.

(213) Da obediência.

(214) Coleção das perguntas feitas em Lyon.

(215) Dos Sacramentos.

(216) Da simplicidade.

(217) Do desapego.

(218) Da generosidade.

(219) Da modéstia.

(220) Do espírito das Regras.

(221) Da vontade de Deus.

(222) Do desapego.

(223) Apêndice II, D.

(224) Do próprio juízo.

(225) Da esperança.

(226) De nada pedir.

(227) Da esperança.

(228) Da vontade de Deus.

(229) Recueil de ce que notre bienheureux père dit à notre Soeur Simplicienne.

(230) Da esperança.

(231) Do desapego.

(232) Da simplicidade.

(233) Rousset, La doctrine spirituelle, t. II, l. I, cap. VI.

(234) Do espírito das Regras.

(235) Da cordialidade.

(236) Mons. Charles Gay, De la vie et des vertus chrétiennes.

(237) Do desapego.

(238) Da cordialidade.

(239) Das aversões.

(240) Da cordialidade.

(241) Ibid.

(242) Coleção das perguntas feitas em Lyon.

(243) Da vontade de Deus.

(244) Coleção das perguntas feitas em Lyon.

(245) Da cordialidade.

(246) Do espírito das Regras.

(247) Coleção das perguntas feitas em Lyon. Suplemento.

(248) Do próprio juízo.

(249) Da simplicidade.

(250) Das aversões.

(251) Da cordialidade e Coleção das perguntas feitas em Lyon. Suplemento

(252) De nada pedir.

(LECLERCQ, Abbé Jacques. São Francisco de Sales, Doutor da Perfeição. Editora Vozes)