“Entrai pela porta estreita, porque larga é a porta e espaçoso o caminho que conduzem à perdição e numerosos são os que por aí entram. Estreita, porém, é a porta e apertado o caminho da vida e raros são os que o encontram” (Mt 7, 13-14)

Capítulo XVIII

PREPARAÇÃO

1. Põe-te na presença de Deus.
2. Implora com humildade o Seu auxílio.

CONSIDERAÇÃO

I. Imagina ainda uma vez que estás numa vasta região, que vês à tua esquerda o príncipe das trevas, assentado num trono muito alto e rodeado duma multidão de demônios, e que descobres ao redor desta corte infernal muitos pecadores e pecadoras, que, dominados do espírito do mundo, lhe rendem as suas homenagens. Observa com atenção todos os desventurados vassalos desse rei abominável; considera como uns estão fora de si, levados pelo espírito da cólera, da raiva e da vingança, que os torna furiosos, e como outros, dominados do espírito da preguiça, só se ocupam de frivolidades e vaidades; aqueles, embebidos no espírito da intemperança, igualam-se a loucos e a brutos, estes, empavesados no espírito do orgulho, tornam-se homens violentos e insuportáveis; alguns, possuídos do espírito de inveja, consomem-se pesarosos e tristes, muitos são corrompidos até à podridão, pelo espírito da impureza, e muitos outros, irrequietos pelo espírito da avareza, perturbam-se pela cobiça de riquezas. Considera como estão aí sem repouso e sem ordem, olha até que ponto se desprezam mutuamente, quanto se odeiam, se perseguem, se dilaceram, se destroem, se matam. Eis ai, enfim, a república do mundo, tiranizada por este rei maldito: quão infeliz e digna de compaixão!

II. Considera à tua direita a Jesus Cristo crucificado, que, com uma ternura inexprimível de compaixão e amor, apresenta a seu Pai as suas orações e o seu sangue, para obter a liberdade destes infelizes escravos, e que os convida a romper seus laços e a vir para o seu lado. Mas, principalmente, para, ao contemplar estes numerosos grupos de devotos e devotas que com os anjos estão em torno dele. Contempla a beleza do reino da devoção; admira tantas e tantas pessoas de ambos os sexos, cujas almas são puras e cândidas como lírios, tantas e tantas outras a quem a morte dum marido ou duma mulher tornou de novo livres em seu amor e que se consagram a Deus pela mortificação, caridade e humildade, c outras tantas, por fim, que governam a sua família no culto do verdadeiro Deus, unindo a posse dos bens com o desprendimento do coração, os cuidados da vida com os da alma, o amor que reciprocamente se prometeram com o amor a Deus, e o respeito devido com uma doce familiaridade. Presta atenção, nesta feliz companhia dos servos e das servas de Deus, à felicidade do seu estado, a esta perfeita tranquilidade da alma, a esta suavidade de espírito, a esta vivacidade de sentimentos; amam-se com um amor puro e santo; alegram-se duma alegria inalterável, mas ao mesmo tempo caritativa e regrada. Mesmo aqueles ou aquelas que sentem alguma aflição não se inquietam de todo com isso ou apenas de leve e não perdem a paz do coração. Todos eles têm assim os olhos presos em Jesus Cristo, que anseiam por ter no coração, e ele mesmo desce, por assim dizer, com os seus próprios olhos e com o seu Coração, até ao fundo de suas almas, para as iluminar, fortificar e consolar.

III. Pois bem, Filotéia, já há tempo que, levada pela graça, abandonaste a Satanás com os seus sequazes, pelas tuas boas resoluções; mas ainda não tiveste ânimo de te lançar aos pés de Jesus e Ele te alistar no número dos seus servos fiéis. Até aqui estiveste como que no meio de dois partidos; hoje, por fim, te deves decidir.

IV. A Santíssima Virgem, São José, São Luis, Santa Mônica e tantos mil outros: que no meio do mundo formaram o reino de Jesus Cristo, te convidam a segui-los. Dá ouvidos principalmente a Jesus, que te chamou pelo teu próprio nome e te diz: Vem, minha alma querida, vem, e eu te coroarei de glória.

ESCOLHA

1. Ó mundo enganador, eu te aborreço a ti e a teus seguidores. Jamais me hão de enxergar debaixo do teu jugo; para sempre reconheço a tua insensatez e digo adeus a tuas vaidades. E a ti, Satanás, espírito infernal, abominável rei do orgulho e da infelicidade, eu te renuncio para sempre, com todas as tuas pompas .fúteis, e detesto tuas obras.

2. É para vós, doce e amantíssimo Jesus, Rei da bem-aventurança e da glória imortal, a quem hoje me volvo. Eu me lanço a vossos pés e os abraço com toda a minha alma, eu vos adoro de todo o meu coração, eu vos escolho para meu Rei e me submeto inteiramente a vossas santas leis. Tudo aquilo que eu tenho vos ofereço em sacrifício universal e irrevogável, que pretendo, mediante a vossa graça, manter toda a minha vida com uma fidelidade inviolável.

3. Ó Virgem Santíssima, permiti que vos escolha hoje por guia; ponho-me sob vossa proteção, devotando-vos um singular respeito e uma devoção toda especial.

Ó meu santo anjo, apresentai-me aos santos e às santas; não me abandoneis antes de me fazerdes entrar em vossa feliz companhia.
Só então, renovando e confirmando de dia em dia esta escolha, que agora faço, exclamarei eternamente, a exemplo vosso; Viva Jesus! Viva Jesus!

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(SALES, São Francisco de. Filoteia ou a Introdução à Vida Devota. Editora Vozes, 8ª ed., 1958, p. 65-68)