Numquid oblivisci potest mulier infantem suum, ut non misereatur filio uteri sui? – “Pode acaso uma mulher esquecer-se de seu filhinho, de sorte que não tenha compaixão do filho de suas entranhas?” (Is 49, 15)

Sumário. Se em geral são indizíveis as solicitudes de uma mãe para com seus filhos, o que dizer das que a Santíssima Virgem teve para com Jesus Cristo, seu Filho e juntamente seu Criador? Se quisermos imitar a divina Mãe, nós também podemos ter as mesmas solicitudes para com nosso Senhor, não somente na pessoa do próximo que o represente, senão para com Ele mesmo, visto que está realmente presente no Santíssimo Sacramento da Eucaristia. Visitemo-Lo amiudadas vezes e recebamo-Lo em nossos corações.

I. Se em geral são indizíveis as solicitudes de uma mãe qualquer para com seu filho, o que dizer então das que Maria teve para com o Menino Jesus, visto que em seu coração se uniu o amor natural mais perfeito ao supremo amor sobrenatural? Tanto que viu Jesus nascido na gruta de Belém, abraçou-O com ternura maternal, tomou-O nos braços, cobriu-O de beijos, e, segundo a revelação feita a Santa Brígida, procurou aquece-Lo com o calor do seu rosto e do seu peito. Em seguida, como refere São Lucas, envolveu-O em paninhos (1). Ó Deus, que grande estima devia a Santa Virgem conceber da pobreza, da humildade, da obediência, ao contemplar o Filho de Deus que estendia as suas mãozinhas para se deixar enfaixar!

Depois de O ter enfaixado, a divina Mãe chega o santo Menino a seu peito virginal para O alimentar com o seu leite. Enquanto assim O alimentava, repetia consigo, cheia de assombro: Ó caridade, ó amor incompreensível de um Deus para com os homens! — Que terão dito os anjos do paraíso vendo o Filho do Pai Eterno feito por nosso amor tão débil, que precisa de um pouco de leite para conservar a vida?

A pobre Virgem não possui penas nem lã a fim de preparar uma caminha para seu Filho. Por isso ajunta um pouco de palha numa manjedoura, onde O deitou. Apesar da dureza da cama e do rigor do frio, Jesus adormece no meio de tantas incomodidades, porque a necessidade vence a natureza. Mas nem por isso Maria descansa. Prostra-se diante daquele rude berço, contempla o rosto do divino Menino, adora-O, e não deixa de fazer continuamente atos de amor a seu Filho. — Unamos o nosso amor e as nossas adorações com o amor e as adorações do coração de Maria. Se nos tempos passados imitáramos o cruel Herodes, perseguindo até à morte o divino Filho e afligindo sua santíssima Mãe, peçamos humildemente a ambos que nos queiram perdoar.

II. As solicitudes maternais de Maria não se limitaram à infância de Jesus; continuaram, ou antes, iam aumentando na sua adolescência e idade viril. Com efeito, quanta aflição, quanta fadiga não sofreu a pobre Mãe durante a longa demora de Jesus no Egito, na volta para a Galiléia, na perda do Filho no templo, e durante os três anos do seu apostolado!

Considerando essas solicitudes maternais, sentis o vosso coração abrasado de amor a Jesus; experimentais uma santa inveja a São José, que foi o companheiro fiel da divina Mãe, e dizeis convosco: Oxalá tivesse a ventura de servir a meu bom Redentor! Consolai-vos; podeis ter a ventura de servir a Jesus, praticando a caridade para com o próximo, porquanto Jesus Cristo disse: Quandiu fecistis uni ex his fratribus meis minimis, mihi fecistis (2) — “Tudo que fizestes ao menor dos meus irmãos, foi a mim que o fizestes”. — Além disso, a fé ensina-vos que Jesus Cristo mora pessoalmente em nossas igrejas, dentro do Sacrário. Mostrai-vos, pois, solícitos para com o Santíssimo Sacramento, ornando os altares, visitando-O amiudadas vezes, propagando tão bela devoção e, sobretudo, recebendo-O dentro de vosso peito com digna preparação e ação de graças. Para este fim, cada vez que receberdes a santa Comunhão, e muito mais, se sois sacerdote, quando subirdes ao altar para celebrar a santa Missa, imaginai que a divina Mãe vos diz o que certo dia o Bem-aventurado João de Ávila disse a uma pessoa pouco devota: Por piedade, tratai melhor a Jesus Cristo, porque é filho de um bom Pai.

Ó Maria, agradeço-vos, tanto em meu nome como no de todo o gênero humano, toda a solicitude que tivestes para com o nosso divino Redentor Jesus e proponho seguir sempre os vossos santos exemplos. Pelo amor do mesmo Jesus Cristo, concedei-me a graça de vos ser fiel.

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Se entre a Epifania e este sábado houver um dia sem meditação própria, tome-se a do dia entre 2 e 5 de Janeiro no qual se celebrou a festa do Santíssimo Nome de Jesus.

Referências:

(1) Lc 2, 7
(2) Mt 25, 40

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(LIGÓRIO, Afonso Maria de. Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo I: Desde o Primeiro Domingo do Advento até a Semana Santa inclusive. Friburgo: Herder & Cia, 1921, p. 133-136)