Dom Henrique Soares da Costa
Reze o Salmo 119/118,33-40
Agora, leia com piedade, com atenção e um coração que escuta Dt 21

1«Quando, na terra que o SENHOR, teu Deus, te há-de dar para dela tomares posse, encontrares um cadáver caído no campo, sem que se saiba quem o matou, 2os teus anciãos e os teus juízes irão medir a distância que separa o cadáver das cidades dos arredores. 3Determinada a cidade mais próxima do cadáver, os anciãos dessa cidade tomarão uma novilha que ainda não tenha lavrado nem puxado ao jugo. 4Eles mesmos levarão a novilha para um vale de água perene, onde não se pode atravessar nem se faz sementeira, e nesse vale lhe quebrarão a nuca. 5Então, os sacerdotes levíticos se aproximarão, porque foram eles que o SENHOR, teu Deus, escolheu para o servir e para abençoarem em nome do SENHOR, e da sentença deles pende todo o litígio e todo o crime.

6Todos os anciãos da cidade mais próxima do cadáver lavarão as mãos por cima da novilha cuja nuca foi quebrada no vale 7e dirão, cada um por sua vez: ‘As nossas mãos não derramaram este sangue e os nossos olhos não o viram derramar. 8Perdoa, SENHOR, ao teu povo de Israel, que resgataste! Não imputes o sangue inocente ao teu povo de Israel.’ E esse sangue ser-lhe-á perdoado. 9Desse modo, farás desaparecer o sangue inocente do teu meio, porque fizeste o que é recto aos olhos do SENHOR.»

10«Quando fores à guerra contra os teus inimigos e o SENHOR, teu Deus, os entregar nas tuas mãos e fizeres prisioneiros, 11se vires entre os prisioneiros uma mulher de bela aparência, que te agrade e com quem desejes casar, 12leva-a primeiro para tua casa. Ela rapará a cabeça, cortará as unhas, 13tirará a sua roupa de prisioneira, permanecerá em tua casa e chorará durante um mês inteiro o seu pai e a sua mãe. Depois disto, poderás unir-te a ela, serás seu marido e ela será a tua mulher. 14Se ela não te agradar, deixa-a partir à vontade, mas não poderás vendê-la por dinheiro nem maltratá-la, porque a oprimiste.»

15«Quando um homem tiver duas mulheres, uma que ele ama, outra que despreza, e lhe tiverem dado filhos, tanto a que é amada como a que é desprezada, se o filho desta for o primogénito, 16este homem, no dia em que repartir entre os filhos os bens que tiver, não poderá dar a primogenitura ao filho da que é amada, em prejuízo do primogénito da mulher desprezada. 17Reconhecerá como primogénito o filho da mulher desprezada, dando-lhe porção dupla de todos os seus bens; porque este filho representa as primícias do seu vigor, a ele pertence o direito de primogenitura.»

18«Quando um homem tiver um filho desobediente e rebelde, que não escuta a voz do seu pai, nem da sua mãe, e que, quando o corrigem, continua a não os escutar, 19o pai e a mãe o levarão à presença dos anciãos da cidade, às portas da sua localidade, 20e dirão aos anciãos da cidade: ‘Este nosso filho é desobediente e rebelde, não escuta a nossa voz; é incorrigível e dissoluto.’ 21Depois, todos os homens da cidade o apedrejarão e ele morrerá. Assim extirparás o vício do meio de vós. Todo o Israel o há-de saber e se encherá de temor.»

22«Quando um homem tiver cometido um crime de morte e for condenado, será enforcado. 23Não deixarás o seu cadáver permanecer de noite na forca; procurarás enterrá-lo no mesmo dia, pois o enforcado é uma maldição de Deus, e não deves manchar a tua terra, que o SENHOR, teu Deus, te dará por herança.»

1. Este capítulo 21 bem que poderia escandalizar muita gente! Traz prescrições antigas, próprias do Oriente semita, bem diferentes dos nossos costumes! Nunca nos esqueçamos que o Senhor Deus Se revelou na história do Seu Povo Santo e, como um pai que educa o seu filho, foi educando Israel, falando-lhe numa linguagem adequada a cada estágio da sua história e do seu percurso cultural. Isto nos revela como uma leitura fundamentalista das Escrituras – como tantas e tantas seitas fazem – é deletéria e errada! É necessário sempre situar o Texto Santo no seu contexto literário (isto é, saber de que tipo de literatura se trata: é um poema, é um romance, é saga, é uma notícia história…), no seu contexto redacional (isto é, dentro do livro inteiro no qual determinada passagem se encontra), dentro do seu contexto histórico (em que época foi escrito e quais as características daquela época) e do seu contexto teológico (na época em que foi escrito o texto em que ponto estava a fé de Israel, a maturidade da Revelação…)… Nunca esqueça: a Escritura é Palavra de Deus, mas escrita de modo humano; não é um conjunto de livros caídos do céu… É preciso saber encontrar nas palavras a Palavra! E isto, com certeza, não se consegue de modo algum numa leitura fundamentalista, como vemos fazer-se a torto e a direito aqui no Brasil…

2. Uma bela realidade deste capítulo é o apreço profundo que se tem pela vida humana! Um assassinato é tido como uma tragédia para o Povo Eleito, pois a vida é sagrada, é dom de Deus! Observe: por causa de um morto, deve-se matar uma novilha nova e não se deve mais cultivar aquela terra na qual a novilha foi morta. Em outras palavras: nunca se banaliza a morte de alguém, pois o ser humano é sagrado, é imagem de Deus! Veja nos vv. 7-9 como todo os israelitas proclamam sua inocência quanto ao sangue derramado daquele que fora morto e como pedem perdão ao Senhor pela vida humana que foi tirada! Todos se sentem responsáveis! E você, respeita a vida dos outros e a sua própria vida? Lembre que há vários modos de matar o irmão: a indiferença, a dureza, a prepotência, a língua, etc. Leia com atenção 1Jo 3,14-18.

3. Veja a prescrição para a mulher capturada numa guerra e tomada por esposa… Costumes bárbaros… Mas, também aí, o Senhor ilumina as situações duras com Sua luz: se a serva for desposada pelo seu senhor, este, se resolver divorciar-se dela, não a venderá como escrava, mas a deixará em liberdade por ter sido sua mulher… Lembre-se de que no Antigo Testamento, o matrimônio ainda não era sacramento e não era indissolúvel! Com Jesus Nosso Senhor, o matrimônio passou a ser sacramento do amor, da aliança nova e eterna entre o Cristo-Esposo e a Igreja-Esposa! O matrimônio cristão é indissolúvel e quem se separa do seu cônjuge e entra numa nova relação conjugal comete adultério! Esta é a imutável palavra do Cristo Jesus (cf. Mt 19,1-9). O Senhor nosso convida o cônjuge que foi abandonado a abraçar uma vida de celibato (cf. Mt 19,10-12). Ele sabe que isto é difícil! Por isso, previne que é necessário ter um coração de criança para aceitar esta Sua exigência (cf. Mt 19,13-15). A Igreja não julga a história e as dores de cada pessoa que fracassou no seu matrimônio. Pelo contrário: procura acolher como mãe solícita as pessoas que, uma vez casadas no Senhor, vivem numa segunda união. Essas pessoas devem ser acolhidas, respeitadas e seguidas para que vivam essa nova união do melhor modo possível. No entanto, não é permito à Igreja fingir que vai tudo bem! O casal em segunda união, ainda que participe da vida da Igreja, deve abster-se da comunhão sacramental, fazendo com piedade e humildade, a sua comunhão espiritual. Nunca esqueçamos: a comunhão não é direito de ninguém; é pura graça de Deus! Diante de Cristo, somos todos discípulos – só Ele é o Mestre e o Guia (cf. Mt 23,9ss) – e devemos ao Senhor a obediência da fé, mesmo quando isto nos custa! Aquele que humildemente obedece ao Senhor, mesmo no sofrimento, não ficará sem a recompensa! Todos nós devemos nos por a caminho para crescer no seguimento de Cristo. Também aquele que está numa segunda união: deve caca vez mais crescer na oração, na disponibilidade para ajudar os irmãos e servir na comunidade paroquial, confiando no Senhor, que é misericórdia e piedade… Mas, isto tudo, sempre na verdade do Evangelho!

4. Um outro ponto tratado neste capítulo é a educação dos filhos! A Escritura é duríssima com os filhos rebeldes… Nunca esqueça: compete primeiro aos pais educar os filhos: é direito e dever deles diante de Deus! Educa-se os filhos com amor, com cuidado, com diálogo, com compreensão, mas também com firmeza, com limites, com correção… Leia Eclo 7,22-28/24-30; 30,1-13; Ef 6,1-4; Cl 3,18-21. Nunca esqueça: a autoridade dos pais sobre os filhos é sagrada e dada por Deus! Os filhos têm o dever sagrado do respeito e obediência a seus pais e estes, por sua vez, têm o dever de educar, amar e bem tratar os seus filhos.

Você educa seus filhos?

Trata-os como pai e mãe ou, ao invés, não usa a autoridade sobre eles?

Dedica tempo para conversar, orientar, rezar com seus filhos?

Você, como trata seus pais?

Reze o Salmo 128/127. Leia Eclo 3,1-16/1-18.