Dom Henrique Soares da Costa
Reze o Salmo 119/118,17-24
Agora, leia com piedade, com atenção e um coração que escuta Dt 19

1«Quando o SENHOR, teu Deus, eliminar os povos, cuja terra o SENHOR te há-de dar, quando dela tomares posse e habitares nas suas cidades e nas suas casas, 2reservarás três cidades na terra que o SENHOR, teu Deus, te há-de dar para a possuíres. 3Facilitarás o acesso a essas cidades e dividirás em três partes a terra que o SENHOR, teu Deus, te dará em herança, a fim de que todo o homicida possa refugiar-se aí. 4São estes os casos em que o homicida, ao refugiar-se ali, terá a vida salva: quando matar o seu próximo por inadvertência, sem antes lhe ter ódio. 5Por exemplo, quando for à floresta com outro para cortar lenha e, no momento de levantar o machado para derrubar a árvore, o ferro se separar do cabo e atingir o companheiro e ele morrer; então ele poderá fugir para uma dessas cidades e salvar a vida. 6De contrário, o vingador do sangue, enfurecido, poderia persegui-lo e alcançá-lo, matando-o, se o caminho fosse longo. No entanto, esse homem não era réu de sentença de morte, pois antes não sentia ódio. 7Por isso, eu te ordeno: reserva para isso três cidades.

8E quando o SENHOR, teu Deus, alargar a tua fronteira, como jurou aos teus antepassados, e te der todo o país que prometeu aos teus pais, 9então, acrescentarás mais três cidades àquelas três. Mas guardarás todos estes mandamentos, fazendo aquilo que hoje te prescrevo, amando o SENHOR, teu Deus, e andando sempre nos seus caminhos. 10Desse modo, não se derramará sangue inocente na terra que o SENHOR, teu Deus, te der por herança, e não cairá sobre vós a responsabilidade do sangue.

11Mas, se alguém, por ódio ao seu próximo, o espreitar e se lançar sobre ele, ferindo-o mortalmente, e depois se for refugiar numa dessas cidades, 12os anciãos da sua cidade ordenarão que o tirem de lá e o entreguem ao vingador do sangue, para ser morto. 13Não terás piedade dele; farás desaparecer de Israel o derramamento de sangue inocente, e tudo te correrá bem.»

Limites das propriedades – 14«Não mudarás os limites do teu vizinho, que os antigos demarcaram na herança que te couber na terra que o SENHOR, teu Deus, te há-de dar para dela tomares posse.»

15«Um testemunho isolado não será suficiente contra uma pessoa, seja qual for o seu crime, a sua culpa ou o pecado de que for acusado; só com o depoimento de duas ou três testemunhas é que o caso será tomado em conta.

16Se uma falsa testemunha se apresentar contra alguém para o acusar de crime, 17as duas pessoas a quem compete a questão comparecerão diante do SENHOR, na presença dos sacerdotes e dos juízes de serviço naqueles dias. 18Os juízes examinarão bem a questão.

Se a testemunha é falsa e proferiu uma mentira contra o seu irmão, 19far-lhe-eis como ela tinha pensado fazer a seu irmão. Assim, extirparás o mal do meio de vós. 20E as outras pessoas aprenderão e hão-de temer, e ninguém mais se atreverá a fazer semelhante mal no meio de vós. 21Não terás piedade: é vida por vida, olho por olho, dente por dente, mão por mão, pé por pé.»

1. Este capítulo apresenta algumas realidades que, para serem compreendidas, é necessário conhecer um pouco da cultura do antigo Oriente Médio, onde Israel vive… Primeiro, as cidades de refúgio. O Senhor Deus manda que se instituam cidades nas quais quem cometeu um mal involuntário para com o seu próximo, possa nelas se refugiar. Observe que aqui aparece não somente o senso da justiça, mas também a atenção à intenção de quem comete o mal. Se foi por acidente, então aquele lá não deve ser punido. Afinal, o Senhor Deus vê o coração do homem, para além de toda a aparência (cf. Jr 17,9-10; 1Sm 16,7). Observe como a justiça humana deveria imitar a justiça divina, como o nosso coração deve ser reflexo do Coração de Deus…

E o seu coração? Cuidado, porque o coração humano é enganador (cf. Jr 17,9)! É preciso sempre colocar nosso coração, isto é, o nosso eu, diante do Senhor, que sonda o nosso coração! É necessário sempre de novo olhar Jesus nosso Senhor, aprender Dele, ter os sentimentos Dele (cf. Mt 11,28-30; Fl 2,5). Quando sabemos ler o Antigo Testamento, vemos já ali o Coração de Deus que, em Jesus nosso Senhor, revelará toda a Sua misericórdia, toda a Sua benevolência! Então, peça ao Senhor Jesus, Ele que é Imagem do Pai, um coração como o Dele: manso, humilde, justo, compassivo…

2. É neste horizonte que deve ser compreendida a lei do talião, tão mal interpretada:

“Vida por vida, olho por olho, dente por dente, mão por mão, pé por pé!” (v. 21)

Numa compreensão superficial, podemos ficar impressionados com tamanha ferocidade! Mas, é exatamente o contrário: esta lei é um princípio que orientava o juiz para que a pena fosse proporcional à falta! Ela, na verdade, recomenda a moderação contra o excesso, a prática da justiça contra o instinto de vingança! Compare com Gn 4,23… Aí, sim, aparece a crueldade, a ferocidade desmedida de Lamec: por uma ferida, pagou matando, por uma pequena contusão, matou uma criança! É isto que a lei do talião deseja conter, evitar e corrigir… Até que viesse o Senhor nosso Jesus Cristo, manso e humilde de Coração. Leia Mt 5,20-48. Mas, isto somente é possível para quem experimenta a Paternidade do Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, o Deus de Israel, a Quem Ele chama de Abbá, Papai!

3. O homem que cometesse um mal contra o outro, mesmo que involuntariamente, deveria fugir do vingador de sangue, o go’el! Compreendamos! Israel era, originalmente, um povo nômade, que perambulava pra lá e pra cá. Seria fácil matar um israelita… Quem defende um nômade, se ele não vive na cidade, para ser defendido por soldados e vingado por juízes? Entre os povos nômades, quem deve vingar o mal que alguém sofreu é o seu parente mais próximo: ele tem a obrigação de vingar a vítima, matando quem lhe fez o mal, e defender a propriedade e os direitos de seu parente mais fraco, se ele for injustiçado. Ele é o vingador de sangue, o redentor! É desse vingador que a pessoa se livra nas cidades de refúgio. Era assim que, as pessoas, sabendo que um homem tinha parentes que o poderiam vingar, não faziam mal a ele e respeitava o seu direito e a sua vida! Ora, segundo as Escrituras, o Senhor Deus é o go’el de Israel, o seu protetor, o seu defensor, o que vai à luta contra o seus inimigos (cf. Is 41,14; Jr 50,34; Sl 19/18,15). Ora, nós todos, toda a humanidade tem um go’el, um vingador de sangue, forte, potente, vitorioso, definitivo, que não derrama o sangue de outrem, mas o Seu próprio sangue: é Jesus, nosso Senhor! Ele é o nosso Redentor, o nosso Salvador, o nosso Vingador! Pensando em Jesus, que Se entregou ao Pai para nos salvar da morte eterna, reze o Sl 31/30.

4. Releia o v. 13… Cuidado com as fronteiras: somente o Senhor Deus é infinito, somente Ele ocupa todos os espaços e, fazendo-o, cria espaços para as criaturas! A terra de Israel e a terra da nossa vida pertencem somente ao Senhor e Ele distribui tudo segundo a Sua sábia providência! Devemos, pois, ter sempre o Senhor Deus diante dos nossos olhos e não querer tudo para nós! Não deslocar as fronteiras, não invadir os espaços alheios, seus direitos, sua personalidade, sua liberdade, sua dignidade, sua consciência! Ai dos que ocupam toda a terra até que já não haja espaço! A ganância é pecado gravíssimo; pisar o direito e desrespeitar o legítimo espaço dos próximos é pecado que clama aos Céus! Leia Is 5,8-9. Leia a triste história de Nabot (cf. 21,1-24).

Você reconhece seus limites?

Você respeita o espaço dos demais?

Você procura ser justo, reto, humilde diante do Senhor?

Reze o Sl 131/130.