Via Sacra um bom meio para sufragar as Almas do Purgatório

Meditação para o dia 19 de Novembro

Para alívio das almas do purgatório, temos uma fonte de indulgências e de riquezas espirituais — é a Via Sacra. Esta meditação da Paixão e morte do nosso divino Redentor, nos lembra o Sangue Preciosíssimo derramado pela salvação das almas, e nos faz pedir pelo Sangue de Cristo a libertação do purgatório. Quanto alívio não trás às almas sofredoras uma piedosa Via Sacra! É uma devoção santificadora para nós e um sufrágio precioso para as pobres almas. Dizia São Boaventura:

“Se quereis crescer de virtude em virtude, atrair para vossa alma graça sobre graça, entregai-vos muitas vezes ao exercício da Via Sacra”

A Paixão de Jesus Cristo é remédio para nossa alma pecadora, e este Sangue precioso cairá sobre as almas como doce refrigério.

Na Vida da V. Maria d’Antigna se conta que esta serva de Deus tinha o piedoso costume de fazer todos os dias a Via Sacra pelos defuntos. Depois, com outras ocupações e devoções, se descuidou desta. Um dia, uma religiosa do mosteiro, falecida há pouco tempo, lhe apareceu e lhe disse, gemendo:

“Minha Irmã, porque não faz as estações da Via Sacra por mim e pelas almas como antes?”

Neste momento apareceu-lhe Nosso Senhor:

“Filha, disse-lhe o Salvador, estou muito triste com tua negligência.

É preciso que saibas que a Via Sacra é muito proveitosa para os defuntos, e eis porque permiti que esta alma viesse reclamá-la em seu nome e em nome das outras almas padecentes. É um sufrágio muito importante. É preciso tornar este tesouro mais conhecido em favor das almas”

Desde esse dia, a serva de Deus se dedicou a este exercício e o propagou com muito zelo. Pelo menos às sextas-feiras, se possível, façamos uma Via Sacra pelos mortos. Como a Via Sacra, o Rosário é um tesouro dos mortos também.

Um dia, São Domingos pregava sobre a eficácia do Rosário em favor das almas sofredoras. Era nas planícies do Languedoc. Um homem incrédulo zombou do Santo. Naquela noite teve uma misteriosa visão. Via as almas se precipitarem nos abismos do purgatório e Maria Santíssima, com uma cadeia de ouro, as tirava do abismo e as punha em terra firme. Era uma imagem do Rosário, cadeia de ouro pela qual Nossa Senhora arranca do purgatório as pobres almas sofredoras.

Quantos prodígios faz o Rosário em favor dos seus devotos na vida, na morte e depois da morte no purgatório! Além do mais, o Rosário é um tesouro de muitas indulgências que podemos aplicar em sufrágio das pobres almas. Vamos rezá-lo sempre, nas horas vagas, pelas estradas, em toda parte, não percamos o tempo. Aproveitemos para rezar muitos rosários pelas pobres almas. Temos tantos parentes e amigos e tantas almas queridas no purgatório! Vamos aliviá-las com nosso rosário bendito!

O De Profundis

Que é o De Profundis? É o Salmo dos mortos, a oração que outrora nos lábios do Profeta Davi chegou até nós e parece vir das profundezas do abismo do purgatório a implorar nossa compaixão para com as pobres almas. É um dos sete Salmos penitenciais. O padre ajoelha-se diante do cadáver e reza o De Profundis. Depois, ao vir buscar o cadáver para a sepultura, de novo reza o Salmo dos mortos. No cemitério e a caminho da sepultura, sem o De Profundis. Os fiéis, depois do Pai Nosso e da Ave Maria, rezam o De Profundis. Por que esta prece? Por que se tornou a oração dos defuntos? Porque assim começa: De profundis… Das profundezas… Não parece um gemido saído do purgatório? O sentido deste salmo é este: o seu esquema pode ser o seguinte: O salmista, imerso na profundeza dos pecados, invoca a Deus (vs. 1 a 2). Como somos pecadores, só a confiança em Deus, só o perdão de Deus nos pode salvar (3 e 4). Com muita confiança e um desejo ardente, o pecador aguarda este perdão (5 e 6). O povo de Israel também alimenta esta mesma esperança de perdão e de redenção copiosa (6 a 8).

Ora, estes gemidos, estas aspirações de redenção e de perdão copioso, este clamor doloroso colocamos em nossos lábios e suplicamos pelas almas que sofrem no abismo do purgatório. Não é verdadeiramente próprio e significativo para uma súplica dos defuntos o De Profundis? Eis agora o texto do Salmo na tradução nova do Novo Saltério:

“Das profundezas clamo a Vós, Senhor,
Ouvi, Senhor, a minha voz!
Atendam os vossos ouvidos
O brado da minha súplica,
Se conservardes, Senhor, a memória das ofensas,
Quem, Senhor, poderá subsistir?
Mas em Vós está o perdão dos pecados,
Para que sejais servido com reverência.
No Senhor ponho a minha esperança,
Espera minha alma na sua palavra.
Aguarda minha alma o Senhor, mais do que os vigias da noite a aurora,
Sim, mais do que os vigias da noite a aurora aguarde Israel o Senhor,
Porque no Senhor a misericórdia,
Nele a redenção abundante.
E Ele resgatará Israel
De todas as suas iniquidades”

Eis o Salmo na nova tradução. Muita gente nossa o recita já de cor e em outras palavras. Não importa. O essencial é que o recitem com piedade e fervor e se lembrem de que é o Salmo dos defuntos, muito alívio pode trazer às benditas almas do purgatório.

Práticas Devotas

Há muitos meios de sufragar os mortos. Escolhamos a segunda feira consagrada pela tradicional piedade do povo a devoção do purgatório. Há o piedoso costume de se fazer tudo quanto possível na segunda-feira pelas almas. Dar esmolas aos pobres, visitar os doentes, praticar algumas mortificações, etc. Felizes se pudermos comungar, assistir a Santa Missa nesse dia, enfim, fazermos por juntar muitos tesouros de sufrágios pelas almas. Temos o Domingo, dia do Senhor, a terça, consagrada aos Santos Anjos, a quarta a São José, a quinta ao Santíssimo Sacramento, a sexta ao Coração de Jesus e à Paixão, o sábado a Nossa Senhora. Seja a segunda-feira dos fiéis defuntos. Dia do nosso sufrágio, da nossa caridade para com as almas que padecem nas chamas expiadoras. Em algumas paróquias e comunidades religiosas há piedosos exercícios neste dia. Por que não havemos de concorrer para que sejam eles frequentados os estabelecidos onde não se fazem? Muitas pessoas entre nós têm um costume que às vezes toma um cunho supersticioso: o de acender velas em portas de cemitérios e em cruzes da estrada, ou pelos campos pelas almas do purgatório. Não poderia ser reprovado se não tivesse às vezes um cunho muito supersticioso. Velas acesas sem orações pouco adiantam para os mortos. A vela é para lembrar Cristo, Luz do mundo, e sendo de cera, e benta, é um sacramental.

Por que não acender então velas bentas? E rezar mais ao invés de queimar tanta vela, sem um sufrágio, sem uma prece pelos mortos?

Nosso povo tem uma grande devoção pela vela acesa. Não a reprovamos, mas desejaríamos que houvesse mais compreensão da necessidade da oração pelos mortos. A vela simboliza a Luz que os defuntos esperam no céu. Diz tantas vezes a Liturgia: Que a luz perpétua resplandeça para eles. Talvez por esta súplica, repetida muitas vezes, este pedido de luz, é que o povo tomando num sentido muito material o belo simbolismo da vela, gosta de acendê-la em profusão. Não deixa de ser edificante e impressionante a multidão de velas acesas nas sepulturas de nossos mortos. Disse e repito: longe de mim reprovar tão piedosa prática, mas desejaria vê-la mais compreendida no seu simbolismo e preferiria ver ace¬sas velas bentas nas sepulturas e nos cemitérios.

Nosso povo tem muitas tradições de devoção às almas. Havia pelos nossos sertões os grupos de suplicantes de orações pelas almas, que muitas vezes degeneraram em abusos. Estão abolindo um costume piedoso e tocante. Quando morre alguém numa família, durante nove dias, a contar do dia da morte, todas as noites se reúnem os parentes e amigos do morto para a recitação do Terço ou da Novena das Almas em sufrágio do morto. Por que não conservar esta bela tradição?

Enfim, já vimos e meditamos durante este mês quanto é necessária e útil a devoção às santas almas do purgatório. Façamos tudo por elas, pobrezinhas, que só tudo esperam de nós. Sejamos dedicados apóstolos do purgatório!

Exemplo: Proteção das Santas Almas

Mons. Louvet, na sua obra “Le purgatoire d’ápres les revélations des Saints”, narra um fato prodigioso da proteção das almas aos que a elas socorrem com sufrágios.

Um padre italiano, Luiz Monaci, religioso dos Clérigos Menores, era um fervoroso devoto das almas. Em toda parte e em todas as ocasiões procurava meios de ajudar as benditas almas sofredoras. Em uma noite teve de viajar e atravessar sozinho uma planície deserta e perigosa, porque, infestada de bandidos e salteadores, haviam já tirado a vida a muita gente para roubar. Pelo caminho, o bom padre não perdia tempo: ia recitando piedosamente o rosário de Maria pelas almas do purgatório. Ao avistar de longe o pobre sacerdote sozinho e desprovido de armas, um grupo de bandidos se preparou para o assaltar e puseram-se de emboscada. Qual não foi o espanto de todos quando ouviram o soar de trombetas e um grupo de soldados que marchava armado aos lados do padre. Aterrorizados, esconderam-se os bandidos; pensaram em soldados que os vinham prender. Viam, entretanto o padre muito tranquilo a caminhar, recitando o rosário. Entrou este numa hospedaria próxima. Enquanto o padre ceava, dois bandidos curiosos se aproximaram e perguntaram curiosos:

— Que padre é este que anda acompanhado pelas estradas de soldados que o protegem?

— Aqui não chegou soldado algum e este padre nunca andou assim em viagem…

Os bandidos, furiosos, procuraram entrar em palestra com o sacerdote e perguntaram-lhe do batalhão que o escoltava.

— Meus filhos, eu ando sozinho pelos caminhos. Só tenho um companheiro, o meu rosário, que recito sempre pelas santas almas do purgatório para que elas me protejam.

— Pois bem, meu padre, confessa um bandido, estas almas vos salvaram. Somos bandidos e estávamos na estrada prontos para vos despojar e matar. E só não o fizemos porque um batalhão vos seguia pela estrada, e, aterrorizados, fugimos e viemos aqui curiosos saber do que se trata. Cremos que as almas das quais sois tão devoto vos salvaram da morte.

Os bandidos, tocados pela graça, ali mesmo de joelhos pediram perdão dos pecados e confessaram-se humildemente.

O Pe. Rossignoli e outros autores contam inúmeros casos de proteção das santas almas em favor dos seus benfeitores.

Na verdade, mesmo nas coisas temporais os devotos caridosos que nunca se esquecem de socorrer as benditas almas do purgatório, podem contar com uma proteção segura da divina Providência em todas as circunstâncias difíceis, porque Deus sempre recompensa esta grande caridade.

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(BRANDÃO, Monsenhor Ascânio. Tenhamos Compaixão das Pobres Almas! 30 Meditações e Exemplos sobre o Purgatório e as Almas. 1948, p. 147-153)