Parte II
Capítulo XXI

Começa já na véspera do dia da comunhão a te preparar com repetidas aspirações do amor divino e deita-te mais cedo que de costume, para te levantares também mais cedo. Se acordas durante a noite, santifica esses momentos por algumas palavras devotas ou por um sentimento que impregne tua alma da felicidade de receber o divino Esposo; enquanto dormes, Ele está velando sobre o teu coração e preparando as graças que te quer dar em abundância, se te achar devidamente preparada. Levanta-te de manhã com este fervor e alegria que uma tal esperança te deve inspirar, e depois da confissão aproxima-te com uma grande confiança e profunda humildade da mesa sagrada, para receber este alimento celeste, que te comunicará a imortalidade. Depois de pronunciares as palavras: Senhor, eu não sou digno, etc., já não deves mover a cabeça ou os lábios para rezar ou suspirar; mas, abrindo um pouco a boca e elevando a cabeça de modo que o padre possa ver o que faz, estende um pouco a língua e recebe com fé, esperança e caridade aquele que é de tudo isso ao mesmo tempo o princípio, o objeto, o motivo e o fim.

Ó Filotéia, considera, se te agradar, este doce pensamento: a abelha, recolhendo o orvalho do céu e o suco das flores, que é o mais precioso da terra, faz disso o seu mel e o leva para a colmeia, a fim de se alimentar; o padre torna do altar o Salvador do mundo, que é o verdadeiro Filho de Deus, descido do céu, e o verdadeiro Filho da Virgem, saído da terra, como todos os homens, e te entrega para a alimentação de tua alma.

Excita então o teu coração a render o culto devido a este Rei e Salvador divino; faze-lhe o melhor acolhimento que puderes. Contempla a Sua presença em ti, que é ao mesmo tempo a tua felicidade; trata confidentemente com Ele, sobre os teus negócios interiores e por todo o resto do dia manifesta por tuas ações que Deus está contigo.

Se não puderes comungar realmente na santa Missa, faze-o ao menos em espírito e com o coração, unindo-te pela fé à carne vivificante do Senhor.

A principal intenção que deves ter na comunhão é de adiantar, purificar e consolar a tua alma no amor de Deus; deves, pois, receber com espírito de amor o que só o amor te pode dar. Não, não podemos achar um outro ato mais amoroso e mais terno da bondade de Nosso Senhor do que este em que Ele se aniquila, por assim dizer, e se dá a nós, como alimento, para penetrar a nossa alma de Si mesmo e para estender esta união também ao corpo, ao coração dos Seus fiéis.

Se o mundo te perguntar por que comungas tão frequentemente, deves responder-lhe que é para aprender a amar a Deus, purificar-te de tuas imperfeições, livrar-te de tuas misérias, procurar consolo em tuas aflições e fortificar-te em tuas fraquezas. Dize ao mundo que duas espécies de homens devem comungar muitas vezes: os perfeitos, porque, estando bem preparados, fariam muito mal de não se chegarem muitas vezes a esta fonte de perfeição, e os imperfeitos, a fim de aspirarem à perfeição; os fortes, para não se enfraquecerem, e os fracos, para se fortificarem; os sadios, para se preservarem de todo o contágio, e os doentes, para se curarem. E acrescenta que, quanto a ti, que és do número das almas imperfeitas, fracas e doentes, precisas receber muitas vezes o Autor da perfeição, o Deus da força e o Médico das almas.

Dize ao mundo que os que não se ocupam muito de negócios devem comungar muitas vezes, porque têm tempo, e os que têm muito que fazer, porque, carregados de muitos trabalhos e penas, têm necessidade do alimento dos fortes. Dize, enfim, que comungas frequentemente para aprender a comungar bem; porque nunca se fez bem uma coisa em que raramente se exercita.

Comunga muitas vezes, Filotéia, e tantas quantas puderes, debaixo da direção de teu padre espiritual, e crê-me que, se o corpo toma as qualidades do alimento de que se nutre habitualmente, como vemos nas lebres de nossas montanhas, que no inverno se tornam brancas, porque só veem neve, e só comem neve, crê-me, digo, que, alimentando muitas vezes tua alma do Autor da beleza e da bondade, da santidade e da pureza, ela se tornará a seus olhos toda bela e boa, toda pura e santa.

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(SALES, São Francisco de. Filoteia ou a Introdução à Vida Devota. Editora Vozes, 8ª ed., 1958, p. 130-134)