“E, prostrando-se, o adoraram” (Mt 2, 11)

Dor e Alegria

Ter filhos é uma grande alegria para as mulheres casadas, mesmo que sofram as dores do parto. Diz Jesus Cristo:

Depois que deu à luz um menino, já não se lembra da aflição por causa da alegria que sente pelo filho” (Jo 16, 21)

O dia da alegria das mães é aquele em que dão à luz os seus filhos. Consideram-se grandes maravilhas de Deus “tirar o pobre da imundice” (Sl 112, 7) e “fazer a mulher estéril dar à luz” (cf. Is 54, 1 e 1 Sam 2, 5). Juntemos estas duas coisas e acrescentemos outra maior.

Quando dá à luz, a mulher sente dores, mas depois do parto se alegra; e, se não podia dar à luz, Deus faz a maravilha de lhe dar filhos. O filho depois da esterilidade é motivo de dupla alegria. Quantas causas de regozijo quereis que acrescentemos hoje à Virgem Maria? Uma mulher honrada, casada, desejosa de fazer o bem, que tem entre os braços um Menino que chega a tirar-nos a vontade de ver os céus; mãe de um filho cujo parto foi sem dores.

Oh, Senhora, se um filho que dá dor, depois do parto dá alegria, quanta alegria não Vos dará Aquele que no parto Vos deu duplo regozijo? Se a estéril sente tanta alegria quando dá à luz, quanta alegria não sentirá a que permaneceu virgem depois de ter dado à luz? Se a mulher que dá à luz se sente feliz sem saber que futuro espera o seu filho, até que ponto não se regozijará Aquela que deu à luz um filho que sabe ser o Filho de Deus? Bem o disse Isaías: “Alegrar-se-á a terra deserta sem caminho e a estepe regozijar-se-á e florirá como o lírio” (Is 35, 1), louvando Aquele que tanto bem lhe fez!

Pensais que, por muito que tenham madrugado os pastores e os reis para adorarem o Menino, Maria não acordou mais cedo ainda? Os pastores simbolizam os judeus, e os reis os pagãos. Antes que todos eles, adorou-o a Virgem Maria, dando-nos a entender que, se Abraão foi chamado o pai dos que creem, mais razão há para que a Virgem Maria seja chamada a mãe da fé. Que alegre e honrada se sente Ela com este Menino, vendo os reis darem-lhe “ouro, incenso e mirra!” (Mt 2, 11). Riqueza que durará pouco tempo, porque Ela a dará aos pobres. Para que havia de querê-la?

– “Se o meu filho ama a pobreza, para que hei de querer a riqueza?”

Essa é, Senhora, a vossa situação: Vós a receber de Deus e a dar aos pobres o que Ele Vos dá; Deus a dar-Vos e Vós porfiadamente a repartir. Que tendes que não nos tenhais dado? Está desejosa de dar-nos; pois digamos-lhe com muita devoção:

Ave Maria cheia de graça,
o Senhor é convosco,
bendita sois Vós entre as mulheres,
e bendito é o fruto do vosso ventre, Jesus.
Santa Maria, Mãe de Deus,
rogai por nós pecadores,
agora e na hora da nossa morte.
Amém

A Vocação dos Magos

Jesus Cristo não é nada ocioso. Veio quando o mundo anoitecia mas, como disse Davi, começou a trabalhar com toda a pressa (cf. Sl 18, 6-7). Os velhos que viveram mal durante toda a sua vida, dizem:

– “Quero apressar-me e utilizar bem o tempo que me resta de vida, para compensar a má vida passada”

A quem sobra pouco tempo de sol, só lhe resta apressar-se. Jesus Cristo não fica de braços cruzados: é o amor que o faz ser tão diligente. Mal saiu o sol, e já o vemos trabalhando.

Senhor, todos Vos contemplamos nascido numa gruta e reclinado numa manjedoura. Que verá Deus nesse acúmulo de pó, que será que mantém sustido aos peitos de uma mulher Aquele que conserva na existência os homens e os anjos? Mas será uma novidade tão grande? Se não o entendeis, entendei-o agora. Esta festa, irmãos, em que Deus se faz pequenino por amor aos homens, foi feita para vós; alma, tu és a dama, é por ti que se realizam estes torneios, a fim de que a humanidade se cure e se salve. É por isso que, mal Deus nasce, vêm os anjos dar a boa-nova aos pastores:

– “Nasceu-vos hoje um Salvador (Lc 2, 11), andai, ide até lá. Apressai-vos, correi até o Salvador para que sejais salvos”

Já tinham sido chamados os pastores, mas Jesus Cristo viu que havia muito mais gente por chamar, e chamou os reis. Se os pastores, que tinham fé, enviou um anjo, que é pura inteligência e espírito, aos reis pagãos enviou uma estrela impessoal, que surgiu na Pérsia, a leste de Jerusalém. Quer tenha sido pela sua grande misericórdia, que quis fazê-los esperar a estrela desde que Balaão a profetizara (cf. Nm 24, 17), quer por ter querido mostrar desse modo como tinha nascido, a verdade é que viram a estrela. São Mateus diz:

“Os magos viram a estrela” (Mt 2, 2)

“Magos” não significa homens dedicados à magia; “magos”, na língua persa, significa sábios. São chamados reis porque os sábios reinavam naquela época ou, talvez, porque fossem reis menores. Essa estrela não era das que estão fixas no firmamento, nem estava nos distantes céus em que se movem os outros planetas. Estava mais baixo que todas, não se movia com as outras, tinha um movimento particular e uma luz particular. Significava a luz e o conhecimento da fé, que está num nível diferente dos outros conhecimentos.

O conhecimento pelo qual sei que Jesus Cristo está sob as aparências do pão e do vinho, não é como os outros, não está ao alcance da razão natural. que diz a estrela?

“Nasceu o Salvador”

O astrólogo não chega a alcançar esse saber. Os magos viram a estrela resplandecer nos ares; transmitia tanta alegria com o seu resplendor que, iluminados sobre o seu significado, se dispuseram a partir.

Procuremos o Senhor

Acompanhemo-los agora, pois temos estrela como eles, e adoremos Aquele que vão adorar, porque, se não procurarmos o Menino, morreremos. Empreguemos a vida acompanhando estes reis à procura de Deus. São Bernardo diz que o maior dos negócios de um cristão é buscar a Deus com todas as forças, deixando o sangue (1); e se alguém não o procura desse modo, poucos são os bens espirituais que possui. Dai-me uma alma desejosa de Deus, que não se incline diante das riquezas, da honra nem de qualquer coisa mundana: essa acompanhará os reis.

Não há nada que mais me desanime nem que mais me faça deixar cair a cara de vergonha do que ver o amor com que me procurastes, Senhor, e o descuido com que eu Vos procuro. Procurais-me como se a vossa vida consistisse em procurar-me, e eu fujo de Vós como se encontrar-Vos fosse para mim morrer, quando na verdade é o contrário: procurando-me, Vós encontraste a Morte e, encontrando-Vos, eu encontro a Vida. Vê o que Ele fez por ti e o que padeceu por ti. Como pode ser que a torrente dos seus sofrimentos não consiga extinguir o fogo do seu amor (Ct 8, 7) e eu permaneça tão distraído e tão despreocupado, como se Ele não me tivesse vindo procurar?

Bem o percebeu São Paulo quando disse: “Se alguém não ama Nosso Senhor Jesus Cristo, seja maldito” (1 Cor 16, 22), pois o Senhor já veio! Não é próprio de um cristão que, tendo já chegado Deus, tu não o ames. Antes de Ele vir, não era de admirar que não o amasses, pois a condição humana é tão livre e excêntrica que não amaria nem mesmo o próprio Deus se não visse que Deus a ama; e Deus escondeu a sua onipotência e a sua onisciência precisamente para mostrar aos homens o seu amor. Acompanhemos os magos, portanto, à procura do Senhor.

Procuremos com Decisão

Caminham dia após dia ate chegarem a Jerusalém. Perguntam:

“Onde está o rei dos judeus, que acaba de nascer?” (Mt 2, 2)

Vedes que nobre atitude? Ainda não viram Jesus Cristo e já desejam morrer por Ele. Não há dúvida de que estes são os homens que verdadeiramente procuram a deus, e não esses outros que, por qualquer ninharia, deixam de procurá-lo.

Tu costumavas levantar-te cedo para rezar, mas agora, porque faz frio, já não te levantas; davas esmolas, mas agora, porque o preço do pão aumentou, já não a dás. Se alguém te encostasse uma espada à garganta, então haverias de procurá-lo melhor! Quem procura a Deus durante um tempo e depois o abandona deve ser chamado lunático, cana agitada pelo vento. Quem não está decidido a morrer por Deus, antes que abandoná-lo, não o procura de verdade.

“Onde está o rei dos judeus, que acaba de nascer?”

Que nobre testemunho! Não existia rei em Jerusalém? Herodes não era rei? Vinham decididos a arriscar a cabeça pelo Menino, e por isso o encontraram. Quem o procurar mentirosamente, não o encontrará, mas quem verdadeiramente o procurar, sem dúvida o encontrará.

“O Senhor é bom para quem nele confia, para a alma que o procura” (Lm 3, 25)

Estas são as palavras que nos colocarão diante dos olhos no dia do Juízo, para nossa maior condenação; se Deus é bom para quem o procura, como será para quem o encontra? (2) Procurar alguma coisa é causa de sofrimento e aflição; procurar a Deus não é assim: mais prazer te dará a oração constante do que os deleites sujos da carne; mais deliciosos serão para ti os jejuns do que todas as vilezas da terra de que te sacies.

Como o Senhor é bom para quem nele confia e para a alma que o procura!

De nada vale procurar a Deus sem perseverança e esperança. Dois alforjes deves levar para procurar a Deus: a confiança e a perseverança. Às vezes, parece que Deus se faz surdo e diz:

– “Se vens à minha porta, dou-te com ela nos olhos para ver se tens confiança; e se procuras deleites em mim, dou-te secura e tristeza para provar a tua confiança”

Assim como a castidade é provada quando te sentes perseguido e solicitado pela impureza, assim também a confiança é provada na perseguição.

O Senhor é bom para quem nele confia, para a alma que o procura

Estas são as palavras, como acabamos de ver, que nos dirão no dia do Juízo. E o que responderás a Deus quando te disserem:

– “Nunca viste um homem que, por lhe terem dito que havia ouro nas Índias, vendeu os seus bens e deixou a sua terra, mulher, filhos e amigos, e depois talvez nada tenha encontrado do que lá procurava, ou talvez se tenha afogado no mar e morrido frustrado, por ter posto a sua esperança em coisa incerta?”

Senhor, se aprouvesse à vossa bondade que se apresentassem diante dessas pessoas as testemunhas que Vos procuraram a Vós, veriam elas que não houve ninguém que Vos tivesse procurado e não Vos tivesse achado. Todo aquele que o procura encontra-o. Não empenharei os meus bens na palavra de Deus?

Quero servir a Deus, quero procurar a Deus, quero fazer a sua vontade, pois tenho a sua palavra. Que direis, vós que sofreis tanto para procurar uma gota da água que não vos mata a sede, e que, para beber da “fonte de água viva” (cf. Nm 20, 6-8; Jr 2, 13 e Ap 21, 6), para alcançar uma meta grande, não há quem vos faça refrear a língua nem acordar um pouco mais cedo?

Os que não Acabaram

Vinham os magos, decididos. Quem não se decide a servir a Deus por toda a vida ou a morrer à sua procura não está capacitado para a guerra. Deus oradenava aos israelitas que, à hora de entrarem em combate numa guerra, se anunciasse por meio de um arauto que todos os que estivessem construindo uma casa e ainda não a tivessem acabado, e todos os que tivessem plantado uma vinha e ainda não tivessem colhido os frutos, e todos os casados e todos os medrosos – voltassem para suas casas (Dt 20, 5ss; 1 Mac 3, 56 e Jz 7, 3).

– “Padre, que quereis dizer com isso?”

Que nem todos estão capacitados para a guerra. Porque dirás:

– “Não acabei o que estava fazendo”

Tereis o corpo na guerra e o coração em casa (Mt 6, 21). Esses são os homens sobrecarregados com as ocupações da vida:

– “Que farei, que comerei, como sustentarei os meus filhos?” (Mt 6, 25 e 31)

Julgais que, preocupando-vos em demasia, conseguireis manter-vos. Infeliz o homem que não se apoia em deus, mas que vive pensando se choverá muito ou se não choverá!

Dou-te este sinal para que vejas se estás apoiado em Deus: se nas dificuldades te afliges, se nos sofrimentos te encolhes, não estás apoiado em Deus. “Na hora da angústia me reconfortastes” (Sl 4, 2), diz Davi. – “Não posso Eu sustentar-te sem a chuva?“, diz-te o Senhor. Aquele que se apoia em Deus não se deixa abater nem pelos sofrimentos, nem pelas angústias, nem pela morte, nem pelo inferno. Quem não se apoia nEle, quanto medo sente, como anda preocupado!

Disse Jesus Cristo:

“Não vos preocupeis pela vossa vida, nem pelo vosso corpo, nem pelo que vestireis” (Mt 6, 25-31)

Estais tão cheios de preocupações com o muito comer e beber que, se a palavra de Deus entrar nos vossos corações, um minuto depois será sufocada! (cf. Mt 13, 22). Trabalhai e ganhai o suficiente para comer, que Deus assim o quer, mas essas preocupações e angústias desmedidas são sinal de que não estais apoiados em Deus. Quem se encontra nesse estado não irá para a guerra.

Os Sensuais e os Medrosos

Em segundo lugar, os casados, que aqui quer dizer os sensuais. Diz o Sábio:

“Qualquer palavra sábia, ouvida por um homem sensato, será louvada por ele e dela se aproveitará. Que a ouça um luxurioso, e lhe parecerá desagradável e a arremessará para trás das costas” (Eclo 21, 18)

Não há pecado que mais entorpeça a alma do que este. Jovem lascivo, olha que dentro em pouco essa tua carne será alimento para os vermes e se transformará em cinzas. Podes retirar-te: não irás para a guerra.

Em terceiro lugar, estão os medrosos, os que se preocupam com o que se pode dizer deles. Observamos à esposa:

– “Tens dez saias e a tua irmã apenas uma; tens seis mantilhas e a tua irmã apenas uma, com a qual vai à missa. Isso não é fraternidade: não pareces acreditar que Jesus Cristo está no pobre. Vende essa saia, contenta-te com uma ou duas, e com as outras compra para a tua irmã”

– “Mas que dirão os outros de mim? Compreendo que o que me mandas é bom, mas queres que eu pareça a empregada das outras? Se as minhas amigas fizessem o mesmo, eu também o faria”

Ó louca! Como vives, com o mundo ou com Deus? Depois, ireis a Deus, dizendo:

– “Paga-me”

E o Senhor te dirá:

– “Os serviços que me prestastes, Eu vo-los pagarei, mas os que andastes prestando ao meu inimigo, como quereis que vo-los pague?”

É difícil encontrar quem ande só. E se é para ir só, então é melhor ir por onde foi Jesus Cristo. Não pelas pompas, jóias ou brocados, embora por aí sigam muitos reis. Não ousarás ir de mãos dadas com Jesus Cristo por onde Ele foi? É impossível que quem abriu uma conta com o mundo tenha outra aberta com Deus.

“Ninguém pode servir a dois senhores” (Mt 6, 24 e Lc 16, 13)

Quem é amigo deste mundo por isso mesmo tornou-se inimigo de Deus. O medroso diz:

– “Dirão que sou um hipócrita!”

Deves procurar a Deus com decisão, aconteça o que acontecer. Cortem-me a cabeça, que nem assim o abandonarei.

Disse Jesus Cristo:

“O que vos é dito ao ouvido, pregai-o sobre os telhados” (Mt 10, 27)

É com esta condição que Deus te dá a conhecer a verdade: que digas em público o que te disseram em segredo. Gostaríeis de ser como aqueles de quem fala São Paulo que “retêm a verdade na injustiça?” (Rom 1, 18). Quem tem a verdade e não a confessa nem se comporta de acordo com ela está prendendo a verdade na injustiça. Onde está o rei dos judeus? Nós já o conhecemos. Devemos professar esta verdade custe o que custar. Vede como é o mundo: os reis magos vêm de longe à procura do Salvador, e os que estão na terra dEle nem se dão conta da sua presença.

A Inquietação de Herodes

“O rei Herodes turbou-se, e toda Jerusalém com ele” (Mt 2, 3)

Que o rei se inquietasse não era muito, mas toda a cidade?

Por aqui vedes como é necessário que haja um bom rei na cidade e uma boa cabeça que reine. Se o bispo é mau, mau o magistrado, mau o pároco e mau o pregador, dificilmente haverá um bom povo. Esta é a intenção pela qual mais deveríeis rezar a Deus e é dela que mais vos esqueceis.

“Senhor, dai-nos bons governantes; Senhor, dai-nos bons dirigentes. Que os reis Vos temam; dai-nos bons sacerdotes e pregadores”

Toda a cidade turbou-se com o rei. Diz o rei:

– “Então quereis outro rei além de mim?”

E diz o criado:

– “Que quereis que eu faça? O meu patrão ordena que eu o acompanhe nas suas noitadas”

E pensa o sacerdote:

– “Se eu disser a Fulano que tem uma amante, se lhe disser que não comunga, encher-me-á de pancadas”

Ora, para quem quereis a honra, se não é para Jesus Cristo? Não vale a pena morrer pela honra de Deus? É uma grande honra morrer pela honra de tão grande príncipe!

Herodes perturbou-se, começou a tremer e, convocando todos os príncipes dos sacerdotes e os escribas do povo, perguntou-lhes onde havia de nascer esse rei. Disseram-lhe: Em Belém de Judá, porque assim foi escrito pelo profeta. Disse Herodes aos magos: Ide e informai-vos bem acerca do menino, e, quando o encontrardes, comunicai-me, a fim de que também eu vá adorá-lo (cf. Mt 2, 4-8); na verdade, para matá-lo.

Os reis partem e ele fica. Não vedes como está bem representado aqui o mau pregador? Prega onde se pode encontrar a Deus e depois fica onde está. O bom pregador e o bom confessor devem ir à frente. Ninguém deve dizer uma palavra boa sem que primeiro a tenha posto em prática. Lê-se na vida dos Santos Padres que, estando moribundo um daqueles santos anciãos, se aproximaram dele alguns religiosos e lhe pediram:

– “Padre, deixai-nos algo; dai-nos algo que fique aqui conosco”

Respondeu-lhes ele:

– “Sempre acreditei mais no parecer alheio do que no meu, e nunca tive a presunção de ensinar coisa alguma que antes não tivesse posto em prática. Este é o testamento que vos deixo”

A Linguagem da Estrela

Ao entrarem em Jerusalém, a estrela escondeu-se deles. Há alguém aqui a quem a estrela se tenha escondido?

– “Houve um tempo em que eu era tão devoto, em que os bons pensamentos me vinham sem que eu os procurasse; mesmo deitado, pensava em Deus”

Se a estrela se escondeu, reaparecerá.

A estrela reapareceu aos reis magos e eles a seguiram (cf. Mt 2, 9). E ao aproximarem-se de Belém, suspeito – pois não consta das Escrituras – que, vendo a estrela, teriam dito:

– “O que há de mais alto neste lugar? Ei, deve estar ali naquelas torres!”

Foi para lá a estrela? Não, mas à estalagenzinha, que talvez não tivesse telhas e fosse feita de palha. Ali estava o Rei dos reis, dentro de uma gruta escavada na pedra, reclinado numa manjedoura. Ali nascera o Salvador, naquele estabulozinho. A estrela colocou-se em cima daquela gruta. E penso que naquele momento irradiava fulgores mais claros e dizia mais claramente:

– “Aqui está!”

Como era possível?

Bem-aventurado aquele que entende o que é a fé! Disseste bem, Menino, quando cresceste:

“Bem-aventurados os que não viram e creram!”(Jo 20, 29)

Foi isso que a estrela disse. A razão dos reis magos dizia-lhes que o menino deveria estar numa casa grande e rica; a estrela dizia-lhes que não, que estava entre aquelas palhas, naquela manjedoura. A razão natural diz-nos:

– “Como pode um corpo tão grande estar numa hóstia tão pequenina?”

E a fé diz-nos que sim, que pode.

Ó Senhor! Que tendes a ver com uns paninhos? Que tendes a ver com uma manjedoura? Quem esperaria encontrar-Vos assim, sem casa, sem braseiro, sem cama? O vento entrava pelo lado e batia no rosto da Mãe e do Filho. Talvez Ele quisesse comer e não tivesse nenhum alimento – e eu não amarei a pobreza? Aí está Jesus Cristo. Não se encontra na riqueza, nem nos deleites e prazeres da carne. Não se encontra nas camas moles. Não tens nada que comer? Jesus Cristo está em tua casa. Passas as noites suspirando de aflição? És obrigado a fazer coisas que não quererias? Vences os teus caprichos? Submetes a tua vontade à de Deus? Aí está Jesus Cristo.

Já antes de nascer, submete-se a tudo. A Virgem Maria, que estava prestes a dar à luz, teve de percorrer trinta e duas léguas de Nazaré a Belém. Por quê? Porque assim o ordenara um homem, o imperador César Augusto, a fim de que todos os seus súditos se recenseassem, e Deus obedeceu-lhe. E eu não sentirei vergonha de Vos desobedecer? Jesus obedece antes de sair do ventre materno, e eu não. Se te parece difícil contrariar a tua própria vontade, aí está Deus que obedece, reclinado no lugar mais humilde que se possa imaginar, num estábulo; aí está o Menino.

A estrela parecia falar. Desceu até o telhado, e os reis desceram das suas montarias. Não é verdade, Senhora, que, quando ouvistes o barulho lá fora, ficastes um pouco assustada?

– “Alguém quer pôr as mãos no Menino!”

Talvez o tenhas escondido e te tenhas posto a costurar alguma coisa. Um dos pajens deve ter-se aproximado da Virgem e perguntado:

– “Senhora, sabeis onde está o Rei dos judeus que acabou de nascer? Senhora, consolai-nos, dizei-nos pelo amor de Deus: Tendes filho?”

E Ela responderia, porque era vontade de Deus que o manifestasse:

– “Sim, tenho”

– “Há quanto tempo destes à luz?”

– “Há treze dias”

– “Fazei-nos o favor de no-lo mostrar”

E a Virgem Maria tomou-o nas mãos e mostrou-o. Vendo o Menino, os reis exultaram de alegria e compreenderam que estavam diante do Messias. E prostraram-se por terra e o adoraram.

Adorar o Deus-Menino

Não se limitaram a descobrir a cabeça ou a dobrar o joelho, mas prostraram-se (cf. Mt 2, 11), de onde se vê que o fizeram porque estavam na presença de Deus. Adorar é lançar-se ao chão, isto é, reconhecer-se um punhado de terra e um nada diante de Deus. Se o Menino fosse somente rei, entre rei e reis bastaria que estes se descobrissem; mas se se prostraram no chão, foi porque viram no Menino o próprio Deus.

Vós passais por aquele sacrário tão indiferentes que nem sequer inclinais a cabeça. Parece que vos aproximais do altar como quem chega para se divertir. Muitas missas serão celebradas para vosso castigo ao invés de, como pensáveis, para premiar-vos. Celebra-se uma missa, e está aquela pessoa ali e outra acolá, paradas, interessadas em ver se o sacerdote chora ou não. O povo de Israel mantinha-se a uma distância de dois mil passos (cf. Jos 3, 4) da Arca da aliança, e vós estais em torno do altar: deveis assistir à missa com reverência e não vir à igreja logo depois de um divertimento, sem maiores preparações.

Os reis magos adoram o Menino de modo tão verdadeiro que penso que lhe terão beijado os pés. Abrem os seus tesouros, pois muito dá quem encontrou o Menino. Dirigem-se às suas arcas e, abertos os seus tesouros e não só as suas bolsas, oferecem-lhe cada um deles muito ouro, muita mirra e muito incenso.

E vós, que ofereceis a Deus?

– “Mas eu nada tenho”

Pensais então que o céu está fechado para os que nada têm? Ao contrário, encontra-se mais aberto, porque o rico, sim, terá de prestar contas a Deus de como repartiu aquilo que lhe foi dado! Ai daquele que come muito e não faz uso das suas energias: acabará por ter um abscesso que o matará! O estômago não recebe a comida para ficar com ela, mas para reparti-la pelos membros do corpo.

Se tomares muitos bens e não os repartires com a energia de uma grande caridade, ficarás com eles dentro do estômago. Esses bens serão a corda com que te enforcarão. Davi tinha muito que oferecer a Deus, mas, quando veio fazer a sua oferenda, disse:

“As tuas oferendas, Senhor, estão em mim” (cf. Sl 55, 12-13; Sl 49, 8-9 e Jr 6, 20)

Mais aprecia Deus a oferenda do próprio eu do que de bezerros e carneiros.

Oferecer-lhe o nosso Dom

Abre-lhe o teu coração, e estará aberto o tesouro com que Ele mais se alegra. Deus já abriu as suas entranhas e o seu coração. Por aquela abertura do seu lado podes ver o seu coração e o amor que encerra. Abre-lhe o teu, não o deixes fechado. Detém-te a pensar:

“Senhor, tens o coração aberto e trespassado por mim, e eu não Te amarei? Abriste-me o teu coração, e eu não Te abrirei o meu? No meu coração, Senhor, estão as tuas oferendas; se Te der desse coração, terei feito a minha oferenda”

Vale mais diante de Deus um pedacinho do coração do que muitas oferendas sem coração. Dá-lhe um pedacinho do teu coração e ter-lhe-ás oferecido muito ouro. Vale mais um pouquinho de ouro do que muitas moedas. Vale mais um pouquinho de manjar branco do que muitas couves. Certo eremita perguntou a um ancião:

– “Por que, fazendo tu menos jejum, menos orações e penitência do que eu faço, és mais santo do que eu?”

E ele respondeu:

– “Porque amo mais do que tu. Oferece ouro a Deus aquele lhe oferece amor”

– “Mas eu tenho pouco amor”

Então reza muito. Não tens ouro? Oferece incenso.

– “E o que é o incenso?”

Oração. Disse Davi: “A oração é incenso” (cf. Sl 140, 2), como o é o suspiro que sobe a Deus em perfume de suave odor. Reza a Deus, mas não para lhe pedir trigo:

– “Senhor, como é possível que eu não Te ame, não Te tema, não Te sirva?”

Reconhece que és miserável e aproxima-te do presépio pedindo esmola. Se não tens ouro, oferece o incenso da oração. A casa daquele que não ora tem um cheiro horrível.

– “Mas não tenho ouro nem incenso”

Então oferece mirra. “Oferecerei holocaustos com os cordeiros mais pingues”, disse Davi; “com incenso de cordeiros oferecer-te-ei touros e cabritos” (cf. Sl 65, 15). Oferecer-te-ei pingues holocaustos de amor e devoção. A mirra é o espírito de sacrifício e abnegação, até o mais íntimo de nós mesmos. Como acontece com os touros pingues e os cordeiros, o tutano, que é o que têm de mais precioso, está encerrado nos ossos mais duros. Entrega pois o teu amor, envolto no osso duro e firme do propósito de nunca mais tornar a ofender a Deus, num propósito intocável. Só ama a Deus verdadeiramente aquele que lhe dá o seu coração, não guarda nada para si mesmo.

Com incenso de cordeiros. O cordeiro que vai à frente do rebanho é o guia. Para quem dirige os outros, não há nada que mais deva amar e cultivar que a oração. O sacerdote que não ora não aprendeu nada do seu ofício; se não ora, dar-me-á por conselho de Deus um conselho seu, por resposta divina uma resposta humana.

Oferece também touros e cabritos. Sim, o Senhor também aceitará cabritos, que são os luxuriosos. Oferecer-lhe-ei os meus pecados de sensualidade, mas mortos. Porque têm bom odor depois de mortos. Se te assalta um mau desejo, mata-o, ainda que te doa, e oferece-o a Deus.

– “Senhor, quero beber este laxante por Vós”

Oferece a Deus um touro quem faz por Deus alguma coisa que muito lhe dói. Oferece um touro a Deus quem deixa a amante. E se, ao deixá-la, chorou, ofereceu um touro. E se tinha filhos com ela, ofereceu também um touro.

Que podes tu fazer pelo Menino? Sofrer um pouco. Ele padeceu por ti desde pequenino. Mais lhe doeu sofrer na cruz do que a ti sofrer o que agora sofres.

Para outros, a mirra será deixar de murmurar. Para outros ainda, abrir a bolsa e dar uma esmola. Oferece isso a Deus e terás oferecido um touro. Oferece a Deus um touro quem lhe oferece algo que muito lhe dói.

Oferece mirra amarga quem faz por Deus aquilo que o amargura. E se lhe ofereceres isso, Ele é tão bom que te dará incenso e ouro, a fim de que tenhas alguma coisa que oferecer-lhe, e dar-te-á aqui a sua graça e depois a sua glória, à qual lhe pedimos que nos conduza. Amém.

Referências:
(1) Sermones de divers. 4, 1; 84, 1 e segs.
(2) Breviário Romano (versão tridentina), Festa do Santíssimo Nome de Jesus, hino de Vésperas.

(Ávila, São João de. O Mistério do Natal. Prefácio e tradução de Gabriel Perissé. Quadrante 1998, 2ª ed., p. 53-70)