Inferno, por Giovanni da Modena. Pintura de 1410, presente na Basílica de São Petrônio

Capítulo XV

PREPARAÇÃO

1. Põe-te na presença de Deus.
2. Pede a Deus que te inspire.
3. Imagina uma cidade envolta em trevas, toda ardendo em chamas de enxofre e pez, que levantam uma fumaça horrível, e toda cheia de habitantes desesperados, que dela não podem sair nem morrer…

CONSIDERAÇÃO

I. Os condenados estão no abismo do inferno, como desventurados habitantes dessa cidade de horrores. Padecem dores incalculáveis em todos os seus sentidos e em todo o corpo; pois, assim como empregaram todo o seu ser para pecar, sofrerão também em todo ele as penas devidas ao pecado. Deste modo, sofrerão os olhos por seus olhares pecaminosos, vendo perto de si os demônios em mil figuras hediondas e contemplando o inferno inteiro. Aí só se ouvirão lamentos, desesperos, blasfêmias, palavras diabólicas, para punir por estes tormentos os pecados cometidos por meio dos ouvidos. E de modo análogo acontecerá aos demais sentidos.

II. Além destes tormentos, existe ainda um outro muito maior. É a privação e a perda da glória de Deus, que jamais verão. Por mais ditosa que fosse a vida de Absalão em Jerusalém, ele não deixava de protestar que a infelicidade de não ver por dois anos seu pai querido lhe era mais intolerável que o tinham sido as penas do exílio. Ó meu Deus, que sofrimento será, pois, e que pesar imenso ser privado eternamente de vos ver e amar.

III. Considera sobretudo a eternidade, a qual por si só faz o inferno insuportável. Ah! Se o calor de uma febrezinha torna uma breve noite comprida e enfadonha, que horrenda não será a noite do inferno, onde a eternidade se ajunta à abundância dos tormentos? É desta eternidade que procedem a desesperação eterna, as blasfêmia execráveis e os rancores sem fim.

AFETOS E RESOLUÇÕES

1. Procura incutir temor em tua alma, dirigindo-lhe as palavras do profeta Isaías: Ó minha alma, poderás habitar com o fogo devorante? Habitarás com os ardores sempiternos? Queres deixar teu Deus para sempre?

2. Confessa que tens merecido esses horríveis castigos; e quantas vezes? Ah! desde este instante melhorarei de vida, seguirei um caminho diferente do que tenho seguido até agora. Para que precipitar-me neste abismo de misérias?

CONCLUSÃO

Agradece… oferece. . . ora, etc. Pai-Nosso, Ave-Maria.

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(SALES, São Francisco de. Filoteia ou a Introdução à Vida Devota. Editora Vozes, 8ª ed., 1958, p. 57-59)