Capítulo XXXIII

Deus meus, Deus meus, ut quid dereliquisti me? – “Deus meu, Deus meu, porque me abandonastes?” (Mc 15, 34)

Profundas trevas cobriam milagrosamente a face da terra; toda a natureza, à vista do seu Deus moribundo, estava na consternação e pasmo… E Jesus há três horas guardava um profundo silencio. De súbito exclama com uma voz forte:

“Deus meu! Deus meu! Porque me desamparastes?…”

Ó meu Jesus! Que cruéis não deviam ser as vossas dores, que de alguma sorte vos forçaram a vós, tão doce, tão resignado, tão paciente, vos lastimardes ao vosso Pai!

— Meu filho, nestas palavras não é uma queixa que proferi, é uma lição que te dei. Quis deixar-te entender quanto padeci, para adquirir o teu amor, e para te merecer a graça de vires um dia reinar comigo no céu. Excessivas eram as dores que em meu coração sofria, nem um movimento na cruz podia fazer que elas se não me aumentassem desmesuradamente; mas todas essas dores que eram em comparação das de que minha alma estava repleta? Ai! Via-me abandonado dos meus discípulos, coberto injurias por minhas próprias criaturas, saciado de opróbrios por esses mesmos que acumulara de bens; divisava através dos séculos tantos cristãos que calcariam aos pés os méritos da minha paixão; tu mesmo, filho meu, tu também estavas presente ao meu espírito. Ah! Se tu souberas quantas lágrimas me fizestes então derramar destes olhos! Se souberas quantos suspiros me arrancaste de coração! Eu estava-te a ver cometer tal e tal pecado; via-te resistindo ás aspirações da minha ternura, prostituindo ao amor das criaturas esse coração que eu te dera para mim, esse coração cuja posse tão caro comprara, via-te viver longe de mim, sem pensar em mim, e precipitares-te nos eternos abismos do inferno; via-te, e chorei! via-te, e os meus sofrimentos se dobraram!

— Ó meu Jesus, não poder eu apagar do numero dos dias da minha vida os que passei a ofender-vos de um modo tão indigno! Ai! Meu Deus! Isto é impossível; será sempre verdade o dizer-se que me revoltei audaciosamente contra vós; sempre será verdade dizer-se que contribui em grande parte para os sofrimentos da vossa paixão, e que mereci o inferno! Ainda assim, ó meu Salvador! Tenho confiança em vossa misericórdia, à qual de há muito me abandonei. Espero que me perdoastes esses pecados que de todo o meu coração detesto; espero que tantos tormentos por mim sofridos não serão perdidos por mim.

— Meu filho, ainda não contei até ao fim tudo o que por teu amor sofri. Como tinha resolvido esgotar até à fez o cálice da amargura, consenti num tormento que pôs o cumulo a todos os outros. Meu Pai celeste abandonou-me… Ah! Meu caro filho! Sofrer as mais cruciantes dores, é nada em certo modo, quando o céu sustem a fraqueza por consolações interiores, mas sofrer, e sofrer sem consolação, no mais completo abandono é um martírio que não tem nome. Foi para te fazer conhecer este martírio, a que me submeti, que exclamei:

“Meu Deus! Meu Deus! porque me abandonastes?…”

Algumas vezes acontecerá que por sabias razões, eu te dê a experimentar uma ligeiríssima porção das penas do meu abandono; nestes momentos, somente sentirás no meu serviço desgostos e securas, imaginar-te-ás que tens tudo perdido, que estás condenado, que Deus te abandonou, e retirou a sua mão. Então, meu filho, então é que te é preciso imitar o meu exemplo, e dizer ao Senhor com calma e amor:

“Meu Deus! Meu Deus! Porque me abandonastes?”

Então é que te é necessário resignares-te humildemente a tudo o que aprouver a Deus dispor de ti. Sabe que nunca avanças mais seguramente nem mais depressa no caminho da perfeição, que quando crês tudo perdido; sabe que nunca estou tão perto de ti como quando tu me julgas muito longe; sabe ainda que nunca me farás sacrifício mais agradável do que abandonando-te sem reserva, em tais circunstâncias, à minha Providencia, renunciando a toda consolação sensível no meu serviço e não querendo absolutamente senão o que eu quiser. Deixa ao meu amor o cuidado de te distribuir as consolações e as cruzes, e conserva sempre em teu coração a lembrança da interior desolação em que quis morrer por teu amor. Dela tirarás uma grande força para suportar as tuas penas, e poderás dizer-me com uma resignação mais perfeita:

“Meu Deus, faça-se a vossa vontade e não a minha”

— Um tormento há, ó meu Jesus! Ao qual muitas vezes me custa muito a submeter-me; tormento cruel, medonho, espantoso e capaz de me fazer morrer. Bem que nada ignorais de tudo quanto em meu coração se passa, dir-vos-ei sempre qual a causa deste tormento: é o não saber se estou na vossa graça, e não ter a certeza de estarem meus pecados perdoados, e se sou agradável aos vossos olhos. O pensamento de poder um dia ser réprobo, de me ser necessário por toda uma eternidade detestar-vos e aborrecer-vos a vós, meu Deus e meu tudo! o pensamento da minha condenação tem para mim um não sei que de tão medonho que me sinto desfalecer quando se apresenta ao meu espírito e medito seriamente. Ó meu bom Mestre! Meu terno pai! Perdoai o meu arrojo se vos dirijo uma tal súplica; mas não poderíeis vós livrar-me desta ansiedade tão punível? Ser-me-ia tão doce estar certo que vos amo e que me amais!

— O teu pedido é bem pouco sábio; não tardarás a convencer-te disso. Escuta. Uma dama romana escreveu um dia a um dos meus ministros (1) a pedir-lhe que obtivesse para ela por meio de revelação o mesmo favor que acabas de me pedir; como tu, queria ela estar segura do perdão dos seus pecados. Mas vê a resposta que lhe deu o pontífice a quem ela se dirigiu:

“Pedis-me uma coisa difícil e inútil ao mesmo tempo; difícil porque sou indigno de ter revelações; inútil porque nunca deveis estar sem inquietação de vossos pecados até ao fim da vida, isto é, até ao tempo em que já não possais chorar. Sempre deveis tremer por sua causa, deveis sem cessar expia-los por vossas lágrimas. Paulo tinha sido elevado até ao terceiro céu; aprendera segredos que a boca do homem não pode revelar e contudo dizia tremendo: Castigo o meu corpo e o reduzo à escravidão, com temor de que depois de ter pregado aos outros, não vá eu mesmo ser réprobo. Paulo treme, e vós não quereis tremer! Não esqueça a minha dulcíssima filha, que a segurança é a mãe da negligencia. Ser-vos-ia portanto prejudicial ter nesta vida uma segurança que vos fizesse negligenciar o cuidado de velar sobre vós; porque está escrito: Bem-aventurado o homem que está sempre em temor; e noutra parte: Servi a Deus com um santo temor. Assim é necessário que durante os poucos dias que nesta terra tendes de passar, nunca vossa alma esteja isenta de temor”

Por essa resposta, vês tu, meu caro filho, quão útil te é o ficares nesta duvida e incerteza a respeito do perdão de teu pecados. Se tivesses inteira segurança que eu estava contigo por minha graça, serias muito menos solicito em me buscar, terias menos desejo de me agradar, evitarias, menos as ocasiões de me ofender, e até acabarias talvez por abandonar o meu serviço. Sê pois daqui para diante paciente e submisso à minha vontade, faze o bem, sê fiel a todos os teus de¬veres, e esperas; em minhas mãos está a tua recompensa; eu não te a roubarei.

— Senhor, é preciso pois sofrer e viver convosco na cruz e nas tribulações? Pois bem! Consinto por vosso amor. Justo é que eu sofra alguma coisa por vós que tanto sofrestes por mim. Não mereço de modo algum que me consoleis e me visiteis; e com toda a justiça obrais comigo quando me deixais pobre e desolado. A mim nada mais me é devido que a vara e o castigo, porque tantas vezes então gravemente vos ofendi. (De Imit., lib. m, cap. LII, n. I). Feri, feri, ó Deus meu! Em vossas mãos estou, e me inclino à vara que me corrige; porque mais vale ser castigada neste mundo que no outro. Vós bem sabeis o que é útil ao meu adiantamento, e o quanto serve a tribulação para consumir a ferrugem dos vícios. (De Imit., lib. m, cap. 4. n. 6). Feri pois, Deus meu, se é vossa vontade, privai-me de toda a consolação neste mundo, mas não permitais que tenha a desgraça de ser separado de vós. Não mais quero procurar viver no meio dos meus gostos; abraço pelo contrario todas as penas e desolações que vos aprouver enviar-me. Nenhuma consolação mereço eu, que tantas vezes, ofendendo-vos, mereci o inferno; basta-me araar-vos-e viver na vossa graça. Abandonem-me muito embora todos os homens! consinto; mas vós, ó meu Deus! eu vos suplico, não me abandoneis. Ai! Como poderia eu viver longe de vós e sem vos amar? Amo-vos, ó Jesus meu! Morto por mim no abandono! Amo-vos, ó meu único bem, minha única esperança, meu único amor! Amo-vos, e quero amar-vos tanto quanto é possível a uma criatura amar-vos. Aceitai, ó meu Jesus! Este desejo do meu coração, e deferi-o. Assim seja.

RESOLUÇÕES PRÁTICAS

Da Coragem na Desolação Interior

Examina, meu caro Teótimo, como te conduzes nas tuas penas interiores, e confronta o teu modo de proceder com as lições que Jesus acaba de te dar, já por seu exemplo, já por suas palavras. Ora faze justiça a ti mesmo: não é certo que quando te acontece seres privado das consolações divinas, tu para logo abandonas os exercícios de piedade, ou antes cumpre-los sim, mas com negligencia e como por demais? Quantas vezes te não tem acontecido seguires a Jesus Cristo só muito de longe e como a custo, só porque não recebeste as consolações sensíveis que ele concede sobretudo aos que começam a servi-lo afim de os ajudar e lhes dar animo? Humilha-te da tua frouxidão e toma a resolução de servir doravante a Jesus de um modo invariável. No meio de tuas interiores desolações pensa neste bom Salvador morrendo sobre a cruz no mais horrendo abandono, e este pensamento te alentará: sim, consolar-te-á, e tu até hás de experimentar alegria em poder unir os teus sofrimentos aos de Jesus. Coragem, meu caro Teótimo! Serve a Deus nas securas, nos desgostos, nos abandonos, nos desprezos, nos sofrimentos, nas humilhações; coragem! E levanta os olhos ao céu; lá te aguarda uma coroa toda resplandecente de gloria! Coragem! todas essas penas passam já, as delicias do céu são eternas! Coragem! Jesus conta todos os teus suspiros e nem um há de ficar sem recompensa. Coragem! coragem! Ó meu Deus! Que feliz serás tu um dia quando vires que o tempo vai para ti a terminar e que vais deixar esta terra de exílio! que feliz serás ao pensar que durante dez, vinte, trinta anos, te acostumaste a ser fiel no serviço de Jesus, apesar das penas, das tribulações, das securas, dos desgostos que experimentaste! Que feliz serás ao sentir que os teus trabalhos e combates vão cessar, e que a hora da recompensa está enfim a bater! oh! que feliz serás! A morte para o mundano e pecador tão aterradora, para ti será toda cheia de encantos, vê-la-ás aproximar-se sem pavor, sem turbação, com resignação, paz e alegria, virá ferir-te com um certo respeito, e apresentar-te-á a Jesus Cristo. Então este bom Mestre te receberá com bondade e te dirá:

“Meu filho, tu na terra trabalhaste muito por meu amor, e contudo sempre foste resignado, sempre fiel ao meu serviço; vem, que eu quero abraçar-te e pôr sobre a tua cabeça uma coroa de gloria; vem, o meu paraíso e todas as suas delicias são teus por toda a eternidade”!!!

Ó meu caro Teótimo! Que doce acolhimento será um dia o teu, será um dia o meu! sim, sim, esperemo-lo da doce e infinita misericórdia do nosso Deus. Coragem pois, e sempre coragem!

Observações:
(1) Era São Gregório, o Grande, papa. A pessoa que lhe escrevia era Gregoria, dama d’honor da imperatriz.

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(Pinnard, Abade Dom. As Chamas do Amor de Jesus ou provas do ardente amor que Jesus nos tem testemunhado na obra da nossa redenção. Traduzido pelo Rev. Padre Silva, 1923, p. 220-246)