Maria e João aos pés da Cruz

Capítulo XXXII

Cum vidisset Jesus matrem et discipullum statem quem diligebat: dicimatri sua: Mulier, ecce filius tuus; deinde dicit discipulo: Ecce mater tua – “Tendo Jesus visto a sua Mãe, e ao pé dela o discípulo que amava, disse a sua Mãe: ‘Mulher, eis ai o teu filho’; disse depois ao discípulo: ‘Eis ai a tua Mãe'” (Lc 19, 26. 27)

Chegava o momento em que Jesus resolvera dar o ultimo suspiro: este divino Salvador ia dar por nós as sua vida. Já nos havia legado as suas instruções, os seus exemplos, os seus méritos; já se entregava a nós para ser o alimento das nossas almas; nada mais faltava, ao que parece, e Jesus podia expirar com a convicção de que por nós esgotara todos os tesouros da sua ternura. Mas o amante coração deste bom Mestre compreende que nos não deixará ainda sem mãe. Ó doce Jesus! Vós sabíeis, vós, tão doce e tão terno, sabíeis o que é uma mãe; sabíeis o quanto é doce repousar sobre ela o cuidado de quanto nos diz respeito; sabíeis que precioso tesouro é uma terna mãe, e quisestes deixar-nos uma. Eis como se passou: a santa Virgem e São João estavam ao pé da cruz: nosso Senhor lançou os olhos sobre eles e diz a sua santa Mãe: “Mulher, eis ai o teu filho”; diz depois a São João: “Eis ai a tua Mãe”. Ora não é somente a São João que dirigiu estas palavras: é a todos os cristãos, é a vós que ledes estas linhas, a mim que as escrevo, que são dirigidas estas palavras, e que nos diz apresentando- nos Maria:

“Eis ai a vossa Mãe”

Que dita para nós termos tal mãe!

Maria é Mãe de Deus; Maria é ao mesmo tempo minha Mãe”, de mim, pobre pecador. Oh! Que confiança! Não devo ter nela! ela é onipotente junto a seu Filho; uma só de suas orações é, de alguma sorte, Uma ordem para Jesus, que não lhe recusa nada. Ela é minha Mãe! Ama-me, quer a minha salvação! Oh! Torno a repetir, que confiança não devo depositar nela.

“Maria é a nossa Mãe! Maria é a nossa Mãe!”

Repitamos incessantemente estas tão doces, tão consoladoras palavras:

“Maria é nossa Mãe!”

Que felicidade para os que vivem sob a proteção de uma mãe tão terna e tão poderosa! Quem ousará vir arrancar do seio de Maria os filhos que nele procuram um asilo contra o furor dos seus inimigos? Que paixão, que tentação tão furiosa os poderá vencer, se na proteção de uma tal mãe põe a sua confiança?

Ó mãe amabilíssima! Mãe compassiva, sejais sempre bendita; igualmente seja bendito Deus que a vós nos deu por mãe! A santa Virgem revelou a Santa Brigida que, assim como uma mãe, se visse o seu filho prestes a ser vitima de um ferro inimigo, exporia a sua vida para o salvar; assim, disse ela, obro e sempre obrarei para com os meus filhos, bem que pecadores, todas as vezes que recorrem à minha misericórdia. Assim, não duvidemos, em todos os combates com o inferno, sempre sairemos vencedores, se recorrermos a Maria, nossa Mãe, dizendo-lhe do fundo do coração com a Igreja: Sub tuim præsidium confugimus, sancta Dei Genitrix. Oh! Quantas vitórias não têm sido ganhas sobre o inferno, por meio desta curta mas eficaz suplica! Uma grande serva de Deus, sóror Maria do Crucifixo, beneditina, não recitava outra para por em fugida o demônio.

Regozijai-vos, pois, ó vós que sois filhos de Maria: sabeis que ela aceita por seus filhos todos os que querem sê-lo. Regozijai-vos, e enchei-vos de confiança; quem ama a doce Maria, e confia em sua proteção, deve reanimar-se e dizer:

“Que temes, ó minha alma? O processo de tua eterna salvação não pode deixar de ter um feliz resultado, a sentença está nas mãos de Jesus teu irmão, e de Maria tua mãe”

Este pensamento oferecendo-se ao espírito de Santo Anselmo, o fazia exultar de alegria:

“Ó feliz confiança”, exclamava, “ó refúgio seguro! A mãe de Deus é minha mãe! Com que certeza não devemos esperar, pois que a salvação depende do melhor dos irmãos e da mais terna das mães!”

Os pequeninos têm sempre a boca na mãe; ao menor perigo que o£ ameaça, ao mais leve susto, levantam logo a voz; e gritam:

“Minha mãe! Minha mãe!”

Ai! Doce e terna Maria! É o que vós quereis também de nós; quereis que como meninos, vos chamemos sempre nos perigos, sempre recorramos a vós. É isso, pois, ó! Que doravante proponho fazer; vinde em meu socorro.

Maria é a nossa luz, o nosso facho, a nossa estrela, a nossa guia no tempestuoso mar deste mundo.

“Ó homem, exclama São Bernardo, queres escapar a um triste naufrágio? Volta os olhos a Maria, fixa a vista nesta estrela benéfica, invoca a Maria em todos os perigos, em todos os revezes; nas mais criticas circunstâncias da vida, pensa em Maria, invoca a Maria. Em tua boca esteja sempre o seu nome, nunca saia do teu coração. Seguindo-a não te perderás; suplicando-a, não cairás no desespero. Se te sustem, não cairás; se te protege, nada tens a temer; se te é favorável, chegarás ao porto da salvação”

Ó doce Maria! Minha terna mãe, quero sempre recorrer a vós, sempre amar-vos, sempre invocar o vosso santo nome. Ah! Minha boa mãe! Minha amável senhora! para gloria do vosso nome, vinde ao encontro da minha alma quando sair deste mundo, e dignai-vos recebe-la em vossos braços. Vinde consola-la então com a vossa doce presença; sede para ela a escada e o caminho do paraíso. Obtende-me a graça do perdão e da felicidade eterna.

“Maria é nossa mãe!”

Meu Deus! Que encantos tem este nome de Mãe! Como é doce! Quanto tocante! Basta prenunciá-lo para o coração se dilatar. Oh! Sim, Maria é nossa mãe, gerou-nos a todos sobre o Calvário ao pé da cruz, quando, na amargura do seu coração, ofereceu ao Padre eterno a vida do seu bem amado Filho, para a nossa Salvação; sim, ela é nossa mãe, não pela carne, mas pelo amor que nos tem. E que mãe ama os seus olhos como Maria nos ama? Quem poderia explicar a veemência da sua ternura para conosco, pobres miseráveis? O amor que aos seus filhos todas as mães tem não passa de uma sombra à vista do que tem Maria a um só de nós. Ela só ama-nos mais do que todos os anjos e santos juntos, e isto apesar dos nossos pecados e frouxidões em seu serviço. Nem os maiores pecadores são excluídos do seu amor; está sempre pronta a socorrê-los. Visto como Maria nos ama com uma tão viva ternura, ficaremos insensíveis ao seu amor? Não, certamente; longe, longe de nós a ingratidão!

“Amor pois a Maria, amor à nossa mãe, mas amor imortal!”

“Amor para sempre! porque sempre somos miseráveis e Maria sempre compassiva”

“Amor para sempre! porque sempre somos fracos, sempre expostos aos assaltos do inferno e do mundo, e Maria sempre forte por Aquele que venceu o inferno e o mundo, sempre o nosso sustentáculo”

“Amor para sempre! porque Maria será sempre amável, e apesar da nossa indignidade, nunca ces¬sará de nos cingir da sua maternal solicitude”

“Façamos melhor ainda; afim que Maria nos abrase de um verdadeiro e ardente amor de Jesus, todos à porfia confiemos à sua ternura a guarda dos nossos corações; e, confiando que esta mãe incomparável os adornará como convém para o amor do celeste Esposo, cada um de nós se tenha por feliz de poder dizer na vida e na morte:

‘O meu coração não é meu, o meu coração é de Maria’
— (Mês de Maria, pelo snr. Abbade Guillou)”

Ó Jesus! Ó melhor de todos os meus amigos! Que poderei fazer para dignamente vos agradecer a bondade com que quisestes dar-nos Maria por Mãe? E vós, ó Maria! como reconhecerei tantos distintivos da ternura que me heis prodigalizado? Ah! amar-vos-ei a um e outro de todo o meu coração. Mas ai! Que é o amor de uma pobre e misera criatura tal como eu? É digno de se vos apresentar? Não, Sem duvida; todavia, ó Jesus e Maria! cheio de confiança em vossa compassiva misericórdia, que a ninguém rejeita, amar-vos-ei de todo o meu coração. Sim, sim, amar-vos-ei, ó Jesus! fazei descer o vosso amor à minha alma, inebriai-a desse amor puro; concedei-me a graça de não sair desta vida senão quando houver feito de vós o meu único desejo e for-me impossível amar outra coisa fora de vós. Fazei até, ó Deus meu! que esta palavra “amar”, não a pronuncie a minha boca senão para vós só, pois que exceto vós, tudo fenece, perece tudo, é tudo um nada. Ah! Puríssima Maria, doce Maria! fazei que doravante o vosso nome seja a alma da minha vida. Apressai-vos a me socorrer todas as vezes que vos invocar. Ó Jesus! Ó Maria! Meus amores! Vivam sempre os vossos doces nomes em mim e em todos os corações. Ah! Eu vos suplico, quando me achar no artigo de morte, no momento em que minha alma tiver de sair desta vida, concedei-me por vossos méritos a graça de consagrar os meus últimos acentos a repetir:

“Eu vos amo, Jesus e Maria! Jesus e Maria, dou-vos o meu coração e a minha alma”
Assim seja.

RESOLUÇÕES PRÁTICAS

Devoções a Maria

A devoção a Maria, meu caro Teótimo, é a devoção dos santos. Como todos os livros dela faliam, contentar-me-ei com te indicar as práticas de devoção para esta boa Mãe, que são as mais simples e úteis.

1. O Rosário

Sê-lhe fiel, não se passe um só dia sem dizeres, pelo menos, duas dezenas. Quando te deitares, passa as contas em volta do pescoço e pede a Maria que te tome sobe sua proteção.

2. A Ave-Maria

Todos os dias, de manhã e à noite dize de joelhos três Ave-Marias; juntando a cada uma: Por vossa pura e Imaculada Conceição, ó Maria, purificai o meu corpo e santificai a minha alma. Pede em seguida a Maria a sua bênção maternal, e coloca-te debaixo de sua especial proteção no dia ou na noite que segue. Quando ouvires soar horas, ao sair ou entrar em casa, antes ou depois de cada uma de tuas ações, recita a Ave-Maria. Ao despertar de manhã, ao fechar os olhos para dormir, a cada tentação, em cada perigo, em qualquer movimento de impaciência, etc., dize a Ave-Maria. Meu caro Teótimo, pratica esta devoção e verás que utilidade tirarás.

3. O Angelus

Faze por nunca te escapar o recita-lo de manhã, ao meio dia e à noite, ao toque do sino; não permitas que o respeito humano te o impeça. Mas, basta recita-lo uma só vez no dia para ganhar a indulgência plenária no fim do mês.

4. As Novenas

A mais agradável devoção à Santa Virgem é a imitação das suas virtudes. Propõe-te pois em cada novena imitar uma de suas virtudes, a mais adaptada ao mistério. Assim na festa da Conceição, a pureza de intenção; na da, Natividade, o renovamento do espírito, expelindo a tibieza; na Apresentação, o desprendimento da coisa a que estás mais apegado; na Anunciação, a humildade e amor do desprezo; na Visitação, a caridade para com o próximo, dando esmolas ou ao menos orando pelos pecadores; na Purificação, a obediência aos superiores; na Assunção, o desapego e a preparação para a morte, procurando viver como se cada dia fora o ultimo da tua vida. Deste modo produzirão em ti as novenas grandes resultados e felizes frutos de santidade.

5. O Jejum

Todos os sábados jejua em honra de Maria, se te o permite o confessor; senão faze algum ato de mortificação.

6. O Escapulário

Traze com respeito o escapulário ou a medalha da Imaculada Conceição.

7. Recorra à Maria

Toma o habito de recorrer a miúdo à Santa Virgem, e pronunciar com amor o seu santo nome.

“Jesus e Maria! Jesus e Maria!”

Tanto poder têm estas palavras que põem em fugida o inferno logo que se pronunciam com fé e confiança (1).

Convém notar, meu caro Teótimo, que as praticas que te propus não são preceitos que te obriguem debaixo de pecado; são simples conselhos que te dou para que mais facilmente possas honrar a Maria e merecer por este meio a sua santa proteção. Tão pouco te digo que te sobrecarregues de todas estas práticas de devoção; contento-me com t’as pôr diante dos olhos; a ti compete com prudência escolher as que mais úteis te forem. Mas uma coisa te recomendo e é que te faças inscrever em alguma congregação ou confraria de Santa Virgem, e cumprir exatamente todos os seus exercícios. Por isso obterás muitas graças preciosas, muitos pecados evitarás; pois, no sentir de Santo Afonso de Ligório, há, regularmente falando, mais pecados numa pessoa que não segue os exercícios duma congregação, do que em vinte que a frequentam. Recomendo-te também a devoção do Rosário Vivo, porque produz abundantes frutos de salvação por toda a parte onde se estabelece.

Meu caro Teótimo, ama a Maria, ama-a sempre como um menino ama a sua mãe; não te poupes a nada para lhe ser agradável; tem sempre confiança em sua bondade e misericórdia, que ela te obterá o perdão dos teus pecados. Ama a Maria, que ela te porá ao abrigo de todos os perigos que nesta terra de exílio corres. Ama a Maria, e ela pedirá para ti a seu Filho todas as graças de que tens necessidade. Ama a Maria, e no momento da tua morte ela te virá consolar nas tuas penas e sustentar-te contra os perigosos assaltos dos inimigos da tua salvação. Ama a Maria, e ela um dia te abrirá as portas do céu.

ORAÇÃO A MARIA, NOSSA MÃE

Ó Maria! Mãe Santíssima! Como é possível que tendo uma mãe tão santa, seja tão perverso? Tendo uma mãe sempre abrasada do amor de Deus, ame só as criaturas? Tendo uma mãe tão rica de virtudes seja tão pobre? Ó minha amabilíssima Mãe! É verdade que não mereço ser vosso filho; indigno me tornou de tal prerrogativa o meu mau procedimento. Só vos peço a graça de me aceitardes por servo vosso; e para ser admitido no numero dos mais vis que vós tendes, pronto estou a renunciar a todos os reinos da terra. Com ser servo vosso me contento; mas não me proibais o poder chamar-vos minha Mãe. Este nome me consola, me enternece, me lembra a obrigação que tenho de vos amar; este nome me anima a pôr confiança em vós. Quando mais me espantam os meus pecados e justiça divina, fortifica-me o pensamento de que sois a minha Mãe. Permiti-me que vos diga: ó minha Mãe! ó minha dulcíssima Mãe! É assim que vos chamo, assim é que sempre vos chamarei. Depois de Deus, sois vós a minha esperança, o meu refugio, o meu amor neste vale de lágrimas. Espero, pois, morrer entregando, nesse supremo momento, minha alma nas vossas mãos, dizendo-vos: Minha Mãe, ó Maria! minha boa Mãe! vinde em meu socorro; tende compaixão de mim. Amo-vos, ó minha Mãe! e quisera possuir um coração que vos amasse por todos os desgraçados que não vos amam. Se riquezas tivera, todas, empregaria em vos honrar; se vassalos, todos faria servos de Maria; por vós, por vossa gloria, sacrificaria enfim minha vida, se necessário fora. Amo-vos pois, ó minha Mãe! mas temo ao mesmo tempo não vos amar, pois ouço dizer que o amor faz o amante semelhante à pessoa amada. Ver-me pois tão pouco semelhante a vós, é sinal bem evidente de que vos não amo; vós tão pura, eu tão manchado! Vós tão humilde, eu tão soberbo! Vós tão santa, eu tão pecador! Mas a vós toca, ó Maria, dar remédio a isto! Se é que me amais, tornai-me semelhante a vós. Tendes o poder de mudar os corações, tomai o meu, e guardai-o. Fazei ver ao mundo o quanto podeis a favor dos que vos amam, tornai-me santo; tornai-me digno do vosso Filho. Assim seja. (2)

Observações:
(1) Vede a obra de Santo Afonso de Ligório intitulada As Glorias de Maria; nela depararás um grande numero de outras práticas de devoção em honra da Santa Virgem.
(2) Santo Afonso de Ligório, Glorias de Maria.

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(Pinnard, Abade Dom. As Chamas do Amor de Jesus ou provas do ardente amor que Jesus nos tem testemunhado na obra da nossa redenção. Traduzido pelo Rev. Padre Silva, 1923, p. 219-239)