Dom Henrique Soares da Costa
Reze o Salmo 119/118,81-88
Agora, leia com piedade, com atenção e um coração que escuta Dt 29 – 30

Dt 29, 1Moisés convocou todo o Israel e disse-lhes: «Vistes tudo o que o SENHOR fez diante dos vossos olhos na terra do Egipto, ao faraó, aos seus servos e a todo o país: 2as grandes provações que os vossos olhos viram, esses sinais e prodígios extraordinários. 3Até hoje, porém, o SENHOR não vos tinha dado coração para entender, olhos para ver, nem ouvidos para ouvir. 4Eu vos conduzi durante quarenta anos pelo deserto, mas as roupas que vestíeis não se gastaram, e o calçado não se rompeu nos vossos pés. 5Não foi pão que comestes, não foi vinho nem bebida alcoólica que bebestes, para saberdes que Eu sou o SENHOR, vosso Deus.

6Chegastes a esta região, e Seon, rei de Hesbon, e Og, rei de Basan, saíram ao nosso encontro para nos fazer guerra, mas nós derrotámo-los. 7Tomámos a terra deles e demo-la em herança a Rúben, a Gad e à metade da tribo de Manassés. 8Guardareis, pois, as palavras desta Aliança e as cumprireis, para serdes bem sucedidos em tudo o que fizerdes.

9Todos vós estais hoje na presença do SENHOR, vosso Deus – os vossos chefes, as vossas tribos, os vossos anciãos, os vossos oficiais, todos os cidadãos de Israel, 10os vossos filhos, as vossas mulheres e o estrangeiro, que está no meio do vosso acampamento, desde o vosso rachador de lenha até ao vosso carregador de água – 11a fim de entrardes na Aliança do SENHOR, vosso Deus, feita com juramento, Aliança que o SENHOR, vosso Deus, estabelece hoje convosco, 12para vos constituir hoje como seu povo e ser Ele próprio, o SENHOR, o vosso Deus, como vos prometeu e como jurou a vossos pais, Abraão, Isaac e Jacob. 13E não é só convosco que eu firmo esta aliança e este juramento; 14é também com todos aqueles que hoje estão aqui junto de nós, na presença do SENHOR, nosso Deus, e ainda com todos aqueles que hoje não estão aqui connosco. 15Vós sabeis bem como vivemos na terra do Egipto e o que passámos no meio dos povos por onde andámos. 16Vistes as suas abominações e os ídolos de madeira e de pedra, de prata e de ouro, que eles tinham consigo.

17Não haja entre vós homem ou mulher, família ou tribo, cujo coração se afaste hoje do SENHOR, nosso Deus, para servir aos deuses desses povos; não haja entre vós raiz que produza frutos venenosos ou amargos. 18Quando ouvir as palavras deste juramento, ninguém se felicite em seu coração, dizendo: ‘Terei paz, mesmo que siga a obstinação do meu coração’, pois ‘terra regada já não tem sede.’ 19O SENHOR jamais lhe perdoará, pois aumentará a ira do SENHOR e a sua cólera contra esse homem; todas as maldições escritas neste livro cairão sobre ele, e o SENHOR apagará o seu nome de debaixo do céu. 20O SENHOR o separará, para sua desgraça, de todas as tribos de Israel, conforme todas as maldições da Aliança escritas no livro desta Lei.»

21«Então, a geração vindoura dos vossos filhos, os que vierem depois de vós, e o estrangeiro, que vier de uma terra longínqua, ao verem as pragas dessa terra e as calamidades que o SENHOR fará cair sobre ela, interrogar-se-ão. 22Enxofre e sal queimarão toda a terra; não poderá ser semeada nem regada, e nem uma erva crescerá nela, destruída como Sodoma, Gomorra, Adma e Seboim, que o SENHOR destruiu na sua ira e no seu furor.

23Então todos esses povos perguntarão: ‘Porque terá o SENHOR tratado assim esta terra? Porque se inflamou com tão grande ira?’ 24Ser-lhes-á respondido: ‘Porque abandonaram a Aliança que o SENHOR, Deus de seus pais, fizera com eles, quando os fez sair da terra do Egipto; 25serviram outros deuses e prestaram-lhes culto, deuses que não conheciam e não eram sua herança. 26A ira do SENHOR inflamou-se contra essa terra, a ponto de descarregar sobre ela todas as maldições escritas neste livro. 27O SENHOR, com ira, furor e grande indignação, arrancou-os da sua terra e exilou-os para uma terra estranha até este dia.’ 28As coisas ocultas pertencem ao SENHOR, nosso Deus, mas aquilo que Ele revelou é para nós e para os nossos filhos eternamente, a fim de cumprirmos todas as palavras desta Lei.»

Dt 30, 1«Quando, pois, te acontecerem todas estas coisas, a bênção ou a maldição que coloquei diante de ti, se as meditares no teu coração no meio de todos os povos para onde o SENHOR, teu Deus, te tiver desterrado, 2e te voltares de novo para o SENHOR, teu Deus, e obedeceres à sua voz com todo o teu coração e com toda a tua alma, segundo aquilo que eu hoje te prescrevo a ti e aos teus filhos, 3então, o SENHOR, teu Deus, fará regressar os teus cativos e terá compaixão de ti; e de novo te reunirá de entre todos os povos, no meio dos quais te dispersou o SENHOR, teu Deus. 4Ainda que os teus exilados se encontrassem na extremidade do céu, mesmo dali te reuniria o SENHOR, teu Deus, e ali te iria buscar. 5O SENHOR, teu Deus, te reconduzirá depois à terra que os teus pais possuíram e da qual tomarás posse; Ele te fará prosperar e multiplicar mais do que os teus pais. 6O SENHOR, teu Deus, circuncidará o teu coração e o coração dos teus descendentes para que ames o SENHOR, teu Deus, com todo o teu coração e com toda a tua alma, a fim de que possas viver.

7O SENHOR, teu Deus, fará cair então todas as maldições sobre os teus inimigos e sobre aqueles que te odiaram e perseguiram. 8Mas tu, escuta de novo a voz do SENHOR e cumpre todos os seus mandamentos que hoje te prescrevo. 9O SENHOR, teu Deus, fará prosperar todo o trabalho das tuas mãos, o fruto das tuas entranhas, o fruto do teu gado e o fruto da tua terra. O SENHOR se deleitará de novo com o teu bem, como acontecia com os teus pais, 10se escutares a voz do SENHOR, teu Deus, e guardares os seus mandamentos e os seus preceitos, escritos neste livro da Lei, e se voltares de novo para o SENHOR, teu Deus, com todo o teu coração e com toda a tua alma.

11Na verdade, esta Lei, que hoje te prescrevo, não é muito difícil para ti nem está fora do teu alcance. 12Não está no céu, para se dizer: ‘Quem subirá por nós até ao céu e no-la irá buscar para a escutarmos e praticar-mos?’ 13Não está tão pouco do outro lado do mar, para se dizer: ‘Quem atravessará o mar e no-la irá buscar para a escutarmos e praticarmos?’ 14A Lei está muito perto de ti, na tua boca e no teu coração, para a praticares.»

15«Repara que coloco hoje diante de ti a vida e o bem, a morte e o mal. 16Assim, ordeno-te hoje que ames o SENHOR, teu Deus, que andes nos seus caminhos, que guardes os seus mandamentos, preceitos e sentenças. Assim viverás, multiplicar-te-ás e o SENHOR, teu Deus, te abençoará na terra em que vais entrar para dela tomar posse.

17Mas se o teu coração se desviar e não escutares, se te deixares arrastar e adorares deuses estranhos e os servires, 18declaro-vos hoje que, sem dúvida, morrereis; os vossos dias não se prolongarão na terra na qual ides entrar, passando o Jordão, para dela tomar posse.»

19«Tomo hoje por testemunhas contra vós, o céu e a terra; ponho diante de vós a vida e a morte, a bênção e a maldição. Escolhe a vida para viveres, tu e a tua descendência, 20amando o SENHOR, teu Deus, escutando a sua voz e apegando-te a Ele, porque Ele é a tua vida e prolongará os teus dias para habitares na terra, que o SENHOR jurou que havia de dar a teus pais, Abraão, Isaac e Jacob.»

1. Em 29,1 há dois detalhes importantes:

(a) Moisés convoca todo Israel, isto é, todo o Povo Santo de Deus, do presente e do futuro, de todas as gerações (cf. 29,13s). Nunca é demais recordar: a Aliança do Senhor não é com pessoas individuais, mas com um Povo! A salvação é pessoal, mas não é individual, não é desligada da pertença ao Povo de Deus! Quando Deus chamou Abraão nosso pai foi para com ele formar um povo (cf. Gn 12,1ss)… Assim também com os demais patriarcas… Quando Deus fez uma aliança com Davi e sua casa, foi para o bem do Povo Santo! Não há uma relação com Deus simplesmente privada, interesseira, no espírito do “se dar bem”! Isto, tão pregado pelas seitas, é completamente fora do espírito das Escrituras Santas. O próprio Senhor Jesus, na noite em que foi entregue, selou, no Seu cálice de dor e sacrifício amoroso, a Nova e Eterna Aliança com um Novo Povo, a Igreja (cf. Mt 26,27s)! E entrega o sacrifício da Aliança aos Doze, para que eles o celebrem com a Igreja e para a Igreja! É “todo Israel” que deve ouvir e obedecer; é “todo Israel” que deve ser o Povo da Aliança!

(b) Outro detalhe: Moisés diz ao povo, nas planícies de Moab, às vésperas de entrar na Terra Prometida:

“Vós mesmos vistes…”

Ora, toda a geração que saíra do Egito já havia morrido, todos aqueles que tinham visto os sinais portentosos do Senhor Deus no Egito (cf. Dt 1,3.34-38) E, no entanto, Moisés diz:

“Vós mesmos vistes…”

O sentido disto é profundo: cada geração de Israel, celebrando anualmente a Páscoa judaica, deve saber que saiu do Egito, deve saber que foi beneficiária dos atos salvíficos do Eterno e testemunha de Seus portentos em benefício do Seu Povo! O mesmo se dá no cristianismo: celebrando o Sacrifício eucarístico, vivendo na potência do Santo Espírito de Cristo, cada geração cristã torna-se contemporânea à Páscoa do Senhor, é beneficiária deste portentoso evento salvífico! Também a nós pode ser dito:

“Vós mesmos vistes… Vós mesmos comestes e bebestes com o vosso Senhor… Vós mesmos sois testemunhas dessas coisas!”

Não receber os santos sacramentos, ausentar-se das assembleias eucarísticas é, nada mais nada menos, excluir-se da comunhão com o Senhor, da intimidade com Ele, da contemporaneidade com Sua ação salvífica, do presenciar a contínua atuação do evento salvador!

“Vós mesmos vistes!”

2. Releia o v. 3. Aqui, temos uma afirmação verdadeiramente impressionante! Pode-se ver um acontecimento, pode-se testemunhar um fato e não se compreender o seu sentido interior, profundo, essencial! Quantas vezes, tendo olhos para ver, não vemos e tendo ouvidos para ouvir, não escutamos e o coração não compreende (cf. Mt 13,14s)… Somente quando, abertos ao Senhor, nos deixamos iluminar e guiar pelo Seu Espírito, podemos realmente ver e compreender a obra de Deus! Observe:

(a) ouvidos para ouvir com entendimento e obediência a Palavra, a Promessa que o Eterno dirige ao Seu Povo;

(b) olhos para ver com a compreensão recebida da Palavra, que dá sentido aos acontecimentos da vida;

(c) coração, o eu, o âmago da pessoa, sua inteligência e afeto, que, guiado pela Palavra e fortalecido pela ação divina pode compreender realmente, dizendo um sim ao Senhor e vivendo na comunhão com Ele! Reze o Salmo 138/137.

3. Os vv. 17-20 trazem uma séria advertência: que ninguém, no seu coração, faça pouco do Senhor e da Sua Palavra! Que ninguém, interiormente, pense:

“Isto é besteira! Isto jamais me acontecerá! Se eu viver no pecado, o Senhor perdoa, pois sou membro do Seu Povo!”

A sentença é tremenda:

“O Senhor jamais consentirá em perdoá-lo!” (29,19)

Por que isto? Porque aqui se trata de cinismo, de zombaria para com o amor gratuito do Senhor Deus! Aqui se trata de fechar-se para o Seu Santo Espírito que, interiormente, nos corrige e nos educa! É o mesmo pecado contra o Espírito Santo (cf. Mt 12,31s)! Do que se trata? Trata-se de fechar-se interiormente, de modo cínico, consciente, zombeteiro, para a ação de Deus, que nos convida a ter olhos para ver, ouvidos para ouvir, coração para compreender a Sua Palavra e a Sua ação salvadora! Quem age assim, bloqueia a ação de Deus no seu coração e na sua vida, tornando vã a graça de Deus! Deste modo, fica-se fora da salvação! Atenção: o pecado de que fala Moisés e de que fala Jesus nosso Senhor não é um simples ato, mas uma atitude, atitude de fechamento, de soberba, de pouco caso em relação ao Santo! Reze o Salmo 53/52… Eis o pecado contra o Espírito Santo: viver como se Deus não existisse! Agora, reze o Salmo 54/53… Eis o pobre, o homem aberto para o Eterno! Ele vive na verdade e experimenta, já agora, a alegria de ser salvo!

4. Ainda neste capítulo 29, no v. 28, uma afirmação preciosa, de grande valor teológica. Volte ao texto sagrado… Leia-a! O que são as “coisas escondidas”? São o tanto da vida para o qual não temos respostas; os mistérios da nossa existência, por vezes tão dolorosos… O mal sempre presente no mundo e enroscando-se no nosso coração, a injustiça, o sofrimento dos inocentes, a dor dos pequenos do mundo, os absurdos com os quais nos defrontamos… São tantas perguntas… Todas estas questões estão nas mãos benditas do Senhor! Ele sabe tudo; nós não sabemos de nada! Nem tudo o Senhor nos revela! Os segredos pertencem ao Senhor! Ele não nos explica, Ele não nos deve explicações! As coisas que Ele nos revela é para que nós as ponhamos em prática, vivendo em comunhão com Ele, caminhando na Sua santa vontade! A Palavra do Senhor não é para nossa curiosidade, não é para nosso diletantismo; é para que escutemos humildemente e a ponhamos em prática de todo o coração! A nossa fé tem de desembocar na vida! A fé sem vivência, a fé sem atitudes concretas na vida, a fé sem obras é morta, inexistente e inútil (cf. Tg 1,22-25; 2,14-25). Reze o Salmo 50/49.

5. O capítulo 30 retoma o tema sobre o qual meditamos no texto passado: a bênção e a maldição. É uma escolha que cada geração do Povo de Deus, que cada um de nós tem que fazer “hoje” (cf. v. 8). O que é comovente é que depois de todas as ameaças do capítulo 28 – ameaças tremendas! –, a última palavra do Senhor para o Seu Povo não é de perdição, de desprezo e condenação, mas de vida. Leia os comoventes vv. 1-14! São, deveras, estupendos, doces, comoventes! Deus é incorrigível na Sua misericórdia, na Sua bondade, no Seu amor! Bendito seja o Seu Nome!

6. Mas, fica sempre a nossa liberdade, permanece a escolha entre dois caminhos: vida e morte, bênção e maldição (cf. vv. 15-20):

“Se ouves… amando… andando em Seus caminhos… observando Seus mandamentos… viverás… Contudo, se teu coração se desviar… não ouvires… te deixares seduzir… te prostrares diante de outros deuses… os servires… perecereis… Eu te propus a Vida ou a morte, a bênção ou a maldição… Escolhe, pois, a Vida para que vivas… amando o Senhor teu Deus… obedecendo… apegando-te a Ele… Disto depende a tua vida!”

Reze o Salmo 36/35.