Crucificação

Parte II
Capítulo IV

Existe ainda um terceiro prelúdio da oração mental, o qual, no entanto, não é comum a toda espécie de meditações e se chama geralmente “composição” ou representação do lugar. Consiste numa certa atividade da fantasia, pela qual nos representamos o mistério ou fato que queremos meditar, como se os acontecimentos se estivessem sucedendo realmente ante os nossos olhos. Por exemplo, se queres meditar sobre a morte de Jesus crucificado no Calvário, farás uma ideia de todas as circunstâncias, como os evangelistas no-las descrevem, quanto aos lugares, pessoas, ações e palavras; o mesmo te proporei acerca dos outros objetos que os sentidos percebem, como a morte e o inferno, como já vimos; tratando-se, porém, de objetos inteiramente espirituais, como a grandeza de Deus, a excelência das virtudes, o fim da nossa criação, essa prática não é tão conveniente. É verdade que mesmo aqui se poderia usar de alguma analogia ou comparação, como vemos nas belas parábolas do Filho de Deus; mas isso tem sua dificuldade e eu quisera que te ocupasses com exercícios simples e não cansasses o teu espírito procurando semelhantes pensamentos. A utilidade deste exercício de imaginação consiste em ater a nossa fantasia ao objeto que meditamos, receando que, tão irrequieta como é, nos escape para ir ocupar-se doutros objetos; estava quase a dizer-te que deves proceder com ela, como com um passarinho que se fecha na gaiola ou com um falcão que se acorrenta ao poleiro; para que fique aí.

Dirão alguns que na representação dos mistérios é melhor usar simplesmente de pensamentos da fé e dos olhos do espírito ou, então, considerá-los como se sucedessem em nossa mente: mas tudo isso é por demais sutil para o começo, e, considerando tudo aquilo que pertence a uma perfeição mais adiantada, aconselho-te, Filotéia, a conservar-te humildemente no sopé da montanha, até que Deus se digne de elevar-te mais alto.

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(SALES, São Francisco de. Filoteia ou a Introdução à Vida Devota. Editora Vozes, 8ª ed., 1958, p. 89-90)