Capítulo XI

PREPARAÇÃO

1. Põe-te na presença de Deus.
2. Pede a Deus que te inspire.

CONSIDERAÇÃO

1. Considera, com respeito ao corpo, todos os dotes que tens recebido do Criador: este corpo, duma conformação tão perfeita, esta saúde, estas comodidades tão necessárias à manutenção da vida, estes prazeres se ligam naturalmente ao teu estado, esta cooperação e assistência de teus inferiores, esta companhia suave e agradável de teus amigos. Compara-te então com outras pessoas que talvez mereçam mais do que tu e que no entanto não as possuem; pois quantas pessoas têm uma figura ridícula, um corpo disforme, uma saúde débil! Quantos não estão a gemer, abandonados de seus amigos e parentes, no desprezo, no opróbrio, em enfermidades longas ou nas angústias da pobreza. Deus assim quis uma sorte para ti e outra para eles.

2. Considera tudo aquilo que se pode chamar dotes do espírito. Pensa quantos homens idiotas, insensatos, furiosos, existem, e quantos educados grosseiramente e na mais completa ignorância; por que não és tu deste número? Não foi Deus quem velou duma maneira toda especial por ti, para te dar um natural feliz e uma boa educação?

3. Considera ainda mais, Filotéia, as graças sobrenaturais, o teu nascimento no seio da Igreja, o conhecimento tão perfeito que tens tido de Deus desde a tua infância, a recepção dos Sacramentos tão frequente e salutar. Quantas inspirações da graça, quantas luzes interiores, quantas repreensões de tua consciência, por causa de tua vida desregrada! Quantas vezes Deus te tem perdoado os pecados e velado sobre ti, para livrar-te das ocasiões, onde estavas prestes a perder eternamente a tua alma! Todos estes anos de vida que Deus te concedeu não te deram tempo bastante para progredir no aperfeiçoamento de tua alma? Examina estas graças minuciosamente e contempla quão bom e misericordioso Deus tem sido sempre para contigo.

AFETOS E RESOLUÇÕES

1. Admira a bondade de Deus. Oh! Quão bom tem sido o meu Deus para mim! Oh! Ele é bom deveras! Ó Senhor, rico sois Vós em misericórdia e imenso em bondade! Oh! Minha alma, com júbilo anuncia quantas maravilhas o teu Deus tem operado em ti!

2. Arrepende-te de tua ingratidão. Mas quem sou eu, Senhor, para que Vos lembreis assim de mim? Oh! Grande é a minha indignidade! Ah! Calquei aos pés as Vossas graças, abusando delas, afrontei a Vossa bondade, desprezando-a, opus um abismo de ingratidão ao abismo de Vossa misericórdia.

3. Excita em ti um reconhecimento profundo. Ó meu coração, já não sejas um infiel, um ingrato, um rebelde para um benfeitor tão grande! E como não será minha alma dora em diante sujeita a teu Deus, que operou em mim e por mim tantas maravilhas e graças?

Ah! Filotéia, começas, pois, a negar a teu corpo estes e aqueles prazeres, para acostumá-lo a levar o jugo do serviço de Deus; e em seguida aplica teu espírito a conhecê-Lo mais e mais por meio de tais e tais exercícios conducentes a este fim. Emprega afinal os meios de salvação que Deus te oferece por sua Santa Igreja. — Sim, eu o farei; exercitar-me-ei na oração, frequentarei os Sacramentos, ouvirei a Palavra de Deus, obedecerei à Sua voz, seguindo à risca os conselhos do Evangelho e as Suas inspirações.

CONCLUSÃO

1. Agradece a Deus, que te fêz conhecer tão claramente as suas graças e os teus deveres.

2. Oferece-lhe o teu coração com todas as tuas resoluções.

3. Pede-lhe que te conserve nestes propósitos, dando-te a fidelidade necessária; pede-lhe isso pelos merecimentos da morte de Jesus Cristo; implora a intercessão da Santíssima Virgem e dos Santos. Pai-Nosso, Ave-Maria.

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(SALES, São Francisco de. Filoteia ou a Introdução à Vida Devota. Editora Vozes, 8ª ed., 1958, p. 47-49)