Dom Henrique Soares da Costa
Reze o Salmo 119/118,65-72
Agora, leia com piedade, com atenção e um coração fiel, um coração que escuta Dt 26

1«Quando entrares na terra que o SENHOR, teu Deus, te há-de dar em herança e dela tomares posse e ali habitares, 2tomarás as primícias de todos os frutos que colheres da terra que te há-de dar o SENHOR, teu Deus; pô-los-ás num cesto e apresentá-los-ás no lugar que o SENHOR, teu Deus, tiver escolhido para aí habitar o seu nome. 3Apresenta-te ao sacerdote de serviço nessa altura e diz-lhe: ‘Declaro hoje, perante o SENHOR, teu Deus, que entrei na terra que o SENHOR tinha jurado a nossos pais que nos havia de dar.’ 4O sacerdote receberá o cesto da tua mão e o depositará diante do altar do SENHOR, teu Deus.

5Proclamarás, então, em voz alta, diante do SENHOR, teu Deus: ‘Meu pai era um arameu errante: desceu ao Egipto com um pequeno número e ali viveu como estrangeiro, mas depois tornou-se um povo forte e numeroso. 6Então os egípcios maltrataram-nos, oprimindo-nos e impondo-nos dura escravidão. 7Clamámos ao SENHOR, Deus de nossos pais, e o SENHOR ouviu o nosso clamor, viu a nossa humilhação, os nossos trabalhos e a nossa angústia, 8e fez-nos sair do Egipto, com sua mão forte e seu braço estendido, com grandes milagres, sinais e prodígios. 9Introduziu-nos nesta região e deu-nos esta terra, terra onde corre leite e mel. 10Por isso, aqui trago agora os primeiros frutos da terra que me deste, SENHOR!’

Depois, colocarás isso diante do SENHOR, teu Deus, e prostrar-te-ás diante do SENHOR, teu Deus. 11Alegra-te por todos os bens que o SENHOR, teu Deus, te der e à tua casa, tu, o levita e o estrangeiro que estiver no meio de ti!

12Quando acabares de separar o dízimo de todos os teus produtos, no terceiro ano, que é o ano do dízimo, e o tiveres dado ao levita, ao estrangeiro, ao órfão e à viúva, eles o comerão às portas da cidade e ficarão saciados. 13Dirás, então, na presença do SENHOR, teu Deus:

‘Tirei da minha casa o que era consagrado para o dar ao levita, ao estrangeiro, ao órfão e à viúva, conforme os mandamentos que me ordenaste; não os esqueci nem os transgredi. 14Não comi nada disso durante o luto, nada separei em estado de impureza e nada disso dei a um morto. Obedeci à voz do SENHOR, meu Deus, e fiz tudo o que Ele me mandou. 15Lança um olhar da tua morada santa, dos céus, e abençoa o teu povo de Israel e a terra que nos deste, como juraste aos nossos pais, terra onde corre leite e mel!’»

16«Hoje, o SENHOR, teu Deus, ordena-te que cumpras estas leis e preceitos. Observa-os e cumpre-os com todo o teu coração e com toda a tua alma. 17Hoje, declaraste ao SENHOR que Ele seria o teu Deus e que andarias nos seus caminhos, observando as suas leis, os seus preceitos e os seus mandamentos. 18Por sua vez, o SENHOR declarou-te hoje que serias o seu povo particular, como te tinha dito, e que deverias observar todos os seus mandamentos; 19que te tornaria superior em honra, fama e esplendor a todos os povos que Ele tinha criado; que serias um povo consagrado ao SENHOR, teu Deus, como Ele tinha dito.»

1. Basicamente, este capítulo trata do que se oferece ao Senhor Deus: as primícias e os dízimos. As primícias são os primeiros frutos da terra ou do gado (cf. Ex 13,11-16). O primeiro macho que abrisse o útero materno pertencia ao Senhor; o primeiro molho da colheita também é do Senhor! (Uma observação: é por isto que os evangelhos insistem em que Jesus nosso Senhor foi o primogênito: não é porque ele tivesse outros irmãos, mas porque, sendo aquele que abriu o útero materno, pertence ao Senhor e tem o direito de primogenitura na descendência de Davi! Por isso, será apresentado no Templo como propriedade do Deus Santo de Israel! Tal oferta iria consumar-se na entrega da Cruz, como o próprio Simeão profetizara a Maria Virgem – Lc 2,22-35). O significado das primícias portanto é belíssimo: tudo é dom de Deus: a terra, a colheita, a fecundidade dos animais, o primeiro filho, a própria vida! Israel deveria sempre reconhecer que tudo pertence ao Santo e tudo é graça! O Deus de Israel não é deus do resto, do que sobra, do que não tem valor; não é um deus de um pedaço, de uma parte! Ele é o Deus das primícias, o Deus a Quem ofertamos o que nos é mais precioso, o que vem primeiro! A Ele somente se pode dar tudo, pois tudo vem Dele, tudo subsiste Nele, tudo é para Ele (cf. At 17,28; Rm 11,33-36). Vale a pena reler a confissão de fé que o israelita piedoso fazia no Templo quando apresentava suas primícias ao Senhor Deus. Veja os vv. 1-11! O fiel declara que Deus cumpriu a Sua promessa aos Pais e concedeu a terra e seus dons! Agora reflita seriamente: a Deus você oferta as primícias da sua vida, do seu amor, do que lhe é precioso, do que lhe interessa, do seu tempo, das suas escolhas, dos seus bens ou, ao invés, para Deus você reserva o que sobra, o resto, o que já não mais é importante?

“Ouve, ó Israel! O Senhor nosso Deus é o único Senhor! Amarás o Senhor teu Deus com todo o teu coração, com toda a tua alma e com toda a tua força!” (Dt 6,4)

2. Importante também como volta sempre a ideia da alegria do fiel diante do Senhor. Ele traz as primícias, traz o dízimo e deve fazê-lo com alegria:

“Deus ama a quem dá com alegria! Servi ao Senhor com alegria! Alegrai-vos sempre no Senhor!” (2Cor 9,7; Sl 100/99,2; Fl 4,4)

E esta alegria deve transbordar em direção aos irmãos, sobretudo em relação ao pobre, ao desvalido, ao fraco:

“Alegrar-te-ás por todas as coisas boas que o Senhor teu Deus te deu a ti e à tua casa e, juntamente contigo, o levita e o estrangeiro que reside no teu meio” (v.11)

Esta alegria do pobre e desvalido é pela solidariedade demonstrada, pela esmola partilhada! Ainda hoje, na Quaresma, a Mãe católica nos ensina que aquilo que jejuamos e as coisas das quais nos abstemos, devemos dá-las aos necessitados! O jejum e a abstinência quaresmais devem abrir o nosso coração às necessidades dos irmãos! Uma alegria no Senhor que não nos abra ao próximo, que não nos torne mais sensíveis aos irmãos, que seja simples autossatisfação espiritual, não é verdadeiramente alegria no Senhor; tratar-se-ia simplesmente de uma alegria mundana, burguesa, sem mais profundo significado para o Reino de Deus! Pense, então:

Sua experiência de Deus tem aberto o seu coração para os próximos?

Como você trata os demais?

Você despeja sobre os irmãos a misericórdia, a benignidade e a compaixão do Senhor Deus?

São coisas muito sérias a serem pensadas…

3. Também é interessante o quanto a fidelidade de cada um, de cada fiel, torna o Eterno propício a todo o Israel! Não existe salvação privada! Não existe experiência com Deus isolada dos demais! Nossa vida com o Senhor é pessoal, mas não é privada! Somos membros de um Povo, o Povo da Aliança; no Antigo Testamento, o Israel segundo a carne; no Novo Testamento, a Igreja, Israel nascido do Espírito do Ressuscitado. Releia rezando os vv. 13-15.

4. Os vv. 16-19 são simplesmente estupendos! São a conclusão do Discurso de Moisés, servo de Deus! Primeiramente, observe a insistência no “hoje”. Não se trata de um simples indicador temporal. Este “hoje” é teológico, é litúrgico: cada vez que Israel escutar a Lei, a Palavra do Senhor Deus, no “hoje” da sua vida esta Palavra santa o atinge, o interpela, o converte e o salva! Três vezes se repete “hoje”! É “hoje” que o Senhor Deus nos espera, é “hoje” que o Senhor Deus nos apela, é “hoje” que o Senhor pede a nossa conversão, a nossa resposta! Reze o Salmo 95/94:

“Hoje, se ouvirdes a Sua voz…”

5. Nestes versículos ressalta-se a ideia da Aliança, pacto de amor entre o Senhor Deus e o Seu Povo:

“Hoje fizeste o Senhor declarar que Ele seria teu Deus!” (v. 17)

Belíssimo: praticamente Deus é obrigado, cativado pelo amor de Israel, a declarar-Se preso de amor pelo Seu Povo Eleito:

“Eu te amei com amor eterno, por isso conservei para ti o Meu amor!” (Jr 31,3); “Quando Israel era menino, Eu o amei!” (Os 11,1)

Nosso Deus: um Deus cativo de amor! Por outro lado, da parte sua, Israel deve ser totalmente para o Senhor, de coração íntegro:

“Hoje o Senhor te fez declarar que tu serias o Seu Povo próprio, conforme te falou, e que observarias todos os Seus mandamentos” (v. 18)

Eis: amor com amor se paga! No Cântico dos Cânticos, esta Aliança de amor é apresentada numa linguagem romântica, nupcial: “Meu Amado é meu e eu sou Dele!” (2,16; 6,3); “Eu sou do meu Amado; Seu desejo O traz a mim!” (7,11) esta Aliança de amor entre Deus e o Seu Povo realizou-se e realiza-se plenamente nas núpcias entre o Cristo-Esposo e a Igreja-Esposa! Por isso mesmo, tantas vezes nos evangelhos o Senhor Jesus Cristo fala em casamento, em banquete nupcial, no esposo que vem; por isso Seu primeiro sinal foi realizado numa festa de casamento! Ele mesmo é o Deus-Esposo que vem selar com Sua Igreja-Esposa a nova e eterna Aliança no leito amoroso da Cruz! Ele mesmo nupcialmente Se dá no Seu Corpo à Sua amada Esposa, a Igreja! Israel – o Antigo e o Novo – é um Povo consagrado ao Senhor: somente a Ele deve pertencer, de coração íntegro, inteiro! E o sinal dessa consagração é a prática fiel e amorosa dos Seus preceitos. Leia Jo 14,21-26. Reze o Salmo 19/18,8-15.

6. Recorde: pelo Batismo você se tornou membro do Povo da Aliança, recebendo, naquela água bendita, o Espírito do Cristo imolado e ressuscitado, que lhe deu a própria Vida de ressurreição. Pela Crisma, você recebeu novamente o Santo Espírito, agora como força para o combate, para a edificação do Corpo de Cristo e para o testemunho diante do mundo. Pela Eucaristia, você se alimenta do Senhor que é pleno do Espírito de amor que se entrega, que dá a vida… Você e eu, sem merecermos, somos membros desse Povo Santo! Nosso coração deve ser todo do Senhor e todo para o Senhor! E esta fé, este amor manifestam-se não somente em palavras, mas sobretudo e definitivamente numa vida vivida na vontade do Senhor, no cumprimento dos Seus preceitos! Reze o Salmo 119/118,26-32.