Cemitério, pintura de Katherine Tucker

“A morte não respeita riqueza, nem poder, nem a púrpura; tanto os súditos como os príncipes serão reduzidos à corrupção e à podridão.” – Teodoreto
(Cemitério, pintura de Katherine Tucker)

Que é um Cemitério?

Meditação para o dia 26 de Novembro

O cemitério é simplesmente o lugar do repouso dos mortos. A palavra cemitério vem do latim: caemeterium, que literalmente significa dormitório, como a palavra grega donde se origina. Dormitório! Lugar de descanso. Lá estão aqueles sobre os quais reza a Igreja, dizendo: Requiem aeternam dona eis, Domine! — Dai-lhes, Senhor, o descanso eterno. Os corpos dos fiéis cristãos dormem, à espera da ressurreição. A Igreja chama o cemitério o lugar onde dormem os fiéis. O Ritual Romano fala na bênção “do lugar onde dormem os fiéis”… Que expressões!

Na linguagem cristã, o cemitério chama-se também campo santo. E há lugares onde o denominam também campo de Deus. Os povos pagãos tinham do cemitério uma ideia ou supersticiosa ou muito grosseira e materialista. Os romanos o denominavam putreolli — lugar onde se apodrece. Os pagãos modernos têm horror do cemitério e pensam mesmo em aboli-lo, substituindo-o pelos macabros fornos crematórios. Entretanto, é um lugar sagrado, uma lição perene para os vivos, é a recordação do nosso nada, da nossa miséria, mas também da nossa imortalidade e da ressurreição da carne. É um lugar sagrado.

Tem este caráter sagrado, por mais que o laicismo tente reduzi-lo a um simples depósito de cadáveres destinados ao apodrecimento. Nosso corpo e sagrado, é o templo do Espírito Santo. Ainda depois de separado da alma, há de merecer todo respeito, porque um dia ressuscitará.

A Liturgia tem uma bênção solene para os cemitérios, reservada aos Bispos. Nele se planta uma cruz bem grande. É a lembrança de nossa Redenção. O cemitério é a terra da cruz. Tudo ali nos fala da cruz de Jesus Cristo. Em cada sepultura, o símbolo da Redenção. Como é triste verem-se, ainda hoje, túmulos pagãos donde baniram a cruz, substituída por uma coluna partida ou qualquer outro símbolo de dor e desespero. O cristianismo santificou a sepultura. Os primeiros cristãos eram sepultados nas catacumbas, com honras e piedosas preces. Como são belas as inscrições que nos deixaram! Todas falam da imortalidade e do céu. Às vezes uma só palavra dizia tudo: Vixit! Viveu!

A Igreja, que consagra os cemitérios, abençoa as sepulturas cristãs e pede ao Senhor mande um Anjo guardar cada uma delas. Eis a bela oração da bênção do túmulo:

“Ó Deus, cuja misericórdia dá o repouso às almas dos fiéis, dignai-vos abençoar esta sepultura e enviar o vosso Anjo para a guardar. Dignai-vos também livrar dos laços dos seus pecados as almas daqueles cujos corpos estão aqui sepultados, a fim de que gozem continuamente e eternamente a felicidade junto com os vossos Santos”…

Que laços são estes dos pecados? Naturalmente os laços que prendem as pobres almas na expiação, nas chamas do purgatório. Eis como a Igreja santifica o cemitério e nossa sepultura, e deseja que aprendamos ali o que somos: pó! E… uma alma imortal destinada à felicidade eterna no seio de Deus.

Lições do Cemitério

O cemitério é uma escola, não há dúvida. Fala-nos da morte. Lembra nossos Novíssimos. Dizia Santo Agostinho: “Sit mors pro Doctore“, que seja vossa mestra a morte! Palavras profundas e tão singelas! Sim, a morte é uma grande mestra. E onde ensina melhor? Onde está sua escola? No cemitério. Quantas lições ela não nos dá! Ó, se os vivos soubessem aproveitar as lições da Doutora Morte!

Vamos a cemitério com sentimentos cristãos e muito aprenderemos lá.

Um cemitério cristão, escreve o erudito Mons. Gaume, prega quatro dogmas:

— A Nobreza e a Santidade do corpo do homem,

— A Grande lei da fraternidade universal e eterna,

— A Imortalidade da alma,

— A Ressurreição da carne.

Prega a nobreza do corpo humano, cercando-o de respeito e veneração, mesmo quando ele se transforma num montão de ruínas, numa podridão, num punhado de cinzas. Respeita estas cinzas e as quer depositadas num lugar sagrado.

Uma voz parece se ouvir no cemitério como a do Senhor a Moisés: “locus enim in quo stas, terra sancta est”. É sagrado o lugar onde estás, esta terra que pisas.

Lá dormem os cristãos. Como é doloroso ver-se desrespeitado e profanado o lugar dos mortos com tantas leviandades e até com o escândalo e o pecado. No cemitério conservemo-nos respeitosos como num templo. Oremos e meditemos ali. É lugar sagrado. O cemitério fala-nos que somos todos irmãos. Todos nivelados numa tumba! A diferença dos mausoléus e das sepulturas rasas não tira ao cemitério a ideia do nivelamento, do nada que somos, e da podridão de uma sepultura. Que lição para os orgulhosos! E como devemos nos amar em Cristo, nós que seremos nivelados após a morte até a ressurreição da carne! Debaixo de uma sepultura, todos iguais! Ali não há pobres nem ricos, nem grandes ou pequenos. Já o dissemos, o cemitério cristão prega-nos a imortalidade de nossa alma. Ali não se acaba tudo. Ali começa tudo. É a porta da eternidade, o pórtico da outra vida. Então, pensamos na imortalidade de nossa alma. Olhar para um cemitério com a indiferença deste grosseiro materialismo que hoje aí impera, é muito triste e horrível porque desespera. Cada sepultura é uma porta do céu para o verdadeiro cristão. Uma sementeira onde descansa um corpo que depois de apodrecido como a semente na terra, surgirá ressuscitado para unir-se à alma na eternidade, quando vier a ressurreição da carne. Ressuscitarei um dia! Que doce esperança do cristão!

Escreveu D. Cabról:

“A alma voltará um dia para animar este corpo que foi seu companheiro na terra e que ela o fez trabalhar no serviço de Deus. Tomará de novo sua forma mortal, mas uma forma embelezada, enobrecida, elevada até o apogeu da glória. A alma santificada elevará este corpo a um grau de glória e o fará entrar no céu e lhe comunicará os dons da imortalidade e da glória”

Tudo isto aprende e medita o cristão num cemitério quando o visita com fé e vive o espírito da Igreja que santifica e abençoa o Campo Santo.

Visitas ao Cemitério

Quanto mais os cristãos tíbios e os pagãos modernos têm horror e fogem dos cemitérios, tanto mais nós, os que cremos na imortalidade de nossa alma e esperamos a ressurreição da carne, devemos visitar e amar o campo santo. Visitemos os cemitérios. Serão nossos mestres, e neles nos lembraremos das pobres almas do purgatório.

São Camilo de Lellis e muitos outros santos tinham o piedoso costume de visitar os mortos e meditar sobre as sepulturas. Quantas vezes o Santo dos enfermos não se aprofundava numa meditação ante as sepulturas, dizendo a si mesmo:

“Medita na sorte destes que já estão na eternidade. Ó, se muitos destes mortos pudessem voltar à terra, como fariam penitência e haviam de trabalhar para sua salvação! Agora sabem eles o que é um Deus e uma eternidade, e o que valem as vaidades deste mundo!”

Aconselha-se a visita aos cemitérios para meditação nossa e para o proveito dos fiéis defuntos. Convém recolher-se um pouco ao passar diante de um campo santo. Rezar, refletir um instante! Não sejamos indiferentes e frios como os que não têm fé e não esperam a ressurreição da carne.

A Santa Igreja, para nos estimular, concede-nos várias e ricas indulgências pela visita ao cemitério. Durante o oitavário dos mortos, isto é, de 2 a 9 de Novembro, os fiéis que visitarem o cemitério e rezarem pelos defuntos, podem lucrar as seguintes indulgências: “Uma indulgência plenária cada dia aplicada só aos defuntos. E a todos que visitam o cemitério e oram pelas almas, uma indulgência de sete anos aplicável só aos defuntos” — P. P. P. — 446).

Por que estas indulgências? Naturalmente para nos estimular a orar pelos mortos no lugar dos mortos, e assim embalsamarmos com a oração a sepultura sagrada dos que dormem à espera do acordar do Juízo no último dia.

Nas visitas pastorais o Bispo reserva um dia para os mortos. São também dignos merecedores da visita do Pastor. É o exame do Pastor vigilante não só por motivos canônicos e litúrgicos; tem o fim estimular os fiéis a rezarem pelos fiéis defuntos, incentivar a devoção do sufrágio, recordar as grandes verdades de nossos novíssimos.

Por tudo isto, que havemos de concluir?

A Igreja quer que visitemos os cemitérios, que não nos esqueçamos desta obra de caridade. Não basta aquela visita, quanta vez por vaidade e ostentação, no dia de Finados, umas coroas depositadas nos túmulos, umas lágrimas que logo se enxugam e as flores que logo se murcham. Não é disto que precisam os mortos. As flores provam amizade, não as reprovamos. São elas uma manifestação delicada de amor. As lágrimas não as condenamos. Jesus não chorou ante o sepulcro de Lázaro? Ficaremos todavia só em lágrimas de sentimentalismo? É preciso sufragar as almas de nossos defuntos queridos. Vamos aos cemitérios para os socorrer e não apenas para nos consolar e cumprir uma formalidade social. Enfim, visitemos os cemitérios como cristãos, como os que acreditam na ressurreição da carne.

Exemplo: O príncipe polonês convertido

O grande pregador Pe. Lacordaire numa das suas conferências aos alunos do Colégio de Sorreze, conta o seguinte fato ao tratar da imortalidade da alma:

Um príncipe polonês, incrédulo e muito conhecido pelo seu materialismo, havia escrito um livro contra a imortalidade da alma. Estava já pronto o livro e prestes a entrar no prelo, quando ao passear pelo jardim veio-lhe ao encontro uma pobre mulher e banhada em lágrimas lançou-se aos seus pés, dizendo:

— “Meu caro senhor, meu marido morreu. A sua alma deve estar no purgatório e há de sofrer muito. Eu sou muito pobre, não tenho dinheiro para a espórtula de uma Missa por sua alma. Tenha a caridade de me dar uma esmola para mandar celebrar uma Santa Missa pela alma de meu marido”

O incrédulo príncipe teve pena da pobre mulher, e embora não acreditasse na imortalidade da alma e combatesse toda crença, levou a mão ao bolso e encontrou uma moeda de ouro. Deu-a logo à mulher. A pobrezinha, radiante de alegria, foi logo à primeira igreja e encomendou diversas Missas pela alma do saudoso esposo. Cinco dias depois, o príncipe relia os manuscritos do seu livro já em vésperas de ser publicado — o terrível livro contra a imortalidade da alma. — De repente, levantando a cabeça, deu com os olhos num homem misterioso que lhe parou em frente à mesa de trabalho do escritório. Era um camponês.

— Príncipe, diz o desconhecido, venho agradecer-lhe. Sou o marido daquela pobre senhora que há poucos dias pediu a Vossa Alteza uma esmola para mandar celebrar Missas pela alma do esposo falecido, pela minha alma. A caridade de Vossa Alteza foi tão bem aceita de Deus, que me foi permitido vir agradecer tão grande benefício.

Diante disto o príncipe, comovido, se converteu, rasgou os originais do livro ímpio que havia escrito, lançou-os ao fogo e tornou-se bom cristão até a morte.

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(BRANDÃO, Monsenhor Ascânio. Tenhamos Compaixão das Pobres Almas! 30 Meditações e Exemplos sobre o Purgatório e as Almas. 1948, p. 202-208)