“Eis o sinal: Encontrareis um menino envolto em panos e deitado numa manjedoura” (Lc 2, 12)

Dia de Regozijo e Alegria

“Alegrar-se-á a terra deserta e sem caminho. A estepe regozijar-se-á e florirá como o lírio. Foi-lhe dada a glória do Líbano, o esplendor do Carmelo e de Saron” (Is 35, 1-2)

Quem disse estas palavras foi o profeta Isaías, ao ver em espírito este dia e a bem-aventurança da Virgem Maria, Mãe de Deus. Hoje é dia de regozijo. Não houve ali dores de parto, porque, se tivesse havido, o nosso regozijo ter-se-ia velado por causa das dores. Se Maria tivesse sentido dores e gemido, a nossa festa ter-se-ia entristecido. A Virgem não experimentou dor ou tristeza, mas apenas grandíssimo júbilo e alegria.

Alegrar-se-á a terra deserta e sem caminho. Aquela que não conheceu varão vai regozijar-se e alegrar-se frutificando. Quem nos dera ver, Santíssima Virgem, o vosso regozijo e a alegria do vosso rosto! Quem nos dera ver-Vos, Mãe e Virgem, tão virgem como as virgens e tão mãe como as mães! Foi-Vos dado o esplendor do Carmelo e de Saron, dois montes de grande beleza na Judéia. E se quisermos ver alguma formosura na terra, supliquemos ao Senhor que nos dê olhos contemplativos, a fim de que hoje possamos ver uma donzela na gruta de Belém com um Donzel nos braços. Não há nada mais formoso: Foi-lhe dada a glória do Líbano, o esplendor do Carmelo e de Saron.

Ao conceber Isaac, Sara disse:

“O Senhor fez-me rir, e todos aqueles que o souberem rirão” (Gn 21, 6)

Nunca vistes uma mulher de noventa anos conceber?

– “O Senhor fez-me rir, pois eu já não tinha forças naturais para conceber e Ele me deu forças sobrenaturais para tanto”

Quando o anjo disse ao marido de Sara que a sua esposa conceberia, ela riu, e o filho a quem deu à luz chamou-se Isaac, que significa riso ou alegria. E Sara disse:

“O Senhor fez-me rir, e não somente a mim, mas a quantos souberam disso”

Que palavras adequadas para a Virgem Maria! Foi surpreendente que uma mulher de noventa anos concebesse, mas milagre ainda maior, milagre duplo, foi que uma virgem concebesse sem intervenção de homem e desse à luz sem perder a virgindade.

E quem deixará de regozijar-se ao ouvir que a Santíssima Virgem tem Jesus Cristo nos seus braços? Não foi só a Virgem que se alegrou, mas todos aqueles que souberam do milagre. Alegrai-vos com Ela todos os que a amais, pois hoje se tornou Mãe e Virgem. Hoje, Santo Estêvão, “olhando para o céu, viu a glória de Deus e Jesus que estava de pé à direita de Deus” (At 7, 55); e hoje Cristo está em Belém, nos braços de sua Mãe. Vamos até lá e peçamos-lhe graça, e invoquemos como intercessora a sua bendita Mãe:

Ave Maria cheia de graça,
o Senhor é convosco,
bendita sois Vós entre as mulheres,
e bendito é o fruto do vosso ventre, Jesus.
Santa Maria, Mãe de Deus,
rogai por nós pecadores,
agora e na hora da nossa morte.
Amém

Sinais para Encontrar a Deus

Que o Menino, que nasceu para nossa salvação, e a Santíssima Virgem, sua Mãe, vos deem um feliz Natal!

Um anjo comunicou aos pastores os sinais que os fariam encontrar a Deus:

“Encontrareis um recém-nascido envolto em panos e deitado numa manjedoura” (Lc 2, 12)

Vedes como é linda esta festa? Dou-vos boas novas. Disse o anjo aos pastores:

– “Dai-me os parabéns porque vos trago uma grande alegria: nasceu nesta noite o Cristo Salvador, o Messias, em Belém. E para que não percais de vista, para que não leveis a vida inteira para conhecê-lo, eu vos darei estes sinais: Encontrareis recém-nascido envolto em panos e deitado numa manjedoura” (cf. Lc 2, 10-11)

Porque, para coisas muito importantes, são necessários sinais muito claros, a fim de que ninguém se perca.

Deus começou a dar sinais de Cristo desde Adão: sinais a Abraão, sinais a Jacó, sinais a Davi, sinais a Isaías e a todos os patriarcas e profetas: para que não o percais de vista – disse-lhes -, nascerá em tal lugar, falará deste modo e terá esta condição. Os profetas pintaram Cristo de modo que ninguém deixasse de reconhecê-lo, porque quem dEle se extravia, extravia-se do céu.

Mas, afinal de contas, pouco aproveitarão os sinais para conhecer Cristo se não vier uma luz do céu. Sabeis o que acontece com os astrólogos? Eles leem: “Tal signo do zodíaco possui tais sinais“, e quando vão ver, não o descobrem. Quem possui a luz da fé louve a Deus, pois foi Ele quem lha deu; agradeça-lhe, porque, se Ele não a dá, “em vão trabalham os que constroem a casa” (Sl 126, 1). Diz São Paulo que “a fé é um dom de Deus” (Ef 2, 8). Se do alto não vos vier a fé, de que servem os sinais? Os judeus tiveram sinais, mas, cegos pelos seus pecados, não acreditaram neles.

Por isso, para encaminhar os pastores, Deus enviou-lhes do alto um anjo – e com ele uma grande claridade, que os assustou -, e para que vós não o percais de vista, que disso depende o vosso destino último, disse-vos:

– “Ide a Belém e o encontrareis numa manjedoura, envolto em panos”

Mas que sinal pode ser esse para achar Deus?
Um recém-nascido envolto em panos e deitado numa manjedoura?

Num sermão sobre a circuncisão, diz São Bernardo:

“Na verdade, se quisessem perder Cristo de vista, a circuncisão teria sido um bom sinal, porque a circuncisão era sinal de pecadores, e Cristo não era pecador” (1)

Do mesmo modo, os sinais que o anjo dá mais parecem sinais para desencontrar-se de Deus do que para encontrá-lo: um recém-nascido envolto em panos e deitado numa manjedoura.

Um recém-nascido não fala. Se o próprio ser pessoal deste Menino que hoje nasce em Belém é ser Verbo, isto é, Palavra, dizei-me por caridade como é que posso receber por sinal alguém que, “sendo Palavra, não fala“, esse de quem São João predisse:

“No princípio era a Palavra, e a Palavra estava junto de Deus, e Deus era a Palavra e Aquele por cuja palavra foram feitos o céu e a terra” (Jo 1, 1-3)?!

Como podeis dar-me por sinal um “recém-nascido“, se por esse nome se entende uma criança envolta em paninhos? Belos sinais para encontrar a Deus! Quem foi capaz de envolver em paninhos o infinito? “A minha presença enche o céu e a terra” (Jer 23, 24), diz Deus. Criador do céu e da terra, quem Vos envolveu em paninhos? Como foi que Vos deitaram numa manjedoura? Anjo, que sinais são esses para encontrar a Deus? Explica-nos.

A Honra e a Majestade de Deus

Falando da vinda deste Menino, disse Isaías: “E revelar-se-á a glória do Senhor (Is 40, 5), descobrir-se-á a honra de Deus”. Mas onde está a honra de Deus senão no seu Filho, Jesus Cristo, que nasce hoje em Belém?

Senhor, estávamos à espera da vossa alteza grandiosa, e o que vemos é um menino envolto em paninhos e chorando numa manjedoura. De um lado, um boi, do outro, um asno. Esta é a vossa Majestade? Se é a vossa Majestade, como no meio de tanta baixeza? Se é a vossa Honra, como numa manjedoura? Mas Deus disse a verdade: Revelar-se-á a majestade de Deus. Para compreendê-lo, é necessária a luz do Espírito Santo.

Os que pretendem honra de grandes, há de ser forçosamente à custa dos pequenos; e os que querem ser temidos, forçosamente sê-lo-ão assustando os que não têm forças. Tempo houve em que Deus quis ser temido e se vingava. Tempo houve em que este Menino, que agora não fala, falou, e quem o ouvia afligia-se. O Menino que acaba de nascer é o mesmo que, quando Adão pecou, lhe disse:

“Onde estás, Adão?” (Gn 3, 9)

E foi tão forte essa palavra que Adão se escondeu para não ouvi-la; foi tão terrível, que o expulsou do paraíso terrestre.

Que receias, Adão?

– “Deus fala com tanta majestade que não posso ficar diante dEle; vou-me esconder”.

Era duro o falar de Deus. Apareceu no monte Sinai para falar ao povo de Israel e dar-lhe a Lei, e vinha com tanta majestade que os judeus pediram a Moisés:

“Fala-nos tu mesmo, e te ouviremos; mas não nos fale Deus, para que não morramos” (Ex 20, 19)

Deus falava com tanta severidade que os homens disseram:

– “Não nos fale Deus”

Era tal o rigor com que falava, que os homens se atemorizavam e fugiam da sua presença.

Causava tal temor, que não havia quem se aproximasse dEle, nem mesmo da Arca da aliança, que era levada a duas milhas de distância dos que a acompanhavam. E do povo betsamita que, por curiosidade, quis olhar a Arca – queriam tirar-lhe algum tecido que a cobrisse ou abri-la para ver o que trazia dentro – “Deus matou cinquenta mil homens e, dos principais, sessenta; e eles disseram: ‘Quem poderá subsistir na presença do Senhor?'” (1 Sm 6, 19-20). Sentiram tanto medo que destacaram imediatamente um mensageiro que levasse a Arcar para longe deles.

Que vos parecem aqueles tempos? Temiam tanto a Deus que tremiam de medo. Deus adquirira glória de poderoso e, se quiserdes, honra de Grande (2), e era tal essa glória que já parecia excessivo o temor que inspirava.

A Mansidão e a Misericórdia de Deus

Senhor, que se descubra já a vossa glória, não para que Vos temamos, mas para que Vos amemos. Falai, Senhor, de tal sorte que os homens não fujam de Vós e se revele a vossa honra. Como Ele é bom, como é suave, como é amigável! Mais honra recebeu Deus hoje pela sua bondade do que outrora pelo seu rigor. Maiores coisas faz hoje Deus para que os homens o amem do que fez outrora para que o temessem. Honra de quem é bom, manso e inclinado ao perdão.

Se quereis ver qual é o dia do seu nascimento, meditai nestas palavras de São Paulo:

“Apareceu a benignidade e a humanidade de Deus, nosso Salvador” (Tt 3, 4)

Que significa “humanidade” aqui, se se fala de Deus Pai? Quem viu a Deus Pai feito homem? Essa humanidade significa mansidão, como diz o mesmo Apóstolo em outro trecho:

“Vou-me servir de uma linguagem humana” (Rm 6, 19)

Significa, pois, que apareceu a mansidão de Deus. Como se disséssemos a um homem severo:

– “Sede mais humano, amansai-vos”

Apareceu hoje. Bem-aventurado esse aparecimento e bem-aventurado esse dia que apareceu a mansidão de Deus Pai e de Deus Filho e de Deus Espírito Santo: a carne de Cristo na terra!

Que grande dia é hoje! A Santíssima Trindade prometera a salvação para este dia: “Darei a vitória a Sião e a minha glória a Israel” (Is 46, 13), disse Deus, porque Deus Pai nos enviou o seu Filho e com Ele todos os bens. Porque “Aquele que por todos nós entregou o seu Filho, como não nos dará também com Ele todas as coisas?” (Rm 8, 32). Apareceu hoje a honra de Deus, e uma honra maior, por ser misericordioso e manso e inclinado ao perdão, do que a que tinha outrora, por ser poderoso e vingador. Chegou o dia de Deus nos mostrar a sua misericórdia.

– “Eis o sinal que vos dou para que não percais de vista o Messias: um recém-nascido envolto em paninhos, posto numa manjedoura”

Menino bom, não falais? Só falava como uma criança de dois dias. Para quê tanto silêncio? O Menino cala-se para te dar a entender, pecadorzinho, que, embora tenhas cometido pecados, não te chamará à sua presença como fez com Adão, não te assustará nem te repreenderá. Encontrá-lo-ás tão mudo para repreender como agora para te falar. É a esta luz que devemos compreender este mistério: assim como exteriormente aparece na carne, do mesmo modo traz dentro de si a santa Divindade em mansidão.

Haverá alguém mais fraco e incapaz de fazer o mal do que um menino de dois dias? Desde quando uma criança de dois dias esbofeteou ou matou alguém? Não há nada que cause menos temor do que um recém-nascido. Pois este é o mistério que celebramos nesta festa, não como as pessoas mundanas, mas em espírito, como Ele próprio disse: como “verdadeiros adoradores em espírito e verdade” (Jo 4, 23).

Irmãos, como por fora vedes a Humanidade, em virtude da santa Encarnação de Jesus Cristo e da sua Paixão, assim também deveis ver por dentro a Divindade. Esta é a Divindade que, sem armas, diz:

– “Não te farei mal, pecador, aproxima-te de mim. Do mesmo modo que não deves fugir de uma criança, também não deves fugir da minha Divindade. E como no meu corpo vês mansidão, igualmente deves vê-la na minha Divindade”

Esta é a grandeza de Deus: tal como aparece externamente, assim é interiormente, tão manso e tão misericordioso. Bendito seja esse Deus e bendita a sua misericórdia que a este dia nos deixou chegar, o dia da mansidão e da misericórdia de Deus!

Santo Estêvão via hoje “os céus abertos” (At 7, 56): o Pai e o Filho e o Espírito Santo. Aqueles céus, a quem se abriam no passado? No entanto, hoje fazem chover mel a quem lhes quiser pedir misericórdia.

Envolto em Panos, Vestido de Pecador

Um recém-nascido que não fala, para nos dar a entender que não esbofeteará nem repreenderá ninguém.

“Um menino envolto em panos” (Lc 2, 12)

Sendo Deus, não há quem o possa envolver, mas, como menino, está envolto em panos, pois a Virgem não podia ser tão descuidada que não tivesse preparado algo com que vestir o filho, ainda que pobremente. Senhor, Vós, envolto em paninhos? Quem compreenderá o mistério deste sinal?

Quereria que estivessem aqui muitas pessoas elegantemente vestidas, para que eu as desenganasse! Mas algumas haverá que se vistam com atavios no coração. As roupas que vestimos são sinais da nossa miséria.

Há nas cidades uns garotos ladrõezinhos que roubam muito. Como são menores de idade e ainda não têm um discernimento perfeito, não são castigados segundo o rigor da lei, embora o mereçam. No entanto, para serem identificados, colocam-lhes um aro de ferro ao redor do pescoço, com umas barras que passam por cima da cabeça, e no alto uma sinetinha para que toque e sejam percebidos. Imaginai se houvesse uma pessoa tão louca que pedisse para lhe colocarem no alto da cabeleira uma sinetinha de ouro ou de prata… Que loucura tão grande colocar a sinetinha do ladrão, que é sinal de desonra, buscando a honra na própria desonra! Não vos parece isto uma grande desonra e loucura? Pois eu vos digo que existem muitas pessoas desse tipo e que metade dos que estamos aqui presentes somos assim, e praza a Deus que não o sejamos todos.

Por que nos vestimos? Porque pecamos, pois antes de Adão ter pecado, estava nu e não sentia vergonha. Mas depois que pecou, as suas vergonhas e as suas faltas ficaram a descoberto – “abriram-se os seus olhos” (Gn 3, 7) – e, para cobri-las, vestiu-se. A roupa foi sinal de desonra. E se foi assim, que cegueira a de um homem que, em tal situação de miséria, busca honra nas roupas! Se Adão não tivesse traído a Deus, eu não usaria roupas.

Hoje é o dia das misericórdias de Deus, dia em que os pecadores podem transbordar de alegria e de confiança. Hoje é o dia em que, como diz São Paulo, “Deus enviou o seu próprio Filho em carne semelhante à do pecado” (Rm 8, 3).

Este estar Deus envolto em paninhos é sinal de pecador. Este estar reclinado numa manjedoura, sentir frio e chorar é sinal de pecador, porque pelo pecado vieram os sofrimentos e as incomodidades. E diz São Paulo que Ele tomou uma carne semelhante à dos pecadores. Semelhante a quê? Em estar vestido, sentir frio e chorar e cansar-se, e ter fome e sede como os pecadores. Tirai os pecados, e imediatamente deixará de haver sofrimentos. Tomou carne que parecia de pecador, e Ele não o era.

A Serpente de Bronze

Não vos lembrais de que Deus mandou a Moisés, no deserto, que fizesse “uma serpente de bronze e a colocasse no alto de um poste para que todos os que olhassem para ela não perecessem” (Nm 21, 8-9), não morressem das mordidas das outras serpentes que Ele lhes enviara por causa dos pecados de Israel?

Cristo é homem, parece pecador, mas não o é. A serpente de bronze era uma serpente, mas dentro não tinha veneno. A que se assemelha Deus vestido de homem – sofrimentos por fora e nenhum pecado por dentro – senão a essa serpente de bronze? A figura é de serpente, mas por dentro não tem veneno: sofre sem pecado. Quem olhar para Ele com fé e penitência – vendo que sofreu muito sem cometer nenhum pecado – não se perderá, mas ficará curado das mordidas das outras víboras, que são os seus pecados.

Que significa, pois, envolto em panos?

Que, a partir de hoje, Ele começa a pagar por nós, que somos pecadores e mereceríamos os sofrimentos que padeceu. Rogai ao Senhor que vos dê olhos para entender a grande obra que este Menino assumiu ao nascer. Sabeis que Ele nasceu sem pecado e “tomou sobre si todos os pecados” (1 Pd 2, 24; Is 53, 4-5 e 11-12) do mundo, cometidos e por cometer, carregando-os aos ombros?

E se ao menos os tivesse tomado constando que era inocente, mas tomou-os condenado em nome próprio pela justiça. Vede que peso foi pagar tantos pecados diante de Deus! Poderia ter dito:

– “Eu, que não pequei, pago pelo que não fiz”

Mas a justiça de Deus não perdoa um único pecado sem que seja reparado e a reparação correspondente a todos os pecados dos homens, sem faltar um só, foi executada em Jesus Cristo.

Bendito seja Deus e a sua misericórdia! E – bendito seja tal Deus! Não é lógico que o recebamos com um Te Deum laudamos, com um cântico de louvor? Não vos parece lógico que tenha começado a pagar, desde pequenino, quem tinha tantas dívidas que saldar? Não vos parece ter sido necessário que o envolvessem em panos, e o colocassem numa manjedoura dura, e sentisse frio e chorasse, e que desde cedo começasse a ganhar méritos para tantos filhos tão pobres como somos nós?

À Procura de Pousada

Havia muita gente em Belém, porque, como fora decretado um recenseamento geral, cada um devia alistar-se na sua cidade, e José era de Belém.

Para que compreendais as misericórdias de Deus e como Ele quis ser um verdadeiro peregrino nesta vida, São José e a Virgem Maria começaram a procurar pousada e não a acharam em nenhum lugar, tantos eram os forasteiros. Eles eram pobrezinhos. Saíram, pois, do povoado, em direção a uma estalagenzinha pobre que havia por ali, como uma vendinha mal amanhada. Entraram nela, mas, pela grande quantidade de gente, tiveram de ir até o estábulo, ao lado do qual se via uma rocha e, cavada nela, uma pequena gruta. Encontravam-se por perto algumas pessoas e alguns animais, e essa foi a pousada da Santíssima Virgem e do seu Esposo.

Vários de vós estareis magoados em vossos corações pelo fato de aquela gente sem piedade ter recusado alojamento a tal donzela. José deve ter batido a muitas portas, mas nem por parentesco, nem por amizade, nem por dinheiro conseguiu lugar. Menos ainda ao verem qua esposa estava grávida! Diriam:

– “Que coisa desagradável ter uma mulher grávida dentro de casa: tristeza, gemidos…”

Não, Maria não era uma grávida criadora de casos nem o seu parto seria de dores. Que tolos! Não darem pousada a uma donzela que trazia Deus no seu ventre!

Praza ao Senhor que não haja aqui ninguém que esteja na situação daqueles homens, porque, o que é uma Hóstia consagrada senão uma Virgem que traz Deus dentro de si?

Por que não comungastes neste Natal? Não me refiro a todos. Deus abençoe os que, dentre vós, destes pousada no vosso coração ao Menino que nasceu em Belém. Ele vo-lo pague misericordiosamente e perdoe os ingratos. Como é possível que uma Hóstia consagrada tivesse suplicando: “Dai-me pousada“, e que uns, por estarem em comilanças, outros divertindo-se ou entregues a prazeres sem freio, não tenham querido receber Aquele que a Virgem Maria trazia nas suas entranhas?

Vós que não comungastes fostes piores do que os habitantes de Belém porque estes, não sabendo quem Ele era, não erraram tão gravemente por não o receberem, mas vós, sabendo quem é e sempre fazendo-lhe pedidos, não o quisestes receber! Fizestes muito mal. Deus vos perdoe, mas corrigi-vos. Ainda não terminou o tempo natalino. Que ninguém deixe de preparar-se, e que, por reverência para com Deus, o receba nestes dias que ainda restam.

A Virgem e o Menino

Há uma coisa que quero acrescentar: foi um fardo pesado ter Deus ordenado à Virgem prestes a dar à luz que saísse de casa e percorresse trinta e três léguas. Se as venceu a pé ou não, não o sabemos, mas com certeza foi muito trabalhoso. Vão a Belém e não encontram pousada: outra dificuldade. Instalam-se naquele estábulo: outra incomodidade. Que os anjos louvem Nossa Senhora.

A Virgem percebe que se aproxima o momento do parto. À meia noite – não entre dores, porque não as teve -, experimenta uma grande alegria, tanto maior quanto mais se aproxima o momento do parto. E porque não havia na estalagem um lugar adequado, dirige-se à gruta para dar à luz o Senhor dos céus e da terra. Ergue os olhos ao céu. Quando toma consciência, vê diante dela o Menino, que chora.

Quem nos dera contemplar a Virgem ajoelhada diante dEle! Como sabia que era Deus, não ousava, por reverência, tomá-lo nos braços; mas, como era seu filho, queria por outro lado estreitá-lo contra si com amor. Adora-o como verdadeiro Deus e depois toma-o em seus braços. Toma-o nos braços e dá-lhe de mamar do seu leite virginal. Quereis ver de todas as coisas lindas a mais linda? Vede uma donzela no presépio de Belém com um Donzel nos braços, dando-lhe de mamar.

Estais contente, Igreja, por terdes agora Aquele que tanto desejáveis e de quem dizíeis:

“Quem me dera ver-Te, meu irmão, nos braços de minha mãe, mamando do seu seio!” (Ct 8, 1); quem me dera receber esta graça de ver-Te nos braços da tua Mãe! Quem me dera ver-Te nos braços de uma donzela, “sem que ninguém me censurasse” (Ct 8, 1). A partir de hoje, Deus Pai não me censurará, porque me deu o seu Filho; nem Deus Filho me censurará, porque se dá a mim como irmão; nem Deus Espírito Santo, pois foi Ele quem realizou tudo isso. Bem-aventurados os homens, por cujo bem nos foi dada tanta honra e tanto bem!

Eis, pois, o Menino recém-nascido!

Por que a Manjedoura?

“E o reclinou numa manjedoura” (Lc 2, 7)

Por que numa manjedoura? Precisamos da luz de Deus para compreendê-lo.

Minha Mãe, mais terna que todas as mães, por que tiraste o Menino dos teus braços e o colocaste na manjedoura? Não vês que aí não há almofadas? Senhora, não estava mais quente e mais conchegado nos teus braços do que na dura manjedoura? Então por que o colocaste aí?

“Porque não havia lugar para eles na estalagem” (Lc 2, 7)

Que condenação das minhas riquezas, dos meus prazeres e dos meus desvarios!

Senhor, Vós que dais morada aos homens e ninhos às aves, Vós que a todos recebeis, não tendes um lugar para Vós mesmo? Se não havia lugar na hospedaria, não haveria lugar no teu regaço, Senhora? Tu vales mais que os palácios, que os homens e os anjos; mais contente está Ele nos teus braços do que em palácios ou mesmo nos céus. Não havia lugar no teu colo? Diz-nos, pelo amor que tens ao teu Filho, por que o tiraste do teu regaço e o colocaste na manjedoura.

Grave-se isto nos vossos corações: tudo o que a Virgem Maria fez com o seu Filho foi por graça e iluminação do Espírito Santo. Assim como o concebeu pelo Espírito Santo, assim também aprendeu dEle a cuidar do seu Filho. Essa mesma graça nos é necessário, tanto para que Cristo entre nas nossas almas como para que possamos conservá-lo e não o percamos. Mas continuamos a perguntar: Senhora, por que o tiraste dos teus braços e o colocaste na manjedoura?

Para Me Curar

O próprio Filho, pela ação do Espírito Santo, a inspirou a colocá-lo na manjedoura. E já que foi Ele quem a inspirou, perguntemos-lhe:

– “Por que quereis, Menino, sair dos braços da vossa Mãe e colocar-Vos na manjedoura?”

– “Para dar uma grande bofetada na vossa tibieza e frouxidão!”

Não o fez sem causa, e praza a Deus que, tendo agido assim, alcance de nós o que deseja.

– “Senhor, por que na manjedoura?”

– “Porque Adão, ao pecar, foi jogado no lugar dos animais. ‘O homem que vive na opulência e não reflete é semelhante ao gado que se abate'” (Sl 48, 21)

Deus criou este mundo para os animais e o paraíso terrestre para os homens. Adão pecou, e por isso vive no lugar dos animais. E porque este Menino veio pagar o mal que Adão cometera, sai do lugar onde estava tão feliz, o ventre de sua Mãe bendita, e é desterrado para o lugar dos animais.

Dizei-me: há lugar mais desprezível para um recém-nascido do que uma manjedoura e, depois de crescido, do que uma cruz? Senhor, sabíeis que o homem tem o coração empedernido, e por isso o Alto teve de descer tão baixo, a fim de dizer aos homens que eles se enganam ao procurar riquezas, honras e deleites na terra:

“Ou Cristo está enganado – diz São Bernardo – ou os homens mentem e se enganam com as suas riquezas e deleites. Ora, é impossível que Cristo se engane, mas os homens enganam-se facilmente” (3)

Como podes, homem regalado, continuar a viver entre molíces e deleites, vendo Cristo numa manjedoura? Não te envergonhas, tu que só buscas honrarias? Como podes suportá-lo? Se te lembrares de que Cristo está numa manjedoura, não sentirás vergonha de tanto te enalteceres neste mundo? Ele é o Filho muito amado de Deus Pai, mas quando nasce é numa manjedoura, quando morre é numa cruz!

Por que Choras, Menino Bom?

O Menino chora na estreiteza do estábulo. Por que choras, Menino bom? Estará aqui presente algum grande pecador que trema quando Deus lhe disser:

– “Onde estás?”?

Que grande mal tê-lo ofendido muito, lembrar-se de vinte anos de grandes ofensas! Que resposta darás quando Deus te interpelar?

Assim como tu tremes, tremiam os irmãos de José quando este lhes disse:

“Eu sou José, vosso irmão, que vós vendestes” (Gn 45, 4)

E eles pensaram:

“Infelizes de nós! Ele agora é Rei. Há de querer matar-nos, tem motivos e pode fazê-lo”

Tremiam. É o pecador que treme por ter ofendido a Deus. Ofendestes a Deus e por isso tendes razão em tremer. Convido os que estão em erro, os que têm a consciência pesada e os grandes pecadores a ir até à manjedoura ver o Menino chorar.

Por que chorais, Senhor? Os irmãos daquele José não ousavam aproximar-se dele, até que o viram chorar:

“Eu sou vosso irmão, aproximai-vos, não tenhais medo”

José levanta a voz, chora e, não contente com isso, conforme diz a Sagrada Escritura, “beijou em seguida cada um dos seus irmãos, chorando com todos eles” (Gn 45, 15), e os irmãos pediram-lhe perdão.

– “Não tenhas receio” (Gn 45, 5) – dizia-lhes ele -, vendestes-me por maldade, mas, se eu não tivesse vindo para cá, todos morreríeis de fome. Deus tira dos males o bem”

Menino, por que chorais?

– “Para que os pecadores compreendam que, embora tenham pecado, devem aproximar-se de Mim sem temor, se se arrependerem de ter-Me ofendido”

O Menino chora de ternura e de amor. Bendito Menino! Quem Vos colocou nessa manjedoura senão o amor que tendes por mim? Fomos maus e ingratos, como contra o nosso irmão José. Vendemo-lo. Um disse:

– “Prefiro cometer uma maldade a ficar com Cristo”

Outro disse:

– “Prefiro um prazer da carne a Ele”

Vendemos o nosso Irmão, traímo-lo.

E José, o santo, convida-nos a aproximar-nos da manjedoura e a ouvir esse choro causado por cada um de nós. Se olhásseis para esse Menino com os olhos limpos, se adentrásseis na sua alma, encontraríeis uma inscrição que vos diria: “Estou chorando por ti”, pois desde a concepção Ele teve conhecimento divino e conhecia todos os nossos pecados e chorava por eles. E se está chorando pelos nossos pecados, que pecador não sentirá confiança, se quiser corrigir-se? Há algo no mundo que inspire mais confiança do que ver Cristo numa manjedoura, chorando pelos nossos pecados?

Por que chorais? Que fazeis, Senhor?

– “Começo a fazer penitência pelo que tu fizeste”

Pois bem, que fará um cristão que olhe com olhos de fé para Cristo que chora pelos seus pecados? Ai de mim, porque tarde Vos conheci, Senhor! Ai de mim por tantos anos perdidos sem Vos conhecer! Quem se deixará dominar pela tibieza ao ver Deus humanado chorar?

Começamos uma Vida Nova

Se, estando o sol no céu, não o suportamos durante o verão, que aconteceria se ele descesse à terra? Se estando Deus no céu, havia aqui em baixo quem o amasse – um Abraão, que, por amor dEle, deixou a sua terra e vagueou como um cigano por regiões estranhas; um Isaías, um Jeremias, que foram mortos por pregar a verdade (cf. Hb 11, 37), com um amor que tanto sofreu… Se, estando outrora lá em cima, o Sol abrasava, o que não será agora que desceu e se colocou numa manjedoura, e passa frio… e, quanto mais frio passa, mais eu me aqueço; e quanto mais incômodos sofre, mais eu descanso; e quanto mais Te vejo padecer por mim, Senhor, mais acredito que me amas!…

Comecemos uma vida nova, porque o Menino a começa. Saístes, Senhor, do ventre da vossa Mãe, “percorrendo o caminho como um gigante” (Sl 18, 6). Ides pelo caminho da humildade, da pobreza. Ides à corte para resolver os meus problemas. Quero ir convosco. Que absurdo ver-Vos, meu Rei, no lugar mais desprezível, numa manjedoura, e eu querer ser honrado! Que absurdo ver-Vos pobre e eu querer ser rico! Será possível que Deus chore pelos meus pecados e eu me sinta bem? Que trabalhe por mim e eu descanse? Serei o vosso companheiro, Senhor. Quero ir convosco, pois ides para resolver os meus problemas. Dou-Vos graças por terdes nascido. Dou-Vos graças por terdes preferido uma manjedoura.

Maria coloca o Menino na Manjedoura para entregá-Lo a ti

Maria coloca o Menino na Manjedoura para entregá-Lo a ti

Resta-me ainda uma dúvida, minha Rainha: por que colocastes o vosso Filho na manjedoura? Já sei que foi Ele quem o quis. Mas agora desejo saber por que o fizestes Vós. Há moças que usam a medalha do agnus Dei (4) para ficarem mais belas. Mas esse agnus Dei tem apenas o nome e é de ouro ou prata. O Agnus Dei, o Cordeiro de Deus que a Virgem Maria tem nos braços é o que há de mais belo, pois é o santíssimo Menino. Nos braços de sua Mãe, resplandece e embeleza-a mais do que as estrelas o céu e a terra.

Bem-aventurados os olhos que mereceram vê-lo! Uma coisa muito linda: a Virgem Maria e o Menino com Ela, no seu colo; uma Lua vestida de um Sol. Não há nada mais belo de se ver. Rogai à Virgem Maria que vos dê olhos que saibam vê-la. Quando contemplo uma imagem de Nossa Senhora com o Menino nos braços, penso que já vi tudo.

Se vedes como estais formosa com Ele, Maria, por que retirais o Agnus Dei do vosso regaço? Por que tirais dos braços Aquele cujo Pai verdadeiramente está nos céus, Aquele que é Senhor do céu e da terra, igual ao Pai e ao Espírito Santo? Penso que deveis ter chorado de agradecimento e que as vossas lágrimas terão rolado pelo vosso rosto e banhado o rosto do Menino. – “Que maravilha ter nos meus braços Aquele que me criou!“, diria a Senhora, pois sabia dar graças por isso. Amava o seu Filho mais do que a sua própria vida.

Senhora, por que perdestes tanto regozijo? Por que retirastes o Agnus Dei

– “Quereis que vo-lo diga? Que Deus vos dê a graça de compreender e de não o esquecer: tirei-o para entregá-lo a vós. E Eu cuidarei dEle para vosso bem”

Imaginai que tendes um leitão e o engordais para oferecê-lo a alguém; e enquanto o engordais, esse a quem o dareis anda despreocupado, ao passo que vós cuidais de engordá-lo para ele. E se esse homem não vos agradecer o leitão, não será lógico que pelo menos agradeça os cuidados com que procurastes criá-lo e engordá-lo? E nós, quanto não Vos devemos, Santa das santas, Mãe amável? Deus concedeu-Vos o seu Filho deixando-o nas vossas entranhas, e Vós tomais o Menino e o alimentais para nós! Pensava assim a Virgem Maria quando o envolvia e o ninava nos seus braços:

“Estou alimentando este Cordeiro para os homens: trabalharei, tecerei e ficarei com as minhas mãos para alimentá-lo para os homens”

E afinal para quê? Para que eu acabe por não Vos agradecer por me terdes dado um Cordeiro, Cordeiro sem mancha, alimentado durante trinta e três anos!

Davi disse:

“Tratai de compreender, gente estulta” (Sl 93, 8)

E assim deve ser, a fim de que, colocado na manjedoura, compreendamos como nós, os homens, nos transformamos, pelo pecado, em animais; mas se nos arrependermos, poderemos aproximar-nos desse Cordeiro, pois está no lugar onde os animais comem. Que outra coisa posso fazer senão expulsar de mim os pecados e acolher este Menino e ousar chamá-lo, daqui por diante, com grande alegria:

“Meu Menino e meu Deus!”?

Nas pegadas do Menino

Não quereis que me alegre com este dia? O pobre e o presidiário ficam na expectativa do dia de Natal, para que lhes deem um pouco de pão e os soltem da prisão, e eles se alegram com o que lhes dão, e não quereis que eu me alegre com tal dádiva, prometida muito tempo antes por boca de Isaías quando nos anunciou:

“Um menino nos nasceu, um filho nos foi dado” (Is 9, 5)?

Seja Ele bendito, e a sua Mãe seja bendita, e também quem os receber!

Por isso disse também Isaías:

“Uma virgem conceberá e dará à luz um filho, e o chamará Emanuel, que significa ‘Deus conosco'” (Is 7, 14; cf. Mt 1, 23). “E se Deus está conosco, quem será contra nós?” (Rm 8, 31)

E se Deus é nosso, estamos ricos. Isaías disse ainda:

“O Senhor Deus vem em meu auxílio, quem ousará condenar-me?” (Is 50, 9; cf. Rm 8, 33)

Não há motivo para temer o demônio, se estamos à sombra deste Menino; não há motivo para temer o inferno se, com penitência, dEle nos aproximamos; nem nos faltará bem algum, se deste Menino participamos.

Deveis estar contente, Isaías, que em voz alta vos dirigíeis ao Senhor, dizendo:

“Enviai o cordeiro ao monte de Sião” (C.f Is 16, 1)

E por que o chamais Cordeiro?

– “Para denotar a grandeza do desígnio de Deus, porque o cordeiro defende as suas ovelhas do lobo”

Que novidade e que notícia inesperada: o leão e o lobo fogem ao verem um cordeiro! O demônio, que é o lobo e leão, já fizera os seus cálculos:

– “Os homens são meus pelo pecado, meus escravos e filhos da minha escrava. Que Deus fique sentado na sua grandeza e cumpra em mim a sua justiça, pois não temo que Ele me tire o que é tão meu por direito”

Mas “esta é a noite ditosa” para nós e terrível para Lúcifer (5), na qual surge o Deus humanado, humilhado e feito Cordeiro, e se cumpre a ameaça que no princípio do mundo Deus fizera contra o demônio ao predizer-lhe que viria alguém “esmagar-lhe a cabeça” (cf. Gn 3, 15). Este Cordeiro foi quem a esmagou e o venceu, padecendo pelos nossos pecados, prefigurado no Antigo Testamento, quando Deus mandava que se oferecesse um cordeiro no templo pela manhã e à tarde.

“Como um cordeiro padeceu e não abriu a boca diante do tosquiador” (Is 53, 7)

E quanto mais se calava da boca para fora, mais gritos dava por dentro, oferecendo-se ao Pai (Hb 10, 7-9). E assim, pelo caminho da justiça, libertou os que estavam condenados sob o poder do demônio, e tornou-se nosso Redentor e Mestre, a quem devemos seguir e obedecer, se não queremos perder-nos.

Já vistes, quando há muita neve, como é difícil acertar com o verdadeiro caminho, e como é perigoso alguém dele se perder, e quanto agradeceríamos a quem fosse adiante de nós, mostrando o caminho com pegadas que fossem tão certas que não pudessem desviar-nos? A Verdade de Deus vem ao mundo e a partir desta noite começa a caminhar. E se virdes como estão obstruídos os caminhos das virtudes que levam ao céu e quão grande é a vaidade e mentira que se usa no mundo, a vossa cabeça se confundirá e a virtude dos vossos olhos se turvará, como acontece quando vedes muita neve. E não tendes outro remédio para acertar com o caminho senão pôr os olhos no lugar onde este Menino pisa e caminhar por ali. Olhai a sua humildade, a sua mansidão, a sua caridade, a sua obediência, virtudes que já põe em prática e que virá a pregar quando crescer.

Dá-nos a Lei, e convém que a guardemos, e dá-nos graças e favores para que a guardemos. Moisés trouxe unicamente os mandamentos, mas este Menino traz mandamentos e ajuda para que os cumpramos (cf. Jo 1, 17), pois, olhando para tudo o que faz e sofre pelo nosso amor, convida-nos e anima-nos veementemente a amá-lo. E quem o ama cumpre facilmente todo o resto. E não somente nos convida a amá-lo, mas também infunde em nós o amor, se nos encontra bem dispostos, e enriquece-nos aqui com os bens da sua graça e, depois, com os bens da glória.

Referências:
(1) De circ. Domini sermo, 3, 3; ML 183, 138
(2) Membros de determinadas famílias da mais alta nobreza espanhola, chamados “Grandes de Espanha”
(3) In Nativ. Domini sermo, 3, 1; ML 183, 123
(4) Rekicário com a imagem do Cordeiro de Deus, bastante em voga na época
(5) Cf. Missal Romano, Sequência pascal

(Ávila, São João de. O Mistério do Natal. Prefácio e tradução de Gabriel Perissé. Quadrante 1998, 2ª ed., p. 29-52)