Perseverança

Fidelis Deus est, qui patietur vos tetari supra id quod potestis; sed faciet etiam cum tentatione proventum – “Deus é fiel, e não permitirá sejais tentados mais do que podem as vossas forças; antes fará que tireis proveito da tentação” (1 Cor 10, 13)

Sumário. É sobretudo por três motivos que o Senhor permite que as suas mais queridas almas sejam mais frequente e fortemente tentadas: para as conservar na humildade, para as desapegar da terra, e para as enriquecer de merecimentos. Cada tentação vencida é uma pedra preciosa engastada em nossas coroa celestial. Nem por isso devemos desejar as tentações; mas quando o demônio nos assalta, sem que lhe tenhamos dado ocasião, entreguemo-nos a Deus e não temamos; pois, se ele nos lança ao combate, dar-nos-á também com a tentação a força para resistir.

I. Para as almas que amam a Jesus Cristo não há trabalho maior que as tentações; porquanto todos os outros males as levam a unir-se mais a Deus, aceitando-os com resignação, ao passo que as tentações as levam a separar-se dele. – Saibamos, porém, que, muito embora todas as tentações que induzem ao mal, não venham nunca de Deus, mas do demônio ou de nossas más inclinações, todavia permite as vezes o Senhor, que as suas mais queridas almas sejam mais tentadas.

E permite-o por vários motivos. Primeiramente, a fim de que pelas tentações conheçam mais claramente a sua fraqueza. Quando uma alma se acha favorecida de consolações divinas, julga-se apta para sustentar qualquer assalto e para executar qualquer empresa. Mas quando se sente fortemente tentada e se vê à borda do precipício, então é que conhece melhor a sua miséria, e a sua impotência para resistir, se Deus a não socorresse.

Mais: as tentações desprendem a alma do mundo e fazem-na desejar a morte, para se ver livre de tantos perigos de ofender a Deus. Assim aconteceu a São Paulo, que, sendo assaltado por uma tentação sensual, a fim de que se não vangloriasse de suas revelações, exclamou: Infelix ego homo! Quis me liberabit de corpore mortis huius? – “Infeliz homem que sou! Quem me livrará do corpo desta morte?” (1).

Finalmente, Deus permite que sejamos tentados para mais nos enriquecer de merecimentos. A água estagnada corrompe-se facilmente. Assim a alma, estando quieta sem combate, acha-se em perigo de se perder por alguma vã complacência em seus merecimentos. – Quando é porém agitado pelas tentações, recorre a Deus e à divina Mãe; renova a sua resolução de antes morrer do que pecar; humilha-se e lança-se nos braços da misericórdia divina; numa palavra, é então que pratica as virtudes mais agradáveis ao Coração de Deus, e adorna mais a sua própria coroa. Cada vez que vencemos uma tentação, ganhamos uma nova coroa, diz São Bernardo: Quoties vincimus, toties coronamur.

II. Por serem as tentações vantajosas, não se conclua que devamos desejar tentações. Antes devemos pedir a Deus que nos livre delas, especialmente daquelas nas quais vê que seríamos vencidos. É isto o que significa esta petição do Pai-Nosso: Et ne nos inducas in tentationem – “Não nos deixeis cair em tentação”. Mas quando Deus permite que nos assaltem, é mister que, sem nos inquietarmos, confiemos em Jesus Cristo e lhe peçamos socorro, e ele de certo não deixará de nos dar força para resistirmos. Diz Santo Agostinho:

Entrega-te a Deus e não temas; pois se Ele te expõe ao combate, por certo não te deixará só, para que caias.

Não nos assustemos, pois, por vermos que um mau pensamento, uma sugestão do mal, não se afasta de nosso espírito e continua a atormentar-nos; basta que os detestemos e procuremos desviá-los. Santa Joana Francisca de Chantal foi por mais de quarenta anos atormentada de mil tentações; apesar disso fez-se santa. Numa palavra, persuadamo-nos do que diz o Apóstolo: Deus é fiel e não permitirá sejais tentados mais do que podem as vossas forças; antes fará que tireis proveito da tentação, para que possais resistir.

Ó Jesus Redentor, espero pelos méritos de Vosso Sangue que já me tereis perdoado as ofensas que Vos tenho feito; espero ir dar-Vos graças para sempre no paraíso. Vejo que pelo passado desgraçadamente caí e tornei a cair, não tanto pela força das tentações, mas porque me descuidei de Vos pedir a santa perseverança. Esta perseverança Vos peço agora: Ne permittas me separari a te – “Não permitais que me separe de Vós”. – Assim o proponho e prometo. Mas de que me servirá esta minha promessa se me não derdes a graça de recorrer a Vós? Ah! Pelos merecimentos de Vossa Paixão, concedei-me a graça de sempre me recomendar a Vós em todas as minhas necessidades. – Maria, minha Rainha e minha Mãe, pelo muito que amais a Jesus Cristo, rogo-vos que me alcanceis a graça de sempre recorrer a vosso Filho e a vós por toda a minha vida.

Referências:

(1) Rm 7, 24

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(LIGÓRIO, Afonso Maria de. Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo III: Desde a Décima Segunda Semana depois de Pentecostes até o fim do ano eclesiástico. Friburgo: Herder & Cia, 1922, p. 120-123)