Lições sobre as Almas do Purgatório

Lições do Purgatório

Meditação para o dia 30 de Novembro

Antes sofrer agora… depois… depois será terrível! Agora, nossas orações, sacrifícios esmolas têm um valor de certo modo infinito, pelos méritos do Sangue Preciosíssimo de Jesus Cristo. Podemos fazer por nós, isto é, ganhar para nossa alma aqui, e para as almas que sofrem no purgatório. Depois… ah!, quando nossa alma se separar do corpo, daremos contas até de uma palavra ociosa, como diz o Evangelho, e pagaremos até o último ceitil das nossas dívidas para com Deus. Agora quanto mérito e quanta riqueza para a vida eterna!

Aproveitemos o tesouro da misericórdia de Deus. Não abusemos da graça. Aproveitemos, sobretudo, o tesouro infinito da Santa Missa.

É o que melhor podemos dar às almas de nossos entes queridos. A Santa Missa é o primeiro e o maior dos sufrágios pelos mortos. Por ela se apagam nossos pecados e aliviadas são as almas do purgatório.

Afirma São Jerônimo, um dos grandes Doutores da Igreja: Enquanto a sacerdote celebra a Santa Missa, muitas almas são libertadas do purgatório.

E São Leonardo de Porto Maurício, o grande Missionário e apóstolo, fala indignado dos que se esquecem dos seus mortos queridos e não lhes sufragam as almas, que talvez sofram nas chamas expiadoras:

“Permiti que eu vos diga, fala o Santo, se há gente avara e sem coração é a que não serve nem manda celebrar uma só Missa pelos seus mortos e que até desvia legados e esmolas de sufrágios. Piores que os demônios. Os demônios atormentam os condenados e estes atormentam as almas santas do purgatório!”

Oh! Não nos esqueçamos dos nossos graves deveres para com nossos defuntos! Pelo amor de Deus, vamos: sufrágios, orações, sacrifícios, esmolas pelas almas benditas do purgatório!

Veremos quantas graças nos virão do céu por esta caridade! A ingratidão nunca entrou no purgatório, disse Santa Margarida Maria. O que fizermos pelas almas, receberemos cem por um e o reino dos céus.

O dogma do purgatório contém ensinamentos de uma verdadeira escola de perfeição. Quem pensa o que é e o que se padece, depois desta vida, para expiação e purificação da alma antes de ver a Deus, não teria o orgulho e o descuido da sua perfeição, como vemos hoje em tantas almas, mesmo piedosas, mas esquecidas da tremenda realidade do purgatório.

Quanto mais pensarmos no purgatório, mais o havemos de procurar evitar ou atenuá-lo.

Descendamus in infernum viventes, ne descendamus morientes, dizia São Bernardo. Isto é: desçamos ao inferno pela meditação enquanto estamos vivos, para lá não irmos depois da nossa morte.

Assim também façamos com o pensamento do purgatório. Vamos, sim, vamos sempre meditar esta verdade, para que a impressão salutar que ela nos causa nos ajude a tender a perfeição, a procurar ter um pouco mais de zelo pela nossa santificação.

Dizia uma santa alma: Oh! Se os homens soubessem o que lhes custará, na outra vida, a vida de pecado que levam, mudariam o modo de proceder!

A Sorte das Almas em nossas Mãos

Num dia de Finados, o grande rei da oratória sacra francesa lembrava aos fiéis do seu tempo estas verdades que acho bom e útil recordar aos leitores meus de hoje:

“Cristãos, permiti-me uma reflexão da qual me sinto penetrado e espero de vós o mesmo. Temos zelo pela glória de Deus, mas, em nossa ignorância e inescusável grosseria não aplicamos este zelo, muitas vezes devidamente nos verdadeiros interesses de Deus, um exemplo.

Admiramos estes homens apostólicos que, levados pelo Espírito Divino, atravessam os mares e vão ganhar para Deus as almas dos infiéis em países de bárbaros. No entanto, sabeis que a devoção às almas do purgatório, o alívio e a libertação destas pobres almas é uma obra de zelo que em relação ao seu objeto não é inferior à conversão dos pagãos, e de certo modo a ultrapassa?

Como? perguntarei. Sim, porque as almas do purgatório, almas santas e predestinadas, confirmadas em graça, são incomparavelmente mais nobres que as dos pagãos. Estão atualmente num estado mais próprio da glorificação de Deus que os pagãos…

As almas que sofrem no purgatório estão num estado de violência, porque privadas se acham da vista de Deus. Todavia, deveis saber, o purgatório é um estado de violência para o próprio Deus. Ora, em que consiste este estado de violência em relação a Deus? Ei-lo:

No purgatório Deus vê as almas e as ama com sincero amor, amor de Pai enternecido. E no entanto não lhes pode fazer bem algum.

Almas cheias de mérito, de virtudes e de santidade, e que não podem ainda receber a recompensa. A nós cabe a missão de livrar estas almas. E Deus, tão misericordioso, as deve punir. O amor de Deus é uma torrente que há de inundar as santas almas no céu e, no entanto, pela violência da sua justiça, as deve purificar nas chamas expiadoras”

E nossas mãos está, pois, a sorte das almas do purgatório. E não havemos, pois, de as socorrer?

Ide, exclama São Bernardo, voai em socorro das almas do purgatório. Intercedei por elas com vossas orações. Oferecei por elas o santo sacrifício da Missa!

A sorte das almas sofredoras está em nossas mãos. Diz a Sagrada Escritura: Benefac justo et invenies retribuitionem magnam. Fazei o bem ao justo e tereis grande recompensa. As almas do purgatório são santas almas de justos, cheias de méritos e de virtudes. Quanta santidade naquelas chamas expiadoras! Pois bem. Tudo o que fizemos por elas terá grande recompensa. É a palavra de Deus que no-lo garante!

Resoluções

Finda-se o mês de Novembro. Espero tenha sido para vós, leitores queridos como vos pedi, um mês de muito sufrágio e lembrança caridosa dos mortos.

O dogma do purgatório é mister seja sempre lembrado. Faz bem à nossa alma e às almas de nossos caros defuntos.

Portanto, vamos às resoluções:

1.ª — Não passarmos um só dia sem orar pelas almas do purgatório.

2.ª — Ofereçamos, pelos defuntos, esmolas aos pobres, atos de caridade.

3.ª — Cumpramos o dever de justiça e de caridade, mandando celebrar a Santa Missa por alma de nossos entes queridos, pais, parentes e benfeitores.

4.ª — Em vez de muita pompa fúnebre e lágrimas de desespero, sufrágios, sufrágios e piedosa meditação do purgatório.

5.ª — Finalmente, escolhamos cada ano o mês de Novembro para alívio das benditas almas por especiais sufrágios. Cada segunda-feira, se for possível, a assistência à Missa, uma Comunhão, um Terço pelas almas do purgatório, sobretudo as mais abandonadas.

A devoção às almas do purgatório é a grande devoção da hora. Nunca foi mais necessária como nestes tempos calamitosos. São tantos os que morrem cada dia e tantas as pobres almas abandonadas!

E demais, esta devoção nos oferece as vantagens:

1.ª — Aumenta o nosso mérito pela caridade. É uma fonte de paz interior.

2.ª — Temos a certeza de sermos agradáveis a Nosso Senhor, a Maria Santíssima e aos Eleitos do Paraíso. E já não disse Santo Tomás que a oração pelos mortos é mais agradável a Deus que a que fazemos pelos vivos?

3.ª — As santas almas conhecem seus benfeitores e… a ingratidão nunca entrou no purgatório.

4.ª — Esta devoção, diz Bourdaloue, é um sinal de predestinação. Quem a possui tem como que um caráter, um selo de predestinado, ó, dizia o célebre orador, se Deus me fizesse conhecer uma alma libertada do purgatório pelas minhas orações, com que confiança não a invocaria eu!

5.ª — Depois de nossa morte, Deus há de inspirar aos nossos amigos e parentes, façam eles por nós o que fizemos pelas santas almas.

Quem ora pelas almas, disse o Papa Adriano VI, as obriga ao reconhecimento e a rezar também pelos seus benfeitores.

“Tudo que oferecemos? Por caridade aos defuntos se muda em méritos para nós, e depois da morte acharemos estes méritos”, escreve Santo Ambrósio.

Podemos pedir a proteção divina pelos sufrágios às santas almas. É um ato de caridade tão meritório, que nossa oração toca logo o Divino Coração de Jesus.

Como é doce e consolador poder orar pelos nossos mortos, vivermos em união com eles pelo sacrifício do altar e nossa preces!

Na verdade, santo e salutar é o pensamento de orar pelos defuntos, no dizer dos Macabeus do Livro Sagrado.

Requiem aeternam dona eis, Domine! — Dai-lhes, Senhor, o descanso eterno!

Exemplo: A Piedade Filial Recompensada

Em Ravena, na Itália, vivia um pobre menino órfão de pai e mãe, entregue aos cuidados de um irmão mais velho que muito o maltratava. O pobrezinho vítima de tantos maus tratos era uma criança de uma inteligência viva, de um grande coração, e muito piedosa. Um dia, ao passar por uma rua, encontra uma moeda de prata. Um sorriso de alegria lhe aflorou aos lábios descolorados pela miséria. Pelo menos naquele dia teria algum dinheiro para comer. Andava tão fraco de fome a vagar pelas ruas. Depois, refletiu um instante:

— Meu pai morreu. Deve talvez estar no purgatório e sofrer muito. Prefiro morrer de fome a deixar sem uma Missa a alma de meu pobre paizinho.

Entra numa igreja, procura um sacerdote e lhe diz:

— Padre, achei esta moeda de prata e penso na pobre alma de meu pai, que deve estar no purgatório . Sou muito pobre, e meu pai sem socorro.

O sacerdote achou aquilo admirável numa criança. Indagou a origem do pequeno, notou ser um menino vivo e muitíssimo inteligente e piedoso, pois havia recebido boa formação religiosa dos pais, já mortos. Resolveu adotar o menino; recebeu-o em casa, deu-lhe educação e estudos, e mais tarde veio a ser sacerdote e um grande talento, um gênio, um santo Doutor da Igreja: São Pedro Damião.

Vede como Nosso Senhor recompensa os que se interessam pelas almas do purgatório e sobretudo recompensa a piedade filial dos que não apenas choram, mas não se esquecem do sufrágio e da Santa Missa pelos seus pais já mortos.

É um dever de justiça e de caridade rezar pelos pais mortos.

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(BRANDÃO, Monsenhor Ascânio. Tenhamos Compaixão das Pobres Almas! 30 Meditações e Exemplos sobre o Purgatório e as Almas. 1948, p. 237-248)