O Divino Amor, por Santo Afonso Maria de Ligório

Por Santo Afonso Maria de Ligório

Tradução do Pe. Bernardo Gaspar de Sá C.Ss.R.

SUMÁRIO

Proêmio
Capítulo I. Quanto Deus merece o nosso amor
Capítulo II. Quanto Deus deseja o nosso amor
Capítulo III. Meios para se adquirir o Divino Amor
Capítulo IV. Sinais infalíveis para averiguarmos, se possuímos o divino amor

PROÊMIO

Refere-nos uma lenda antiga que, ao visitarem em Éfeso o lugar do último repouso de São João, o discípulo predileto de Jesus Cristo, os romeiros ainda podem ouvir bater o coração do «Apóstolo do amor» em seu túmulo.

De forma análoga poderíamos afirmar de Santo Afonso Maria, que se sente ainda arder o fogo do seu coração amoroso nas suas obras abrasadas de zelo.

Vale, porém, essa asserção mormente das obras ou opúsculos («trattatellos»: pequenos tratados) que o zelosíssimo Doutor editou sobre o Amor Divino, seu assunto de predileção.

No presente opúsculo, pequenino em dimensões, mas rico em conteúdo, o grande e sábio Doutor da Igreja, da maneira compreensível e concisa que lhe é própria, proporciona as suas «lições salutares» sobre o Amor.

«Podíamos», assim afirmam os compositores da nova edição crítica italiana, «chamar esse opúsculo: um resumo sucinto de toda a doutrina espiritual do Santo, a qual inteiramente converge para o amor de Deus»

Sim, com direito pode ele apresentar-se como mestre autorizado nesta arte divina, ele que na vida espiritual sustentava e apregoava como princípio preponderante: «O caminho do amor parece-me ser o mais seguro, e isso para todos», e cuja própria vida foi uma admirável concatenação de exercícios e obras de ardente amor.

Daí que não nos estranha o elogio do dominicano holandês, o padre Pedro van den Tempel, que exalta a Santo Afonso como «herói no amor divino, que tinha experimentado no seu próprio corpo e alma os diversos fenômenos da união mais íntima com Deus». Mas, assim continua o instruído filho de São Domingos:

«Afonso sabia das alturas da união com Deus descer até o povo de que tinha, semelhante ao seu Mestre, compaixão tão profunda — Misereor super turbam (Mt 15,32) — e partia para os pobres simples o pão da vida em diversos tratados pequenos, sobre a Oração, sobre a santa Vontade de Deus, sobre o Amor e o trato confidência com Deus»

Não foi sem razão que o piedoso jesuíta, padre Oto Braunsberger, prestou calorosa homenagem aos opúsculos pequeninos, mas riquíssimos do assombroso Doutor da Igreja e falando em São Pedro Canísio, perguntou:

«Não santificou, igualmente, Santo Afonso de Ligório com as suas simples e breves Visitas ao Santíssimo Sacramento e seu livrinho sobre a Oração, tantas almas quantas salvou com os laços poderosos da sua desvincilhadora Teologia Moral? E em que consiste o segredo da influência abençoada desses escritos piedosos? De certo, podemos fazer valer, como explicação natural, a dição simples e nítida com que Afonso prende e empolga o coração do povo; em seguida, seu conhecimento descomunal da Escritura sagrada e dos Padres da Igreja, máxime de Santo Agostinho de cujos ricos tesouros ele tira o ouro puríssimo da sabedoria cristã. Porém, a principal causa, a fonte sobrenatural, é a santidade pessoal do próprio autor que, tirando do tesouro da sua própria vida de graça, espalha, como outras tantas pérolas e brilhantes, os possantes princípios da vida de oração ascética e mística»

Pela atenta leitura deste opúsculo de escol, fruto do zelo de Santo Afonso, realize se em ti amplamente, caro leitor ou leitora, a bela oração da Igreja: «Vinde, ó Santo Espírito, enchei os corações dos vossos fiéis e acen­dei neles* o fogo do vosso amor!>

Pe. Bernardo Gaspar de Sá C.Ss.R

Rio-de-Janeiro, aos 23 de Novembro de 1945

 

CAPITULO PRIMEIRO

Quanto Deus merece o nosso amor

Deus é a plenitude de todo o bem, de toda a perfeição.

Deus é infinito, Deus é eterno, Deus é incomensurável, Deus é imutável.

Deus é poderoso, Deus é sábio, Deus é prudente.

Deus é justo.

Deus é compassivo, Deus é santo, Deus é belo. Deus é magnificente, Deus é liberal, Deus é rico, Deus é tudo, e é por isso que merece amor, e grande amor!

Deus é infinito; a todos dá, de ninguém recebe. Tudo quanto temos, temo-lo de Deus; Deus, porém, não tem nada de nós:

«Eu falei ao Senhor: sois meu Deus, porque não precisais dos meus bens» (Sl 15,2)

Deus é eterno; existiu sempre e sempre existirá. Nós, sim, contamos os anos e os dias da nossa existência, Deus porém, não conhece princípio, nem terá jamais fim:

«Mas Vós, Vós sois sempre o mesmo, e vossos anos não perecerão» (Sl 101,28)

Deus é imenso e pela Sua própria existência está presente em todos os lugares. Nós, achando-nos num lugar, não podemos na mesma hora encontrar-nos em outro lugar. Deus, porém, está em todos os lugares: no céu, na terra, no mar, no fundo dos abismos; está tanto dentro como fora de nós:

«Para onde irei a fim de me subtrair ao teu espírito? E para onde fugirei da tua presença ? Se subo ao céu, tu lá estás; se desço ao inferno, nele te encontras presente» (Sl 138,7-8)

Deus é imutável; tudo quanto a Sua santa vontade uma vez decidiu de toda eternidade, é e fica sempre sua vontade:

«Eu sou o Senhor e não mudo» (Mal 3,6)

Deus é poderoso, e em confronto com Deus todo o poder das criaturas é fraqueza.

Deus é sábio, e em confronto com Deus toda a sabedoria das criaturas não é senão loucura.

Deus é onisciente, e em confronto com Deus toda ciência das criaturas não passa de ignorância.

Deus é justo, e em confronto com Deus a maior justiça entre os homens é defeituosa:

«Até nos seus anjos encontrou defeito» (Jó 4,18)

Deus é misericordioso, e em confronto com Deus toda a clemência das criaturas é imperfeita.

Deus é santo, e em confronto com Deus a santidade das criaturas, tão heroica muitas vezes, é infinitamente falha:

«Ninguém», afirmou o próprio Jesus Cristo, «ninguém é bom senão Deus só» (Lc 18,19)

Deus é belo. Oh! Como Deus é belo! Em confronto com a beleza de Deus, toda a beleza das criaturas é nada.

Deus é esplendoroso, e em confronto com Deus o brilho da criação, até o do próprio sol, não passa de escuridão.

Deus é rico, e em, confronto com Deus toda riqueza das criaturas não é senão pobreza.

Deus é tudo, e em confronto com Deus todas as criaturas, até as mais sublimes, as mais elevadas, as mais admiráveis, sim, todas juntas, não são nada, simplesmente nada:

«O meu ser é como nada diante de ti» (Sl 38,6)

Razão por que Ele merece ser amado, e ser amado dum grande amor.

Sim, Deus é digno de tanto amor, que todos os anjos e todos os santos do paraíso nunca fazem outra coisa e, durante toda a eternidade, jamais farão outra coisa senão amar a Deus.

É pelo seu amor para com Deus que são e serão sempre eternamente felizes. Ah! Deus merece tanto amor que se vê constrangido a Se amar a Si mesmo de modo infinito. E nesse amor tão indispensável e ao mesmo tempo tão doce, com o qual Deus Se ama a Si mesmo, consiste a Sua maior, felicidade! E nós não o amaríamos?

Oh! Como os Santos o amavam!

São Francisco Xavier se atirava ao chão não podendo mais sofrear os transportes do seu amor.

Santo Estanislau Kostka corria aos chafarizes a fim de se refrescar o peito com água fria.

Em São Felipe Néri se constatou visível dilatação do coração causada pela impetuosidade do seu amor divino.

São Francisco de Sales, por sua vez, dizia:

«Soubesse eu que no meu coração se achasse ainda uma fibrazinha que não estivesse impregnada inteiramente de santo amor para com Deus, e eu a arrancaria sem demora, atirando-a para bem longe de mim»

Santa Catarina de Sena, Santa Teresa, Santa Maria Madalena de Pazzi e mais outras almas de semelhante santidade, caiam por vezes em celestial loucura, em arroubamentos, inteiramente fora de si, pela veemência do amor divino. Sim, Santa Maria Madalena de Pazzi, ainda não satisfeita de tal amor extático, percorria, vez por outra, os corredores do seu convento, pranteando, e desabafando o coração em altos gemidos:

«O amor não é amado, o amor não é amado!»

Então, nós não o amaríamos ?

Sabeis por que nós não O amamos? É porque O conhecemos muito pouco!

Os Santos O amavam a tal ponto, porque O conheciam melhor do que nós. Procuremos, pois, conhecê-lO melhor.

Meditemos, de tempos em tempos, nos atributos de Deus, nas Suas divinas perfeições; lancemos, ao menos de vez em quando, em espírito um único olhar nEle, como vos proponho nestas páginas; então acender-se-á também em nossos corações o santo amor de Deus.

Já é assinalado favor que um Deus, tão grande, se deixe amar por criaturas tão miseráveis como somos nós. E mesmo assim, Ele nos dá o doce mandamento de amá-lO!

Quando no cume do monte Sinai Deus deu a Moisés a Sua lei, rezava o primeiro mandamento que promulgou:

«Amarás ao Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma, com todas as tuas forças» (Dt 6,5)

Deus lhe ordenou gravasse bem fundo essas palavras primeiramente em seu próprio coração: «E estas palavras que eu hoje te intimo, estarão gravadas no teu coração» e depois as promulgasse ao povo de Israel:

«E tu as ensinarás a teus filhos»

Pois, então, amemos a Deus, como Ele o merece; cumpramos do modo mais perfeito este grande e doce mandamento que Ele próprio nos outorgou. É o primeiro e o maior preceito de toda a lei (Mt 22,30). Vivamos na prática deste mandamento, morramos praticando-o até ao fim.

CAPITULO SEGUNDO

Quanto Deus deseja o nosso amor

Justamente por nos amar ardentemente Deus deseja ardentemente que nós também O amemos. Razão por que não somente Ele nos excitou a que O amemos, pelos Seus repetidos convites na Escritura Sagrada e por tantos benefícios dispensados tanto em comum a todos os homens como em particular a cada um de nós; mas, além disso, quis nos constranger a amá-lO por um preceito expresso. Pois que ameaça cada um de nós com o inferno, se não O amarmos e promete aos que O amam, o paraíso. «Deus quer que todos se salvem e que ninguém se perca» e ainda: «Deus espera com paciência por amor de vós, não querendo que ninguém pereça, mas que todos se convertam á penitência», assim nos ensinam com as palavras mais inequívocas os Príncipes dos Apóstolos (1 Tim 2, 4; 2 Pt 3,9).

Mas, se Deus quer que todos se salvem, para que, então, criou o inferno?

Criou o inferno, não para que nos perdêssemos, mas para que O amássemos. Se Deus não tivesse criado o inferno, quão poucos O amariam! Se agora que há inferno, grande parte dos homens ainda prefere perder-se a amar a Deus, quão poucos – repito-o – o amariam, se não houvesse inferno! Se Deus, por conseguinte, ameaça com castigos eternos os que não O amam, procede assim com o fim de que os que recusam amá-lO de bom grado e espontaneamente, O amem pelo menos constrangidos, levados pelo medo do inferno.

Ó meu Deus, como se sentiria honrado e ditoso um homem a quem dissesse o seu soberano, o seu rei:

«Ama-me, pois que eu te amo»

Príncipe desta terra, por certo, acautelar-se-ia de rebaixar-se a tal ponto que pedisse a um súdito o seu amor; Deus, porém, que é a bondade infinita, o Senhor do universo, infinitamente poderoso, infinitamente sábio, numa palavra, um Deus que é digno dum amor infinito, um Deus que nos enriqueceu com dádivas espirituais e corporais, não se dedigna de pedir a esmola do nosso amor. Ele nos admoesta e ordena que O amemos; e assim mesmo não consegue conquistar o nosso amor. Com efeito, que pede Ele de cada um de nós senão que O amemos?

«Que é que o Senhor teu Deus de ti solicita senão que o temas e… o ames?» (Dt 10,12)

É com esse objetivo que o próprio Filho de Deus desceu à terra e participou da nossa convivência; assim o declarou pessoalmente:

«Eu vim trazer fogo à terra, e que hei de querer, senão que ele se acenda?» (Lc 12, 49)

Prestai atenção, a esses. dizeres:

«Que hei de querer senão, que já se acenda?»

É como se Deus – o pensamento é de Santo Tomás -, é como se Deus que em Si próprio possui uma felicidade infinita, não pudesse ser feliz sem se ver amado por nós:

«Quasi sine te beatus esse non posset!» (De Beat. c. 7)

Não padece, pois, dúvida: Deus nos ama, e nos ama ardentemente, e justamente por nos amar ardentemente, quer que O amemos, também nós de todo o coração. Razão por que Ele nos manda a cada um em particular: «Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração», acrescentando, notai bem:

«Estas palavras que eu hoje te intimo, estarão gravadas no teu coração, e tu as ensinarás a teus filhos e as meditarás sentado em tua casa e andando pelo caminho e estando no leito e ao levantar-te; e as atarás á tua mão como um sinal e elas estarão como um frontal diante dos teus olhos e as escreverás sobre o limiar e sobre as portas da tua casa» (Dt 6,5-9)

Observe-se aqui como transparece através de todas estas palavras o ardente desejo de Deus de ser amado por cada um de nós. Manda que estas palavras «Amarás ao Senhor teu Deus de todo o teu coração» estejam gravadas em nosso coração; e para que nunca jamais delas nos esqueçamos, quer Ele que nelas reflitamos e meditemos, estando em casa ou passeando pelas estradas, ao irmos dormir ou ao despertarmos. Quer que como sinal ou lembrança as tragamos amarradas às nossas mãos a fim de as termos diante dos olhos em qualquer lugar que nos encontremos. Daí que os fariseus, interpretando literalmente esse preceito, traziam – como observa São Mateus (25, 5) – no braço direito e na testa esses dizeres escritos em pergaminho.

«Ó flecha ditosa», exclama São Gregório Nisseno, «que ao penetrares no coração, nele introduzes simultaneamente aquele que te atira, o próprio Deus!»

Quando Deus – assim devemos interpretar o pensamento desse venerando patriarca -, quando Deus atira a uma alma uma flecha de amor, isto é, ilumina dum modo particular uma alma, Ele a faz ver o amor que lhe devota e o desejo de ser por ela amado; penetra no mesmo instante, juntamente com essa seta de amor, o próprio Deus, pois que quem atira a flecha é o próprio Amor. Ou então não nos assegura São João que «Deus é caridade» (1 Jo 4,8)? Outrossim, como a seta fica detida, presa no coração ferido, do mesmo modo o próprio Deus, ferindo a alma com o Seu amor, entra nela para lhe ficar unido para sempre.

Ó homens, persuadamo-nos profundamente, que tão só Deus nos ama com amor verdadeiro. O amor dos nossos pais, dos nossos amigos e de todos os que dizem que nos amam, com exceção dos que nos amam unicamente em Deus e por Deus, esse amor não é verdadeiro amor, é amor, apego interessado; amam-nos por um motivo qualquer de interesse próprio, de egoismo.

Sim, meu Deus, reconheço, Vós tão só tendes em vista a minha felicidade, não por interesse próprio, mas unicamente por bondade, unicamente pela pura caridade que me tendes; e eu, ingrato que sou, não causei a ninguém tanto desgosto, tanta amargura, como a Vós que me testemunhastes tamanho amor! Meu Jesus, não permitais continue eu ainda por mais tempo nesta ingratidão. Amastes-me sinceramente; eu, da minha parte, quero amar-Vos sinceramente todos os dias que me restam ainda. «Meu amor», assim suspiro com Santa Catarina de Gênova, «nada mais de pecado, nada mais de pecado! A Vós somente quero amar, e nada mais»

A alma que ama verdadeiramente a Deus, diz São Bernardo, não pode querer outra coisa fora do que Deus quer. Supliquemos ao Senhor nos fira com o Seu amor, já que a alma ferida pelo amor, não pensa em outra coisa e até nem é capaz de querer outra coisa senão o que Deus quer; desprende-se de todos os apegos, de todos os desejos do seu amor-próprio. E esse desapego, unido a um integral abandono de si próprio a Deus, é a flecha com a qual a alma, por sua vez, fere o coração de Deus, como Ele próprio declara, afirmando à Esposa dos Cantares:

«Feriste o meu coração, ó minha irmã, minha esposa!» (Ct 4,9)

Como é admirável a expressão de São Bernardo neste particular:

«Discamus iaculari corda in Deum: Aprendamos a arrojar os nossos corações para Deus!»

Quando uma alma se abandona completamente a Deus, sem reserva alguma, assesta, em certo sentido, o seu coração, qual flecha, ao coração de Deus, e esse divino Coração se dá, sem demora, por vencido e se torna como prisioneiro, como conquista de tal alma desapegada.

Eis o que as almas que se abandonam inteiramente a Deus, executam incessantemente em todas as orações: entregam-se inteiramente a Deus e renovam continuadamente esses atos de entrega completa e incondicional com estes e semelhantes.

Suspiros de amor

Deus meus et omnia: Meu Deus e meu tudo!

Meu Deus, eu Vos quero, tão só a Vós e nada mais!

Senhor, entrego-me todo a Vós, e se não sei entregar-me como convém, tomai-me Vós mesmo!

Ó meu Jesus, a quem amaria eu, se não Vos amo a Vós que morrestes por mim?

Trahe me post te: Meu Salvador levantai-me do lodaçal dos meus pecados e arrastai-me junto conVosco

Atai-me, Senhor, amarrai-me com os laços do Vosso amor, para que não Vos deixe nunca mais

Quero ser todo Vosso, Senhor, entendestes-me? Quero ser todo Vosso, todo Vosso; Vós é que o deveis realizar

Que outra coisa desejaria eu, senão a Vós, meu amor, meu tudo?

Vós me chamastes para o Vosso amor; dai-me então forças para Vos agradar, assim como o desejais

Mas a quem iria eu amar, senão a Vós que sois Bondade infinita, digno de ser amado?

Inspirastes-me o desejo de ser incondicionalmente Vosso; pois então, concluí a Vossa obra!

Que outra coisa almejaria nesta terra senão a Vós que sois o Bem supremo?

Eu me dou inteiramente a Vós, sem reserva; oh! Aceitai-me e dai-me força para Vos ser fiel até à morte!

Quero amar-Vos muito nesta vida para Vos amar muito durante toda a eternidade!

Ó Jesus, meu Amado,
Nada desejo fora de Vós.
A Vós, meu Deus, entrego-me todo,
Disponde de mim como Vos aprouver!

(Quem pronunciar do fundo de seu coração este ver- sinhô, regozija o Paraíso)

Realmente, numa palavra, feliz a alma que puder dizer de verdade: Meu Deus se entregou todo a mim, eu me dou todo a Ele. «Meu Bem-amado é meu e eu sou dele: Dilectus meus mihi et ego illi» (Ct 2,16); não mais pertenço a mim mesmo; sou todo inteiro a posse do meu Deus. Quem com toda a sinceridade da alma se exprime neste teor, está inteiramente disposto, diz São Bernardo, a aceitar antes as penas infernais — na suposição que as pudesse admitir sem separar-se de Deus — do que ver-se apartado de Deus, fosse embora um único momento: são as próprias palavras do Doutor melífluo.

Que tesouro sublime e jucundo é o do divino amor! Ditoso de quem o possui! Consagre todos os seus desvelos, envide todos os esforços para conservar e aumentar esse tesouro; e quem ainda não o possuir, aplique-se a empregar todos os meios para entrar nessa posse tão feliz.

Vejamos agora, quais os meios indispensáveis e mais próprios para se adquirir e conservar este tesouro.

CAPÍTULO TERCEIRO

Meios para se adquirir o Divino Amor

I. Desapego das Criaturas

O primeiro meio é desprender-se de todas as afeições terrestres. Num coração que está cheio do mundo, não há lugar para o amor de Deus. Quanto mais lugar o mundo ocupa no coração, tanto menos reina ali o amor divino. Quem, por conseguinte, quiser ver o seu coração repleto do divino amor, tem que envidar todos os esforços para expulsar dele tudo quanto cheire ao mundo. Para nos tornarmos santos devemos imitar São Paulo que, com o fim de ganhar o amor de Cristo, desprezava todos os bens do mundo e os considerava como estéreo:

«Na verdade, tudo eu considero perda ante o eminente conhecimento de Jesus Cristo, pelo qual tudo perdi e tenho por estéreo, para ganhar a Cristo» (Fl 3,8)

Ah! Sim! Peçamos ao Espírito Santo nos inflame do Seu amor; então iremos nós também desprezar aqueles bens e considerar vaidade, fumaça e lodo todas as riquezas, todos os prazeres, todas as honrarias e dignidades da terra, pelos quais, infelizmente, se perdem a mór parte dos homens. Quando o amor divino se apodera dum coração, esse não faz mais nenhum caso de tudo quanto o mundo estima:

«Ainda que um homem dê todas as riquezas de sua casa pelo amor, ele as desprezará como um nada» (Ct 8,7)

Logo que lavra o incêndio numa casa, diz São Francisco de Sales, lançam-se pela janela a fora todos os trastes. Quer o santo dizer: estando o coração abrasado pelo amor divino, o homem, mesmo sem pregações, sem admoestações do diretor da sua consciência, procurará, de moto próprio, despojar-se dos bens terrestres, das honras, das riquezas, de todos os negócios deste mundo, e nem quererá amar outra coisa a não ser a Deus. Santa Catarina de Gênova dizia que não amava a Deus por causa dos seus dons, mas que amava os dons de Deus para amar mais ao próprio Deus.

Para uma alma que ama a Deus, assevera Gilberto, é coisa bem penosa e insuportável repartir o seu amor entre Deus e as coisas deste mundo, amar ao mesmo tempo a Deus e as criaturas:

«O quam durum est amanti animum dimidiare cum Christo et mundo!»
(Serm. 11 in Cant.)

E diz por sua vez São Bernardo, que o amor é ciumento:

«Amor insolens est»

Ciumento, porque Deus, num coração que Ele ama, não suporta rivais no amor, mas o exige para Si tão só, todo inteiro.

E será que Deus é exigente demais em solicitando que a alma não ame nada a não ser a Ele só? Não, responde São Boaventura, Deus, sendo como é, amabilidade e bondade infinita, que merece amor infinito, com todo o direito pretende ser o único a ser amado por um coração que Ele criou justamente para amá-lO:

«Summa diligibilitas summe debet diligi»

Tanto mais, porque este Deus de bondade, precisamente para ser amado sem partilha, se entregou inteiramente por esse coração: «Totus in meos usus expensus», dizia São Bernardo de si próprio, referindo-se ao amor que Jesus Cristo lhe teve:

«Ele se pôs inteiramente ao serviço da minha felicidade»

No mesmo teor pode e até deve falar cada um de nós que Jesus Cristo sacrificou a Sua vida inteira e imolou todo o Seu sangue na cruz; é igualmente para cada um de nós que ainda depois da Sua morte deixou o Seu corpo e o Seu sangue, Sua alma, sim, todo o Seu ser como Homem-Deus, no Santíssimo Sacramento do altar, no qual se torna o alimento e a bebida das nossas almas a fim de poder Se unir a todos e a cada um.

Ditosa a alma, exclama São Gregório, que se eleva a tão sublime grau de amor, que tudo quanto não diga respeito a Deus, o único objeto da sua caridade, lhe fica sendo intolerável:

«Intolerabile aestimat quidquid non sonat Deum quem intus amat»

Para chegarmos a tal altura, tomemos cuidado de nunca alimentar afeto pelas criaturas, pois que nos roubariam parte do amor que Deus para Si deseja todo inteiro.

Sim, mesmo ficando tal afeto honesto e livre de pecado, como seja a nossa afeição pelos parentes e amigos, não nos esqueçamos do que assevera São Felipe Néri:

«Todo o amor que, de modo um tanto desregrado, dispensamos às criaturas, nós o subtraímos a Deust»

Razão por que devemos construir em nossa alma «um jardim fechado», como o Senhor chamou a Esposa dos Cantares:

«Hortus conclusus soror mea sponsa» (Ct 4, 12)

Um «jardim fechado» é o titulo que convém a toda alma que não abre a porta do seu coração a nenhuma afeição pelas coisas terrestres.

Havendo, portanto, criatura que pretenda entrar em nosso coração e até fixar nele morada, é mister recusar-lhe resolutamente a entrada e logo em seguida dirigir-nos a Jesus Cristo com a protestação:

Ó meu Jesus, Vós só me sois bastante; não quero amar outra couisa senão a Vós. Meu Deus, Vós deveis ser o único dono do meu coração, Vós meu único amor: «Deus cordis mei et pars mea Deus in aeternum»

Por isso, não cessemos jamais de orar a Deus que Ele nos conceda o dom do Seu puro amor. Pois que o puro amor de Deus consome, no dizer de São Francisco de Sales, tudo quanto não seja Deus e transforma tudo em amor.

II. Meditação da Paixão de Jesus Cristo

Outro meio de se adquirir o amor divino, é a meditação da Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo. Servirá para isso o livro que editei sob o título: Meditações sobre a Paixão de Jesus; nesta obra encontrar se-á uma contemplação detalhada das dores que nosso Divino Redentor aturou para nos remir.

O certo é que, se Jesus Cristo no mundo até hoje é tão pouco amado, é consequência da incúria e da ingratidão dos homens, que nem de quando em vez se querem dar ao trabalho de refletir no que o Filho de Deus sofreu por nós ou no amor que em Suas penas nos testemunhou.

Parece loucura, observa aqui São Gregório, que um Deus tenha querido morrer a fim de remir-nos a nós, miseráveis escravos: «Stultum visum est hominibus Deum pro nobis mori»; e contudo, é um ponto da nossa santa fé («de fide») que Deus o fez:

«Ele nos amou e se entregou a si mesmo por nós» (Ef 5,2)

Sim, quis Ele derramar todo o Seu sangue, para com ele nos purificar de nossos pecados: «Ele nos amou», atesta São João no Apocalipse, «e nos lavou dos nossos pecados no seu sangue» (1, 5)

Ó meu Deus, exclama São Boaventura, Vós me amastes a tal ponto que, por amor de mim, chegastes a odiar a Vós mesmo:

«In tantum me diligis, Deus meus, ut te odisse videaris»

Não satisfeito, porém, com isso, quis ainda dar-Se a nós, em alimento, na sagrada Comunhão. Deus de tal forma Se humilhou, assim doutrina o Doutor Angélico, Santo Tomás, falando sobre esse Sacramento sacrossanto, como se fosse nosso escravo e cada qual de nós seu Deus:

«Quasi esset servus eorum et quilibet eorum esset Dei Deus»

Daí o brado do Apóstolo São Paulo:

«O amor que Jesus Cristo nos testemunhou, nos obriga, nos força, nos constrange até, por assim dizer, a amá-lo: Caritas Christi urget nos» (2 Cor 5,14)

Meu Deus, que é que os homens não fazem por amor duma criatura qualquer que soube conquistar o seu afeto? E um Deus de infinita bondada, de beleza infinita, um Deus que para cada um de nós quis morrer numa cruz, é amado tão pouco! Eia, pois, imitemos todos o Apóstolo que exclamou:

«Longe de mim gloriar-me senão na Cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo» (Gl 6,14)

Que glória maior, falou o mesmo São Paulo, pudera eu almejar neste mundo que por meu amor deu o Seu sangue e a Sua vida? Essa tem que ser a linguagem de todo aquele que tem fé.

E quem será que, ufanando-se de ter fé poderia amar outra coisa senão a Deus? Ó Deus, como é possível que uma alma, contemplando a Jesus Cristo Crucificado, suspenso por três cravos, sem outro apoio, fora das próprias chagas dos pés e das mãos, morrendo de pura dor, só por amor de nós, não se sinta atraída, forçada, constrangida a amá-lO com todas as suas fôrças?

Não, não me posso imaginar que uma alma que tem fé, por mais fria que esteja no amor divino, possa ficar insensível e não seja impelida a amar Jesus, ao contemplar com atenção, fosse apenas um instante, o que dizem as Escrituras do amor que Jesus Cristo nos mostrou em a Sua Paixão e no diviníssimo Sacramento do altar.

No tocante a Paixão de Jesus, escreve Isaías: «Verdadeiramente tomou sobre si as nossas fraquezas e Ele próprio carregou com as nossas dores», e acrescenta:

«Foi dilacerado por causa das nossas iniquidades, foi triturado por causa dos nossos crimes» (Is 53,4-5)

Constitui, assim, um ponto da nossa fé, que Jesus Cristo quis aturar pessoalmente todas essas penas e dores a fim de delas livrar-nos a nós que as tínhamos merecido. E que outro motivo o teria impelido a proceder assim, senão a caridade que tinha para conosco? «Cristo nos amou e se entregou por nós», diz São Paulo (Ef 5, 2) e assegura São João:

«Ele nos amou e no seu sangue nos lavou de nossos pecados» (Ap 1, 5)

Quanto ao Sacramento da Eucaristia, o pró­prio Jesus Cristo na hora da sua instituição nos disse a todos: «Tomai e comei, isto é o meu Corpo» (1 Cor 11, 24) e em outro lugar:

«Quem come a minha carne e bebe o meu sangue, permanece em mim e Eu nele» (Jo 6, 57)

Como poderá o homem que tem fé, ler essas palavras sem sentir-se como forçado a amar esse Deus que, após ter sacrificado Seu sangue e Sua vida por nosso amor, ainda por cima nos deixou o Seu corpo no santo Sacramento do altar, para servir de alimento à nossa alma e para nos unirmos inteiramente a Ele na Sagrada Comunhão?

Acrescentamos aqui ainda mais outra breve observação sobre a Paixão de Jesus: o Divino Salvador Se nos mostra numa cruz, traspassado por três pregos, jorrando sangue de todos os lados e Ele próprio agonizando nas dores da morte. Agora pergunto eu:

Para que é que Jesus se nos oferece aos olhos em tal estado lastimável? Será tão só para que nos compadecêssemos dEle?

Não, não é tanto para ganhar a nossa compaixão, como para conquistar o nosso amor, que quis ver-Se reduzido a um estado tão miserável. Para excitar o nosso amor, já deveria ser mais que suficiente o ter falado um Deus:

«Eu te amei com amor eterno» (Jr 31, 3)

Vendo, porém, que isso não bastava para a nossa tibieza, Deus quis também com fatos mostrar-nos o Seu amor, para desta forma levar-nos a amá-lO consoante os Seus desejos. Ele se nos mostrou coberto de chagas e quis morrer de dor por amor de nós para, através de todos esses sofrimentos, nos sugerir ao menos alguma ideia da caridade incomensurável e terna que nos devota. É isso que São Paulo tão bem soube exprimir nesta frase lapidar:

«Ele nos amou e se entregou a si mesmo por nós» (Ef 5, 2)

III. Conformidade com a Vontade de Deus

O terceiro meio de se chegar ao perfeito amor de Deus é conformar-se em tudo à divina Vontade. A quem ama a Deus de modo perfeito, ensina São Bernardo, não é possível querer outra coisa senão o que Deus quer:

«Non potest velle nisi quod Deus vult»

Quantos não há que com a boca protestam que estão inteiramente resignados à Vontade de Deus, porém, sendo visitados por uma moléstia penosa, ficam inconsoláveis. Não é tal o proceder dos que são realmente resignados; dizem esses em idênticas circunstâncias: assim é, ou assim foi a Vontade de Deus, e logo se acalmam e ficam satisfeitos. Para quem ama a Deus, tudo se torna suave e bom, afirma São Boaventura.

«Amori sancto omnia dulcia sunt»

Estão convencidas estas boas almas que nada sucede no mundo senão por ordem ou então por permissão de Deus; razão por que em tudo quanto lhes acontece, seja lá o que for, inclinam humildemente a cabeça e estão contentes com tudo o que o Senhor dispõe. Pois, conquanto Deus não, queira que outros nos persigam ou nos causem prejuízo, assim mesmo quer, por motivos condizentes com sua justiça, que suportemos com paciência as perseguições que temos de aturar e o prejuízo que se nos ocasiona.

Falou, de certa feita, Santa Catarina de Gê­nova:

«Se pela Vontade de Deus eu me achasse no inferno, diria ainda: Bonum est nos hic esse: Bom é estarmos aqui. Basta-me que me encontre aqui pela Vontade do meu Bem-amado, pois ama-me Ele mais que qualquer outro e sabe o que é melhor para mim»

Oh quão doce é descansar a gente nos braços da Von­tade divina!

A única preocupação de quem se aplica à oração, diz Santa Teresa de Ávila, tem que ser: conformar em tudo a sua vontade com a de Deus, pois nisso é que consiste a mais alta perfeição. Para isso deve sempre repetir esta oração de Davi:

«Senhor, já que desejais que eu me salve, ensinai-me a cumprir sempre a vossa Vontade: Doce me facere voluntatem tuam!» (Sl 142, 9)

O exercício mais perfeito de caridade que a alma possa fazer, é o ato que praticou São Paulo na hora da sua conversão, dizendo:

Senhor, dizei-me o que de mim quereis; estou pronto a fazê-lo sem demora: «Domine, quid me vis facere?» (At 9, 6)

Tem tal ato maior valor do que mil jejuns e mil disciplinas. O cumprimento da Vontade divina deve ser o objetivo de todos os nossos trabalhos, de todos os nossos desejos e preces. Nossas orações à Santíssima Virgem, a nossos Anjos tutelares, a nossos santos Padroeiros devem ter por escopo alcançar, pela sua intercessão, a graça de cumprir a Vontade de Deus. E sobrevindo-nos coisas que contrariem o nosso amor-próprio, oh! Então é a hora de ganharmos tesouros de merecimentos por meio de um só ato de resignação!

Habituemo-nos, pois, a repetir em tais emergências estas tão comoventes frases que Jesus Cristo com o seu próprio exemplo nos ensinou, como sejam

«Não hei de beber o cálice que o Pai me deu?» (Jo 18, 11)

Ou:

«Sim, Pai, porque assim foi do teu agrado: Ita, Pater, quoniam sic fuit placitum ante te» (Mt 11, 36)

Ou, ainda, digamos com o piedoso varão Jó:

«Como foi do agrado do Senhor, assim sucedeu: bendito seja o nome do Senhor!» (Jó 1, 21)

Um único suspiro; Bendito seja Deus! Proferido na adversidade, diz o venerável padre Ávila, vale mais do que mil ações de graças na prosperidade. Repetimos aqui o que ficou dito supra: doce é descansar nos braços da Vontade divina; pois que nesse caso se verifica a palavra do Espírito Santo:

«Nenhum acontecimento seja qual for, é capaz de contristar o justo» (Pr 12, 21)

IV. A Meditação

O quarto meio para nos abrasarmos no amor de Deus é a meditação. As verdades eternas não se deixam contemplar com os olhos do corpo, como se dá com as coisas visíveis desta terra; tão somente com os olhos do espírito podemo-las ver. Se, por conseguinte, não consagrarmos parte do nosso tempo à contemplação das verdades eternas e, em especial, se não refletirmos bastas vezes em nossa obrigação de amar a Deus, nas Suas perfeições, em todos os benefícios que Ele nos proporcionou e na Sua grande caridade para conosco, nosso coração não se desapegará tão facilmente das afeições deste mundo e ser-lhe-á difícil dedicar todo o seu amor só a Deus. Na meditação é que Deus nos faz conhecer o nada, a futilidade de tudo quanto é terrestre, e o alto valor dos bens celestiais; na hora da contemplação é que Ele inflama no Seu amor os corações que não resistem ao Seu convite.

Muitas almas, porém, queixam-se de que se entregam à oração mental, mas que não acham ali a Deus; é porque se põem à meditação, trazendo consigo o coração cheio do mundo. Desapega o teu coração das criaturas, diz San­ta Teresa, e busca a Deus: hás-de achá-lO. Para a alma que procura ao Senhor, é Ele to­do bondade:

«Bonus est Dominus animae quaerenti illum» (Lm 3, 25)

Consequentemente, querendo achar a Deus na meditação, a alma tem que desprender-se de todo afeto pelas coisas deste mundo; então, sim, Deus se lhe fará ouvir, pois assegurou:

«Eu a conduzirei à soledade e lhe falarei ao coração» (Os 2, 14)

Porém, para se achar a Deus, observa São Gregório, não basta a solidão do corpo, faz-se mister ainda a solidão do coração. O Senhor disse, certa vez, a Santa Tereza:

«Há bastantes almas a quem quereria eu falar, mas o mundo faz tanto ruído no seu coração, que a minha voz ali não se pode fazer ouvir»

Ah! Se a alma que se aplica à oração mental, estiver verdadeiramente desprendida, Deus, então, se Lhe comunicará, fá-la-á conhecer o Seu imenso amor; e a alma, abrasada em amor, diz certo escritor, não fala, mas oh! Quanta coisa não exprime! Esse silêncio de amor, continua o mesmo autor, revela mais que toda a eloquência humana. Em cada suspiro a alma manifesta todo o seu interior e nesses momentos indescritíveis não cessa de repetir:

«O meu amado é meu e eu sou dele: Dilectus meus mihi et ego illi!» (Ct 2, 16)

V. A Oração

O quinto meio para se chegar a um sublime grau de amor divino, é a oração vocal, a prece, a súplica. Somos pobres em tudo, mas, se rezarmos, seremos ricos em tudo e nada nos faltará. Pois que Deus prometeu que ouvirá todo o que rezar:

«Pedi, diz Ele, e dar-se-vos-á: Petite et dabitur vobis» (Mt 7, 7)

Poderá um amigo prestar maior prova de afeição para com seu amigo do que dizendo: pede-me o que quiseres, eu to darei? Pois bem, é isso o que Deus diz a cada qual de nós. Deus é o Senhor de tudo e promete dar tudo quanto se Lhe pedir. Se, pois, somos pobres, a culpa é nossa tão somente, é porque não pedimos as graças de que precisamos. Eis aí também o motivo por que a oração mental, no correr ordinário das coisas, é moralmente necessária a todos; pois, sem a meditação, a gente, a braços com mil e um cuidados deste mundo, há de refletir bem pouco na sua alma; se, do contrário, nos aplicarmos à oração mental, saltar-nos-á aos olhos a pobreza da nossa alma, conheceremos melhor as nossas necessidades e imploraremos as graças, indispensáveis que, em seguida, nos serão proporcionadas.

Os santos, sim, levaram uma vida, toda, de oração e de preces. Todas as graças pelas quais chegaram a se santificar, eles as obtiveram pela oração. Se, portanto, quisermos nos salvar e santificar, devemos postar-nos continuamente à parte da misericórdia de Deus, bater e suplicar mendigar por esmola tudo quanto nos faltar.

Precisamos de humildade? Peçamo-la e tornar-nos-emos humildes.

Necessitamos de paciência nas tribulações? Imploremo-la e tornar-nos-emos pacientes.

Almejamos o divino amor? Peçamo-lo e alcançá-lo-emos.

«Pedi e ser-vos-á concedido»: é compromisso divino que não pode falhar.

E, para aumentar ainda a nossa confiança na oração, Jesus Cristo nos prometeu que, seja qual for a graça que pedirmos ao Pai em Seu nome ou por Seu amor ou pelos Seus merecimentos, o Pai no-las concederá:

«Amen, amen, dico vobis, si quid petieritis Patrem in nomine meo, dabit vobis» (Jo 16, 23)

E em outra passagem:

«Tudo quanto me pedirdes em meu nome, eu o farei» (Jo 14, 14)

Com efeito, é uma verdade da nossa fé («de fide»): o que Deus pode, pode-o também Jesus Cristo, já que Ele é o Filho de Deus.

Oração de São Boaventura a Jesus Cristo
para adquirir o Seu santo amor

Ó dulcíssimo Jesus, feri o meu coração com a doce flecha do Vosso amor, para que eu sempre enlanguesça e me consuma de amor para conVosco e de desejo por Vós; fazei com que eu arda em veementes desejos de deixar esta vida a fim de me unir inteiramente a Vós na eterna bem-aventurança. Tornai a minha alma constantemente faminta de Vós que sois o Pão dos anjos, Jesus na Santíssima Eucaristia. Oxalá tivesse ela sempre sede de Vós, ó Fonte de vida e de luz! Tenda para Vós o seu desejo, procure a Vós, não fale senão a Vós e de Vós. Encontre tão só a Vós e sempre dirija tudo ao Vosso louvor e à Vossa glória. Sede Vós, ó Redentor, minha única esperança, Vós minha riqueza, minha consolação, minha paz, meu refúgio, minha sabedoria meu quinhão, meu tesouro, ao qual fiquem para todo o sempre apegados o meu coração e a minha alma

Oração à Santíssima Virgem Maria
para obter o amor para com Jesus e para com Ela

Ó Maria, vós desejais com tanto ardor ver amado o vosso diletíssimo Filho Jesus. Se é que Vós me amais, eis a graça que por vosso intermédio peço e que necessariamente deveis alcançar para mim: obtende-me um grande amor para com Jesus Cristo, fazei que não ame outra coi­sa senão a Ele. Vós alcançais dele tudo o que quereis, ouvi-me, pois, orai por mim e consolai-me. Ligai-me de tal maneira a Jesus, que jamais cesse de amá-lO. Obtende-me, outrossim, um grande amor para convosco que sois a criatura mais amante, mais amável e de Deus mais amada. Alimento grande confiança na vossa clemência e amo-vos, ó minha Rainha; amo-vos, porém, muito pouco; alcançai- me de Deus um amor bem maior; pois amar-vos é uma graça que Deus outorga tão somente aos que operam a sua salvação.

Viva Jesus, nosso amor!

Viva Maria, nossa esperança!

CAPÍTULO QUARTO

Sinais infalíveis para averiguarmos,
se possuímos o divino amor

O amor divino é, na Escritura Sagrada, comparado com o fogo.

Querendo Nosso Senhor, no santo Evangelho, insinuar-nos que viera trazer à terra o fogo do amor de Deus, exprime-se assim: «Eu vim trazer fogo á terra : Ignem veni mittere in terram» (Lc 12, 49), e no livro do Apocalipse Deus exorta a alma compre ouro purificado em fogo: «Suadeo tibi emere a me aurum ignitum» (3, 18), quer dizer: o amor divino.

Ora, possui o fogo duas qualidades: primeiro, resiste a tudo o que se lhe oponha, a ventania e viração; até mesmo, em vez de se apagar, tira delas maior força, e arde mais. Em seguida, é operoso: havendo fogo, há operosidade, pois, o fogo quer consumir, é sempre ativo. Eis aí, pois, duas caraterísticas inequívocas para nos certificarmos do amor de Deus em nosso coração: paciência e trabalho.

Trabalhamos sempre por nosso Deus? Guia-nos, ao menos, a boa intenção de em tudo cumprirmos o Seu agrado? Suportamos, de boa-mente, por amor dEle, toda adversidade; pobreza, aflições, acabrunhamentos, doenças e coisa que o valha? Bem longe de nos apartar dEle, prende-nos tudo isso a Ele mais intimamente? Se é assim, então possuímos o amor de Deus; o nosso amor é um fogo operoso que oferece resistência às contrariedades; se é, porém, o contrário, então o nosso amor para com Deus não é verdadeiro, é amor falso, é amor, só de palavra, não é amor sincero. Contra esse amor insincero adverte-nos São João em sua primeira Epístola, dizendo:

«Meus filhinhos (que caridade não transparece destas palavras!), meus queridos filhinhos, não amemos só em palavras e com a língua, mas por obra e em verdade: Filioli mei, non diligamus verbo neque lingua, sed opere et veritate» (3, 18)

Se não for operoso o amor, diz São Gregório, não é amor:

«Si non operatur, amor non est»

E Jesus Cristo assevera:

«O que tem os meus mandamentos e os observa, esse é o que me ama: Qui habet mandata mea et servat ea, ille este qui diligit me» (Jo 14, 21)

Por difícil e terrível que seja um negócio qualquer, ensina Santo Agostinho, o amor o torna fácil e como uma insignificância:

«Omnia saeva et imania prorsus facilia et fere nulla efficit amor»

Trabalhamos nós sempre neste sentido por nosso Deus? Observamos os Seus mandamentos? E os observamos com exatidão? – Nessas leis entram igualmente os preceitos da Santa Igreja, os deveres do nosso estado e qualquer obrigação semelhante.

Sabemos triunfar generosamente, e até com alegria, de toda contrariedade, por mais amarga que se nos apresente? Se assim é, possuímos o amor de Deus; nosso amor é um fogo que opera, que resiste às oposições; mas, se assim não é, nosso amor para com Deus não é verdadeiro, é falso amor, é amor só de palavra, não é amor sincero;

«Meus filhos, não amemos sô em palavras e com a língua, mas por obra e em verdade: Filioli mei, non diligamus verbo neque lingua, sed opere et veritate»

Entremos em minudências. Oferece-se a oportunidade de se obter algum lucro considerável, mas é contra a justiça; encontra-se a gente no ensejo de se proporcionar alguma satisfação, porém, tal satisfação é ilícita; os deveres do teu estado te causam repugnância; o trabalho que de ti exige o cumprimento das obrigações do teu estado, torna-se enfadonho. E, agora, pelo amor de Deus renuncias a esse negócio lucrativo, repudias essa satisfação, sem embargo de tua repugnância levas a cabo tudo o que implicam as tuas obrigações de estado; não duvides: possuis o amor divino, o teu amor é um fogo que opera; agindo, porém, em sentido contrário, não, então a tua caridade para com Deus não é a genuína, é amor falso, um amor só de palavra, não é amor sincero:

«Meus filhinhos, não amemos só em palavras e com a língua, mas por obra e em verdade: Filioli mel, non diligamos verbo neque lingua, sed opere et veritate»

Prossigamos. Inesperadamente és visitado por uma provação; de repente origina-se uma demanda da qual para ti depende tudo; de chofre vens a perder pela morte aquela pessoa em quem estava alicerçada toda a tua esperança, que era o teu único apoio; e prontamente, de bom grado, sacrificas tudo a Deus, suportas tudo até com alegria. Não duvides: possuis, o amor de Deus, o teu amor é um fogo que resiste às contrariedades. Porém, se, do contrário, em semelhante caso te sobressaltarem outras disposições d’alma, ah! Então a tua caridade para com Deus não é genuína, é amor falso, um amor só de palavra, não é amor sincero:

«Meus filhinhos, não amemos só em palavras e com a língua, mas por obra é em Verdade: Filioli méi, nqn diligamus ver­bo neque lingua, sed opere et veritate»

Particularmente o sofrimento, oh! Que sinal insofismável de amor! Quanto mais certo ainda do que o trabalho! Quem trabalha pelo amado, coloca a si mesmo ao serviço do objeto do seu amor e assim fornece a prova de que ama verdadeiramente; mas, quem sofre, esquece-se, pela pessoa bem-amada, até da sua própria pessoa e desta forma dá testemunho de amor maior, mais acendrado ainda. Foi justamente por esta nota caraterística que Deus quis provar o grande amor do Santo varão, Jó.

Grande amador de Deus foi, sem dúvida, o santo Jó. Quando, porém, se patenteou verdadeiramente como tal? Foi talvez quando se via rodeado de uma prole numerosa? Quando nadava na abundância? Quando andava gozando de perfeito estado de saúde? De certo, também nestas ocasiões: pois que costumava reconhecer que devia, tudo isso a Deus tão só; era reconhecido a Deus, sacrificava oferendas, tomava a peito as suas obrigações, pois que dispensava santos ensinamentos a seus filhos e rezava constantemente por eles, para que nunca jamais ofendessem ao Senhor:

«Ne forte peccaverint filii mei» (Jó 1, 5)

Mas, seu amor para com Deus manifestou-se em sua verdadeira magnanimidade, tão somente, quando o Senhor, precisamente para provar esse amor, o despojou de improviso de todos os seus haveres, fez de chofre morrerem todos os seus filhos, tirou-lhe inesperadamente a saúde por completo, quando Deus permitiu chegasse a miséria a tal ponto que ele, Jó, — uma só chaga — sentado num monturo, tinha de raspar com um caco a imundície dos seus membros chagados, e o santo varão, em meio de tão pavorosos desastres e sofrimentos tão horripilantes, numa paciência inquebrantável e eternamente memorável, continuadamente repetia apenas essas palavras:

«O Senhor é que me proporcionou todos esses bens, o Senhor mos tirou, deu-se tudo como aprouve ao Senhor: seja, pois, bendito o nome do Senhor: Dominus dedit, Dominus abstulit, sicut Domino placuit, ita factum est. Sit nomen Dorrini benedictum!» (Jó 1, 21)

Mas, para que falar em Jó? Que é que Jesus Cristo disse a Seus Apóstolos, indo principiar a Sua Paixão?

«Meus Apóstolos, assim falou, para que o mundo reconheça que eu amo ao Pai, levantai-vos, vamos: Ut cognoscat mundus quia diligo Patrem, surgite, eamus» (Mt 26, 46)

Eis aí, então, a prova mais certa, mais incontestável do verdadeiro amor para com Deus: paciência, paciência, sofrer resignadamente e de bom grado tudo por Ele.

Merecem peculiar atenção as palavras e ações dos Santos neste particular. «Ou sofrer ou morrer», exclama Santa Tereza; Santa Ma­ria Madalena de Pazzi: «Sofrer e não morrer»; e por sua vez São João da Cruz: «Sofrer e ficar calado».

Os santos Mártires estimularam os carrascos a atormentá-los, açularam as feras a que os dilacerassem.

Santa Liduina suportou de boa-mente asquerosa doença por espaço de trinta e oito anos. Santa Francisca Romana suportou de coração satisfeito o iníquo desterro de seu esposo e a confiscação injusta de todos os seus haveres. Aturou resignadamente São João da Cruz uma dura prisão de nove meses juntamente com indizíveis sofrimentos e desconforto indescritível.

Eis aí, então, o sinal mais certo, mais incontestável do verdadeiro amor para com Deus: paciência; sofrer tudo, sofrer com santas disposições tudo por Deus.

Oh! Quão feliz, quão ditoso quem puder ufanar-se dessas duas notas caraterísticas: trabalho e paciência; quem trabalha e sofre por nosso grande Deus, tem suficiente certeza moral de possuir o amor de Deus!

Todo o ouro do mundo, em confronto com o menor grau de divino amor, não passa de exígua areia: «Omne aurum ih comparatione illius arena est exigua», diz o Espírito Santo na Sagrada Escritura (Sb 7, 9). Efetivamente, todas as riquezas do mundo são como um nada em comparação com o ínfimo grau de amor de Deus: di-lo o Sábio expressamente no Livro da Sabedoria:

«Divitias nihil esse duxi in comparatione illius: As riquezas, eu as tive em conta de nada, em comparação com ele» (Ibid. 8)

Porém, para que falar de todo o ouro do mundo, de toda riqueza terrestre, se até os mais elevados dons sobrenaturais não significam coisa alguma sem o amor de Deus? São Paulo, o arauto entre os apóstolos, ele que então alto grau possuía o amor para com Deus e por isso lhe sabia apreciar tão bem o valor, atesta:

«Se eu tivesse o carisma do dom das línguas, as de todos os homens, e até soubesse falar a língua admirável que falam entre si os próprios anjos, mas não tivesse o amor, seria como o bronze que soa ou como o címbalo que tine: Si linguis hominum loquar et angelorum, caritatem autem non habeam, factus sum velut aes sonans aut cymbalum tinniens» (1 Cor 13, 1)

E prossegue:

«Se eu tivesse o dom da profecia, a ponto de penetrar os mistérios mais insondáveis e se tivesse o dom da fé de maneira a transportar até montanhas, mas não possuísse o amor, nada seria: Si habuero prophetiam et noverim mysteria omnia; si habuero omnem scientiam et omnem fldem ita ut montes transferam, caritatem autem non ha­beam, nihil sum»

A bela virtude do divino amor é entre as demais, a virtude régia cujo domínio durará durante toda a eternidade.

A fé terá o seu galardão depois da morte, pois que ela verá o que acreditou; e no céu não haverá mais a virtude da fé.

A esperança, igualmente, depois da nossa morte entrará na sua recompensa, pois que ela haverá de possuir o que esperou; e no céu já não haverá a virtude da esperança.

O amor de Deus, porém, terá, após a morte, o seu galardão e ao mesmo tempo durará por toda a eternidade; pois, numa felicidade intérmina, continuará a amar este Deus a quem amou na terra.

Ditoso, pois, bem-aventurado quem possui estes dois sinais tão certos do divino amor: trabalho e paciência; quem prontamente e de bom grado trabalha e sofre por seu Deus, tenha bastante certeza moral de estar na posse do santo, do genuíno amor de Deus.

Todos, pois, amemos ao nosso Deus, do modo aqui indicado. Fitemos, sempre, em qualquer serviço, os olhos em nosso bom Deus, façamos todas as nossas ações consoante a Sua Vontade divina, conforme a Seu divino beneplácito, e suportemos, não só com paciência, mas até com alegria tudo quanto contraria o nosso amor-próprio e nossa sensibilidade por demais humana. Amar ao nosso Deus, eis a única finalidade para que fomos por Ele criados e colocados no mundo.

Seja, portanto, nosso cuidado único, nossa única preocupação nesta terra o tendermos a este fim supremo.

Apreciemos e avaliemos tão somente este santo amor, sendo como é a única coisa de importância; imploremos de Deus este único e santo amor muitas vezes e com a máxima insistência:

«Dai-nos, ó Senhor, apenas o Vosso amor e a Vossa graça, e serei bastantemente rico e nada mais Vos peço: Amorem tui solum cum gratia tua mihi dones et dives sum satis nec aliud quidpiam ultra posco»

Foi essa também a contínua, a interrupta prece daquele grande Santo, daquele varão tão repleto do amor de Deus, o grande Santo Inácio.

(LIGÓRIO, Santo Afonso Maria de. O Divino Amor. 1947)