A face da Morte (Face of Death de David Chomard)

A face da Morte (Face of Death de David Chomard)

Confira as importantes advertências de Santo Afonso para bem aproveitar esta obra!

CONSIDERAÇÃO I

Pulvis es et in pulverem reverteris – És pó e em pó te hás de tornar (Gn 3, 19)

PONTO I

Considera que és pó e que em pó te hás de converter. Virá o dia em que será preciso morrer e apodrecer num fosso, onde ficarás coberto de vermes. A todos, nobres e plebeus, príncipes ou vassalos, estará reservada a mesma sorte. Logo que a alma, com o último suspiro, sair do corpo, passará à eternidade, e o corpo se reduzirá a pó.

Imagina que estás em presença de uma pessoa que acaba de expirar. Contempla aquele cadáver, estendido ainda em seu leito mortuário: a cabeça inclinada sobre o peito; o cabelo em desalinho e banhado ainda em suores da morte, os olhos encovados, as faces descarnadas, o rosto acinzentado, os lábios e a língua cor de chumbo; hirto e pesado o corpo. Treme e empalidece quem o vê. Quantas pessoas, à vista de um parente ou amigo morto, mudaram de vida e abandonaram o mundo.

É ainda mais horrível o aspecto do cadáver quando começa a corromper-se. Nem um dia se passou após o falecimento daquele jovem, e já se percebe o mau cheiro. É preciso abrir as janelas e queimar incenso; é mister que prontamente levem o defunto à igreja, ou ao cemitério, e o entreguem à terra para que não infeccione toda a casa. mesmo que aquele corpo tenha pertencido a um nobre ou potentado, não servirá senão para que exale ainda fetidez mais insuportável, – disse um autor.

Vês o estado a que chegou aquele soberbo, aquele dissoluto! Ainda há pouco, via-se acolhido e cortejado pela sociedade; agora tornou-se o horror e o espanto de quem o contempla. Os parentes apressam-se a afastá-lo de casa e pagam aos coveiros para que o encerrem em um esquife e lhe deem sepultura. Há bem poucos instantes ainda se apregoava a fama, o talento, a finura, a polidez e a graça desse homem; mas apenas está morto, nem sua lembrança se conserva.

Ao ouvir a notícia de sua morte, limitam-se uns a dizer que era homem honrado; outros, que deixou à família grande riqueza. Contristam-se alguns, porque a vida do falecido lhes era proveitosa; alegram-se outros, porque vão ficar de posse de tudo quanto tinha. Por fim, dentro em breve, já ninguém falará nele, e até seus parentes mais próximos não querem ouvir falar dele para não se lhes agravar a dor que sentem. Nas visitas de condolências, trata-se de outro assunto; e, quando alguém se atreve a mencionar o falecido, não falta um parente que advirta: Por caridade, não pronuncies mais o seu nome! Considera que assim como procedes por ocasião da morte de teus parentes e amigos, assim os outros agirão na tua. Os vivos entram no cenário do mundo para desempenhar seu papel e ocupar os lugares dos mortos; mas do apreço e da memória destes pouco ou nada cuidam.

A princípio, os parentes se afligem por alguns dias, mas se consolam depressa com a parte da herança que lhes couber e, talvez, parece que até a tua morte os regozija. Naquela mesma casa onde exalaste o último suspiro, e onde Jesus Cristo te julgou, passarão a celebrar-se, como dantes, banquetes e bailes, festas e jogos. E tua alma, onde estará então?

AFETOS E SÚPLICAS

Agradeço-vos, meu Jesus Redentor, o não me terdes deixado morrer quando incorrera no vosso desagrado! Há quantos anos já, mereci estar no inferno! Se eu tivesse morrido naquele dia, naquela noite, que teria sido de mim por toda a eternidade? Senhor, dou-vos graças por esse benefício. Aceito minha morte em satisfação de meus pecados e aceito-a tal qual me quiserdes enviar; mas, já que haveis esperado até esta hora, esperai mais um pouco ainda. Dai-me tempo de chorar as ofensas que vos fiz, antes que chegue o dia em que tereis de julgar-me.

Não quero resistir, por mais tempo, ao vosso chamado. Talvez, estas palavras que acabo de ler, sejam para mim vosso último convite! Confesso que não mereço misericórdia. Tantas vezes me tendes perdoado, e eu, ingrato, tornei a vos ofender! Senhor, já que não sabeis desprezar nenhum coração que se humilha e se arrepende (Sl 50, 19), eis aqui um traidor, que arrependido recorre a vós! Por piedade, não me repilais de vossa presença (Sl 50, 13). Vós mesmos dissestes: “aqueles que vem a mim, não o desprezarei” (Jo 6, 37). É verdade que vos ofendi mais que os outros, porque mais que os outros fui favorecido por vossa luz e vossa graça. Mas anima-me o sangue que por mm derramastes, e me fez esperar o perdão se me arrepender sinceramente. Sim, Sumo Bem de minha alma, arrependo-me de todo o coração de vos ter desprezado.

Perdoai-me e concedei-me a graça de vos amar para o futuro. Basta de ofensas. Não quero, meu Jesus, empregar o resto de minha vida em injuriar-vos; quero unicamente empregá-la em chorar sem cessar os ultrajes que vos fiz, e em amar-vos de todo o coração. Ó Deus, digno de amor infinito! Ó Maria, minha esperança, rogai a Jesus por mim!

PONTO II

Cristão, para compreenderes melhor o que és – disse São João Crisóstomo – “aproxima-te de um sepulcro, contempla o pó, a cinza e os vermes, e chora”. Observa como aquele cadáver, de amarelo que é, se vai tornando negro. Não tarda a aparecer por todo o corpo uma espécie de penugem branca e repugnante. Sai dela uma matéria pútrida, nasce uma multidão de vermes, que se nutrem das carnes. Às vezes, se associam a estes os ratos para devorar aquele corpo, saltando por cima dele, enquanto outros penetram na boca e nas entranhas. Caem a pedaços as faces, os lábios e o cabelo; descarna-se o peito, e em seguida os braços e as pernas. Quando as carnes estiverem todas consumidas, os vermes passam a se devorar uns aos outros, e de todo aquele corpo só resta afinal um esqueleto fétido que com o tempo se desfaz, desarticulando-se os ossos e separando-se a cabeça do tronco.

“Reduzindo como a miúda palha que o vento leva para fora da eira no tempo do estio” (Dn 2, 35). Isto é o homem: um pouco de pó que o vento dispersa.

Onde está agora aquele cavalheiro a quem chamavam alma e encanto da conversação? Entra em seu quarto; já não está ali. Visita o seu leito; foi dado a outro. Procura suas roupas, suas armas; outros já se apoderaram de tudo. Se quiseres vê-lo, acerca-te daquela cova onde jaz em podridão e com a ossada descarnada. Ó meu Deus! A que estado ficou reduzido esse corpo alimentado com tanto mimo, vestido com tanta gala, cercado de tantos amigos? Ó santos, como haveis sido prudentes: pelo amor de Deus – fim único que amastes neste mundo – soubestes mortificar a vossa carne. Agora, os vossos ossos, como preciosas relíquias, são venerados e conservados em urnas de ouro. E vossas belas almas gozam de Deus, esperando o dia final para se unir a vossos corpos gloriosos, que serão companheiros e partícipes da glória sem fim, como o foram da cruz durante a vida. Este é o verdadeiro amor ao corpo mortal: fazê-lo suportar trabalhos, a fim de que seja feliz eternamente, e negar-lhe todo prazer que o possa lançar para sempre na desdita.

AFETOS E SÚPLICAS

Eis aqui, meu Deus, a que se reduzirá também este meu corpo, por meio do qual tanto vos tenho ofendido: presa dos vermes e da podridão! Mas não me aflijo, Senhor; antes me regozijo de que assim se tenha que corromper e consumir-se esta carne que me fez perder a vós, meu Sumo Bem. O que me contrista é ter-vos causado tanto desgosto, indo à procura de míseros prazeres. Não quero, porém, desconfiar da vossa misericórdia. Vós esperastes por mim para me perdoar (Is 30, 18). E quereis perdoar-me se me arrependo. Sim, arrependo-me, ó Bondade infinita, de todo o meu coração, de vos ter desprezado. Direi com Santa Catarina de Gênova: “Meu Jesus, nunca mais pecarei, nunca mais pecarei”. Não quero abusar por mais tempo da vossa paciência.

Não quero esperar, meu amor crucificado, para vos abraçar quando me fordes apresentado pelo confessor na hora da morte. Desde já, vos abraço; desde já, vos recomendo minha alma. Como esta minha alma tem passado tantos anos sem amar-vos, dai-me luz e força para que vos ame no resto de minha vida. Não esperarei, não, para amar-vos, até que se aproxime a hora derradeira. Desde já, vos abraço e estreito ao coração, prometendo jamais vos abandonar.

Ó Virgem Santíssima, uni-me a Jesus Cristo, alcançando-me a graça de não o perder nunca!

PONTO III

Neste quadro da morte, caro irmão, reconhece-te a ti mesmo, e considera o que virás a ser um dia:

Recorda-te que és pó, e em pó te converterás

Pensa que dentro de poucos anos, quiçá dentro de alguns meses ou dias, não serás mais que ver vermes e podridão. Este pensamento fez de Jó um grande santo:

À podridão eu disse: tu és meu pai; aos vermes: sois minha mãe e minha irmã

Tudo se há de acabar, e se perderes tua alma na morte, tudo estará perdido para ti. ‘Considera-te desde já como morto, – disse São Lourenço Justiniano – pois sabes que necessariamente hás de morrer”. Se já estivesses morto, que não desejarias ter feito por Deus? Portanto, agora que vives, pensa que algum dia cairás morto. Disse São Boaventura que o piloto, para governar o navio, se coloca na extremidade traseira do mesmo; assim o homem, para levar a vida boa e santa, deve imaginar sempre o que será dele na hora da morte. Por isso, exclama São Bernardo:

Considera os pecados de tua mocidade e cora; considera os pecados da idade viril e chora; considera as desordens da vida presente, e estremece

E apressa-te em remediá-la prontamente.

São Camilo de Lélis, ao aproximar-se de alguma sepultura, fazia estas reflexões:

Se estes mortos voltassem ao mundo, que não fariam pela vida eterna? E eu, que disponho de tempo, que faço eu por minha alma?

Este Santo pensava assim por humildade; mas tu, querido irmão, talvez com razão receies ser considerado aquela figueira sem fruto, da qual disse o Senhor: “Três anos já que venho a buscar frutas a esta figueira, e não os achei” (Lc 13, 7).

Tu, que há mais de três anos estás neste mundo, quais os frutos que tens produzido? Considera – disse São Bernardo – que o Senhor não procura somente flores, mas quer frutos; isto é, não se contenta com bons propósitos e desejos, mas exige a prática de obras santas. É preciso, pois, que saibas aproveitar o tempo que Deus, em sua misericórdia, te concede, e não esperes com a prática do bem até que seja tarde, no instante solene quando te diz: Vamos, chegou o momento de deixar este mundo. Depressa! O que está feito, está feito.

AFETOS E SÚPLICAS

Aqui me tendes, Senhor; sou aquela árvore que há muitos anos merecia ouvir de vós estas palavras: “Cortai-a, pois, para que debalde há de ocupar terreno?” (Lc 13, 7). Nada mais certo, porque, em tantos anos que estou no mundo, ainda não dei frutos senão cardos e espinhos do pecado. Mas vós, Senhor, não quereis que desespere. Dissestes a todos: aquele que me procurar, achar-me-á (Mt 7, 7). Procuro-vos, meu Deus, e quero receber vossa graça. Detesto, de todo o coração, as ofensas que cometi e quisera morrer de dor por elas. No passado fugi de vós, mas agora prefiro vossa amizade à posse de todos os reinos do mundo. Não quero mais resistir ao vosso chamamento. Quereis-me todo para vós e sem reserva entrego-me inteiramente. Na cruz, destes-vos todo a mim; todo me dou a vós.

Senhor, vós dissestes: “Se pedirdes alguma coisa em meu nome, eu a darei” (Jo 14, 14). Meu Jesus, confiado nessa grande promessa, pelo vosso santo nome e pelos vossos méritos, peço a vossa graça e o vosso amor. Fazei que deles se replete minha alma, onde antes morava o pecado. Agradeço-vos por me terdes inspirado o pensamento de dirigir-vos esta oração, sinal evidente de que quereis ouvir-me. Ouvi-me, pois, meu Jesus! Concedei-me grande amor por vós, dai-me um grande desejo de agradar-vos e depois a força de cumpri-lo.

Ó Maria, minha excelsa intercessora, escutai-me vós também e rogai a Jesus por mim!

(LIGÓRIO, Afonso Maria de. Preparação para a Morte – Considerações sobre as verdades eternas. Tradução de Celso Alencar em pdf, 2004, p. 07-16)