Capítulo XXII

Sprevit illum Herodes cum exercitu suo, et illusit indutum veste olha, et remisit ad Pilatum – “Herodes e sua corte desprezou-o, e, tratando-o com irrisão, o revestiu de uma veste branca e o reenviou a Pilatos” (Lc 23, 2)

Tinha o nosso bom Mestre passado a noite no meio dos criados do sumo sacerdote: todos os insultos, todas as afrontas que é possível imaginar, sofrera em silêncio, sem se queixar, tudo oferecendo ao Pai para nos obter o perdão dos nossos pecados.

“Tendo chegado o dia, diz Santo Afonso de Ligório no Amor de Jesus, os judeus levam Jesus a Pilatos para que este o condene à morte; mas Pilatos declara-o inocente, e para se livrar das impertinências dos judeus, que continuam a pedir a morte do Salvador, envia-o a Herodes. Sumo prazer sentiu Herodes ao ver em sua presença Jesus Cristo; esperava que ele para se livrar da morte faria diante de si alguns daqueles prodígios de que tanto ouvia falar e assim começa a fazer-lhe muitas perguntas. Mas, porque Nosso Senhor não se queria livrar da morte, nem Herodes era digno de suas respostas, Jesus guardou silencio e nada respondeu. Então este rei soberbo, “com toda a sua corte o encheu de desprezos, e vestindo-lhe uma veste branca” para assim ser olhado como um ignorante e um insensato, o tomou a mandar a Pilatos.

São Boaventura comenta assim estas palavras:

“Desprezou-o como impotente, porque não fizera milagres; como ignorante, porque não respondera uma só palavra; como covarde, por não se haver defendido”

— Ó meu Salvador! Como permitistes que este ímpio vos tratasse com tanto desprezo? Porque não confundistes o seu orgulho? Para que não ordenastes a uma legião de anjos que o castigassem a ele e a toda a sua corte como mereciam?

Filho meu, quem suspendeu os golpes da minha justiça foi o meu amor para contigo. Quando me vi coberto de uma veste branca e exposto às chufas da multidão, pensei em ti e disse comigo mesmo: Este caro filho terá de sofrer um dia desprezos, insultos, maus tratos; então estará a sua alma absorvida de penas e angustias. Pois bem, para lhe deixar um belo exemplo de resignação e para lhe merecer a graça de sofrer tudo pacientemente, vou suportar estas ignomínias de que me sobrecarregam, e isto sem dizer uma só palavra, sem proferir um só ai.

— Ó bom Jesus! Quanto mais vos conheço, mais aprendo a amar-vos! Visto como o vosso amor para conosco vos fez sofrer tão duros tratos, fazei-me a graça de ter mais resignação e conformidade com vossa santa vontade quando me virdes alvo dos desprezos dos outros. Vinde em socorro de minha impotência: porque, ai! sou tão fraco quando se trata de sofrer!

— Coragem, meu filho, não te deixes prostrar pelas dificuldades. Sei quanto custa à natureza o vermo-nos tratados como culpáveis, hoje de orgulho e vaidade, de preguiça ou gula amanhã, uma outra vez de ambição, enquanto que de nada de tudo isto nos acusa a consciência; sei o que custa ao orgulho do homem passar por vicioso e ignorante; sim, bem o sei. Todavia acostuma-te a desprezar os juízos dos homens, que não passam de vento e fumo; procura o agradar a mim e só a mim, e em seguida calca aos pés generosamente a opinião dos mais, pois não te pode tornar melhor nem pior a meus olhos. Quando em casa de Herodes fui revestido de uma veste branca, e tratado por insensato, era eu por isso menos o Rei imortal da Gloria e o Criador do céu e da terra? era menos o objeto das complacências do meu Pai celeste? Não, certamente. Assim também, filho meu, embora te desprezem e te tratem os homens como um nada, tu não serás por isso me¬nos digno de todo o meu amor, uma vez que tenhas tido o cuidado de conservar a tua alma pura e limpa de toda a nódoa do pecado. Feliz daquele que me ama, e que, por sua resignação no meio dos desprezos, marcha após o seu Deus desprezado e escarnecido como insensato!

Ó Sabedoria eterna! Ó Verbo divino! Só esta vos faltava de serdes tratado por doido, e privado do senso comum! Tão forte apertava convosco o desejo da nossa salvação, que por nosso amor quisestes não só estar exposto aos opróbrios, mas ainda saciado de opróbrios, como o anunciara Jeremias: “Apresentará suas faces aos que as ferirem, será saturado de opróbrios”. Como pudestes ter um tal amor aos homens, de quem só recebestes ingratidões e desprezos? Ai! Sou eu um desses homens que vos fiz mais ultrajes que Herodes! Mas ah! Jesus meu, não me castigueis como a Herodes, privando-me da vossa voz. Herodes não vos amava por quem éreis, eu reconheço-vos por meu Deus; Herodes não vos amava, eu vos amo mais do que a mim mesmo. Ah! não me recuseis a voz das vossas inspirações, como por minhas ofensas mereço. Dizei o que quereis de mim; com a vossa graça pronto estou a fazer tudo. Tende piedade de minha miséria, ó meu Deus! Lançai sobre mim um olhar da vossa misericórdia. Assim seja.

RESOLUÇÕES PRÁTICAS

Do Amor das Humilhações e Desprezo

Hoje, meu caro Teótimo, toma resolução de imitar a nosso Senhor humilhado e ultrajado na corte de Herodes. Não leves a mal que te cubram da desprezos. Ora serás desprezado por tua pobreza, ora por qualquer defeito exterior; já por tua pouca ciência, já por teu demérito; mas não te perturbes. Dize então a nosso Senhor de todo o teu coração:

“Meu Jesus, aceitai a homenagem do desprezo de que neste momento sou objeto”

Não caias na falta dos que dizem quando se veem desprezados: Se soubessem quem eu sou, não me tratavam assim: faz melhor, guarda silencio. Custa, verdade é, ao nosso orgulho vermo-nos ultrajados, injuriados sem nada opor, nada responder; mas é precisamente em fazer-se violência a si mesmo que está o mérito.

Não te aflijas por te descobrirem imperfeições ou menos santidade do que parecia, antes aproveita habilmente tão oportuna ocasião de dar um grande passo na virtude da humilde. Tem frequentes vezes na boca ainda mais no coração, esta suplica de São João da Cruz:

“Senhor, dai-me a graça de sofrer e ser desprezado por vosso amor”

Domine, pati et contemni pro te!

Humilhações, injurias, desprezos: eis o que todo o mundo teme e de que todos fogem o mais que podem. O ser humilhado, ultrajado, desprezado para um mundano é o cumulo de todo o mal. E, meu caro Teótimo, acredita-me, nada é mais doce do que uma humilhação e um desprezo. Pergunta-o a todas as almas que verdadeiramente amam a Jesus e elas te responderão que não me engano. Não pretendo com isto dizer que uma alma que ama a Jesus Cristo seja insensível aos maus tratos; não, sem du¬vida: mas o natural ressentimento que tem de se ver desprezada se muda numa alegria tão doce que só se conhece, experimentando-a. Repete, pois, muitas vezes e sem medo:

“Senhor, quero sofrer e ser desprezado por vós”

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(Pinnard, Abade Dom. As Chamas do Amor de Jesus ou provas do ardente amor que Jesus nos tem testemunhado na obra da nossa redenção. Traduzido pelo Rev. Padre Silva, 1923, p. 167-171)