Pai, nas tuas mãos encomendo o meu espírito

Capítulo XXXVI

Pater, in manus tuas commendo spiritum meum – “Pai, nas tuas mãos encomendo o meu espírito” (Jo 23, 16)

Tudo quanto nosso Senhor disse ou fez em sua vida mortal, tudo disse e fez não só para nos testemunhar o seu amor, mas ainda para instruir-nos. Assim nem uma só palavra pronunciou, que, bem meditada, não sirva para conduzir-nos a uma maior perfeição. Detenhamo-nos pois a considerar as que acaba de dirigir ao seu Pai celeste:

“Meu Pai, lhe diz, em vossas mãos encomendo o meu espírito”

É como se dissera: Meu Pai, a vós me abandono sem reserva. Cumpri sobre a terra tudo o que de mim exigíeis, e só morrer é o que me resta; mas se todavia quereis ainda que a minha alma permaneça no corpo para mais sofrer, à vossa vontade me abandono; se quereis que passe desta à outra vida para entrar na gloria e receber a recompensa dos meus trabalhos, à vossa santa vontade igualmente me abandono; eis-me aqui pronto a fazer tudo o que vos aprouver dispor de mim. Oh! Que belo exemplo de abandono a Deus e de completa resignação à sua vontade! Oh! Que admirável preparação para a morte!

“Meu Deus! quero viver se esta é a vossa vontade, disposto estou a morrer se assim o preferis!”

Senhor Jesus, fazei-me a graça de pronunciar do fundo do meu coração estas belas palavras antes de dar o meu ultimo suspiro:

“Meu Pai, em vossas mãos encomendo o meu espírito”

Fazei-me a graça de expirar dizendo com o mais vivo ardor:

“Jesus e Maria, eu vos amo! Jesus e Maria, eu vos amo!”

Que felizes seriamos, exclama São Francisco de Sales, se, quando nos consagramos ao serviço de Deus, começássemos por depositar o nosso espírito de uma maneira absoluta e sem reserva nas mãos de sua divina bondade! pois todo o atraso do nosso adiantamento só provém da falta de abandono. E no entanto é bem verdade que, se queremos progredir na perfeição, devemos começar, continuar e acabar a vida espiritual pela prática desta virtude, à imitação de nosso Senhor, que sempre a praticou de um modo tão admirável e tão perfeito.

Alguns cristãos se acham que, ao entrarem no serviço de Deus, bem lhe dizem:

“Senhor, em vossas mãos encomendo o meu espírito; mas com a condição de que vós sempre me haveis de dar consolações e não sofrimentos, e do que me dareis também superiores segundo a minha inclinação, e de que nada contrariará a minha vontade!…”

Ai! Que fazeis! não vedes que isso não é pôr o espírito nas mãos de Deus, como fez nosso Senhor? Não sabeis que dessas reservas que nós fazemos é que de ordinário nascem todas as nossas perturbações, todas as nossas inquietações e outras semelhantes imperfeições? Pois de não acontecerem as coisas como nós esperávamos e como nós prometíamos, é que proveem as mais das vezes as desolações que tanto atormentam nossa pobre alma. E tudo isto donde nasce senão de nos lançarmos com indiferença nas mãos de Deus? Oh! Que felizes que nós seriamos se fielmente praticássemos esta virtude! Sem duvida que por ela chegaríamos à altíssima perfeição de uma Santa Catarina de Sena, deu ma Santa Angela de Foligno e de muitas outras santas almas que por esta indiferença e total abandono de si mesmo eram como umas bolas de cera nas mãos de nosso Senhor e de seus superiores, recebendo todas as impressões que lhes quisesses dar!

Sejamos, pois, assim, e digamos com nosso bom Mestre em todas as coisas e em todas as ocorrências:

“Meu Deus, em vossas mãos encomendo absolutamente e sem reserva o meu espírito”: In manus tuas commundo spiritum meum

Quereis que eu esteja nas securas ou consolações? Que eu seja contrariado ou sinta repugnâncias e dificuldades? Que eu seja amado ou não? Que eu obedeça em coisas grandes ou pequenas, fáceis ou difíceis?

“Em vossas mãos encomendo o meu espírito”

Quereis que eu me empregue em obras da vida ativa ou contemplativa?

“Em vossas mãos encomendo o meu espírito”

Aqueles, pois, que estão empregados em ações da vida ativa e não desejem deixa-las para se darem à vida contemplativa, e os que contemplam não abandonem a contemplação, até que Deus o ordene. Se é tempo de falar, falemos, se de silencio, não falemos.

Se assim obrarmos, à hora da nossa morte, poderemos muito bem, a exemplo de nosso Senhor, dizer:

“Meu Deus, tudo está consumado”

Consumatum est. Tudo o que era da vossa divina vontade eu cumpri nos acontecimentos que me sucederam vindos da vossa providencia. Que me resta, pois, agora fazer, senão depositar em vossas mãos o meu espírito, no fim e declinar da vida, como vo-lo encomendei desde o começo?
(São Francisco de Sales, sermão sobre a Paixão)

Sim, Deus meu, em vossas mãos encomendo o meu espírito, o meu coração, a minha alma, tudo o que sou e tudo o que possuo, para que de tudo disponhais a vosso bel prazer. Que me humilhem ou me exaltem, que me desprezem ou me estimem, que me esqueçam ou pensem em mim, que eu esteja na tristeza ou na agonia, tudo isto me é indiferente, Senhor, uma vez que eu faça a vossa vontade, e vos ame. Ó Jesus! Eu vos amo, e à vossa misericórdia me abandono pelo tempo e pela eternidade. Sim, sim, abandono-me, pobre pecador que eu sou, abandono-me à vossa misericórdia por todo o tempo e por toda a eternidade. Assim seja.

RESOLUÇÕES PRÁTICAS

Abandono total de nós mesmos ao Amor do nosso Deus

Muitas vezes hás de ter visto, meu caro Teótimo, um menino ao colo da mãe; admiraste por certo o abandono com que ele ali desfruta tão doce repouso. Qualquer perigo que corra está sempre tranquilo, e o seu dormir não é perturbado; se alguém o desperta e o ameaça, passa os bracinhos em volta do pescoço da mãe, mete-lhe a cabeça no seio e ei-lo ai muito seguro. Ah! Pois se ele sabe que está com sua mãe e que ela o ama tanto, tanto, que sempre o defenderá de todos os perigos! Pois bem! Meu caro Teótimo, eis a imagem do que tu deves ser para com Jesus. Nunca mãe alguma teve tanto amor ao seu filho único, quanto este doce Salvador te consagra. Em seus braços vai, pois, lançar-te com toda a confiança, em seu compassivo coração deposita teus pecados, tuas misérias, e tuas imperfeições, estreita-te ainda mais e mais com ele quando o demônio faz todos os esforços para te arrancar; no meio das tentações, dize-lhe:

“Meu bom mestre, tende piedade de mim, porque eu sofro violência”

Acostuma-te a ver em lodos os acontecimentos da vida a mão de Deus poderoso que os dirige, e dize sempre a ti mesmo:

“Se nem um só cabelo cai da minha cabeça sem a permissão do meu Deus, com quanta mais forte razão tal e tal coisa não me acontece sem que ele assim o queira! Sou seu filho; ele ama-me, ele é sábio; faça, pois, como melhor lhe agradar. A ele me abandono de novo e sem reserva, porque estou persuadido de que nada tenho a temer enquanto estiver à sombra de suas asas”

Oh! Quantos cristãos se poupariam muitas penas e muitos tormentos, e não se tornariam culpáveis de tantos pecados se quizessem, em todos os sucessos, usar esta linguagem! Tu, meu caro Teótimo, dize com Jesus durante a vida e na hora da morte:

“Meu Deus, em vossas mãos encomendo o meu espírito”

No tempo da tentação e penas interiores, não digas como outrora: “O Senhor abandonou-me, o meu Deus desapareceu-me“; mas põe diante dos olhos estas palavras que nosso bom e misericordioso Salvador te dirige:

“Acaso pode uma mãe esquecer-se do seu menino de peito? pode não ter compaixão do filho das suas entranhas? E quando ela se esquece, eu de ti nunca me esqueceria. Trago-te gravado em minhas mãos, meus olhos velam incessantemente por tua alma”

Aconteça, pois, o que acontecer, meu caro Teótimo, confia sempre em Jesus. Estás nas securas e nas trevas interiores: confia em Jesus, chega-te a ele, que ele te dará a unção e as luzes da sua graça. Estás oprimido de mil tentações? Confia em Jesus, que ele não há de permitir que tu sejas tentado além das tuas forças: ele te sustentará, e tu gozarás os frutos da vitória. Os demônios, o mundo e a came assaltam-te por todos os lados? Confia em Jesus e para logo “mil inimigos cairão à tua esquerda, e dez mil à tua direita. Já t’o hei dito e não cessarei de t’o dizer, confia em Jesus. Lança em seu divino coração todas as tuas inquietações; porque ele tem cuidado de ti e te ama”. Nunca, nunca ninguém, depois de haver esperado nele, foi confundido. Ah! Meu caro Teótimo, repete incessantemente da boca e do coração estas e semelhantes palavras: Viva Jesus! Ele é o meu pai e o meu melhor amigo; bem que conheça todas as minhas misérias, ama-me e quer a minha felicidade eterna. Viva, viva pois o meu Jesus! Quero também ama-lo sempre e confiar em sua misericórdia.

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(Pinnard, Abade Dom. As Chamas do Amor de Jesus ou provas do ardente amor que Jesus nos tem testemunhado na obra da nossa redenção. Traduzido pelo Rev. Padre Silva, 1923, p. 257-262)