Jesus Cristo Chagado

Capítulo XXV

Ipse autem vulneratus est propter iniquitates nostras, attritus est propter scelera nostra – “Foi coberto de chagas por causa de nossas iniquidades; foi dilacerado para expiar os nossos crimes” (Is 53, 5)

O mínimo tormento sofrido por nosso Salvador era seguramente mais que suficiente para satisfazer à justiça de Deus, e apagar os pecados do mundo: mas o amor que nos tinha não se pôde contentar com isso. Afim de expiar os nossos crimes e até para nos provar a grandeza da sua ternura para conosco, o nosso Redentor quis ser, na frase de Isaías, vulneratus e attribus, isto é, coberto de chagas desde os pés até à cabeça, de tal sorte que o seu adorável corpo não oferecia parte alguma sã. Assim Isaías o compara a um leproso: Et dos putavimus eum quasi leprosum, et percussum a Deo et humilhatum (Is 53, 4).

Quando com os olhos da fé se considera Jesus todo coberto de chagas, quando se contempla o seu corpo horrivelmente rasgado e a cair em pedaços ensanguentados, é fácil compreender quão grande é o amor deste divino Salvador por nós.

Ó homem, exclama Santo Agostinho, reconhece quanto vales, aprende que reconhecimento não deves ao teu Deus; aprende qual é a tua dignidade pelo que lhe custou a resgatar-te: vê agora quão infame seria ultraja-lo ainda com teus pecados; sabe pôr um freio às tuas paixões e um termo ás tuas desordens.

Jesus foi despedaçado para expiar os meus crimes. Jesus, o inocente Jesus, do pecado não tinha mais do que a aparência; e ainda assim a justiça do seu divino Pai pesou sobre ele, e ei-lo despedaçado pelos golpes, coroado de espinhos, pregado num infame patíbulo.

“Ó céu! Se assim se trata o pau verde, que será do seco?”

Que será de mim, pobre pecador; de mim cujas inumeráveis iniquidades se amontoaram todas sobre a minha cabeça; de mim, que até ao presente só vivi para vos ofender, meu Deus?… Ó Jesus, misericordioso Jesus, tende piedade de mim!

“Jesus foi despedaçado para expiar os meus crimes”

Deu-me este bom Mestre uma excelente lição: ensinou-me por tão horrendos tormentos que o pecado não podia ficar impune; é necessário que seja punido ou pelo pecador, ou pelo próprio Deus! Se choro os pecados que cometi, se deles faço penitencia, se exerço contra mim mesmo uma santa cólera, dou-lhes a punição que merecem; se, porém, eu mesmo não quero punir por este modo, Deus, que será o meu juiz, os punirá. Mas, desgraçado de mim! porque “é terrível cair nas mãos de Deus vivo”. Para evitar a desgraça de ser apresentado com uma alma manchada de crimes a esse juiz formidando, desde hoje devo trabalhar e os apagar por uma séria penitencia e marchar sobre os vestígios do meu Salvador. Mas, ó vergonha! A vida de Jesus Cristo foi um sofrimento contínuo, a minha passa-se nos cômodos e doçuras do repouso! Acaso ignorava eu até agora a necessidade em que estou de fazer penitencia neste mundo, ou faze-la no outro, no meio das chamas do inferno? Não sabia, porventura, que um pecador não pode ir ao céu senão pelas tribulações e sofrimento? Que é isto! Jesus chorou as minhas iniquidades, e eu não as chorarei! Ah! Tal não será, gemerei sobre tantos pecados que desde minha tenra infância cometi; castigarei o meu corpo; mortificar-me-ei sem cessar, e nas minhas penitencias irei cobrar alento na penitencia de Jesus e de todos os santos. Imitarei David que, já assegurado do perdão das suas faltas gemia continuamente; como ele, a lembrança de haver perdido a graça do meu Deus, dia e noite me fará derramar torrentes de lágrimas; como ele, sempre terei presente a meu espírito os pecados da minha vida; como ele, enfim, direi a todo instante:

“Senhor, esquecei os pecados da minha mocidade”

Meu Deus! que diferença acho entre o meu modo de obrar e o proceder dos santos? Pedro não peca mais que uma vez, e chora sempre; eu peco frequentemente, e não choro nunca. Um santo solitário dizia:

“Em qualquer lugar que esteja, não vejo senão os meus pecados; olho-me como uma vitima do inferno onde vejo uma infinidade de almas menos culpáveis do que eu; atiro-me então por terra, suspiro, choro diante do meu Juiz”

E eu penso apenas neste inferno, que tenho merecido, e nada faço para lá não cair. Todos os santos procuram pelos rigores da penitencia expiar os seus pecados: “uns submetiam-se ás chufas, aos açoites, ás prisões; eram outros serrados, lapidados; passaram por ferro e fogo e foram entregues à morte; aqueles outros internaram-se em medonhos desertos”: e eu de tudo isto não faço nada, nada sofro. Pobre e desafortunado de mim! Qual é a meta que me proponho tocar? É para o céu, para esse belo céu, que eles tão caro compraram, que eu dirijo a minha carreira? Sim… Pois bem! Devo tomar como eles o verdadeiro caminho; é estreito, o meu Mestre já m’o advertiu: Arcta est via quae ducit ad vitam. Devo, como eles, chorar as minhas iniquidades passadas; devo implorar o perdão delas, não algumas semanas somente, não alguns meses, mas toda a minha viva. Ai! Quem sabe se o meu Deus me perdoou? Quem sabe se o meu Pai do céu me restituiu o vestido da minha inocência? Espero-o da sua misericórdia, porém certeza não tenho. Devo, pois, sempre fazer penitencia, chorar sempre: e ainda mesmo que um anjo do céu viesse anunciar-me da parte de Deus que os meus pecados me estão perdoados, deveria ainda assim chorar à vista das chagas de que cobriam o meu divino Salvador. Mas estas chagas do meu Jesus não me conduzirão somente à penitencia e ao arrependimento dos meus pecados, excitar-me-ão ainda à confiança e ao amor. Nestas chagas ir-me-ei refugiar, para ai achar um doce repouso. Ai estarei tanto mais ao abrigo de todo o perigo quanto Jesus é mais potente para me salvar. Brama o mundo em volta de mim, faz-me o corpo uma guerra de morte, cerca-me o demônio de seus laços? não cairei, porque estou apoiado sobre Jesus. Cai na desgraça de cometer algum grande pecado, e acha-se perturbada a minha consciência? não me abandonarei ao desespero, porque me recordarei das chagas do meu Senhor. Que mal será tão incurável que não possa ser curado pela morte de um Deus? No meio de minhas misérias espirituais lançarei um olhar sobre as chagas de Jesus, e a vista de um tão poderoso remédio me restituirá a paz e a confiança.

Ó alma minha! Tu que és tão fraca, tão pobre, tão lânguida, vai lançar-te nos braços do teu bom Mestre; porque ele é tudo para ti; nele possuis todas as coisas. Queres curar as profundas chagas que te abriu o pecado, ele é o teu medico; estás vergada ao peso de tuas iniquidades, ele é a justiça e a santidade; tens necessidade de socorros entre os teus inimigos, ele é a força e o poder; queres ir para o céu, ele é o caminho; foges das trevas, é a luz; procuras alimento, ele mesmo é o sustento que te pode conservar a vida. Sim, minha alma, em Jesus Cristo acharás tudo; será a tua ancora e a tua força, e se quando te vires atacada do lobo infernal, fores fiel em te ocultares nas suas chagas, infalivelmente te protegerá contra ele, e sairás vitoriosa da luta.

Ó meu bom amado Jesus! Porque estais vós tão coberto de chagas lívidas e ensanguentadas? Quem vos pôs num tão miserável estado? Ah! Compreendo-vos: são meus pecados que dilacerara o vosso adorável corpo; são eles que cravaram essa coroa de espinhos sobre vossa cabeça. Ó bom Jesus! A que excessos vos levou o amor por nós? Era a mim que a pena era devida por minhas iniquidades, e vós sois que a levais! Fazei-me a graça de sofrer alguma coisa neste mundo por vós para reconhecer uma ternura tão excessiva: dai-me a graça de me mortificar, de me desprezar, de me humilhar em todos os recontros, e de nada omitir para vos provar que não sou um ingrato. À vista do que tanto sofrestes por mim, não posso viver sem sofrimentos. Feri, Senhor, feri neste mundo, mas perdoai-me na eternidade. Vulnerai o meu pobre coração, vulnerai-a com as setas do vosso amor! Sofra, sim, mas amei-vos. Sim, amei-vos, Deus meu, faça-vos amar sempre, sempre, sempre! Assim seja.

RESOLUÇÕES PRÁTICAS

Amor da Solidão

Hoje, meu caro Teótimo, toma e conserva toda a tua vida o santo habito de te retirar frequente¬mente em espírito ás chagas de nosso Senhor, e principalmente ao seu sagrado Coração. Nele faze uma solidão para onde possas fugir no tempo da tentação. Para o que, começa por te arrancar ao tumulto do mundo, tanto quanto t’o permitirem os teus deveres: ama o viver no retiro e no silencio. Ó meu Deus! Quantas almas não fazem progresso algum no amor de Jesus porque não sabem o que é a calma do retiro! Dizem estas almas que queriam viver no recolhimento, na união com nosso Senhor, fazem, e fazem precisamente o que as deve apartar deste fim; procuram companhias numerosas, divertimentos mundanos, efusões de coração que tem muito de humano, e fogem da solidão. Dir-se-ia que teem medo de se acharem a sós com Deus. Meu caro Teótimo, não os imites; se queres achar Deus, procura-o na solidão. Nunca estou menos só, dizia São Bernardo, do que quando estou só. Oh! E como isto é verdade! Na solidão achamos a Deus; na solidão pensamos em nossos deveres, em nossos pecados, choramo-los, detestamo-los; na solidão compreendemos a brevidade de tempo, a duração da eternidade, a vaidade das coisas do mundo, das honras, dos prazeres, das riquezas; na solidão falíamos com Deus e Deus conosco: entretemo-nos com ele coração a coração, exaltamos as suas grandezas, bem- dizemos as suas misericórdias, saboreamos as doçuras do seu amor; na solidão pensamos no céu, e desprendemo-nos de todas as criaturas. Ó doce solidão! Feliz quem te conhece e ama! mas mais feliz ainda aquele que descobriu o segredo de estar a sós com Deus no meio das mais numerosas companhias! Pede ao Senhor, meu caro Teótimo, que te dê esta solidão de coração, a qual faz que até mesmo no meio do tumulto dos homens e das ocupações, estejamos recolhidos, unidos a Deus, e atentos à sua presença: pede-a ao Senhor, mas não te esqueças que para a obter deves o mais que puderes viver retirado também na solidão exterior, sem nunca faltar por isto ao que os deveres de teu estado pedem. É possível gostar muito de sair fora sem necessidade ou utilidade do próximo, e ao mesmo tempo estar recolhido e unido a Deus.

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(Pinnard, Abade Dom. As Chamas do Amor de Jesus ou provas do ardente amor que Jesus nos tem testemunhado na obra da nossa redenção. Traduzido pelo Rev. Padre Silva, 1923, p. 184-190)